Economia política das facções criminosas brasileiras - Entrevista com Matheus de Moura
- há 2 dias
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Por Olavo Claus
As facções criminosas brasileiras se tornaram protagonistas da política brasileira em meio ao atual quarto de século. Alguns de seus oponentes sugerem a morte e o cárcere de todos aqueles que pareçam envolvidos com a atividade criminosa, com direito a uma intervenção militar estadunidense em solo brasileiro. Outros, o sufocamento econômico e político das facções, presentes nos parlamentos e no sistema financeiro. Enquanto isso, o território brasileiro é assaltado por tarifas americanas, interferência nas eleições e por uma guerra civil interminável que, no ano passado, registrou o maior massacre cometido pela Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro (PMERJ), com 122 mortos. Prováveis aliadas do candidato de extrema direita que tenta vender este território para aqueles que o estão assaltando, as facções criminosas Comando Vermelho (CV) e Primeiro Comando da Capital (PCC) se encontram em seu auge, mas também se deparam com uma possível crise: os EUA as classificaram como entidades terroristas. O que essa designação significa para o Brasil? Quais as origens e funções dessas facções criminosas no capitalismo brasileiro?
A Barravento conversou com Matheus de Moura, escritor, sociólogo e repórter de segurança pública no Rio de Janeiro, com trabalhos publicados na Revista piauí, Agência Pública, Ponte Jornalismo, entre outros veículos de destaque. Matheus também é doutorando em sociologia pela Universidade Federal Fluminense e recentemente colaborou com a Al Jazeera, na cobertura dos desdobramentos do Massacre da Penha, ou Operação Contenção, que deixou 122 mortes em outubro de 2025 no Rio de Janeiro.
Matheus dá suas impressões sobre a chacina, a classificação das facções criminosas como organizações terroristas, ataques americanos ao Brasil, a origem e função das facções no capitalismo brasileiro, entre outros sismos contemporâneos. Confira a seguir a entrevista na íntegra.
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OLAVO: No dia 5 de junho, os Estados Unidos classificaram o CV e o PCC como organizações terroristas, os considerando uma ameaça à segurança nacional estadunidense. Qual pode ser o impacto dessa decisão para o país? E essas organizações são, na sua opinião, terroristas ou narcoterroristas?
MATHEUS: Primeiro que, assim, terrorismo não é um conceito sociológico de gênero fixo, tal como também não o é o crime organizado. É importante a gente ter essa clareza teórica. Eles são conceitos políticos que servem de instrumento político para a produção de políticas públicas e de decisões políticas macro tanto dentro de uma nação, quanto em um sentido maior entre nações. O terrorismo em si, ele... por mais que ele não seja um conceito fechado, rígido, ele é um conceito mais ou menos consensuado como: grupos de quatro ou mais pessoas que se unem com objetivos políticos... e causam, utilizam da violência financeira, física, verbal, para conseguir alcançar objetivos políticos ou religiosos. Basicamente isso, o mais resumido.
Os comandos, o PCC, o CV, o TCP, todos os comandos do Brasil, têm um objetivo principal que é o objetivo econômico. Nas normativas de crime organizado da ONU, fica definido que o crime organizado, que, de novo, não é um conceito sociológico, é um conceito político, é também uma união de quatro ou mais pessoas que têm como objetivo principal o fim econômico. Práticas de terror podem ser utilizadas por um comando, uma facção, um cartel, mas não significa que essas instituições não oficiais são terroristas. Significa que elas estão utilizando isso para melhorar os ganhos, otimizar ganhos; como é o caso de quando você bota a barricada numa favela no Rio de Janeiro, quando você bota fuzil em cada boca, você está fazendo prática de terror. É uma prática de controle de fluxo de ir e vir, é uma prática de imposição de força de forma simbólica, tácita, mas ainda assim física, material, uma vez que a arma existe em mãos, mas ela não tem como um fim principal político. O fim principal dela é econômico, é visível.
Por mais que as facções tenham um código de honra, tenham estatutos, instituições ou políticas internas: "Ah, favela de fulano de tal que não tem estupro. Tem outra favela, não pode ter isso e aquilo", o econômico sempre sobressai. Tanto que eu tenho conversado com algumas pessoas no Rio de Janeiro, relativo a essa onda de traficantes do Norte e do Nordeste no Rio. Aantigamente eles iam apenas se refugiar, né? Agora, eles estão fazendo um novo passo, que eles estão arrendando bocas de fumo. Ou seja, eles estão alugando espaço para poder fazer o usufruto econômico. Esse arrendamento de bocas de fumo está fazendo com que, tecnicamente, ele seja um gerente temporário de alguma localização nas favelas. A cultura do estupro em favela, nas regiões onde eles vêm, aparentemente, é um pouco diferente da do Rio de Janeiro. Então, é mais comum que esses traficantes façam práticas violentas que os traficantes do Rio de Janeiro não fariam. Então, tem alguns casos de estupro que estão surgindo, por exemplo, no Alemão, e não estão sendo denunciados, não tendo nenhuma consequência para os agentes, porque pro Comando Vermelho do Rio de Janeiro, aparentemente, não é rentável entrar em combate com quem está alugando o espaço deles. Ou seja, a moral da facção não prevalece quando ela entra em choque com o financeiro. Vai depender muito de gestor para gestor, mas o financeiro sempre ganha, porque em última instância, são instituições capitalistas. Podem não ser instituições do capitalismo formal, mas o próprio capitalismo formal não é formal. O dinheiro sujo e o limpo se misturam em um lugar ao ponto do indissociável. Então, isso é muito importante para a gente ter noção.
Acho que o caso mais tradicional de se pensar no que seria um narcoterrorismo, em caso de exercício, é quando você olha, por exemplo, o período em que o Pablo Escobar praticou sequestros a juízes, jornalistas, etc., para impedir a extradição dos traficantes colombianos para os Estados Unidos. Bom, são crimes violentos com objetivos políticos. Podem ser considerados narcoterrorismo porque o ponto principal é que eles tenham liberdade ou tenham sua prisão dentro de locais que eles tenham controle, para conseguir fazer uma manutenção do sistema financeiro deles. Então, você tem uma mistura do tráfico ali com o terrorismo para um maior controle político, pro fim econômico aberto. Só que isso é muito frágil, né? Na prática, toda forma de produção de terror é uma produção de terror. Só que o que torna o terrorismo em terrorismo é que a produção de terror é um meio, quase que o fim, para poder destabilizar o sistema. O tráfico não quer desestabilizar o sistema. Muito pelo contrário, ele preza pelo status quo. Para a facção, é muito importante que o mundo continue como ele está, como ele é e como ele sempre foi. Porque a previsibilidade de um mundo como ele é facilita a manutenção dos negócios e a construção de perspectivas políticas que estruturam seus trabalhos. Previsibilidade é importante. O terrorismo, ele quer, essencialmente, a disruptura do sistema.
E, claro, a gente pode, numa discussão mais difícil, mais complexa, questionar se o terrorismo é uma categoria válida ou não é, porque é geralmente utilizada pelos algozes do mundo colonial. Mas, independente do que a gente for chamar de terrorismo, a gente sabe que o ponto principal do terrorismo, seja revolucionário ou não, o ponto final sempre é a disruptura do sistemático.
No fim, pra dizer que: não considero como grupos terroristas, acho que é um delírio da extrema-direita. E o maior impacto é a pressão constante dos Estados Unidos para conseguir invadir o território com forças armadas. Não acredito que entrariam em guerra conosco, mas eu não duvido que pudessem colocar espiões ou tentar planejar operações para cá, mandar o DEA para fazer investigações in loco. A tentativa é de busca por influência justamente quando estamos em ano eleitoral. Isso num momento que é conveniente para os Bolsonaros, que são grandes amigos da família Trump. Por mais que sejam os amigos ralé, para o Trump é muito importante ter controle sobre o Brasil, porque o Brasil é parte dos BRICS e é parte de uma ameaça à ordem mundial dos EUA. O BRICS é uma ameaça. O fato de que o BRICS agora aceita oficialmente onze países é uma ameaça. Então, por mais que o Trump não seja um gênio de nada, ele é um terrorista, propriamente. Ele sabe atacar.
OLAVO: O encarceramento em massa é o berço das maiores facções brasileiras, principalmente o CV e o PCC. Como é que o crime organizado passou dessa atuação prioritária nas prisões para chegar até o mercado financeiro? Chegar à ALERJ, a Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro? Qual é o caminho que eles fizeram?
MATHEUS: Então, você tem que pensar a facção assim: elas surgem na prisão para regular a vida interna, mas elas precisam da vida externa para poder gerar a economia que vai manter aquele grupo. Então, assim que surge a Falange Vermelha, já está surgindo com a intenção de ter atuação fora das grades. A mesma coisa serve para o Primeiro Comando da Capital. Então, não é que passa de um para o outro, basicamente já surge em confluência, até porque quem está preso eram chefes de gangues, eram essas facções ainda menores que tinham sido traficantes em território físico já. Tradicionalmente, organizações criminosas têm chefias dentro da prisão e chefias fora da prisão e coordenam conjuntamente a facção, a máfia, o cartel. Então, o que a facção como a gente conhece hoje faz? Ela apenas organiza isso, centraliza e hierarquiza para que os territórios tenham um comando único, uma identidade única, um código coletivo, e também tenham tributo, uma taxação... Então, já estava na boca, na rua e já estava na prisão, acho que é o primeiro ponto a se ter em mente.
A segunda coisa é que não existe "Ah, o tráfico está entrando na ALERJ, o tráfico está entrando no sistema financeiro." Esse que é o ponto, se sabe que desde os anos 2000 pelo menos, que é quando me lembro de mais antigo que eu tenha lido isso, que uma boa parte do dinheiro que passa pelas bolsas de valores é lavagem de dinheiro de drogas. O PIB do tráfico de drogas é de 1% a 4% do PIB mundial. Então o sistema financeiro sempre esteve interligado com o tráfico, de uma forma ou de outra. O que muda é que por muito tempo, os chefes de facção eram homens que estavam presos. Ou presos na cidade, na favela, porque um chefe de morro não circula pela cidade, ele é refém do seu próprio castelo; e que dependiam de conexões com outros bandidos de colarinho branco, pessoas com mais grana. Aí vinham os políticos, os empresários brancos, as elites, para ter entrada nesse universo. Só que as facções começaram a sair do domínio "meramente" territorial, para um domínio financeiro próprio, uma independência em relação a essas figuras. Antigamente se falava: "O cara que realmente leva o tráfico, ninguém conhece, ele é uma figura x". Não, hoje em dia a gente pode falar que alguns donos do morro são também os caras que estão investindo no meio financeiro, investindo em bet, investindo na Faria Lima, porque eles foram complexificando as ações econômicas deles, até porque existe um limite de acúmulo de capital para uma realidade econômica x ou y, e existe um limite de capacidade de lavar dinheiro, com atividades físicas palpáveis, né? E o que é o sistema financeiro se não o maior delírio coletivo em que você está sempre apostando em cima de apostas, em cima de apostas, em cima de apostas? Chegando a um nível que é impalpável e que nem mesmo as agências reguladoras conseguem acompanhar o que está acontecendo. Por isso que é tão cheio de fraude nesse mundo, é um mundo perfeito para lavar grana, é um mundo difícil de navegar, um mundo que exige muita expertise para você localizar os problemas, e é um mundo em que o ciclo de dinheiro não é físico. É um mundo de apostas, a gente fala que "está investindo", mas investimento é uma aposta, e existe o investimento, por investimento, por investimento, que é o que aconteceu em 2008 na crise: tinha gente comprando a intenção do pagamento de investimentos em hipoteca nos Estados Unidos, ou seja, eram 3, 4 graus de aposta em cima de uma ação básica, que é o da hipoteca de um apartamento. Esse nível de abstração do dinheiro, ele tem um grau de não confiabilidade que é bom para a facção, para poder complexificar a sua cartela de negócios. E é uma coisa que a gente vê nas máfias italianas, a gente vê nos cartéis mexicanos, é um comportamento padrão, é um expandir e complexificar. É um processo, em algum grau orgânico, mas também em algum grau político, quando a gente pensa que o capitalismo é um projeto de um mundo. Por mais que não tenha um grupo de pessoas maléficas mexendo as mãozinhas que nem mosca falando "Vamos dominar esse universo", eles estão produzindo pobreza, produzindo um universo. E estão compactuando para essa produção de riqueza, que é baseada na miséria e no belicismo. Todas as etapas, desde o Estado, ao empresariado, passando pelo tráfico, a arma está em todo o caminho. E ela é parte importante desse organismo também.
OLAVO: No ano passado, e você até cobriu parte desse acontecimento, houve o maior massacre policial da história do Rio de Janeiro. Quais foram os impactos políticos desse evento no Rio de Janeiro de imediato, e o que ele significa para o futuro?
MATHEUS: De imediato, significou que o Cláudio Castro, que era uma figura asfixiada politicamente, retomou o ar e chegou perto de ser uma figura que poderia ser eleito nesta eleição de agora, se não tivesse sido mais um dos nossos grandes governadores criminosos [risos]. Então, no primeiro momento, é isso que significa. Essa é a primeira coisa que se pensa. No segundo momento, significou que a gente alcançou um patamar novo a partir do qual tudo que vier abaixo vai ser menos chocante.
Então, quando teve essa chacina, eu estava trabalhando enquanto saía os números de mortos. Eu pensei: "Pô, número alto, né, cara." Aí deu 50. E pensei que 50 era inédito: "Temos que sair de casa, temos que ver isso." Tendo 20, por pior que seja falar isso, eu estava: "É mais um dia no Rio de Janeiro. É uma chacina grande, dá pra fazer uma matéria depois, mas não vai valer a pena ir ver agora, agora." Quando vimos virar mais de 50, fiquei impressionado. E agora que é cento e pouco, quando chegar em 50, as pessoas vão pensar "Pô, grande, né? Mas já foi pior." O que significa que a curto e médio prazo é que a gente está estabelecendo uma tolerância nunca antes vista.
E também tem um outro ponto: o sistema penal, o Ministério Público, as polícias, todo mundo que está tentando investigar esse caso, está sobrecarregado com tudo que já existe de dificuldade no Rio de Janeiro. E agora a sobrecarga é dobrada, porque só para investigar isso com qualidade, considerando aqui que muitos profissionais dessas instituições querem isso, envolveria um braço, um investimento econômico e de pessoal que nenhuma instituição tem. Ninguém tem tempo e tá preparado pra fazer mais de cem oitivas com policiais. E isso é uma das grandes questões: você construir um massacre nesse nível, é você também construir a sua própria impunidade enquanto instituição. Você sabe que não há, do nosso ponto de vista atual, nenhuma forma de isso ser investigado.
Para o futuro, se a gente mantiver o governador interino, Ricardo Couto, acho que a probabilidade de um acontecimento desse se repetir é nula praticamente. O problema é quem vence lá na frente. Eduardo Paes? Que é uma figura que tem sido chamado de um mal menor, ou é o Garotinho? Que é conhecido por gostar de um dedo pesado no gatilho? Foi visto que a chacina, com todos os problemas que teve, trouxe ganhos políticos, mesmo se você atingir 120 mortes e decapitar uma criança. Ninguém liga. Pode esconder corpo, decapitar pessoas e vai trazer ganhos políticos ainda assim. O que também significa é que talvez outros estados, como São Paulo, muitos estados do nordeste que têm tido uma governança similar, como a Bahia, talvez em caso de emergência e desespero, esses governadores venham a querer mimetizar o que aconteceu no Rio porque viram que funciona. Provou-se que é uma válvula de escape boa. Tá dando tudo errado? Mata neguinho pra caralho.
OLAVO: Uma das primeiras ações da pré-campanha do Flávio Bolsonaro foi a divulgação de um projeto, um programa de segurança pública que incluía, entre outros pontos, a construção das megas prisões no Brasil, aquela inspirada no mesmo modelo de El Salvador. Qual é a sua avaliação sobre esse programa? Você acha que ele se diferencia do programa do atual governo Lula, o Sistema Único de Segurança Pública (SUSP)? Existem diferenças entre eles?
MATHEUS: Acho que o Lula está tentando construir uma integração entre as instituições de segurança pública para que a troca de informação e a polícia de inteligência se tornem prioritárias. Já que claramente não funciona a política de força bruta. E tem mil problemas, né? Como todos os programas de segurança pública de um governo burguês, mesmo os mais “sociais”. Mas mesmo assim, não dá pra comparar com o programa a la El Salvador, que o foco realmente é prender e matar, prender e matar. E é engraçado, né? Porque a maior parte da democracia burguesa é construída sobre a falsidade. Precisa fingir que quer construir prisão com condições decentes para as pessoas, para poder colocar a sua população carcerária, etc. O Flávio Bolsonaro não tem essa vergonha de dizer: "Não, quero construir sala de tortura, igual El Salvador fez". E El Salvador teve resultados positivos inicialmente, e são resultados que a gente pode questionar o quanto eles são reais. Isso pode muito bem ser manipulado, porque é tendência desse tipo de governo. E é um resultado de curto prazo, né? O longo prazo pra quando você constrói uma sociedade tão violenta politicamente assim, é que essa violência, você começa a sofrer de novo. Isso vai implodir e vai voltar com índices de violência muito maiores em alguns anos. Então, o que eu posso dizer é que nunca antes a família Bolsonaro teve uma ideia boa de segurança pública e continua não tendo. Não é agora que a gente vai ver o diferente. A ideia boa dele é falar para o Trump: “Chame nossas pessoas de terroristas.” E tem esse efeito do terrorismo que a gente nem discutiu, que está sendo utilizado para perseguir brasileiros nos Estados Unidos. O ICE utiliza para perseguir brasileiros agora. Eles ganharam essa cartada. De repente, a pessoa vira um narcotraficante sem nenhuma comprovação de envolvimento e porque ela é narcotraficante, ela é terrorista automaticamente.
OLAVO: qualquer brasileiro, qualquer latino praticamente vira uma ameaça de segurança nacional e pode ser preso legalmente. E tendo uma mega prisão aqui no Brasil, você tem mais facilidade para onde deportar esse “narcoterrorista”.
MATHEUS: Exato. E se consegue deportar sem tantas complexidades burocráticas e diplomáticas. Se, por exemplo, o Lula receber um brasileiro deportado dessa forma, provavelmente não vai mandar para a prisão, mas se for o Flávio Bolsonaro aqui, ele vai mandar direto.
OLAVO: E o que explica, nos termos da atual reprodução do capitalismo brasileiro, o encarceramento em massa e esse modelo atual de facção? Quais classes se beneficiam dessas formas de exploração e qual é a função dessa forma de exploração?
MATHEUS: Só a pergunta mais difícil da sociologia da violência [risos]. Eu acredito o seguinte: O genocídio negro praticado no Brasil é um projeto político que não tem como fim a aniquilação da população negra em nenhum aspecto. Não é um genocídio no sentido de levar ao extermínio. Nunca foi. Nem na época da escravidão. É um genocídio no sentido de deter controle sobre os corpos, para que não tenha revolta, revolução. E, também, para que você consiga continuar fazendo produções em cima desses corpos. A pobreza gera muito lucro politicamente. Mas mais que a pobreza, o medo. Então, por que a chacina ocorre? Porque a violência é um medo que as pessoas têm de fato. É um medo justo. Eu ando na rua, eu tenho medo. Mas é um medo que também é delirado por causa da imprensa burguesa, que não consegue reproduzir o que está acontecendo de pior no mundo sem transformar o singular no total, pensando em termos mais hegelianos.
Onde é que a gente encontra essa armadilha? Você tem uma produção de resposta a essa violência, ao transformar essa violência em algo marcado com corpo e território. São pretos e não é qualquer preto. É um preto de favela. Você sabe muito bem, tão bem quanto eu, que se a gente coloca uma roupa bonita, “hipsterzinha”, etc., a chance da gente sofrer uma dura é muito menor do que se a gente se veste como favelado. Porque o código de vestimenta é um código de classe, de pertencimento cultural. Ele é tão importante quanto a pele. Diferente dos Estados Unidos, aqui o colorismo é muito menos importante do que a classe social, que os códigos de classe social também. E a população preta periférica, preta favelada, os códigos de um favelado, culturalmente falando, são um objeto constante de produção de medo. E essa produção é combatida pela hiperviolência. Essa hiperviolência gera um lucro de um capital social e político muito alto. É assim que no Rio de Janeiro os políticos se elegem desde sempre, basicamente.
Você diz: "Ontem um garoto entrou na casa da minha vizinha e estuprou ela. Roubaram o celular da minha filha. Eu quero uma resposta a isso. O outro fica falando de fazer investimento em educação, fazer negócios de emprego, quer ficar dando bala pra esses caras?" Aí o governador novo entra e fala: "Vou matar todos eles." "Porra, é isso aí. Esses caras podem matar no trânsito, e eu não posso matar eles?”
E você vê que esse medo, produzido pelas elites, a partir de mazelas que eles produzem para populações mais desfavorecidas do Brasil, esse medo, ele é calcado em racismo e classismo, mas ele também tem um grau de legitimidade. A gente não pode tirar da população média a legitimidade do medo de andar na rua. Até porque a própria população favelada aprovou a chacina. Em todas as pesquisas, deu que a maioria favelada ainda assim apoiou. Porque as pessoas têm medo de traficantes, as pessoas olham para a operação policial e muitas vezes pensam que a culpa disso estar acontecendo é do traficante, e não da condição perpétua de produção da favela.
Mas o que a gente pode pensar é que, a gente tem essa produção de violência, de encarceramento, de terror, enquanto uma grande mercadoria. Você negocia a paz de certas partes da população para conseguir fazer trocas, tanto econômicas, em sentido literal, capital clássico, monetário, quanto trocas sociais, políticas, de capitais que não são palpáveis. Os capitais sociais, os capitais de Bordieau. A gente pode chamar isso de uma mercadorização do terror. E pensar o terror como uma produção mercadológica. Você negocia a paz para conseguir fazer uma gestão tanto dos ilegalismos, dessas camadas que se imbricam da realidade entre o legal e o ilegal, da falta daquilo que chega em um limite impalpável entre o que é e o que não é o mercado legal e ilegal - quanto da necessidade política de eleição. O terror é necessário.
Quem vence com isso? Majoritariamente as elites brancas, latifundiárias, as elites industriais, a burguesia rentista. Você tem uma manutenção constante do status quo. A própria elite burocrática.
E aí você tem uma forma de reprodução do capitalismo, que são essas facções, as milícias, as máfias, que é baseado no extrativismo. O extrativismo e a expropriação. A gente já tanto vê no capítulo XXIV do Capital, se não me engano, e que é trabalhado depois por Harvey e pela Rosa Luxemburgo, que também falam um pouco sobre. Você vai ver que o capital tem um limite de investimentos possível. É por isso que as bolhas sempre estouram, né? É por isso que o capitalismo é globalizado. Não só porque você precisa produzir em outro lugar a peça mais barata, e tem que disputar a mão de obra mais precarizada mundialmente, mas também porque você precisa devolver a expropriação e a exploração como uma forma de consumo interno daquele país.
A ocupação de um território pela facção, pela milícia, é, normalmente, uma ocupação de expropriação e extrativismo. Facções, milícias, eles praticam bastante do extrativismo ambiental. Eles roubam areia para poder revender, tá ligado? A gente tem problema ambiental de roubo de areia por milícias. Quanto até no sentido, também, de roubar casas, expulsar pessoas de casas, dominar a paz no território, determinar como funcionam as condições econômicas daquele bairro. Eles têm que ter um domínio mínimo do bairro. Porque, se não tem esse domínio do bairro, eles não têm como ter controle da previsibilidade do que pode afetar o negócio deles. A previsibilidade é muito importante para o negócio. Então, eles têm, sim, que ter um domínio armado. Eles têm, sim, que ter uma pressão constante. Mas, ao mesmo tempo, eles têm que ter, também, carisma. Tem que ter ligações de afeto. Quanto mais a demografia muda na favela, vem gente de fora e começa a mudar a cultura, mais eles ficam fragilizados. Porque mais o morador começa a querer delatar para a polícia, e mais eles começam a entrar em conflito, não só com o traficante, mas também com o Estado.
Quanto mais você trabalha a construção de laços de confiança, uma economia de confiança, como diria o Diego Gambetta, o sociólogo italiano, mais você tem a possibilidade de construir laços duradouros e de grande durabilidade. Mas muito caros e muito difíceis de manter, que é a famosa favela pacificada pelo próprio tráfico, né? Aquela coisa que a favela é uma paz, não morre ninguém, ele paga o policial, ninguém quer dedurar ele, todo mundo quer que ele fique, porque entrega uma gestão que é funcional, mas essa gestão é muito trabalhosa de construir. Então você usa violência. Porque seja pelo amor, seja pelo respeito, seja pelo medo, tem que ter um domínio. O capitalismo é regulado pela violência, a polícia serve para isso, ela é o Estado regulando tanto para o Estado quanto para burgueses e pequenos burgueses, comerciantes, etc. Só que a polícia, ela não pode trabalhar tão intensamente na proteção para facções, embora ela trabalhe também. Então eles também têm que produzir seus próprios paramilitarismos para poder regular seu próprio mercado.
Infelizmente, a violência e o extrativismo são essenciais para a produção desse tipo de comércio ilegal. Isso não quer dizer que é positivo. Na real, eu não estou justificando o que o tráfico faz. É porque cria-se um ethos ao redor disso, né? Tem tudo o que se constrói de simbolismo, de moral… Por que o cara decapita o outro e joga futebol com a cabeça? Isso já não é mais capitalismo meramente. São as produções de barbárie pela construção de cultura, de representação, para você conseguir desumanizar o outro, ter uma facilidade maior de se manter em linha de combate. Se você for ver que o favelado da outra favela é só um garoto preto como você, você não vai conseguir entrar em guerra, então você tem que jogar com a cabeça dele no futebol.
Enfim, como a gente chegou nesse lugar? Escravidão para cá. Pode parecer uma resposta muito básica, muito boba. Mas não é. A gente começa com a escravidão. O que se tornaram as chacinas hoje começou quando lá em 1694 derrubaram Palmares. Quando, depois de 50 anos tentando derrubar o quilombo, Portugal percebeu que não dava para acontecer outros Palmares. Então, as pessoas dentro do Brasil criaram a categoria do Capitão do Mato, que era uma categoria meio miliciana, mas que, em parte, era também uma categoria autônoma ao Estado. Ele pegava os escravizados, ele sequestrava para revender, cobrando o resgate do próprio fazendeiro que contratou ele. Ele começou a gerar a demanda dele. E aí, começou um problema, e naturalmente surgiram os calabouços. O primeiro calabouço do Rio de Janeiro, que surge quando a Coroa estabelece que não dá para ficar matando os escravizados, e também já não pode mais ter o comércio ilegal de escravizados. Então, o que a gente faz? Para manter vivo, o próprio Estado vai punir. Temos, assim, uma gestão pública do ente privado que é um indivíduo humano. E aí você tem a polícia. Essa polícia surge para proteger a Coroa das revoltas negras. E também das revoltas brancas, porque tinham os camponeses brancos, que se juntavam, muitas vezes, aos negros. Então, você tem uma quantidade grande de formas de produção de massacre negro tradicional, que vem desde a escravidão. Mas, desde o fim do Quilombo dos Palmares, vai se criar a institucionalização de cargos para fazer essa manutenção, que vão criando esse universo em que a gente está. Então, assim, precisamos de pesquisas, condições de pesquisa que possam fazer as conexões das lacunas de como isso chega até aqui.
Mas há muitas pistas que levam ao porquê de a gente viver em um mundo de chacinas, facções, e de encarceramento em massa. Que é, em grande parte, se for resumir: esse é um país sem rupturas. É um país que a independência é sem rupturas, que vira república sem rupturas, que acaba uma ditadura sem rupturas, que acaba outra ditadura sem rupturas, que vira democracia sem rupturas, que vira democracia sem sequer punir os seus ditadores. Esse país, ele se sustenta nas mesmas bases, e por que ele nunca precisou romper com nenhuma? Porque a elite daqui sempre percebeu a pressão popular chegando no limite: “Eu vou dar o golpe em mim mesmo para não ter que levar o golpe dele.”


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