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Eleições 2026: voto programático X voto útil

há 9 minutos
10 min de leitura

Por Igor Dias


Há quase quatro décadas se fala em voto útil no que diz respeito à eleição de candidaturas mais ou menos ligadas aos trabalhadores nas eleições presidenciais brasileiras. Já em 1989 Brizola tentou emplacar o voto útil para sua candidatura buscando angariar os votos de Lula (em sua primeira candidatura presidencial) com a Frente Brasil Popular, o que foi enfaticamente recusado pelo Partido dos Trabalhadores como forma de disputar a hegemonia do amplo campo das esquerdas e, fundamentalmente, como forma de defender, em última instância, que o voto, ao menos no 1° turno eleitoral, deve ser para confrontar programas e projetos de governos particulares. Em outros momentos, quem convocou, e de forma reiterada, a tática do voto útil foi o próprio PT, nomeadamente nas eleições de Dilma (2010 e 2014), Haddad (2018) e Lula (2022 e, enfim, 2026). Isso elucida a natureza do Partido dos Trabalhadores e seus efetivos interesses nas eleições. Não mais a conquista do campo e execução de um programa, mas a seguridade da hegemonia política e do Estado num projeto conciliador.


É natural que se coloquem como única alternativa desde seu discurso inicial, pois quem entra em uma disputa busca ganhar e não é demérito de seus adversários reclamarem da derrota quando não se mobilizam de forma efetiva para alcançar a vitória. Nisso destaca-se o amadorismo eleitoral da ampla maioria da esquerda marxista, que hoje se lança, timidamente, em busca de superar a tendência que dos anos anteriores:  reforçar jargões abstratos ao invés colocar seu programa na ordem do dia e se utilizarem de maneira qualificada do período eleitoral, ainda que as chances de vitória possam ser reduzidas.


Evidentemente, é tentador apostar no “voto útil” em Lula, ainda mais com a promessa repetida de derrotar o bolsonarismo. Promessa vã. Os campos diversos da extrema direita, notadamente o bolsonarismo, o fundamentalismo evangélico e os liberal-fascismo do MBL/Missão vêm apostando avidamente no movimento de rua e na disputa de consciência das massas como centro de sua atuação, usando suas candidaturas para avançar seus programas ideológicos. Em resposta, a esquerda se afundou numa prática eleitoreira e especialmente messiânica que, nos 16 anos de governo petista, nos trouxe como saldo uma profunda desmobilização da classe e uma ausência de horizontes, que trazem nas urnas a solução para qualquer problema. 


É verdade que as eleições são essenciais para a disputa da política e têm potencial para intervir na luta de classes mas, sem o engajamento das bases, sem capacidade de mobilização e sem programa que busque avançar política e economicamente em favor dos trabalhadores na disputa Capital-Trabalho, como tem sido o saldo político petista, elas não têm capacidade nem de barrar nossos adversários de classe, que dirá de propor as mudanças estruturais mínimas necessárias ainda dentro do modo de produção capitalista.



Surgimento de novos campos e cenário internacional



Da mesma maneira, seguir apostando nas ruas apenas como palco da reclamação pública, sem qualquer capacidade de crítica, proposição e radicalização, utilizando-a como mero termômetro da oposição ao absurdo e da defesa de uma democracia abstrata é motivo pelo qual não há força política efetiva no amplo campo progressista. Não à toa cresce a mobilização eleitoral e a conformação de um campo político que podemos chamar de trabalhismo radical (especialmente os candidatos que compõem a “bancada da esquerda radical”, como Jones Manoel, Sâmia Bomfim, Renato Freitas e Glauber Braga), ou seja, aqueles que mesmo com discursos que coloquem a revolução como retórica, não apresentam o interesse concreto de superar o estado em um processo revolucionário, apostando em projetos muito mais ligados ao legado de Leonel Brizola que qualquer poesia de futuro. Ainda assim, é louvável o esforço desse setor para mobilizar para além do lulismo e da linha geral do PT no aspecto parlamentar e buscar agir como tribunos do povo, ainda que se coloque voluntariamente a reboque do do Partido dos Trabalhadores. Nesse sentido as candidaturas devem receber apoio, mesmo que seja possível apresentar oposição às suas concepções, pois esse parece um esforço cujo resultado tende a elevar o nível do debate parlamentar e sustentar avanços sociais que o petismo clássico trataria a panos quentes, sendo assim, passível de agitar o campo político institucional a favor da classe.


Há, porém, que ressaltar que apenas iniciativas com poucos candidatos são insuficientes para nosso momento. A decadência do império estadunidense vem acelerando a voracidade do capital-imperialismo principalmente sobre a América Latina em busca de sobrevida. Entretanto, o fim da onda rosa cedeu lugar a projetos de profundo alinhamento com o trumpismo em decadência e fragilizou o amplo campo da esquerda, que apostou todas as suas fichas no domínio da burocracia estatal como meio de ação.


É dessa maneira que Brasil, Cuba, México e Nicarágua, de diferentes formas, tornaram-se exceção no continente no que diz respeito ao alinhamento explícito com o governo Trump e no tema da soberania nacional tendo, entretanto, a Venezuela como principal palco das contradições e embates deste tipo, por ter sido, dentre os governos, aquele que apresentou uma retórica mais acentuada de anti-americanismo sob as lideranças bolivarianas. 


Assim, independente da qualidade dos programas políticos, parece uma imaturidade a fragmentação geral do campo das esquerdas em candidaturas diversas cuja grande diferença é a figura central e não o acordo programático. A ameaça de intervenção e golpismo estadunidense continuamente colocando em cheque a validade das eleições para garantir seus objetivos de exploração político-econômica do Brasil, aponta para um marcante amadorismo político. Enquanto o Partido dos Trabalhadores toma como central o voto útil em sua estratégia eleitoral para sustentar-se no poder político, oferecendo migalhas à população como se não fosse o mínimo (mesmo esse mínimo tendo tido a capacidade de efetivamente melhorar as condições de vida em nosso país ou, pelo menos, não deixar com que elas não piorem de forma tão acelerada), aqueles que majoritariamente apontam para uma necessidade de superação da política de conciliação de classes do PT não têm tido a capacidade de unificar esforços e emplacar um programa conjunto que golpeie os problemas centrais apresentando-se como alternativa forte não só nas eleições mas nas lutas cotidianas, apostando, em sua maioria, na autoconstrução partidária ao invés de na construção da autonomia de classe e de campo político também no aspecto eleitoral.


Como já ressaltado, a formação da “bancada da esquerda radical” é positiva mas insuficiente para o presente momento histórico, em que estão mais em jogo as casas legislativas que o poder executivo. Compreende-se que é o início de um trabalho profissional alavancado pelo campo do trabalhismo radical que deve ser observado atentamente por  sua potencialidade de contrapor o liberalismo explícito que impera no progressismo brasileiro, podendo agitar a disputa das bases que porventura venham para o lado “radical” da força. Entretanto, a unidade de ação no âmbito parlamentar deveria ter sido colocada em pauta pelos partidos comunistas e socialistas consequentes apesar de, no último período, terem continuamente usado as eleições de forma amadora, sem a capacidade sequer de alavancar o alcance de seus programas, cabe, porém, saudar o esforço do PCBR de proposição desta unidade programática desde o início deste ano.



Ainda acerca do campo do trabalhismo radical deve-se pensar como toda iniciativa que nasce do caudilhismo forçado pelas circunstâncias de fraqueza, é uma espécie de instrumentalização da aglutinação de lutas que acaba por se ancorar em figuras públicas como fonte mais forte de projeção e sobrevivência e não no contrário (figuras públicas que deveriam nascer de estruturas sólidas e pulsantes em capilaridade). Vemos, assim, a “bancada da esquerda radical” pagar seu pedágio ao governo na medida em que nenhum desses nomes tem bases fortes o suficiente para se descolar do petismo e da posição encantada por ele estabelecida para alternativas que tentam nascer (quando realmente tentam ser alternativas). Chega-se portanto, ao ponto de, entre seus integrantes, haver um ex-militante comunista que passa uma nota promissória de fortalecer o campo marxista com esse pedágio. Se esse débito será quitado, só o tempo pode nos dizer; a História, porém, não nos abastece de bons exemplos. 



Unidade eleitoral dos marxistas: linhas distintas, programa em comum



Embora a autoconstrução partidária não seja a saída eleitoral que beneficia corretamente a classe trabalhadora, também a chancela da carta em branco que vêm se assinando nas últimas décadas tende a ser profundamente danosa. Assim é condenável, de sobremaneira, as propostas de apoio a Lula já no primeiro turno, pois, embora haja distinções fáticas entre o petismo na sua forma lulista e a extrema direita neoliberal de Flávio Bolsonaro, há 3 problemas centrais nessa formulação política: 1) Falsa dicotomia: embora haja divergências em programáticas, o que os difere é, em verdade, a agressividade na liberdade do Capital proposta, sendo ambos programas políticos de caráter neoliberal; 2) Reboquismo: crescer eleitoralmente, como têm feito na atual campanha o trabalhismo radical (ainda a ser referendado pelo pleito) sem a capacidade de apontar para um projeto de país de oposição ao modelo democrático-neoliberal petista no atual momento e sem apresentar alternativa real para o posto da presidência, implica potencializar um programa do capital sem contrapartida para os objetivos da revolução brasileira, esvaziando a retórica política e transmutando-a em meros chavões; 3) Aceitação completa da democracia burguesa como valor universal: embora possa se apontar para os cálculos eleitorais e a possibilidade de vitória de uma extrema direita como uma desculpa para tal tomada de posição, essa justificativa é essencialmente um atestado de falência desta própria “democracia”. Assim, incorpora-se o meio eleitoral como fim da atuação em uma forma de organização social que muito pouco tem que ver com os objetivos revolucionários; enfim, a eleição deixa de ser tática e se torna estratégia.


O projeto de conciliação de classes faliu e o que resta são apenas os escombros das políticas um dia traçadas e algumas Medidas Provisórias, como a proibição das Bets, que servem como cartada eleitoral e mediação a ser futuramente derrotada pela Câmara dos Deputados e pelo Senado de composição crescentemente reacionária em sua composição. Aqui, nas casas civis, se encontra talvez o centro dessa disputa e, justamente por isso, não apontamos qualquer nome, mas endossamos as candidaturas que se colocam, ainda que de forma ampla, à esquerda. São elas que irão dar cabo de consolidar vitórias institucionais e avançar no embate com a extrema direita no país, a despeito da vitória eleitoral para a presidência.


É nesse sentido que desponta um apoio a Hertz Dias, do PSTU, mesmo em franca discordância com as posições tomadas pela organização, em especial na década de 2010, que ainda refletem em nossa conjuntura. O programa apresentado pelo partido para essas eleições tem grandes similaridades com os demais partidos comunistas e aponta para uma superação da passividade da classe, em especial ao afirmar que “a mobilização direta deve ser prioritária em relação à ação institucional”. Também suas propostas no que diz respeito à soberania nacional e o imperialismo são categóricas e apresentam um acerto ao vincular soberania à propriedade econômica e não à retórica e diplomacia: o controle de setores estratégicos, a estatização integral da Petrobrás, a subordinação do sistema financeiro ao planejamento econômico, o controle público de recursos minerais estratégicos (em especial as tão debatidas terras raras), o controle de capitais e a busca da redução da dependência das reserva em dólar e títulos estrangeiros (desdolarização), são chaves para o programa de Hertz, mas não o constituem os únicos elementos programáticos que nos aproximam. O PSTU aponta de forma clara para a construção de um Estado operário revolucionário, buscando não perder de vista a estratégia da revolução brasileira e colocando o período eleitoral como passo tático no desenvolvimento histórico da luta de classes no país.


Deve ser saudada também a candidatura de Edmilson Costa, do PCB, que apresentou um programa ainda mais consistente e teve a capacidade de desenvolver de forma mais clara e com maiores mediações os eixos de economia, saúde e reforma agrária, mas peca em sua capacidade de unificação dos partidos assumidamente revolucionários. Entendemos que o PCB hoje é incapaz de encabeçar a unidade da esquerda que almejamos, ainda que tenha contribuições de extrema qualificação. Da mesma maneira analisamos que Samara Martins, da UP, ainda que possua maior percentual de intenções de voto, não tem a capacidade de encabeçar politicamente uma alternativa ao petismo, em especial por conta da linha e prática política da UP/PCR que reiteradamente se vale da autoconstrução em momentos críticos, o sectarismo (com traços de hegemonismo vistos, por exemplo, na prática petista) e um profundo amadorismo focado quase exclusivamente em jargões, levando à incapacidade, nesse pleito, de formular um programa razoável a tempo da inscrição da candidatura, cadastrando o fatídico programa de duas páginas que só foi substituído por um programa ampliado quando a questão veio a público.


Apesar desta distinção frente ao presente pleito, são mínimas as distinções programáticas entre PCB, UP e PSTU no âmbito das políticas de Estado e de governo. Substancialmente não há qualquer diferença com relação à direção em que apontam para dar respostas aos desafios da conjuntura, tendo cada organização particularidades que teriam a capacidade de contribuir para um programa que golpeie em conjunto no aspecto eleitoral, ainda que marchem separadamente, conformando uma interação intra campo de modo respeitar suas diferenças. Porém, somente o PSTU parece unir programa, articulação política e figura pública capazes de mirar num avanço e apresentar uma síntese para o campo político. 


Portanto, no que diz respeito à candidatura para a presidência, me parece que o alinhamento com o PSTU é a posição mais interessante, pois tem tido a capacidade de elevar o debate e colocar sua candidatura à disponibilidade das lutas travadas pela classe. A figura de Hertz Dias tem a maior capacidade de articulação política e interlocução dentre as que se põe publicamente no debate eleitoral para a unidade programática e enfrentamento do reacionarismo na atual conjuntura. 


É momento de unidade, mas não a qualquer custo. É necessário um programa para sustentar o voto consciente e direcionado e, por isso, sustentar o suposto “voto útil” em Lula é na verdade um voto inútil para fazer avançar os interesses dos trabalhadores brasileiros e afoga os anos de imobilismo dos governos petistas sob a defesa do menos pior, utilizando-se assédio eleitoral e de um certo terrorismo psicológico para conter alternativas à esquerda. Votar pautado quase que exclusivamente pelos números das pesquisas é um erro e um abstencionismo político que não fazem parte de nossa tradição política se assemelhando muito mais à lógica dos algoritmos que do confronto político propriamente dito.

Cabe apontar que uma possível derrota de Lula ou vitória bolsonarista não advém de qualquer intenção de disputar legitimamente as eleições por parte de qualquer outro partido, mas é fruto da prática política do próprio petismo, inepto de receber críticas e que terceiriza suas responsabilidades enquanto age em defesa dos algozes da classe trabalhadora por meio da sistemática conciliação de classes. A única saída real é o fortalecimento de uma alternativa de esquerda com capacidade de alavancar a unidade programática. Voto útil de verdade é aquele que se sustenta em programa e em luta concreta e que representa a consciência e interesses do votante. 


De forma clara: diante da inexistência de uma candidatura presidencial unitária da esquerda socialista, o voto presidencial deve funcionar como voto programático e instrumento de acumulação política. Frente às candidaturas apresentadas Hertz é uma opção que une em sua candidatura uma combinação entre programa socialista, independência de classe, centralidade da mobilização extra-institucional e disposição para a unidade política.

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