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Insurreição na Bolívia

  • há 1 dia
  • 7 min de leitura

Por Olavo Souza


As ruas para chegar à La Paz e El Alto estão fechadas há dias pelos movimentos indígenas, sindicais e campesinos da Bolívia¹. Evo Morales está em exílio interno na província de Cochabamba, na parte andina montanhosa do continente, protegido por um esquema de segurança de apoiadores e cocaleiros indígenas. Rodrigo Paz, presidente eleito em agosto de 2025 e seu vice, Edmand Lara, o “candidato tiktok”, são os representantes do neoliberalismo decadente latino-americano no país e enfrentam uma crise que deve ser o maior ponto de inflexão desde a tentativa de golpe em 2019. Que crise é essa e quais tendências abrem para o futuro do país e do continente?


Sucessão de crises


O século XXI tem sido bem movimentado na Bolívia. Insurreições, nova constituição, um movimento indígena ascendente com um presidente também indígena, nacionalização e privatização de recursos naturais (principalmente a disputa sobre a exportação do gás), constituição plurinacional, golpe de Estado e a lista vai; uma série de movimentos que chegam, hoje em 2026, em um momento importante que pode se estender para uma nova conjuntura. Essas crises geralmente levantam as contradições entre uma burguesia crioula, agroexportadora e donas do minério - recursos naturais - contra os povos aymaras e quechuas, que bradam suas bandeiras wiphalas e sonham, segundo esta elite política crioula, com a utopia plurinacional socialista.²

Mas a utopia ganhou seu espaço, por mais que limitadíssimo. Desde a “Guerra do Gás” em 2003, situação muito semelhante à que observamos agora em 2026, o movimento indígena adentrou as arenas do poder institucional via MAS - partido movimento, “Movimiento al Socialismo” - e seu líder Evo Morales, figura de destaque nas manifestações de 2003. As insurreições por água e gás derrubaram Gonzalo Sánchez de Lozada “Goni” e Carlos Mesa, em 2003 e 2005, e elegeram Evo, que nacionalizou os hidrocarbonetos em 2006, privatizadas uma década antes por pressão do FMI. Seu governo atingiu um crescimento econômico e uma redução da pobreza, principalmente à maioria indígena boliviana, e fez parte da Onda Rosa latinoamericana.

A demanda histórica da nacionalização dos recursos naturais, principalmente os hidrocarbonetos, foi conquistada com muita luta dos povos indígenas e trabalhadores: a Guerra do Gás foi uma sucessão muito violenta de lutas, com muitos signos parecidos com a atual luta pela renúncia de Rodrigo Paz - bloqueio das vias, cerco a El Alto, mineiros lutando com dinamites, marchas pedindo a renúncia do presidente - estas últimas efetivadas, duas vezes em dois anos. Em maio de 2026 completam-se 20 anos da nacionalização do gás e me parece que a questão que paira sobre o proletariado boliviano é “se isso não nos fez escapar da crise, o que fará?” A crise atual se desdobra desde as derrotas consecutivas pós-golpe de 2019, quando Evo foi deposto acusado de fraude nas eleições, embora o MAS voltasse ao poder com Luis Arce depois do governo interino de Jeanine Añez. Este governo de Lucho Arce não foi o mais popular, mesmo tendo completado seu mandato no ano passado, pavimentando a vitória da direita com Rodrigo Paz, este representante da elite crioula que deu o golpe de 2019, com pai e avô sendo antigos correligionários presidentes da nação boliviana. O golpismo da classe política³ e econômica exportadora possui um forte aliado que está no cio para dominar a América Latina: a dupla Rubio-Trump, que já derrotaram um “demônio” em janeiro deste ano na Venezuela e cujos candidatos bobos da côrte varrem eleições em nosso continente; todos esses fatos são não novidade para a Bolívia. O que muda agora?

A sucessão de crises dos últimos 5 anos trazem novos elementos que obrigarão ao movimento que assistimos desde 2003 a se organizar de novas formas. Se em 2003 o MAS e suas constelações militantes - indígenas, cocaleiros, mineiros, magistrados, estudantes - tinham um projeto político claro, no momento, isso não se encontra.

Evo Morales, com todas suas contradições, era a grande liderança aglutinadora deste movimento; sua luta fratricida com Luis Arce e a divisão subsequente dentro do MAS obrigou inclusive o partido a ficar praticamente fora das eleições. Os que aventaram unidade e prosseguimento do projeto do MAS não entendiam que a mera unidade formal entre Morales e Lucho não poderia ser real; a questão foi colocada nas ruas, mas a indignação das massas era resultado da falha de ambos em não aprofundar o que haviam iniciado e de ao em vez terem prezado pela conservação de um modelo de administração capitalista, como bem explicitado por Vladimir Mendoza Manjón⁴, na Jacobin, no ano passado: 


O único marco político que ambas as facções veem é o respeito ao pacto histórico firmado com as classes dominantes nativas e estrangeiras em 2009: um modelo de intervenção do Estado que não afete significativamente os negócios privados, somado a certas concessões de direitos econômicos e políticos às massas populares. 

A liderança atualmente não está com nenhum dos dois; Evo aproveita sua histórica liderança, mas apazigua o movimento ao pedir eleições em 90 dias. Esta proposta cabe ao movimento? Poderia ela resolver a crise da “gasolina basura⁵”, do salário dos professores magistrados, da economia informal? Todos os problemas que sofreram tentativas de reforma por Paz, como o aumento do salário ou as mudanças em pequenas propriedades campesinas com a Lei 1720 - o motivo dos primeiros bloqueios em abril, já revogada pelo governo - apenas demonstraram que a crise tem um escopo maior. Para sua resolução, é necessária uma maior destreza dos trabalhadores para se mobilizarem novamente dentro de um projeto político, ou no mínimo, pelo aprofundamento radical de seu projeto plurinacional, que aparentemente, se movimentava al socialismo. O atual ponto de inflexão tem todos seus signos apontando para uma falência - ou pelo menos limite - do antigo projeto Evista: liderança exilada, movimentos divididos, uma eleição perdida; e o mais belo é que os bolivianos ainda assim escolhem as ruas. Talvez eles precisem escolher mais radicalmente o socialismo.


Resolução da crise?

Em 2019 a burguesia quebrou o pacto da constituição plurinacional. Conseguiu derrotar o líder do movimento e a sucessão de fatores resultou na divisão entre duas facções, uma no poder (de Arce), representando um movimento “renovador” segundo seus próprios apoiadores, enquanto a liderança derrotada, indiciada e exilada demonstrava radicalidade. Nos últimos 5 anos de crise pandêmica e pós-pandêmica a Bolívia até que se saiu bem, com bons resultados econômicos em 2022, mas luta fratricida do MAS e o contexto continental expõem o país à crise novamente; mais um ponto à burguesia, na beira de gozar com o massacre das condições de vida dos agora exaltados ponchos rojos. Percebemos que a ala radical, até então, era a burguesia, que apostou forte na violência aos civis em 2019. Mas a insurreição de abril de 2026 demonstra a força de um movimento cujo legado é difícil de se eliminar facilmente. É claro, assim como observamos no Brasil, a permanência do poder resulta nos sindicatos e organizações pelegas, pró este ou aquele líder, suas rememorações nostálgicas dos bons momentos do passado. No entanto, as experiências dos últimos 23 anos lograram criar uma independência admirável desse proletariado que conseguiu até sustentar uma derrota nas eleições de 2025 para voltar triunfante no momento. 

A resolução efetiva desta crise ainda pode estar longe. É possível acreditar em uma vitória popular no mundo atual? As derrotas dos ciclos de insurreições de 2013-2015 e mais recentemente dos “levantes da geração Z” nos dão um amargo na boca. Mas não deixem de se admirar por um proletariado cuja primeira tática de luta a se lançar é a greve geral, bloqueio logístico e cerco das cidades. Rodrigo Paz tenta e falha ao desmontar os bloqueios, reprime a população e demonstra estar derrotado todos os dias, como no recente corte do seu próprio salário, medida populista barata; possui a sombra do apoio dos B-2 americanos e dos bravateiros neoliberais como Milei, ou do moderado Lula (que inclusive anunciou ajuda humanitária ao governo em mais uma aposta conciliadora). Tais fortalezas o fortificam suficiente para ainda não ter renunciado ou escalado⁷ o conflito, mesmo com a proposta clara dos movimentos indígenas de “¡ahora sí, guerra civil!” entoarem pelas colinas de La Paz. Quem vai piscar primeiro neste duelo? Qual projeto será imposto a qual inimigo? De qualquer forma, no atual andar da carruagem, o proletariado boliviano tem uma oportunidade de ouro de derrubar um tirano e radicalizar seu projeto político, a partir de uma crítica dos limites internos e dos erros do passado. Quero acreditar que, em uma possível derrubada de Rodrigo Paz os bolivianos não caiam na derrota institucional do Chile do estallido ou nos limites eleitorais de Evo. Que aprofundem o poder do povo, façam novas medidas históricas. Quero ter a ingenuidade de acreditar em uma utopia. Vamos sortear nomes: Comuna de La Paz? Ditadura plurinacional? Quem dá mais?






NOTAS


¹ As táticas de greve geral dirigidas pela COB (Central Obrera Boliviana) funcionam muito bem em um país de, aproximadamente, 1098581 km². Com um tamanho próximo ao do estado do Mato Grosso, apenas um pouco maior, os manifestantes têm o costume de fechar as vias para que não chegue principalmente o combustível aos centros urbanos. Claro, eles próprios sofrem com esta ação, mas as táticas de irrupção logística de massas são interessantes e podem ser emuladas em diversos contextos de lutas. Acho de extrema importância colocarmos questões táticas em questão.


² Deixando claro que sou contrário à designação do projeto do MAS como um projeto socialista. Este é um debate profundo que não vou me adentrar, mas de forma resumida, acredito que o projeto evista não se efetiva enquanto ditadura do proletariado e nem suas propostas econômicas caminham ao socialismo em qualquer uma de suas características básicas: planificação, controle do sistema financeiro, emancipação do trabalho, etc.


³ Outro fator desta prolongada e infindável crise é a questão insurrecional, ou golpista, da extrema-direita. A Bolívia teve de se impor e lutar contra uma tentativa de levante de direita de Fernando Camacho da província de Santa Cruz, que historicamente demanda autonomia, em 2019, no contexto do golpe. Camacho foi preso em 2022 por Luis Arce, mas seu projeto adormecido pode acordar, e tem agora Rodrigo Paz como efetivador institucional.


⁴ É docente na Universidade Mayor de San Simón.


⁵ Gasolina de má qualidade disponibilizada pelo governo Paz pós-subsídios de petróleo.


⁶ O já citado Vladimir Mendonza aposta na resolução da fuga de capitais a partir da concentração das divisas da mineração no Banco Central. Segundo ele, líderes nacionalistas como German Busch, presidente em 1939, e Gualberto Villarroel, que acabou enforcado pela proposta. Um ainsurreição em 1952 teve vitória nesta questão, apenas para ser desfeita no futuro neoliberal dos anos 1990.


⁷ No momento que escrevia o texto apenas informações esparsas haviam sido divulgadas. Segundo o coletivo Liga Obrera Revolucionaria por la Cuarta Internacional (LOR-CI), no Esquerda Diário, foram 6 mortos desde o início do conflito. Rodrigo Paz escolheu uma escalada lenta na quarta semana de protestos. Acesso em 26/05/2026.


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