top of page

Resultados de busca

113 resultados encontrados com uma busca vazia

  • JK e a Reversão da Taxa de Lucros

    Por Igor Dias Domingues de Souza O presente texto sintetiza os aspectos teóricos e conclusões centrais do trabalho de pesquisa “As Metas da Acumulação: o governo JK (1956-1961) e o crescente das Taxas de Lucros na acumulação do pós-guerra” 1.1- De 1929 a 1950: uma breve trajetória da economia mundial No início do século XX, a Europa se encontra como centro do capitalismo mundial, principalmente devido à sua posição histórica enquanto incubadora do modo de produção capitalista (MARX, 2017a, p. 785-834). Tal colocação se torna de suma relevância para a compreensão da dinâmica econômica que se desenvolverá a partir de 1945 com o fim da Segunda Grande Guerra, uma vez que, tendo seu território sido devastado pelo conflito, bem como pelo elevado número de baixas ocorridas de 1939 a 1945, a burguesia dos países europeus perde sua hegemonia global, emergindo os Estados Unidos da América como grande potência econômica capitalista em oposição à União Soviética, que deixa os anos de guerra fortalecida no assim chamado bloco socialista. O enfraquecimento das economias dos países capitalistas na Europa Ocidental se torna, dessa maneira, uma ameaça para a sustentação da influência norte-americana sobre os países europeus (SOUSA, 1947), de modo que em 1947, os EUA lançam o Plano Marshall para a recuperação econômica desses países (ALLEN, 1948), que investiria cerca de 11 bilhões de dólares em suas economias para a reestruturação do capitalismo no Velho Mundo (BALDISSERA, 2012). A influência do Plano Marshall na reestruturação econômica mundial no pós-guerra é perceptível, no entanto é necessário olhar mais a fundo os processos ocorridos no período. A tendência à queda das taxas de lucro é fundamental para compreendê-los. Não apenas da influência política soviética surge o pacote de assistência econômica norte-americano; com o contínuo desenvolvimento das forças produtivas por meio do avanço tecnológico durante a guerra, decorreu-se o consequente cumprimento da lei tendencial; uma vez que a tecnologia permitia que se investisse menos capital variável na produção em decorrência da menor necessidade de trabalhadores para executar as etapas da produção agora realizadas por intermédio de maquinarias (MARX, 2017b, p. 249-268). Uma das evidentes soluções para a queda da taxa de lucros em andamento era o comércio exterior (MARX, 2017b, p. 271-279), mas como efetivá-lo levando em conta que com o fim da guerra as economias europeias encontravam-se devastadas, uma vez que eram estas essenciais parceiras comerciais para os EUA? O Plano Marshall atua no sentido de garantir parceiros comerciais para as empresas norte-americanas objetivando conter a queda da taxa de lucros na margem Oeste do Oceano Atlântico. Verifica-se, no entanto, que os programas de recuperação da economia no imediato pós-guerra levados a cabo pelo governo americano (não apenas o Plano Marshall, como também o Plano Colombo, de influência no continente asiático) serão mais efetivos neste sentido nos países sob influência dos programas que nas empresas propriamente norte-americanas, o que se torna perceptível se observarmos as taxas de lucro líquido à partir do período de implantação destes projetos ; Marshall em 1947 e Colombo em 1951 (Figura 1). Como demonstra Lenin: A exportação de capitais influencia o desenvolvimento no interior dos países em que são investidos, acelerando-o extraordinariamente. Se, em consequência disso, a referida exportação pode, até certo ponto ocasionar uma estagnação do desenvolvimento nos países exportadores, isso tem lugar em troca de um alargamento e de um aprofundamento maiores do desenvolvimento do capitalismo em todo o mundo. (LENIN, 2012, p. 96) Este processo de recuperação econômica global que ocorre do período de 1945-1973 caracteriza-se como o “boom” econômico do pós-guerra (BRENNER, 2006, p. 41-96), tal fato se deve ao papel exercido pela Segunda Guerra Mundial em termos econômicos, atuando como força destruidora de capitais necessária para a superação da crise de 1929, bem como pela internacionalização da economia e do mercantilismo orientado para a exportação, além da intensificação da acumulação de capital por meio do investimento estatal em suas economias nacionais. Neste momento, observa-se, com maior clareza que em momentos anteriores a posição do capital financeiro (bem como o acionário) na relação de mercado do capital entre potências imperialistas, principalmente por meio do modo em que se expressará a dominação imperialista norte-americana, seja esta a dominação do mercado através do mercado por suas empresas e indústrias, bem como por ação de seus bancos. Temos nessa fase que: O capitalismo da livre concorrência, com o seu regulador indispensável, a Bolsa, passa à história. Em seu lugar apareceu o novo capitalismo, [...] que representa uma mistura da livre concorrência com o monopólio. (LENIN, 2012, p. 66) Figura 1: Taxa de lucro líquido nas empresas: Estados Unidos, Alemãnha e Japão, 1948-99 Fonte: BRENNER, 2003, p. 83. 1.2- Imperialismo e liberalização da economia: a acumulação capitalista na década de 1950 brasileira Enquanto nos países europeus a grande questão no pós-guerra era primariamente da reestruturação da economia industrial, em inícios da década de 1950, cerca de 60% da População Economicamente Ativa do Brasil encontrava-se empregada no setor agropecuário, setor tal que absorvia 29% da renda nacional, sendo que, em 1955 a cafeicultura respondia a 70% do valor desta produção. Estes valores ganham tons mais vibrantes se observarmos que, neste mesmo ano, o café correspondia a 60% do capital nacional proveniente da exportação (FARO; SILVA in: GOMES, 2002, p.67-89). Não surpreende que a economia brasileira fosse, em muito, voltada para a produção e exportação de produtos agrícolas, considerando o Brasil enquanto país economicamente situado na Divisão Internacional do Trabalho como país exportador de produtos primários e commodities. No entanto, na primeira metade da década de 1950, a baixa produtividade das lavouras alimentares, aliada à grande lucratividade das exportações em decorrência do cenário global de crescimento econômico, criaram um cenário interessante para o desenvolvimento de pretensões industrializantes que hibernavam desde o fim da Grande Guerra. Em 1955, correspondendo ao cenário internacional, a Superintendência da Moeda e Crédito (SUMOC) pública a Instrução n°113, que, sob a justificativa de incentivar o desenvolvimento da indústria nacional, a abole o dispêndio de divisas no ingresso de equipamentos estrangeiros no país; no entanto, ainda que na aparência sua face fosse a de um fomento à indústria brasileira, efetivamente, demonstrou-se como uma abertura para o capital internacional em nossas fronteiras: Enquanto empresas genuinamente nacionais precisavam frequentar leilões de câmbio para conseguir importar, outras, associadas a capitais estrangeiros o faziam diretamente pela Instrução n°113. (FARO; SILVA in GOMES, 2002, p.70) Como já dito do capitalismo nesta fase particular, temos que o investimento de capitais internacionalmente é uma das formas de se expandir o capital das potências imperialistas, ainda que isso signifique uma relativa estagnação dessas economias (LENIN, 2012, p. 96). Pode-se dizer que a Instrução ditou os rumos da economia nacional na segunda metade dos anos 1950, portanto, uma vez que temos aqui presentes diversas causas contra-arrestantes à lei tendencial da queda da taxa de lucros expressas na realidade brasileira. Não apenas o barateamento dos elementos do capital constante por meio da queda dos preços - que, tendo em vista o baixo nível de desenvolvimento tecnológico nacional relativo à indústria internacional, obtinham uma queda dado o preço de mercado dos produtos importados, os quais tinham seu acesso facilitado pela Instrução nº113 -, mas, simultaneamente, o aumento do grau de exploração do salário e a compressão do salário abaixo de seu valor. Demonstra Brenner: Em particular, as ondas estendidas de acumulação de capital que fundaram a grande recuperação durante a década de 1950 foram condicionadas pelo alcance de taxas de lucro extraordinariamente altas, cuja premissa foi a supressão do trabalho e sua consequente aceitação de baixos e (em comparação com o crescimento econômico) lentos crescimentos salariais. (BRENNER, 2006, p.46, tradução nossa) Figura 2 Salário Mínimo Real em R$ Fonte: IPEA. Salário Mínimo Real: Mensal de 1940.07 até 2019.10. 2019. In: IPEA, 2019. Se investigarmos o Salário Mínimo Real (figura 2) e o crescimento da indústria no Brasil, aqui expresso pelo desenvolvimento da capacidade instalada de geração de energia elétrica (figura 3) – cujo desenvolvimento se faz necessário para o desenvolvimento tecnológico industrial pelo qual passava o país nos anos 1950 -,observaremos um crescimento salarial ascendente, porém lento ao compreender seu crescimento médio, frente a um desenvolvimento ininterrupto e quase constante da capacidade de geração energética. Apresenta-se, portanto, um crescimento na produtividade do capital ao passo que os salários em ascensão não significam uma redução da massa de mais-valor extraída. Figura 3 Capacidade instalada de geração de energia elétrica. Fonte: MME. Capacidade instalada de geração de energia elétrica do Brasil: quantidade. 2019. In: IPEA, 2019. A mão de obra no Brasil, por sua baixa especialização, possuía um custo reduzido em comparação à dos países centrais, o que permitia menor investimento em capital variável na produção industrial, tornando o país atrativo para sediar filiais de empresas estrangeiras, de modo a manter as altas taxas de lucro através do comércio exterior e promover maior acumulação de capital, expandida internacionalmente em todos os seus aspectos: demanda crescente de força de trabalho, diminuição relativa da parte variável do capital e formação de um exército industrial de reserva. (MARX, 2017a, p. 689-784) A interseção do incentivo para a entrada de capital estrangeiro produzido pela Instrução n°113 da SUMOC e a expansão do capital internacional pela necessidade da acumulação e da manutenção das altas taxas de lucro, com a posição brasileira na divisão internacional do trabalho, resultou, com o plano de metas, no crescimento e desenvolvimento da indústria de base, principalmente as de transformação e extrativas, tendo como principais investidores os países componentes do G7 (ver figuras 3 e 4). Figura 4 Investimentos Diretos Estrangeiros por país de Origem através da Instrução 113 e do Decreto 42.820 no período entre 1955 e 1963 (em milhões de US$). Fonte: SUMOC. Boletins, vários anos (1955-1964) in: CAPUTO; MELO, 2008, p. 10. Figura 5 Investimento direto estrangeiro entre 1955 e 1963 via Instrução 113 da SUMOC e Decreto 42.820 – Setores da economia (1 dígito). Fonte: SUMOC. Boletins, vários anos (1955-1964) in: CAPUTO; MELO, 2008, p. 11. De modo análogo, a escolha do governo JK em seu Programa de Metas no desenvolvimento preferencial do transporte rodoviário não se dá por acaso; Gounet nos demonstra a importância estratégica do setor automobilístico para o desenvolvimento do capitalismo, principalmente devido ao grande número de peças necessárias (em torno de 20 a 40 mil peças) na produção unitária o que pressupõe todo um sistema voltado para a produção automobilística, no entanto, o modelo de desenvolvimento deste setor industrial posto em prática no Programa não está voltado para o desenvolvimento de uma indústria nacional automotiva, mas sim para atrair filiais de indústrias internacionais, de modo que estimula a acumulação de capital neste setor a partir da exploração da mão de obra local (figura 5), que corresponde a 15% do comércio externo e 10% do Produto Nacional Bruto dos principais países do mundo (GOUNET, 1999, p. 13-53). --Figura 6 Investimento direto estrangeiro entre 1955 e 1963 via Instrução 113 da SUMOC e decreto 42.820 – Setores da economia (2 dígitos). Fonte: SUMOC. Boletins, vários anos (1955-1964) in: CAPUTO; MELO, 2008, p. 13. Tendo em vista os dados apresentados, me permito, em certa medida discordar da afirmação de Leopoldi: A conjuntura internacional constituiu o quadro maior dentro do qual se inseriu a política econômica brasileira do período. Ela teve um efeito muito importante sobre as escolhas políticas feitas então, mas não condicionou a tomada de decisão, como afirmaram algumas análises econômicas influenciadas pela CEPAL. (LEOPOLDI, Maria in: GOMES, Angela, 2002, p. 72, grifos do autor) Em certo nível, o que se demonstra é que a autonomia de JK e sua gestão com relação às políticas executadas em seu mandato (de 1956 a 1960) era relativa, de modo que não se apresentava apenas uma influência da economia internacional, mas um condicionamento que, é necessário esclarecer, não é necessariamente levado a cabo por vontade ou por projeto político, mas pela dinâmica da produção capitalista. Assim, tanto o Brasil é condicionado pelo processo global do capital, como também exerce o papel inverso, a partir de sua posição econômica no capitalismo global. Retorno, assim, a Leopoldi, que nos dá a chave que precisamos para fazer esta afirmação. Uma vez que, não fosse essa interdependência proporcionada pela fase imperialista do capitalismo, haveria o Brasil de ter solucionado seus problemas com a balança comercial, uma vez que sua produção encontra-se não apenas mais elevada, mas, também, mais desenvolvida (ainda que hegemonizada por empresas de capital internacional)o que não foi o caso; portanto: [...] áreas da política econômica de Juscelino Kubitschek que mais mobilizaram a atenção do governo, seus recursos técnicos e suas disponibilidades financeiras: a política dirigida para a consecução das metas industriais do Plano de Metas e as políticas cambial e de comércio exterior. Na primeira, o governo foi bem sucedido, conseguindo consolidar a infraestrutura energética, de transportes e de insumos básicos no país, implantando novos setores da indústria pesada e aliviando a importação desses itens. No setor da política cambial e comércio externo, contudo, o governo se defrontou com desafios internos e externos, e, a despeito de uma alta eficiência técnica, não conseguiu resolver o problema do baixo desempenho das exportações, aprofundando assim a escassez de divisas e tendo de recorrer ao endividamento como forma de captação de recursos para a viabilização do Plano de Metas. (LEOPOLDI, Maria in: GOMES, Angela, 2002, p. 76-77) 2- LONGOS CAMINHOS A TRILHAR: À GUISA DE CONCLUSÃO Os fatores anteriormente analisados nos apresentam um questionamento palpável aos êxitos do Programa de Metas, com a modernização da indústria de base brasileira, quem acumulou o referente a 50 anos em apenas 5? Quem se modernizou com o plano de desenvolvimento brasileiro? Lenin, anos antes de JK eleger-se a presidente do Brasil, nos aponta uma possível resposta: Enquanto o capitalismo for capitalismo, o excedente de capital não é consagrado à elevação do nível de vida das massas do país, pois isso significaria a diminuição dos lucros dos capitalistas, mas ao aumento desses lucros através da exportação de capitais para o estrangeiro, para os países atrasados. (LENIN, 2012, p. 94) Embora o Programa de Metas do governo JK não tenha se restrito unicamente às suas metas para a industrialização, mas compreendendo este aspecto como destaque entre os principais objetivos concernentes à modernização do Brasil na segunda metade dos anos 50 do século XX, o cenário nacional e global do capitalismo nos dá base para afirmar que o Programa de metas foi um projeto de modernização dependente para o Brasil. É improvável o “desenvolvimento” de um país de capitalismo hiper-tardio dentro do modo de produção capitalista, posto que este se encontra sob a lógica de uma divisão internacional da economia e exerce uma função necessária ao funcionamento do capitalismo global, no qual, tendo em vista a ausência de fronteiras para o capital, são relegados a estes países uma parte considerável dos processos de produção: a exploração de matérias primas, a montagem de mercadorias, etc., em função do baixo custo da força de trabalho, que, com a tendência à queda dos lucros e a intensificação da acumulação de capital, torna a produção em diferentes países economicamente viável e necessária para a reprodução do modo de produção. O Plano de Metas, assim, se estabeleceu como industrialização no Brasil realizada pelo capital de empresas internacionais que, investido no país, retorna ao capitalista individual, capital personificado, no processo de acumulação. Muito embora não tenha tido a pretensão de esgotar o debate quanto a essência do desenvolvimento brasileiro na segunda metade dos anos 1950, o retorno à crítica da economia política na História nos permite alguns avanços, principalmente no que tange à correção teórica e à possibilidade de compreensão da totalidade do movimento histórico, em oposição ao caráter fragmentário e subjetivista que impera na ciência contemporânea. Isso não significa, de modo algum, uma desqualificação da atual historiografia. Há que observar, porém, as possibilidades de desenvolvimento dos estudos históricos que foram abandonados sem que, no entanto, fossem efetivamente superados. Além disto, ao implementar um estudo em um espaço temporal prolongado, nos permite recuperar o caráter instrumental da ciência, usando do estudo categórico do passado para a compreensão da lógica que se opera também no presente. Paradoxalmente, apesar de a teoria das ondas de longa duração na história da economia capitalista ter sido claramente de origem marxista (seus precursores foram Paryus, Kautsky, van Gelderen e Trotsky), desde sua adoção por economistas acadêmicos como Kondratieff, Schumpeter, Simiand e Dupriez, os marxistas decididamente deram as costas a este conceito. Isso provou-se duplamente derrotista. Primeiro, tornou os economistas marxistas cada vez mais cegos ao que agora parece ser um aspecto chave do ciclo industrial: sua articulação com as ondas de longa duração e, portanto, sua amplitude variável. Segundo, impediu a maioria dos marxistas de pressupor importantes pontos de viragem na história econômica recente: o ocorrido em fins dos anos 1940, que envolveu um grande surto de crescimento econômico nos países capitalistas, e o não menos importante ponto de viragem do final dos anos 1960 e início dos anos 1970, que produziu um declínio acentuado na taxa média de crescimento da economia capitalista internacional. (MANDEL, 1995, p.1, tradução nossa) REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Fontes IPEA. IPEADATA. Disponível em: . Acesso em: 25 out 2019. SOUSA, Egídio Câmara. Motivos em virtude dos quais Molotov rejeitou o Plano Marshall e o provável contra-ataque soviético. Microfilmagem, 15 jul. 1947. Disponível em: . Acesso em 23 nov. 2017. FGV, CPDOC. Bibliografia ALLEN, James S. O Plano Marshall: Recuperação ou Guerra? Problemas: Revista Mensal de Cultura Política, [S.L], n. 13, ago./set. 1948. Disponível em: . Acesso em: 26 nov. 2017. BALDISSERA, Felipe. A história da integração europeia: do pós-guerra ao Maastricht – tratados e instituições. Porto Alegre, 2012. Disponível em: . Acesso em: 26 nov. 2017. BRENNER, Robert. O Boom e a Bolha. 1 ed. Rio de Janeiro: Editora Record, 2003. 304 p. ________________. The economics of global turbulence: the advanced capitalist economies from long boom to downturn, 1945-2005. 1 ed. Londres/Nova York: Verso, 2006. 398 p. CAMPOS, Márcia Aparecida Ferreira. A política econômica do governo Kubitschek (1956-1961): o discurso em ação. Dissertação (Mestrado em Economia) – UFRGS, Porto Alegre, 224 p. 2007. CAPUTO, Ana Claudia; MELO, Hildete Pereira de. A industrialização brasileira nos anos 1950: uma análise da Instrução 113 da SUMOC. Textos para Discussão, Niterói, n. 232, mar. 2008. Disponível em: . Acesso em: 23 abr. 2019. GOMES, Angela de Castro (Org.). O Brasil de JK. Rio de Janeiro: FGV, 2002. 223 p. GOUNET, Thomas. Fordismo e Toyotismo na Civilização do Automóvel. 1 ed. São Paulo: Boitempo, 1999. 120 p. LENIN, Vladimir Ilyich. Imperialismo, estágio superior do capitalismo. 1 ed. São Paulo: Expressão Popular, 2012. 176 p. MANDEL, Ernest. Long waves of capitalist development: a marxist interpretation. 2 ed. Londres/Nova York: Verso, 1995. 175 p. MARX, Karl. O Capital: crítica da economia política: livro I: o processo de produção do capital. 2 ed. São Paulo: Boitempo, 2017a. 894 p. ___________. O Capital: crítica da economia política: livro III: o processo global da produção capitalista. 1 ed. São Paulo: Boitempo, 2017b. 980 p. ANEXOS Figura 7 Exportações e Importações - em milhões de US$. Fonte: BCB. Saldo da balança comercial (FOB) (Antiga metodologia - BPM5). 2015. In: IPEA, 2019. Figura 8 Saldo da Balança Comercial - em milhões de US$. Fonte BCB. Saldo da balança comercial (FOB) (Antiga metodologia - BPM5). 2015. In: IPEA, 2019.

  • Fundamentos econômicos e políticos do pós-modernismo:pós-modernismo e capitalismo tardio

    por Mavi Rodrigues O texto que agora apresentamos é parte da tese de doutoramento de Mavi Rodrigues intitulada Michel Foucault sem espelhos: um pensador proto pós-moderno de 2006. Aqui publicamos um trecho do capítulo I, mais precisamente o tópico 1.2 Fundamentos econômicos e políticos do pós-modernismo e o subtópico 1.2.1 Pós-modernismo e capitalismo tardio. Nosso objetivo é contribuir para a divulgação desse trabalho científico seminal para a crítica do irracionalismo contemporâneo, que campeia livremente no atual estágio de desenvolvimento do modo de produção capitalista. Agradecemos, mais uma vez, à Mavi Rodrigues pela permissão que nos deu para publicar parte de sua obra na Barravento. Sua tese completa – que merece leitura atenta – encontra-se disponível no link . Fundamentos econômicos e políticos do pós-modernismo A emergência do pós-modernismo – adverte Harvey (1996: 65) - não se deu num vazio social, econômico e político. Embora esta premissa seja condição fundamental para processar a análise da cultura pós-moderna numa perspectiva teórico-metodológica que privilegia a totalidade, as abordagens marxistas sobre este tema se dividem entre uma tendência a considerar apenas os fundamentos econômicos e uma avaliação restrita aos seus fundamentos políticos (1). Se as análises de Jameson (1997) e as de Harvey (1996) estão mais próximas da primeira, as reflexões de Callinicos (1995) e Eagleton (1998) se identificam com a segunda. Entender a emergência do que se convencionou chamar de pós-modernismo requer empreender uma investigação da cultura contemporânea que permita superar esta cisão presente nas análises marxistas entre as abordagens econômicas e políticas. Em hipótese alguma esta proposição autoriza a refutação integral das teses sustentadas por Jameson, Harvey, Callinicos e também Eagleton. Ao contrário, superar a unilateralidade do estudo destes autores exige levar às últimas conseqüências os veios heurísticos que descortinaram, isto é, requer demonstrar que o pós-modernismo é tanto um produto da mercantilização da cultura na fase tardia do capital quanto do impacto do fracasso das lutas políticas empreendidas no período de 1968–76 sobre o projeto socialista revolucionário. Pós-modernismo e capitalismo tardio Embora a tese central de O Pós-modernismo: lógica cultural do capitalismo tardio busque situar as bases propriamente objetivas da constituição da cultura pósmoderna na economia política mandeliana, uma leitura mais atenta da obra de Jameson permite evidenciar o quão frágil é a sua compreensão acerca da fase tardia do capital. A princípio, a assertiva de Jameson (1997) sobre a integração da cultura à lógica mercantil parece se apoiar mais nas teses que o velho Lukács desenvolveu pouco tempo antes de falecer (2) do que em Mandel. O que, em última instância, não traria grandes problemas à investigação de Jameson, já que, a despeito de portarem concepções políticas distintas, as elaborações teóricas destes dois grandes pensadores marxistas - voltadas para dimensões particulares da fase tardia do capitalismo: em Mandel, confesso trotskysta, a economia política e em Lukács, leninista apaixonado, a cultura - não são colidentes entre si. Contudo, uma análise mais atenta das argumentações presentes em O Pósmodernismo: lógica cultural do capitalismo tardio permite evidenciar um problema de outra ordem. De sua tese central – o pós-modernismo como a lógica cultural dominante do capitalismo tardio – Jameson extrai uma assertiva inteiramente correta: a de que a fase tardia do capital correspondeu à dissolução da condição de relativa autonomia que a cultura gozava nas fases anteriores do capitalismo. No entanto, o equívoco parece residir na conclusão que o referido autor arranca deste fenômeno. Jameson sinaliza que a perda da autonomia relativa do domínio cultural não deve ser interpretada como extinção ou destruição da cultura. Ao contrário, “a dissolução da esfera autônoma da cultura deve ser antes pensada em termos de uma explosão: uma prodigiosa expansão da cultura por todo o domínio do social, até o ponto em que tudo em nossa vida social – do valor econômico e do poder do Estado às práticas e à própria estrutura da psique – pode ser considerado como cultural, em um sentido original que não foi, até agora, teorizado” (JAMESON, 1997: 74). Fica evidente que neste ponto Jameson está muito mais próximo de Baudrillard - autor pós-moderno que condenou a teoria marxiana ao obsoletismo ao sustentar que na atualidade o capitalismo tem se preocupado mais com a produção de signos do que com a produção de mercadorias – do que da reflexão mandeliana (3). Em Mandel, o capitalismo tardio é representado como o período no qual, pela primeira vez na história da humanidade, a industrialização se tornou generalizada e universal. Momento em que a padronização, a superespecialização e a fragmentação do trabalho - que antes determinavam apenas o âmbito da produção mercantil na indústria - abarcam agora desde a agricultura à esfera da circulação e o lazer. A industrialização da esfera da reprodução social é, segundo a análise mandeliana, o ápice deste processo (MANDEL, 1982: 271 e 272). A teoria mandeliana, portanto, permite afirmar que, na fase tardia do capital, a industrialização, envolvendo o todo da vida social, invade, inclusive, a esfera da produção e do consumo de bens culturais; mas nunca o contrário, como o fez Jameson. Ao sustentar que o capitalismo tardio corresponde à generalização e universalização da cultura, que passa a penetrar tudo, desde a produção e circulação de mercadorias até o cotidiano dos indivíduos sociais, Jameson, na verdade, inverteu a tese de Mandel e acabou, inconscientemente, fortalecendo os argumentos pós-modernos que insistem em identificar na expansão do setor de serviços os sinais do nascimento de uma sociedade pós-industrial. Afinal de contas, afirmar que capitalismo tardio corresponde a uma expansão generalizada da cultura não é o mesmo que sustentar que a produção material não tem mais centralidade na sociedade contemporânea?(4). Levar às últimas conseqüências a tese central de O Pós-modernismo: lógica cultural do capitalismo tardio, isto é, situar o pós-modernismo enquanto resultado da integração comercial da produção estética no terceiro estágio do capital, requer enfatizar a relação da arte e da cultura com o fenômeno da supercapitalização, o que Jameson não o fez nem indiretamente. O fenômeno de supercapitalização não é lateral na análise do terceiro estágio do capital, pois é ele que dinamiza o desenvolvimento da industrialização e da capitalização intensiva na esfera de reprodução social. Tal fenômeno – lógica básica do capitalismo tardio – consiste “em converter, necessariamente, o capital ocioso (que não consegue mais se valorizar na indústria) em capital de serviços e ao mesmo tempo em substituir o capital de serviços por capital produtivo (mercadorias)” (MANDEL, 1982: 285). A substituição do trabalho da faxineira, da cozinheira e do alfaiate - que não produzem mais-valia - pelos aspiradores de pó, as refeições précozidas e as roupas prontas são exemplos da supercapitalização. São também expressões deste fenômeno a substituição dos serviços de transporte por automóveis particulares; serviços de teatro e cinema por aparelhos privados de televisão e programas de TV e instrumento educacional por videocassete (5). A análise mandeliana demonstra, ainda, o quanto a lógica do capital tardio está associada à constituição de uma sociedade do consumo. Se uma grande diferenciação do consumo - especialmente do consumo dos assalariados e da classe operária - é um pré-requisito para a supercapitalização; é no capitalismo tardio que, embora não sendo o cenário originário deste processo (6), são intensificadas as fontes de diferenciação da demanda monetária efetiva do proletariado. A categoria de supercapitalização é uma fonte rica para a investigação dos fundamentos econômicos do pós-modernismo. É por meio dela que a mercantilização crescente da cultura é explicitamente tratada por Mandel. Ele aponta que as realizações culturais do proletariado (jornais, livros, esportes, educação, etc.) – genuinamente voluntárias e autônomas no período do imperialismo clássico – tendem, na fase atual do capital, a ser cada vez mais absorvidas pela produção e circulação capitalista. Reprivatizando a esfera do lazer das classes operárias, o capitalismo tardio põe, no lugar da imprensa socialista, a imprensa e a televisão burguesas; substitui as atividades recreativas organizadas, até então, pelas associações juvenis dos trabalhadores, por férias, excursões e esportes comercializados; troca os alfarrábios, antes publicados por cooperativas dos trabalhadores, por livros publicados por editoras comerciais (MANDEL, 1982: 275 e 276). A reflexão mandeliana também trata, embora de forma menos direta, de outros aspectos fundamentais à compreensão da virada da cultura para o pós-modernismo. Ao indicar que uma das tendências do capitalismo contemporâneo é expandir ou diferenciar o consumo de mercadorias inúteis e cafonas (o kitsch) e até mesmo prejudiciais à saúde, como resultado da pressão da publicidade e do conformismo, Mandel aponta três aspectos, comumente, relacionados ao fenômeno do pós-modernismo. O primeiro diz respeito à tendência apontada pela análise mandeliana da conversão dos bens de luxo para os bens de massa. Não por acaso, no âmbito da arte do pós-60 vai se afirmando como dominante o apagamento da fronteira entre a alta cultura e a cultura de massa ou comercial (7). O segundo aspecto apontado por Mandel é que a diferenciação e expansão do consumo no capitalismo, a transformação de bens de luxo em bens de massa, geralmente vem acompanhada de uma tendência crescente dos monopólios de alterar perpetuamente a forma das mercadorias e de baixar de forma sistemática a qualidade dos produtos. Aqui identificamos as principais características – a volatilidade, a obsolescência, a efemeridade, a promoção incessante de novidades - da lógica cultural que se torna dominante no capitalismo tardio e que são descritas por muitos autores (GULLAR, 1997; JAMESON, 1997; HARVEY, 1996; SANTOS, 2001; NETTO, 2004a e c e CONNOR, 1993). O terceiro aspecto diz respeito a indução para a expansão do consumo de mercadorias e serviços que, embora opere com um significativo peso no terceiro estágio do capital, é pouco ressaltado nas reflexões teóricas sobre o pósmodernismo. De acordo com Mandel, a compulsão para a compra de mercadorias e serviços adicionais não é produto apenas da ação manipulatória da publicidade e da mídia. Há também elementos de coerção econômica direta que devem ser levados em conta. Dentre estes, a reflexão mandeliana aponta a atomização da família proletária (sua desorganização enquanto unidade de produção e mesmo como unidade de consumo) como resultado do desenvolvimento do capital. No capitalismo tardio, o crescimento do ingresso das mulheres no mercado de trabalho e a escolarização cada vez maior da classe operária funcionam como coerções econômicas para substituir o que antes era uma atividade desenvolvida pela mulher – pela esposa, mãe ou filha do trabalhador - no âmbito do lar por mercadorias capitalisticamente produzidas ou por serviços capitalisticamente organizados. Aí estaria a razão para o crescente mercado de refeições prontas, alimentos enlatados, roupas feitas e toda a variedade de eletrodomésticos correspondentes ao declínio da produção de valores de uso imediatos no seio da família. Outro elemento indutor à expansão do consumo na fase tardia do capitalismo diz respeito à compulsão econômica direta para consumo de mercadorias e serviços adicionais, sem os quais seria impossível a reprodução material da força de trabalho. De acordo com Mandel, tal imposição social é produzida na fase tardia do capital por duas maneiras. Por um lado, o aumento substancial da intensidade do trabalho tornando necessário que o trabalhador, para repor a energia de sua força de trabalho, consuma mais mercadorias e mercadorias de melhor qualidade. Por outro, o crescimento das metrópoles que, aumentando exponencialmente o tempo de circulação entre a casa e o trabalho, gera uma demanda objetiva por bens de consumo que poupem tempo. É, sobretudo, este elemento que permite explicar o crescimento do uso de máquinas de lavar, de fornos elétricos, micro-ondas e até mesmo do automóvel particular em regiões onde a rede de transporte público é inexistente ou insuficiente. Uma leitura rigorosa da reflexão mandeliana não só permite corrigir os desvios da análise de Jameson (1997); também permite ratificar a tese de Harvey (1996) que relaciona o surgimento de uma condição pós-moderna com a ascensão, em fins do século XX, de um novo regime de acumulação de capital, denominado de acumulação flexível.Veremos a seguir que a compressão tempo-espaço produzida pela acumulação flexível e seus impactos na psicologia humana, investigados em Condição Pós-moderna, são perfeitamente compatíveis com as análises mandelianas presentes em O Capitalismo Tardio. Aliás, Bhering (1998) demonstra como, partindo de categorias fundantes da teoria social marxiana, Mandel antecipou as contradições internas e históricas que levaram à onda longa com tonalidade recessiva que o mundo passou a viver nas três últimas décadas do século XX. Além disso, a autora revela como a passagem do padrão de acumulação flexível, analisado por Harvey, pode ser interpretada como uma reação burguesa à crise que o capitalismo tardio experimenta a partir de 1974/75, quando se esgota o boom do pós-guerra e tem início um novo ciclo da onda longa recessiva, previsto por Mandel já na década de 60. Harvey teve muito mais sucesso que Jameson na investigação da relação entre a economia e a cultura pós-moderna. Atento às alterações processadas na produção capitalista nas três últimas décadas do século XX, ele pôde explorar com maior precisão e substância os fundamentos econômicos que tornaram possível a aparição de uma produção estética e de um discurso pós-modernos, no mundo ocidental dos anos 70. Além do mais, isso lhe permitiu romper com o véu da representação imediatista e pseudoconcreta da condição pós-moderna. Em Harvey, tal condição histórica não deve ser tomada como a constituição de uma situação social inteiramente nova com relação à modernidade. Ao contrário, ela é tratada como a reificação de alterações processadas dentro da moderna produção do capital no final do século XX. De acordo com Harvey, a virada cultural para o pós-modernismo está estreitamente articulada à constituição de um regime de acumulação flexível que - embora distinto daquele que vigorou entre os anos de 45 a 73: o regime de acumulação fordista-keynesiano - não altera as regras básicas do modo de produção capitalista, posto que a produção em função de lucros permanece sendo o princípio organizador básico da vida econômica. Marcada por um confronto com a rigidez do fordismo, a acumulação flexível produziu mudanças radicais em processos de trabalho e hábitos de consumo, nas práticas e poderes do Estado (8) e, sobretudo, a passagem para um novo ciclo de compressão tempo-espaço (9) na economia política do capitalismo do final do século XX. É justamente a análise deste último elemento – a compressão tempo-espaço – que, segundo Harvey, permite evidenciar como se tornou possível a construção de uma forma de ser, pensar e agir pós-modernas. Ao modificar as formas materiais de reprodução social, a acumulação flexível conduziu os usos e significados do tempo e do espaço (10) em direção à uma experiência do tempo e do espaço pós-modernista. As bases objetivas de tal experiência dizem respeito à aceleração do tempo de giro do capital na produção - obtida através da implantação de novas tecnologias produtivas (automação, robôs, etc.) e de novas formas organizacionais (subcontratação, just in time, etc.) – bem como a acelerações paralelas na troca e no consumo – possível graças a sistemas aperfeiçoados de comunicação e fluxos de informações acoplados à racionalização nas técnicas de distribuição de mercadorias (empacotamento, conteinerização, controle dos estoques, etc.) e ao aumento da rapidez do fluxo do dinheiro (bancos eletrônicos e cartões de crédito). Duas alterações no consumo, promovidas pela redução dos tempos de giro nas três últimas décadas do século XX, são destacadas por Harvey - ambas dizem respeito a tendências apontadas por Mandel de diferenciação do consumo no capitalismo tardio. A mobilização da moda em mercados de massa que propiciou a aceleração do ritmo do consumo não só de roupas, ornamentos e decoração, mas também de uma ampla gama de estilos de vida e atividades de recreação - estilos de música pop, hábitos de lazer, videogames, etc. E a passagem do consumo de bens para o consumo de serviços - pessoais, comerciais, educacionais e de saúde, bem como de entretenimento, espetáculos e eventos. A tendência em substituir o consumo de bens físicos por serviços, cujo tempo de vida é muito mais curto é, de acordo com o autor, o que estaria na raiz da rápida penetração capitalista ocorrida na metade dos anos 60 em diversos setores da cultura. Os ajustes espaciais, provocados pela transição do fordismo para a acumulação flexível, não foram menos dramáticos. A implantação dos sistemas de comunicação por satélite tornou o custo unitário e o tempo da comunicação invariantes com relação à distância. Associada à comunicação via satélite, a televisão de massa - possibilitando o acesso quase simultâneo a imagens de experiências reais ou simuladas a milhões de pessoas em distintos espaços do planeta - encolheu os espaços do mundo em sua tela. O barateamento do frete aéreo e a conteinerização reduziu o custo do transporte marítimo e rodoviário. Tudo isto possibilitou, segundo Harvey, a queda de barreiras espaciais e, principalmente, as condições para que os capitalistas pudessem explorar com maior proveito as minúsculas diferenças espaciais, quer seja em termos de oferta de trabalho ou de recursos e infra-estrutura. A aniquilação do espaço pelo tempo deu ao capital um domínio superior do espaço. Permitindo aos capitalistas utilizar a mobilidade geográfica e a descentralização como armas poderosas de luta contra a resistência dos trabalhadores, a acumulação flexível produziu a “fragmentação, (a) insegurança e (o) desenvolvimento desigual e efêmero no interior de uma economia de fluxos de capital de espaço global unificado” (HARVEY, 1996: 267). Na vida cotidiana, a aniquilação do espaço por meio do tempo alterou radicalmente o conjunto de mercadorias que compõem a reprodução diária. Incorporando inúmeros sistemas locais de alimentação à troca global de mercadorias, a acumulação flexível transformou significativamente o mercado de alimentos. Ao possibilitar a venda, a preços relativamente baixos, nos supermercados das grandes metrópoles, de comidas e bebidas das mais variadas regiões (maçãs canadenses, uvas chilenas, feijões do Quênia, etc.) – antes ofertadas apenas em lojas especializadas – a compressão tempo-espaço fez com que a cozinha do mundo inteiro estivesse presente num único lugar “de maneira quase exatamente igual à da redução da complexidade geográfica do mundo a uma série de imagens numa estática tela de televisão” (HARVEY, 1996: 270). A implicação geral desta nova experiência espacial, de acordo com Harvey, foi o de possibilitar a vivência vicária da geografia do mundo, como um simulacro. Reunindo no mesmo espaço e no mesmo tempo diferentes mundos (de mercadorias), o entrelaçamento de simulacros da vida diária “oculta de maneira quase perfeita quaisquer vestígios de origem, dos processos de trabalho que os produziram ou das relações implicadas em sua produção” (HARVEY, 1996: 271). A conseqüência mais expressiva da alteração da qualidade objetiva do tempo e do espaço na sociedade como um todo se deu, segundo Harvey, no âmbito da psicologia humana. Golpeando a vida cotidiana, a compressão tempo-espaço acentuou não só a volatilidade e a efemeridade de modas, produtos, técnicas de produção e processos de trabalho. Forçou as pessoas a lidar com a descartabilidade, a novidade e a perspectiva da obsolescência instantânea também de lugares, pessoas, valores e formas de agir e pensar. A dinâmica de uma “sociedade do descarte” – que tende a jogar fora não apenas bens produzidos, mas também "estilos de vida, relacionamento estáveis, apego a coisas" - descrita por Harvey (1996: 258), corresponde a passagem da destruição produtiva para produção destrutiva no desenvolvimento do capitalismo avançado, expressão da lei tendencial da taxa de utilização decrescente, analisada por Mészáros (2002), cujos traços essenciais e seus vínculos com o pósmodernismo serão apontados no capítulo seguinte desta tese. Um aspecto importante desta experiência pós-moderna do tempo e do espaço é a presença de um sistema de manipulação de gostos e opiniões, um sistema de signos e imagens (11) capaz de adaptar a volatilidade a fins particulares. Claro que, aqui, o autor se refere a um dos elementos centrais do capitalismo tardio apontado por Mandel nos anos 60 – a publicidade -, que, no entanto, teve seu papel exacerbado nas últimas décadas do século XX. Harvey revela que na acumulação flexível, a publicidade e as imagens da mídia jogam um papel muito mais integrador nas práticas culturais do que no passado. Estas não têm mais a função de informar ou promover os produtos, mas a de manipular desejos e gostos mediantes imagens que podem ou não ter relação com a mercadoria a ser vendida (12). Além de ter se tornado um elemento fundamental para concorrência na venda de mercadorias, a imagem passou a ser também “parte integrante da busca de identidade individual, auto-realização e significado da vida” (HARVEY, 1996: 260). São dois, segundo Harvey, os possíveis efeitos sociológicos disto tudo no pensamento e na ação diários. O primeiro condiz com uma postura em tirar proveito de todas as possibilidades divergentes, cultivando-se toda uma série de simulacros como espaços de escape, de fantasia e de distração. A ênfase na fragmentação, na dispersão, na colagem no pensamento social e filosófico mimetiza essa condição pós-moderna da alteração espacial e temporal. A outra postura, claramente oposta à primeira, diz respeito à procura de uma identidade coletiva ou individual, ou seja, à busca de comportamentos seguros num mundo cambiante, o que, em grande parte, explicaria o crescimento, desde fins dos anos 60, do revivalismo religioso, ou, ainda, do retorno dos interesses por instituições básicas, como a família e a comunidade. Contudo, tal como Jameson (1997), Harvey deu muito pouca atenção à conjuntura política do final do século XX. A referência que faz a 1968 e ao declínio do movimento operário nos anos 70 é extremamente episódica (13). Talvez isso explique porque em Harvey simplesmente não haja qualquer indício de alternativas concretas de enfrentamento da condição pós-moderna (14). NOTAS Dentre as análises marxistas sobre o pós-modernismo, consideraremos aqui em maior medida os estudos de Jameson (1997) e Harvey (1996). Mas, em menor medida, também as formulações de Callinicos (1995), Eagleton (1998) e Anderson (1999). A diferenciação da atenção dispensada a cada um desses autores não é arbitrária; ela corresponde, em grande medida, ao próprio grau de investimento intelectual que os mesmos, até o presente momento, dispensaram ao tema. Nos anos 60, o filósofo marxista já havia acentuado como uma das principais características do capitalismo contemporâneo a penetração em todas as expressões da vida social - desde as vendas de gravatas e cigarros até as eleições presidenciais - de um sistema de manipulação indutor a um consumo de massa (Cf. entrevista concedida, em 1966, a Leo Kofler in ABENDROTH, 1972). É no mínimo inquietante a forma pela qual Jameson aborda a teoria do valor em Marx, da qual a construção teórica de Mandel é legatária. Contrariando a orientação ontológica que acompanhou toda a obra marxiana, o autor não só comete o absurdo de dizer que este é o trabalho epistemológico mais interessante de Marx, como também afirma que a forma geral do valor corresponde a “uma idéia geral ou propriedade universal que então se materializa em um único objeto designado para servir de ‘standard’ para todo o resto” (JAMESON, 1997: 244 e 245). Tais imprecisões inquestionavelmente indicam uma leitura insuficiente da produção teórica mandeliana. Porém, talvez possam sinalizar também que a influência da leitura antropológica de Baudrillard acerca do valor de uso e do valor de troca sobre Jameson, não tenha sido tão circunscrita como supôs Anderson (1999: 63). Vale a pena reproduzir aqui os argumentos de Mandel que infirmam qualquer hipótese de associar a expansão de serviços ocorrida logo após a Segunda Guerra Mundial com a superação do capitalismo ou com o nascimento de uma sociedade pós-industrial: “Uma sociedade constituída apenas de serviços, onde o proletariado inteiro se transformou em trabalho social improdutivo (que já não produz mercadorias) também acabaria por confrontar-se com o problema de que os trabalhadores assalariados não poderiam usar seus salários apenas para comprar ‘serviços capitalistas’, pois primeiro teriam de comer, beber, vestir, conseguir moradia e garantir fontes de energia, antes de poder ir ao médico, consertar os sapatos ou fazer uma viagem de férias. O capital investido nas ‘empresas de serviços’ dificilmente conseguiria atingir a ‘valorização’. Se os bens que fossem inteiramente produzidos por processos automáticos já não fossem vendidos, mas distribuídos gratuitamente, então é difícil imaginar um motivo que levasse as massas, que dessa maneira teriam assegurado o seu padrão de vida, a alugar sua força de trabalho para as ‘empresas de serviço’. Em outras palavras, esses cenário não teria mais nada a ver com o capitalismo” (MANDEL, 1982: 285). Mandel (1982: 272) demonstra como esta tendência é triplamente útil ao capital monopolista. Em primeiro lugar, a supercapitalização por meio de quatro vias - a assunção parcial de funções produtivas do capital industrial propriamente dito, como no caso do setor de transporte; a aceleração do tempo de rotação do capital produtivo circulante, como no caso do comércio e do serviço de crédito; a redução dos custos indiretos da produção, como o que ocorre na infra-estrutura e a ampliação dos limites da produção de mercadorias por meio da substituição da troca de serviços individuais pela venda de mercadorias que contém mais-valia - acrescenta à massa de capital social investido uma quantidade maior de mais-valia. Além disso, o desvio de uma massa de capital ocioso e em expansão evita que estes, ingressando nos setores monopolizados, venham aumentar a concorrência ou ameaçar os superlucros dos monopólios. Por fim, se houver garantia de lucratividade, o capital monopolista pode participar ativamente deste processo. Nesta condição, os conglomerados de capital tendem a combinar a produção (de aço, de margarina, de cerveja, etc.) com a posse de unidades de distribuição (hotéis dominados por fábricas de cerveja, postos de gasolina dirigidos por trustes de petróleo, etc.) e, ainda, iniciativas em grande escala na esfera das lojas de departamento ou dos sistemas de transportes (companhias de aviação, de navegação marítima, lazer, férias, etc.). Mandel demonstra que a diferenciação do consumo se desenvolveu gradualmente a partir da segunda metade do século XIX, quando no Ocidente o Exército Industrial de Reserva experimentou uma baixa secular. Assim sendo, em contraposição ao alto modernismo, “os pós-modernismos têm revelado um enorme fascínio pela paisagem ‘degradada’ do brega e do kitsch, dos seriados de TV e da cultura do Reader’s Digest, dos anúncios e dos motéis, dos late shows e dos filmes B hollywoodianos” (JAMESON, 1997: 28). Em contraposição ao padrão de acumulação fordista-keynesiano, o regime de acumulação flexível se apóia na flexibilidade dos processos e mercados de trabalho, dos produtos e padrões de consumo. Caracteriza-se, ainda, pelo surgimento de novos setores de produção, de novas maneiras de fornecimento de serviços financeiros, novos mercados e taxas altamente intensificadas de inovações tecnológicas, comercial e organizacional. Envolve também rápidas mudanças nos padrões de desenvolvimento desigual tanto entre setores como entre regiões geográficas. Segundo Harvey, o que ocorreu no último quartel do século XX foi uma outra rodada da aniquilação do espaço por meio do tempo, que sempre esteve no centro da dinâmica capitalista. Neste sentido, o pós-modernismo não difere da natureza do modernismo que também fora, segundo o autor, uma reação às alterações processadas no espaço e no tempo pela crise de 1846-47, considerada por ele como a primeira crise patente de superacumulação capitalista. De acordo com Harvey, a teoria sobre a compressão tempo-espaço possibilita expressar não somente as qualidades objetivas do tempo e do espaço, mas também a maneira pela qual os homens são forçados a alterar radicalmente suas representações sobre o mundo (HARVEY, 1996: 219). É, portanto, por um viés claramente materialista – que em nada concede a uma interpretação antropológica e subjetivista do tempo e do espaço - que o autor em tela afirma que as qualidades objetivas de espaço e de tempo e suas representações são produtos, variáveis histórica e geograficamente, de práticas e processos materiais que servem à reprodução da vida social (HARVEY, 1996: 189). Ao buscar demonstrar o quão importante tem sido para a acumulação flexível de capital o investimento na construção da imagem, Harvey (1996: 259-263) se empenhou em depurar toda a influência de Baudrillard da discussão de Jameson sobre o simulacro e sobre a relação da produção estética com a tecnologia da fase tardia do capital - que se assenta em máquinas mais de reprodução do que de produção, como o computador e a televisão (JAMESON, 1997: 63). Embora seja extremamente louvável o esforço de Harvey, há no conjunto de suas argumentações afirmações que acabam por supervalorizar a importância da imagem na produção capitalista, chegando até mesmo a afirmar que “é factível que a acumulação se processe, ao menos em parte, com base na pura produção e venda da imagem" (HARVEY, 1996: 261). A manipulação é de tal ordem que diz Harvey (1996: 260): “se privássemos a propaganda moderna da referência direta ao dinheiro, ao sexo e ao poder, pouco restaria”. Poderíamos estender esta crítica do autor a grande parte dos produtos culturais da TV e do rádio do final do século XX e começo do XXI. Sem o apelo sexual explícito o que seria do “É o Tcham” e a moda atual do funk carioca? Não ficam de fora também desta tendência o próprio teatro povoado nos últimos tempos com peças do gênero “Monólogos da Vagina”. Ao longo de trezentos e vinte e seis páginas, Harvey dedica apenas breves linhas ao Movimento de Maio de 1968. Ele simplesmente sustenta que tal movimento pode ser considerado como "um arauto cultural e político da virada para o pós-modernismo" (HARVEY, 1996: 44). O mesmo ocorre quanto à relação entre a cultura pós-moderna e as organizações da esquerda, tema das quinze últimas páginas de sua obra (Idem, ibid., p. 311 a 326). A análise de Jameson sobre a cultura pós-moderna deixa a desejar não somente quanto à avaliação propriamente econômica do capitalismo tardio, ela desconsidera também um outro determinante fundamental da nova dominante cultural dessa etapa do capital: a esfera da política, em especial, as lutas de classes no último quartel do século XX. Falta-lhe, sobretudo, uma avaliação mais conseqüente do significado do Movimento de Maio de 1968 e da crise internacional do socialismo real, temas muito pouco explorados em sua grande obra sobre o pós-modernismo. Tal fragilidade se explicita quando Jameson busca elucidar a defasagem histórica entre o surgimento dos governos pelo mundo à fora acabou por provocar a evolução de manifestações e insurreições estudantis em diversos países da Europa (Cf. HOLZMANN & PADRÓS, 2003: 23 e 24). Cabe ressaltar, no entanto, que 1968 emergiu não só como uma postura de solidariedade aos vietcongues e ao Vietnã do Norte, mas também como contestação a todas as formas de intervenções conservadoras, antidemocráticas ou beligerantes das potências capitalistas contra aqueles países que eram considerados como pertencentes ao Terceiro Mundo. Em grande parte o antinorteamericanismo dos anos 60 foi determinado também pelo crescimento do terceiro-mundismo. Isto explica, afinal, o peso que a guerra contra a Argélia exerceu na radicalização da juventude francesa nos primeiros anos da década de 60.

  • Lukács vai ao cinema: Breves considerações para uma reflexão estética sobre a arte cinematográfica.

    por Ayrton Otoni “Não é a saudação dos devotos nem dos partidários que te ofereço, eles não existem, mas a de homens comuns, numa cidade comum, nem faço muita questão da matéria de meu canto ora em torno de ti como um ramo de flores absurdas mando por via postal ao inventor dos jardins. Falam por mim os que estavam sujos de tristeza e feroz desgosto de tudo, que entraram no cinema com a aflição de ratos fugindo da vida, são duras horas de anestesia, ouçamos um pouco de música, visitemos no escuro as imagens - e te descobriram e salvaram-se.” “Canto ao Homem do Povo – Charles Chaplin” (Drummond) INTRODUÇÃO Os escritos de Lukács sobre a Estética, apesar de ainda pouco difundidos no Brasil por não contar com traduções completas para o português, são essenciais para a interpretação do objeto deste texto: o cinema - sua gênese, estrutura e questões filosóficas e sociais que o permeiam. No que tange a arte cinematográfica os escritos de juventude de Lukács influenciaram importantes teóricos como Béla Balázs, e seus ensaios de maturidade foram publicados em grandes periódicos onde se concentravam os debates centrais sobre a sétima arte como é o caso da revista Cinema Nouvo, que contava com a curadoria do crítico Guido Aristarco, como também suas entrevistas cedidas a revista Film Kultura. Os apontamentos presentes nos escritos na fase de “juventude” e “maturidade” de Lukács sobre a particularidade estética do cinema, apesar de seu nível abstrato de análise, abrem uma nova forma de compreender a arte cinematográfica através de uma análise filosófica rigorosa. Os textos Reflexões para uma estética do cinema (1913) (1) e da obra Estética I: Peculiaridades do estético (1963) (2) apesar de pertencerem a momentos distintos da produção teórica do autor, considerando que se tratam de publicações separadas por quase meio século, testemunham não somente as mudanças ocorridas no pensamento de Lukács mas, revelam a continuidade das preocupações com a temática do cinema, bem como a busca da formulação de uma estética que preserve a autonomia artística e revele o valor real dessa forma de arte (COTRIM , 2013). Em seus escritos de juventude, Lukács procura se distanciar das análises hegemônicas do período sobre o cinema que se encontravam em “um estado de confusão conceitual” onde “algo belo e novo surge em nossos dias, e em vez de ser recebido como tal, quer-se, classificá-lo de todas formas em categorias velhas e impróprias" (LUKÁCS, 2013, p.78). Estas formulações teóricas, carregadas pelas tendências pedagógicas e economicistas da época, acabavam por restringir a reflexão sobre a produção cinematográfica “ora como instrumento de aula ilustrativa, ora como uma concorrência nova e barata ao teatro” (LUKÁCS, 2013,p.78). Assim, o filósofo húngaro aponta a necessidade de tratamento do cinema como uma Nova Beleza e, por se tratar da representação de uma beleza de novo tipo, sua determinação e análise cabem à investigação estética, tendo em vista evidenciar “as possibilidades específicas desse gênero artístico” (COTRIM, Lívia, 2013, p. 55). Ainda em sua fase de juventude, Lukács esteve, como salienta Tertulian (2008), sob forte influência neokantiana, principalmente nas reflexões sobre o modo de se pensar o objeto artístico, na qual “assumia sem questionar, a tese da imanência da consciência” (LUKÁCS, 1999, p.92), fator que refletiu diretamente na cisão posta pelo autor entre arte e vida cotidiana, elaborando uma distinção entre existência cotidiana – inautêntica – e existência essencial – autêntica. Esta separação é o pressuposto da comparação entre o cinema e o teatro, e a possibilidade de realização do drama. Em Estética I: Peculiaridades do Estético, fase madura de Lukács, a filosofia marxiana ocupa lugar central no seu pensamento. Para o autor, a arte se torna uma forma específica de apropriação do mundo pelos homens e a busca do sentido artístico reside no seu encontro com a realidade e suas condições sócio-históricas (LUKÁCS, 1966). Sendo assim, “ao recusar uma suposta capacidade artística pré existente” (COTRIM, Lívia, 2013, p.63), Lukács se opõe às influências neokantianas (3) de uma estética subjetivista presentes em seu pensamento de juventude. A Peculiaridade do estético junto a especificidade do seu caráter mimético e antropomorfizador são desenvolvidas pelo filósofo nessa fase, a fim de distinguir e apresentar o caráter autônomo da atividade artística e a distanciar das demais formas de manifestação do ser social, como a ciência e a religião (LUKÁCS, 1966). Esse distanciamento, como afirma Miguel Vedda (2014, p.275), "é resultado de um prolongado desenvolvimento que levou a arte a independizar-se, por um lado, da ciência, por outro lado, do animismo da religião”. Reside na forma artística um movimento dialético da mimese, no qual sua gênese está intrinsecamente ligada ao real ao mesmo tempo em que se autonomiza, atingindo sua realização imanente. Se observa na arte “a capacidade de captar os fundamentos da vida social” (VEDDA, Miguel, 2014, p.275), portanto, as “relações entre arte e vida cotidiana aparecem bastante distintas das formulações apresentadas em 1913” (COTRIM, Lívia, 2013, p.63). No campo estético, a arte cinematográfica se insere em um caso específico de mimese artística e cabe diferenciar o reflexo fílmico das outras formas gerais de manifestação da mimese, tendo em vista que seu ponto de partida é constituído pelo reflexo desantropomorfizador. No pensamento lukacsiano de maturidade, essa característica advém da vinculação intrínseca do cinema à condição técnica que lhe é subjacente, bem como na sua forma peculiar de se relacionar com a vida cotidiana. Cabe salientar nesta breve introdução que os escritos sobre a Estética, de Lukács, não se apresentam de nenhuma maneira como um “manual de instrução” ou “tratado marxista” sobre a arte, ao contrário, a tomada de posição na análise estética do autor se opõe frontalmente as tentativas de enquadrar mecanicamente as expressões artísticas em esquemas teóricos pré estabelecidos. Não se trata, portanto, da formulação de algum tipo de “estética marxista do cinema”, mas de compreender as especificidades, potencialidades e limites estéticos do cinema, isso entretanto não significa tratar o objeto de análise apartado das condições materiais, como veremos nas considerações presentes neste texto. 1. O jovem Lukács diante de uma nova beleza. Em seu primeiro ensaio dedicado à questão da estética cinematográfica, denominado Reflexões para uma estética do cinema, o jovem Lukács se debruça sobre essa expressão artística ainda embrionária que não havia completado duas décadas de existência e estava à procura da sua forma poiética de expressão. Esse ensaio é demarcado por um contexto de influências do clima intelectual predominante na Hungria do Século XX, repleto de elementos do anticapitalismo romântico e da Sociologia alemã, assinalado por uma espécie de "visão trágica" que esteve presente nos escritos de Lukács do período de 1908 a 1916 (AITKEN, Ian, 2012, p.5 apud Goldmann, 1967, p.169). Neste período a tragédia, enquanto gênero artístico, é objeto fundamental do pensamento de Lukács e o lançamento de sua obra A alma e as Formas (1911) consolida essa fase, na qual o autor identificava os limites da vinculação entre arte e os aspectos imediatos da vida cotidiana sob a égide do capitalismo em ascensão, por considerar a “dificuldade de um drama autêntico desabrochar das condições da vida moderna, com seu caráter árido e repugnante” (TERTULIAN, Nicolas, 2008, p.34). Em Reflexões, Lukács busca compreender a peculiaridade estética contida no filme recorrendo à comparação com o teatro da época. Para o autor, devido a sua presencialidade, o teatro é genuinamente o campo de realização do drama, característica demarcada pelo “aqui e agora” da presença do ator. O palco é o lugar das pessoas presentes, vivas, e a raiz dos efeitos teatrais encontra-se “na força com a qual uma pessoa, a vontade viva de uma pessoa viva, derrama-se, sem mediação e sem direção inibidora, sobre uma multidão tão viva quanto ela” (LUKÁCS, 2013, p.79). O palco, portanto, é a efetivação da presença absoluta. A presencialidade, característica marcante do teatro se torna o fator essencial para a “expressão manifesta da destinação do drama” (LUKÁCS, 2013, p. 79), pois somente no presente em si, através do ser-interpretado, o drama se torna a consagração dos homens pelo destino. No teatro, o público é conduzido ao distanciamento da vida cotidiana imediata, e é convidado a viver efetivamente e do modo mais intenso os grandes dilemas humanos. O cinema se configura como a arte da ausência, na qual a falta de presencialidade da relação entre o ator e o público estabelece o modo como o cinema representa a realidade. Segundo Lukács, esse principium stilisationis – princípio norteador – confere à representação fílmica um caráter imperativo no qual os personagens se tornam representantes das ações imediatas da vida cotidiana e retratam “apenas movimentações e ações das pessoas, mas não são pessoas” (LUKÁCS, 2013, p. 80). Esse princípio não torna, em nenhuma circunstância, a representação fílmica menos orgânica ou viva do que a do palco, mas se converte num gênero completamente diferente, a fantasia (LUKÁCS, 2013, pp. 79-80) que, como aponta o autor: “[...] não é o contrário de vida vivente, ele é apenas um novo aspecto dela: uma vida sem presencialidade, uma vida sem destino, sem razões, sem motivos [...] O mundo do cinema é uma vida sem plano de fundo e perspectiva, sem diferenças de pesos e qualidades. Afinal apenas a presencialidade dá às coisas destino e peso, luz e luminosidade” (LUKÁCS, 2013, p.80) Evidencia-se, portanto, o lugar central ocupado pela dualidade da existência humana ordinária empírica e da vida autêntica, ou seja, se por um lado o teatro está ligado a uma esfera metafísica – autêntica - da realização artística que se distancia da relação cotidiana imediata, o cinema através de sua característica fantástica aproxima a representação da espontaneidade da vida inautêntica. Apesar de o teatro expressar através de seu conteúdo a relação do homem e seu destino, o fluxo das ações tais como elas se apresentam na vida cotidiana lhe é estranho, nesse sentido “é o filme, ao invés do drama, que se torna mais diretamente associado à verdade mais própria do homem cotidiano e a sua posição no universo” (AITKEN, I., 2012, pp. 19-20). Lukács destaca que a técnica cinematográfica imbuiu ao cinema uma nova relação temporal, na qual a sequência fílmica não exige nenhuma causalidade que conflua uma cena a outra, “ou mais precisamente sua causalidade não é inibida ou ligada por nenhum conteúdo” (LUKÁCS, 2013, p.80), assim, a arte cinematográfica se converte no campo das possibilidades ilimitadas. Essa infinitude de viabilidades seriam as bases do novo mundo criado pelo cinema “ao qual corresponde o conto de fadas e o sonho nos mundos da poiética” (LUKÁCS, 2013, pp.80-81). Diferente do teatro, a técnica cinematográfica é capaz de atribuir vivacidade ao plano de fundo e, através de sua realização fantástica, “o que é vivo na natureza alcança aqui pela primeira vez uma forma artística” (LUKÁCS, 2013, p.81). Do mesmo modo, através das conquistas da técnica moderna “completamente indiferentes para toda grande arte” (LUKÁCS, 2013, p.81) – mesmo que ainda incipientes no período - o cinema consegue captar e retratar de forma fantástica e viva a habitual dinâmica urbana e seus elementos, tornando-a poeticamente espontânea. Neste breve escrito, apesar do esforço para estabelecer as particularidades estéticas do cinema, é notável a angústia do jovem Lukács para a possibilidade de defesa do cinema enquanto uma “grande arte”. Para o autor, a “verdade natural do ‘cinema’ não está ligada a nossa realidade [...] o que veio até agora surgiu ingenuamente contra a vontade das pessoas”, se extraiu dos filmes apenas o "espírito da técnica do cinema” (LUKÁCS, 2013, p.82). A ainda incipiente arte cinematográfica, segundo Lukács, não havia encontrado seu organizador, ou em suas palavras: “seu grande poeta não veio, o qual teria interpretado e ordenado esse mundo, o qual teria convertido o seu fantástico casual, meramente técnico, na metafísica com sentido, no puro estilo” (LUKÁCS, 2013, p.82). Para operar este salto estético se fazia necessário abandonar o repouso do cinema enquanto lugar da diversão e da busca pelo sentimento agradável do público, através disto “o cinema verdadeiramente desenvolvido, adequado a sua ideia, pode preparar o terreno também para o drama” (LUKÁCS, 2013, p.83). Em Reflexões, Lukács aponta para a perspectiva de um cinema que caminha para o horizonte da realização completa, na qual seu desenvolvimento alcança a unidade entre forma e conteúdo e revela um gênero artístico próprio à sua representação. Apesar dos limites históricos e objetivos que se colocaram para a análise dessa manifestação artística ainda em sua gênese, principalmente por seu ainda embrionário desenvolvimento técnico, o jovem Lukács buscou apontar nesse ensaio uma série de preocupações estéticas que permaneceram e permearam suas análises décadas depois, confirmando a continuidade de suas formulações acerca do tema em sua fase de maturidade. 2. A maturidade e as peculiaridades estéticas do cinema. A obra Estética I: Peculiaridades do estético apresenta o desenvolvimento das formulações sobre estética de György Lukács em sua fase de maturidade, carregando elementos e concepções acerca da gênese e estrutura da arte e sua forma particular de expressão, tendo o autor dedicado à seção “Filme” (4) à investigação da peculiaridade do cinema. Categorias como vida cotidiana, que embora presente em seus escritos de juventude se mostrava como uma dimensão menosprezada em detrimento a uma concepção essencial e metafísica da realização artística, reaparecem em Estética como elemento central. Assim, para Lukács: El comportamiento cotidiano del hombre es comienzo y final al mismo tiempo de toda actividad humana. Si nos representamos la cotidianidad como un gran río, puede decirse que de él se desprenden, .en formas superiores de recepción y reproducción de la realidad, la ciencia y el arte, se diferencian, se constituyen de acuerdo con sus finalidades específicas, alcanzan su forma pura en esa especificidad -que nace de las necesidades de la vida social - para luego, a consecuencia. Prólogo de sus efectos, de su influencia en la vida de los hombres, desembocar de nuevo en la corriente de la vida cotidiana. Ésta se enriquece pues constantemente con los supremos resultados del espíritu humano, los asimila a sus cotidianas necesidades prácticas y así dar luego lugar, como cuestiones y como exigencias, a nuevas ramificaciones de las formas superiores de objetivación. (LUKÁCS, 1966, pp. 11-12) As influências marxianas e a adoção do “método” materialista dialético (5) alteram substancialmente as formulações de Lukács deste período. A caracterização da arte enquanto uma forma particular de apropriação do mundo se relaciona diretamente em classificar a esfera de criação e produção artística e sua relação como um processo de hominização do homem enquanto um elemento central na constituição do ser social (LUKÁCS, 2012), estabelecendo uma mediação entre objetividade cotidiana e a subjetividade objetivada (COTRIM, Lívia, 2013, pp.62-63). A adoção da concepção marxiana conduz o autor a tomar como princípio de sua fundamentação estética a premissa de Marx (2004, p.110) segundo a qual é apenas pela riqueza objetivamente desdobrada da essência humana que nasce a riqueza da sensibilidade humana subjetiva. Assim, Lukács compreende que as produções artísticas estão estritamente vinculadas às condições sócio-históricas, ao mesmo tempo em que, dialeticamente, se autonomiza dessas relações imediatas a fim de constituir uma esfera própria de sua realização, isto é, a origem da arte se encontra “em certas necessidades da vida cotidiana; que se diferencia progressivamente dela, mas que a ela volta continuamente para satisfazer as exigências do ‘homem inteiro’ [der ganze Mensch] da vida cotidiana” (VEDDA, Miguel, 2006, p.104), reconhecendo assim a arte como uma mimese antropomorfizadora, dimensão essencial para compreensão do modo peculiar de realização da arte cinematográfica. Cabe salientar que Lukács não se propõe a elaborar uma “estética marxista do cinema”, mas apresentar as particularidades desta forma artística e seu modo específico de relacionar-se com o mundo. O cinema se configura no pensamento lukacsiano de maturidade como “um caso específico de duplo reflexo” (LUKÁCS, 2013, p.83), que se diferencia das outras formas de manifestação da mimese artística, tendo em vista que seu ponto de partida é constituído por um primeiro reflexo desantropomorfizador – representado pela fotografia. Essa dimensão puramente tecnológica se orienta pela captura de uma realidade imediata, sua representação visa somente retratar um momento singular do objeto, sem considerar as relações que o permeiam. Dessa forma, somente por meio da técnica cinematográfica é possível a superação do caráter desantropomorfizador da fotografia. Como afirma Lukács: No filme a forma primária, não estética, puramente tecnológica nada mais é do que um reflexo visual da realidade, pela rápida movimentação, pela sequência continuamente vivenciável, ela transforma a imagem fotográfica em uma antropomorfização, aproxima-a das formas aparenciais do cotidiano. A duplicação da mimese, sua passagem para o estético, decorre desse fundamento; no entanto não deriva de maneira simples e evidente das possibilidades técnicas, mas deve ser conscientemente criada, em conformidade com sua missão social frequentemente implícita. (LUKÁCS, 2013, p.86) Ao afirmar a necessidade do emprego das técnicas cinematográficas para o alcance da realização estética do cinema, Lukács demarca a divergência com o que denominou “tendências anticapitalistas românticas”, (6) que identificavam na reprodutibilidade técnica a supressão da aura existente nas obras de arte. Para o autor, a produção cinematográfica traz consigo a necessidade do avanço técnico que permita sua abordagem estética, estando subordinada ao modo de produção sob a qual se desenvolve – o capitalismo altamente desenvolvido. Como consequência dessa condição, o cinema é, ainda, a forma de arte na qual “a influência do desenvolvimento técnico sobre o artístico necessariamente se manifesta de modo mais veemente e brutal, crítico do que em qualquer outra arte” (LUKÁCS, 2013, p.85), embora como aponta Cotrim “não são as forças produtivas desenvolvidas, a tecnologia, que hostilizam a arte e os homens, mas o caráter social que assumem no interior de relações sociais determinadas.” (COTRIM, Lívia, 2013, p.70) Para Lukács, o domínio técnico por si só não eleva o cinema a operar a transformação qualitativa alcançada pela segunda mimese, mas sim o agir consciente sobre essa técnica. O resultado desse domínio técnico consciente é, portanto, um novo universo que se difere da sua representação imediata da realidade e atinge a “nova forma de um conteúdo concreto determinado” (LUKÁCS, 2013, p 87). Essa expressividade surge a partir da decupagem fílmica (tipo de fotografia, do corte, montagem) mediante o trabalho orientado pelo todo social presente na produção (ator, operador, diretor etc.), onde a estilização é realizada mediante o equipamento. O cinema para Lukács, enquanto forma artística dotada de peculiaridades estéticas que se manifestam desde a sua gênese até o desenvolvimento de suas possibilidades técnicas de realização, carrega consigo a potência de exprimir com grandiosidade elementos da vida cotidiana capazes de apontar para as grandes questões da humanidade, revelando-se como “uma expressão arrebatadora e compreensível para as grandes massas de sentimentos populares profundos e universais” (LUKÁCS, 2013, p.96). Embora seja capaz de reproduzir as condições existentes, o filme, como a arte em si, não se limita à mera reprodução dessas condições, mas as revela de forma crítica, permitindo a passagem do homem inteiro do cotidiano para o homem inteiramente, contendo em si um salto sobre a simples vida cotidiana. Entretanto, a capacidade da ampla reprodução técnica do filme “está vinculada a sua base financeira no grande capital” e “graças a essa dependência do grande capital, o filme se adapta às mais vulgares e mais amplamente disseminadas necessidades das massas” (LUKÁCS,2013, p. 96). A labilidade do meio homogêneo do filme, ou seja, sua capacidade de refiguração do mundo por meio de uma “variedade inesgotável de sua aparência fenomênica” (LUKÁCS, 2013, p. 96) possibilita a grande indústria cinematográfica operar de forma manipulatória, satisfazendo as “necessidades mais particularistas, os ideais dos instintos medianos [...] ao qual podem ser inerentes tanto o mais kitsch happy-end como o sadismo mais sanguinário” (LUKÁCS, 2013, p. 96). Encontramos aqui o centro das dificuldades da realização estética da arte cinematográfica: a barreira entre o apassivamento e a justificativa de uma subjetividade cotidiana própria da forma social capitalista; e as possibilidades de ruptura com essa consciência através da elevação dos dilemas cotidianos para os grandes dilemas da humanidade. Para Lukács: “A maioria dos bons filmes evita, de fato, o largo caminho da trivialidade, trilhado pela massa dos filmes. Eles se elevam, no conteúdo e na forma, acima do nível da cotidianidade média, mas frequentemente pagam essa elevação com um distanciamento dos mais profundos sentimentos das massas, ou só alcançam perifericamente, com frequência apenas por desvios excêntricos” (LUKÁCS, 2013, p. 96-97). Para o autor as tentativas “que se esforçam por descobrir algo humanamente novo nessa selva das mais variadas possibilidades” demonstram que a cinema apresenta a capacidade de “[...] descobrir, nos fatos mais simples e cotidianos da vida, pelos quais passamos despercebidos antes sem prestar atenção, uma poesia profunda, uma autêntica humanidade, uma rica escala de sentimentos, da tristeza mais profunda ao riso mais libertador (Ladrões de bicicleta, De Sica). A elasticidade do meio homogêneo fílmico pode, de um lado, evidenciar uma cotidianidade plena de poesia, sem precisar reduzir ao naturalismo a riqueza de detalhes da vida cotidiana, e, de outro lado, consegue ir além da realidade cotidiana imediatamente dada.” (LUKÁCS, 2013, p. 98) O salto do homem inteiro imerso no cotidiano para a sua relação com o gênero humano – homem inteiramente – é atribuída por Lukács à função social da arte. A grande arte tem como propósito a desfetichização da vida imediata, de tornar aparente as reais contradições e os interesses humanos diante das relações reificadas construídas pela forma social capitalista. A arte pode operar como uma tomada de consciência da degradação social, e apontar para uma tomada de posição do sujeito diante a situação colocada. No cinema, por se tratar de uma arte de massas - ou uma arte popular -, poderia alcançar um êxito maior na sua função desfetichizadora, rompendo o invólucro místico que constituem as atuais relações sociais. Entretanto, devido a sua proximidade ao cotidiano, se faz mais recorrente a criação de filmes que atuam como produtos ideológicos, atuando enquanto produtos "artísticos" legitimadores da subjetividade estranhada que emerge da cotidianidade do capital. A arte cinematográfica se apresenta ora como uma potencialidade desfetichizadora, ora como um sintoma das relações sociais capitalistas. Das possibilidades da arte cinematográfica e seu caráter socialmente desmistificador trataremos nos próximos textos da Revista Barravento. NOTAS 1. ‘Reflexões' foi originalmente publicado na Hungria, em um jornal de língua alemã, em 1911 e, em seguida, republicado, em uma versão ligeiramente revisada, em 10 de setembro de 1913, no Jornal "Frankfurter Zeitung". (AKITEN, I., 2012, pp.29-30) 2. Planejada como uma obra em três partes, apenas a primeira foi concluída. Com o título Die Eigenartdes Äesthetiches, essa parte I da Estética foi publicada em 1963, pela editora Luchterhand, em Berlim. Em 1966 foi publicada em Barcelona, com o título Estética I: La peculiaridad de lo estético, em quatro volumes. (COTRIM, Lívia, 2013, p. 52) 3. Cabe ressaltar que Lukács, em seu pensamento de maturidade, ainda recorre a Kant para formular a teoria da autonomia da esfera estética, portanto está em “conformidade em relação com a teoria kantiana acerca do desinteresse estético (apesar de não deixar de guardar, diante dela, algumas reservas)” (VEDDA, Miguel, 2014, p.274) 4. O segmento Filme se encontra no Item V do capítulo 14 - Estética: Peculiaridades do Estético - Vol. 4 - Questões liminares da mimese. Aqui utilizaremos a tradução de Lívia Cotrim publicada em separado da totalidade da obra, pela editora EDUFRR, 2013. 5. Cabe ressaltar que “O materialismo dialético considera, ao contrário, a unidade material do mundo como um fato indiscutível. Todo reflexo é, portanto, dessa realidade única e unitária. Mas não decorre disso - exceto para o materialismo mecanicista - que toda reconfiguração dessa realidade tem que ser uma simples fotocópia dele.” (LUKÁCS, 1966, p 36) 6. Lukács se opõe às teses apresentadas por Benjamin em seu artigo “A obra de arte na era da sua reprodutibilidade técnica”. Segundo o autor o artigo “traz, de fato, toda uma série de observações sagazes, as quais, no entanto, graças a sua orientação anticapitalista romântica, frequentemente obscurece o problema [...] essa posição errônea tem consequências também no que diz respeito ao filme”, sendo assim “Benjamin em sua reiterada e legítima polêmica contra as tendências do capitalismo hostis a arte, chega desfiguração do problema”. (LUKÁCS, 2013, p.84) REFERÊNCIAS AITKEN, Ian. Lukacsian Film Theory And Cinema. Manchester: Manchester University Press, 2012. COTRIM, Lívia. Apresentação de Lukács e o cinema. In: Rodrigo Chagas. (Org.). Cinema,educação e arte. 1ed. Boa Vista: EDUFRR, 2013, v., p. 77-112. LUKÁCS, György. Reflexões para uma estética do cinema. In: Rodrigo Chagas. (Org.). Cinema, educação e arte. 1ed. Boa Vista: EDUFRR, 2013, v, p. 78-83. Trad. Lívia Cotrim e Felipe Marineli. ______. Filme. In: Rodrigo Chagas. (Org.). Cinema, educação e arte. 1ed. Boa Vista:EDUFRR, 2013, v, p. 83-110. Trad. Lívia Cotrim e Felipe Marineli. ______. Pensamento vivido: autobiografia em diálogo. São Paulo: Estudos e Edições Ad Hominem; Viçosa, MG: Editora da UFV, 1999. _____. Para uma ontologia do ser social I. Trad. Carlos Nelson Coutinho; Mario Duayer; Nélio Schneider. Revisão da tradução de: Nélio Schneider. São Paulo: Boitempo, 2012. ____. Estética 1: La peculiaridad de lo estético. Barcelona: Ediciones Grijalbo, 1966. 1 v. ____. Estética 1: La peculiaridad de lo estético. Barcelona: Ediciones Grijalbo, 1966. 4 v. MARX, Karl. Manuscritos Econômicos Filosóficos. São Paulo: Boitempo Editorial, 2004, tradução e notas, Jesus Ranieri TERTULIAN, Nicolas. Georg Lukács: etapas de seu pensamento estético. São Paulo: Editora UNESP, 2008. VEDDA, M. La sugestión de lo concreto: estúdios sobre teoria literária marxista. 1 ed. Buenos Aires: Gorla, 2006. ______. Posição teleológica e posição estética: sobre as inter-relações entre trabalho e estética em Lukács. In: VAISMAN, Ester e VEDDA, Miguel (Org). Estética e Ontologia. São Paulo: Ala-meda, 2014. v, p. 273-290.

  • Breve Coletânea de Fatos: EUA, Neonazismo e Bolsonarismo

    por Rafael Jácome de Sousa Matos Imagem: Leo Orestes/ Estadão Conteúdo Uma das características comuns de grandes movimentos em ascensão, como foi – e é – o caso do nacionalismo adotado pela direita ao redor do mundo, logo após a derrocada da onda de governos reformistas, é que em meio a aglutinação massiva que esses movimentos constroem para ganhar força temos a presença de movimentos das mais variadas orientações. No combate aos movimentos de esquerda que esses movimentos têm por objetivo confrontar, grupos neonazistas têm sido recorrentemente incorporados nas conjunturas nacionais em que as tensões vêm se desenvolvendo. É preciso atentar que o crescimento do neonazismo nesse meio (apesar de não ter força para hegemonizar a disputa para além de casos esporádicos), mesmo diante da impossibilidade de reprodução do que foi o nazismo décadas atrás, possui uma rede de atuação que busca explorar as contradições conjunturais e se inserir nas tensões de maneira articulada. Sem cair em alarmismos, tal fenômeno deve ser objeto de pesquisa e atuação das forças de esquerda a fim de classificar e se munir da capacidade de reconhecimento dos obstáculos cotidianos para seu trabalho junto aos trabalhadores (ainda muito aquém do que necessitamos). Também para despir toda fraseologia sobre “democracia” (burguesa) da atuação real dos liberais e reformistas que disseminam essa demagogia. Ademais, gostaria de frisar que esse texto não pretende traçar grandes reflexões acerca do nazifascismo, as imbricações que o determinam no cenário histórico e na conjuntura atual. Este texto se trata tão somente de um primeiro movimento de organizar algumas informações (já bem conhecidas para o leitor minimamente atento), um exercício primordial para a tão necessária análise de conjuntura; análise de fatos aparentemente caóticos e bem conhecidos da grande maioria, traçando de maneira bem breve seu fio condutor. A profundidade do fio condutor que ligam esses fatos, fica a critério de uma compreensão geral dos movimentos de esquerda que tem por tarefa sempre urgente se debruçar sobre o tema. Portanto, vejamos uma breve coletânea de fatos a partir do Batalhão Azov que chegou a compor instâncias estatais na conjuntura ucraniana, bem como indícios da complacência estadunidense com tais grupos. Votos na ONU; “liberdade de expressão”. Em 2021 a ONU aprovou uma resolução para combater o que ela chamou de aumento da “glorificação nazista em alguns países”, destacando como ponto de partida a conjuntura do golpe que aconteceu na Ucrânia em 2014. Lembremos que o país que faz fronteira com a Rússia e passou por uma intensa onda de protestos e conflitos civis, é o mesmo país que foi palco do episódio macabro nomeado de “O Massacre de Odessa”. (1) Nesse massacre, sindicalistas e militantes de esquerda ucranianos, muitos ligados culturalmente à herança cultural da URSS, foram perseguidos, linchados e queimados vivos dentro do sindicato no qual buscaram se esconder da horda de supremacistas brancos que marchavam pelas ruas destruindo os símbolos que remetiam ao período soviético. Aqueles que, numa última tentativa para saírem da situação desesperadora em que estavam, tentaram pular as janelas para fugir das chamas no interior do prédio foram rapidamente alvejados pelos supremacistas, que esperavam medonhamente extasiados ao lado de fora. O massacre teve bastante repercussão, ainda que não tanto quanto deveria. O curioso é que na votação da medida proposta pela ONU para combater ideologicamente tais hordas fascistas, tanto Ucrânia (solo onde ocorreu o episódio), quanto EUA (país proeminente na OTAN), se destacaram por se contraporem sozinhos a tal proposta. Na totalidade, foram 130 votos a favor, 2 contra e 49 abstenções, sendo essas abstenções de países com vínculos econômicos com os EUA. (2) Os EUA, se valendo da desgastada justificativa da “liberdade de expressão” (argumento adorado pelos supremacistas brancos em todo mundo), se justificou por meio de um documento oficial. Vejamos: Hoje, no entanto, os Estados Unidos devem expressar oposição a esta resolução, um documento mais notável por suas tentativas veladas de legitimar narrativas de desinformação russas de longa data denegrindo nações vizinhas sob o pretexto cínico de impedir a glorificação nazista. A Suprema Corte dos Estados Unidos tem afirmado consistentemente o direito constitucional à liberdade de expressão e os direitos de reunião e associação pacíficas, inclusive por nazistas declarados, cujo ódio e xenofobia são amplamente desprezados pelo povo americano. Ao mesmo tempo, defendemos firmemente os direitos constitucionais daqueles que exercem seus direitos de combater a intolerância e expressam forte oposição ao odioso credo nazista e outros que defendem ódios semelhantes. (3) Como defendido pelos “monarkicos” liberais brasileiros, (4) a liberdade de expressão nos EUA permite a manifestação irrestrita de opinião até mesmo de supremacistas brancos, grupos racistas e outras orientações ideológicas de mesmo nicho. Podemos notar pelo seu posicionamento internacional e corresponde, juridicamente, à primeira emenda da Constituição dos Estados Unidos. Essa concepção se torna um tanto quanto preocupante ao analisarmos o cenário mundial e as movimentações dos grupos supremacistas protegidos por essa noção de “liberdade” que marejam os olhos dos liberais e ancaps pelo mundo. Afinal, nenhum discurso sobre liberdade é descolado de movimentações no campo das disputas reais e possuem efetivações práticas nesse solo, destacadamente, nas relações geopolíticas. Aprofundando sobre a “liberdade” americana, em 2015 o congresso americano retirou as restrições orçamentárias referentes ao financiamento de grupos neonazistas, preocupando inclusive alguns setores da política norte-americana. Soma-se a isso que alguns integrantes do B-Azov fazem elogios às contribuições norte-americanas para a especialização do agrupamento neonazista. Em entrevista a Will Cathcart e Joseph Epstein, um membro recorda “a experiência de seu batalhão com treinadores e voluntários americanos com muito carinho, mencionando até mesmo engenheiros e médicos voluntários americanos que ainda estão atualmente os auxiliando”. (5) O batalhão de Azov; a livre expressão dos neonazi ucranianos. O “Batalhão de Azov” se trata de uma milícia supremacista branca com orientações nazistas. Tal milícia teve participação direta no golpe que ocorreu na Ucrânia em 2014, bem como no massacre (Odessa) apontado no tópico anterior. (6) Além disso, estão a frente de diversos casos de violência extrema relatados em solo Ucraniano, como também de uma atuação bárbara no que tange a manutenção dos constantes ataques que ocorreram contra a população de Lugansk e Donetsk. O Batalhão de Azov tem suas origens na aglutinação de forças anti-Rússia que aconteceu em 2014, sendo posteriormente introduzido às forças armadas ucranianas que se organizaram para combater os separatistas pró-Rússia no leste do país e para dar respaldo militar ao novo governo que possui relações estreitas com OTAN. O B-Azov é composto basicamente pelos membros da “Assembleia Nacional-Social” e pelos “Patriotas da Ucrânia", dois grupos de supremacistas brancos ucranianos. (7) Hoje o B-Azov conta com mais de mil soldados e já teve até mesmo condecoração oficial de honra, dada pelo Estado Ucraniano, para um dos primeiros coronéis do batalhão, o nacionalista ucraniano Bietsky que, em 2015, foi convidado pelo parlamentar Jaromir Stetina a fazer discurso no parlamento, sem nenhum tipo de constrangimento legal. (8) Posteriormente Biletsky chegou a exercer mandato como deputado, mostrando claramente – no mínimo – a legitimidade que tal batalhão tem para o Estado Ucraniano. Soma-se a isso que o espaço político-militar dos supremacistas dado pelo governo ucraniano é tanto que o B-Azov foi incorporado à guarda nacional ucraniana (9) e sua atuação indica ser mais articulada do que parece, se estendendo para outras nações. Alguns episódios internacionais dão conta de que B-Azov fez recrutamentos em solo estrangeiro, gerando indisposição entre Ucrânia e Croácia. Cerca de 20 croatas, segundo algumas informações, foram integrados ao B-Azov. A ministra croata Vesna Pusić (Relações Internacionais) confirmou que existiam voluntários na Ucrânia, levando o governo russo a chamar a Croácia para dar explicações e retirar seus cidadãos do conflito. Dada a pressão russa, finalmente a Croácia se opôs a qualquer participação de cidadãos croatas no conflito e em resposta, o governo ucraniano alegou que os croatas recrutados estavam do lado "legítimo" da luta. (10) Tais episódios, porém, não se restringem à Europa. Azov em Hong-Kong; a livre expansão neonazi. A China é a principal oposição aos EUA dentro das relações do capitalismo, no cenário econômico global. Interessante que nos processos políticos de Hong-Kong (2019-2020), ainda com Trump na presidência, os EUA manifestaram irrestrito apoio aos manifestantes pró “liberdade de expressão”, “democracia” e afins, que se colocavam contra o governo chines. Biden deu sequência ao apoio, como era de se esperar (11), mas rostos europeus no meio desses românticos jovens idealistas destoavam dos rostos em sua maioria asiática. Para a surpresa (será?) dos jovens liberais anti-China dos protestos de Hong-Kong, alguns rapazes estrangeiros se solidarizaram com a causa e buscaram se inserir nas movimentações. Muitas lideranças estranharam aqueles rapazes europeus, tatuados com símbolos nórdicos e vestidos com o uniforme hooligan do “Honor”, grupo hooligan de extrema direita (12). Fato é que se tratavam de nomes que compuseram as fileiras do B-Azov em diversos momentos. Tal fato chegou a ser repudiado por uma página oficial de uma das lideranças dos movimentos (13), mas é interessante notar que tal aproximação não parece ter se dado de maneira aleatória. Logo o fato ganhou repercussão perante alguns canais e olhos mais atentos de indivíduos que acompanhavam e/ou estavam inseridos na conjuntura dos protestos, (14) se descobrindo que os ucranianos estavam em solo estrangeiro num processo de giro político possivelmente articulado por uma organização ucraniana. A página da organização, intitulada de “Free Hong Kong Center”, sediada na Ucrânia, logo saiu em defesa dos jovens, alegando que eles se desvincularam do B-Azov e de que queriam participar dos protestos para “ver de perto a verdade do que acontecia”, chamando-os de “simples ativistas jovens” (15). Numa pesquisa rápida nota-se que a página faz sucessivos posts, sendo o último datado de 8 de junho de 2020, traçando nexos entre a conjuntura de Hong Kong e os processos anti-Rússia que ocorreram na Ucrânia. Se os manifestantes e suas lideranças, inspirados em sonhos americanos de liberdade, sabiam de tal inserção, não fica evidente. Mas fato é que os membros do B-Azov presentes nos protestos, que manifestavam afinidade com a política norte americana como os manifestantes de Hong Kong, viam com bons olhos o movimento e estavam dispostos a “aprender” com os manifestantes que buscavam enfraquecer o rival do governo estadunidense; a China.(16) Nazistas verde e amarelo; os neonazi botam ovos no Brasil. Nos últimos anos, de acordo com Adriana Dias, pesquisadora da UNICAMP, em fala para uma reportagem para a Revista Época em outubro de 2021, indicou que segundo seus dados advindos de um acompanhamento permanente, tivemos desde de 2019 no Brasil um crescimento de 56% de células nazistas. Ainda na reportagem o fundador da SaferNet, associação privada que aglutina especialistas de diversas áreas, sob o pretexto de defender os direitos humanos de pessoas envolvidas em crimes virtuais e outras mazelas que encontramos no meio virtual, houve um crescimento significativo de denúncias referentes a conteúdos ligados ao nazifascismo. Se em 2019 foram recebidas 1.071 denúncias, esse número mais que quadruplicou em 2021, chegando ao total de 9.004 registros.(17) Não estranhamente, tal crescimento é notificado num período pós eleição de Bolsonaro, candidato que ascendeu ao poder como resultado de um longo processo que teve seus marcos eleitorais em 2016 (golpe em Dilma) e em 2018 (eleição de Bolsonaro). Fato é que hoje existem vários indícios de que os EUA tinham fortes articulações com as esferas judiciais brasileiras (18) que, ao impulsionar as articulações palacianas do golpe, desencadearam o crescimento de grupos nacionalistas de extrema direita. Ainda em 2016 a Polícia Federal desarticulou um grupo de estrangeiros que visava recrutar jovens para o conflito na região leste da Ucrânia. O curioso desta prisão é que ela indicou não somente uma tentativa isolada, mas sim indícios de uma atuação muito bem articulada e que visava o crescimento de uma rede de núcleos no estado do Rio Grande do Sul. Segundo a imprensa geral, tal grupo já existia há mais de 10 anos, mas naquela época começou um processo de articulação com o B-Azov para fortalecer as forças paramilitares que atuavam na Ucrânia (19). Esses casos não se restringem somente ao Rio Grande do Sul e poderíamos citar vários como este, incluindo os mais conhecidos em que lideranças da direita bolsonarista gritavam aos quatros ventos que iam “Ucranizar o Brasil”. Mas vamos aos números. A mesma pesquisadora Adriana Dias, mas agora em entrevista para o Fantástico, aponta que as células nazistas tiveram um crescimento de 270% de janeiro de 2019 a janeiro a maio de 2021. Tais células se concentram em maior parte na região Sul do país, mas chegam a estar presentes nas cinco regiões do Brasil. Além disso, um levantamento em 2021 apurou que o número de denúncias aumentaram consideravelmente, saltando de no máximo 20 até 2018, para 69 investigações do crime de apologia em 2019. Em 2020 a média saltou para um inquérito a cada 3 dias, sendo que 110 casos já vinham sendo investigados. (20) Notadamente o crescimento chama mais a atenção que a quantidade, mas, ao contrário dos que desdenham de um movimento pela quantidade de adeptos, podemos interpretar que estes não mais se constituem simplesmente como uma força que figura nos quadros de um antiquário. É preciso pensar que, mais do que se somarem às vozes do conservadorismo que cresce com o nacionalismo, tais posições estão presentes no cotidiano da classe trabalhadora e, de alguma maneira, ainda imprecisa, tem relativa atuação na disputa ideológica e nos entraves para um fortalecimento dos comunistas no Brasil e no mundo. Notas: 1. "Dois anos do massacre de Odessa: Ucrânia submersa pelas trevas": https://vermelho.org.br/2016/04/29/dois-anos-do-massacre-de-odessa-ucrania-submersa-pelas-trevas/ 2. “Somente EUA e Ucrânia votaram contra resolução da ONU de combate ao nazismo”: https://revistaforum.com.br/global/2022/2/25/somente-eua-ucrnia-votaram-contra-resoluo-da-onu-de-combate-ao-nazismo-110706.html 3. “Explicação da votação sobre uma resolução sobre a glorificação do nazismo”(em inglês): https://usun.usmission.gov/explanation-of-vote-on-a-resolution-on-the-glorification-of-nazism/ 4. "Para que serve a liberdade de expressão - e quais os seus limites":https://www.mises.org.br/article/3214/para-que-serve-a-liberdade-de-expressao--e-quais-os-seus-limites 5. “Congresso removeu a proibição de financiar neonazistas de sua conta de gastos de fim de ano (em inglês)”:https://www.thenation.com/article/archive/congress-has-removed-a-ban-on-funding-neo-nazis-from-its-year-end-spending-bill/ 6. “Batalhão de Azov, o grupo ucraniano de extrema direita na mira de Putin”: https://revistagalileu.globo.com/Sociedade/Politica/noticia/2022/02/batalhao-de-azov-o-grupo-ucraniano-de-extrema-direita-na-mira-de-putin.html 7. Patriotas da Ucrânia: https://stringfixer.com/pt/Patriot_of_Ukraine //Assembleia Nacional Social:https://hmn.wiki/pt/Social-National_Assembly 8. "O eurodeputado tcheco Jaromir Stetina, incluído na "lista negra" na Rússia, convidou o comandante do batalhão voluntário ucraniano Azov, Andrei Biletsky, a fazer um discurso no Parlamento Europeu.”:https://br.sputniknews.com/20150729/1702721.html 9. "Os neonazistas e a extrema direita estão em marcha na Ucrânia"(em inglês):https://www.thenation.com/article/archive/neo-nazis-far-right-ukraine/ 10. "Pusic confirma: 'Há croatas lutando no exército ucraniano'" (em croata):https://www.rtl.hr/vijesti-hr/novosti/1509453/pusic-potvrdila-ima-hrvata-koji-se-bore-u-ukrajinskoj-vojsci/ 11. EUA solicita que Pequim pare de 'destruir' democracia de Hong Kong:https://noticias.r7.com/internacional/eua-solicita-que-pequim-pare-de-destruir-democracia-de-hong-kong-31032021 12. Hooligans de extrema direita da Ucrânia nos protestos de Hong Kong"(em inglês):https://medium.com/dfrlab/far-right-hooligans-from-ukraine-at-the-hong-kong-protests-baab52023580 13. "Hong Kong Hermit" (em inglês): https://twitter.com/HongKongHermit/status/1201488197638709248 14. "Hong Kong Hermit" (em inglês): https://twitter.com/HongKongHermit/status/1201491207001501703?s=20&t=26pMMp2Bo2l5UPNIewo9dA 15. Free Hong Kong Center (Facebook post): https://www.facebook.com/ufhkc/photos/a.468815556801405/1009071022775853/?type=3&permPage=1 16. "O que fascistas ucranianos estão fazendo nos protestos de Hong Kong?":https://www.vice.com/pt/article/zmjjey/o-que-fascistas-ucranianos-estao-fazendo-nos-protestos-de-hong-kong 17. Reportagem completa: https://outline.com/U6stGN 18. "’República de Curitiba’ pode responder por crime de traição à pátria":https://www.pragmatismopolitico.com.br/2016/12/republica-curitiba-crime-traicao-patria.html 19. "Polícia do RS desarticula grupo neonazista que atuaria em guerra civil no leste europeu":https://www.youtube.com/watch?v=J15Ssa-YI8w 20. "Há uma onda neonazista no Brasil? Entenda o que dizem os números e especialistas no tema": https://www.brasildefato.com.br/2022/01/27/ha-uma-onda-neonazista-no-brasil-entenda-o-que-dizem-os-numeros-e-especialistas-no-tema

  • O colapso ambiental frente à incontrolabilidade do Capital:

    O idealismo político nas lutas de pauta única em Mészáros - Parte I Ana Carolina Marra de Andrade Rodrigo Righi Marco O presente texto é a primeira de duas partes de um artigo que havia sido, a princípio, aprovado para publicação na Revista Práxis Comunal. Com a incerteza sobre a publicação da edição e acreditando na relevância do debate aberto pelo filósofo húngaro, ainda que com discordâncias, entendemos o valor do espaço que nos foi oportunamente aberto para tal. INTRODUÇÃO Nossa proposta reconhece, desde seu princípio, a historicidade do gênero humano. Que os homens fazem sua própria história enquanto sujeitos ativos, e, ao atuar sobre a natureza, transformam sua própria natureza. Em tempos de colapso ambiental e de completa destruição de nosso primeiro meio de vida, onde nos conformamos enquanto humanos e sob o qual precisamos nos submeter à sua objetividade, a crítica à racionalidade teleológica do espírito (1), que perpassa a própria crítica da nossa sociabilidade – incluindo as formas de organização social, tal qual a política – se coloca na ordem do dia. A forma de produção social atual — vista como resultado racional do desenvolvimento histórico — provou sua própria irracionalidade efetiva, a partir da cada vez mais clara percepção de sua incontrolabilidade, que, no momento de aparente ativação de seus limites absolutos de expansão, traz contornos cada vez mais preocupantes de colapso, nos colocando em uma posição frágil, afinal, a supressão de nossos meios de vida significa a nossa própria extinção.(2) Percebemos em István Mészáros, neste sentido, a imponência da crítica a essa incontrolabilidade destrutiva, frente a qual as organizações de esquerda — sejam stalinistas (que, em sua hegemonia ideológica diante da capacidade organizacional comunista, pregam o mesmo produtivismo do pós-capitalismo soviético), (3) sejam reformistas social-democratas (4) (que reconhecem o próprio capital permanente universal da economia política burguesa, mas em sua idealização de possibilidade de controle racional) — se colocam de joelhos, mais impotentes do que nunca. Nesta situação em que o colapso global se coloca com maior iminência que a própria efetivação da proposta revolucionária, buscamos trazer o legado de Mészáros (5) na busca pela compreensão da realidade como primeiro passo da construção de fato de uma ofensiva socialista. Reconhecer, sem idealismo ou otimismo acrítico, as condições materiais de nosso século, compreendendo os aprendizados das experiências derrotadas no passado, é condição fundamental para que se busque, no futuro, a poesia da Revolução Social na luta por uma sociedade emancipada (6). A única alternativa frente ao colapso ambiental não pode ser outra senão o comunismo, e por isso a importância de se debruçar sobre a grande obra de Mészáros, Para além do Capital (Cf. MÉSZÁROS, 2011), que busca encontrar precisamente uma alternativa para além da ordem do capital, fundamental para a compreensão dessas determinações centrais no contexto de expansão capitalista a partir da consolidação da assim chamada Nova Ordem Mundial e para a construção de uma proposta que busque as possibilidades de superá-lo. Com este fim, nosso foco na análise da obra de Mészáros será direcionado em sua primeira parte, que centraliza as críticas à incontrolabilidade do sociometabolismo do capital - que torna impotente toda busca racional pela solução de antagonismos centrais da sociedade burguesa descolada das bases materiais da sociabilidade — que culmina no colapso ambiental e na própria impossibilidade da natureza de se colocar enquanto um meio de vida no processo de reprodução de vida humana. Na segunda parte, a ser posteriormente publicada, se buscará trazer a posição das mobilizações populares frente ao contexto — tendo em conta tanto sua parcialização e setorialização, bem como a própria negação de possibilidade revolucionária por parte da esquerda reformista — e suas (im)potencialidades. Em nossa análise, buscaremos reconhecer a integridade do texto em sua estrutura concreta, almejando compreender sua gênese marxiana e sua função frente ao debate colocado objetivamente e proposto pelo autor; com esse propósito, busca-se negar qualquer tentativa de reconhecimento de equivalência das diversas leituras, seja de Mészáros, seja do próprio Marx, nos fazendo prova de haver compreendido as determinações imanentes fundamentais dos escritos presentes em Para Além do Capital. Para esse procedimento — que se coloca criticamente às formas epistemológicas próprias da análise pseudocientífica da realidade social em discussão — buscaremos luz nas resoluções metodológicas de José Chasin em seu Estatuto Ontológico (Cf. CHASIN, 2009), (7) em oposição à análise lógico-especulativa própria do idealismo, bem como à parcialização categorial das ciências sociais. Nosso método de pesquisa será, neste sentido, a análise imanente ou análise estrutural (Cf. CHASIN, 2009) tal como desenvolvida pelo filósofo brasileiro com base na crítica imanente Lukácsiana (Cf. LUKÁCS, 1959). Se acreditamos na autarquia, em última instância, da realidade sobre as formas de consciência e acreditamos na necessidade, mais que mera possibilidade, de se compreender as determinações fundamentais sobre esta realidade na busca de sua própria práxis transformadora, para isso, é fundamental fazer, parafraseando Chasin, não qualquer coisa, mas a coisa certa; recomeçar, sem mito e sem música, criar o futuro a partir da reconstrução da luta do presente e, como diz o velho mouro, permitindo aos mortos enterrarem os seus. (8) I. A INCONTROLABILIDADE DO SISTEMA DE REPRODUÇÃO SOCIOMETABÓLICO DO CAPITAL “Antes de mais nada, é necessário insistir que o capital não é simplesmente uma “entidade material” (...) mas é, em última análise, uma forma incontrolável de controle sociometabólico” (MÉSZÁROS, 2011, p. 96 - grifos nossos). Assim Mészáros define o capital, em suas diferenças específicas com o capitalismo, (9) ainda em movimento de crítica também às avaliações das experiências revolucionárias ao longo do século XX. Uma forma de controle sociometabólico de nossa forma de produção social mundial, que escapa ao controle dos indivíduos em resultado de seu alto grau de autonomização no seu processo histórico de consolidação, se colocando, neste sentido, como uma potência estranhada, que age às costas de seus criadores e os subordinam enquanto criaturas, dando-os a ilusão de possibilidade de controle. Entretanto, nem as chamadas personificações do capital (que vigorosamente acreditam coordenar a universalidade das potências produtivas), tampouco a classe trabalhadora organizada enquanto classe na tomada do poder político, têm a capacidade de domar o capital. Pelo seu caráter totalizante, a lógica de divisão social e internacional do trabalho aparta os indivíduos de uma conexão efetiva com sua própria criatura, o sistema de produção da vida pautado na reprodução ampliada do capital, que os subordina a partir de sua posição na cadeia produtiva e os molda em prol de sua reprodução. Na realidade, aparenta aos homens que o capital os constituiu como Deus criara Adão, e os condenou como no pecado original, a viver, relegados à subordinação, do suor de seu trabalho. A razão principal por que este sistema forçosamente escapa a um significativo grau de controle humano é precisamente o fato de ter, ele próprio, surgido no curso da história como uma poderosa – na verdade, até o presente, de longe a mais poderosa – estrutura “totalizadora” de controle à qual tudo o mais, inclusive seres humanos, deve se ajustar, e assim provar sua “viabilidade produtiva”, ou perecer, caso não consiga se adaptar. (MÉSZÁROS, 2011, p. 96) Essas determinações presentes nas bases objetivas de sua estruturação — e às quais a humanidade inteira se submete, senão de maneira direta, certamente sentindo seus reflexos indiretamente (desde as comunidades polinésias que sofrem com o aumento do nível do mar até os esquimós com o derretimento das camadas polares) — impossibilitam qualquer tentativa de racionalização da produção dentro de seus moldes. Em momentos de crise iminente, que mobilizam a burguesia (com sua crença de poder de controle personificado) em busca desse apaziguamento de tensões sociais — geradas por necessidades imediatas e cotidianas, como salários, desemprego, impostos, enfim, aumento da espoliação das classes trabalhadoras —, o capital mostra, em sua verdadeira faceta, a impotência das tentativas de controle social de seu metabolismo, em busca da conciliação dos antagonismos sociais que cada vez mais o levam em direção a seu colapso (10). Neste sentido, dirá Mészáros: Não se pode imaginar um sistema de controle mais inexoravelmente absorvente – e, neste importante sentido, “totalitário” – do que o sistema do capital globalmente dominante, que sujeita cegamente aos mesmos imperativos a questão da saúde e a do comércio, a educação e a agricultura, a arte e a indústria manufatureira, que implacavelmente sobrepõe a tudo seus próprios critérios de viabilidade, desde as menores unidades de seu “microcosmo” até as mais gigantescas empresas transnacionais, desde as mais íntimas relações pessoais aos mais complexos processos de tomada de decisão dos vastos monopólios industriais, sempre a favor dos fortes e contra os fracos. (MÉSZÁROS, 2011, p. 96 - grifos nossos). É importante, nesta análise, compreender como o capital alcança essa expansão que, para Mészáros, chega agora aos seus limites absolutos; afinal, como já dito pelo húngaro, o capital não se coloca enquanto uma entidade material simplesmente: é movido a partir da atividade dos homens na sua cotidianidade e de suas necessidades imediatas, sejam elas a venda da força de trabalho, sua apropriação em busca de acumulação individual etc. Como aponta, o “sistema do capital é orientado pela expansão e impelido pela acumulação — e aparece de modo oposto” (MÉSZÁROS, 2011, p. 138), isto é, o capital tem sua expansão impulsionada a partir de um sistema de acumulação por parte de suas personificações em suas estratégias de acordos e competições, seja por mão de obra barata e mercado consumidor, seja por matéria prima e tecnologia de produção, de forma que “as personificações do capital atuam de modo ‘determinante determinado’” (MÉSZÁROS, 2011, p. 139) Para as empresas que operam segundo a lógica do capital, a única forma de melhorar as oportunidades de controle é aumentar constantemente sua escala de operação – o que torna a expansão do capital uma exigência absoluta –, não importa o quanto sejam destrutivas em termos globais as consequências da utilização voraz dos recursos disponíveis (para os quais as empresas privadas não têm medidas nem preocupações). (MÉSZÁROS, 2011, p. 258). Independentemente da forma como as personificações do capital determinam sua produção individual (sempre frente à totalidade, claro), da expansão de um capitalista em detrimento de outro (11), ou do acordo para expansão (motivada pela acumulação) conjunta, ela está sempre determinada a partir das leis imanentes de funcionamento do capital, que tem sua necessária expansão garantida e totalizada, hoje, nos quatro cantos do mundo. À luz deste raciocínio, a expansão do capital, possibilitada pela atuação de suas personificações — desde as grandes navegações e da colonização belicamente forçada das Américas, África e Ásia, até o neocolonialismo europeu e norte-americano no Oriente Médio, em busca de matéria prima para produção e de ampliação do mercado consumidor — atingiu seus limites absolutos. As cada vez mais frequentes crises sociais revelam, para Mészáros, a tendência estrutural do sociometabolismo do capital — resultado de sua incontrolabilidade — que, não tendo mais para onde crescer, torna o potencial produtivo do desenvolvimento de capacidades humanas, por sua vez, altamente destrutivo. Neste momento se alcança a crise estrutural do capital. Sob as condições de crise estrutural do capital (12), seus constituintes destrutivos avançam com força extrema, ativando o espectro da incontrolabilidade total numa forma que faz prever a autodestruição, tanto para este sistema reprodutivo social excepcional, em si, como para a humanidade em geral. (...) Ele [o capital] só era compatível com ajustes limitados e, mesmo esses, apenas enquanto pudesse prosseguir, sob uma ou outra forma, a dinâmica de autoexpansão e o processo de acumulação. Tais ajustes consistiam em contornar os obstáculos e resistências encontrados, sempre que ele fosse incapaz de demoli-los. (MÉSZÁROS, 2011, p. 100). Essa crise estrutural, afirmada pela ativação dos limites absolutos de seu sociometabolismo, significaria não apenas a reafirmação de sua caducidade – isto é, que não é capaz de solucionar os conflitos da humanidade, como se propôs nas manifestações da burguesia revolucionária até meados do século XIX — mas o alcance das tensões a seu marco fundamental — a saber, a relação homem-natureza; estaríamos à beira de um colapso ambiental que é também, objetivamente, um colapso da humanidade. Entretanto, esse colapso não se coloca meramente aos olhos da razão, mas objetivamente, de forma que ele é percebido em escala mundial e vários grupos de pensadores, ativistas e até “capitalistas solícitos”, na expressão de Mészáros (e retomamos o exemplo de Financial Times) buscam sua solução (a motivação pouco importando), seu controle e a efetivação do capitalismo sustentável, permanente e universal a que Hegel se propunha solucionar em seu espírito absoluto: o triunfo da Ideia (Cf. HEGEL, 1974). Assim, buscando o controle da produção, o que permitiria torná-la sustentável, o mundo pensa em regulamentações jurídicas vinculantes, a partir de tratados internacionais, em regulamentação nacional e até em apelos à moral individual, como as campanhas em prol da redução de plástico; tudo para controlar o sociometabolismo do capital – mas justamente com as estruturas que estão, na realidade, fundamentalmente ligadas à sua forma produtiva e reprodutiva, que se coloca enquanto momento preponderante da sociabilidade autodestrutiva que se busca controlar. Trazendo Mészáros, O impulso expansionista cego do sistema do capital é incorrigível, porque não pode renunciar à sua própria natureza e adotar práticas produtivas compatíveis com a necessidade de restrição racional por escala global. Praticando uma restrição racional abrangente, o capital de fato reprimiria o aspecto mais dinâmico de seu modo de funcionamento, cometendo suicídio como sistema de controle sociometabólico historicamente único. (MÉSZÁROS, 2011, p. 259 - grifos nossos). Em uma palavra, remetendo-se à crítica do idealismo objetivo hegeliano, proposta por Marx nos textos de 1843 - a dizer, Sobre a Questão Judaica e Introdução à Crítica da Filosofia do Direito de Hegel (Cf. MARX, 2010; MARX, 2013) —, a tentativa de solucionar o problema ambiental se recorrendo à uma espécie de racionalidade política implica em uma inversão sujeito-predicado, própria do pensamento hegeliano; tomar o criador das formas de controle social, a dizer, o homem, como criatura, assim como o contrário, o que implica em tomar estas formas ideológicas (potências estranhadas resultadas de uma sociabilidade de bases contraditórias) como conciliadoras dos antagonismos sociais, sendo elas próprias são seus frutos. Essa forma idealista de prática política é resultado de uma determinação social do pensamento própria de uma estruturação hierárquica de dominação, que se reafirma em termos também ideológicos. Para buscar uma solução, ela não poderá partir dos teóricos da burguesia, afinal: Para examinar o controle do sociometabolismo, não pela misteriosa “mão invisível” ou por sua reformulação hegeliana “universalizada” para toda a história do mundo, mas por meio de uma ação humana consciente e independente (uma ação capaz de agir de tal modo, que suas intenções não sejam uma camuflagem perversa e ilusória para a instrumentalidade sumariamente imposta de uma ordem reprodutiva fetichista), é preciso dar um passo para fora do quadro de referências estrutural do capital e abandonar sua base material determinante, que só está sujeita à constituição de um modo de controle incontrolável. (MÉSZÁROS, 2011, p. 140) E, na outra face da mesma moeda, Mészáros ainda reafirmará que: Enquanto existir objetivamente espaço para a livre expansão, o processo de deslocamento das contradições do sistema pode avançar sem empecilhos. Quando as coisas não vão bem, ou seja, quando há uma falha no crescimento econômico e em seu correspondente avanço, as dificuldades são diagnosticadas em termos do raciocínio circular, que evita as causas subjacentes e apenas acentua suas consequências, segundo o qual “o crescimento atual não é suficiente”. Tratar dos problemas com essa perversa maneira ilógica repetindo constantemente que “está tudo pronto” para a expansão saudável, mesmo nos momentos das grandes recessões, cria a ilusão de que o modo de controle sociometabólico do capital não precisa de nenhuma mudança fundamental. (MÉSZÁROS, 2011, p. 176) Assim, todo o discurso que traz o trabalho e a produção social com o fim de satisfação das necessidades humanas é esvaziado por uma fraseologia do crescimento, por um desenvolvimentismo (13) ensimesmado, reafirmando a contradição capital-trabalho como inerente ao “mundo real” (14), de forma que, enfim, o possível a ser feito é atenuar as suas consequências. O pensamento da burguesia decadente, portanto, esvazia a história humana e toma o resultado como pressuposto em seu método de investigação, bem como o imediato como essencial, e o particular como universal. Por isso, a leitura da realidade é fundamental, a crítica do céu como crítica da terra (Cf. MARX, 2013) permite compreender qual é, de fato, a real potencialidade destes elementos pretensamente conciliatórios, que, assim como se refere Mészáros anteriormente, se prendem a um raciocínio circular de um pensamento que nega a historicidade do gênero humano para negar a possibilidade de vislumbre de futuro, afinal, como resultado das bases materiais em que os homens produzem sua vida, não poderia ser diferente, já que a verdade é que, devido à sua necessária negação do futuro, o sistema do capital está encerrado no círculo vicioso do curto prazo, embora seus ideólogos procurem apresentar esse defeito como virtude insuperável. Esta é a razão por que o capital é incompatível com qualquer tentativa significativa de um planejamento abrangente, mesmo quando este se mostre avassaladoramente necessário no problemático relacionamento de empresas capitalistas globais. (MÉSZÁROS, 2011, pp. 175-176). Podemos perceber, portanto, que a incontrolabilidade do sociometabolismo do capital se coloca enquanto momento preponderante (15) da produção social, isto é, por onde perpassam as superestruturas ideológicas, que carregam consigo um papel ativo no processo de reprodução social. Ademais, que essa incontrolabilidade acirra as tensões sociais não apenas entre os homens, mas também na relação homem-natureza, de forma que, sob essas bases materiais, essa expansão catastrófica — que já revela traços de colapso — não se coloca enquanto controlável, e, no entanto, o projeto de solução se coloca entorpecido pelo pensamento apologético da burguesia decadente que, na melhor das hipóteses, exacerba a potencialidade da política enquanto forma pela qual se possibilita a reconciliação do homem com seu gênero e sua realidade. II. O AMBIENTALISMO E A INVIABILIDADE DE SOLUÇÕES PARCIAIS Diante do capital incontrolável que se expande de modo catastrófico e é sustentado por uma burguesia apologeta, nos termos de Mészáros, é cada vez mais latente a intempérie ambiental causada pela ação humana nos últimos séculos. Neste sentido, diversos movimentos de pautas ambientalistas surgiram, cada um propondo distintas soluções no horizonte da sustentabilidade da relação entre homem-natureza. No entanto, em grande parte pelo que o autor húngaro chama de “crise do marxismo” (MÉSZÁROS, 2011, p. 43) — em decorrência da queda da União Soviética, concomitante ao colapso do stalinismo e do fracasso da social-democracia, que levou a uma imensa disseminação de propagandas triunfalistas que decretaram a vitória definitiva e eterna do capitalismo sobre o socialismo e os ideais marxistas —, mas também pela persuasividade da produção - assim chamada de teórica - da burguesia (que não passa de apologia cada vez mais rebaixada), os movimentos pela preservação da natureza se colocam, em regra, como militâncias políticas de pauta única, atuando a partir de uma compreensão parcelar de mundo que provoca consequente setorialização dos movimentos. Sem qualquer análise mais profunda da relação inevitável de destruição irrefreável dos recursos naturais pelo capital em sua expansão incessante, ou tomando como pressuposto a eternidade do capitalismo, esses movimentos acabam apelando por “soluções” reformistas imediatas. Acredita-se, pois, na propaganda de fracasso do marxismo sem buscar - aos moldes do que fora legado pela tradição - na própria realidade, o que poderia se colocar enquanto possibilidade de fato resolutiva para a cada vez mais iminente destruição de populações inteiras em consequência da devastação ambiental. Como exposto anteriormente neste artigo, já em 1843 Marx critica o idealismo especulativo, trazendo também o aspecto negativo da política na resolução dos antagonismos sociais. Quanto a isso, ainda esclarece Sartori que “não é a política e a cidadania aquelas capazes de ultrapassar as limitações da sociedade atual. O que é preciso é a transformação substantiva desta própria sociedade.” (SARTORI, 2020, p. 15). Acerca da superioridade do marxismo como ponto de partida procedimental e necessário para enxergar uma possível mudança na destrutiva relação do homem com a natureza, colocada como pressuposto objetivo da socialização pelo capital, Mészáros coloca que: Os movimentos de questão única, mesmo quando lutam por causas não integráveis, podem ser derrotados e marginalizados um a um, porque não podem alegar estar representando uma alternativa coerente e abrangente à ordem dada como modo de controle sociometabólico e sistema de reprodução social. Isto é o que faz o enfoque no potencial emancipador socialista do trabalho mais importante hoje do que nunca. (MÉSZÁROS, 2011, p. 96). Tomemos como exemplo a organização Greenpeace. Fundada em 1971 no Canadá e hoje tendo se espalhado para o mundo todo, é uma Organização Não-Governamental (ONG) que mobiliza milhares de ativistas e tem como pauta única a preservação ambiental. É famosa por suas lutas contra o desenvolvimento nuclear, a caça de baleias e o desmatamento na floresta amazônica, sendo suas intervenções sempre sob a perspectiva da não-violência e da responsabilidade pessoal. Partindo de uma lógica que apela para a individualização e a personificação da proposta resolutiva à latente catástrofe ambiental que caracteriza o nosso século, essa forma organizacional de pauta única propõe combater a exploração desenfreada da natureza ao lutar apenas contra alguns empresários e latifundiários — as personificações do capital que se apresentam a partir das práticas mais predatórias e destrutivas. De acordo com essa proposta, de cunho moralizante, alguns donos de grandes negócios personificados deteriam caráter questionável, visando ao “lucro” em detrimento da preservação ambiental — e, assim, a organização justificaria sua existência, sem quaisquer questionamentos à estrutura da produção e da centralidade em que se coloca o trabalho, deslocando a culpa do problema ambiental para alguns indivíduos isoladamente (Cf. MARX, 2010). Colocam, assim, uma responsabilidade de cunho moral nas mãos de cada pessoa, ignorando as determinações constitutivas do processo de produção da realidade, que objetiva os próprios interesses subjetivos de maneira concretamente antagônica. Não pretendemos, aqui, avaliar de forma minuciosa as diversas atuações da organização, mas tão somente trazê-la como uma referência de organização de pauta única que acaba propondo uma “solução” ambientalista a partir de pressupostos burgueses que representam muito bem o que Mészáros critica na obra em análise. O próprio autor traz também outro exemplo de solução apologética: o banimento do CFC (clorofluorcarboneto) que foi determinado pelo Protocolo de Montreal em 1987 como combate à destruição da camada de ozônio. Colocada como uma fachada de preocupação ambiental, a luta dos governos de diversos países do mundo contra o uso do CFC não passava de uma hipocrisia, sendo que a substituição deste gás por outros “traria rápidos negócios e lucros maximizados a algumas companhias transnacionais da química, como a ICI inglesa” (MÉSZÁROS, 2011, p. 222). Outra analogia foi feita a partir de uma análise que perpassa a agenda de “desenvolvimento sustentável” da Conferência Eco-92, que impôs limites de desenvolvimento industrial aos países emergentes, “medidas corretivas” que estão claramente subordinadas ao interesse do capital e “à perpetuação de relações de poder e interesses globais estabelecidos”, sob uma fachada de luta ambientalista. Mészáros completa: Causalidade e tempo devem ser tratados como brinquedos dos interesses capitalistas dominantes, não importando a gravidade dos riscos implícitos. O futuro está implacável e irresponsavelmente confinado ao horizonte muito estreito das expectativas de lucro imediato. Ao mesmo tempo, a dimensão causal das condições mais essenciais da sobrevivência humana é perigosamente desconsiderada. Somente a manipulação retrospectiva da reação aos sintomas e efeitos é compatível com a permanência do domínio da causa sui do capital. (MÉSZÁROS, 2011, p. 223 - grifos nossos) Para o filósofo, os defensores do capital encontraram, então, no brado por um partido verde, mais uma forma de acalmar os angustiados defensores da preservação da natureza. Criou-se um eleitorado militante para os partidos de visão reformista que se colocavam com o selo da sustentabilidade, pretendendo atender às demandas ambientalistas de pauta única. No entanto, até mesmo a tentativa de qualquer reforma significativa no metabolismo homem-natureza, enquanto posta pelo capital, fracassou: O sistema do capital se mostrou impermeável à reforma, até mesmo de seu aspecto obviamente mais destrutivo. A dificuldade não está apenas no fato de os perigos inseparáveis do atual processo de desenvolvimento serem hoje muito maiores do que em qualquer outro momento, mas também no fato de o sistema do capital global ter atingido seu zênite contraditório de maturação e saturação. Os perigos agora se estendem por todo o planeta; consequentemente, a urgência de soluções para eles, antes que seja tarde demais, é especialmente severa. Para agravar a situação, tudo se torna mais complicado pela inviabilidade de soluções parciais para o problema a ser enfrentado. Assim, nenhuma “questão única” pode, realisticamente, ser considerada a “única questão”. Mesmo sem considerar outros efeitos, esta circunstância obrigatoriamente chama atenção para a desconcertante marginalização do movimento verde, em cujo sucesso se depositaram tantas esperanças nos últimos tempos, mesmo entre antigos socialistas. (MÉSZÁROS, 2011, p. 95 - grifos nossos). O capital, enquanto potência estranhada sob a sombra da incontrolabilidade, teve que recorrer, então, ao fortalecimento do que Mészáros denomina como mediações de segunda ordem, as quais “se interpõem, como ‘mediações’, em última análise destrutiva da ‘mediação primária’, entre os seres humanos e as condições vitais para a sua reprodução, a natureza” (MÉSZÁROS, 2011, p. 179). Em Para além do capital elas podem ser resumidas, basicamente, em seis grupos principais: a família nuclear; os meios alienados de produção e suas “personificações”; os objetivos fetichistas da produção; o trabalho, estruturalmente separado da possibilidade de controle; as variedades de formação do Estado do capital no cenário global; e o incontrolável mercado mundial (MÉSZÁROS, 2011, p. 180). (16) Enquanto “uma parte da natureza que deve satisfazer suas necessidades elementares por meio de um constante intercâmbio com a natureza” (MÉSZÁROS, 2011, p. 212), é necessário aos seres humanos reconhecer a inevitabilidade de se construir uma nova base de interação objetiva. Ao reforçar as mediações de segunda ordem (a partir dos pressupostos estranhados que se apresentam essencialmente à especificidade da reprodução sociometabólica do capital) para parecer que as mediações de primeiro grau — isto é, aquelas que trazem de fato interações objetivas essenciais à sociabilidade humana como tal, tendo a determinação ontológica fundamental se efetivando na relação entre o homem e a natureza — não são, de fato, a raiz de toda a destruição, o colapso ambiental apenas se intensifica (fator que os “ambientalistas” que atuam no campo da política, do direito e do Estado parecem não perceber). Nosso autor aponta: Em consequência dessas condições e determinações ontológicas, os indivíduos humanos devem sempre atender às inevitáveis exigências materiais e culturais de sua sobrevivência por meio das indispensáveis funções primárias de mediação entre si e com a natureza de modo geral. Isto significa assegurar e salvaguardar as condições objetivas de sua reprodução produtiva sob circunstâncias que mudam inevitável e progressivamente, sob a influência de sua própria intervenção através da atividade produtora – a ontologia unicamente humana do trabalho – na ordem original da natureza, que só será possível se envolver plenamente todas as facetas da reprodução humana produtiva e a complexa dialética do trabalho e da história da reprodução autoprodutiva. (MÉSZÁROS, 2011, p. 212) Aqui, portanto, Mészáros reforça a importância de serem analisadas as mediações primárias da relação homem-natureza como determinações objetivas que impõem exigências aos indivíduos (que não podem, então, ser colocadas no campo de um interesse subjetivado), apesar de aparecerem socialmente suprimidas pelas de segundo grau. O vínculo do ser humano com a natureza, centrado no trabalho enquanto atividade produtora, aparece de modo inverso quando postas na sociedade do capital, levando organizações como o Greenpeace (e pactos governamentais como o Protocolo de Montreal e a agenda de sustentabilidade do Eco-92) a ficarem no campo das aparências, propondo reformas dentro do âmbito de algumas destas mediações (tal como o Estado moderno). No entanto, o que o autor defende é que justamente a única maneira de solucionar os problemas ambientais é perpassando as mediações de primeira ordem, transformando essencialmente a relação homem-natureza que vive hoje sob a égide da incontrolabilidade destrutiva do capital. Assim, não há como escapar do imperativo de estabelecer relacionamentos estruturais fundamentais pelos quais as funções vitais da mediação primária sejam exercidas enquanto a humanidade sobreviver. Paradoxalmente, o círculo vicioso das mediações de segunda ordem do capital é grandemente reforçado porque suas principais formas historicamente evoluídas (discutidas na seção 4.2.1) estão todas ligadas (ainda que de maneira alienada) a alguma mediação primária ou de primeira ordem da atividade básica produtiva/reprodutiva – fato esse perigosamente ignorado pelos socialistas. (MÉSZÁROS, 2011, p. 212) A única saída possível frente à incontrolável destruição do sistema pautado no capital é a alternativa socialista. No entanto, é preciso que os marxistas aprendam com os erros do passado e se atenham à urgência e à necessidade de se abordar a pauta ambiental como parte integrante e essencial da luta contra o capitalismo — e não em sua dissociabilidade do marxismo, tal como os apologistas da ciência burguesa a propõem. É mais que necessário que se reconheça a urgência da transformação da relação homem-natureza por meio de uma mudança radical na forma de produção e reprodução da vida que temos hoje. Ao contrário do que nos aparece de imediato, o sistema do capital não é capaz de ser controlado, nem pelo Estado (que é, em verdade, parte — movente e movida — da estrutura do capital), nem pelas suas superestruturas jurídica e política, e tampouco pelas personificações do capital - que são colocadas por Mészáros enquanto determinantes determinados dentro da nossa forma de sociabilidade (cf. MÉSZÁROS, 2011, p. 139). As mediações de segunda ordem alteram as fontes primárias de modo a torná-las quase irreconhecíveis, “para adequar-se às necessidades expansionistas de um sistema fetichista e alienante de controle sociometabólico” (MÉSZÁROS, 2011, p. 213). E para mudá-las não se pode recair em romantismo que idealiza a condição do homem em seu chamado “estado natural” (cf. MÉSZÁROS, 2011, p. 214). É dever de um projeto socialista retomar o controle da produção e reprodução às mãos dos indivíduos, estabelecendo “um conjunto coerente de mediações de segunda ordem, viáveis na prática e controladas racionalmente, não por certa misteriosa entidade impessoal como o ‘Espírito do Mundo’ e suas variantes, nem por um ‘coletivo’ místico, mas por indivíduos reais” (MÉSZÁROS, 2011, p. 215 - grifos nossos). NOTAS: 1. Mészáros começa seu trabalho apontando uma correlação das elaborações hegelianas sobre Filosofia da História e Fenomenologia do Espírito e as análises da anatomia da sociedade civil-burguesa, a economia política, por parte dos teóricos da burguesia, em especial seu pioneiro, Adam Smith (em sua concepção de capital permanente universal), e como elas trazem consigo um elemento abstrato não procedente, ou insuficiente, para a análise da realidade concreta da sociedade capitalista. Trazendo consigo a historicidade abstrata, Hegel invocaria o elemento racional da realidade, que se moveria, à imagem da mão invisível, de forma a potencializar as ações humanas para além de sua intencionalidade e que, na sociedade burguesa, o ganho qualitativo seria capaz de conciliar os interesses dos indivíduos, concretos, em abstrato (o fim da história), forma de pensamento superada pelas elaborações marxianas - cujos fundamentos e cujo legado são trazidos por Mészáros (cf. MÉSZÁROS, 2011, pp. 214-215). 2. Conforme elaboração de Mészáros, a temática da ativação dos limites absolutos se encontra mais vigorosamente desenvolvida no quinto capítulo do livro que tomaremos como base. Para análise mais detida, (cf. MÉSZÁROS, 2011, pp. 216-344). 3. Compreendendo a hegemonia do pensamento stalinista nas leituras marxistas do século XX, que remanesce até hoje - e para isso é necessário compreender o stalinismo para além da crítica à figura de Stalin em si, mas a partir das condições geradas por sucessivas decisões equivocadas do PCUS (LUKÁCS, 2008, p.106-123), em especial a proposta de socialismo em um só país, que obrigou a União Soviética a se submeter às competições por mercado em escala global a partir de determinações próprias do capital em sua lei do valor -, Mészáros dispõe, em crítica a quaisquer pressupostos que pretendam apontar a possibilidade de controle, em escala meramente nacional, a produção a partir de um formato organizacional pretensamente socialista: “Assim, em vez de remediar os defeitos produtivos do sistema do capital soviético pós-capitalista por meio de uma taxa politicamente imposta de produção, ele terminou com uma taxa de socialização da produção altamente forçada, que não poderia ser sustentada devido ao fracasso estrutural no controle do trabalho recalcitrante e também ao baixo nível de produtividade que a acompanhou. A implosão do sistema soviético ocorreu sob o peso inadministrável dessas contradições.” (MÉSZÁROS, 2011, p. 128). 4. Na obra Socialismo ou Barbárie, Mészáros também traz o fracasso do keynesianismo, base da constituição da social-democracia e que se apresenta, ainda hoje, como suposta alternativa de esquerda ao socialismo sem romper com as determinações do Capital: “(...) E quando finalmente se tornou claro que os truques keynesianos não seriam capazes de recriar os ‘milagres’ anteriores (ou seja, as condições descritas como ‘milagres’ por aqueles que à época ilogicamente acreditavam neles, não por seus adversários críticos), os antigos propagandistas da solução final keynesiana das imperfeições do capital simplesmente viraram a casaca e, sem o menor sinal de autocrítica, convidaram todos os que ainda não haviam atingido seu próprio grau de esclarecimento transcendental a acordar de seu sono para dar ao velho herói um enterro decente” (MÉSZÁROS, 2003, p.12). Esse fracasso, no entanto, foi ainda mais forte no que tange a propaganda de modernização dos países subdesenvolvidos, que sofrem as consequências mais profundas das contradições do capitalismo imperialista, chamando atenção para um “defeito estrutural fundamental de todo o sistema” (MÉSZÁROS, 2003, p.13) 5. Escolhemos aqui as elaborações de Mészáros, preferindo não travar um embate às posições acerca da questão ambiental consagradas em outras tradições marxistas, devido ao estudo aprofundado e sistematizado disseminados com mais frequência em produções dessas tradições em comparação à que buscamos trazer. Acreditamos ser necessário um aprofundamento mediado da compreensão do húngaro sobre colapso ambiental para que se possa, mais rigorosamente, trazê-lo frente a elaborações como as de Michael Löwy - em sua formulação utopia ética (enquanto “não-lugar”) à qual se efetivariam as construções de uma sociedade ecossocialista (LÖWY, 2014) -; e as talvez mais bem elaboradas de John Bellamy Foster, em seu esforço na construção de uma ecologia marxiana, se debruçando mais atentamente sobre os textos do próprio Marx na tentativa de trazer, mesmo que de forma mais apologética por vezes (FOSTER, 2000, p. 164), a concepção do renano como pioneiro do pensamento sobre ecologia (FOSTER, 2000). Assim, propõe-se trazer Mészáros enquanto uma forma de pensamento original que, levando consigo o legado marxiano, mas ao mesmo tempo compreendendo as determinações específicas de nossa época, é capaz de propor uma alternativa concreta que permita a construção de uma sociedade de indivíduos emancipados - não a partir de uma ideia a ser alcançada e efetivada idealisticamente, mas a partir da própria sociedade capitalista, com suas contradições e potencialidades. 6. Referenciando as seguintes palavras de Marx n’O 18 de Brumário de Luís Bonaparte: “Não é do passado, mas unicamente do futuro, que a revolução social do século XIX pode colher a sua poesia. Ela não pode começar a dedicar-se a si mesma antes de ter despido toda a superstição que a prende ao passado.” (MARX, 2011b, p. 28). 7. Como mostra Vitor Sartori, apesar de o direcionamento dessa produção chasiniana ser direcionada ao estudo rigoroso dos textos marxianos, ela não se restringe apenas a este tipo de esforço. Em suas palavras: “A abordagem marcada pela análise imanente justifica-se porque, com ela, é a partir do próprio texto (...) que emergem as determinações de seu pensamento. (...) Assim, a análise imanente chasiniana (que tem suas raízes nas pesquisas de Lukács da Destruição da Razão) constitui um passo necessário no entendimento de obras, artigos, e contribuições de autores importantes” (SARTORI, 2020, p. 3). 8. “As revoluções anteriores tiveram de recorrer a memórias históricas para se insensibilizar em relação ao seu próprio conteúdo. A revolução do século XIX precisa deixar que os mortos enterrem os seus mortos para chegar ao seu próprio conteúdo. Naquelas, a fraseologia superou o conteúdo, nesta, o conteúdo supera a fraseologia” (MARX, 2011b, p. 28-29) 9. Mészáros traz à tona precisamente o fracasso das experiências socialistas do século XX (ou, em suas palavras, pós-capitalistas) na tentativa de se remeter para além dos pressupostos mais fundamentais da sociabilidade capitalista. Ele dirá como, ao adotar em seus programas o reconhecimento de práticas impotentes no processo de emancipação humana (como o socialismo em um só país), os Partidos Comunistas não superaram a ordem do capital, mesmo que tenham se apresentado como uma via específica de organização produtiva que não se pode propriamente se chamar de capitalista, precisamente por não superarem os elementos essenciais à produção mercantil (MÉSZÁROS, 2011, p. 180), não se encontrando em capacidades de superar, sequer a longo prazo, o estranhamentos que envolve a sociabilidade humana. Neste sentido (e isso será desenvolvido melhor ao longo do trabalho), da mesma forma que os países capitalistas, eles próprios trazem consigo a negação do futuro - não em abstrato, que reconhecem um futuro idílico, mas impotente, de horizonte emancipatório, mas concreto, em um estado de emergência que se apresenta inerte dentro de qualquer possibilidade de dar um passo à frente. (MÉSZÁROS, 2011, pp. 140-141, rodapé 10). 10. Na campanha lançada pelo Financial Times em 16 de setembro de 2019, a revista, grande referência de comunicação ideológica da burguesia, clama por um recomeço do capitalismo, reconhecendo as crises recentes, cada vez mais sucessivas, que podem levar a um colapso social que já é iminente. Cada vez mais se clama por um capitalismo mais consciente, racional, sustentável e perene, com um forte apelo à ética, sem perceber que essas tentativas reafirmam sua determinação negativa e carregam consigo a percepção do caráter irreconciliável das contradições basilares da constituição do sociometabolismo do capital, presente nas bases fundamentais dessa forma de sociabilidade e expressa na incapacidade de controle em sua própria essência, que a coloca necessariamente enquanto potência destrutiva. Cf. FINANCIAL TIMES. Financial Times sets the agenda with a new brand platform. 11. Nas palavras de Mészáros: “A lógica inerente ao sistema do capital piora progressivamente essa contradição, em vez de ajudar a resolvê-la. Para as empresas que operam segundo a lógica do capital, a única forma de melhorar as oportunidades de controle é aumentar constantemente sua escala de operação – o que torna a expansão do capital uma exigência absoluta –, não importa o quanto sejam destrutivas em termos globais as consequências da utilização voraz dos recursos disponíveis (para os quais as empresas privadas não têm medidas nem preocupações).” (MÉSZÁROS, 2011, p. 258). 12. Aqui, corrobora-se com a posição de José Chasin no que tange o necessário cuidado a se tomar com a identidade entre crise e catástrofe, bem como aquela entre contradição e autodestruição. (CHASIN, 2000, pp. 76-77). 13. Aqui é importante ressaltar o esvaziamento da postura revolucionária, propositiva - não apenas da esquerda mobilizada, mas também do pensamento marxiano - de grupos socialistas (em especial os de países periféricos), como os cepalinos, como a analítica paulista etc., que trazem consigo enquanto central o desenvolvimento nacional não apenas enquanto movimento anti-imperialista, mas como garantidor de uma soberania nacional que permitiria o Estado, a partir daí, conciliar propriamente os antagonismos sociais. (Cf. CHASIN, 1989). 14. Mészáros ironiza esse termo ao longo de Para Além do Capital, retratando como aqueles que dizem se preocupar com o assim chamado mundo real, com o pragmatismo, tendem a ser aqueles que se prendem ao idealismo em seus discursos conciliatórios, sejam os liberais com seu grito de guerra, “there is no alternative!”, sejam os stalinistas com sua postura defensiva de exaltação ao “socialismo realmente existente”. (MÉSZÁROS, 2011, pp. 21-33) 15. Para conferir melhor essa leitura da compreensão da economia no processo de reprodução social, ela é referenciada a partir de elaborações presentes de forma mais sistematizada nos Grundrisse, manuscritos preparatórios para o Capital (MARX, 2011a), que influenciaram a leitura de filósofos no século XX como György Lukács, em Para uma ontologia do ser social (LUKÁCS, 2013), e, tomando sua influência na análise dos textos marxianos como ponto de partida, José Chasin, no seu já citado Estatuto (CHASIN, 2009). 16. Não pretendemos, neste trabalho, abraçar a tarefa de analisar de forma mais aprofundada o caráter de cada uma dessas mediações conforme o desenvolvimento de Mészáros, apenas realizar um breve apontamento acerca da importância delas enquanto elementos ativos no processo de reprodução de uma forma de vida estranhada. Para melhor compreensão destes elementos específicos (cf. MÉSZÁROS, 2011, pp. 175-215). REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: CHASIN, José. A sucessão na crise e a crise na esquerda. São Paulo: Ensaio; n. 17/18, 1989. _____. Marx: Estatuto Ontológico e Resolução Metodológica. São Paulo: Boitempo, 2009. _____. Marx, hoje: da razão do mundo ao mundo sem razão. In: Nova Escrita Ensaio. Ano XV, n° 11/12. Edição Especial. São Paulo: Editora e Livraria Escrita, 1983. _____. Rota e prospectiva de um projeto marxista. In. Ensaios Ad Hominem - N. 1, Tomo III – Política (2000). São Paulo: Estudos e Edições Ad Hominem, 2000. FOSTER, John B. Marx’s Ecology. New York: Monthly Review Press, 2000. HEGEL, G. W. F. Lecciones sobre la filosofía de la historia universal (Trad. José Gaos). Madrid: Revista de Occidente, 1974. LÖWY, Michael. O que é o ecossocialismo? São Paulo: Cortez, 2014. LUKÁCS, Georg. El asalto a la razón (Trad. Wenceslao Roces). Ciudad de México: Fondo de Cultura Económica, 1959. _____. Para uma ontologia do ser social (Tradução de Nélio Schneider, Ivo Tonet e Ronaldo Vielmi Fortes). São Paulo: Boitempo, 2013 _____. Socialismo e democratização: escritos políticos 1956-1971 (Tradução de Carlos Nelson Coutinho e José Paulo Netto). Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2008. MARX, Karl. As lutas de classes na França de 1848 a 1850 (Tradução de Nélio Schneider). São Paulo: Boitempo, 2012 _____. Crítica da filosofia do direito de Hegel – Introdução. In: Crítica da filosofia do Direito de Hegel (Tradução de Leonardo de Deus) São Paulo: Boitempo, 2013. _____. Grundrisse (Tradução de Mário Duayer e Nélio Schneider). São Paulo: Boitempo, 2011a. _____. Manuscritos econômico-filosóficos (Tradução de Jesus Ranieri). São Paulo: Boitempo, 2004. _____. O 18 de Brumário de Luís Bonaparte (Tradução de Nélio Schneider). São Paulo: Boitempo, 2011b. _____. Sobre a questão judaica (Tradução de Nélio Schneider). São Paulo: Boitempo, 2010. MÉSZÁROS, István. Para Além do Capital (Tradução de Paulo César Castanheira e Sérgio Lessa). São Paulo: Boitempo, 2011. ____. Socialismo ou Barbárie? (Tradução: Paulo Cezar Castanheira). São Paulo: Boitempo, 2003. SARTORI, Vitor Bartoletti. Política, gênero humano e direitos humanos na formação do pensamento de Karl Marx. Rio de Janeiro: Revista Direito e Práxis, Ahead of print, 2020.

  • Minhas razões contra a Barravento ou Os problemas da produção periodista da esquerda

    por Débora Mattos Imagem: Capa de uma edição da Alternativa. Um dia, em 1977, a revista Alternativa decidiu fazer uma pausa para balanço. Em seguida, Gabriel García Márquez - seu fundador e contribuinte - publicou uma crônica com algumas reflexões sobre ela. Espero, com este texto, fazer algo próximo a isso. Não são poucas as iniciativas de produção teórica e jornalística independente de esquerda. Nossa revista é um exemplo entre muitos e parte de nossos leitores também compõem o grupo de pessoas que se preocupam em produzir material de estudo, análise, divulgação e debate. No entanto, durante os poucos meses em que a Barravento está em circulação, desafios já previstos puderam ser compreendidos de forma prática. Dedico este texto a fazer reflexões sobre eles. De início, é plausível pensar que muitos dos problemas que esse tipo de publicação enfrenta são problemas de nosso tempo, frutos da nova dinâmica da comunicação e de sua velocidade cada vez mais acelerada, essa ponderação tem seu lugar, mas, aqui, retorno à uma crônica escrita em 1977 por Gabriel García Márquez para a revista Alternativa, que discute problemas que ainda nos assolam, mostrando que questões antigas permanecem e ainda se embaraçam com as formas atuais de comunicação. A revista Alternativa foi fundada em Bogotá por Gabriel García Márquez, Bernardo García, Enrique Santos Calderón, Antonio Caballero Holguín e Orlando Fals Borda, em 1974. Esse corpo editorial - que compreendia um espectro político relativamente amplo - tinha o objetivo de criar um revista de esquerda, com jornalismo sério de profunda apuração e refinado acabamento literário. Como muitos grupos de publicação e estudo, ela sofreu algumas fissões ao longo de sua breve história, chegando ao fim em 1980, após 257 edições. Durante esse período, ela passou por hiatos e sua publicação foi em tempos quinzenal, em outros semanal. A crônica em questão é Minhas duas razões contra esta revista, publicada em maio de 1977, na primeira edição da Alternativa após o recesso para sua reformulação. Logo de início, García Márquez expõe alguns dos problemas do periódico ao afirmar que o hiato de publicações serviu para que perdessem menos dinheiro e trabalhassem menos, mas que também serviu para que algumas reflexões fossem possíveis. As duas razões de Gabo contra a revista, da qual foi fundador e era colaborador permanente, eram sua periodicidade e seu preço. No momento em que a crônica foi escrita, a Alternativa era um periódico semanal. A partir disso, ele expõe os problemas de se fidelizar público com uma revista cara e que possuía intervalos de publicação de uma semana, de forma que os leitores mais assíduos adicionavam ao seu cotidiano os grandes jornais - apoiados pelo governo e patrocinados por grandes empresas - que teriam estrutura para produzir e publicar textos diários. Mas talvez seja apenas o lapso de uma semana é um desafio descomunal para a histórica falta de memória dos colombianos: quando chega o sábado os leitores já esqueceram do que foi sua revista favorita no sábado anterior, de maneira que esta tem que conquistar cada semana uma clientela nova que sequer lembrava de ter sido a mesa clientela fugitiva da semana anterior. (GARCÍA MÁRQUEZ, 2018, p. 26) Debatendo a fidelização do público leitor de revistas, Márquez chega às grandes publicações, de altos números de impressão na Colômbia e afirma que até mesmo essas, que ele diz terem em suas mãos "todos os poderes do poder", têm suas dificuldades de manter seus leitores, produzir em uma periodicidade desejada e fugir da falência. Esses problemas também são a realidade de grandes editoras no Brasil na atualidade que, por mais mesquinhas e sem escrúpulos que sejam para seleção de seus patrocinadores, pautas e abordagem, por menos que se importem com a apuração e a verdade, também têm a redução de publicações e a falência batendo em suas portas. A revista tem sido um gênero infeliz na Colômbia. Todas, de qualquer espécie, tiveram o destino dos amores de verão e dos ministros da Educação: intenso e fugaz. A única que resistiu mais de sessenta anos aos acasos dos salões de beleza e aos infartos fulminantes das trocas de proprietários parece mais uma advertência de Deus para castigo de ingênuos e temerários. Talvez nós colombianos não saibamos fazer revistas. Talvez não saibamos lê-las. (GARCÍA MÁRQUEZ, 2018, p. 26) No último mês do ano passado, a Editora Abril, responsável pela publicação das revistas Veja, Superinteressante, Claudia, Piauí, entre outras, teve que desocupar seu histórico prédio, construído para ela em 1968. A venda do prédio aconteceu em um leilão, que tinha como objetivo o pagamento de uma dívida, em que a marca Veja e o edifício tinham sido dados como garantia de pagamento, tão grave é a situação da editora. Diante de notícias como essa, é possível pensar que o espaço de uma semana entre as publicações tem parecido cada vez mais longo para parte dos leitores, que a internet está reduzindo o público do jornalismo impresso, ou então - o que seria realmente grave - que as pessoas estão deixando de se informar através da leitura. Por mais que, no início do texto, tenha afirmado que os problemas do periodismo de esquerda que enfrentamos não se deve às novas formas de comunicação, seria um grande erro não considerar essas mudanças ao analisar algumas das questões tratadas aqui. Esse é o caso do ponto em que Gabo discorre sobre a dificuldade de se fidelizar público lançando somente uma vez por semana, enquanto que outro veículo, com publicações mais constantes, conquistaria esse público. Portanto, devemos considerar que com o enorme fluxo de informação e com a grande velocidade de disseminação, provocados pelo avanço dos novas formas de comunicação, esse desafio se torna ainda maior. É aqui que a segunda razão de García Márquez contra sua revista se encontra com a primeira. Quando debate o preço de sua revista, o escritor afirma que o valor seria muito caro para seu público desejado e que, mesmo assim, muitas vezes a revista gerava prejuízos. A proposta da Alternativa, de ser uma revista independente e de esquerda, praticamente anulou suas possibilidades de anúncios e patrocinadores, ela também não possuía uma organização ou partido político por trás, fazendo com que seu financiamento fosse feito exclusivamente por seus leitores. A consequência dessa forma de manutenção foram cópias muito caras para as massas trabalhadoras, que eram o público que Gabo afirmou ser o desejado pelo corpo editorial. Sem grandes anúncios - que desejamos mas que ninguém nos daria -, sem um partido político que nos sustente, nem um centro mundial de poder que nos mantenha, nem uma agência central de inteligência que nos subsidie para depois poder contar para todos, o preço de capa desta revista órfã de pai e mãe não pode ser menor e a amarga verdade, doa a quem doer, é que os leitores com possibilidade de gastar vinte pesos não são os que mais nos interessam. Portanto queremos atingir um público e na realidade chegamos a outro. Fazemos uma revista para pobres que muitos pobres não podem comprar. Tentamos criar uma consciência popular, mas à nossa clientela mais acessível interessa menos a justiça social do que as férias em Miami. (GARCÍA MÁRQUEZ, 2018, p. 27) A respeito do público leitor, é necessário diferenciar o que García Márquez afirmava ser o desejado por sua revista e o que grande parte das iniciativas independentes de esquerda na internet buscam, para que, assim, seja possível compreender as dificuldades de alcançar os leitores esperados por grande parte das publicações independentes presentes na web. Enquanto a Alternativa buscava chegar às massas de trabalhadores - público que também é o desejado por grande parte dos jornais de partidos e organizações políticas -, as iniciativas independentes da internet costumam ser voltadas às vanguardas, onde grande parte dos debates ocorrem, ou à jovens que buscam introdução nas principais discussões da esquerda. A proximidade do público almejado pela Alternativa e pelos jornais ligados a organizações políticas - que os mantêm - e que, assim como ela, são jornais impressos, facilita algumas investigações necessárias sobre esses jornais. Há de se estudar as razões para que estes não penetrem as massas e, para isso, as reflexões colocadas por Gabriel García Márquez podem contribuir em alguns pontos. Para essa discussão é preciso considerar os problemas financeiros dos partidos políticos de esquerda no Brasil, a periodicidade desses jornais, suas linguagens e temáticas, o que não é nosso objetivo aqui, e renderia um novo texto. Quanto às publicações na internet, tem de se considerar que a delimitação e o alcance de um grupo específico de leitores é consideravelmente difícil, dependendo muito de estratégias de marketing digital, domínio do uso das redes sociais, compreensão dos mais essenciais temas a serem levantados, entre outros aspectos que devem ser avaliados. Essas condições necessárias para alcance de público específico dependem de uma profissionalização que é, na maior parte das vezes, impraticável. Dessa forma, é indiscutível não só a dificuldade de se alcançar um público específico, mas também de conquistar leitores assíduos de forma geral. Ainda que se considere suas diferenciações, é possível um paralelo entre os periódicos independentes da web e o problema levantado por Gabo sobre o financiamento de revistas. Partindo do princípio de que, com a internet, não é preciso uma grande estrutura para impressão, ou, obrigatoriamente, de uma sede para redação, essas publicações seriam mais fáceis de se manter. No entanto, é preciso recordar que um dos principais desafios é conseguir publicar com a maior frequência possível para se fidelizar um público leitor. Isso acarreta na demanda de um maior número de produções, de mais tempo dedicado à escrita. Na internet, a possibilidade de retorno financeiro para que se crie uma estrutura que permita uma publicação mais constante é ainda mais estreita e, nela, os textos estão envolvidos em um universo de uma grande quantidade de produções e em uma lógica de maior velocidade de veiculação. Também é essencial ressaltar que grande parte das iniciativas de periodismo, como a de nossa revista, são independentes e surgem da mais pura vontade e necessidade de produzir textos que discutam os temas considerados cruciais para a esquerda na visão de seus escritores. Assim, esse trabalho é iniciado sem nenhuma estrutura inicial e sem perspectiva - ou mesmo intenção - de que, ainda que no futuro, ele gere retorno financeiro para que essa se torne uma atividade profissional que possibilite uma dedicação exclusiva que garanta uma maior periodicidade. Dessa forma, o aumento de redatores se torna uma dos poucos caminhos financeiramente viáveis para sua maior produção, mesmo que acarrete em novos problemas, como a expansão do espectro político do periódico. Trata-se de um texto com muitas perguntas e poucas respostas. Os problemas estão postos e se complexificam a cada dia. As respostas, porém, só podem vir do avanço da produção dos periódicos que, por mais que sejam numerosos, ainda estão muito atrasados em relação ao espaço que representam na internet e ao domínio das ferramentas necessárias para disseminação. Um caminho pode começar a ser considerado, a segmentação e adaptação de cada veículo à uma parte do público prioritário. Talvez os jornais de partidos consigam, com um maior número de publicações, avançar no alcance das massas. Quanto aos blogs e portais independentes, talvez o maior desafio seja compreender quais são as temáticas mais essenciais a serem trabalhadas, para, assim, ampliar seu alcance, ou, ao menos, gerar conteúdo relevante aos poucos que atingem. Não pretendo traçar soluções simplificadoras, mas sim pontuar nossos principais problemas: periodicidade, financiamento, alcance de público alvo, escolha cuidadosa de seu conteúdo e sobrecarga de trabalho; todos eles já sistematizados por Gabo em 1977, mas que persistem e se enredam nas novas formas de comunicação. A nós, resta compreendê-los e nos adaptarmos.

  • Má-sorte: Ideologia das catástrofes

    Imagem: DÜRER, Albrecht. Apocalipse: adoração do cordeiro e hino dos eleitos. 1496-1498. Xilogravura. Mais um ano se inicia com catástrofes naturais estampando os jornais. Este recém-chegado 2022 já conta com milhares de famílias desabrigadas em razão das chuvas; suas casas tomadas pelas enchentes ou soterradas por deslizamentos nas encostas. A moderna meteorologia de institutos como o Climatempo, e até da Defesa Civil, permite uma previsibilidade de catástrofes como essas com até quinze dias de antecedência (1). Os gestores do capital, porém, se adiantam ideologicamente em sua apologia velada: ora, que podem fazer frente às forças caóticas e incontroláveis da natureza quando, em todos os anos, são enfrentados problemas obscuramente semelhantes em períodos misteriosamente iguais? Enxugar as ruas com mortalhas e aos sobreviventes deixar que sejam livres como mandam seus deuses, assim terão a capacidade de se recompor em meio à ascensão dos preços das necessidades básicas de consumo, podem, inclusive, trilhar grande carreira militar no exército de famélicos que recruta com avidez singular em nossa história recente. A palavra de ordem do momento é má-sorte. Ora, parece injusto tratar o discurso adversário com tamanha simplicidade; mas se trata precisamente do termo utilizado pelo Sr. Schymura na primeira coluna da primeira edição do Valor Econômico deste mês. O renomado pesquisador do FGV Ibre externaliza suas exímias reflexões em meio tão relevante acerca dos últimos anos de caos, ou “[nova] década perdida” como consentiram os ideólogos do capital em meados de 2020 (cláusula esta que assina o colunista). O Sr. Schymura se preocupa com a má-sorte da economia brasileira de enfrentar, em momento de “fim do superciclo das commodities” um extenso período de estiagem, seguido da pandemia de Covid-19, acrescentando, no ápice de sua brilhanteza, a dificuldade de neutralizar uma onda de má-sorte no Brasil que, em meio à tamanha má-sorte, ainda se dá ao luxo de tomar decisões políticas questionáveis. Inauguremos, pois, extensas monoculturas de trevos-de-quatro-folhas e decepemos os pés de todos os coelhos! Os Ilustríssimos Porta-Vozes do Capital parecem encarar com tamanha tranquilidade seus “adversários”, de fato. Sequer parece ser necessário justificar tamanha deterioração nas condições de vida dos brasileiros; não enxergam ameaça ou obstáculo em seu horizonte, caminhando a passos largos para o abismo. Se a humanidade coloca em xeque sua própria condição de existência ao transformar o planeta de forma tão caótica e destrutiva, há de se falar que esta é a única forma de desenvolvimento social possível. Daí segue toda forma de apriorismo dos apologetas da burguesia: seja a inconciliabilidade das contradições sociais e suas respectivas tensões, afinal, chegamos na forma mais acabada de sociedade, onde sua atenuação se coloca no máximo do alcançável – pregando desesperadamente o desenvolvimento capitalista sustentável™ como última carta na manga; seja o reconhecimento da contradição externa, em conjunto à resignação frente à “inescapável essência humana”. Em qualquer das opções, os ideólogos do capital, ou, como são popularmente conhecidos, os especialistas, necessitam de negar todo o desenvolvimento histórico humano. Ora, a história humana é precisamente a progressiva superação de barreiras naturais. Em potência, a humanidade já criou formas possíveis de, ao invés de ser dominada pelas forças da natureza, tê-las como aliadas no desenvolvimento. O homem não existe senão objetivamente, a natureza não pode ser vista como uma inimiga com a qual é preciso travar batalhas perdidas, mas sim como uma condição de existência, podendo, ou não, ser aproveitada se bem investigada em suas próprias determinações. O Sr. Schymura, como os demais especialistas, necessita, no entanto, que toda a capacidade humana de antever, intervir e remediar os problemas vivenciados seja apagada face à conjuntura, de modo que reste não mais que seu cínico fatalismo como resolução. Se, a ferro e fogo, com o sangue e suor de homens e mulheres sacrificados para investigar os meios naturais e, com isso, criar maneiras de controlá-los e utilizá-los a nosso proveito, a humanidade pôde ter a seu favor formas de superar as barreiras naturais, percebe-se que, no momento de evidente decadência desta forma de produção social, esta potencialidade serve meramente ao processo de reprodução ampliada do capital. Enquanto se discute a colonização de Marte, a vida de milhões passa por insegurança na Terra; enquanto se discute a mineração de asteroides, não há preocupação com a construção de barragem de rejeitos de mineração – esta, por sua vez, terrestre – que não tenha risco provável de ruptura. Se uma vez o velho mouro afirmou assertivamente que ao transformar a natureza o homem transforma a sua própria natureza, vê-se como esta transformação em meio às forças destrutivas capitalistas aviltam os homens a ponto de normalizar condições de vida cada vez mais degradadas e ameaçadoras, e a elas se habituar (2) – de forma que um elemento tão básico à existência humana, como é o ciclo de chuvas, é afetado a ponto de ser temido quando o novo ano dá suas não tão boas-vindas. Os apologetas do fim do mundo não se furtam de espalhar a palavra de seus deuses. Erguem templos ao deus mercado e à sua mão invisível, cultuando secretamente, nas catacumbas da Praça Antonio Prado, o Estado. Está formada a santíssima trindade! Fato é que a tão complexa categoria da “má-sorte” permite ao Sr. Schymura e ao Sr. Bráulio Borges (irmãos de fé e de cátedra) – bem como aos seus pares entorpecidos pela forma-dinheiro – negarem a ação humana em benefício destas forças supostamente autônomas, ora negando, em primeiro plano, a administração política do capital como atividade real que exercem junto ao comitê de negócios da burguesia, ora a afirmando como ação restringida senão por forças externas. A questão reside, porém, não na má-sorte – tampouco na Nova Matriz Econômica (NME), como afirmam os ditos opositores destes ideólogos nos corredores da FGV – senão nas limitações próprias da administração política e, portanto, na ação de classe dos agente da burguesia, bem como nas determinações próprias deste demiurgo cabisbaixo e renegado, mas cuja onipresença é inegável e reverenciada: o Estado. O comitê gestor dos negócios burgueses é pedra fundamental para a garantia dos lucros; frente às catástrofes a escolha é clara, independente da matiz ideológica que possa apresentar: a efetiva ação administrativa não é evitá-las, a menos que os estilhaços deste explosivo firam a jugular ou a coronária do mercado e de suas veias escorra todo o lucro. A mão invisível desceu dos céus e aos exímios apóstolos, lhes ensinou a falar em línguas, ordenando: “ide e fazei com que todos os povos da terra se tornem discípulos" (3). O Sr. Schymura não ignora, mas mistifica a relação fundamental entre o capital e as consecutivas tragédias, dentre as quais as que presenciamos. Ora, há de se autonomizar cada aspecto dos processos, visto que nada seriam dos negócios se não houvesse fiador confiável e não pode a administração política do capital dar respostas honestas às mortes causadas por sua atividade mesma. Assim, a negação destes meios se torna sua apologia indireta, reencenando anualmente a série de desgraças que assola, preferencialmente, aos trabalhadores e, coincidentemente, não afeta os lucros senão para ampliá-los no financiamento da reconstrução. Resta convencer aos mortos de que os sete palmos sob a lama em que foram enterrados se deram em prol de suas próprias vidas. Exumados, no entanto, talvez se lhe cobrem a devolução do dracma de Caronte. Notas Sobre a previsibilidade das catástrofes e a capacidade de antecedência, ver: https://brasil.estadao.com.br/blogs/estadao-podcasts/estadao-noticias-as-mortes-evitaveis-nas-tragedias-pelas-chuvas/ Por que nos diz tanto a célebre citação de Guimarães Rosa: “O correr da vida embrulha tudo. A vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem”? Por que viver é tão perigoso? Esta forma de compreender a vida cotidiana de nossos tempos é precisamente oriunda de uma condição de ausência de controle dos meios de produção de nossas próprias vidas. Mas, ainda assim, é uma condição própria de um período histórico, própria de uma sociabilidade fundada no estranhamento do homem frente à seu mundo, frente às suas condições, frente à natureza; condição esta capaz de ser superada, afinal, existe potencialidade de controle do que é tomado, apologética ou resignadamente, como essencialmente incontrolável. Mt 28, 19

  • Alemanha – I. Revolução e contrarrevolução, Friedrich Engels

    Tradução: Igor Dias Domingues de Souza Revisão: João Veloso Matos Iniciamos o ano de 2022 dando sequência à série de traduções do NYDT iniciada em 2021, dessa vez dando um passo atrás, prezando pela qualidade da tradução. O presente texto foi, em verdade, o primeiro de Engels para o jornal, ainda que esteja assinado por Marx (como confirma carta de 14 de agosto de 1851), e, em conjunto com outros 18 artigos compõe a coletânea “Revolução e Contrarrevolução na Alemanha”, já estando o 15° capítulo traduzido em nosso site. O escrito a seguir foi publicado na página 6 do número 3283, volume 11, edição de sábado, dia 25 de outubro de 1851. Neste trabalho, Engels trata de assentar as bases históricas da revolução alemã de março 1848, distinguindo as classes em cena e explanando o contexto político sobre o qual se desvelou. Uma boa leitura a todos! Igor Dias O primeiro ato do drama revolucionário no continente europeu foi concluído. Os "poderes destituídos" antes do furacão de 1848 são novamente os "poderes constituídos", e os governantes mais ou menos populares de um dia, governadores provisórios, triúnviros, ditadores com sua cauda de representantes, comissários civis, comissários militares, prefeitos, juízes, generais, oficiais e soldados são lançados em costas estrangeiras e "transportados além-mar" para a Inglaterra ou a América, para ali formar novos governos in partibus infidelium, comitês europeus, comitês centrais, comitês nacionais e anunciar seu advento com proclamações tão solenes quanto as de quaisquer potentados menos imaginários. Uma derrota mais significativa do que a sofrida pelo partido revolucionário continental – ou melhor, partidos – sobre todos os pontos da linha de batalha, não pode ser imaginada. Mas e daí? A luta das classes médias britânicas pela sua supremacia social e política não abrangeu quarenta e oito anos, e a das classes médias francesas quarenta anos, de lutas sem igual? E esteve alguma vez o seu triunfo mais próximo do que no preciso momento em que a monarquia restaurada se julgou mais estável do que nunca? Os tempos dessa superstição que atribuía as revoluções à má vontade de poucos já há muito passaram. Todos sabem, hoje em dia, que onde quer que haja uma convulsão revolucionária deve haver alguma vontade social de fundo, que é prevenida por instituições desgastadas de satisfazer-se. A vontade pode ainda não ser sentida tão fortemente, tão generalizada, de modo que possa assegurar sucesso imediato; mas cada tentativa de reprimi-la à força somente a produzirá cada vez mais forte, até que rebente seus grilhões. Se, então, fomos derrotados, não temos nada mais que fazer senão recomeçar do ponto de partida. E, felizmente, o intervalo, provavelmente muito curto, de descanso que nos é consentido entre o final do primeiro e o começo do segundo ato do movimento nos dá tempo para um trabalho muito necessário: o estudo das causas determinantes tanto da eclosão tardia como de sua derrota; causas que não podem ser procuradas nos esforços, talentos, faltas, erros ou traições acidentais de alguns dos dirigentes, mas no estado social geral e nas condições de existência de cada uma das nações convulsionadas. Que os movimentos repentinos de fevereiro e de março de 1848 não foram trabalho de sujeitos isolados, mas manifestações espontâneas e irresistíveis das vontades e necessidades nacionais, mais ou mais menos compreendidas claramente, mas muito distintamente sentidas por classes numerosas em cada país, é um fato reconhecido em toda parte; mas quando você inquire as causas dos sucessos contrarrevolucionários, você se depara por todos os lados com a resposta pronta de que foi Sr. Fulano ou Cidadão Beltrano que “traíram” o povo. Essa resposta pode ser muito verdadeira ou não, de acordo com as circunstâncias, mas sob nenhuma circunstância explica qualquer coisa – nem mesmo mostra como aconteceu de o “povo” se permitir ser traído. E que pouca chance tem um partido político cuja totalidade de seus recursos consiste no conhecimento do fato isolado de que o Cidadão Fulano de Tal não é confiável. A investigação e a exposição das causas, tanto da convulsão revolucionária como da sua supressão, são, além disso, de suprema importância, de um ponto de vista histórico. Todas estas querelas e recriminações mesquinhas – todas estas afirmações contraditórias de que foram [vítimas] Marrast ou Ledru Rollin ou Louis Blanc ou algum outro membro do governo provisório, ou o todos estes, que dirigiram a Revolução entre as rochas sobre as quais naufragou – de que interesse podem ser, que luz podem oferecer ao americano ou ao inglês que observaram todos estes vários movimentos de uma distância demasiado grande permitir que distinguisse quaisquer detalhes operacionais? Ninguém em sã consciência acreditará que onze homens, em sua maioria de capacidade muito indiferente seja para o bem ou para o mal, foram capazes de, em três meses, arruinar uma nação de trinta e seis milhões, a menos que esses trinta e seis milhões vissem tão pouco o caminho que estava à sua frente como aqueles onze. Mas como aconteceu que trinta e seis milhões foram imediatamente convocados a decidir por si mesmos qual caminho seguir, embora parcialmente tateando na escuridão do crepúsculo, e como então eles se perderam e seus antigos dirigentes foram autorizados por um momento a retornar à sua liderança, eis a questão. Se, portanto, tentamos apresentar aos leitores de The Tribune as causas que, enquanto determinantes da revolução alemã de 1848, conduziam, quase tão inevitavelmente, à sua repressão momentânea em 1849 e 1850, não se deve esperar que forneçamos uma história completa dos acontecimentos tal como se passaram naquele país. Acontecimentos posteriores e o juízo das gerações vindouras decidirão que porção dessa confusa massa de fatos aparentemente acidentais, incoerentes e incongruentes, deve fazer parte da história mundial. O tempo para tal tarefa ainda não chegou; temos de nos confinar nos limites do possível e ficar satisfeitos se pudermos encontrar causas racionais, baseadas em fatos inegáveis, para explicar os principais acontecimentos, as principais vicissitudes desse movimento, e para nos dar uma pista quanto à direção que a próxima — e talvez não muito distante — eclosão imprimirá ao povo alemão. E, primeiramente, qual era o estado da Alemanha diante da eclosão da revolução? A composição das diferentes classes do povo que formam a base de toda organização política era, na Alemanha, mais complicada do que em qualquer outro país. Ao mesmo tempo que na Inglaterra e na França o feudalismo foi completamente destruído, ou, pelo menos, reduzido, como no antigo país, a algumas formas insignificantes por uma classe média poderosa e rica, concentrada nas grandes cidades e particularmente na capital, a nobreza feudal manteve grande parte de seus antigos privilégios na Alemanha. O sistema feudal de propriedade prevalecia quase em toda a parte. Os senhores da terra tinham mesmo conservado a jurisdição sobre os seus arrendatários. Privados dos seus privilégios políticos, do direito de controlar os príncipes, tinham preservado quase toda a sua supremacia medieval sobre o campesinato dos seus domínios, assim como a sua isenção de impostos. O feudalismo era mais florescente em algumas localidades do que em outras, mas em parte alguma, a não ser na margem esquerda do Reno, estava inteiramente destruído. Esta nobreza feudal, então extremamente numerosa e em parte muito rica, era considerada, oficialmente, como o primeiro "estamento" no país. Ela fornecia os funcionários superiores do governo e comandava quase exclusivamente o exército. A burguesia da Alemanha não era de longe tão rica e concentrada como a de França ou de Inglaterra. As antigas manufaturas da Alemanha tinham sido destruídas pela introdução do vapor e a rápida expansão da supremacia das manufaturas inglesas; as manufaturas mais modernas, iniciadas sob o sistema continental napoleônico, estabelecidas em outras partes do país, não compensaram a perda das antigas, nem foram suficientes para criar um interesse manufatureiro suficiente para forçar suas demandas sobre o conhecimento de governos invejosos de toda a extensão de poder e riqueza não-nobre. Se a França manteve vitoriosamente as suas manufaturas de seda durante cinquenta anos de revoluções e guerras, a Alemanha, durante o mesmo período, perdeu quase completamente o seu antigo negócio de linho. Os distritos manufatureiros, além disso, eram poucos e muito distantes entre si; situados muito no interior e utilizando, majoritariamente, portos estrangeiros, holandeses ou belgas, para as suas importações e exportações, tinham pouco ou nenhum interesse em comum com as grandes cidades portuárias no mar do Norte e no Báltico; eram, acima de tudo, incapazes de criar grandes centros manufatureiros e de negócios, como Paris e Lyon, Londres e Manchester. As causas deste atraso das manufaturas alemãs eram múltiplas, mas duas serão suficientes para dar conta dele: a situação geográfica desfavorável do país, longe do Atlântico, que tinha se tornado a grande via para o comércio mundial, e as contínuas guerras em que a Alemanha esteve envolvida e que eram travadas no seu solo desde o século XVI até aos dias de hoje. Foi esta carência de número e, particularmente, de algo como um número concentrado, que impediu as classes médias alemãs de atingir aquela supremacia política de que a burguesia inglesa desfrutava desde 1688 e que a francesa conquistou em 1789. E, contudo, desde 1815, a riqueza, e com a riqueza a importância política, da classe média na Alemanha estava em contínuo crescimento. Os governos, embora relutantemente, eram compelidos a se inclinar, ao menos perante seus interesses materiais mais imediatos. Pode mesmo ser dito verdadeiramente que de 1815 a 1830, e de 1832 a 1840, cada partícula de influência política que, tendo sido permitida à classe média nas constituições dos Estados menores, lhes foi novamente arrancada durante os dois períodos de reação política supracitados, que cada uma dessas partículas foi compensada por uma vantagem um tanto mais prática que lhes foi permitida. Cada derrota política da classe média extraiu posteriormente uma vitória no campo da legislação comercial. E, certamente, a Tarifa Protetora Prussiana de 1818 e a formação do Zollverein valeram muito mais para os comerciantes e fabricantes da Alemanha do que o falso direito de expressar, nas câmaras de algum ducado diminuto, sua falta de confiança em ministros que riram de seus votos. Assim, com a riqueza crescente e o comércio ampliado, a burguesia logo chegou a um estágio em que viu o desenvolvimento de seus interesses mais importantes controlados pela constituição política do país; por sua divisão aleatória entre trinta e seis príncipes com tendências e caprichos conflitantes; pelos grilhões feudais sobre a agricultura e o comércio relacionado com ela; pela superintendência intrometida a que uma burocracia ignorante e presunçosa submeteu todas as suas transações. Ao mesmo tempo a extensão e a consolidação do Zollverein, a introdução geral da comunicação a vapor, a competição crescente no comércio interno, aproximaram as diferentes classes comerciais dos estados e das províncias, equalizaram seus interesses e centralizaram sua força. A consequência natural foi a passagem de toda a massa deles para o campo da oposição liberal, e a conquista do primeiro esforço sério da classe média alemã pelo poder político. Esta mudança pode ser datada de 1840, a partir do momento em que a burguesia prussiana assumiu a direção do movimento da classe média da Alemanha. Devemos, daqui em diante, tornar a esse movimento de oposição liberal de 1840 a 1847. A grande massa da nação, que não pertencia nem à nobreza nem à burguesia, era composta nas cidades pelas classes dos pequenos comerciantes e dos lojistas e pelos operários e, no campo, pelo campesinato. A classe dos pequenos comerciantes e dos lojistas é excessivamente numerosa na Alemanha, em consequência do limitado desenvolvimento que os grandes capitalistas e fabricantes tiveram como uma classe nesse país. Nas maiores cidades, ela forma quase a maioria dos habitantes; nas menores, predomina inteiramente, dada a ausência de concorrência ou influência mais rica. Esta classe, uma das mais importantes de todo o corpo político moderno e em todas as revoluções modernas, é ainda mais importante na Alemanha, onde, durante as lutas recentes, geralmente desempenhou o papel decisivo. A sua posição intermédia entre a classe dos grandes capitalistas, comerciantes e manufatureiros – a burguesia propriamente dita – e a classe proletária ou industrial determina o seu carácter. Aspirando à posição da primeira, o menor golpe adverso da fortuna deita abaixo os indivíduos desta classe para as fileiras da segunda. Nos países monárquicos e feudais, o costume da corte e da aristocracia torna-se necessária para a sua existência; a perda deste costume poderia arruinar uma grande parte dela. Nas cidades menores, uma guarnição militar, um governo de condado, um tribunal com a sua comitiva, constituem, muito frequentemente, a base da sua prosperidade; retirem-nos, e vão abaixo os lojistas, os alfaiates, os sapateiros, os marceneiros. Deste modo, eternamente dividida entre a esperança de entrar nas fileiras da classe mais rica e o medo de ser reduzida à condição de proletários ou mesmo de indigentes; entre a esperança de promover os seus interesses através da conquista de uma parte da direção dos negócios públicos e o receio de, por uma oposição inoportuna, despertar a ira de um governo que dispõe da sua própria existência, porque tem o poder de retirar os seus melhores fregueses; possuidora de poucos recursos, cuja insegurança de posse está na razão inversa do seu montante, esta classe é extremamente vacilante nas suas opiniões. Humilde e submissa sob um poderoso governo feudal ou monárquico, volta-se para o lado do liberalismo quando a classe média está em ascensão; ela é tomada por violentos ataques democráticos assim que a classe média assegura sua própria supremacia, mas volta a cair no abjeto desânimo do medo assim que a classe abaixo dela, os proletários, tenta um movimento independente. Veremos, pouco a pouco, esta classe na Alemanha passar, alternadamente, de um destes estágios ao outro. A classe operária na Alemanha, no seu desenvolvimento social e político, está tão atrás da Inglaterra e da França quanto a burguesia alemã está atrás da burguesia desses países. Tal senhor, tal servo. A evolução das condições de existência de um proletariado numeroso, forte, concentrado e inteligente, vai de mãos dadas com o desenvolvimento das condições de existência de uma classe média numerosa, rica, concentrada e poderosa. O próprio movimento da classe operária nunca é independente, nunca tem um caráter exclusivamente proletário até que todas as diferentes facções da classe média e, particularmente, a sua facção mais progressista, os grandes manufatureiros, tenham conquistado poder político e remodelado o Estado de acordo com as suas necessidades. É então que o inevitável conflito entre o patrão e o empregado se torna iminente e não pode mais ser adiado; que a classe operária não pode mais ser relegada com esperanças e promessas ilusórias que nunca se realizarão; que o grande problema do século XIX, a abolição do proletariado, passa enfim para o primeiro plano, de forma razoável, e à sua luz adequada. Ora, na Alemanha, a massa da classe operária é empregada não por aqueles senhores da manufatura moderna de que a Grã-Bretanha fornece espécimes tão esplêndidos, mas por pequenos negociantes cujo inteiro sistema de manufatura é uma mera relíquia medieval. E como há uma enorme diferença entre o grande senhor do algodão e o mesquinho sapateiro ou mestre alfaiate, também há uma distância correspondente do esperto operário fabril das modernas Babilônias manufatureiras ao tímido alfaiate ou marceneiro de uma pequena cidade do interior, que vive em circunstâncias e trabalha de acordo com um plano muito pouco diferente daquele de homens semelhantes há cerca de quinhentos anos. Essa ausência geral de condições de vida modernas, de modos de produção industrial modernos, claramente foi acompanhada por uma ausência igualmente geral de ideias modernas e, portanto, não é de se admirar se, no início da Revolução, uma grande parte das classes trabalhadoras deve clamar pelo imediato restabelecimento das guildas e corporações medievais de comércio privilegiadas. Mas a partir dos distritos fabris, onde predominava o moderno sistema de produção, e em consequência das capacidades de intercomunicação e desenvolvimento mental proporcionados pela vida migratória de um grande número de trabalhadores, formou-se um núcleo duro, cujas ideias acerca da emancipação de sua classe foi muito mais clara e de acordo com os fatos existentes e as necessidades históricas; mas eles eram uma mera minoria. Se o movimento ativo das classes médias pode ser datado de 1840, o da classe operária começa seu advento com as insurreições dos operários fabris da Silésia e da Boêmia em 1844 e teremos, em breve, ocasião de revisar os diferentes estágios pelos quais este movimento passou. Finalmente, havia a grande classe dos pequenos agricultores, o campesinato, que, com o seu apêndice de trabalhadores rurais, constitui a maioria considerável de toda a nação. Mas essa classe novamente se subdividiu em diferentes frações. Havia, em primeiro lugar, os agricultores mais ricos, aquilo a que se chama na Alemanha Groß- e Mittelbauern [Grandes e médios agricultores], proprietários de fazendas mais ou menos extensas e dirigindo cada um deles os serviços de vários trabalhadores agrícolas. Esta classe, colocada entre os grandes proprietários feudais isentos de impostos e o campesinato mais pobre e os trabalhadores rurais, encontrou, por razões óbvias, numa aliança com a classe anti-feudal das cidades, o seu curso político mais natural. Então houve, em segundo lugar, os pequenos camponeses livres, predominantes na região do Reno, onde o feudalismo havia sucumbido diante dos poderosos golpes da grande Revolução Francesa. Similares pequenos camponeses livres também existiam aqui e ali em outras províncias, onde obtiveram sucesso na compra dos encargos feudais anteriormente devidos sobre suas terras. Esta classe, no entanto, era uma classe de camponeses livres apenas de nome, uma vez que sua propriedade estava geralmente hipotecada, a tal ponto e em condições tão onerosas que não era o camponês, mas o usurário que tinha adiantado o dinheiro, o real proprietário da terra. Em terceiro lugar, os arrendatários feudais, que não podiam ser facilmente expulsos de suas posses, mas que tinham de pagar uma renda perpétua ou de realizar perpetuamente uma certa quantidade de trabalho em favor do senhor do feudo. Finalmente, os trabalhadores agrícolas, cuja situação, em muitas grandes empresas rurais, era exatamente a da mesma classe na Inglaterra e que, em todos os casos, viviam e morriam pobres, mal alimentados e escravos dos seus patrões. Estas três últimas classes da população agrícola, os pequenos camponeses livres, os arrendatários e os trabalhadores agrícolas, nunca se preocuparam muito com a política antes da revolução, mas é evidente que este acontecimento teve de lhes abrir uma nova via, cheia de perspectivas brilhantes. A cada um deles a Revolução oferecia vantagens, e o movimento, uma vez bastante engajado, era de esperar que cada um, por sua vez, se juntasse a ele. Mas, ao mesmo tempo, é igualmente evidente, e igualmente confirmado pela história de todos os países modernos, que a população agrícola, em consequência de sua dispersão por um grande espaço e da dificuldade de chegar a um acordo entre qualquer parcela considerável dela, nunca pode tentar um movimento independente de sucesso; eles exigem o impulso iniciático das pessoas mais concentradas, mais esclarecidas, mais facilmente movidas das cidades. O pequeno esboço precedente das classes mais importantes que, no seu agregado, formavam a nação alemã na eclosão dos movimentos recentes já será suficiente para explicar uma grande parte da incoerência, incongruência e aparente contradição que prevaleceu naquele movimento. Quando interesses tão variados, tão conflitantes, tão estranhamente entrecruzados, se colidem violentamente; quando estes interesses conflitantes em cada distrito, cada província, são misturados em proporções distintas; quando, sobretudo, não houver nenhum grande centro no país, nenhuma Londres, nenhuma Paris, as decisões que, por seu peso, possam substituir a necessidade de travar a mesma disputa repetidamente em cada localidade; que mais deve se esperar além da dissolução da competição em uma massa de lutas desconexas, em que uma quantidade enorme do sangue, energia, e capital é gasta, mas que por tudo isso permanece sem resultados decisivos? O desmembramento político da Alemanha em três dúzias de principados mais ou menos importantes é igualmente explicado por esta confusão e multiplicidade dos elementos que compõem a nação e que, novamente, variam em cada localidade. Onde não há nenhum interesse comum não pode haver nenhuma unidade de propósitos, muito menos de ação.A Confederação Alemã, é verdade, foi declarada eternamente indissolúvel; no entanto, a Confederação e seu órgão, o Reichestag [Diet], nunca representou a unidade alemã. O tom mais alto que alcançou a centralização na Alemanha foi o estabelecimento do Zollverein; por isso, os Estados do Mar do Norte também foram forçados a uma união aduaneira própria, a Áustria permanecendo envolvida em sua própria tarifa proibitiva. A Alemanha teve a satisfação de ser, para todos os efeitos práticos, dividida apenas entre três poderes independentes, em vez de trinta e seis. Claro que a supremacia primordial do tsar russo, tal como se estabeleceu em 1814, não sofreu nenhuma alteração por conta disso. Tendo extraídas estas conclusões preliminares de nossas premissas, veremos, no artigo seguinte, como as várias classes supracitadas do povo alemão foram postas em movimento, uma após outra, e que caráter este movimento assumiu na eclosão da revolução francesa em 1848. LONDRES, setembro de 1851.

  • Breve nota sobre o New York Daily Tribune: Entre Marx e Engels, o desafio da autoria

    Por Igor Dias Fundado em 1841 sob o nome de New-York Tribune, o New York Daily Tribune (NYDT) - como foi denominado entre 1842 e 1866 - foi um jornal estadunidense progressista do século XIX com relevante influência política, sendo o diário de maior circulação no mundo à sua época. Ligado ao partido Whig e, após sua dissolução, ao partido Republicano, o periódico se destacou pelas suas análises internacionais, com diversos correspondentes no seu quadro operativo, entre eles o que nos é de maior relevância: Karl Marx, que nele teve o que se pode considerar seu mais extenso vínculo empregatício, tendo a duração de dez anos (1851-1861). Por meio do NYDT, Marx efetuou análises acerca dos mais variados temas em textos ainda hoje inacessíveis em sua completude para leitores da língua portuguesa. Após a Primavera dos Povos, Marx, recém deportado de Paris (1849) e tendo fixado residência em solo inglês sob condições miseráveis de reprodução da própria vida, receberá o convite de Charles Anderson Dana - então editor administrativo do jornal - para ser correspondente internacional do diário nova iorquino. Não é mero detalhe a condição precária que leva Marx ao aceite do emprego. Tendo conseguido chegar a Londres em 1849 apenas devido à campanha de arrecadação de donativos levada a cabo por Lassalle, se fazia urgente meios para não ceder à fome e sustentar os estudos de economia política aos quais havia se proposto. É neste cenário que, no dia 14 de agosto de 1851, redige uma carta a Engels (que se encontrava em Manchester) na qual, entre outras discussões, solicita auxílio do amigo na redação de textos para o NYDT, para que consiga prosseguir com seus estudos na devida qualidade e abdicação. Assim, os primeiros textos sob a assinatura de Karl Marx no jornal são, na realidade, de autoria de Engels, passando a constituir os dezenove capítulos de “Revolução e Contra-Revolução na Alemanha". Ainda estima-se que, dos 487 artigos submetidos por Marx ao NYDT, 125 sejam, em verdade, produção engelsiana. Dada a dispersão dos materiais e a ausência de tradução em sua completude até o presente momento para o português, à exceção deste ou daquele compilado temático, a tarefa de tradução deste material encontra desafios desde a autoria de sua redação. Cabe, portanto, afirmar que o texto “XV - Alemanha: Revolução e contrarrevolução” não se tratava do primeiro texto assinado por Marx no NYDT, tendo sua autoria real por Engels, diferentemente do que apontamos a princípio. Por fim, visando incorrer no mínimo possível de imprecisões, manteremos a assinatura dos textos tal qual se encontra nos jornais, que têm sido nossa fonte fundamental, buscando assinalar sempre que houver dubiedade acerca da autoria, de acordo com os materiais consultados em paralelo.

  • Chile: entre o estallido e a Constituinte

    Por Ayrton Otoni, Krishna Edmur e Pedro Badô Foto: Martin Bernetti “Ela [a Montanha](1) declarou o presidente, os ministros, a maioria da Assembleia Legislativa “fora da Constituição” (hors la constitution) e conclamou a Guarda Nacional, o exército e, por fim, também o povo a “se levantar”. “Viva a Constituição!” foi a palavra de ordem divulgada por ela, palavra de ordem que não significava outra coisa que “Abaixo a revolução!”. (MARX, 2012. p.82-83) 1. Tudo parecia tranquilo para os que analisavam a situação chilena com os olhos da economia política burguesa. Os dados “macroeconômicos”, até o ano de 2019, eram tomados pelos ideólogos de forma superficial e genérica decretando os caminhos econômicos chilenos como “modelo a se seguir, um oásis” ou “um milagre econômico”, mas toda aparência do sagrado oculta em si sua determinação profana. Os índices escondiam as reais condições sob as quais vivia a classe trabalhadora chilena. O mesmo “milagre” a que se referiam, trazia consigo o incessante aumento das privatizações da saúde, educação e previdência, além de cada vez mais apartar a população do acesso às condições básicas, promovendo um brutal aumento do custo de vida. É necessário dizer que todos esses fatores típicos do ideário liberal são elementos que se arrastaram pelo país desde a ditadura pinochetista e que nenhum governo – inclusive os sociais-democratas, para espanto de alguns – tiveram intuito de reverter. A aparente calmaria estava prestes a se romper com o acúmulo de contradições que emergiram do terreno da luta de classes. Num primeiro momento, o levante contra as condições às quais a classe trabalhadora estava submetida, se deu de forma espontânea – estimulado por razões da esfera mais cotidiana e material – alavancado pelos reflexos do aumento das tarifas do transporte coletivo. A cidade de Santiago, desde o início dos protestos de outubro de 2019, amanhecia incendiada dia após dia. A incontrolável e crescente violência dos manifestantes contra as estações de metrô alertavam que as contradições, que desabrocharam sobre solo chileno, eram mais concretas e profundas. Nem mesmo o exército do governo de Piñera - com seus métodos herdados do período da ditadura - se demonstrou capaz de conter o processo de insurreição que se desenhava. A intensidade do movimento repressivo do aparato estatal apenas reabriu as feridas ainda não cicatrizadas do Chile. Estava diante do povo chileno a exigência de tomada de posição, a escolha entre a violência em favor da ordem burguesa instituída e a violência contra a ordem, entre a defesa do velho e decadente regime ou o germe do novo. A adesão massiva aos atos em solidariedade aos manifestantes fomentou uma unidade entre as insatisfações imediatas e as condições econômicas postas. Na medida em que aumentava a repressão nas ruas – e o número de detidos e mortos – ampliava a adesão de diversos segmentos da classe trabalhadora aos atos. Traço comum do desenvolvimento de greves e revoltas populares ao longo da história do capitalismo, é dado que os mais diversos setores da população tendem a se organizar coletivamente por melhorias mais imediatas nas condições de vida. O que se apresentou inicialmente como uma mobilização espontânea se desdobrou em um processo consciente de revolta diante da precária condição de vida sob a forma social burguesa. Os trabalhadores aparentemente estavam em vias de definir um caminho, mas os rumos do processo sempre se colocam em disputa. No Chile não foi diferente. Inicialmente as pautas que tomavam as ruas foram quase restritas à exigência de reversão do insustentável aumento do custo de vida no país, e seguiram sendo pedra angular dos revoltosos até o fim dos protestos. No entanto, com o tempo, o movimento foi ganhando cada vez mais espaço entre os trabalhadores, convencidos da necessidade de ir para além das pautas imediatas, uma vez que elas por si, não são capazes de solucionar todos os seus anseios. 2. Assim, ao fim de outubro e início de novembro de 2019, ganha força entre os protestos os discursos em defesa de um plebiscito constituinte. É importante notar que somente ao fim da segunda semana de lutas é que começou a surgir com maior força nas páginas dos grandes jornais da burguesia as especulações acerca da pauta sobre a exigência de uma nova Constituição. A esquerda chilena, frente a maior revolta popular desde o início do século XXI, apontou como causa da miséria no país a mera vigência da Constituição de Pinochet. Após semanas intensas de protestos, e das diversas tentativas de Piñera em reprimir violentamente as mobilizações, no dia 15 de novembro de 2019, o Congresso se reúne para decidir um acordo. A urgência foi determinada por Piñera. Para o capital, era imprescindível, de qualquer maneira, dar fim às manifestações que, apesar de sua curta duração, já causavam enormes danos econômicos à burguesia do país sul-americano.(2) No momento em que Piñera chega a um acordo com o Congresso e aprova a convocação da Assembleia Constituinte, concretiza-se também a derrota do estallido(3) e, consequentemente, a vitória do capital. O movimento que emergiu no Chile trouxe a classe trabalhadora para a disputa política, e colocou em suas mãos a capacidade de mudar os rumos da história do país. Na medida em que ganhou força estrondosa por toda a nação, as constantes manifestações, seguidas de greves de diversos setores da indústria, comércio e serviços públicos, por conta própria, foram capazes de refrear e exigir retrocessos à política econômica liberal do governo Piñera. Nesse cenário, o grande capital e seus representantes políticos, bem como a grande mídia chilena, sabiam que não havia possibilidade de negar as vontades dos milhões de revoltosos, e que de uma maneira ou de outra, sua vontade seria feita. Quem não parecia estar ciente desse poder, ou ao menos não tinha intenção alguma de torná-lo útil, foi a própria esquerda chilena. No calor dos combates de rua, os setores proletários, a vanguarda revolucionária da classe trabalhadora, não se apresentou – ou não foi capaz de demarcar com clareza suas intenções e seus objetivos. Como é muito comum que aconteça nas lutas que envolvem questões democráticas, a política democratista pequeno burguesa predominou no rumo das lutas chilenas. Nesses momentos históricos, a energia combativa dos trabalhadores é canalizada para as soluções institucionais, para o campo neutralizador do direito e da política. Como demonstra Marx e Engels – quando refletem a respeito da derrota sofrida pelos comunistas na Alemanha em 1848-1849 –, enquanto os interesses e tarefas dos comunistas “consistem em tornar a revolução permanente até que seja eliminada a dominação das classes mais ou menos possuidoras, até que o proletariado conquiste o poder do Estado”, “os pequeno-burgueses democratas querem concluir a revolução o mais rapidamente possível, depois de terem obtido” seus próprios interesses. Não se trata, contudo, de defender simplesmente um programa ultra revolucionário e infantil. Diante do caso alemão citado, Marx e Engels argumentam que, com domínio pequeno burguês, nem sempre pode-se propor “medidas diretamente comunistas no começo do movimento”. No caso específico da Alemanha de 1850, por exemplo, os comunistas deveriam “levar ao extremo as propostas dos democratas, que não se comportarão em todo o caso como revolucionários mas como simples reformistas, e transformá-las em ataques diretos contra a propriedade privada”. Desse modo, se os pequeno burgueses propusessem “comprar as estradas de ferro e as fábricas, os operários têm de exigir que essas estradas de ferro e fábricas, como propriedade dos reacionários, sejam confiscadas simplesmente e sem indenização pelo Estado”. Guardando as diferenças históricas, a questão fundamental é que os proletários devem “fazer o máximo pela sua vitória final, esclarecendo-se sobre os seus interesses de classe, tomando o quanto antes a sua posição de partido autônomo, não se deixando um só instante induzir em erro pelas frases hipócritas dos pequeno-burgueses democratas quanto à organização independente do partido do proletariado”. Inundada de ilusões politicistas, defendendo um democratismo tacanho que não apresenta um projeto econômico que se contrapunha ao capital, a esquerda encontrou a solução dos problemas pela via político-institucional. De certo que se soubessem das atrocidades que são cometidas contra a população trabalhadora no Brasil sob a Constituição cidadã de 1988, tomariam nota da derrota que emplacaram. A grandeza do estallido se dava justamente na medida em que, por sua própria existência e as pautas que lutavam, não atacavam somente este ou aquele governo, esta ou aquela Constituição. A mobilização popular do Chile, de uma só vez, sem recorrer às instituições, e apresentando sua força pela capacidade de causar estragos ao capital, atacou a base econômica – viga mestra da totalidade social – não só do governo Piñera, mas da forma de reprodução do capital no Chile. Essa força se deu justamente nos aspectos extrainstitucionais da mobilização. O poder dos trabalhadores são as mobilizações e greves. Constituição alguma tem a força de fábricas paradas e barricadas nas ruas. Não se trata aqui de negar a importância de uma nova Constituição. Evidentemente, é necessário substituir a Carta criada sob o governo do bandido Pinochet. Bem como, devem ser destacados avanços da Constituinte, principalmente ao garantir às mulheres e aos povos originários – ambos alijados dos espaços políticos e institucionais no país – uma entrada na cena política.(4) O debate apresentado diz respeito à supervalorização da real capacidade de transformação da vida dos trabalhadores por uma constituição diferente, comparada à janela histórica cada vez mais rara aberta pelas mobilizações. A limitação do poder constitucional se dá na medida em que, sob um sem número de leis, cabe ao governo vigente decidir como vai interpretar o texto. E se por fim, a interpretação desejada seja impossível, basta ao governo optar por violar a constituição. Limitado por ser passível das mais diversas interpretações, bem como ser facilmente ignorado, cabe se perguntar qual é o efetivo poder constitucional para decidir o que vai ser feito ou não sob um governo determinado. Nas palavras de Marx, ao analisar a situação da França após 1848, o autor diz: A Constituição de fato proibia todo e qualquer ataque à liberdade de povos estrangeiros, mas o que o exército francês atacava em Roma, de acordo com o ministério, não era a “liberdade”, mas o “despotismo da anarquia”. A Montanha, a despeito de todas as experiências feitas na Assembleia Constituinte, ainda não compreendera que a interpretação da Constituição não competia mais àqueles que a fizeram, mas tão somente àqueles que a haviam aceitado? Ainda não compreendera que seu teor deveria ser interpretado em um sentido viável e que o sentido burguês era seu único sentido viável? Ainda não compreendera que Bonaparte e a maioria monarquista da Assembleia Nacional eram os autênticos intérpretes da Constituição, assim como os padrecos são os autênticos intérpretes da Bíblia e o juiz o autêntico intérprete da lei? (MARX, 2012. p.80) E em seguida: A única solução possível nos termos da burguesia é o adiamento da solução. Ela só será capaz de salvar a república constitucional por meio da violação da Constituição, por meio da prorrogação do mandato do presidente. (MARX, 2012. p.118) A esquerda perdeu a oportunidade histórica de, diante da crise no capitalismo chileno, aprofundar as críticas econômicas e apresentar um programa para disputar a consciência dos trabalhadores e com eles ao seu lado, alçar maiores transformações na estrutura da economia, e quem sabe até mesmo rumar para a construção de uma revolução social. É nesse cenário que a opção pela Constituinte deve ser apontada como um erro. Os agentes políticos conscientes cooptaram a insatisfação popular antes que saísse dali algum projeto, preferiram a Constituinte e sua estreita potencialidade, sabiam que sob aquele terreno não tinham nenhum controle. Após muitos anos sem ver os trabalhadores nas ruas – ao menos com tamanha força –, e clamando por eles para desmascarar a farsa burguesa e tomar o poder, a esquerda clamava por uma revolução. Quando aqueles finalmente insurgem, a esquerda, cega por tantos anos de inaptidão e insignificância, não é capaz de vislumbrar o horizonte. E então, diante das ruas tomadas por imensas hordas de trabalhadores, capazes de tudo para romper com suas condições de vida miseráveis, a esquerda grita do alto do palácio que queria uma revolução apenas para substituir o governo. Nas palavras de Marx: Desse modo, a solução é adiada, o status quo continua a ser preservado, as facções do Partido da Ordem se comprometem, enfraquecem e inviabilizam mutuamente, a repressão contra o inimigo comum, a massa da nação, é ampliada e esgotada – até que as próprias relações econômicas novamente atinjam o ponto do seu desenvolvimento, em que uma nova explosão mande pelos ares todos esses partidos rixentos com sua república constitucional. (MARX, 2012. p.120) 3. A cooptação da revolta nas ruas pela esfera institucional, representada no início do processo pela Constituinte aliada aos efeitos da pandemia do coronavírus, deu fim a todas as mobilizações iniciadas em outubro de 2019. Apesar de levantar pontos importantes – como a liberdade dos presos políticos mapuches –, a primeira reunião da Constituinte parece ter revelado que ela não tem a mesma força dos protestos. Isso se expressa não somente a sua demora mas sua incapacidade de dar respostas às questões centrais do povo chileno. O que parece garantir ainda alguma sobrevida a Assembleia Constituinte não são seus representantes formais, mas a radicalidade dos protestos de outubro de 2019. Nenhum deles colocou em debate as verdadeiras razões dos protestos, ou atacou diretamente o cerne da questão o que nos lembra uma passagem de Engels em 1848 comentando as posições do debate sobre a revolução em Berlim: A esquerda também não se distingue especialmente nesse debate. A maioria de seus oradores repetiu-se uns aos outros; nenhum ousou atacar decididamente a questão de frente e se exprimir de modo decididamente revolucionário. Temeram o tempo todo escandalizar, ofender, assustar. Se os combatentes do 18 de março não tivessem demonstrado mais energia e paixão na luta do que os senhores de esquerda no debate, a Alemanha estaria em apuros. (ENGELS, 2021. p. 590) Com o resfriamento do processo chileno, hoje o que parece dominar o drama político são as eleições presidenciais. A disputa se desenha no segundo turno entre o candidato da direita José Antonio Kast e o social-democrata Gabriel Boric. Enquanto Kast aposta na fórmula geral da direita apelando para as pautas morais, o "combate à corrupção e o narcotráfico", Boric constrói um programa recuado em nome da "responsabilidade fiscal”. Apesar das diferenças entre os dois projetos, ambos são lados contrários da mesma moeda, candidatos a gerir o balcão de negócios da burguesia. A questão colocada após o desenrolar dos levantes não se trata mais de uma relação de embate ao conteúdo da dominação capitalista, mas da forma em que agora ela deve operar. A interrogação que se põe diante os trabalhadores e as organizações – não apenas do chile mas de toda américa latina – pode ser resumida em uma única frase: o que leva, após levantes expressivos e radicais, as candidaturas de extrema-direita e da esquerda institucionalizada sempre retornam como “alternativas”? As experiências recentes parecem indicar uma tendência, onde setores distintos tendem a se unificar para não perder o controle dos processos, retirando a centralidade das questões mais próprias e dos interesses da classe trabalhadora em nome de uma estabilidade para governar, da estabilidade para continuar a exploração do capital. Apenas ao compreender o significado do estallido chileno, suas reais potencialidades, podemos ter clareza que a derrota da classe trabalhadora aconteceu há dois anos, quando se deu o direcionamento do movimento para a via institucional. Ao saírem das ruas os trabalhadores perderam sua única força verdadeira, e com os trabalhadores sem força real para influenciar nas grandes decisões políticas nacionais, aqueles que têm por preocupação a construção de uma sociedade que caminhe para a superação do capital, perderam por sua vez a capacidade de disputar um projeto efetivo. Mais uma vez, após perder outra janela histórica, os comunistas são obrigados a decidir entre voltar para suas tocas recheadas de fraseologia revolucionária, mas sem capacidade alguma de decidir sobre os reais conflitos sociais que abarcam a nação. Por outro lado, se livrar da fraseologia revolucionária na tentativa de seguir a eterna construção do socialismo pela via institucional, o socialismo sem revolução, sem trabalhadores, sem derrubada do poder vigente e por fim, sem socialismo. Notas Partido da pequena burguesia parisiense em 1848. Sobre o impacto dos protestos ao grande capital ver https://www.bbc.com/mundo/noticias-50241141 e https://g1.globo.com/economia/noticia/2019/11/04/protestos-afetam-economia-do-chile-e-governo-rebaixa-previsao-de-crescimento.ghtml. As mobilizações que tomaram o Chile entre Outubro e Novembro de 2019 são conhecidas como o estallido social. Acerca da composição da constituinte e a participação de mulheres e povos originários, ver: https://www.redebrasilatual.com.br/mundo/2021/07/constituinte-do-chile-mulheres-estado-plurinacional/ Bibliografia: ENGELS, Friederich. In Germinal: Marxismo e Educação em Debate, Salvador, v. 12, n. 3, p.589-601, dez. 2021. MARX, Karl. As lutas de classe na frança: de 1848 a 1850. São Paulo: Boitempo, 2012.

  • Alemanha - XV. Revolução e Contrarrevolução, Karl Marx

    Tradução: Natasha Ramos Revisão: Igor Dias Domingues de Souza O presente texto dá início à série de traduções dos 10 anos de escritos jornalísticos de Marx (e, em menor medida, de Engels) para o New York Daily Tribune (que abreviaremos como NYDT); tarefa que assumimos dada a importância da análise dos autores diante das variadas questões de seu tempo - como a situação chinesa, indiana e americana – para além de suas obras mais densas, bem como dado ser em sua maioria uma coletânea majoritariamente inédita para português brasileiro. Nos debruçamos então sobre os textos originais, extraídos do próprio jornal, para efetivar esse trabalho militante de tradução. Com relação às notas, adotaremos as abreviaturas NT para notas do tradutor e NR para notas do revisor. O texto que se segue foi publicado na página 6 do número 3517, volume 12, edição de terça-feira, dia 27 de julho de 1852, sendo o primeiro texto de Marx publicado no periódico. Trata das disputas políticas no Parlamento reunido em Frankfurt am Main, constituído em maio de 1848 (no cenário da Primavera dos Povos), realizando um balanço do processo da revolução alemã. A todos, uma boa leitura! Igor Dias Nós, agora, chegamos ao último capítulo na história da Revolução Alemã: o conflito da Assembleia Nacional com os governos dos diferentes Estados, especialmente o da Prússia; a insurreição da Alemanha do sul e da ocidental e sua derrota final frente à Prússia. Nós já vimos a Assembleia Nacional de Frankfurt¹ funcionando: nós a vimos desprezada pela Áustria, insultada pela Prússia, desrespeitada pelos Estados menores, enganada pelo seu próprio “Governo” Central, que, por sua vez, enganou a cada um dos príncipes do país. Mas, enfim, as coisas começaram a ficar alarmantes para esse fraco, vacilante e insípido corpo legislativo. Ele foi forçado a concluir que “a realização da sublime ideia de unidade alemã estava ameaçada”, o que significava que a Assembleia de Frankfurt, e tudo aquilo que haviam feito e iriam fazer, iria por água abaixo. Assim a Assembleia começou a trabalhar determinada a realizar, o mais rápido possível, sua grande proposta: a “Constituição Imperial”. Contudo, havia uma dificuldade: Que Governo Executivo ali poderia haver? Um Conselho Executivo? Não; eles pensavam que isto seria transformar a Alemanha em uma república. Um “presidente”? Isso serviria ao mesmo propósito. Então eles devem reviver a antiga dignidade Imperial. Mas - como obviamente um príncipe deveria se tornar imperador - quem deveria ser? Certamente de nenhuma das Dii minorum gentium [nações de deuses inferiores]² de Reuss-Schleitz-Greitz-Lobenstein-Ebersdorf até a Bavária. Ambas Áustria e Prússia não tolerariam isso. Poderia apenas vir de uma das duas. Mas qual delas? Não há dúvidas que, sob circunstâncias favoráveis, essa augusta Assembleia estaria sentada até hoje discutindo esse importante dilema, sem chegar a qualquer conclusão, caso o governo Austríaco não tivesse cortado o nó górdio³ e as poupado trabalho. A Áustria sabia muito bem que, no momento que se postasse diante da Europa com todas as suas províncias dominadas, como uma poderosa nação europeia, a própria lei da gravitação política atrairia o resto da Alemanha para a sua órbita, sem necessitar de qualquer autoridade que uma coroa imperial conferida pela Assembleia de Frankfurt pudesse lhe proporcionar. A Áustria tinha sido muito mais forte e livre desde que se livrara da débil coroa do Império Germânico – uma coroa que reprimia sua política independente, enquanto não a fortalecia de forma alguma, tanto dentro quanto fora da Alemanha. E supondo que a Áustria não podia manter sua influência na Itália e na Hungria – porque, então, ela foi dissolvida, aniquilada também na Alemanha, e não poderia mais retomar uma coroa que saiu de suas mãos quando estava com toda a sua força. Assim, a Áustria se posicionou contra qualquer reforma imperialista e demandou a restauração do Reichstag⁴, o único Governo Central da Alemanha reconhecido pelos tratados de 1815; e, em 4 de março de 1849, apresentou uma constituição que não tinha outro objetivo além de declarar a Áustria como uma monarquia independente, indivisível e centralizada, distinta até daquela Alemanha que Assembleia de Frankfurt pretendia reconhecer. Essa declaração de guerra não deixou aos sabichões de Frankfurt outra escolha além de excluir a Áustria da Alemanha e criar com o que restou deste país⁵ uma espécie de império inferior, uma “pequena Alemanha”, um manto Imperial esfarrapado que cairia sobre os ombros de Sua Majestade da Prússia. Isso, lembraremos, foi a recuperação de um antigo projeto já adotado há cerca de seis ou oito anos por um partido de doctrinaires⁶ liberais da Alemanha Sul e Central, que consideravam divinas as circunstâncias degradantes pelas quais suas notas novamente soavam, agora como um novo movimento pela salvação do país. Em fevereiro e março de 1849, o debate acerca da Constituição Imperial foi finalizado, assim como a Declaração de Direitos e a Lei Eleitoral Imperial; mas não sem serem forçados a fazer, em muitos pontos, as mais contraditórias concessões - ora ao partido Conservador, ou melhor, Reacionário, ora às mais avançadas facções da Assembleia. De fato, era evidente que a liderança da Assembleia, que já havia pertencido à direita e à centro-direita (Conservadores e Reacionários), estava, lenta e gradualmente, sendo assumida pela esquerda, ou pelo lado Democrático. A posição duvidosa dos deputados austríacos numa Assembleia que excluiu seu país da Alemanha, e para a qual eles ainda eram chamados a votar, favoreceu o desequilíbrio da sua balança; dessa forma, já ao fim de fevereiro, a esquerda e a centro-esquerda se encontravam, com a ajuda dos votos austríacos, frequentemente em maioria, enquanto em outros dias a fração conservadora dos austríacos, de uma hora para a outra, pela graça da coisa, votava com a direita, e a balança mais uma vez pendia para o outro lado. Eles pretendiam, com esses sobressaltos, deslegitimar a Assembleia, o que era desnecessário pois a maior parte das pessoas já estava convencida da ineficácia e futilidade de qualquer coisa vinda de Frankfurt. A espécie de constituição criada sob tantos golpes e contragolpes pode ser facilmente imaginada. A Esquerda da Assembleia – essa elite e orgulho da Alemanha revolucionária, como acreditava ser – estava completamente intoxicada por alguns minúsculos sucessos conquistados pela boa vontade, ou melhor, pela má vontade, de alguns políticos austríacos, agindo sob ordens e pelo interesse do despotismo austríaco. Sempre que alguma mínima aproximação aos seus princípios, não muito bem definidos, obtinha, em doses homeopáticas, uma forma de sanção pela Assembleia de Frankfurt, esses democratas proclamavam que salvaram o país e o povo. Esses pobres homens, fracos de espírito, eram tão pouco acostumados a qualquer coisa como o sucesso durante suas, geralmente, obscuras vidas, que eles realmente acreditavam que suas ínfimas emendas, aprovadas por dois ou três votos, mudariam toda a Europa. Desde o início de suas carreiras legislativas eles têm sido mais impregnados que qualquer outra fração da Assembleia pela doença incurável do cretinismo parlamentar, um transtorno que penetra suas infelizes vítimas com a solene convicção de que todo o mundo, sua história e futuro, são governados e determinados por uma maioria de votos naquele corpo representativo específico que tem a honra de os ter como membros, e que tudo aquilo que acontece fora de suas paredes – guerras, revoluções, construção de ferrovias, colonização de continentes inteiros, descoberta de ouro na Califórnia, canais da América Central, exércitos russos e qualquer outra coisa que possa ter influência no destino da humanidade – não é nada se comparado aos incomensuráveis eventos que dependem da importante questão, seja ela qual for, que ocupa a atenção de sua honorável casa naquele momento. Assim, por efetivamente contrabandearem algumas de suas panaceias para a “Constituição Imperial”, o partido Democrático da assembleia ficou sujeito a apoiá-la, mesmo que em todos os pontos essenciais ela contradissesse seus próprios princípios; e, por fim, quando esse trabalho vira-lata foi abandonado e legado a eles pelos seus principais autores, aceitaram a herança e sustentaram esta Constituição Monárquica, mesmo em oposição à todos que, então, proclamassem seus próprios Princípios Republicanos. Contudo deve ser confessado que nisso a contradição era meramente aparente. O caráter indeterminado, contraditório e imaturo da Constituição Imperial era a imagem dos imaturos, confusos e conflituosos ideais políticos desses democratas. E se seus próprios ditos e escritos – até onde eles sabiam escrever – não são prova suficiente disso, suas ações fornecem tal prova; pois entre pessoas sensatas é algo natural julgar um homem não pela sua profissão, mas por suas ações; não pelo que ele aparenta ser, mas pelo que ele faz e pelo que ele realmente é; e os feitos desses heróis da democracia alemã falam alto o suficiente por si mesmos, como aprenderemos pouco a pouco. Todavia, a Constituição Imperial, com todos os seus apêndices e parafernálias, foi definitivamente aprovada e, em vinte e oito de março, o rei da Prússia foi, com 290 votos contra, 248 abstenções e 200 ausências, eleito o Imperador da Alemanha minus Austria. A ironia histórica estava completa; a farsa imperial executada nas ruas de uma Berlim atônita, três dias depois da Revolução de dezoito de março de 1848, por Frederick William IV, num estado que em outros lugares estaria sujeito à Lei do Maine⁷ – essa farsa sórdida, apenas um ano mais tarde, foi sancionada pela pretensa Assembleia Representativa de toda Alemanha. Esse, então, foi o resultado da Revolução Alemã! Karl Marx, Londres, Julho de 1852. 1. No texto original, lê-se Frankfort. [N.T.] 2. Marx traduz originalmente como “Minor Gods”. [N.T.] Aqui se refere a reinos alemães: Reuss, na região da Turíngia; Schlitz (aqui grafado como Schleitz), na região de Hesse; Greiz, na região da Turíngia; Lobenstein e Ebensdorf, também na Turíngia. Estas cidades-estado/reinos encontram-se no Centro-Leste alemão, provavelmente confederavam em torno de interesses mútuos. [N.R.] 3. Marx utiliza a expressão em referência à lenda do nó impossível de ser desfeito que Górdio da Frígia atara para prender sua carroça a um pilar no Templo de Zeus, cujo desatar deu-se por Alexandre o Grande, ao cortá-lo com sua espada. [N.R.] 4. No texto original: German Diet. Também traduzido por Parlamento Alemão, da terminologia política inglesa “Diet”: Assembleia/Parlamento. Marx refere-se à legislação do Sacro Império Romano-Germânico, dissolvido em 1806, não sendo, portanto, um parlamento moderno, mas a congregação das entidades políticas componentes do Império, que gozavam de autonomia entre si, conforme a origem medieval da legislatura. [N.R.] 5. O reino austríaco possuía alta relevância para a unidade alemã, não apenas por sua extensão geográfica, mas essencialmente por sua influência política herdade do extinto Sacro Império Romano-Germânico, cuja capital era Viena. [N.R.] 6. Marx refere-se ao grupo de monarquistas franceses partidários da reconciliação da monarquia com os ideais da revolução burguesa de 1789, durante a Restauração e a Monarquia de Julho. Entre seus expoentes políticos estiveram François Guizot e o Duque de Broglie. [N.R.] 7. No original: Maine Liquor Law. A Lei do Licor do estado do Maine (EUA) foi fruto dos movimentos de temperança nos EUA; restringiu fortemente o consumo e a venda de álcool, proibindo o consumo público de bebidas a partir de 1851. [N.R.]

  • A esquerda e a produção científica

    Parte I: Produção teórica – maior tarefa dos comunistas na atualidade Por Krishna Edmur de Souza Chagas “A esquerda e a produção científica” é um texto em duas partes. O complemento desta que segue - “As universidades, a pesquisa e a produção coletiva do pensamento” - será publicada em breve na revista. A esquerda brasileira tem tratado a pesquisa como uma questão secundária. De modo que as principais produções teóricas de fôlego em nosso campo, desde o advento do marxismo no Brasil, não partiram de uma ação de algum partido visando a compreensão da realidade para poder transformá-la – por mais que seja claro que a maioria dos teóricos de esquerda do Brasil, ao menos em algum momento da vida, foram militantes de alguma organização política. Essas produções teóricas, portanto, surgiram historicamente através de intentos individuais e, quando coletivos, não partiram de uma ação organizada de um partido ou movimentos organizados de esquerda. É sintomática a condição de partidos cujos numerosos intelectuais conceberam obras de importância incontestável - como o caso do PCB na década de 1960 -, não terem sido capazes de gerir essas produções teóricas individuais, podendo transformá-las em uma produção teórica coletiva e profissional de maior envergadura. Evidenciando que a produção de conhecimento acerca da realidade brasileira não é uma tarefa central para as organizações de esquerda - salvo nas palavras de seus programas políticos. Proponho o movimento inverso nesse texto: trazer ao primeiro plano do debate a pesquisa e produção teórica, apontá-la como a tarefa prioritária dos comunistas no momento em que estamos vivendo. Antes de chegarmos à temática pretendida propriamente pelo texto (a tarefa dos comunistas brasileiros no atual momento), é necessário apresentar a atual condição da classe trabalhadora no Brasil, bem como a dos partidos, a fim de deixar claro que não vivemos em um período pré-revolucionário. Não se trata, portanto, de uma análise pormenorizada acerca da classe trabalhadora e dos partidos políticos de esquerda – não é o espaço adequado para tal tarefa. Cabe apenas destacar que neste período a classe trabalhadora não é capaz de alterar os rumos da história brasileira por não se expressar enquanto agente político organizado e que, por outro lado, os partidos não estão à altura das necessidades da classe, de modo que, numa possível insurgência desta, não seriam capazes de dirigi-la. Lenin, ao caracterizar um momento histórico pré-revolucionário - para trazer apenas dois aspectos citados pelo autor - destaca que é necessário, por parte das vanguardas, compreender se as classes dominantes estão vacilantes, confusas e enfraquecidas o suficiente; e, ao mesmo tempo, se as massas trabalhadoras estão dispostas a apoiar as ações revolucionárias mais resolutas.(1) No Brasil, mesmo que muitas vezes as classes dominantes se apresentem confusas e enfraquecidas, ao menos desde o início do século as massas trabalhadoras não só estão distantes de apoiar qualquer ação revolucionária, como tampouco se organizam na luta por melhores condições de reprodução da vida. Analisando os dados dos últimos anos chegamos à situação em que, apesar da queda do poder de compra da classe trabalhadora, da redução do valor real do salário, e dos cortes de direitos trabalhistas, a realização de greves em 2020 caiu pelo quarto ano seguido e, ainda em 2020 (por mais que deva ser levada em conta a pandemia e sua influência para tal queda), esse número caiu em 46% se comparado a 2019 . Constatar a redução da quantidade de greves não é suficiente para decretar a condição de refluxo do movimento dos trabalhadores. É necessário pesquisar mais a fundo para compreender a atual situação das lutas da classe, muito embora devamos destacar que tal pesquisa não terá espaço neste texto(2). Ainda assim, a situação é incontestável. Mesmo frente à violenta redução da qualidade de vida da classe trabalhadora imposta pelos últimos governos, os trabalhadores não se sublevam. A saída para a classe trabalhadora não está posta no cenário político, porque a classe trabalhadora não está na disputa. Diante dessa situação , a esquerda, em seu afã voluntarista, tende a apontar a seguinte solução: “precisamos organizar a classe trabalhadora, trazê-la para a luta!”. A partir disso, decaem em uma posição praticista panfletária, por disputas de sindicatos esvaziados, por vezes devido à própria atuação das organizações políticas, incapazes de mobilizar a própria categoria. Ao se lançarem na tarefa de trazer para a luta os trabalhadores, ou mesmo levá-los à luta, movimentos e partidos declaram não compreender as reais motivações que posicionam os trabalhadores em luta, e menos ainda o papel dos comunistas diante destes. Marx e Lenin estavam convencidos de que os trabalhadores eram lançados às lutas por razões próprias.(3) Quando Lenin comenta do desenvolvimento da luta das massas, deixa claro que existe um elemento espontâneo, fazendo com que em determinados períodos a classe trabalhadora esteja mais ou menos disposta a se rebelar e lutar por seus direitos. (4) E como afirma Lukács, essa etapa espontânea, não pode ser forçada Naturalmente, a própria situação revolucionária não pode ser um produto da atividade do partido. Sua tarefa é prever o sentido do desenvolvimento das forças econômicas objetivas, prever qual será a atitude do operariado diante da situação assim configurada. (LUKÁCS, 2012, p. 53) E no mesmo sentido Lenin: Um exemplo: Inglaterra. Não podemos saber e ninguém pode determinar de antemão - quando eclodirá ali a verdadeira revolução proletária e qual será o motivo principal que despertará, inflamará e lançará à luta as grandes massas, hoje ainda adormecidas. A sublevação espontânea dos trabalhadores ocorre por inúmeros motivos, no entanto, é necessário destacar que dentre as razões do surgimento espontâneo, tem força preponderante a luta econômica diária dos trabalhadores por melhores condições de salário, trabalho e existência. De acordo com Marx, se os trabalhadores deixassem de lutar por melhores salários, eles estariam desqualificados para qualquer luta de maior envergadura.(5) Logo, a luta econômica que a classe trabalhadora trava contra a burguesia e sua avidez por maiores taxas de lucro, não é somente o primeiro momento em que a classe trabalhadora se insere na luta, como também o motor necessário para mantê-la sempre em movimento. Sendo assim, é imperioso esclarecer, portanto, qual o efetivo papel da esquerda, e especificamente dos comunistas em momentos pré-revolucionários. Existem dois aspectos centrais acerca da tarefa de fazer a revolução, um é o desenvolvimento histórico, que determina as condições histórico-econômicas em que se encontra determinada sociedade, o outro é a ação do partido agente da revolução. O papel dos comunistas no processo revolucionário é dirigir os trabalhadores insurgentes em suas lutas. (6) Cabe ao partido, em um período em que os trabalhadores estão se rebelando contra suas atuais condições de vida, a tarefa de disputar politicamente estes que são o verdadeiro agente da revolução. Diante da insatisfação da classe, tem a tarefa histórica de apresentar a possibilidade da saída revolucionária, mostrar que o melhor caminho para a classe trabalhadora é o comunismo. Por fim, deve impedir que os trabalhadores sejam convencidos politicamente por outros agentes políticos. No entanto, se esses trabalhadores não estão organizados no momento, logo não há o que dirigir. Os comunistas ao se proporem enquanto revolucionários, só têm espaço para ação política efetiva diante da presença dos sujeitos revolucionários: a classe trabalhadora. Se a mesma não se encontra em luta, e não podem ser empurradas à mesma, resta saber qual o papel dos comunistas. No momento, o papel central dos comunistas é se preparar para que, quando os trabalhadores insurgirem, sejamos capazes de dirigir o movimento para a revolução. Incapazes de mudar as condições históricas que determinam se os trabalhadores vão insurgir ou não, nos resta estar preparados para cumprir com a nossa parte no processo revolucionário, ser o órgão dirigente da revolução. Preparação que não foi vista na esquerda em momentos históricos decisivos, como por exemplo, nas grandes greves do ABC, em que todo o movimento - autêntico e com força para abalar as estruturas do capitalismo brasileiro - foi cooptado pelas tendências democratistas do eurocomunismo a restringir sua luta à via institucional eleitoral. Isso se deu porque a esquerda existente até então não estava preparada para dar as respostas corretas necessárias para os trabalhadores, tarefa essencial para dirigir o movimento. E as forças que se encontravam minimamente preparadas, e que por isso conquistaram politicamente o movimento, não estava preocupadas com a revolução.(7) Sendo “se preparar” o objetivo central dos comunistas em momento de refluxo da classe trabalhadora em luta, resta saber em que consiste esse preparo. É evidente que estar preparado perpassa diversas questões que devem ser avaliadas, e que de certo modo a preparação de um órgão dirigente da revolução se dá mais ou menos com o desenvolvimento da própria luta revolucionária. Contudo, deve ser destacada uma preparação primordial necessária e central, a produção teórica para compreensão da realidade. Volto à pergunta posta anteriormente, agora para respondê-la. O papel dos comunistas hoje no Brasil é se lançar à produção teórica para compreender a realidade, visto que, só seremos capazes de dirigir corretamente os trabalhadores se soubermos dar respostas corretas aos problemas que surgirem diante da classe. Saber essas respostas exige uma complexa compreensão da realidade e suas múltiplas determinações. Engels aponta que, diante da incapacidade dos trabalhadores em atuar na luta política, o partido se limitou a estudar: O desenvolvimento da concepção materialista, ainda que fosse a publicação de um único exemplo histórico, foi um trabalho científico que exigiu longos anos de estudo tranquilo, pois é evidente que, aqui, nada se resolve com simples frases, que só a existência de um conjunto de materiais históricos, criticamente selecionados e totalmente dominados, pode capacitar-nos para a solução do problema (...) Depois da derrota da revolução de 1848-1849, chegou um momento em que se tornou cada vez mais impossível exercer qualquer influência na Alemanha de fora do país e, então, nosso partido abandonou aos democratas vulgares o campo dos conflitos entre os migrantes, a única atividade possível naquele momento. Enquanto esses democratas vulgares davam livre trânsito aos seus conflitos, injuriando-se hoje para se abraçarem amanhã e, no dia seguinte, diante de todos, voltar a lavar sua roupa suja; enquanto percorriam toda a América humilhando-se para provocar, em seguida, um novo escândalo pela partilha de um punhado de moedas [que eles haviam coletado], nosso partido se alegrava de encontrar outra vez um pouco de paz para o estudo. Diante dos outros, tinha a grande vantagem de ter, por base teórica, uma nova concepção teórica do mundo, cuja elaboração dava-lhe muito a ser feito, razão suficiente para que não descesse ao plano dos "grandes homens" da emigração. O primeiro fruto desses estudos é o livro que temos em mãos. (MARX, 2008, P. 279-280) Assim, temos não somente o recuo diante da ação política - quando não há espaço para a atuação - para se dedicar aos estudos, como também a importância do estudo ser efetivado coletivamente pelo partido. Salientando ainda que, o importantíssimo “Contribuição à crítica da economia política” de Marx, que contém estudos importantes para o desenvolvimento posterior de “O Capital”, é fruto do esforço de pesquisa coletivo e organizado pelo partido. O estudo sério e bem feito é crucial para ações práticas da classe trabalhadora que tem a revolução como horizonte. Consciente disso, Marx em textos para a primeira internacional (8) destaca a importância de levantar dados acerca da situação da classe trabalhadora, como das indústrias em que trabalham, organizando tudo em um relatório a ser enviado para a internacional. Marx propõe, inclusive, que seja criada uma divisão para levantamento estatístico de dados, e que os incubidos dessa tarefa recebessem um salário para se dedicar exclusivamente a essa função. Nota-se a preocupação do autor com a pesquisa. E a mesma se faz necessária para que, na medida em que os trabalhadores se coloquem em luta, as organizações dirigentes tenham total conhecimento acerca de suas condições de trabalho, saúde e moradia, bem como completa noção das condições das empresas em que estes se encontram, e assim sejam capazes de dirigir esses trabalhadores. Destaco ainda, como citado acima, a importância do levantamento de dados, realizado coletivamente ao longo de anos, na construção das obras marxianas. Para compreender a relevância e a urgência dessa tarefa, a esquerda deve ter consciência de suas misérias e defeitos. Inicialmente se trata de entender que há um déficit teórico imenso por parte da esquerda em se tratando de conhecer a realidade. Não pesquisamos suficientemente, logo, não conhecemos a realidade como supomos. Em verdade, grande parte do que se tem hoje de compreensão acerca da realidade por parte da esquerda não passa de um punhado de jargões obtidos durante décadas de incompreensão do real. Isso fica mais claro quando o assunto é conhecer as condições do capitalismo brasileiro, do seu surgimento até os dias atuais. Para citar sobre a composição da classe trabalhadora brasileira: falta levantamento, análise e difusão de dados acerca da composição da classe trabalhadora, em quais setores se encontra essencialmente a classe trabalhadora, quais os trabalhadores mais ou menos produtivos; isso somente para começar. (9) Sobre a indústria e o agronegócio no Brasil: compreender o surgimento da indústria no Brasil e a industrialização da produção agrária, quais os principais setores da indústria de seu surgimento aos dias atuais, a parcela da participação de cada setor da indústria e do agronegócio na economia brasileira, quais os setores mais produtivos, quanto cada setor emprega de trabalhadores e tecnologia.(10). Só compreendendo verdadeiramente essas questões, dentre tantas outras, seremos capazes de dar respostas corretas às questões que surgirem. A tarefa é clara, é necessário construir “O Capital” dos dias atuais. Por fim, uma parcela anti-intelectualista da esquerda erra em rivalizar teoria e prática, situando a produção teórica como coisa que se mantém somente na cabeça dos pesquisadores. Exige-se compreender que a produção teórica, não é outra coisa senão essencialmente prática. Compreendendo a prática como ação humana que incide sobre a realidade e é capaz de transformá-la, é errôneo achar que a produção teórica por si, não é prática. Mais uma vez, não nos deteremos neste ponto, mas basta alguns exemplos para evidenciar como a produção teórica foi capaz de transformar a realidade, em qualquer área do conhecimento que seja. Podemos citar, inicialmente, a grandiosa “A origem das espécies” de Darwin, bem como as pesquisas de Einstein sobre a física moderna. Ninguém é capaz de duvidar das diversas implicações na realidade, ou do quanto essas teorias, por si, foram capazes de transformar o mundo. Isso não se restringe apenas às ciências naturais, temos o exemplo de Lutero e Calvino, ou, na literatura, Shakespeare e Goethe. Estes exemplos confluem para a comprovação de que a produção teórica é prática efetiva transformadora do mundo. Como demonstramos, a tarefa central dos comunistas no Brasil, fora de um momento pré-revolucionário, é pesquisar e produzir conhecimento. É, no entanto, uma tarefa não apenas árdua como perigosa; podemos, em seu cumprimento, nos descobrirmos errados em pontos que consideramos nevrálgicos. No entanto, enquanto representantes da posição da classe que, simplesmente por sua condição de existência sob o capital, carrega consigo a força necessária para nos levar a uma revolução social, não devemos ter medo da verdade. Esse problema deixamos àqueles cuja preocupação é mascarar a realidade acachapante do capitalismo a fim de impedir sua destruição. Mas, não basta a constatação; estabelecer a importância do estudo é o momento inicial. Precisamos ir além e compreender exatamente o que estudar, como estudar e o quanto estudar. A essas perguntas precede uma análise sobre as universidades, principais órgãos no desenvolvimento de pesquisa no Brasil contemporâneo. Notas “Nesse caso é preciso perguntar a si próprio não só se convencemos a vanguarda da classe revolucionária, como também se estão em movimento as forças historicamente ativas de todas as classes da tal sociedade, obrigatoriamente de todas, sem exceção, de modo que a batalha decisiva esteja completamente amadurecida, de maneira que 1) todas as forças de classe que nos são adversas estejam suficientemente perdidas na confusão, suficientemente lutando entre si, suficientemente debilitadas por uma luta superior a suas forças; 2) que todos os elementos vacilantes, instáveis, inconsistentes, intermediários, isto é, a pequena burguesia, a democracia pequeno-burguesa, que se diferencia da burguesia, estejam suficientemente desmascarados diante do povo, suficientemente cobertos de opróbrio por sua falência prática; 3) que nas massas proletárias comece a aparecer e a expandir-se com poderoso impulso o afã de apoiar as ações revolucionárias mais resolutas, mais valentes e abnegadas contra a burguesia.” P.50-51 Deve ser levado em conta os aspectos qualitativos das greves. Em quais setores se encontram, importância do setor, tamanho das empresas, quantidade de trabalhadores participando, grau de consciência. “No capítulo anterior sublinhamos a atracção geral da juventude instruída russa pela teoria do marxismo em meados dos anos 90. Também as greves operárias adquiriram, por aquela época, depois da famosa guerra industrial de 1896, em Petersburgo, um carácter geral. A sua extensão por toda a Rússia testemunhava claramente como era profundo o movimento popular que tornava a renascer, e já que falamos do «elemento espontâneo» é certamente este movimento grevista que deve ser considerado, em primeiro lugar, como espontâneo.” P. 20 “Sob a influência de uma série de fatores históricos completamente originais, a Rússia atrasada deu ao mundo o primeiro exemplo não só de um salto brusco, em época de revolução, da atividade espontânea das massas oprimidas (coisa que ocorreu em todas as grandes revoluções)” P.48 “Creio haver demonstrado que as lutas da classe operária pelo padrão dos salários são incidentes inseparáveis do conjunto do sistema de trabalho assalariado, que, em 99% dos casos, seus esforços para elevar os salários são apenas esforços destinados a manter o valor dado do trabalho e que a necessidade de disputar seu preço com o capitalista é inerente à condição dos operários de ter de vender a si mesmos como mercadorias. Caso cedessem covardemente em seu conflito diário com o capital, eles certamente se desqualificariam para a iniciativa de qualquer movimento de maior envargadura.” (MUSTO, 2014, p. 141). “que as classes são, geralmente e na maioria dos casos (pelo menos nos países civilizados modernos), dirigidas por partidos políticos; que os partidos políticos são dirigidos, via de regra, por grupos mais ou menos estáveis, integrados pelas pessoas mais prestigiosas, influentes o sagazes, eleitas para os cargos de maior responsabilidade e chamadas de chefes. Tudo isso é o ABC, tudo isso é simples e claro.” P. 16 Para tanto, ver Chasin: “‘Hasta cuando?’ A propósito das eleições de novembro” (2000, p. 121-142 ) e “Lula versus Luiz Inácio" (2000, p. 113-119). Esses textos se encontram na antologia política da I internacional organizada por Musto (2014). Os trabalhos mais difundidos, que pesquisam a classe trabalhadora hoje, são em sua maioria limitados à sociologia do trabalho, o caso das obras de Ricardo Antunes. Não se faz algo parecido com o que Engels fez em “A situação da classe trabalhadora na Inglaterra”. Os trabalhos mais difundidos sobre economia se restringem ao debate da política econômica, não se trabalha a economia como Marx fez em “O Capital”. Bibliografia CHASIN, José. A miséria brasileira: 1964-1994: do Golpe militar à crise social. Santo André: Ad Hominem, 2000. LUKÁCS, Georg. Lenin: um estudo sobre a unidade de seu pensamento. São Paulo: Boitempo, 2012. MARX, Karl. Contribuição à crítica da economia política. São Paulo: Expressão Popular, 2008. MUSTO, Marcelo. Trabalhadores, uni-vos: antologia política da I Internacional. São Paulo: Boitempo, 2014.

© Barravento

REVISTA BARRAVENTO

bottom of page