Acerca da relevância teórica e atualidade do epílogo de A Destruição da Razão: o entrelaçamento entre a “nova forma do irracionalismo” e o fenômeno do politicismo
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Atualizado: há 2 horas
Por Rodrigo Vieira Ferreira[1]
O presente texto tem como objetivo retomar o conteúdo próprio do epílogo de A Destruição da Razão de György Lukács afim de jogar luz sobre o entrelaçamento entre o fenômeno do politicismo e a “nova forma de irracionalismo” denunciada pelo filósofo magiar. Defende-se que o pós-escrito de a A Destruição da Razão, redigido em 1953, contém apontamentos relevantes e pouco visitados acerca do fenômeno do irracionalismo e do politicismo, ainda que Lukács não tenha feito uso explícito desta última categoria. Assim sendo, o presente texto terá dois objetivos: 1) demonstrar a relevância teórica do epílogo de A Destruição da Razão a partir de discussão ancorada no conteúdo próprio deste escrito de Lukács, apesar de seu caráter sintético e 2) demonstrar, a partir do conteúdo deste escrito de Lukács, o entrelaçamento existente entre entre a ascensão da “nova forma de irracionalismo” e o fenômeno do politicismo, este último marcado pela exacerbação da política enquanto fator explicativo para o surgimento de problemas de ordem econômica e, por conseguinte, enquanto fator preponderante para a resolução de tais problemas.
Em outros termos, nos propomos aqui a reivindicar a relevância teórica deste escrito para a crítica e compreensão dos fenômenos do irracionalismo e do politicismo, ainda que reconheçamos seu caráter sintético quando comparado ao texto base de A Destruição da Razão. Nos propomos a “reivindicar” a relevância de tal escrito uma vez que não tem sido um texto muito visitado e estudado no Brasil uma vez que pesquisas sobre A Destruição da Razão debruçam-se mais recorrentemente sobre o texto base. Contudo, é possível argumentar que o próprio texto base de A Destruição da Razão ainda está por receber a mesma atenção que outros escritos de Lukács como História e Consciência de Classe e Para uma Ontologia do Ser Social por parte de pesquisadores e militantes marxistas brasileiros. À título de ilustração, basta dizer que a obra em análise foi traduzida para o português e publicada no Brasil pela primeira muito recentemente no ano de 2020 a partir de iniciativa do Instituto Lukács.
Além de ser um texto menos frequentemente visitado, o epílogo de A Destruição da Razão recebeu ainda duras críticas de autor relevante do marxismo brasileiro (Netto, 1978) o que incentiva e justifica ainda mais a necessidade da “defesa” de sua relevância. Assim sendo, antes de adentrarmos o conteúdo próprio de tal Epílogo, acreditamos ser relevante trazermos à baila uma passagem da obra “Lukács e a crítica da filosofia burguesa” de autoria de José Paulo Netto, na qual o autor tece comentários críticos ao Epílogo de A Destruição da Razão, que, se por um lado apontam para as limitações que este pós-escrito teria - e de fato tem -, por outro, parecem fomentar sua completa descredibilidade:
Depois de esclarecer como o nazi-fascismo instrumentalizou o irracionalismo, quer como forma de neutralização da resistência intelectual, quer como meio para implementar a sua demagogia social, quer, ainda, na tentativa de fundar o seu pretenso carácter «revolucionário», Lukács propõe-se esboçar, no epílogo de A Destruição da Razão, as principais linhas evolutivas do irracionalismo no pós-guerra. Indicando rapidamente a emergência de uma epistemologia neomachista, ele assinala que à hegemonia ideológica dos Estados Unidos da América passa a corresponder um método de justificação do capitalismo que restaura a velha apologia directa (Lukács menciona, então, brevemente, as ideias de Lippmann e Burnham) e faz um ligeiro comentário sobre as teses históricas de Toynbee, que é, para Lukács, «um simples epígono do epígono da filosofia da vida, Spengler». Não se pode contestar que este epílogo — que não condiz com a magnitude da obra — é a parte mais fraca do livro. E não apenas em função da sua brevidade ou da sua estrutura jornalística, como o reconheceu Lukács reiteradas vezes. A meu ver, o defeito que enfraquece estruturalmente o fecho (de A Destruição da Razão reside em que o seu autor não formula, em nenhum momento — e talvez isto possa ser compreensível invocando-se a época da redacção do texto —, com clareza, uma hipótese explicativa para o facto de que não apenas o irracionalismo continuaria a servir à reacção, mas que, por outro lado, já se tornava possível, à burguesia imperialista, reutilizar-se do racionalismo formal para amenizar as posições teórico-críticas do movimento operário revolucionário. Numa palavra: neste epílogo, Lukács não estabelece nenhuma relação entre a destruição e a miséria da razão. Eis o que compromete, medularmente, as páginas finais da grande obra lukacsiana (Netto, 1978, p. 53-54).
Da passagem anterior, é possível reter duas características do epílogo em análise que atestariam ser esta a “parte mais fraca do livro”, segundo José Paulo Netto: 1) sua “brevidade” e “estrutura jornalística” e 2) o fato de Lukács não ter tecido neste pós-escrito nenhuma “hipótese explicativa” para a vigência do fenômeno do irracionalismo e da racionalidade meramente formal no período pós-guerra. Quanto ao primeiro ponto, concordamos integralmente, contudo, quanto ao segundo, julgamos ser necessário discordar.
Sem qualquer pretensão de “polemizar” com um autor do rigor e relevância de um José Paulo Netto, nosso objetivo neste primeiro momento será tão somente trazer à baila passagens da própria lavra de Lukács que demonstram que, apesar de o autor húngaro de fato não ter tecido um extenso tratado sobre como e porquê o irracionalismo teria perdurado mesmo após a derrota nazista na segunda Guerra Mundial e encontrado nos EUA solo fértil para sua renovação, indicam ao menos que o mesmo teceu uma “hipótese explicativa” para tal fenômeno, qual seja: a forma particular em que o capitalismo se objetivou naquele país e sua natureza “democrática” e a necessária oposição dos EUA à União Soviética no contexto da Guerra Fria, a qual havia de incorrer no desenvolvimento de formas de defesa do modo de produção capitalista em face da experiência socialista intentada a duras penas na URSS.
De partida, é importante retomar o fato de que o epílogo em análise foi escrito no ano de 1953, ou seja, durante os primeiros anos da chamada Guerra Fria. Nesse sentido, Lukács apresenta que o fim da 2° Guerra Mundial “não significou senão a preparação de uma nova guerra, dessa vez, contra a União Soviética” (Lukács, 2020, p. 663). E é nesse contexto geopolítico que os Estados Unidos irão desbancar a Alemanha nazista recentemente derrotada na 2° Guerra e vão assumir a posição de ponta de lança da reação burguesa a nível global, isso porque no contexto da “Guerra Fria” marcado pelo contundente embate ideológico contra a União Soviética necessariamente “os Estados Unidos passaram a assumir cada vez mais a força da liderança da reação imperialista, tomando assim o lugar da Alemanha” (Lukács, 2020, p. 663). Não por acaso, Lukács se volta a analisar as elaborações de ideólogos erradicados nos EUA, chegando a afirmar explicitamente que o objetivo do Epílogo “é indicar as principais tendências da ideologia da guerra fria, nos seus representantes mais significativos” (Lukács, 2020, p. 664).
Dos apontamentos anteriores, resta claro que foi em decorrência da inconteste consolidação de sua posição enquanto a principal potência imperialista no pós-guerra e a consequente e imperativa necessidade de sair em defesa do modo de produção capitalista que os EUA passaram a assumir a posição de bastião da reação burguesa naquele quadro histórico. Levando em conta essas circunstâncias globais e a posição dos EUA na divisão internacional do trabalho no período pós-guerra, Lukács apresenta que os EUA perpetraram o retorno à “apologia direta” do modo de produção capitalista e explica tal fenômeno remetendo-o às condições histórico-sociais que o habilitaram. Em outros termos, aludindo à determinação social do pensamento, Lukács volta a sua análise às condições objetivas dos EUA, país em que, ao contrário da Alemanha:
a existência do sistema capitalista não chegou a se encontrar em perigo nem nos mais profundos períodos de crise. A Constituição dos Estados Unidos foi desde o princípio, ao contrário da alemã, uma Constituição democrática, e a classe dominante havia conseguido ali, especialmente durante o período imperialista, consolidar as formas democráticas de tal modo que se pudesse assegurar, com os meios da legalidade democrática, uma ditadura do capital monopolista pelo menos tão vigorosa quanto a que Hitler havia conquistado com seus procedimentos tirânicos. As prerrogativas do presidente dos Estados Unidos, o poder de decisão da Suprema Corte em matéria constitucional (e depende sempre do capital monopolista que um problema seja ou não considerado como tal), o monopólio financeiro sobre a imprensa, o rádio etc., os enormes gastos eleitorais que impedem eficazmente a formação e o funcionamento de partidos democráticos reais, ao lado dos já tradicionais que representam o monopólio capitalista e, finalmente, o emprego de meios terroristas (o sistema de Lynch), tudo isso contribui para criar uma “democracia” que funciona dentro da normalidade, e que pode obter de fato, sem romper formalmente com a democracia, tudo aquilo a que Hitler aspirava. Acrescente-se a isso a base econômica incomparavelmente mais extensa e mais sólida do capitalismo monopolista nos Estados Unidos (Lukács, 2020, p. 667).
Isto posto, o filósofo húngaro adiciona que a forma de ser e ir sendo do capitalismo norte americano, para usar uma expressão de José Chasin[2], implica que “Para eles, o sistema ideal da economia continua sendo o capitalismo, e a ‘liberdade democrática’ o modelo da organização do Estado e do regime de governo” (Lukács, 2020, p. 668). Na sequência, Lukács arremata a questão: “as condições econômicas, sociais e políticas dos Estados Unidos têm necessariamente que engendrar uma ideologia em cujo centro se ergue a defesa aberta do capitalismo, da ‘liberdade’ capitalista” (Lukács, 2020, p. 668). Dito de outra maneira, a forma particular de desenvolvimento da economia capitalista norte americana explica a solidez “democrática” e a legitimidade social de sua correspondente forma político-jurídica institucionalizada, forma de ser e ir sendo capitalismo que se posiciona ontologicamente enquanto condição habilitadora para a correspondente renovação da “apologia direta” e irrestrita do modo de produção capitalista por parte dos ideólogos do capital monopolista.
Feitos tais apontamentos a partir da própria pena de Lukács, parece ser possível discordar pontualmente da colocação de José Paulo Netto de que no epílogo de A Destruição da Razão o autor húngaro “não formula, em nenhum momento — e talvez isto possa ser compreensível invocando-se a época da redacção do texto —, com clareza, uma hipótese explicativa para o facto de que não apenas o irracionalismo continuaria a servir à reacção, mas que, por outro lado, já se tornava possível, à burguesia imperialista, reutilizar-se do racionalismo formal para amenizar as posições teórico-críticas do movimento operário revolucionário”. Como dito anteriormente, não é nosso interesse “polemizar” tal questão, sendo nosso objetivo tão somente apontar que, se de um lado Lukács não se estende minuciosamente sobre a questão - e o próprio autor explicita tal fato em diversos momentos de sua obra -, ao menos apresenta uma - sintética, é verdade - “hipótese explicativa” para o fenômeno da renovação da apologia aberta ao modo de produção capitalista e sobre os motivos de tal renovação ter tido como epicentro justamente os Estados Unidos da América naquele quadro histórico marcado pela Guerra Fria e pela vigência do capital monopolista, donde os EUA figuravam - e ainda figuram - como ponta de lança.
Uma vez demonstrada a forma não tão simplória com que Lukács trata da renovação do irracionalismo no período pós-guerra no epílogo de A Destruição da Razão, alguns questionamentos ainda perduram: quem são os ideólogos estudados por Lukács neste escrito? Como foi perpetrada a apologia direta do capitalismo por parte destes ideólogos? Qual o conteúdo de suas formulações? Para responder a tais formulações continuemos retendo atenção sobre o conteúdo próprio do epílogo em análise. Fato é que, ao respondermos a tais questionamentos a partir de passagens do próprio epílogo, estaremos cumprindo o segundo objetivo deste texto, qual seja, apresentar os apontamentos de Lukács acerca do entrelaçamento entre a “nova forma do irracionalismo” e o fenômeno do politicismo.
Quanto ao conteúdo da apologia ao capitalismo em sua etapa monopolista, Lukács salienta que, apesar de ser uma “apologia direta”, esta não poderia ser simplória dado que “as massas que já compreenderam a conexão íntima que os monopólios possuem com as leis que regem a vida do capitalismo não se deixam facilmente enganar por uma propaganda apologética” (Lukács, 2020, p. 669). Portanto, diante da impossibilidade de negligenciar por completo o problema dos monopólios e da concentração de riqueza, os ideólogos do capital monopolista têm de tratar do problema dos monopólios, contudo, o fazem sem remetê-los à lógica de reprodução do modo de produção capitalista, objetivando em última instância “fazer do capitalismo monopolista algo fortuito e contingente, passível de ser eliminado”, conforme Lukács (2020, p. 669). Em síntese, o objetivo é apresentar o capitalismo monopolista como algo passageiro, um mero desvio de curso.
Conforme apontado anteriormente, o pós-escrito de A Destruição da Razão teve como objetivo “indicar as principais tendências da ideologia da guerra fria, nos seus representantes mais significativos” (Lukács, 2020, p. 664). Assim, Lukács tece comentários críticos sobre as formulações de alguns ideólogos, entre eles Lippmann e Röpke. Sobre o primeiro, nosso autor dirá que
Seu método é o da economia normal e vulgar; ele identifica a economia com a técnica, fala praticamente sempre em técnica no lugar de economia para extrair daí a seguinte “prova”, que, evidentemente, não tem nenhuma força de convencimento, nem mesmo partindo-se de seus próprios pressupostos: o de que o desenvolvimento da técnica e da produção em massa “não exige nenhum tipo de monopólio”. “A concentração tem sua origem no privilégio e não na técnica”. Mas de onde vem esse privilégio? A resposta soa extremamente simples: os liberais – em consequência de sua míope e equivocada aplicação do princípio do laissez-faire – têm admitido e inclusive estimulado a criação de tais privilégios; [...] Desse erro dos liberais surgiram os monopólios (Lukács, 2020, p. 669-670).
Da passagem anterior é possível reter que Lippmann chega de fato a endereçar o problema dos monopólios, entretanto, diante da missão social de negar o vínculo umbilical entre o surgimento dos monopólios e a lógica imanente de reprodução do capital, atesta que os monopólios são resultado de um erro dos liberais e de sua “míope e equivocada aplicação do princípio do laissez-faire”. Desta primeira passagem acerca das formulações de Lippmann, começa a ficar claro que os problemas do capitalismo monopolista são tratados pelos ideólogos do capital como algo fortuito e trivial, um mero erro de cálculo, um erro de gestão. Já no que diz respeito ao economista Röpke, Lukács (2020, p. 670) apresenta que, diante da tarefa de defesa do capitalismo, este se vê obrigado a negar “assim como Lippmann, a necessidade econômica da concentração do capital e, portanto, dos trusts, dos cartéis, das holdings etc”. Dito de outra forma “tanto Lippmann quanto Röpke estão de acordo quanto ao fato de que os monopólios não são fenômenos inevitáveis”.
Uma vez apresentado como um problema contingente, portanto, solucionável sem a necessária destruição do modo de produção de produção capitalista, os ideólogos apologetas do capitalismo monopolista trazem à baila a solução para tal problema circunstancial: a intervenção estatal. E aqui começa a se desvelar o entrelaçamento entre a renovação da apologética direta ao capitalismo e o politicismo, este último devendo ser entendido enquanto fenômeno ideológico que exacerba a potência da esfera política em resolver problemas emanados da própria dinâmica econômica (Chasin, 1977). Dito de outra forma, ideologias marcadas pelo politicismo tratam os problemas advindos da esfera econômico-social enquanto resultado da esfera da política, reduzindo tais problemas a simples erros de gestão e de direcionamento político. Por conseguinte, as propostas de resolução para tais problemas são pensadas a partir do próprio âmbito da política e do aprimoramento da gestão estatal.
Retomando o conteúdo do epílogo, Lukács apresenta claramente o vínculo aqui discutido ao dizer que a proposta de resolução dos monopólios a partir da intervenção estatal parte da premissa de que “Se a legislação da sociedade burguesa criou os trustes etc., ela também pode impor limites a isso, inclusive aboli-los totalmente, pondo um fim à concentração do capital” (Lukács, 2020, p. 670-671). Fica claro que, uma vez tratados pelos ideólogos do capital monopolista enquanto problemas contingenciais criados pela “legislação”, o problema dos monopólios e trustes pode igualmente ser eliminado através da mesma esfera que supostamente os criou. Em adição, argumentamos que desse apontamento de Lukács é possível sublinhar uma proposta de administração política do modo de produção capitalista por parte de Lippmann, ou seja, uma propositura de gestão da dinâmica econômica capitalista e de suas contradições sem o objetivo de eliminá-las (Paço Cunha, 2021). Ademais, é também possível sublinhar a ênfase de Lippmann sobre os “meios jurídicos” de administração política[3] do capitalismo monopolista (Paço Cunha, 2021). E o mesmo, dirá Lukács, se verifica para o caso do economista suiço Röpke. De acordo com nosso autor:
Uma mudança, porém, segundo Lippmann, é possível: “Os homens de hoje podem reformar a ordem social, modificando as leis”. Como Lippmann enxerga apenas a superfície subjetivamente distorcida da sociedade capitalista, não lhe ocorre perguntar como surgem as leis, ou seja, investigar mais de perto a relação entre a economia e a superestrutura jurídico-política. Assim, ele pode declarar, com a desfaçatez do “cretinismo parlamentar”, que esse tipo de mudança é possível; mas passa completamente por alto a única questão que realmente interessa, qual seja, a de saber quais forças sociais são capazes de operar realmente essa mudança; antes, se contenta em tecer projetos demagógicos – e teoricamente inconsistentes – a fim de ludibriar leitores incautos. Esse tipo de raciocínio é um claro exemplo de falta de bonna fide. Isso pode se comprovar ainda mais facilmente com Röpke, autor com ideias afins às de Lippmann. Ele apoia com os seguintes argumentos sua política antimonopolista “ativa”, que culmina, como no caso de Lippmann, num apelo à legislação: “A prova de que esse último caminho é perfeitamente viável foi dada pelo exemplo dos Estados Unidos com o ato Sherman, a lei que proíbe o monopólio e toda associação monopolista, e que continua sendo ainda hoje a base do direito econômico americano”. Naturalmente, os fatos o obrigaram a reconhecer que “até agora essa lei se mostrou ineficaz” (Lukács, 2020, p. 671, grifos nossos).
Como se vê, a ênfase da propositura dos autores aqui analisados por Lukács para a suposta resolução do problema dos monopólios está no acionamento de “meios jurídicos” de administração política do modo de produção capitalista. Assim, é inegável o caráter politicista de tais formulações que apresentam a esfera da política e a atuação do poder político institucionalizado enquanto fator preponderante diante da esfera da economia. E esse será, de acordo com Lukács, a linha de pensamento basilar que perpassará a formulação dos demais ideólogos do capital monopolista isso porque “Os mesmos raciocínios, ainda que formulados de um modo distinto, encontramos em outros autores” (Lukács, 2020, p. 672). Quanto a isso o filósofo húngaro dirá que
Como elementos essenciais e comuns a todos, destacam-se principalmente dois. Em primeiro lugar, a concepção do capitalismo (a chamada “economia de livre-mercado”) como ordem social ideal. As eventuais “perturbações” que nela porventura ocorram são simplesmente fenômenos secundários que a legislação pode sempre que quiser eliminar; e isso é possível, na medida em que se vive na “liberdade” de uma “democracia”, em que a voz da maioria é decisiva e todo-poderosa. Em segundo lugar, esse método representa idealmente um suposto retorno aos clássicos da economia. Mas que tipo de retorno é esse? A grande contribuição teórica dos clássicos foi ter criado a teoria do valor-trabalho, ou seja, ter concebido e demonstrado realmente, ainda que com falhas e de modo fragmentário, a legalidade do capitalismo, de modo a poder fundamentar a teoria da mais-valia (da exploração), a consciência das contradições do capitalismo, tal como isso já se torna visível na dissolução da escola de Ricardo. É claro que não cabe falar aqui realmente de um retorno. Seu nexo não é tanto com os clássicos quanto com os epígonos decadentes, com os economistas vulgares, aqueles que eliminaram da teoria do capitalismo toda contradição e que interpretam os clássicos como se a sua própria superficialidade, que busca a todo custo a harmonia, constituísse realmente a essência da doutrina clássica (Lukács, 2020, p. 672, grifos nossos).
A passagem anterior traz à tona outra questão muito relevante para o entrelaçamento entre irracionalismo e o politicismo: o fato de que para formular sua propositura de administração política de ênfase jurídica, os ideólogos do capitalismo monopolista defendem um suposto “retorno aos clássicos da economia” como forma de adornar suas elaborações de um caráter pretensiosamente técnico e racional de tal forma que “A defesa atual – diretamente apologética – do capitalismo, renuncia, aparentemente, ao mito e ao irracionalismo” (Lukács, 2020, p. 673). A respeito dessa aparente renúncia ao irracionalismo perpetrada pelos ideólogos do capital monopolista o filósofo húngaro dirá que
segundo a forma, o modo de exposição, o estilo, trata-se aqui de uma cadeia argumentativa puramente conceitual e científica. Mas só aparentemente, pois o conteúdo dessas construções conceituais é a pura falta de conceito, a construção de conexões não existentes, a negação da legalidade real em função de conexões aparentes, reveladas imediatamente (livres de conceitos) pela imediaticidade da superfície da realidade econômica. Estamos, portanto, diante de uma nova forma de irracionalismo, que se caracteriza por sua aparência de racionalidade (Lukács, 2020, p. 673).
Aqui chegamos àquela que é, muito provavelmente, a principal contribuição teórica de todo o epílogo de A Destruição da Razão: a denúncia explícita de Lukács quanto ao tom e ao conteúdo das formas de consciência que marcam a renovação da apologia direta do modo de produção capitalista. Nosso autor denuncia o surgimento de uma “nova forma de irracionalismo” no período pós-guerra atrelada a formulações marcadas por sua “aparência de racionalidade” apesar de essencialmente serem completamente vazias de conteúdo - uma vez que não se propõem a compreender a realidade social de forma totalizante e radical, antes o contrário: em decorrência de seu caráter politicista invertem sujeito e predicado e, em última instância, impedem a reta apreensão da realidade e seus nexos causais, compreendendo-a pela aparência que se quer desta.
Não é casual, portanto, que as proposituras que marcam a “nova forma de irracionalismo”, conforme denunciado por Lukács, incorram na defesa da “técnica”, em um cientificismo formal e no aprimoramento das medidas de administração política como forma de atribuir a si mesmas uma aparência de cientificidade, de rigor metodológico e de comprometimento com a resolução dos problemas vividos na cotidianidade. Trata-se, em síntese, de uma tentativa de atribuir a tais elaborações uma aparência de racionalidade.
Parece-nos válido ressaltar a atualidade desta argumentação de Lukács para os dias de hoje, donde imperam propostas de resolução dos problemas sócio-econômicos calcadas no “aprimoramento de modelos de gestão estatal” e na “redução da corrupção”. Para que fique claro: não se trata de dizer que a melhoria das medidas de administração política e a redução da corrupção não tenham eficácia relativa diante dos problemas inerentes à própria ordem econômica. É evidente que o Estado pode - e deve - tomar determinadas medidas diante dos problemas sócio-econômicos, contudo, o que o Estado faz ou é capaz de fazer está circunscrito aos próprios limites ditados por sua base de sustentação objetiva, ou seja, as medidas de administração política acionadas estão limitadas à tarefa última de manutenção da sociabilidade capitalista. Assim sendo, o Estado possui “autonomia relativa” para atuar diante da dinâmica econômica capitalista, sendo, em última análise, apenas capaz de administrar tais problemas sem jamais resolvê-los radical e efetivamente (Paço Cunha, Mendes, Ferreira, 2023).
Conforme apresentado até aqui, nas formulações aparentemente racionais que marcam a “nova forma de irracionalismo”, os problemas de ordem econômica aparecem como algo fortuito, contingente, capazes de ser ultimamente resolvidos pela atuação estatal. Aí está, portanto, o vínculo entre a renovação do irracionalismo em sua “aparente racionalidade” e o politicismo: uma vez que os problemas sócio-econômicos vivenciados são preponderantemente tomados como resultado de políticas falhas e de modelos de gestão estatal ineficazes, a consequente proposta de resolução permanece enclausurada na esfera da política. Em suma, se os problemas vivenciados são primariamente tomados enquanto a consequência de erros de administração política, é esta última que deve ser reformulada. Não é casual, por conseguinte, o apelo constante a termos vagos como "técnica", "aprimoramento da gestão", enfim, uma série de conceitos que dão a estas formulações uma aparência de racionalidade e rigor conceitual. Ao fim e ao cabo, a tarefa última do ideário irracionalista é cumprida: a reta apreensão do vínculo entre os problemas sócio-econômicos e a lógica imanente de reprodução do capital é escanteada e, assim, fica aberto o caminho para a apologia do modo de produção capitalista, o qual desponta como o estágio último de desenvolvimento da humanidade restando tão somente a tarefa de administrá-lo, humanizá-lo ad infinitum. Nesses termos, não haveria, portanto, qualquer possibilidade de alteração radical da sociabilidade vigente.
Uma vez finalizada a discussão aqui pretendida, deixamos a seguinte indagação: passados tantos anos dos apontamentos e críticas apresentados por Lukács no epílogo de A Destruição da Razão, qual não seria sua atualidade para a análise crítica das formas de consciência dos atuais ideólogos do capital? E mais: qual não seria sua atualidade para o escrutínio das formulações teóricas angariadas pelo próprio campo da esquerda marcadas pela crença quase religiosa de que o Estado seria o agente capaz de resolver os problemas próprios da sociabilidade capitalista?
Feitos tais questionamentos, é necessário ainda indagar: até que ponto a esquerda atual não se tornou apologeta do capitalismo e do Estado burguês efetivando, no plano ideal, a renovação da “nova forma de irracionalismo” marcada por sua aparência de racionalidade, conforme denunciado por Lukács? E por fim: até que ponto a direita não tem efetivado a renovação de um irracionalismo cada vez mais vulgar, explícito, reacionário e comprometido com a criação de mitos? Parece-nos possível argumentar que esquerda hegemônica atual tem nutrido proposituras de administração política de horizontes cada vez mais conservadores posicionando-se - com questionável grau de eficácia e convencimento - enquanto defensora formal da possibilidade de manutenção e “humanização”, via intervenção estatal, do modo de produção capitalista enquanto a direita tem se posicionado cada vez mais como sendo supostamente “radical” e “anti-sistema” com um discurso calcado na defesa de termos vazios como “liberdade”, “livre iniciativa” e “menos Estado” - de forma falsa e fraseológica, não há dúvidas, mas isso pouco importa diante da inconteste eficácia e capacidade de convencimento de tais ideias. Parece, ao fim e ao cabo, que as duas alternativas hegemônicas que se colocam hoje são: esquerda de horizonte conservador versus direita reacionária, irracionalismo formal e aparentemente racional versus irracionalismo explícito, vulgar e ancorado em mitos.
Portanto, mais do que nunca, parece-nos crucial a defesa de uma perspectiva revolucionária de esquerda, uma perspectiva verdadeiramente comprometida com os interesses da classe trabalhadora, com a tarefa histórica de destruição do modo de produção capitalista e com a defesa da razão, em outros termos, com a decidida defesa da capacidade humana de efetivar a reta apreensão da realidade - apreensão esta, portanto, necessariamente radical ainda que do reconhecimento de seu caráter invariavelmente aproximado - pois somente apreendendo objetivamente a realidade em seus múltiplos nexos determinantes estaremos verdadeiramente habilitados a atuar conscientemente na realidade material visando alcançar os fins últimos desejados: a destruição do modo de produção capitalista e a construção ativa de uma outra forma de sociabilidade. Argumentamos, por fim, que a necessidade de renovação de uma esquerda verdadeiramente revolucionária se coloca como tarefa cada vez mais crucial porque, conforme nos alertou José Chasin em A Sucessão na Crise e a Crise na Esquerda, “quando a esquerda não rasga horizontes, nem infunde esperanças, a direita ocupa o espaço e draga perspectivas: é então que a barbárie se transforma em tragédia cotidiana” (Chasin, 1989, p. 121).
E a barbárie, há muito, já se fez cotidiana.
Referências
CHASIN, J. A “Politicização” da totalidade: oposição e discurso econômico. Revista Temas de Ciências Humanas. São Paulo: Editorial Grijalbo, n. 2, 1977.
CHASIN, J. A sucessão na Crise e a Crise na Esquerda. Ensaio 17/18. São Paulo: Editora Ensaio, 1989.
LUKÁCS, G. A Destruição da Razão. São Paulo: Instituto Lukács, 2020.
NETTO, J. P. Lukács e a crítica da filosofia burguesa. Lisboa: Seara Nova, 1978.
PAÇO CUNHA, E.; MENDES, G. P. A.; FERREIRA, R. V. Interação e Autonomia entre Estado e Capital: Uma Análise Baseada nos Membros da Câmara Brasileira da Indústria 4.0. Administração Pública e Gestão Social, [S. l.], v. 15, n. 3, 2023.
PAÇO CUNHA, E. Capacidades Estatais para Administração Política: Proposta Analítica Fundamentada na Ontologia Materialista. In: Encontro Nacional dos Programas de Pós-Graduação em Administração, 2021, Online. XLV Encontro da ANPAD. EnANPAD, 2021.
[1] Professor substituto do Departamento de Ciências Administrativas da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Membro da Equipe Editorial e integrante do Núcleo de Entrevistas da Revista Barravento. E-mail para contato: rodrigovieiraferreira98@gmail.com
[2] A formulação aparece originalmente na tese de doutoramento de José Chasin intitulada “O Integralismo de Plínio Salgado: forma de regressividade no capitalismo hipertardio”, a qual seria publicada em livro no ano de 1978 pela editora Ciências Humanas. Contudo, como a tese de Chasin somente foi defendida em dezembro de 1977 e publicada em livro no ano seguinte, a formulação é efetivamente levada à público de forma pioneira através do texto “A ‘Politicização’ da totalidade: oposição e discurso econômico”, publicado no segundo semestre de 1977 na 2° edição da Revista Temas em Ciências Humanas.
[3] Além dos "meios jurídicos" de administração política, o Estado burguês conta ainda com a possibilidade de acionamento de outros "meios gerais passíveis de derivação em diversos instrumentos específicos e amalgamados" tais como "medidas administrativas", "ação política" além da "ameaça ou efetivo emprego de armas" (Paço Cunha, 2021, p. 7).




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