A Crença na Identidade: individualidade burguesa e prática social
- 14 de mai.
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Lucas Rodrigues Coelho
O saber é resultado da prática efetiva do ser humano com o mundo. Já o descolamento das diversas formas de saber de sua base prática é uma das consequências do processo de alienação que incide sobre a prática humana. Psiquicamente, as consequências desse processo de alienação produzem um efeito quase delirante: o indivíduo crê que sabe os resultados de sua prática antes de efetivá-la no mundo. Dissemos quase delirante, porque a base de tal crença, que aparece na consciência imediata como uma certeza, nos parece ser, até agora, as fantasias de onipotência mais primárias do indivíduo. Essa fantasia individualista se dá porque a fantasia geral; compartilhada, isso é: intersubjetiva como toda fantasia, desenvolvida a partir da modernidade; é a do indivíduo em forma de mônada: ou seja, um indivíduo como unidade indivisível e primária do mundo.
Anteriormente à modernidade, a vida social era organizada a partir de vínculos tradicionais, onde a força da tradição e a reprodução do ordenamento social eram mais relevantes na vida social como um todo e principalmente no cotidiano do que as vontades e aspirações individuais. Com a expansão do colonialismo europeu, tais vínculos tradicionais passam a se desfazer, a individualidade ganha cada vez mais força e a vida coletiva passa a ser cada vez mais sentida como desamparo, onde o Eu individual passa a ser uma espécie de refúgio para um indivíduo que não tem mais referências da tradição. À medida que o modo de produção capitalista vai se consolidando ao longo dos séculos XVIII e XIX, o novo ordenamento social impõe ao indivíduo novos desafios antes inexistentes nos velhos ordenamentos: agora não é possível somente pela força da tradição, da confiança por ela produzida, se manter em um mundo competitivo, instável e volátil. A sociabilidade do capital está baseada em um regime de trocas incontroláveis e imprevisíveis: elas podem não se realizar na proporção na qual os agentes esperam, mas sua realização é necessária para a reprodução social e ela parte de antemão, antes da socialização dessas trocas no mercado, da dimensão privada. Se tornando fundamental para os atores que desempenham as trocas no mercado, a capacidade de ler e tentar estimar os setores e condições nas quais a troca é mais favorável trará maior lucratividade, etc. A capacidade de ler as dinâmicas voláteis e os jogos de força que estabelecem pesos e contrapesos passa a ser essencial para a racionalidade moderna.
Nicolau Maquiavel, em seu O príncipe (1532/2000) (talvez sendo um dos primeiros modernos), demonstra como mais do que ser príncipe, é necessário jogar o jogo da política a partir de leituras concretas. Com a modernidade não basta Ser, passa a ser necessário fazer. A possibilidade de ler correlações de forças, e a partir delas estabelecer ações que alterem-nas passa a ser central para cada indivíduo burguês moderno: o que era antes reservado a um punhado de reis, imperadores e generais, passa a ser condição básica de sobrevivência do indivíduo, que tem como exigência social para sua sobrevivência a observância às tendências e flutuações do mercado. Marx, em O Capital (1867/2013) demonstra o fundamento econômico da base material do novo indivíduo quando explicita a própria forma das trocas do mercado por meio da equiparação das infinitas mercadorias com a mercadoria dinheiro, fazendo com que o detentor individual dessa mercadoria dinheiro (objetivação do valor das demais mercadorias), tenha a necessidade e o poder de guardá-la buscando como um jogador usá-la individualmente novamente nas trocas quando assim for mais vantajoso:
“A paixão de enriquecer, ao contrário da paixão pelas riquezas naturais particulares ou pelos valores de uso tais como o vestuário, as jóias, os rebanhos etc., só é possível no momento em que a riqueza geral se individualiza numa coisa particular e pode, assim, ser retida sob a forma de mercadoria isolada. O dinheiro surge, portanto, como objeto e fonte da paixão por enriquecer” (Marx apud Rubin 2020, pág. 173)
Só este fato confere ao indivíduo, neste exemplo, o detentor da mercadoria que dá acesso a todas as outras, objetivamente uma posição acentuada de destaque.
É a partir desse marco histórico que entendemos as contradições que essa sociedade impõe para os seus indivíduos a partir da sua existência mais básica: nos atos de compra e venda, os indivíduos aparecem como proprietários isolados, ficando abstraídas todas as diferenças existentes entre um indivíduo que vende sua força de trabalho (outra mercadoria) e o outro que a compra através da mercadoria que transita universalmente nas infinitas trocas cotidianas; o dinheiro.
Subjetivamente, a aparência de igualdade entre os agentes tende a prevalecer no cotidiano, pois os atos de compra e venda parecem os únicos possíveis em uma sociedade onde, graças ao seu caráter impessoal, o mercado parece natural. O indivíduo se sente livre para vender e comprar, ainda quando a mercadoria a ser vendida é seu próprio corpo e as mercadorias compradas são itens de consumo que seus antepassados tinham acesso pelo seu trabalho ligado à terra (como no caso dos alimentos e o trabalho agrícola, por exemplo). O Eu passa a ser um objeto na medida que está submetido à troca e se torna meio pelo qual ela se vale para acontecer. O Eu se torna, igualmente, uma mercadoria a ser gerida, investida, organizada, vendida, comprada ou conquistada pelo indivíduo que a tem.
O problema da identidade e a divisão a nível individual.
Nas sociedades antigas, pré-modernas, as pessoas ocupavam uma posição relativamente fixa e ordenada na estratificação social e isso era a base para a sua identidade pessoal, ligando de maneira orgânica a subjetividade, mais especificamente a personalidade e a identidade individual, à comunitária que geria todo o conjunto de relações sociais fundamentais. Já com o modo de produção capitalista, a vida social passa a ser regida pelo mecanismo impessoal do mercado e os indivíduos se igualam no ato da troca, ainda que, particularmente, sejam pessoas muito distintas entre si. Neste processo, não importa de onde vem e para onde vai o fluxo geral da organização social, desde que dela se extraia o necessário para a efetivação isolada do comprar e do vender. Tal situação produz não só uma liberdade, mas também um impasse: agora há uma pessoa pública e outra privada.
A liberdade reside no fato de que o indivíduo pode se personalizar, se distinguir dos demais o quanto for possível para ele objetivar suas finalidades no mundo: quanto mais finalidades relacionadas aos seus interesses, apetites, necessidades e desejos esse indivíduo conseguir realizar, por meio do dinheiro, mais a sua personalidade tende a se desenvolver, ficando o indivíduo cada vez mais singular. Por outro lado, na vida social, para que ele possua a mercadoria, ele precisa repetir os mesmos atos de compra e venda que garantem a sua sobrevivência e a reprodução social. Temos então, uma tensão interna a cada pessoa cujo Eu vai se encarregar de fazer síntese através da identidade.
A identidade nada mais é do que a imagem mais ou menos estável que temos de nós mesmos e na qual nos reconhecemos. Aqui caberia uma grande digressão sobre a função de reconhecimento e sua relação com a percepção, no entanto, para motivos desse texto, basta dizer que com essa tensão posta na vida social entre o público e o privado, tendencialmente tensionado também está o próprio Eu, que é convocado a fazer uma síntese a partir de uma cisão estrutural do modo como a vida social se constitui. O indivíduo tende a se refugiar na própria identidade como forma de tentar integrar sua vida pessoal com sua atuação impessoal nas relações sociais, buscando unir uma dinâmica social que o cinde sem que ele se dê conta. No entanto, como não é possível se reconhecer na impessoalidade das relações de troca, sua capacidade de autorreconhecimento está tendencialmente bloqueada: o indivíduo tem o seu próprio Eu como refúgio e como possibilidade de expressão e crescimento, mas ao tentar superar uma divisão imposta desde fora com uma síntese interna, ele também se divide, e a identidade que o parecia diferenciar de outros indivíduos passa a parecer falsa e genérica.
No consultório, é relativamente comum escutar pacientes que mais se sentem uma farsa quanto mais se apegam aos signos que historicamente constituíram sua identidade. A chave para esse problema clínico está na investigação das causas do fechamento do indivíduo para o mundo e retorno para o próprio Eu: desamparo, instabilidade, incerteza e insegurança são os sentimentos que causam tal processo. No capitalismo, tais sentimentos tendem a ser basais porque, para que o ser humano possa se reconhecer, ele necessita vínculos seguros, estáveis, previsíveis e confiáveis. Na contramão disso, o desenvolvimento do capitalismo desterrou o ser humano de tais vínculos, e agora, tentando se defender da imprevisibilidade, instabilidade e ameaças externas, o indivíduo recorre ao seu próprio Eu e reencontra dentro dele as ameaças das quais foge. As questões que nos resta são: como ocorre tal passagem do interno para o externo? Por que as determinações externas são expressas internamente na subjetividade, mesmo quando o indivíduo não pode se reconhecer em sua relação com o mundo? Tais perguntas podem ser melhor esclarecidas com um avanço na compreensão de como surgem e se desenvolvem as necessidades humanas e a relação desse complexo com a personalidade.
Sabemos que o psicólogo estadunidense, teórico de referência na área dos estudos das necessidades humanas, Abraham Maslow (1908-1970) em seu Clássico “Motivación y Personalidad” (1954/1991) “Motivação e personalidade” (em tradução livre), mesmo sem quaisquer referenciais marxistas ou hegelianas conhecidas, percebeu a necessidade de autorrealização como uma das necessidades mais elevadas de sua famosa pirâmide das necessidades. Se partimos da premissa de que autoconhecimento é condição para autorrealização, temos como quadro geral um cenário onde o ser humano, sob o capitalismo, está tendencialmente insatisfeito com suas aspirações mais propriamente humanas mesmo quando não partimos de um referencial marxista. No entanto, um estudo mais pormenorizado de como as necessidades humanas se desenvolvem e qual é a incidência de tal desenvolvimento sob a personalidade, pode nos ajudar a compreender melhor os intrincados processos onde uma pessoa prefere persistir em certezas de estrutura delirante a saber a verdade. Temos a impressão de que as certezas que cultiva estão muito arraigadas em que essa pessoa acredita ser, e isso parece ser condição suficiente para a negação da realidade quando esta contraria suas crenças. Ainda que não saibamos os pormenores desse processo, está claro que o apego ao seu Eu a impede de saber verdades efetivas, vindas da prática, pois está tendencialmente impedida a formulação de novas objetivações orientadas por novas finalidades, sendo a prioridade nesse modo de funcionamento resguardar o próprio senso de identidade.
Individualismo e prática política revolucionária
Para além das consequências clínicas que um avanço em tais questões possa ter, o tema também tem implicações políticas: a constituição de um saber que possibilite um sujeito revolucionário, constituído onde antes somente havia uma massa difusa e desorganizada ainda que carente e insatisfeita, exige superação do individualismo que nas organizações de esquerda historicamente se expressa principalmente no que correntemente se chama de personalismo, mas também no tarefismo que abstrai o indivíduo de suas determinações psicossociais e o reduz à mera peça operacional organizativa. Se vivemos no século XXI uma crise organizativa entre os comunistas, entender como o ser humano é capaz de se fechar em crenças ilusórias e ser refratário a qualquer argumentação racional pode contribuir no avanço de debates políticos mais bem argumentados racionalmente sem quaisquer prejuízos para a dimensão afetiva das causas que nos mobilizam: razão e emoção só estão dicotomizados quando o indivíduo está dividido e o seu recurso básico é negar um dos pólos de um campo em detrimento do outro. A consequência disso é que o indivíduo nada pode saber sobre si ou sobre o mundo a partir da negação, restando apenas uma imensa sensação de vazio.
Referências Bibliográficas:
MAQUIAVEL, Nicolau. O príncipe. In: Os pensadores. São Paulo: Nova Cultural, 2000.
MARX, Karl. O Capital: crítica da economia política. Livro I: O processo de produção do capital. Tradução de Rubens Enderle. São Paulo: Boitempo, 2013.
MASLOW, A. H. Motivación y personalidad (C. Clemente, Trad.) Madrid: Ediciones Díaz de Santos, 1991.
RUBIN, Isaak Illich. A Teoria do Dinheiro em Marx. Tradução de Tiago Camarinha Lopes. São Paulo: Instituto Caio Prado Jr., 2020.




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