Os ventos do Sul movem o mundo

por Fernando Savella
As jornadas de junho de 2013 abriram no Brasil uma nova quadra histórica para a relação entre as massas e o rumo da cena política e da gestão do Estado. Aquele episódio tornou as ruas o grande centro da legitimação política, podendo tornar fraco um governo em um piscar de olhos e assim decidir, mesmo que a despeito do intento imediato dos manifestantes, o programa a ser levado a cabo pelo Estado. O desenvolvimento das manifestações de rua à direita a partir de 2014, com a entrada da classe média como principal protagonista das ruas naquele momento, foi o que permitiu que a direita pudesse apresentar e autonomizar seu projeto político ao conjunto da sociedade enquanto representante legítima desta, o “povo na rua” em oposição à classe política presente nos gabinetes, representantes da opressão e das insuficiências da nossa ordem econômica.
É evidente que temos outros processos profundos que levam à fascistização de boa parte da sociedade brasileira, bem como à aceitabilidade da via fascista para aqueles que não necessariamente compartilham toda a extensão dessa convicção. O desmonte completo da seguridade social e da legislação trabalhista, a violência como mediação generalizada ao invés da participação popular e o forte apelo moral e familista do movimento bolsonarista são alguns prospectos que correspondem bem à sociabilidade fragmentada que se torna cada vez mais característica da estrutura social brasileira.
De toda forma, foram as manifestações o estalo capaz de tornar esses processos, até então subterrâneos, uma unidade pública, uma comunidade sobre a qual construir um movimento político que seria vitorioso dois anos depois com o golpe contra Dilma Rousseff e ainda mais vitorioso com a eleição de Jair Bolsonaro em 2018. O fascismo não poderia se instalar antes de se tornar um fenômeno público capaz de se passar por expressão autêntica da revolta contra a ordem.
Essa não foi a única via encontrada por tal movimento em todo o mundo. Nos Estados Unidos, sua capacidade de avanço surgiu não através da explosão das ruas, mas através dos próprios mecanismos de recrutamento de quadros políticos no interior de suas elites miseráveis. Mas o Brasil tem sua própria história e os desafios enfrentados pela direita para derrotar a vontade popular são particulares. O Brasil é um país com uma história profunda de luta popular, e este novo episódio contradiz a frequente narrativa do povo brasileiro como um ente passivo e apático, incapaz de compreender a luta política.
O episódio: um ciclo de manifestações de rua inaugurado por estudantes da Universidade Federal Fluminense tornou-se aparentemente o maior fenômeno do tipo em nossa história – no mínimo, ofereceu às gerações contemporâneas sua maior experiência nas ruas – e uma mudança brusca nas nossas formas recentes de luta. Por anos, não conseguimos produzir um fenômeno parecido com as manifestações à direita de 2014 a 2016: as cidades tomadas pelas cores da manifestação, pessoas não organizadas politicamente e muitas vezes nem minimamente engajadas, em massa sabendo da programação e dispondo-se a atravessar a cidade para protestar, produzir cartazes e impor sobre o ambiente urbano um regime excepcional. Por anos, as manifestações da esquerda foram no velho formato bem conhecido: o carro de som com as falas de alguns dirigentes sindicais e partidários, um público que vai até lá para cumprir com seu dever militante, muitas vezes constituído apenas por aqueles indivíduos organizados nos próprios partidos ou sindicatos.
Essas manifestações “normais” são importantíssimas, para manter o repertório da manifestação de rua vivo, não deixar que a luta política ocorra completamente no interior das instituições nos tempos de baixa mobilização. Mas o que alcançamos nas últimas semanas, entre o primeiro e o segundo turno presidencial, foi um salto qualitativo, uma explosão. De repente, a massa desorganizada sabe o horário e o local da manifestação, e os elementos organizados sequer precisam convidá-la ou reunir-se para pensar na divulgação ideal. As organizações passam a ser ativamente procuradas para que cada um saiba o que fazer, quais são as preocupações, quais são as demandas para que o ato seja viabilizado. Plenárias surgem em diversos territórios pela sede de discutir a saída coletiva para o problema. Foram três semanas de mobilização permanente que transformaram vidas “normais” e ritmadas pelo compasso do trabalho e do consumo em vidas extraordinárias ritmadas pelo compasso da ação coletiva.
Alcançamos uma vitória, a reeleição de Lula contra o retorno dos representantes puros do fascismo brasileiro. É certo que tivemos uma derrota acachapante no primeiro turno, que demonstra que a diferenciação das forças políticas é ambígua quando vamos para suas diferentes expressões regionais e distribuídas nas eleições legislativas. Há uma defasagem entre os ânimos políticos que “polarizam” a sociedade brasileira e o que o sistema partidário torna possível expressar em todos os níveis da gestão do Estado. Mas a conquista do poder executivo nacional por uma força política em algum nível regulada pelos interesses populares (ainda que estes não se imponham e não se tornem os interesses dirigentes do governo eleito) é uma vitória ainda assim importantíssima para preservarmos algum nível de estabilidade e liberdade para a classe trabalhadora, bem como o mínimo de soberania que o Brasil ainda preserva. O ponto aqui é a mobilização e o que significa a nossa vitória, mesmo que parcial.
Primeiro de tudo, esse momento é um momento de demonstração de força, não para o inimigo, mas para a própria base passiva que se expressa no momento eleitoral. A demonstração empírica de que a ação coletiva, mais do que o voto, é central para a nossa sobrevivência, e mais importante do que isso, possível. Passamos anos dizendo que só poderemos avançar alguma coisa com a mobilização popular, chamando manifestações por diferentes razões. Conseguimos reunir números significativos e eficazes para acabar com a escala 6x1, para rechaçar a tentativa de golpe do 8 de janeiro de 2023 e responsabilizar seus autores. No entanto, a resolução desses temas todos foi a resolução lenta e institucional, através da delegação do poder popular a representantes parlamentares e à legalidade defendida (seletivamente) pelas cortes. A vitória no segundo turno foi fruto imediato do engajamento permanente das massas – começou com as manifestações de rua, seguiu num crescente ininterrupto e terminou, novamente, nas festas de rua.
Temos, hoje, a evidência de que a mobilização é o meio de avançar. Não a evidência argumentativa, mas a evidência prática, já incorporada na visão de mundo de cada um que esteve envolvido nesse processo, que são milhões de pessoas por todo o país. O rumo do país foi pautado pela esquerda através da unidade pública nas ruas, e assim se abrem novas possíveis configurações para a organização e alinhamento das massas.
Não podemos ser ingênuos ao pensar que a partir de agora todas essas pessoas estarão em manifestações todo domingo para discutir as pautas da vez. Mas podemos, mais do que devemos, apontar o seguinte caminho: não haverá governo sem que as principais pautas da classe trabalhadora sejam expressas nas ruas, e não haverá ataque do empresariado ou do imperialismo que não tenha resposta. É o momento de organizar as massas, para além de mobilizar, e todos os esforços, de todas as fontes, devem ser saudados.
Segundo, estamos passando por um momento explosivo em todo o mundo. Manifestações de rua também massivas se espalham por toda a Europa, novamente (como nos anos 2010) contra os efeitos do neoliberalismo e identificando no imperialismo novamente o grande inimigo de quem trabalha. Certamente nosso próprio ciclo nas ruas foi inspirado pelas manifestações inicialmente na França e na Espanha – ainda que subnotificadas em nossa imprensa, não podemos subestimar o poder da inspiração entre vanguardas de juventude ao redor do mundo –, mas o fato de termos alcançado a vitória aqui é talvez uma inspiração ainda mais poderosa, de volta não apenas aos europeus, mas a jovens trabalhadores de todos os lados. Se formos capazes, essa pode ser a virada mundial. E esperamos que seja!
Não é uma vitória comum. Ela se deu a despeito de todos os esforços do grande empresariado e do imperialismo estadunidense, que uniram o boicote econômico (através das tarifas ianques) ao poder das big techs em ordenar todo o horizonte comunicacional de nossa sociedade, e a indústria de falsificação da extrema-direita à descredibilização do sufrágio como mecanismo de participação. Nada disso foi capaz de derrotar a vontade popular expressa nas manifestações. A mensagem que o Brasil, desde o Sul Global, envia ao resto do mundo é: é possível derrotá-los, não é uma utopia de juventude.
O resultado não é o ideal, está longe disso. Ainda elegemos um governo que está intimamente comprometido com a conciliação com as elites – mais do que conciliação, dando vantagem a essas mesmas elites. Um governo que não é capaz, no entanto e ao mesmo tempo, de aplicar o programa máximo dessas elites. E será tanto menos capaz de expressar esse programa quanto maior for o nosso nível de mobilização. Se queremos chegar à vitória final – ou pelo menos a uma vitória substantiva e sustentada no tempo –, será apenas pelo acúmulo de avanços como esse. Por isso, é um dia feliz!




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