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O segundo turno e as memórias de um país que ainda não morreu

há 3 horas
19 min de leitura
Divulgação/CNTTL
Divulgação/CNTTL

Chegamos ao segundo turno das eleições presidenciais de 2026. A angústia tornou-se ainda maior depois da apuração das urnas no domingo do primeiro turno. Se é evidente que, a despeito do resultado eleitoral, a disputa presidencial não coloca na ordem do dia qualquer grande transformação positiva nas bases econômicas do país, é bem verdade também que, com a vitória de Flávio Bolsonaro, nos aproximamos perigosamente do limite entre a vida e a morte de amplas camadas da população brasileira. E para que não permaneça qualquer dúvida para o leitor menos atento, é preciso dizer logo de início: todo e qualquer esforço deve ser direcionado para a reeleição de Lula.



O bolsonarismo encontra-se hoje muito mais experiente que na época em que Jair governava. Lembremos que o patriarca da caterva começou seu governo não apenas ameaçando varrer os “vermelhos” do país, mas também reunindo manifestações golpistas massivas contra o STF e o então presidente da Câmara de deputados, Rodrigo Maia. Diante de seu público enfurecido, proclamava aos berros: “Não queremos negociar nada!”. Evidentemente, a oposição do STF e de Rodrigo Maia era tão oportunista e circunstancial que poderia ter sido facilmente dissuadida com algumas moedas de ouro. Mas a urgência das pretensões golpistas de Jair o levou até às últimas consequências, conquistando inimigos maiores do que poderia derrotar naquele momento. Com a calamidade criada pela pandemia, ao que tudo indica, ele resolveu se acomodar elegendo Arthur Lira como presidente da Câmara e transferir decisivamente o poder sobre o orçamento ao covil parlamentar.


Certamente, a história dos planos golpistas de Bolsonaro pai, que não se resume ao 8 de janeiro de 2023, além do provável auxílio fornecido pela extrema direita mundial, é algo que ainda está por ser estudado e escrito. Até mesmo o campo progressista evita restabelecer a verdade sobre os fatos na medida em que o desvelamento de tal tragédia pode incriminar muitas das instituições e personalidades hoje tomadas como “democráticas”. Entretanto, o que se deve destacar aqui é o fato de que, como herança, Flávio está experimentado no golpismo e já falou publicamente da hipótese de “uso da força”.


O seu alinhamento direto e aberto com o recrudescimento da política de Trump de submissão de toda a América aos Estados Unidos revela ainda mais a disposição de Flávio em fazer o que for necessário para se tornar uma opção de gestão política para o capital no Brasil. A interferência estadunidense nas eleições nacionais parece ser uma realidade a essa altura dos fatos, ainda que não possamos, por ora, conhecer com detalhes a profundidade e os meios empregados para tal ingerência. Além disso, desde de que Nayib Bukele transformou El Salvador em um protetorado autocrático e policial dos Estados Unidos, toda a canalha liberal latino-americana se assanhou diante da possibilidade de repetir tal modelo em seus países – algo difícil de ser plenamente empregado, é verdade, já que as grandes e médias repúblicas da América do Sul apresentam uma complexidade econômica e política muito maior que a pequena El Salvador.


De todo modo, não se trata de fazer previsões sobre um futuro fechamento de regime sob a presidência bolsonarista. A questão aqui é apontar como Flávio dispõe de uma miríade de opções para uma gestão autocrática do Brasil. Isso se dá, sobretudo, diante de três fatores: forças militares completamente alinhadas aos Estados Unidos e dispostas a impor uma ordem sanguinária sobre o próprio povo; uma esquerda desarmada material e ideologicamente; e o bravateiro argumento estadunidense sobre o caráter terrorista dos conglomerados capitalistas de venda ilegal de drogas – uma tese que encontra eco em amplas camadas da população castigadas pela violência cotidiana.


Com a entrada dos anos 2000, a vida social latinoamericana havia encontrado uma relativa estabilidade política (levada a cabo, na maioria dos países, pelos chamados governos progressistas) e sua miséria social, sem ser superada, parecia ser administrada eficientemente. Porém, a possibilidade dessa estabilidade – iniciada na década de 1980, quando as ditaduras militares do Cone Sul deixaram de ser necessárias para a manutenção do controle econômico estadunidense, já que o “perigo vermelho” estava arrefecido pela decadência sócio-política do bloco soviético – foi sendo soterrada pelas permanentes convulsões econômicas do capitalismo mundial das últimas décadas. Além do mais, o inegável poderio econômico da China fez da exportação de capitais chineses por todo o mundo um fator de pressão sobre os Estados Unidos. Como resposta, a nação yankee ergueu o seu velho big stick sobre a América latina, fazendo ruir, mesmo para as mentes mais apatetadas, as ilusões sobre cooperação e multilateralismo internacional.


Um amplo descontentamento assola a maior parte das camadas trabalhadoras, estabelecendo um pessimismo generalizado em relação às condições de vida futuras. O achatamento dos rendimentos dos trabalhadores na últimas cinco décadas (inclusive em alguns dos países centrais do capitalismo) e a evidente degradação das condições de trabalho – também resultante de certas mudanças na malha produtiva do capitalismo atual, o que implica na derrubada de diversas barreiras legais impostas à voracidade do capital –, fornece uma base sólida para aquilo que os politólogos chamam de “onda conservadora” no mundo. Além disso, tais condições fazem com que, no caso do Brasil, o menor índice de desemprego da série histórica não seja sentido pela maior parte da população como um ganho do governo da situação, de modo que o simples alardeamento da melhoria dos índices econômicos não implica automaticamente a sua aprovação popular.


As formas mais decadentes e brutais de irracionalismo – por vezes apelidada de Dark Enlightenment – saltam para fora dos fóruns de internet e são entoadas publicamente por canalhas da estirpe de Curtis Yarvin, Nick Land e Alex Karp. A liberdade prometida pelo mundo burguês transforma-se no pior pesadelo do indivíduo premido pelo alto nível de degradação social a que chegou o capitalismo. Pululam por aí, eivados de princípios racistas e eugenistas, projetos de uma sociedade gerida pela assim chamada inteligência artificial, de um mundo governado pela despótica tecnocracia de um “CEO-monarca”. Caso adquira a proporção de uma ideologia de massas, tais projetos prometem ser muito piores que o fascismo do século XX. O irracionalismo reacionário de nossos dias (guardadas suas particularidades nacionais), se muitas vezes faz referências e acenos à iconografia de Mussolini, à eloquência de Hitler ou à propaganda de Goebbels, está diante de desafios muito maiores impostos pelo modo de produção capitalista e ergue-se sobre uma base material muito mais avançada que o antigo nazi-fascismo.


A particularidade do problema brasileiro


Todos esses dilemas sociais não são minimamente compreensíveis sem que a base econômica de onde eles brotam seja ao menos tangenciada. A longa estagnação econômica do capitalismo brasileiro e a renovação permanente da ilusão de que o país pode ter um futuro promissor seguindo pelo mesmo caminho de sempre – ainda que com ajustes aqui e ali – não só proporcionam rearranjos e acomodações no campo político como também criam outras formas ideológicas repletas de medo, indignação e reacionarismo. Assim, o “ódio” e o “ressentimento” bolsonaristas – materialmente inexplicáveis para o progressismo pueril – e a “polarização política” (essa explicação mágica dada pelo cinismo liberal, que hipostasia a política em relação à economia) ocultam as complexas formas de consciência pelas quais os indivíduos buscam dar soluções mais desesperadas para dilemas sociais brasileiros, que são também, em grande medida, os dilemas sociais globais.

Não nos enganemos, a luta de classes nunca pode ser reduzida simplesmente à caricata imagem do operário fabril de macacão em greve contra o capitalista industrial de fraque e cartola. Desde sempre ela toma as mais diversas e complexas formas no campo das ideias sociais, onde não só trabalhadores fabris e capitalistas industriais tem sua visão de mundo demarcadas, como também as amplas e mais variadas frações do proletariado, da burguesia, do campesinato e da infinidade de camadas e setores sociais – da burocracia estatal ao lumpemproletariado – são representados.


Como disse Marx em determinada ocasião, assim como a religião é o sumário das lutas teóricas da humanidade, o Estado político – e a luta política que dele e por ele se depreende – é o sumário de suas lutas práticas. O furibundo apoio de pastores evangélicos a Flávio, a batalha em torno da Santa padroeira e apelo à salvação da “família tradicional” das garras da “ideologia de gênero” não podem ser atribuídas meramente por um conservadorismo histriônico que se apoia sobre si mesmo. Tal conservadorismo possuí raízes muito profundas nas condições de vida de amplas camadas sociais. Justamente por isso é que ele se torna mobilizador, porque coloca na ordem do dia as necessidades – ainda que mistificadas – desses indivíduos. Como sempre, é preciso responder aos chamados “interesses materiais”.


As campanhas presidenciais das décadas de 2000 e 2010 – essas peças de pura marquetagem, típicas de um estágio profundamente manipulatório do capitalismo – falham a olhos vistos. Os debates presidenciais, pretensamente “racionais” e respeitosos, na televisão eram um amontoado de platitudes e mensagens cifradas que buscavam conciliar o inconciliável: as necessidades do deus Mercado e as angústias do povo. As eleições de 2026 provam que tudo isso ruiu. Os debates não acontecem e o bolsonarismo fala diretamente com seu eleitorado. Se a comunicação de massas no Brasil passa efetivamente das mãos da Rede Globo para as redes sociais – nas quais o bolsonarismo conta com a simpatia da governança algorítmica dos capitalistas proprietários dessas redes –, os discursos podem assumir um caráter ainda mais cínico ao serem direcionados para públicos específicos, sem uma suposta “lógica interna”, ou melhor, sem que os interesses sociais inconciliáveis precisem ser organizados por um malabarismo retórico.


Em reunião reservada, Flávio promete seu “tesouraço” à la Javier Milei aos eminentes burgueses brasileiros, enquanto no TikTok, dá o mais reacionário dos encaminhamentos para a justa revolta popular contra o “sistema”, isto é, contra o Estado. Na urna, cada cabeça vale um voto. Se os capitalistas são minoria, as promessas a eles devem ser feitas em jantares reservados. Para as massas, é preciso prometer coisas menos impopulares, é preciso prometer que não haverá prejuízo aos programas sociais. Caso seja eleito, aí sim a força da grana passa a imperar.


Embaralhando e articulando elementos da realidade, o bolsonarismo abraça a consciência irada das massas e apresenta com tranquilidade os interesses do capital – que só podem resultar na fome de milhares – como interesses populares. Isso tem fundamento na própria realidade, já que milhões de trabalhadores encontram-se “subutilizados” e em empregos “informais”. A “liberdade de empreender” e o ódio à CLT varguista são motes que ocultam a intensificação da exploração da força de trabalho, que funcionam como medida desesperada para trabalhadores desesperados de uma economia capitalista estagnada. Nesse âmbito, o “salário por hora trabalhada” surge como a panacéia de Flávio.


Se formos nos guiar pela tendência histórica contemporânea de pressão negativa sobre a massa salarial no Brasil – que inclusive, explica, em grande medida, a crise política aberta a partir do governo de Dilma Rousseff – é possível apostar que Flávio terá como algo central de seu governo aquilo que a reforma trabalhista de Temer e as medidas provisórias de Jair Bolsonaro foram apenas um prenúncio: uma blitzkrieg contra os salários em benefício do capital. Não por acaso, setores do chamado agronegócio (tão beneficiados pelos governos do PT) se alinham ingratamente ao bolsonarismo, já que para eles o tamanho do mercado interno brasileiro – e a capacidade de consumo dos trabalhadores – importa muito pouco ou verdadeiramente nada.


Por falar em agronegócio – tão carinhosamente designado na opinião pública como “o Agro” –, o mapa eleitoral de 2026 evidenciou a coincidência de uma votação massiva em Flávio Bolsonaro com a predominância econômica da cadeia produtiva da indústria agrícola. O prejuízo de Lula no primeiro turno veio inegavelmente dos rincões da nação. A Rodovia Transamazônica delimita praticamente ao norte a votação massiva em Flávio. A divisão do Pará entre um extremo norte lulista e um meio-sul bolsonarista coagula muito bem essa tendência. Entre o sudoeste do Maranhão e o oeste de Tocantins pode se demarcar um meridiano bolsonarista, que, inclusive, divide Minas Gerais ao meio. A cidade maranhense de Balsas, “coração” da região do MATOPIBA, representa o limite a nordeste da vitória bolsonarista. Dos únicos dois municípios da Bahia em que Flávio venceu, está a cidade, no extremo oeste baiano, Luís Eduardo Magalhães, a “capital econômica” do MATOPIBA, onde o candidato do PL recebeu 62% dos votos.


A mancha azul, que representa nos mapas a vitória do primogênito de Jair, engoliu Roraima, Goiás, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. No far west paulista não há nada de novo e o mais reacionário dos candidatos continua a levar vantagem. Entretanto, no sul do Paraná, na faixa central de Santa Catarina e, principalmente, no Rio Grande do Sul, Lula teve perdas de votos significativas. Tudo isso indica como a fronteira agrícola tem impactado na vida social do país. Tal como no caso dos salários, aqui o capital pretende romper todos os limites legais que lhe são impostos. A perspectiva é de que num governo bolsonarista as hordas de vorazes e famélicos garimpeiros, grileiros e madeireiros botem floresta e cerrado abaixo, expandindo a fronteira agrícola com a leniência governamental.


Se mesmo a mais mecanizada das fazendas lucraria muito caso o desmatamento de sua área de reserva legal obrigatória fosse tolerada, os pequenos e médios produtores lucrariam ainda mais com tal permissividade. Além do mais, a explosão de pedidos de recuperação judicial evidencia a situação crítica desses pequenos e médios capitalistas, atingidos por juros elevados, menor oferta de crédito, queda internacional dos preços de seus produtos e instabilidade das condições climáticas. Ao que tudo indica, há uma concentração de capitais no setor, através da qual o grande capital açambarca o pequeno capital falido. A tendência natural é que esse angustiado e endividado pequeno-burguês agrícola – tendo que vender seu maquinário, arrendar sua terra e dispensar seus empregados – se vire não contra o grande competidor que o tirou do mercado, mas sim contra o Estado que lhe cobra os juros, que o impede de espremer ainda mais seus trabalhadores e de cortar cada uma das árvores que faz sombra em suas pastagens e plantações. Não por coincidência, aqueles estados em que Lula teve uma perda brutal de votos, São Paulo, Minas Gerais e Rio Grande do Sul, figuram no ranking de pedidos de recuperação judicial.


Os números do primeiro trimestre de 2026 indicam a existência de cerca de 1 milhão de “empregadores” em toda a cadeia do chamado agronegócio – que inclui pequenos, médios e grandes capitalistas –, um grupo que teve uma queda de 60 mil pessoas desde o último trimestre de 2024. Os “empregados” com e sem carteira assinada – que, aliás, recebem um salário médio menor que a média nacional – somam 13,6 milhões, tendo tido uma redução de 479 mil de pessoas desde o último trimestre de 2025. Considerando exclusivamente aqueles empregados diretamente na agricultura – cerca de 1,8 milhões de trabalhadores que lidam diretamente com lavouras, gado, maquinário agrícola, extrativismo florestal, etc. – em 2025, as “microempresas” abarcavam 36,1% do total dessa força de trabalho, as pequenas empresas, 26,5%, e a médias empresas, 9,9%, – essas todas somadas representando 72,5% da força de trabalho frente aos 27,4% das grandes empresas agrícolas. É possível cogitar que a difícil situação financeira dessa pequena-burguesia não só posicionou ela mesmo no campo bolsonarista, como também arrastou esse proletariado, tremendo por seu emprego, para tal posição. O fato de que a maioria desse jovem proletariado localizava-se, em 2025, nos Piauí, no Mato Grosso, no Mato Grosso do Sul, nos interiores de São Paulo e Paraná e em Goiás, também pode dar uma dimensão do seu nível de consciência, distante das agitadas metrópoles do país e sem quase nenhuma experiência sindical ou organizativa em geral.


Tudo isso, por si só, não explica a queda de votos de Lula como um todo. Com a desindustrialização relativa do país, o primeiro e mais antigo sustentáculo do PT, o operariado fabril das regiões metropolitanas industrializadas, se dissipou e perdeu tração ideológica, influenciando cada vez menos na sociedade brasileira. O segundo grande pilar do petismo – aquele que é ainda amplamente generoso com Lula – diz respeito às populações que se encontravam profundamente pauperizadas nos anos 2000, quando as políticas de transferência de renda e de expansão da educação começaram a ser implementadas pelo primeiro governo Lula. Principalmente no interior dos estados nordestinos, era notável a presença de um campesinato em avançado estágio de proletarização, que, brutalmente explorado pelos fazendeiros, sofria há quase dois séculos um intenso processo de expropriação, evidenciado na intensa migração desde meados do século XIX, e acentuado vertiginosamente durante o século XX, para o Sudeste do país. Em grande medida, após a vitória de Lula em 2002, os auxílios governamentais permitiram o mínimo de dignidade para que esses pequenos proprietários não se submetessem a qualquer tipo de trabalho cruel e pudessem cultivar suas próprias terras.


No entanto, o reverso da medalha é que essa massa de semiproletários também ingressou no mercado, passou a consumir e muitos tornaram-se pequenos produtores. O Censo Agrícola do IBGE de 2017 registrava 79% dos estabelecimentos agrícolas do Nordeste como sendo pertencentes à modalidade da “agricultura familiar”. Certamente, essa massa de indivíduos, arrancada de suas estreitas condições materiais, passaram a almejar uma vida muito diferente daquela de seus antepassados. Logo, se o Nordeste havia se tornado o grande bastião do lulismo, isso parece ter começado a mudar. Ainda que Lula tenha recebido a maioria dos votos válidos na região, seu eleitorado, em relação a 2022, reduziu em estados como Bahia, Ceará, Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte. A mancha vermelha do mapa eleitoral ainda abrange todo o Nordeste – à exceção da parte ocidental do Maranhão –, mas isso parece estar em transformação.


Entretanto, se as sinuosas linhas entre o vermelho e o azul da geografia do voto nos fornecem alguma ideia sobre as fronteiras estabelecidas pelos interesses do capital, nas ruas do país essas linhas são bastante tênues. Enquanto a “esquerda radical” – ainda que sem um programa  revolucionário efetivo e concreto como alternativa – empreendia uma crítica às políticas econômicas do governo Lula III, o Partido dos Trabalhadores, com sua base de partidos e movimentos, buscava esvaziar as ruas e abster-se da disputa das consciências.

O campo democrático-popular, desde 2013, pouco entendeu a dinâmica célere das lutas de rua e agora tenta apostar em mobilizações relâmpago, as quais, além de um mote geral contra o bolsonarismo, apontam para um horizonte um tanto vazio de mudanças concretas. Como se vê, a possibilidade de levar a cabo esse tipo de mobilização – ainda que fosse encampada por uma limitada, mas minimamente crítica, base governista –, esteve aberta durante os quatro anos de governo. A ação de rua chegou a ter lugar ao sol apenas nesse momento de desespero do segundo turno das eleições.


As manifestações contra o PL do Estupro em 2023 foram o primeiro respiro combativo deste terceiro mandato de Lula. Encabeçadas pelo movimento feminista e por sua ala parlamentar, principalmente nas figuras de Sâmia Bonfim e Fernanda Melchionna do PSOL, as mobilizações assustaram o Congresso. Após uma vitória sobre Arthur Lira, que arquivou o projeto de lei, a movimentação se dispersou sem que se tornasse um elemento permanente de combate. Em 2025, outro presidente da Câmara dos Deputados foi emparedado. Buscando aprovar em conjunto uma anistia aos presos da tentativa de golpe de 8 de janeiro e a PEC da Blindagem – a qual eximia os parlamentares do Centrão de seus crimes cotidianos –, o presidente Hugo Motta foi derrotado por grandes manifestações de rua. Pela primeira vez, essa derrota do Congresso, que tinha verdadeiro potencial de colocar em xeque a legitimidade do legislativo, serviu como alavanca para o avanço da pauta da escala 6x1. Mas como vem sendo comum na história nacional das últimas duas décadas, foi desperdiçada mais uma grande chance de que os trabalhadores e suas organizações fossem protagonistas da vida política.


Esses flertes com a retomada das mobilizações de rua – que despertou uma significativa base de novos militantes –, rapidamente foram abafados por certas alas do governo. Na mesma época, muito se falava da comunicação oficial de Lula e do governo, principalmente no quesito da popularidade. A base governista se perguntava: “se o governo está tão bom, porque não está popular?”. Mas sempre concluíam, com seu limitado poder de análise, que o grande problema era a falta de posts no Instagram. E justamente no momento em que obtinha vitórias no parlamento através da pressão política vinda das ruas, o petismo se acomodou e sentou em cima desse tipo de ação, temendo que as ruas avançassem sobre ele. 


A conquista das ruas, mais que uma demonstração de força, pautou o debate político, exatamente como está acontecendo agora. Com o susto causado pelos resultados do primeiro turno das eleições, o campo progressista novamente mobilizou suas amplas bases e logrou resultados. Atos orgânicos, graça à vanguarda dos estudantes de Niterói, acontecem desde o dia 05 de outubro. No entanto, é preciso dizer que, por ora, a impressão do momento é de que a “esquerda radical”, para além de alguns importantes candidatos eleitos, ainda não conseguiu grande destaque nesse processo. Todos os partidos ditos comunistas e socialistas – à exceção de um – orientaram, alguns “criticamente” e outros não, o voto em Lula. Mas pouco se falou daquilo que julgamos o mais decisivo nesse processo: a responsabilidade de encampar uma unidade prática entre os comunistas.  E mais uma vez, obtendo resultados pífios em relação ao uso do primeiro turno das eleições para prover o avanço de consciência dos trabalhadores em um sentido revolucionário, a “esquerda radical” se depara com a inelutável necessidade de compor com o petismo. Se é verdade que a única decisão séria e consequente é o esforço para a eleição de Lula, essa se dá em condições muito desfavoráveis para a “esquerda radical” que, mais uma vez, falhou na criação de um campo revolucionário independente do PT.


A esquerda marxista, em todos esses anos, participou e obteve certo impacto nas lutas de classes, mas obteve um resultado aquém da força investida. Nas lutas da escala 6x1, tentaram ocupar shopping centers e conseguiram até algumas greves locais, como a greve da BYD em Camaçari, na Bahia, contra a mesma escala. Uma greve das IFES unificada em 2023 que garantiu um pouco mais de orçamento aqui e acolá, com direitos para pessoas trans e um pouco mais de permanência estudantil. 


Uma coisa ou outra foi feita. No entanto, o campo marxista se fragmentou muito mais do que efetivou-se como ator político. A culpa pode ser  distribuída entre essa e aquela liderança, pode ser dividida entre alguns intelectuais catedráticos ou mesmo entre os influenciadores comunistas. Em quase nenhum momento a luta ideológica entre esses grupos resultou em algum avanço político, prático ou teórico de todo o campo. A esquerda marxista, ou “esquerda radical”, continua isolada e nada faz para revisar esta irresponsabilidade. 


Tal falência acompanha a esfacelação do petismo no Brasil, cuja eleição é apenas uma fotografia do momento. Se a base proletarizada, anteriormente pauperizada, que compunha os votos em Lula começa a percebê-lo negativamente (processo acentuado nos últimos quatro anos), é porque este processo foi plantado pelo próprio governo. Do arcabouço fiscal, que enforcou o dinamismo econômico prometido nas eleições de 2022, à “taxa das blusinhas”, que afetou o consumo interno em benefício de uma burguesia varejista (incluindo aí o infame “véio” da Havan), o governo plantou e colheu desânimo da militância e de seus eleitores.


A esquerda marxista, que sempre apostou na militância cotidiana, imaginou que o caminho lógico seria a radicalização à esquerda desta classe trabalhadora na medida em que ela abandona o lulismo. Porém, o movimento se dá em sentido contrário. Um exemplo eleitoral disso é como os indecisos aderiram à mais nova roupagem da extrema-direita, votando em Renan Santos, do partido Missão, ou na figura medíocre Augusto Cury, um charlatão propagador de platitudes individualistas. A classe trabalhadora, cansada das promessas sem compromissos do petismo, não tem se encontrado no marxismo. A bem da verdade, o marxismo ainda não conseguiu dar respostas às demandas proletárias de nossos tempos. Em consequência, a esquerda marxista permanece sem propostas econômicas capazes de diferenciá-la do petismo, ou mesmo lutas sociais que evidenciem sua independência política em relação ao governo Lula III.


Soma-se à essa receita, que amarga na boca, uma abstenção total da intelectualidade marxista em relação não apenas às lutas, campanhas e nas propostas políticas da esquerda radical, mas também na construção de um programa econômico. Os grandes teóricos se preocupam em fazer lives pouco assistidas nos canais da editora Boitempo, em fazer seus colóquios e congressos, mas nada em relação aos horizontes decisivos dos sindicatos, associações, partidos e movimentos. Não possuem a iniciativa mínima na formulação ou mesmo na análise da conjuntura. Procuram menos ainda traduzir teoria em propaganda. São uma intelectualidade vulgarmente separada do seio da classe. E não simplesmente por não saberem se comunicar. A resposta de fato não pode ser apenas mais atividades de agitação – principalmente nas redes sociais –, tal qual certos bravateiros comunistas e petistas adoram se unir para apresentar como solução. O problema é político, assim como também teórico, na medida em que a grande massa de estudos acumulados nos círculos marxistas não se revertem em um programa econômico revolucionário e consistente.


O resultado sintético do cenário é que no espectro da esquerda prevalece um progressismo completamente rendido ideologicamente e exaurido entre as grandes massas populares. Baseado em um conjunto de políticas econômicas neoliberais como plano básico de governo, se mostra incapaz de executar qualquer transformação estrutural. No entanto, esse progressismo permanece protagonista do campo de esquerda na medida em que a ala marxista é completamente incapaz – por debilidades teóricas e propagandísticas – de apresentar objetivamente às massas trabalhadoras uma alternativa revolucionária de futuro. Por outro lado, a extrema direita, ao se dizer anti-sistêmica, promete um futuro glorioso e se diferencia do que aí está associando todas as mazelas da vida social à esquerda, essa que tornou-se a defensora da institucionalidade e das formalidades democráticas.


Uma vez que o progressismo se torna incapaz de executar uma agenda de reformas – mesmo ainda dentro dos marcos do capital – esse campo perde muito daquilo que o caracterizava e o diferenciava das velhas formas de gestão política liberais, a chamada direita tradicional, fazendo com que a ideologia outsider da extrema direita apareça como alternativa. O adesivo de Flávio Bolsonaro no baú da moto do entregador da iFood é uma calamidade que foge de qualquer caricatura ou simplificação que poderíamos esboçar.


A necessidade de uma frente única


Diante desse cenário, Lula tenta reverter um quadro eleitoral complexo, contando com o apoio das bases sociais e movimentos de esquerda em geral que, apesar de subestimado e muitas vezes desprezados durante os anos dos governos petistas, temem a devastação total das condições de vida e um alinhamento imediato de Flávio Bolsonaro com Donald Trump. À ameaça do “tesouraço” sobre os serviços públicos, que impactaria na massa salarial dos trabalhadores brasileiros, e do rebaixamento direto das condições de sobrevivência de amplos setores sociais, soma-se o risco da consolidação de um bloco ultradireitista sulamericano, essencial para a efetivação da doutrina Donroe no contexto de disputa entre blocos capitalistas pela hegemonia do capitalismo global. A família Bolsonaro no poder significaria um ganho estratégico muito significativo para as mais reacionárias forças internacionais. A possibilidade da abertura de uma fase de repressão política sem precedentes na região seria muito fortalecida caso o Brasil se tornasse um laboratório para o internacionalismo reacionário.


É precisamente para evitar uma escalada do autocratismo e da devastação capitalista do que resta da malha de seguridade social que toda a esquerda consequente do país chama o voto em Lula no segundo turno, a exceção de agrupamentos insignificantes que talvez não mereçam ser mencionados. Todo esforço será agora de máxima importância. Todo mais comezinho trabalho para obter votos é fundamental. O convencimento dos eleitores indecisos, e mesmo daqueles que votaram em Bolsonaro no primeiro turno, além de essencial, pode ser o primeiro passo de uma nova geração que adentra à vida política nacional. Isso não impede, contudo, que os marxistas ocultem seus propósitos e princípios. Naquelas situações em que for possível, a conquista do voto em Lula pode ser acompanhada não só dos argumentos a respeito dos limites do PT, mas também dos limites do próprio modo de produção capitalista e da necessidade de que, mesmo com a vitória de Lula, a luta pelo comunismo prossiga como a única forma possível para que a humanidade tenha algum futuro. 


Para o campo da esquerda marxista, estamos convencidos que, a despeito dos resultados eleitorais, a única saída é a constituição de uma frente única de trabalhadores com um programa que reverta as reformas liberais desse início de século, bem como a abolição das medidas de austeridade fiscal executadas como dogma inquestionável dos governos vigentes. O combate a todos os instrumentos legais de pressão sobre os salários parece ser um ponto de partida, um elemento unificador para os marxistas, através do qual poderemos avançar para programas mais abrangentes, como a necessidade de superação do retardatário desenvolvimento econômico brasileiro.


A mobilização das esquerdas nas ruas de todo país e nas redes sociais desde o resultado do primeiro turno (apesar das amplas denúncias de interferência dos oligopólios de comunicação como as redes sociais do grupo Meta), já fizeram cair a distância entre os dois candidatos. E aqui é preciso ser realista. Se a vitória de Flávio é uma possibilidade muito real, a virada de Lula também o é. A sobriedade necessária para a esquerda só pode se sustentar sobre o fato de que a batalha pelas consciências é algo efetivo, de que o convencimento é o elemento decisivo nessa etapa do processo eleitoral. É necessário intensificar a campanha principalmente entre aqueles que se abstiveram de votar no primeiro turno para que Lula ultrapasse Flávio Bolsonaro e se eleja com uma margem de votos confortável. Mesmo porque, ao fim das eleições, as tentações golpistas, ao estilo de 8 de janeiro de 2023, não desaparecerão. O apoio da Casa Branca de Trump ao bolsonarismo certamente não desistirá de buscar uma espécie de “terceiro turno” no Brasil.


A luta do proletariado, têm sua história marcada pela sobrevivência frente a períodos mais áridos da humanidade. Mas tal qual a egípcia Bennu, a luta pela emancipação humana se incendeia e sempre renasce das próprias cinzas.


Se até aqui a organização da massa de trabalhadores era uma necessidade para a constituição de um bloco revolucionário, nos anos que se aproximam, isso se tornou um imperativo. Organize-se! 


Para frear a besta bolsonarista e a destruição voraz e absoluta das condições de vida dos trabalhadores, dia 25 de outubro, vote 13!


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