Observações Críticas sobre a Questão Nacional: 4."AUTONOMIA CULTURAL NACIONAL”
- Murphy Stay
- 15 de dez. de 2025
- 17 min de leitura
Atualizado: 15 de dez. de 2025
Lenin
Tradução para o Português: Marco Túlio
Texto extraído e traduzido do marxists.org.*

A questão da palavra de ordem “cultura nacional” é de enorme importância para os marxistas, não só porque determina o conteúdo ideológico de toda a nossa propaganda e agitação sobre a questão nacional, distinta da propaganda burguesa, mas também porque todo o programa da tão discutida autonomia cultural nacional se baseia nessa palavra de ordem.
A principal e fundamental falha desse programa é que visa introduzir o nacionalismo mais refinado, mais absoluto e mais extremo. A essência desse programa é que cada cidadão seja registrado como pertencente a uma determinada nação, e que cada nação constitua uma entidade jurídica com o direito de impor tributação obrigatória aos seus membros, com parlamentos nacionais (Dietas) e secretários de Estado nacionais (ministros).
Tal ideia, aplicada à questão nacional, assemelha-se à ideia de Proudhon, aplicada ao capitalismo. Não abolindo o capitalismo e a sua base — a produção de mercadorias —, mas purgando essa base de abusos, de excrescências, e assim por diante; não abolindo a troca e o valor de troca, mas, pelo contrário, tornando-a “constitucional”, universal, absoluta, “justa” e livre de flutuações, crises e abusos — assim era a ideia de Proudhon.
Assim como Proudhon era pequeno-burguês, e a sua teoria converteu a troca e a produção de mercadorias numa categoria absoluta e exaltou-as como o ápice da perfeição, o mesmo acontece com a teoria e o programa da “autonomia cultural nacional” pequeno-burguesa; ao converter o nacionalismo burguês numa categoria absoluta, exalta-o como o ápice da perfeição e expurga-o da violência, da injustiça, etc.
O marxismo não pode conciliar-se com o nacionalismo, mesmo que seja do tipo “mais justo”, “mais puro”, mais refinado e civilizado. No lugar de todas as formas de nacionalismo, o marxismo promove o internacionalismo, a fusão de todas as nações na unidade superior, uma unidade que cresce diante dos nossos olhos a cada milha de linha ferroviária construída, a cada truste internacional e a cada associação de trabalhadores que é formada (uma associação internacional nas suas atividades econômicas, bem como nas suas ideias e objetivos).
O princípio da nacionalidade é historicamente inevitável na sociedade burguesa e, considerando seriamente essa sociedade, o marxismo reconhece plenamente a legitimidade histórica dos movimentos nacionais. Mas, para evitar que esse reconhecimento se torne uma apologia ao nacionalismo, deve-se limitá-lo estritamente ao que é progressivo em tais movimentos, a fim de que a ideologia burguesa não obscureça a consciência proletária.
O despertar das massas da letargia feudal e a sua luta contra toda a opressão nacional, pela soberania do povo e da nação são progressistas. Portanto, é o dever juramentado do marxismo defender o democratismo mais resoluto e coerente em todos os aspectos da questão nacional. Esta tarefa é, na sua maioria, negativa. Mas esse é o limite a que o proletariado pode ir para apoiar o nacionalismo, pois, além disso, começa a atividade “positiva” da burguesia esforçando-se para fortificar o nacionalismo.
Livrar-se do jugo feudal, de toda a opressão nacional e de todos os privilégios de que goza qualquer nação ou língua em particular é um dever imperativo do proletariado como força democrática, e é certamente do interesse da luta de classes proletária, obscurecida e retardada pela discussão sobre a questão nacional. Mas ir além desses contornos históricos estritamente limitados e definidos para auxiliar o nacionalismo burguês significa trair o proletariado e aliar-se à burguesia. Há aqui uma fronteira, muitas vezes bem estreita, que os bundistas e os nacionalistas-socialistas ucranianos perdem completamente de vista.
Combater toda a opressão nacional? Sim, claro! Lutar por qualquer tipo de desenvolvimento nacional, pela “cultura nacional”, em geral? Claro que não. O desenvolvimento econômico da sociedade capitalista apresenta-nos exemplos de movimentos nacionais imaturos em todo o mundo, exemplos da formação de grandes nações a partir de uma série de pequenas, ou em detrimento de algumas das pequenas, e também exemplos da assimilação de nações. O desenvolvimento da nacionalidade em geral é o princípio do nacionalismo burguês; daí a exclusividade do nacionalismo burguês, daí a interminável disputa nacional. O proletariado, porém, longe de se empenhar em defender o desenvolvimento nacional de todas as nações, pelo contrário, adverte as massas contra tais ilusões, defende a mais plena liberdade das relações capitalistas e acolhe toda a espécie de assimilação das nações, exceto a que se baseia na força ou no privilégio.
Consolidar o nacionalismo no interior de uma certa esfera “justamente” delimitada, “constitucionalizar” o nacionalismo e assegurar a separação de todas as nações umas das outras por meio de uma instituição estatal especial — tal é o fundamento ideológico e o conteúdo da autonomia cultural nacional. Essa ideia é completamente burguesa e completamente falsa. O proletariado não pode apoiar qualquer consagração do nacionalismo; pelo contrário, apoia tudo que ajude a obliterar as distinções nacionais e a eliminar as barreiras nacionais; apoia tudo o que torna os laços entre nacionalidades cada vez mais estreitos ou tende a fundir nações. Agir de forma diferente significa aliar-se ao filistinismo nacionalista reacionário.
Quando, no seu Congresso em Brunn[2] (em 1899), os Social-Democratas austríacos discutiram o plano de autonomia cultural nacional, praticamente nenhuma atenção foi dada a uma avaliação teórica deste plano. É, no entanto, digno de nota que os seguintes argumentos foram levantados contra este programa: (1) tenderia a reforçar o clericalismo; (2) “o seu resultado seria a perpetuação do chauvinismo, a sua introdução em todas as pequenas comunidades, em todos os pequenos grupos” (p. 92 do relatório oficial do Congresso de Brunn, em alemão. Uma tradução russa foi publicada pelo Partido Nacionalista judeu, o J. S. L. P.[3]).
Não pode haver dúvida de que hoje em dia, a “cultura nacional”, no sentido comum do termo, ou seja, escolas, etc., está predominantemente sob a influência do clero e dos chauvinistas burgueses em todos os países do mundo. Quando os bundistas, ao defenderem a autonomia “cultural nacional”, diziam que a constituição das nações manterá a luta de classes dentro delas limpa de qualquer consideração estranha, então isso é manifestamente um sofisma ridículo. Em qualquer sociedade capitalista, é sobretudo na esfera econômica e política que se desenvolve uma luta de classes séria. Separar a esfera da educação disso é, em primeiro lugar, absurdamente utópico, porque as escolas (como a “cultura nacional”, em geral) não podem ser separadas da economia e da política; em segundo lugar, é a vida econômica e política de um país capitalista que necessita, a cada passo, do esmagamento das barreiras e preconceitos nacionais absurdos e ultrapassados, enquanto a separação do sistema escolar e afins só perpetuaria, intensificaria e fortaleceria o clericalismo “puro” e o chauvinismo burguês “puro”.
Nos conselhos de administração das sociedades por ações, encontramos capitalistas de diferentes nações reunidos em completa harmonia. Nas fábricas, trabalhadores de diferentes nações trabalham lado a lado. Em qualquer questão política realmente séria e profunda, os lados são tomados segundo as classes, não segundo as nações. Tirar a educação escolar e afins do controle estatal e colocá-la sob o controle das nações é, de fato, uma tentativa de separar da economia, que une as nações, a esfera mais altamente ideológica da vida social, a esfera na qual a cultura nacional “pura” ou o cultivo nacional do clericalismo e do chauvinismo tem o movimento mais desinibido.
Na prática, o plano de autonomia “extraterritorial” ou “cultural nacional” só poderia significar uma coisa: a divisão dos assuntos educativos segundo a nacionalidade, ou seja, a introdução das cúrias nacionais nos assuntos escolares. Pensamento suficiente acerca do real significado do famoso plano do Bund permitirá compreender o quanto ele é totalmente reacionário, mesmo do ponto de vista da democracia e mais ainda do ponto de vista da luta de classes proletária pelo socialismo.
Um simples exemplo e um simples esquema da “nacionalização” do sistema escolar tornarão este ponto mais claro. Nos Estados Unidos da América, a divisão dos Estados em norte e sul mantém-se até hoje em todos os elementos da vida; os primeiros possuem as principais tradições de liberdade e de luta contra os proprietários de escravos; os últimos possuem as principais tradições de propriedade de escravos, sobrevivendo à perseguição dos negros, os quais são economicamente oprimidos e culturalmente atrasados (44% dos negros são analfabetos e somente 6% dos brancos), e assim por diante. Nos estados do norte, as crianças negras frequentam as mesmas escolas que as crianças brancas. No sul, existem escolas “nacionais” ou raciais, como quiserem, para crianças negras. Penso que esse é o único exemplo de uma verdadeira “nacionalização” das escolas.
Na Europa Oriental existe um país onde coisas como o caso Beilis[4] ainda são possíveis, e os judeus são condenados pelos purishkeviches a uma condição pior do que a dos negros. Nesse país, um regime de nacionalização das escolas judaicas foi recentemente debatido no Ministério. Felizmente, esta utopia reacionária não é mais provável de ser concretizada do que a utopia da pequena burguesia austríaca, que perdeu a esperança de alcançar uma democracia consistente ou de pôr fim às disputas nacionais, inventando compartimentos de educação escolar para evitar que as nações disputassem a distribuição das escolas… Mas “constituíram” para si disputa eterna entre uma “cultura nacional” e outra.
Na Áustria, a ideia de autonomia cultural nacional manteve-se em grande parte uma fuga literária fantasiosa, que os próprios sociais-democratas austríacos não levaram a sério. Na Rússia, no entanto, foi incorporada aos programas de todos os partidos burgueses judeus e de vários elementos oportunistas pequeno-burgueses nas diferentes nações — por exemplo, os bundistas, os liquidacionsistas no Cáucaso e a Conferência dos partidos nacionais russos da tendência Narodnik de esquerda (essa conferência, mencionaremos entre parênteses, teve lugar em 1907, sua decisão tendo sido adotada com abstenção por parte dos Socialistas-Revolucionários russos[5] e do P. S. P.[6], os social-patriotas poloneses). A abstenção de voto é um método surpreendentemente característico dos Socialistas-Revolucionários e do P. S. P., quando querem mostrar a sua atitude perante uma questão de princípio muito importante no âmbito do programa nacional!).
Na Áustria, foi Otto Bauer o principal teórico da “autonomia cultural nacional”, que dedicou um capítulo especial do seu livro para provar que tal programa não pode ser proposto para os judeus. Na Rússia, porém, é precisamente entre os judeus que todos os partidos burgueses — e o Bund que os ecoa — adotaram este programa.[1] O que isso mostra? Mostra que a história, através da prática política de outro Estado, expôs o absurdo da invenção de Bauer, exatamente da mesma forma que os bernsteinianos russos (Struve, Tugan-Baranovsky, Berdayev e Co.), por meio da sua rápida evolução do marxismo ao liberalismo, expuseram o verdadeiro conteúdo ideológico do bernsteinismo alemão.[7]
Nem os Social-Democratas austríacos, nem os russos incorporaram a autonomia “cultural nacional” ao seu programa. No entanto, os partidos burgueses judeus num país mais atrasado, e uma série de pequenos-burgueses, os chamados grupos socialistas, adotaram-no a fim de difundir as ideias do nacionalismo burguês entre a classe operária de uma forma refinada. Este fato fala por si.
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Uma vez que temos de abordar o programa austríaco sobre a questão nacional, devemos reafirmar uma verdade frequentemente distorcida pelos bundistas. No Congresso de Brunn um programa puro de “autonomia cultural nacional” foi apresentado. Esse foi o programa dos Social-Democratas eslavos do Sul, no qual se lê no 2º parágrafo: “cada nação que vive na Áustria, independentemente do território ocupado pelos seus membros, constitui um grupo autônomo que gere todos os seus assuntos nacionais (linguísticos e culturais) de forma bastante independente”. O programa foi apoiado não só por Kristan, mas também pelo influente Ellenbogen. Mas foi retirado; nem um único voto foi dado a seu favor. Um programa territorialista foi adotado, i. e., um que não criava nenhum grupo nacional “independentemente do território ocupado pelos membros da nação”.
A cláusula 3 do programa adotado diz: “as regiões autoadministradas de uma mesma nação formarão conjuntamente uma associação unida nacionalmente, que gerirá os seus assuntos nacionais numa base absolutamente autônoma” (cf. Prosveshcheniye, 1913, No. 4, p. 28[8]). É evidente que este programa de conciliação também está errado. Um exemplo ilustrará isso. A comunidade de colonos alemães em Saratov, Gubernia, mais o subúrbio operário alemão de Riga ou Lodz, mais o conjunto habitacional alemão perto de São Petersburgo, etc., constituiriam uma “associação unida nacionalmente” de alemães na Rússia. É evidente que os Sociais-Democratas não podem reivindicar tal coisa ou garantir tal associação, embora, é claro, não neguem nenhuma liberdade de associação de qualquer tipo de associação, incluindo associações de quaisquer comunidades de qualquer nacionalidade num determinado Estado. A segregação, por uma lei do Estado, dos alemães, etc., em diferentes localidades e de diferentes classes na Rússia, em uma única associação nacional alemã pode ser praticada por qualquer pessoa — padres, burgueses ou filisteus, mas não por Social-Democratas.
*Revista Barravento: optamos por deixar o link das notas vinculadas ao site do qual o texto foi extraído.
Notas
[1] Que os bundistas muitas vezes negam veementemente que todos os partidos burgueses judeus aceitaram que a “autonomia cultural nacional” é compreensível. Este fato expõe de forma demasiado flagrante o papel que o Bund desempenha. Quando o Sr. Manin, bundista, tentou, em Luch[9] repetir sua negação, ele foi totalmente exposto por N. Skop (ver Prosveshcheniye N. o 3[10]). Mas quando o Sr. Lev Yurkevich, em Dzvin (1913, N. 7-8, p. 92), cita a declaração de N. Sk no Prosveshcheniye (No. 3, p. 78) de que “os bundistas, juntamente com todos os partidos e grupos burgueses judeus, defendem há muito tempo a autonomia cultural nacional” e distorce essa declaração ao abandonar a palavra “bundistas”, e substituir as palavras “direitos nacionais” pelas palavras “autonomia nacional-cultural”, só se pode levantar as mãos com espanto! O Sr. Lev Yurkevich não é somente um nacionalista, não só um ignorante espantoso em matéria de história dos Social-Democratas e do seu programa, mas um falsificador de citações em benefício do Bund. Os assuntos do Bund e dos yurkeviches devem estar em mau estado! — Lenin
[2] Refere-se ao Congresso do Partido Social-Democrata austríaco realizado em Brunn (Áustria) de 24 a 29 de setembro de 1899 (novo estilo). A questão nacional era o ponto principal da ordem do dia. Foram apresentadas ao Congresso duas resoluções com diferentes pontos de vista: (1) a resolução do Comitê Central do partido, que apoia a ideia da autonomia territorial das nações, e (2) a resolução do Comitê do Partido Social-Democrata Eslavo do Sul que apoia a ideia da autonomia cultural nacional extraterritorial. O Congresso rejeitou por unanimidade o programa de autonomia cultural nacional e adotou uma resolução de compromisso que reconhece a autonomia nacional no interior das fronteiras do Estado austríaco. (Ver o artigo de Lenin “uma contribuição para a história do Programa nacional na Áustria e na Rússia”, p. 36 deste volume). [N. T.]
[3] J. S. L. P. (Partido Trabalhista Socialista Judaico) — organização nacionalista pequeno-burguesa, fundada em 1906. O seu programa baseava-se na exigência de autonomia nacional para os judeus — a criação de parlamentos judaicos extraterritoriais autorizados a resolver questões relativas à organização política dos judeus na Rússia. O J. S. L. P. manteve-se próximo dos Socialistas-Revolucionários, com os quais travou uma luta contra o POSDR
[4] O caso Beilis — julgamento provocativo planejado pelo governo czarista em 1913, em Kiev. Beilis, um judeu, foi falsamente acusado de ter assassinado um menino cristão chamado Yushchinsky para fins rituais (na verdade, o assassinato foi organizado pelas Centúrias Negras). O objetivo dessa farsa era fomentar o antissemitismo e incitar pogroms [movimento organizado visando ao extermínio de certas coletividades - nota do tradutor] para desviar as massas do crescente movimento revolucionário. O julgamento despertou grande sentimento público. As manifestações de protesto dos trabalhadores foram realizadas em várias cidades. Beilis foi absolvido.
[5] Socialistas-Revolucionários — partido pequeno-burguês na Rússia, que surgiu no final de 1901 e início de 1902 como resultado de uma fusão de vários grupos e círculos populistas. Os SR não viam distinções de classe entre o proletário e o pequeno proprietário, minimizavam a diferenciação de classe e os antagonismos no interior do campesinato e recusavam-se a reconhecer o papel dirigente do proletariado na revolução. Os seus pontos de vista eram uma mistura eclética das ideias do narodismo e do revisionismo. Nas palavras de Lenin, eles tentaram consertar “as rendas nas ideias dos Narodniks com pedaços de uma “crítica” oportunista do marxismo que estava na moda” (Ver presente edição, Vol. 9, p. 310).
O programa agrário dos Socialistas-Revolucionários previa a abolição da propriedade privada da terra, que deveria ser transferida para a comuna da aldeia com base no “princípio do trabalho” e na “posse igualitária da terra” e também o desenvolvimento de cooperativas. Este programa, que os SR chamaram de “socialização da terra”, não tinha nada de socialista. Na sua análise deste programa, Lenin mostrou que a preservação da produção mercantil e da agricultura privada em terras comunais não acabaria com a dominação do capital nem libertaria o campesinato trabalhador da exploração e do empobrecimento. Nem as cooperativas poderiam ser um remédio para os pequenos agricultores sob o capitalismo, pois serviam somente para enriquecer a burguesia rural. Ao mesmo tempo, como salientou Lenin, a exigência de uma posse igualitária da terra, embora não socialista, era de carácter progressista, democrático-revolucionário, enquanto era dirigida contra o latifundiário reacionário.
O Partido Bolchevique expôs as tentativas dos SR de se passarem por socialistas. Travou uma luta obstinada contra eles pela influência sobre o campesinato e revelou os danos que a sua táctica de terrorismo individual causava ao movimento operário. Ao mesmo tempo, os bolcheviques, em termos definidos, celebraram acordos temporários com os socialistas-revolucionários para combater o czarismo.
A instabilidade política e ideológica e a incoerência organizativa do Partido Socialista-Revolucionário, bem como a sua constante vacilação entre a burguesia liberal e o proletariado, deveram-se à ausência de homogeneidade de classe entre os camponeses. Durante a Primeira Revolução Russa, a ala à direita dos SR separou-se do partido e formou o legal Partido Socialista Popular Trabalhista, cujas opiniões eram próximas das dos Democratas Constitucionais (Cadetes), enquanto a ala à esquerda se separou e formou uma liga semi-anarquista de “maximalistas”. Durante o período da reação de Stolypin, o Partido Socialista-Revolucionário sofreu uma completa quebra ideológica e organizativa. Durante a Primeira Guerra Mundial, a maioria dos seus membros assumiu uma posição social-chauvinista.
Depois da revolução democrático-burguesa de fevereiro de 1917, os socialistas-revolucionários, juntamente com os mencheviques e os cadetes, foram o esteio do Governo Provisório contrarrevolucionário da burguesia e dos latifundiários. Os líderes do partido SR — Kerensky, Avksentyev e Chernov — eram membros deste gabinete. O Partido SR recusou-se a apoiar a exigência dos camponeses pela abolição dos latifundiários e defendeu a preservação das suas propriedades. Os membros SR do Governo Provisório autorizaram uma ação punitiva contra os camponeses que haviam tomado posse de terras.
No final de novembro de 1917, a ala esquerda do Partido SR formou um partido independente de Socialistas-Revolucionários de Esquerda que, num esforço para preservar a sua influência entre as massas camponesas, reconheceu formalmente o domínio soviético e celebrou um acordo com os bolcheviques. Em pouco tempo, porém, iniciaram uma luta contra os soviéticos.
Durante os anos de intervenção estrangeira e da Guerra Civil, os SR exerceram atividades subversivas contrarrevolucionárias. Apoiaram ativamente os intervencionistas e os guardas brancos, participaram em conspirações contrarrevolucionárias e organizaram atos terroristas contra os dirigentes do Estado soviético e do Partido Comunista. Após a Guerra Civil, os SR prosseguiram com suas atividades antissoviéticas no interior do país e no campo dos emigrados brancos.
[6] O Partido Socialista Polonês (Polska Partia Socjalistyczna) — organização nacionalista reformista fundada em 1892. Adotando a palavra de ordem de luta por uma Polônia independente, o PSP, sob Pilsudski e os seus adeptos, fez propaganda nacionalista separatista entre os trabalhadores poloneses, tentando desviá-los da luta conjunta com os trabalhadores russos contra a autocracia e o capitalismo. Ao longo da história do PSP, grupos de esquerda continuaram a surgir no interior do partido, como resultado das atividades dos trabalhadores de base. Alguns desses grupos acabaram por se juntar à ala revolucionária do movimento operário polonês.
Em 1906, o partido dividiu-se na ala esquerda do PSP e na ala direita, chauvinista (a chamada “facção revolucionária”). Sob a influência dos bolcheviques e do Partido Social-Democrata da Polônia e da Lituânia, a ala esquerda adotou gradualmente uma posição revolucionária coerente.
Durante a Primeira Guerra Mundial, alguns dos esquerdistas do PSP adotaram uma posição internacionalista. Em dezembro de 1918, o partido uniu-se aos Social-Democratas da Polônia e da Lituânia para formar o Partido Comunista dos Trabalhadores da Polônia (como o Partido Comunista da Polônia era conhecido até 1925).
Durante a Primeira Guerra Mundial, a ala direita do PSP continuou a sua política de chauvinismo nacional, organizando legiões polonesas no território da Galiza para lutar ao lado do imperialismo austro-alemão. Com a formação do Estado burguês polonês, o PSP de direita, em 1919, uniu-se às organizações do PSP existentes nos territórios polacos anteriormente tomados pela Alemanha e pela Áustria e retomou o nome do PSP. À frente do governo, organizou a transferência de poder para a burguesia polonesa, conduziu sistematicamente a propaganda anticomunista e apoiou uma política de agressão contra a União Soviética, uma política de conquista e opressão contra a Ucrânia ocidental e a Bielorrússia ocidental. Vários grupos do PSP que discordavam dessa política juntaram-se ao Partido Comunista da Polônia.
Depois do golpe de Estado fascista de Pilsudski (maio de 1926), o PSP foi nominalmente uma oposição parlamentar, mas, na verdade, não travou nenhuma luta ativa contra o regime fascista e continuou a sua propaganda anticomunista e antissoviética. Durante esse período, os elementos de esquerda do PSP colaboraram com os comunistas poloneses e apoiaram as tácticas da Frente Única numa série de campanhas.
Durante a Segunda Guerra Mundial, o PSP voltou a dividir-se. A sua facção reacionária e chauvinista, que assumiu o nome de Liberdade, Igualdade, Independência, participou no reacionário “governo” polonês emigrado em Londres. A facção de esquerda, que se autodenominava Partido dos Trabalhadores Socialistas Poloneses, sob a influência do Partido dos Trabalhadores Polacos, fundado em 1942, juntou-se à frente popular contra os invasores nazistas, lutou pela libertação da Polônia e prosseguiu uma política de relações amistosas com a URSS.
Em 1944, após a libertação dos territórios orientais da Polônia e a formação de um Comitê Polonês de Libertação Nacional, o Partido dos Trabalhadores Socialistas Poloneses retomou o nome de PSP e, juntamente com o Partido dos Trabalhadores Polacos, participou na construção de uma Polônia democrático-popular. Em dezembro de 1948, os dois partidos se amalgamaram e formaram o Partido dos Trabalhadores Unidos da Polônia.
[9] Luch (Ray) — diário legal dos liquidacionistas mencheviques, publicado em São Petersburgo de 16(29) de setembro de 1912 a 5(18) de julho de 1913. Publicaram 237 questões. O jornal foi mantido principalmente por contribuições dos liberais. A liderança ideológica era dos bandos de P. B. Axelrod, F. I. Dan, L. Martov e A. S. Martynov. Os liquidacionistas usaram as colunas deste jornal para se oporem à táctica revolucionária dos bolcheviques, defenderem a palavra de ordem oportunista de um “partido aberto”, atacarem as greves revolucionárias de massas dos trabalhadores e tentarem rever os pontos mais importantes do programa do partido. Lênin escreveu que Luch foi “escravizado por uma política liberal” e chamou o jornal de porta-voz dos renegados.
[10] Prosveshcheniye (Iluminação) — jornal legal bolchevique, teórico e mensal, publicado em São Petersburgo de dezembro de 1911 a junho de 1914, com uma tiragem de até cinco mil exemplares.
Fundado por iniciativa de Lenin para substituir a revista Mysl, um jornal bolchevique fechado pelo governo czarista. Outros trabalhadores da nova revista foram V. V. Vorovsky, A. I. Ulyanova-Yelizarova, N. K. Krupskaya, entre outros. Lenin recrutou os Serviços de Maxim Górki para dirigir a seção literária do jornal. Lenin dirigiu Prosveshcheniye de Paris e, posteriormente, de Cracóvia e Poronin. Ele editava artigos e se correspondia regularmente com a equipe editorial. O jornal publicou os seguintes artigos de Lenin: “as três fontes e as três partes componentes do marxismo”, “observações críticas sobre a questão nacional”, “o direito das nações à autodeterminação”, “ruptura da unidade sob a cobertura de protestos pela unidade”, entre outros.
O jornal expôs os oportunistas — liquidacionistas, otzovistas e os trotskistas, bem como os nacionalistas burgueses. Destacou a luta da classe operária em condições de um novo surto revolucionário, propagandeou palavras de ordem bolcheviques na quarta campanha eleitoral da Duma e se manifestou contra o revisionismo e o centrismo nos partidos da Segunda Internacional. O jornal desempenhou um papel importante na educação internacionalista marxista dos trabalhadores mais avançados da Rússia.
Às vésperas da Primeira Guerra Mundial, Prosveshcheniye foi fechado pelo governo czarista. Retomou a publicação no outono de 1917, mas somente uma edição (dupla) apareceu, contendo “os bolcheviques podem reter o poder do Estado?” e “uma revisão do programa do partido”.
[7] Bernsteinismo — uma tendência antimarxista na social-democracia internacional. Surgiu no final do século XIX na Alemanha e tinha o nome do social-democrata oportunista alemão Eduard Bernstein. Após a morte de F. Engels, Bernstein defendeu publicamente a revisão da teoria revolucionária de Marx no espírito do liberalismo burguês (ver seu artigo “problemas do socialismo” e seu livro As premissas do socialismo e as tarefas da Social-Democracia) numa tentativa de converter o Partido Social-Democrata num partido pequeno-burguês de reformas sociais. Na Rússia, essa tendência foi representada pelos “marxistas legais”, pelos economicistas, pelos bundistas e pelos mencheviques.
[8] Lenin refere-se ao artigo de Stalin “marxismo e a questão nacional” publicado no jornal legal bolchevique Prosveshcheniye 3, 4 e 5 de 1913, sob o título “A questão nacional e a Social-Democracia”. O Capítulo 4 do artigo de Stalin cita o texto do Programa Nacional adotado no Congresso Brunn do Partido Social-Democrata austríaco.
Segue abaixo a introdução do Marxist’s Internet Archive
Observações críticas sobre a questão nacional [1]
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Escrito: entre outubro e dezembro de 1913.
Publicado: 1913, na revista Prosveshcheniye, números 10, 11 e 12. Assinado: V. Ilyin. Publicado conforme o texto da revista.
Fonte: Lenin Collected Works, Progress Publishers, 1972, Moscou, Volume 20, páginas 17-51.
Traduzido: Bernard Isaacs e o falecido Joe Fineberg
Transcrição\Marcação: R. Cymbala
Domínio público: Lenin Internet Archive (2004). Você pode copiar, distribuir, exibir e executar este trabalho livremente, bem como criar trabalhos derivados e comerciais. Por favor, cite “Marxists Internet Archive” como sua fonte.
Notas
[1] O artigo “Observações críticas sobre a questão nacional” foi escrito por Lenin entre outubro e dezembro de 1913 e publicado no mesmo ano na revista legal bolchevique Prosveshcheniye, números 10, 11 e 12.
O artigo foi precedido por palestras sobre a questão nacional que Lenin proferiu em várias cidades suíças — Zurique, Genebra, Lausanne e Berna — no verão de 1913.
No outono de 1913, Lenin fez um relatório sobre a questão nacional na Conferência “de Agosto” (“de Verão”) do Comitê Central do POSDR com os trabalhadores do partido. Uma resolução sobre o relatório redigido por Lenin foi adotada. Após a conferência, Lenin começou a trabalhar em seu artigo “Observações críticas sobre a questão nacional”.




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