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O susto da vitória

há 7 horas
5 min de leitura

Atualizado: há 4 horas


Por Olavo Claus


Nos aproximando do fim deste ano, que iniciou a segunda metade da tão movimentada década de 2020, já é possível colocá-lo como um marco na cartografia de revoltas populares de nosso século. 2026, assim como 2025, demonstrou que a burguesia, quando se move para exigir seus interesses, consegue ser bem radical, mas a resposta do seu inimigo de classe vem de forma engenhosa. 


Até agora em nosso tempo, todas as revoltas da classe trabalhadora moveram uma força destituinte descomunal e falharam na constituição de um poder que instituísse as mudanças radicais que a originaram. Muitas delas, no entanto, venceram o seu inimigo principal ou conquistaram uma reivindicação central. No início do nosso século, a Primavera Árabe no Egito destituiu Hosni Mubarak, e os tunisianos fizeram uma nova Constituição. Ambos países caíram posteriormente em uma ditadura aberta, com novos desafios para constituição de um poder revolucionário. Algo semelhante aconteceu no Brasil em junho de 2013, quando os autonomistas do Movimento Passe Livre (MPL) conseguiram colocar o poder em cheque e desistiram de continuar as mobilizações por terem garantido uma vitória no cancelamento do aumento da passagem. As manifestações foram retomadas com discurso mais à direita, um movimento que serviu posteriormente como pretexto para o golpe contra Dilma.


A vitória, em muitos processos políticos, pode ser um momento assustador. A sensação de vencer é sempre tentadora, mas poucas vezes ela é palpável. Se luta mais sem perspectiva nenhuma de vencer do que com certeza de vitória. Quando isto acontece, é comum a desmobilização, o susto, a sensação de impotência e incerteza diante dos próximos passos, mesmo quando o que acabou de acontecer parecesse antes impossível.


São nesses momentos de flutuação, de poder político pairando no ar, que os nossos inimigos nos atacam. A derrota dos poderosos é sempre complicada, sua escala de poder demora mais para diminuir e diminui diferente do poder político da classe trabalhadora. 


Está claro para mim que o século XXI é um século de revoltas, como disse Vladimir Safatle recentemente. Em 2001, 2011, 2013, 2016, 2020, 2022, 2025, 2026, em todos esses anos a classe trabalhadora, em algum rincão do mundo, parava toda a sociabilidade para destituir governos autoritários, implementar formas de auto organização e exigir sua visão de mundo. Quais delas foram vitoriosas e logo depois derrotadas por um poder ainda maior? Inúmeras. Do Egito (2011) ao Sudão (2022), Grécia (2013), Chile (2019), Argentina (2001), Brasil (2013), enfim, no mundo todo, nossa classe se deparou com a vitória e por uma série de motivos, perdeu para uma “contrarrevolução preventiva”, em muitos casos, com a instituição de ditaduras ou outros tipos de fascismo.


O nosso país e a nossa classe correm esse perigo agora.


O que se deu nos 20 dias entre o primeiro e o segundo turno das eleições, indubitavelmente, entra para a história como um dos maiores (senão o maior) movimentos de massa da história de nosso país. Iniciando no primeiro turno com a eleição de parlamentares autoproclamados comunistas, culminou com o levante dos estudantes no Brasil todo, a aprovação do fim da escala 6x1 e tarifa zero nos fins de semana e por fim, no dia 25, a vitória de Lula, garantindo uma série de conquistas que seriam destruídas por Flávio Bolsonaro. Desde a vitória sobre o governo de Jair Bolsonaro que a classe trabalhadora não imputava uma derrota tão grande à classe burguesa. O resultado de todo esses desdobramentos foi direto no bolso dos rentistas, que perderam cerca de R$ 75,6 bilhões na queda das ações da Ibovespa, afetando acionistas de grandes bancos e varejistas, como Magazine Luiza e BTG Pactual. Os bilionários apostaram muito alto na derrota da nossa classe e estavam prontos para passar a boiada sobre nossos interesses. 


No dia das eleições de segundo turno e nos dias seguintes, uma onda de violência vitimando pelo menos 10 pessoas assolou o Brasil. Sem contar a destruição e ataques contra territórios indígenas, feitos por grileiros, fazendeiros e madeireiros Brasil afora. Foi um “expurgo”, uma vingança à vitória de Lula, vinda do núcleo mais violento do bolsonarismo.


No dia seguinte à derrota de Flávio, o capital também reagiu de forma rápida em nome de um dos seus mais astutos representantes: o ministro da Fazenda, Dario Durigan, ex-executivo da Meta que senta em uma das cadeiras mais importantes do governo Lula III. Durigan, em entrevista à CBN, disse que o Governo estava conversando sobre implementar um ajuste fiscal no orçamento primário, com vistas a enviar uma PEC ao Congresso que o fizesse. Além dele, Leonardo Attuch do Brasil 247 também propôs um corte no orçamento, sem nenhuma menção às consequências dessa ação: o fim dos pisos constitucionais da saúde e educação, a perda de valor da aposentadoria, entre outras.


A reação à esta declaração foi acertada, pelo menos por parte de uma base do governo. Parlamentares eleitos como Jones Manoel e Elias Jabbour alertaram para as consequências de uma proposta como esta. Viveríamos o que vivemos em 2014-15, quando Dilma Rousseff indicou Joaquim Levy para o Ministério da Fazenda e fez um profundo ajuste fiscal, no que foi um dos maiores estelionatos eleitorais cometidos por uma campanha do PT. A campanha de Dilma em 2014, de estética radical, resgatando sua história como guerrilheira e acenando para as manifestações de 2013, disputou a consciência de uma massa que sofreria diretamente com o giro à direita no seu seguinte governo. Dilma teve de encarar uma profunda recessão econômica, nunca antes vista, e uma perda de popularidade que serviu de pretexto para sua queda com o golpe de 2016.


A receita é a mesma: uma profunda mobilização de massas atrai a consciência política de milhões de pessoas à esquerda, uma pequena ou grande vitória é conquistada… e o petismo dá a mão para não lutar pelas unhas. É justamente a reorganização burguesa em momentos de derrota explícita, enquanto a classe trabalhadora comemora uma vitória parcial, que permite a derrota total dos que antes festejavam.


No calor do momento em que escrevo este texto, Flávio Bolsonaro acaba de se declarar presidente do Brasil, diretamente do solo estadunidense sob a proteção de um guarda-chuva nuclear. Seus aliados organizaram, em alguns dias, uma campanha midiática pela recuperação dos fundos perdidos com a vitória de Lula; uma nova proposta de anistia feita por Davi Alcolumbre; ataques contra povos indígenas; uma fuga do país e uma declaração de guerra contra a soberania de nosso processo eleitoral. 


Enquanto isso, setores avançados de nossa classe e representação política falam de aliança com MBL e Renan Santos, como foi o caso da infame declaração de Elias Jabbour. A desorganização já está dada? Ainda não, mas cabe o alerta, para que o esforço da classe trabalhadora não tenha sido ineficaz. Movimentos como as manifestações contra o prefeito de Salvador e São Paulo são uma esperança, que devem elevar a tônica radical e para isso podem se inspirar em tantos outros movimentos populares de nosso século. Não só nesses movimentos, mas também nas táticas de nossos inimigos, que foram radicais o suficiente para travar o modal logístico rodoviário, tirando os ônibus de circulação em ambas cidades durante o segundo turno. A burguesia sabe o valor da disrupção logística, assim como nossos hermanos bolivianos e nossos camaradas dos gillet jaunes na França. Em termos táticos, devemos avançar. Em quesito programático, as nossas ruas sabiam ontem os passos radicais de amanhã: o fim do teto de gastos já foi protagonista de cenas dignas de guerra civil em Brasília; uma vida sem catracas já pareceu ser possível desde a rebelião urbana em SP, nas nossas jornadas de junho. É possível reorganizar o nosso campo. Sabemos os caminhos.


Se o século XXI é uma era de revoltas, nós brasileiros precisamos caminhar os passos necessários para torná-lo o século das revoluções.

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