A insustentável leveza das urnas¹
por Jácome
Até o presente momento têm surgido diversas reações, vide UFF-RJ, Goiânia e diversos atos marcados ao redor do país, ao mesmo tempo que a ofensiva se intensifica, a exemplo do incêndio da UFPE. Estamos, talvez, na antessala de uma mobilização de massas significativa. Veremos... mas, de antemão: Lula 13!
O blefe.
O governo, mais uma vez pautado em uma das tantas táticas de institucionalização de embates que não se resolvem no plano dos acordos, tentou imprimir no debate público uma atmosfera de vitória com uma leveza descolada da realidade. Lula no Flow Podcast, apelando para seu próprio peso histórico e para o absurdo que foi a pandemia e as suas consequências (o que garantiu sua vitória em 2022), apontou para o quão absurdo era “uma pessoa sair de casa” e na frente da urna votar em um sujeito “sem história” como Flávio Bolsonaro. Simples, não?
Mas o recurso por trás de Lula instrumentalizar um certo grau de obviedade lógica com ares de tranquilidade e sorrisos fáceis, como forma de desenhar um cenário relativamente tranquilo eleitoralmente, é mais uma metamorfose da regular tática à qual o campo petista recorre reiteradamente (sobretudo no período eleitoral). O recurso de imbuir suas bases sociais de um sentimentalismo político que, apesar de angariar vitórias (por irem além das intenções e compreensões reais da cúpula), anestesia a capacidade de leitura conjuntural desconfiada e cautelosa que a conjuntura brasileira pede.
A novidade é que essa velha tática - agora por ter apostado também numa suposta probabilidade de vitória em vez da pura paixão (nascida do sentimento de sobrevivência) - encontrou, como em 2018, sua mais dura contraposição no seio das contradições da sociedade brasileira, ruindo diante do resultado eleitoral do último domingo.
Um sentimento muito maior - o da quebra de expectativas - nasceu da barreira de ter que lidar com problemas mais que sentimentais: os esperados montantes de dinheiro (através das Big Techs) para que a influência americana “velada” nos rumos da sociedade brasileira se mantivesse, bem como a interiorização política falsamente adormecida do bolsonarismo nos confins do Brasil ou a estrutura financeira dos desafetos que Lula comprou (acertadamente) ao encampar a batalha contra as Bets. Estes e tantos outros que englobam acertos e recuos do governo nos últimos quatro anos.
Como coroamento da capacidade ainda pulsante de autoimposição do reacionarismo bolsonarista, reoxigenado na sociedade brasileira às costas das emoções progressistas nesses quatro anos (seguindo uma tendência que vem se apresentando na América Latina e em outras partes do mundo), a apuração do primeiro turno transformava tortuosamente, de porcentagem em porcentagem, a atmosfera de uma vitória abstrata na possibilidade concreta de uma derrota.
Diante da magnitude áspera desses problemas encarados como meros detalhes incômodos pelos desavisados, a sensação crua e fria da quebra de expectativas se impôs em desfavor de um segundo mandato ao impactar, com golpes de realismo, o romantismo bem-intencionado que se viu nas primeiras horas do domingo.
Os estadistas habilidosos do governo, repetiram uma parte da antiga receita: se a tática de inflamar os sentimentos das bases encontra amparo em condições concretas que os justifiquem e que apontem, ao menos como possibilidade, para uma vitória real no horizonte, tem-se aí uma poderosa forma de impulsionar a mobilização. Entretanto, se ignorou que diante de uma situação de decadência conjuntural, tal movimento cumpre nada mais do que o papel de mascarar contradições vitais para os resultados políticos.
De tanto explorar tal tática, agora deslocando a catarse para antes do ato e chegando ao nível do “já ganhou” no primeiro turno, ela hoje se apresenta desgastada e se abate sobre a base progressista como o fardo de recobrar os ânimos em uma situação tão adversa.
O ressentimento.
O pior é que, dias antes, nessa pedra de Sísifo que se tornaram as eleições burguesas no Brasil - em que vemos o fardo que impulsionamos no segundo turno rolar novamente sobre nós nos quatro anos seguintes - alguns setores do campo progressista acharam por bem gastar mais energia atacando as organizações de esquerda do que pensando em como conquistar os votos que, depois, as porcentagens mostraram que faltavam.
Os críticos marxistas (ainda minoritários na disputa pelo poder) tentaram chamar a atenção para o fato de que a eleição possui dois turnos e que, no primeiro, o voto programático constitui uma possibilidade necessária à sobrevivência das organizações de trabalhadores críticos ao governo (e opositores mortais do fascismo). Porém, estas mesmas organizações e seus membros, foram encarados como uma espécie romântica de sujeitos, supostamente apegados à defesa de conceitos para suprir a ausência de uma força real capaz de sustentá-los.
Se por um lado há um fundo de verdade e tais críticos marxistas muitas vezes se apegam a conceitos para suprir a ausência de uma força social real, por outro, a importância das categorias de análise, quando bem trabalhadas na perspectiva de um desvelar crítico das contradições que se escondem nas armadilhas dos sentimentos, tem lá sua utilidade. Neste caso, a utilidade mais evidente, ainda que não estivessem conscientes do cenário que estava por vir, é recordar que a eleição tem dois turnos (fato óbvio, mas importante) e que o romantismo não depende do tamanho de um grupo político, mas da decisão séria e consciente de difundir as concepções políticas que ele mobiliza com sua força real, ainda que essa seja pequena no momento atual. As armas da crítica podem não substituir a crítica das armas, mas, ainda assim, continuam importantes nesse tiroteio de mistificações.
Outro ponto que chamou atenção foi a onda de ódio à classe trabalhadora brasileira que inundou os perfis progressistas nas redes sociais. Nada contra o ódio, menos ainda contra a classe trabalhadora brasileira. Porém, se por um lado é fato que não devemos amar um trabalhador em abstrato, supostamente desprovido de subjetividade e, portanto, de todos os problemas próprios à subjetividade formada em uma sociedade que, até pouco mais de um século, sequer possuía marcos básicos do "processo civilizatório" burguês, por outro, elegê-lo como motor central dos problemas de nossa sociedade nada mais é que a expressão do mesmo reacionarismo que tanto fortaleceu o campo bolsonarista.
Esquece-se que a crítica a esse reacionarismo não passa pelo ataque superficial e individualizante à composição da consciência média brasileira, ainda que ela possa e deva ser condenada quando dá sustentação ao reacionarismo, mas pela crítica às estruturas sociais, leia-se produtivas, e superestruturais, que historicamente a formaram. Os mesmos que, até ontem, falavam em uma identidade nacional e faziam ode aos símbolos brasileiros mobilizados nas peças publicitárias do governo passaram a demonstrar que lutavam mais pela estabilidade de um governo que mantém diálogos amigáveis com Trump do que pela emancipação da classe à qual pertencem.
O desafio.
Enquanto isso, no pano de fundo desses ataques mesquinhos, o drama ganhou o peso de um desafio nada ilusório, dobrando “realisticamente” as apostas.
O desafio - fora da realidade - de uma vitória já no primeiro turno (algo que marcaria a trajetória de Luiz Inácio Lula da Silva com um feito que somente um presidente - FHC - foi capaz de alcançar desde a “redemocratização”) fez mais do que simplesmente minguar as expectativas. Pela força das circunstâncias, acabou por se transmutar num cenário no qual uma derrota eleitoral do bolsonarismo só será possível se Lula se tornar o ÚNICO presidente a converter uma derrota no primeiro turno em vitória no segundo, algo que, acreditem, nunca aconteceu em nossa jovem democracia. Ou seja, se antes Lula achava que podia escolher os desafios de sua base social, agora ele descobre que quem escolhe tais desafios é o motor incontrolável da luta de classes.
Se, durante seu governo, fora do calor da campanha, Lula não dobrou a aposta para avançar nas conquistas sociais que se esperavam após a derrota de Jair Bolsonaro em 2022, a história tratou de deslocar para o único terreno em que ele ousava algum tipo de radicalismo, as eleições, o desafio de ir além de sua habilidade retórica.
Tudo isso numa dança de trocas de apoio eleitoral em que os “nobres” membros do STF que se vendiam como aliados firmes contra o bolsonarismo, supostamente em sintonia com a bandeira abstrata e quase pueril da “defesa da democracia” que o governo tanto hasteou, pularam do barco no primeiro sinal de afundamento. Alexandre de Moraes, numa jogada de aceno a Flávio Bolsonaro para tentar salvar a si mesmo e sua carreira num possível governo de Flávio, tratou de extinguir o processo que corria contra o pedaço de estrume Allan dos Santos, abrindo a possibilidade de retorno do foragido para o Brasil. Como a história ama traição, mas odeia traidores, Nikolas Ferreira, o verme da lagoinha, tratou de responder o ministro com um sonoro “Não adianta Moraes fazer aceno agora, não tem negociação”. Na mesma linha, Gilmar Mendes tratou de anular um dos possíveis flancos a ser explorados pelas peças de campanha de Lula no segundo turno, mandando para o arquivamento a acusação de estupro que pesa sobre o vice de Flávio.
O despertar.
Uma coisa passa batida para quem se limita ao cenário das eleições: É preciso lembrar que o mandato de Jair Bolsonaro foi marcado por uma intensa mobilização da esquerda, em diversos aspectos e espaços. Por uma questão de sobrevivência, dada a piora de vida, dado o contexto de milhares de mortes diárias, dado o desmonte de garantias mínimas e o assassinato dos povos indígenas e quilombolas por parte do governo do genocida que hoje está “preso” em casa, os movimentos sociais conseguiram se unificar em ações de massas. Não à toa a rejeição de Bolsonaro aumentou justamente nos momentos em que a esquerda pautava as ruas.
Mauro Iasi, no programa Faixa Livre, fez a análise de que qualquer esperança em relação a uma virada de Lula só é possível se este conseguir tocar corações e mentes (de maneira mais que retórica) dos que se abstiveram desse drama que nos abate. Para tanto, mais do que tocar seus corações, é preciso chamá-los ao terreno da ação eleitoral marcada pela classe como sujeito da disputa pública. Só assim é possível vislumbrar uma virada, “nunca antes vista na história desse país”.
Com isso, esse segundo turno, além da tentativa de reversão do saldo eleitoral desse primeiro turno, é um preparativo para dois cenários: 1) o cenário em que essa virada venha de fato, mas 2) também, caso ela não venha, possuirmos base organizada para enfrentar os longos 4 anos que nos esperam.
Cabe, no entanto , salientar que o cenário 1 não indica a superação do cenário 2, visto que Congresso e Senado ganharam um reforço mais que significativo de parlamentares bolsonaristas. Em suma, se eles estão na máquina, nós devemos estar nas ruas!
Para além das organizações da esquerda marxista que já declaram seu apoio no segundo turno para Lula (PSTU, PCB, PCBR, etc.), que certamente vão colocar à disposição seu contingente reduzido, devido às sucessivas crises internas e externas, mas aguerrido e distribuído pelo país, para expandir a margem eleitoral se assim a cúpula petista responder à altura, é preciso chamar a atenção para a “Bancada da Esquerda Radical” como potencializadora de uma virada e/ou da preparação de nossas bases. Não seria absurdo esperar que tais sujeitos, futuros empossados parlamentares em 2027, busquem expandir sua atuação para além das localidades onde obtiveram vitórias destacadas. Sâmia, Glauber, Jones, Melchionna e afins deveriam mais do que focar em cortes nas redes, ajudar o governo na comunicação ou atuar a partir de seus estados, mas também girar o país numa tentativa de inflamar as bases sociais do progressismo para além da internet (que tem um papel importante), a partir de um mapeamento de áreas em que as abstenções foram altas. Além disso, consolidar seus nomes para lutas futuras solidifica um estado menos diluído e disperso de alerta para os desafios que vamos enfrentar.
No mais, é possível lembrar as palavras de Marx, no 18 Brumário de Luís Bonaparte (2), ao falar de revoluções proletárias. Se nas revoluções burguesas as palavras foram para além dos conteúdos, nas proletárias o conteúdo irá para além das palavras, visto que ainda não se encontram palavras para descrevê-lo. Dado o cenário em que a profunda baixa de nossas capacidades organizativas, bem como, ainda mais importante, os fatores objetivos e expontâneos da luta de classes, não nos favorecerem, permito-me fazer uma adaptação de Marx para um cenário mais contido.
Enquanto no discurso de Lula para tentar fazer joguetes retóricos sobre ganhar no primeiro turno, tivemos uma encenação da “farsa” em que palavras vão para além de seu conteúdo real. Que criemos agora a partir das bases sociais e das armas que dispomos, uma “tragédia” em que o conteúdo da nossa reação vá para além das palavras, visto que a linguagem abstrata de harmonia democrática encampada pelo governo não daria conta de traduzir.
No terreno da luta de classes, a leveza com que o institucionalismo burguês brasileiro tenta restabelecer a falida “normalidade democrática” carrega consigo um drama incontornável: o da classe trabalhadora brasileira, cujas determinações, ocultas ou explícitas, pesam sobre os rumos de qualquer conjuntura política do país. Abracemos esse peso e apontemos: A nossa linguagem é a da luta de classes!
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Notas: 1) Alusão a obra "A Insustentável Leveza do Ser, Milan Kundera". Segue trecho: "Quanto mais pesado o fardo, mais perto nossas vidas chegam da terra, mais reais e verdadeiras elas se tornam. Inversamente, a absoluta ausência de fardo faz com que o homem seja mais leve que o ar, elevando-se às alturas, despedindo-se da terra e de seu ser terreno, e tornando-se apenas meio real, seus movimentos tão livres quanto insignificantes. O que então escolheremos? Peso ou leveza? ... Quando queremos dar expressão a uma situação dramática em nossas vidas, tendemos a usar metáforas de peso. Dizemos que algo se tornou um grande fardo para nós. Ou suportamos o fardo ou falhamos e sucumbimos a ele, lutamos contra ele, vencemos ou perdemos. E Sabina – o que aconteceu com ela? Nada. Ela havia deixado um homem porque sentiu vontade de deixá-lo. Ele a havia perseguido? Ele tentou se vingar dela? Não. Seu drama não era um drama de peso, mas de leveza. O que lhe coube não foi o fardo, mas a insuportável leveza do ser." 2) Alusão ao trecho do "O 18 Brumário de Luís Bonaparte", Karl Marx. Segue trecho:
"Não é do passado, mas unicamente do futuro, que a revolução social do século XIX pode colher a sua poesia. Ela não pode começar a dedicar-se a si mesma antes de ter despido toda a superstição que a prende ao passado. As revoluções anteriores tiveram de recorrer a memórias históricas para se insensibilizar em relação ao seu próprio conteúdo. A revolução do século XIX precisa deixar que os mortos enterrem os seus mortos para chegar ao seu próprio conteúdo. Naquelas, a fraseologia superou o conteúdo, nesta, o conteúdo supera a fraseologia."





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