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  • Receita para Adiar o Fim do Mundo: acabar com o modo de Produção Capitalista! E nós acadêmicos, o que temos a ver com isso?

    APRESENTAÇÃO É com imenso prazer que a Equipe Editorial da Revista Barravento anuncia a publicação de um texto de autoria da profes sora Deise Luiza da Silva Ferraz no qual a autora discute o potencial revolucionário da Extensão Universitária, ou seja, a possibilidade de realização de projetos de extensão que possam contribuir para a destruição do modo de produção capitalista. O texto agora publicado pela Revista Barravento foi inicialmente preparado pela autora para a conferência de título “Capitalismo, Colapso Ambiental e Extensão Popular” a qual foi exposta no Seminário "Ciência Tecnologia e Sociedade na Extensão Popular", realizada no CEFET-MG em novembro de 2025. Ao reivindicar o potencial revolucionário da Extensão Universitária e, por conseguinte, sua capacidade de "adiar o fim do mundo" , o texto em questão nos convida a pensar sobre como efetivamente realizar tal potencial revolucionário. A autora, que possui anos de experiência na realização de projetos de Pesquisa e Extensão junto a Rede Tra-Ma e ao Nec Tra-Ma , como é o caso de projeto com os trabalhadores do Sistema Prisional e Socioeducativo de Minas Gerais , deixa claro que a a Extensão Universitária somente pode adquirir caráter revolucionário se for popular. Assim sendo, a autora sai em defesa da chamada "Extensão Popular", a qual seria parametrizada pelo "método da Produção Compartilhada de Conhecimento", ou seja, uma Extensão Universitária que entrelace pesquisa, ensino, extensão e luta para e com a classe trabalhadora. Em suma, para antecipar um trecho do texto a seguir: "A prática institucional que chamamos de Extensão tem o potencial de ser o espaço para nós, membros da classe trabalhadora, nos educarmos em conjunto com outros trabalhadores e trabalhadoras a fim de transformar o fazer científico em uma atividade revolucionária na teoria e na prática". Reside aí, portanto, o potencial revolucionário da Extensão Popular quando comparada a outras atividades curriculares tais como Estágios obrigatórios, Iniciação Científica e Monitorias: a possibilidade de entrelaçamento entre pesquisa, ensino e extensão voltado a ação prática revolucionária por parte daqueles envolvidos no projeto diante das circunstâncias concretas estudadas e vividas. Vê-se, portanto, que a curricularização da Extensão Universitária implementada no ano de 2018 não efetiva per se - grife-se - o potencial revolucionário das atividades de Extensão. Prova disso são as atividades de Extensão que incorrem na apologia do capital e no fomento acrítico à prática empreendedora, atividades que têm sido realizadas em larga escala especialmente no campo do conhecimento ao qual a autora do trabalho que se segue está ligada: o campo da Administração - "ligação" tão somente institucional, é bom que se diga. Isso porque a autora defende, enquanto marxista de rigor, um conhecimento totalizante do real, sendo contrária, portanto, às ciências parcelares e ao restrito enquadramento da produção de conhecimento científico a um único e exclusivo campo do conhecimento. Contudo, a existência de tantos projetos de Extensão de cunho acrítico e, ao fim e ao cabo, apologetas do modo de produção capitalista não atesta o fracasso e/ou à impossibilidade de realização da Extensão Popular nos moldes aludidos pela autora, antes o contrário: deflagra a vigência da cooptação das atividades universitárias pelos interesses da classe dominante e, por conseguinte, atesta a relevância de se discutir a temática da Extensão Popular e sua implementação como forma de adiar o fim do mundo. Isso porque só se adia o fim do mundo destruindo o modo de produção capitalista. Boa leitura! Rodrigo Vieira Ferreira (Barravento) [1] [1] Professor substituto no Departamento de Ciências Administrativas da Faculdade de Administração e Ciências Contábeis da Universidade Federal de Juiz de Fora. Membro da Equipe Editorial e do Núcleo de Entrevistas da Revista Barravento. Pesquisador da Rede-TraMa. *** Receita para Adiar o Fim do Mundo: acabar com o modo de Produção Capitalista! E nós acadêmicos, o que temos a ver com isso? [i] Por Deise Luiza da Silva Ferraz [ii] Hodiernamente, é comum dizer que o fim do mundo está mais próximo do que o fim do capitalismo. Querem nos ensinar que é impossível mudar o modo de produção capitalista, porém sabendo: i) que a partir da lei geral das trocas de mercadorias se estabelece uma tendência geral de queda da taxa de lucros, a qual a classe capitalista responde com medidas contrarestantes visando frear tal lei tendencial da produção capitalista: ii) essas medidas passam pelo aumento da produtividade do trabalho mediado pelo desenvolvimento tecnológico subsumido às necessidades da valorização; iii) desenvolvimento que repõe as relações de propriedade privada, onde de um lado temos uma classe que tem a propriedade dos meios de produção e dos meios de subsistência e, de outro, temos uma classe de despossuídos que se encontram numa posição na qual necessariamente sua capacidade de trabalho precisa assumir a forma de mercadoria força de trabalho; iv) necessidade que revela - ainda que não imediatamente - à classe trabalhadora que, para mudar o existente de modo radical, é necessária uma luta intencional para a superação do capitalismo. Uma luta que não se restrinja a adiar o fim do mundo e sim dar fim às condições concretas que fazem do fim do mundo uma realidade cotidiana. Tendo em mente essa necessidade histórica, pretendo provocá-los e provocá-las a pensar sobre a Extensão Popular como uma ferramenta nesta luta, sobretudo sobre os desafios que se colocam para nós extensionistas. Para isso vou seguir três linhas de raciocínio:  A primeira visa falar do imediato, falar do porquê é mais fácil pensar no fim do mundo do que no fim do capitalismo. Na segunda linha, colocar elementos que permitam pensar como, subjetivamente, é difícil imaginar o fim do capitalismo e, face a essa dificuldade, pensar como as formas cotidianas e tradicionais de viver aparecem como uma forma de resistência. Na terceira linha vou provocá-los e provocá-las a pensar sobre o papel dos extensionistas e dos pesquisadores e pesquisadoras para se produzir um conhecimento que seja alavanca para se pensar no fim do capitalismo. A extensão é uma atividade laboral exigida do corpo docente e discente no país e fazer dessa exigência um instrumento na luta de classe pode vir a ser uma resposta às ofensivas da classe capitalista. Nesse sentido, problematizar a disputa da Extensão para que ela se converta em uma ferramenta da classe trabalhadora e para a luta da classe trabalhadora é urgente, pois a classe capitalista há muito entendeu o potencial da Extensão tanto que, se antes ela era uma atividade “supérflua” para a carreira universitária e servia, em geral, para aumentar a renda de docentes e discentes via igualação da Extensão aos serviços de consultorias, hodiernamente, a Extensão se tornou carga obrigatória nos currículos escolares, atividade fomentada por editais públicos e critério de avaliação dos programas de pós-graduação conforme seus impactos sociais. Evidente que a régua para medir o que são esses impactos segue a métrica da criação de oportunidades para a expansão do capital, demonstrando que a Extensão é uma ferramenta que se constitui nas disputas sobre sua finalidade: da Extensão mercadológica à Extensão Popular, passando pela conhecida Extensão Filantrópica. As disputas sobre a finalidade das atividades extensionistas determinam sua potência enquanto ferramenta para a classe trabalhadora avançar na luta, mas também, a potencialidade de servir a contraofensiva do capital. Deste modo, é nesse momento em que a denúncia das mazelas vividas pela classe trabalhadora devido à exploração desmedida da natureza se manifesta como morte anunciada do mundo, que tomar a Extensão como nossa ferramenta para pensar e agir no sentido de não mais adiar o fim do capitalismo é a forma de atuarmos para adiar o fim do mundo. Agir para o fim do modo de produção capitalista é tarefa histórica para que se adie o fim do mundo, contudo, por que é mais fácil pensar no fim do mundo do que pensar no fim do capitalismo? Essa semana mesmo, Bill Gates, um capitalista entusiasta da “economia verde”, decretou que a crise ambiental não iria extinguir a humanidade, porque a ciência sempre pode produzir respostas aos colapsos ambientais. Contudo, se olharmos de perto, vamos observar que as respostas que a ciência tem produzido freiam as quedas das taxas de lucro e abrem outros campos para a exploração capitalista - inclusive a chamada economia verde -, mas sem frear o movimento de exploração da natureza e da classe trabalhadora. E nós, trabalhadores e trabalhadoras, sentimos os efeitos dessa intensificação capitalista da exploração.  E sentimos diariamente e de diferentes modos: Sentimos quando olhamos para o céu no final da jornada de trabalho para avaliar se no caminho de casa não seremos atropelados pelas enxurradas dos finais de tarde em Belo Horizonte, cidade que se ergueu canalizando seus rios e cobrindo-os com asfalto. Sentimos quando relembramos no dia 05 de novembro de 2025 os dez anos do crime do rompimento da barragem de Fundão que destruiu toda uma comunidade, a comunidade de Bento Rodrigues, matou 19 pessoas e deixou um rastro de destruição ambiental irreparável.  Sentimos quando presenciamos, só no Brasil, mais de 700 mil mortes por Covid-19 - um vírus que, como sabemos, se desenvolveu a partir das condições em que os animais são produzidos para se tornarem mercadoria. Sentimos quando - e aí falo como uma sul-rio-grandense - casas são tomadas pela água que cobriu uma parte significativa de um estado inteiro por meses. Milhares de pessoas recorreram aos abrigos precários e reaprenderam a viver sem energia elétrica, sem água potável e sem internet. Esses poucos exemplos já nos dizem porque, para nós trabalhadores e trabalhadoras, pensar no fim do mundo é mais fácil do que pensar no fim do capitalismo - e nem entro no fim do mundo expresso a partir das práticas de guerra e genocídio, como os da faixa de gaza; ou ainda, nem menciono o fim do mundo que chega quando ocorrem chacinas como a que deixou 121 mortos no RJ. Como diria a minha saudosa avó: realmente, é o fim do mundo!  O nosso mundo imediato acaba todo dia um pouco, mas ele acaba no mesmo movimento que faz todo dia crescer a conta bancária dos capitalistas, sobretudo dos transnacionais. Frente a isso, é fácil dizer, tal como o tio Bill, que a crise ambiental não vai acabar com a humanidade, porque no horizonte médio da classe capitalista, a humanidade pode ser resumida ao seu extrato bancário.  Os desdobramentos nefastos da exploração capitalista se materializam em processo de adoecimento de trabalhadores e trabalhadoras, nos crimes ambientais que destroem moradias e comunidades, na violência crescente da ação do estado e de grupos organizados em torno do que podemos chamar de indústria ilegal - tal como a guerra às drogas, por exemplo -, nas diferentes formas de opressão que violentam e matam quem supostamente é julgado como ameaça por ser diferente. Porém, na nossa consciência imediata de classe, esses desdobramentos não são apreendidos como um produto da exploração de humanos e não-humanos por uma classe cujo interesse necessário é acumulação segundo uma reprodução ampliada do capital. Muito pelo contrário, apreendemos tais desdobramentos como o fim do mundo e, enquanto ele não chega de fato para todo mundo, o capitalismo até parece produzir algumas vantagens para a classe trabalhadora. Nossa?! Quem aqui imagina como seria viver sem redes sociais? Como seria a vida sem poder desopilar jogando videogame ou vendo uma partida de futebol no domingo? O fim da jornada 6X1, que é uma luta urgente e necessária, reivindica justamente um tempo a mais para a classe trabalhadora poder usufruir das mercadorias produzidas pela própria classe trabalhadora e compradas em 12 vezes no carnê das Casas Bahia. E na nossa consciência imediata, não haveria internet, celular, videogame se não fosse a classe capitalista, se não vivêssemos no capitalismo. A reprodução das nossas vidas mediadas pela forma mercadoria faz com que seja produzida uma forma de subjetividade, uma consciência, que no limite, só quer é ter acesso a essas mercadorias e superar o modo de produzi-las aparece como um contrassenso às possibilidades de usufruir da vida. Nosso modo de viver, nossa prática e nossas ideias - nossos elementos culturais, nossas crenças, nossa ciência, em suma, o conjunto de ideias que expressa a nossa forma de conhecer o mundo - emana diretamente das relações que traçamos e, enquanto relações determinantes, temos a relação em que o trabalho está subsumido ao capital. E aí, a indústria cinematográfica, a indústria fonográfica, a indústria dos influenciadores digitais, a indústria da fé e inclusive a ciência burguesa, em especial as ditas ciências sociais e humanas, são mediações necessárias que reforçam nosso apego sentimental aos modos de viver mediados pelo consumo de mercadorias. Ao estarmos subjetivamente apegadas e apegados aos nossos modos de viver como sendo a forma possível de usufruir do mundo, fica mais fácil para a classe capitalista tornar a necessidade histórica do fim do capitalismo uma impossibilidade. Porém, diferente do que imaginava Hegel, o racional não é real, nem o real é racional. O real da sociedade de classes é contraditório. Assim, a forma como estamos no mundo pode também ser resistência e sua potencialidade de vir a compor uma luta emancipatória depende do grau de sua radicalidade. Agora, nossas resistências também produzem a contraofensiva do capital, de modo que cooptar aqueles que resistem é tarefa da classe capitalista. Na maioria das vezes, essa tarefa é realizada pela mediação do Estado via suas diferentes instituições, como as universidades, por exemplo; mas também, pelos aparelhos empresariais tais como seus empreendimentos que tomam a forma de fundações, institutos e associações e que ora ou outra apresentam, por exemplo, suas propostas de iluminar à educação da classe trabalhadora com uma “Led na Educação”. Disputar nossas resistências e cooptá-las antes que elas sejam por nós transformadas em luta emancipatória é uma necessidade da classe capitalista. Vale registrar que a forma de estarmos no mundo e o conjunto de saberes sobre as relações sociais que travamos estão postos para todos os despossuídos que compõem, de forma mediada ou imediata, a classe trabalhadora. Friso isso porque é preciso destacar que quando digo classe trabalhadora, de modo algum, me refiro a um grupo homogêneo que vem ao nosso imaginário sendo homem, cis, branco, hétero e de macacão marrom e capacete.  A classe trabalhadora é diversa. Em sua maioria, as pessoas que a compõem se reproduzem apenas por meio da venda de sua força de trabalho - e aqui não se exige que essa venda tenha uma carteira de trabalho. Se para se reproduzir precisas - ou alguém de teu grupo imediato, vulgo família - vender tua capacidade de trabalho, sinto informar, és membro da classe trabalhadora. O nosso gênero, nossa cor, nossa sexualidade são elementos que historicamente determinam as possibilidades da venda; mas não eliminam a necessidade dela. Porém, a classe trabalhadora é diversa em outro sentido. Ela é composta, também, por aqueles grupos que conhecemos como grupos tradicionais e/ou originários, no estado de Minas Gerais, as comunidades quilombolas e indígenas, por exemplo.  Comunidades que têm seus costumes e que reproduzem suas vidas, concomitantemente, em maior ou menor grau, por meio do resultado direto de seus trabalhos e por meio de mercadorias adquiridas no mercado. Tal concomitância só é possível porque ainda possuem uma relação de posse da terra - esse meio de produção essencial para a produção dos meios mais básicos de subsistência. Eis porque a demarcação dos territórios é fundamental para a continuidade da resistência dessas comunidades, que resistem não porque estão apartadas do modo de produção capitalista, mas porque estão formalmente subsumidas a ele. Porém, essa posse nem sempre é suficiente para garantir a reprodução dos grupos, não sendo raro encontrar - em especial entre os quilombolas e pequenos agrupamentos campesinos -, indivíduos que vendem sua força de trabalho como forma de garantir o acesso desses grupos às mercadorias necessárias à reprodução da vida. A reprodução dos costumes, da cultura e das crenças que compõem o conjunto do conhecimento dessas comunidades é a expressão de uma resistência que tenta frear a transformação de uma subsunção formal a uma subsunção real. Tal como para as “comunidades não-tradicionais” - mas que possuem suas tradições - que compõem a classe trabalhadora, ou seja, as comunidades do morro, do bairro, os sindicalizados, os não sindicalizados… que quando resistem precisam estar vigilantes para que suas bandeiras não sejam transformadas em lema de inclusão pró-capital; a resistência das comunidades tradicionais também está em disputa. E novamente, nessa disputa, a classe capitalista lança mão de atividades mediadoras, lança mão de suas fundações e das instituições do Estado, inclusive, valendo-se das Universidades, Institutos, Cefets e da famosa indissociabilidade entre ensino-pesquisa-extensão.  Como já dito, nas sociedades de classe, o real é contraditório e nossa forma de estar no mundo, nossa forma de produzir conhecimento científico e expandi-lo para além dos muros das Universidades, Institutos, Cefets e Colégios de Aplicação não é somente consentimento ao capital, é também resistência. Porém, como para o restante da classe trabalhadora, para nós também vale a máxima: resistir apenas não basta. É preciso também enfrentar! Isso está posto para todo e qualquer grupo que é expressão da diversidade na unidade da classe. No que diz respeito ao campo científico, o desenvolvimento das forças produtivas aprofundou a divisão técnica do trabalho e a tarefa de produzir ciência, que há 300 anos era realizada pelos membros da classe dominante, hoje é tarefa dos membros da classe trabalhadora. As Universidades, os Institutos, os Cefets, os Colégios de Aplicação são formados por trabalhadores e trabalhadoras. Somos docentes-pesquisadores/as, somos técnicos/as administrativos/as, somos trabalhadores e trabalhadoras em formação. E no processo de produzir conhecimento para o capital, somos também treinados na habilidade de produzir conhecimento em geral. É aqui que quero problematizar o nosso papel na Extensão Popular. Quando digo Extensão Popular, me posiciono no lugar da disputa por essa ferramenta institucional. Uma ferramenta que se constitui no próprio processo de luta. A Extensão ao ser qualificada como Popular indica a existência de um movimento de resistência e enfrentamento no interior do campo científico que sabe que essa prática institucionalizada não pode servir ao capital; não pode ser mitigadora pontual dos problemas gerados pelo processo de valorização do valor. A Extensão Popular tem potencial e precisa ser uma ferramenta que sirva de alavanca para transformar resistência em enfrentamento e luta. A Extensão Popular pode ser um elemento que nos auxilia na produção de conhecimento e práticas rumo à emancipação das classes e superação de todas as formas de opressão. Para que a extensão popular seja uma ferramenta de resistência e luta, nós extensionistas - sejamos docentes ou discentes -, precisamos ser vigilantes e não praticar a militância ingênua que assume a dualidade entre os/as intelectuais e os demais membros da classe. Para explicar o que estou querendo alertar, vou recorrer ao vivenciado nas atividades de Extensão-Pesquisa que desenvolvo há mais de 15 anos. Atualmente, a Rede-TraMa, rede nacional de grupos de pesquisa da qual faço parte e, mais especificamente, o Nec-TraMa, grupo de pesquisa da UFMG que coordeno, utiliza para a realização de suas pesquisas o que é chamado de método da Produção Compartilhada de Conhecimento, um método que tem origem nas experiências do Movimento Operário Italiano e na luta sanitarista de meados do século XX. Sua principal referência é o Odone e na América Latina, no campo da saúde, Asa Cristina Laurell e sua equipe da escola de Xochimilco no México. Esse método, para nós, é também uma técnica. É uma técnica que proporciona mecanismo de intervenção militante na realidade. É um método porque, das experiências vivenciadas na intervenção, se produz conhecimento com e para a classe trabalhadora. Enquanto técnica, é possível, por meio da institucionalidade da extensão, montar grupos de trabalho nas comunidades pesquisadas. Em nossa prática, já tivemos grupos de trabalho formados com trabalhadores e trabalhadoras da reciclagem, com trabalhadores e trabalhadoras do MST, com trabalhadores e trabalhadoras do MTD, com trabalhadores e trabalhadoras da siderurgia, do sistema prisional e da mineração. Ademais, para nós, a comunidade são todos aqueles grupos atingidos pelo problema no qual estamos intervindo juntos e juntas. Por exemplo, na pesquisa sobre os desdobramentos da mineração para a saúde da classe trabalhadora em MG, não só os empregados e terceirizados das mineradoras são a comunidade, mas também toda a população que reproduz sua existência no ambiente de operação das empresas mineradoras. Mas, com um detalhe, os grupos de trabalho são compostos por aqueles e aquelas que resistem em maior ou menor medida à forma exploratória do capital sobre a classe trabalhadora e sobre a natureza e pelos trabalhadores e trabalhadoras da ciência - docentes, técnicos administrativos e discentes. Esses grupos de trabalho são denominados no âmbito da Produção Compartilhada de Conhecimento como Comunidade Científica Ampliada. Na nossa técnica extensionista e de pesquisa, não há espaços na Comunidade Científica Ampliada para representantes de empresas ou do Estado (não desconsideramos que, em geral, esses representantes são também classe trabalhadora, a questão aqui não é o indivíduo, mas sua persona, a máscara econômica que ele representa). Na Produção Compartilhada do Conhecimento, não se assumem as propostas de outros métodos de pesquisa-extensão, tais como a Pesquisa-Ação, que advogam, buscando uma tal neutralidade, a incorporação dos diferentes agentes representantes de diferentes interesses, isso porque para nós, essa neutralidade é impossível, pois não se trata apenas de interesses diferentes, mas de interesses contraditórios. Isso lhes soa antidemocrático? Cuidado! Não podemos esquecer que democracia em abstrato é dominação! Representantes da classe capitalista não tomam parte nos grupos de trabalho porque estes são espaços para a classe trabalhadora produzir informações necessárias à resistência da classe trabalhadora. Ter “cota” para o capital nesses espaços é ingenuamente ceder à contraofensiva da classe que nos explora.  A defesa de espaços “democráticos” de construção discursiva ao gosto da ação comunicativa é uma ingenuidade que a Extensão Popular não pode ter. Consensos sobre a relação contraditória capital-trabalho apenas repõem as condições necessárias à exploração, isso porque “democratiza” os saberes que são mecanismos de nossa resistência. Porém, como dito anteriormente, no interior da classe trabalhadora, a partir do nosso modo de estar no mundo, temos uma consciência apegada ao modo de viver sob o capital e o que conhecemos das relações sociais é uma apreensão imediata destas relações. Deste modo, mesmo tendo os grupos de trabalho compostos por lutadores e lutadoras da classe trabalhadora, um obstáculo precisa ser transposto quando queremos transformar as informações coletadas em conhecimento voltado para a emancipação das classes: as consciências individuais. Esse obstáculo tem duplo aspecto. Por um lado, sua base é afetiva, por outro, ele é fruto de uma habilidade intelectual de abstração pouco desenvolvida, dificultando que a força de abstração sirva ao conhecimento do real. Em geral, o primeiro aspecto, inclusive, é a base para rechaçar o desenvolvimento da capacidade de abstração. Aqui entra a necessidade da vigilância constante daqueles e daquelas que, devido à divisão técnica do trabalho, têm suas capacidades físicas e psíquicas consumidas no campo da produção da ciência, em resumo, nós pesquisadores e pesquisadoras formados ou em formação. Porque quando chega o momento de a atividade de extensão transformar as informações compartilhadas e coletadas pelas Comunidades Científicas Ampliadas em conhecimento que sirva a luta de classes, a forma de conhecimento imediata produzida afetivamente ao longo da vida de cada participante sobre como responder aos problemas enfrentados choca-se com a necessidade de apreender esse modo particular de viver como sendo mera expressão de um movimento totalizante.  Na sociabilidade capitalista, nós nos reproduzimos mediados pela troca, nossos vínculos são de uma dependência recíproca, mas indiferente. E na produção dessa individualidade racionalmente egoísta, a tendência é que a minha particularidade - e a da minha comunidade - expresse a verdade do todo, na concepção imediata, o modo de ser e perceber as relações sociais do meu grupo, da minha comunidade, não é um “mero” momento do todo. A minha particularidade não é tomada, imediatamente, pela consciência, como um aspecto diverso de uma unidade. Unidade que é produzida pela determinação do processo de valorização do valor. Por isso, em nossos projetos de extensão e produção de conhecimento, corremos o risco de assumir o saber imediato sobre a forma pelas quais as comunidades se reproduzem como um obstáculo para a produção de um conhecimento emancipatório. E a afirmação de um modo de vida que é produto da negação das condições necessárias para um desenvolvimento pleno da humanidade se torna a forma de resistir a essas condições. Nos defrontamos, então, com a criatura reafirmando seu criador. E o tamanho desse obstáculo pode ser mensurado pelo grau de afetividade que existe nas formas pelas quais apreendemos o mundo.  No que tange a relação dos colapsos ambientais frutos da exploração capitalista da natureza, por exemplo, em minha experiência extensionista, já vivenciei a resistência ao avanço do capital sobre os territórios de comunidades ter como denúncia acertada a crítica ao modo como o ser humano se relaciona com a natureza sob o imperativo da geração do lucro, mas como solução não se encontra a superação das condições que produzem o lucro, mas a alteração ética da relação humano-natureza pela antropomorfização do natural, ou seja, resgatando explicações ancestrais tais como a de que a natureza é parte de nossa família. Aí, com todo o respeito, eu me pergunto, para nós mulheres que somos exploradas e oprimidas para que se realizem os interesses do capital, basta ser da família para garantir o fim da exploração? Trata-se de uma pergunta retórica, pois, como aponta a tese de Marília Souza e vários outros estudos, a maior parte da violência contra a mulher e meninas é realizada por companheiros, pais e tios, ou seja, por membros da família. Se ser reconhecido como membro da família não garante a segurança e a vida das mulheres, presume-se que tampouco reconhecer rios, montanhas, mares como sendo da família daria fim à exploração desmedida da natureza. Porém, no imaginário generalista e imediato, família é afeto positivo idealizado e, deste modo, tal solução é palatável para toda pessoa que se indigna face ao que se julga injustiça. Assim as soluções que possuem apego afetivo e incluem crítica a racionalidade científica dita ocidental dificultam o processo de apreender o limite das soluções que brotam da imediaticidade do real - seja ele pautado num presente próximo ou na ancestralidade -, pois apreendê-lo exige, por um lado, um rompimento afetivo com nossas crenças e saberes imediatos e por outro, superar o modo racional de produzir a ciência burguesa. Ao que diz respeito ao rompimento afetivo com nosso saber imediato (tradições, costumes, crenças, opiniões) frisa-se: ignorar a necessidade do rompimento visando evitar dilemas e conflitos pessoais é uma ingenuidade que a Extensão Popular não pode se dar ao luxo. Onde houver Extensão Popular, existirá a produção de dilemas pessoais e conflitos interpessoais, pois não se criam práticas revolucionárias dentro de posições que nos foram ensinadas como confortáveis pelo capital. A tarefa de todos e todas na Comunidade Científica Ampliada não é evitar os dilemas e conflitos pessoais, mas encontrar os meios de superá-los. Para que se rompa com as soluções imediatistas, outra tarefa que cabe aos membros da Comunidade Científica Ampliada na Extensão Popular é a criação de espaços para o desenvolvimento da capacidade de abstração. Num primeiro momento, poderia dizer que se existe um lugar ímpar dentro da divisão técnica do trabalho para o desenvolvimento dessa capacidade, é justamente no extrato da classe trabalhadora que se ocupa do fazer científico. Porém, como dito anteriormente, esse fazer científico também responde às necessidades da valorização e, no campo das ciências sociais e humanas, atender a tais necessidades significa produzir um conhecimento que abstraía, pero no tanto. Prova disso é a estruturação do conhecimento em disciplinas. E assim, como pesquisadores e pesquisadoras, somos educados a recortar o objeto pesquisado, mas não somos educados para investigar os nexos determinantes que mantêm a ligação real entre os recortes artificiais que realizamos. Isso porque, apreender essas determinações é produzir um conhecimento que expõe a raiz dos problemas e, não somos pagos para isso. Pelo contrário, comprar nossa força de trabalho só tem valor de uso para o capital se produzirmos um conhecimento que até fale da raiz, mas sem demonstrar o que é a raiz. E, por isso, o desenvolvimento de nossa capacidade analítica só pode alçar o voo da generalização amostral ou da categorização de sentidos. Até podemos, dentro dos limites do cardápio epistemológico da ciência moderna ou pós-moderna, descrever os modos de viver e resistir de um grupo particular da classe trabalhadora, mas jamais expô-lo como produto particular do movimento de universalização do capital; porque fazer isso seria contribuir para o entendimento da necessidade histórica desses sujeitos particulares se constituírem como sujeitos históricos na luta de classe. Então, a questão que se coloca para nós acadêmicos - docentes e discentes - membros da classe trabalhadora é: até quando nos manteremos presos e presas às amarras da ciência necessária ao capital? Romper com essas amarras, tal como posto para os demais grupos da classe trabalhadora, também exige que rompamos com o modo que aprendemos a ser acadêmicos e acadêmicas. Um modo que nos aparta do ser da nossa classe. A divisão técnica do trabalho exige uma qualificação da nossa força de trabalho que até, em certa medida, garante um salário que corresponde ao necessário para a manutenção dessa qualificação, mas como já dizia Marx, um salário maior não significa deixar de ser trabalhador e trabalhadora assalariado. E, aí, um segundo aspecto da extensão ingênua precisa ser rompido: a suposta superioridade do intelectual garantido pelo fazer científico que tanto aterroriza os extensionistas que acreditam que praticar o exercício da abstração é oprimir os não acadêmicos. Na ânsia de não serem frutos de uma educação não libertadora, isto é, na ânsia de não serem o oprimido que se torna opressor apenas por ter ascendido ao ensino superior, negam o que essa divisão técnica do trabalho pode nos permitir: produzir um saber que apreende o real para além de sua aparência. Ademais, digo suposta, porque basta terminar a bolsa ou o desemprego bater, que as bases da superioridade científica começam a ruir, provando que, no atual momento do estágio do desenvolvimento das forças produtivas - talvez nem se possa restringir apenas ao tempo atual -, a superioridade de ninguém se garante pelo seu quantum de “capital intelectual”. Afinal, vivemos num tempo em que a ciência tem sua legitimidade social sobre a produção da verdade abalada. Presenciamos o crescimento desmedido do rechaço ao saber científico. E assumir que nos contrapomos a esse rechaço apenas limitando o produto do fazer científico aos saberes locais e às crenças dogmáticas gerais é uma resposta ingênua da classe trabalhadora à contraofensiva da classe capitalista que fez do irracionalismo seu porta estandarte científico que abriu alas para o recrudescer dos ataques ideológicos postos em marcha pelas diferentes indústrias culturais e da fé. Não será abrindo mão do potencial de produzir conhecimento que expresse a universalização do movimento do capital que produz uma diversidade de particularidades nefastas para a classe trabalhadora que iremos colaborar para mudar o que nos foi dito ser impossível de mudar. O desafio que se coloca para nós trabalhadores e trabalhadoras da ciência que tem na prática extensionista sua forma de estar junto na luta não é saber equilibrar o saber local com o saber científico; é conseguir criar condições em que se supere inclusive o modo tradicional de fazer ciência. É necessário romper com a primazia do subjetivismo na ciência - caráter este presente tanto no que se chama de ciência moderna quanto no que se chama de ciência pós-moderna e que, em última instância, são apenas dois modos de ser da ciência burguesa. É necessário superar a ciência burguesa e não a prática científica, pois, como já colocava Marx, a ciência só seria desnecessária se aparência e essência coincidissem.  Como aparência e essência não coincidem e, no capitalismo, a segunda tem na primeira sua expressão fetichizada, a ciência radical é a ciência necessária à classe trabalhadora. Eis porque uma tarefa que se coloca aos trabalhadores e trabalhadoras da ciência na Comunidade Científica Ampliada é criar espaços em que todos e todas que se colocam em luta consigam desenvolver a capacidade intelectiva da abstração, espaços em que consigam, em suma, entender como sua particularidade é produto de um movimento que se universaliza e que essa sua particularidade se conecta com outras particularidades sociais e naturais de modo que a reciprocidade dessas conexões reproduzem as condições exploratórias de uns seres humanos sobre outros seres humanos e sobre não-humanos. Condições exploratórias que necessariamente precisam ocorrer e se intensificar em nome da reprodução do parasitismo de uma classe que não vê o mundo se acabando todo dia porque não precisa “subir o morro depois de 12 horas de trabalho antes da chuva chegar”. Para nossa classe, o mundo acaba um pouco todos os dias e todo dia acaba um pouco. Por assim ser, temos que colocar a Extensão a serviço da classe trabalhadora, disputá-la e torná-la uma ferramenta para a produção de uma prática militante emancipatória que se efetiva no mesmo processo de produção de conhecimento emancipatório. Esse é o sentido de não existir movimento revolucionário sem teoria revolucionária e não existir teoria revolucionária sem a prática revolucionária. A prática institucional que chamamos de Extensão tem o potencial de ser o espaço para nós, membros da classe trabalhadora, nos educarmos em conjunto com outros trabalhadores e trabalhadoras a fim de transformar o fazer científico em uma atividade revolucionária na teoria e na prática.  Como todo dia o mundo acaba um pouco para a classe trabalhadora e o canto do trabalhador segue apenas soando como um soluçar de dor, nossa prática de trabalhadores e trabalhadoras do fazer científico necessita ser uma prática diária que visa revolucionar o modo de produção que torna o fim do mundo a possibilidade possível. Não há mais como adiar, o fim do mundo está acontecendo e a forma de nos salvarmos é dar fim ao que o produz. O fim do capitalismo é nossa tarefa de classe desde que nos tornamos classe e, como membros da classe trabalhadora, podemos lutar com as ferramentas à disposição. A extensão é uma delas! Tomemo-la e transformamo-la em Extensão que sirva à emancipação das classes, ou seja, sejamos trabalhadores e trabalhadoras da ciência unidos e unidas aos trabalhadores e às trabalhadoras do mundo!  Notas [i] Este texto foi produzido para a conferência “Capitalismo e Colapso Ambiental e Extensão Popular” proferida no Seminário Ciência Tecnologia e Sociedade na Extensão Popular, realizada no CEFET-MG de 05 a 07 de novembro de 2025. Na ocasião o debate foi antecedido por uma fala de abertura em memória a Professora Vera Cotrim. Fala reproduzida nesta nota: “Boa tarde a todos, a todas e a todes. Antes de falar sobre o tema que nos traz aqui hoje, eu quero fazer um agradecimento pessoal em público. E peço uns poucos minutos para contextualizar esse meu agradecimento. Eu sou do RS, mudei para Minas Gerais em função do concurso público na UFMG em 2012. Desde então, tenho uma relação com o CEFET, tanto acadêmica quanto pessoal. Essa não é minha primeira participação no Seminário. E me sinto lisonjeada cada vez que o convite chega. Em 2019, eu fui convidada para fazer uma mesa no Evento. Uma professora nova no Cefets, mas conhecida no meio acadêmico seria a mediadora e, na semana do evento, me enviou um e-mail perguntando como eu gostaria de ser apresentada. Respondi como geralmente respondo a essa pergunta: Pode dizer que estou Professora de Administração na FACE/UFMG, e que sou marxista, feminista e militante sindical. Ela me respondeu: serei fiel às tuas palavras. Ao chegar ao CEFET naquele dia, eu me perdi, não achava a sala e ainda estava chovendo. Entre segurar a sombrinha e mandar mensagens para a organização do evento, foram minutos de atraso. Lembro muito bem do momento em que eu consegui localizar o corredor em que seria a atividade. Lembro porque prontamente uma mulher desconhecida abriu os braços e veio em minha direção com um enorme sorriso e me deu um forte abraço. Foi um gesto que me tocou profundamente e depois desse dia, nós estabelecemos parcerias acadêmicas e uma grande amizade. Sua alegria contagiante, sua indignação contra a exploração e as opressões e sua intelectualidade preenchiam horas de conversas e confidências. Pela influência dela, iniciei meu curso de filosofia na UFMG e no último encontro que tive com ela em julho passado, ela compartilhou o projeto que tinha de um novo livro que envolvia a filosofia. E, nesta semana, estaríamos comemorando o aniversário dela. Por isso, eu não teria como começar minha fala, e espero que todos e todas me compreendam, sem deixar público meus mais profundos agradecimentos por tudo que essa mulher me ensinou, nos ensinou. E quem foi aluno e aluna da Professora Vera Cotrim entende do que estou falando, porque se havia algo que a motivava na vida acadêmica, era ver os olhos de vocês indagando o mundo e compartilhar com vocês a mesma vontade de mudar o mundo. Espero que todos e todas tenham sempre na lembrança esse ensinamento dela: nada é impossível de mudar e por isso, não é impossível superar o capital e todas as formas de opressão que ele engendra. Vera Cotrim, Presente!” [ii] Professora no Departamento de Ciências Administrativas da Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade Federal de Minas Gerais. Feminista, Marxista e Militante Sindical. Pesquisadora da Rede-TraMa.

  • Notas sobre o desencadeamento político global no ano de 2025

    Fonte: Human Rights Watch Em um ano de acirramento das contradições típicas da sociabilidade do capital, a extrema-direita, além de consolidar o espaço conquistado na última década, busca expandir sua hegemonia na correlação de forças mundial, arregimentando as frustrações da classe trabalhadora e, mais do que isso, intenta se colocar como gestora das sucessivas crises não solucionadas pelas políticas esgotadas do reformismo, hoje expresso principalmente pelo campo progressista internacional. Israel, o genocídio Palestino e a criminalização do combate ao antissionismo e o antifascismo. O ano de 2025 foi marcado pela vergonhosa censura politico-midiática mundialmente articulada pelos países centrais do capitalismo global e rapidamente assimilados pelas burguesias nacionais ao redor do mundo, mascarando  através dos meios de comunicação hegemônicos o genocídio palestino como um conflito entre iguais, como a guerra entre a civilidade (Israel) e o monstro do “terrorismo” (palestinos). O maniqueísmo típico dos mascaramentos ideológicos abstratos de um capitalismo em deterioração buscou na desculpa de ver o Hamas em todos os lugares, o pretexto para que o governo fascista de Israel destruísse mais de 90% dos edifícios de Gaza e assassinasse mais de 60 mil palestinos segundo a Organização Mundial da saúde (OMS). A instrumentalização da pauta do antissemitismo como forma de normalizar o sionismo replicou (aos moldes da análise marxiana), “primeiro como tragédia e depois como farsa”, um dos mascaramentos mais cruéis e bárbaros vistos na história recente das “civilizadas” democracias liberais. Benjamin Netanyahu, que não pode mais se reeleger para o cargo de primeiro-ministro, fez o “trabalho sujo” para a extrema-direita israelense em conluio com os governos dos EUA (tanto Biden quanto Trump).  O apartheid praticado por Israel soterrou os anseios idealistas, ainda que bem intencionados, dos que sonhavam com uma solução de dois Estados, evidenciando que enquanto existir o Estado sionista de Israel, não haverá paz para o povo palestino e para a classe trabalhadora do chamado Oriente Médio. Tampouco haverá paz para a classe trabalhadora mundial, visto que a forma militarista de autoimposição do governo sionista nos levou a possibilidade de escalada de conflitos entre os blocos hegemônicos do capital. Para além do contexto regional e apesar das cenas de um genocídio mundialmente assistido — escorrendo pelos dedos da mão de ferro dos algoritmos cenas da barbárie através de canais independentes —, o consenso dos grandes oligopólios de mídia em censurar as expressões de apoio para a causa palestina (além da reiterada e explícita repressão policial, com detenções às manifestações físicas e de ativistas internacionais), evidência o caráter privado das redes, controladas de maneira impessoal, mas muito bem direcionadas, via algoritmos que normalmente não têm seus parâmetros claros ao público. Temos aí uma contradição importante dessa era digital, que se expressa na medida em que a insatisfação da classe cresce mundialmente. Quando esta mesma classe se alinha à esquerda e busca se valer da velocidade da divulgação para expor as barbáries cometidas pelos capitalistas ao redor do globo, numa tentativa desesperada de circular imagens de um mundo em colapso, cresce também, na mesma velocidade, o controle e o mascaramento perpetrado pelos reais detentores desse espaço supostamente democrático chamado internet. A cooptação do ressentimento das massas, as redes sociais como potencializadoras da barbárie e a brutalização dos vínculos pessoais. Enquanto manifestações de apoio a causa palestina e de rechaço ao genocídio cometido por Israel são censurados, as mesmas redes sociais são ambiente para a difusão de discursos de ódio misóginos. Não podemos esquecer que no Brasil em 2025 o machismo e a misoginia fizeram com que homens matassem cerca de 1000 mulheres  segundo o Ministério da justiça e Segurança Pública. O atual patamar da violência de gênero no Brasil evidencia a crise do capital, a falta de um bloco histórico revolucionário solidificado e o esgotamento da gestão burguesa progressista de suas próprias contradições, penetrando em todos os poros da sociabilidade.  Avanços, marcos legais e culturais que antes eram tidos como inabaláveis, advindo de ciclos de lutas históricos que culminaram em avanços instrumentalizados pelo progressismo (gênero, racial e afins), já não são suficientes para apaziguar a insatisfação advinda dos e das trabalhadoras. Neste aspecto temos uma contradição gritante e consequentemente uma tática da direita e até mesmo de alguns setores de esquerda para lidar com tal contradição. Esta se exprime no fato de que, tais marcos culturais e legais, advindos da política econômica de crescimento dos primeiros anos do governo petista, ao se consolidarem como conquistas no âmbito do Estado, nos legando avanços culturais e leis como políticas de estado para a formalização do combate às opressões (política de cotas, reconhecimento do racismo como crime de injúria racial, lei maria da penha e demais políticas buscando solucionar a desigualdades de gênero, assistência às camadas mais vulneráveis da classe trabalhadora, incentivo para o acesso ao ensino superior e afins) se tivessem sua expansão afirmada de maneira efetiva, levaria nada mais e nada menos que a uma demanda cada vez maior de aprofundamento na solução de tais mazelas, indo de encontro necessariamente com as políticas econômicas de corte de gastos. Partindo desta tensão colocada, o reformismo lida com tais pautas de forma puramente marketeira ao impulsioná-las durante o período eleitoral e até mesmo gesta (ou retroalimenta) em seu bojo um rechaço reacionário a tais pautas na medida em que elas são fatores de cobrança advindas da classe, sobretudo a classe organizada, que coloca a própria gestão reformista contra a parede (a exemplo do que se observa a partir de 2022). Se tornou comum nos setores reformistas a análise preguiçosa de enquadrar qualquer movimento que cobra ações efetivas do governo diretamente nessas questões como “pós-modernismo” e  “identitarismo”, como se os casos de feminicídios não viessem numa crescente, como se o racismo não fosse a forma predominante de tratamento das pessoas negras no capitalismo brasileiro, como se a direita não estivesse pronta para transformar as periferias em campos de guerra por meio de operações policiais eleitoreiras, como se não fossem bandeiras históricas dos movimentos de esquerda colocar na ordem do dia tais questões e se mobilizar para que a disputa e o combate  ao capitalismo passem por elas. Já a direita, sobretudo após sua derrota eleitoral aos 45 do segundo tempo das eleições e por uma diferença ínfima em termos proporcionais de votantes, recorre a tática com a qual sempre se colocou mais forte diante do reformismo brasileiro: não tendo força para derrubar legalmente as regras jurídicas do jogo (apesar de ter tentado várias vezes), apela para sua capilarização nas massas a fim — também — de esvaziar no cotidiano das relações na classe trabalhadora qualquer progresso de costumes e reconhecimento nos assuntos que o progressismo tanto se valeu para conquistar e manter sua hegemonia. Aposta na mobilização cotidiana (nas redes e nos espaços urbanos) simbólica reacionária ligadas ao machismo, as religiões dominantes, ao cristianismo mais obtuso, ao terrorismo psicológico das diversas ideologias que surgem com as contradições latentes dos problemas do capital no Brasil (evidentes na crise da segurança pública), para disputar a consciência e a formação subjetiva das massas trabalhadoras. Nesse ínterim, a explosão dos movimentos red pills despontam – como causa e efeito -  no leque de ferramenta dos setores burgueses da sociedade brasileira ligados ao bolsonarismo e a centro direita, tendendo sempre a se alinharem econômica e politicamente, numa simbiose macabra. A contradição entre o Estado com seu aparato político e jurídico e a sociedade civil tende a se acentuar no desenvolvimento conjutural, na mesma medida que se acentuarão as disputas em ambos os âmbitos. Perante a degradação das condições de vida e trabalho, o patriarcado no modo de produção capitalista retoma as velhas, porém vividas, fórmulas de regulação opressiva das relações de gênero, tendo a família monogâmica enquanto núcleo da reprodução social capitalista. O patriarcado enquanto regime de reprodução capitalista no interior da família mata as mulheres, afeta as crianças e, ao mesmo tempo, degrada a subjetividade socialmente estipulada como masculina, como bem pontuou a militante Nathália Mozer (PCB) . A luta pela vida das mulheres e seus direitos reprodutivos se faz essencial na medida que a degradação das condições de emprego aliada à função produtiva que o patriarcado imputa aos homens enquanto “chefes de família” faz com que parte considerável dos homens trabalhadores adiram a ideologias conservadoras e misóginas como a Red Pill .   A Internacional Reacionária e a morte da esquerda Diante de uma conjuntura marcada pela intensificação da degradação ecológica, pelo avanço tecnológico não planejado e feito sob as espontâneas e fetichizadas relações de troca no capitalismo, pelo acirramento das disputas geopolíticas (especialmente em seu âmbito geoestratégico) entre as potências capitalistas e pelo genocídio do povo palestino, a incapacidade dos setores de esquerda em conduzir as massas para um projeto político de ruptura se faz flagrante.  A ofensiva da extrema-direita em todo o mundo, principalmente no chamado ocidente - estruturada na forma de uma Internacional Reacionária  em expansão, com unidade de ação e um aparente programa mínimo (a liberação de quaisquer amarras no processo de reprodução do capital e ampliação da vigilância internacional) -  faz com que seja urgente para os comunistas tirar lições do último ciclo de governos progressistas (encerrado com a vitória eleitoral de direita na Bolívia). Caso contrário, a ascendente cooptação das insatisfações populares pela extrema-direita, tende a ser terra arrasada no embate político. Vemos em nosso continente, em seus últimos espasmos vacilantes e ainda mais rebaixados, o esgotamento da chamada “Onda Rosa”: desde a acachapante vitória da direita pinochetista no Chile (com 59% dos votos) e da crise política na Venezuela, até o Brasil em que o petismo busca se segurar na institucionalidade, nos legando não mais que vitórias advindas dos erros de seus adversários, que não dão sinais de que serão finalmente derrotados (devem apenas se rearticular em novas faces e métodos).  O equívoco de Francis Fukuyama com relação ao seu “fim da história” nos anos 1990, tem se tornado um pesadelo para  o progressismo na medida que a história continua e os principais setores da extrema-direita sabem disso, e a tem conduzido em direção aos seus interesses. Resta para as principais forças progressistas um papel defensivo, e, por vezes, reativo às pautas imposta pela direita. O ano de 2025 se encerra com uma ofensiva político-militar do governo Trump em relação aos governos de Venezuela e Colômbia, em um ato de pirataria ao primeiro e ameaça ao segundo ( o que se comprovou com o bombardeio de Caracas e sequestro de Nicolás Maduro do dia 03 de janeiro ). Os ataques não são somente uma projeção no contexto de disputa geopolítica por recursos no Atlântico equatorial/norte, mas também é um claro flanqueamento que visa animar as lideranças internas de extrema-direita latino-americanas para atuarem em suas respectivas conjunturas locais com a replicação da retórica do “combate ao terrorismo” em uma visada de criminalizar setores marginalizados e grupos opositores e legitimar um regime de exceção em operações que supostamente combateriam organizações criminosas, como recentemente ocorreu nos complexos do Alemão e da Penha no dia 29 de outubro no Rio de Janeiro. A estratégia da extrema-direita não tem elementos novos, como antes é claramente cooptar o medo e a sensação de insegurança presente na classe trabalhadora - medo e  inseguranças estas causadas pelas próprias condições de vida no capitalismo em sua fase neoliberal - para legitimar e naturalizar uma política de repressão à própria classe. Talvez o que possamos elencar de novidade neste contexto, seja a perda de hegemonia inconteste dos EUA’s no capitalismo global, fator que o faz dobrar as  apostas em todos os cantos do globo, na tentativa de manter suas zonas de influência mesmo perante a expansão econômica do bloco capitalista chinês. De um lado temos um setor burguês mais poderoso e concentrado em torno do projeto político reacionário, sendo 2025 o ano onde Elon Musk se tornou o primeiro trilionário do mundo. De outro, as massas trabalhadoras; desarticuladas em sua grande maioria, imersas sob toneladas de investimentos burgueses no controle dos canais de impressa ou loteamento das mídias virtuais e, mesmo quando organizadas em pequenos nichos, se debatendo para encontrar métodos e saídas (com pontuais avanços que não se solidificam em um bloco histórico). Somado a isso, se encontram majoritariamente amedrontadas devido à degradação constante das condições de trabalho e destruição ambiental que ameaça o futuro da humanidade, possibilidades de escaladas nos conflitos advindos das constantes repartições do globo entre os capitalistas e a piora cotidiana das condições de vida (moradia, alimentação, saúde e seguridade social), atingindo até mesmo nações centrais do capitalismo. As contradições entre capital e trabalho se evidenciam em direção ao conflito de interesses de classe, para além das fronteiras nacionais como quer reduzir o simples nacionalismo. Entre os dois está o setor progressista que conquistou o poder político nos últimos 30 anos na América Latina e que é incapaz de apresentar uma alternativa de projeto social na direção da solução dos problemas essenciais da classe trabalhadora. A esquerda reformista, eufemisticamente chamada de “progressista” se vê refém de suas próprias contradições: o apelo às “instituições democráticas” se torna cada vez mais ineficaz diante de uma extrema-direita que se exime de participar dos “espaços de diálogo da comunidade internacional” - como o governo Trump fez recentemente ao se ausentar da COP 30 - e aos invés disso aproveita uma correlação de forças extremamente favorável para si desde a queda da URSS (já que tanto Rússia quanto China, apesar de rivalizam com os EUA, tampouco atuam politicamente para além dos seus próprios interesses políticos imediatos: o que reforça o caráter burguês dos governos desses países) para implementar sua agenda antiterrorista  em todo o globo, da América Latina à Ásia. No extremo oriente, a recém eleita primeira-ministra japonesa Sanae Takaichi   e Bongbong Marcos das Filipinas desempenham o papel que aqui (na A.L) é feito por Javier Milei e Naybe Bukele. Encurralada pelos próprios recuos, a dita esquerda perde cada vez mais espaço nos campos de batalha em que se fez especialista: o parlamento e a administração política do Estado. Se o intento golpista das alas mais reacionárias da extrema-direita encontra-se num crescente mundial que pode ser observado com clareza no exemplo brasileiro, é porque elas carecem de predador natural na fauna política. Não atoa, os episódios do dia 9 para o dia 10 de dezembro na câmara de deputados — Expulsão violenta de Glauber Braga da mesa diretora com corte da transmissão da TV Câmara , agressão à imprensa  e aprovação do PL da dosimetria  — nos comprovam que o jogo está perdido, por mais que se insista em jogá-lo até o fim. Ainda que em 2026 no Brasil tenhamos que revisitar o drama das saídas de emergências com o medo da “volta do fascismo”, vemos que elas, tanto no Brasil quanto em outros locais do mundo, demonstram ser nada mais que a agonizante emergência de uma saída realmente revolucionária que deve ser construída desde agora! Há tempos se fala sobre a morte da esquerda, em especial como projeto societário e organização coletiva, mas não o fazemos como descrença na possibilidade de solução dos problemas sociais impostos pela sociedade de classes, mas pelo escancaramento de que, mesmo com esforços hercúleos de elementos neste campo político, houve uma troca da primazia dos interesses concretos (além dos subjetivos) do proletariado pela primazia da negociata politicista em prol de uma suposta democracia, que mantém-se como ditadura da classe capitalista. Não há solução no Estado Democrático de Direito, pois este é a salvação para os os grandes proprietários. Ele  é a expressão política das relações sócio-econômicas, que tem como seu fundamento a reprodução da sacrossanta propriedade privada.    Dessa maneira, o crescente golpismo reacionário assume formas distintas daquelas encontradas no século passado (Estado Novo, ditadura empresarial-militar, operação condor, franquismo, etc.), ou seja, o da tomada do poder à base das baionetas, de modo que não é mais necessário para a maioria dos setores reacionários operarem uma ruptura com a forma democrática para executarem seus fins, escancarando publicamente sua censura, abuso de poder, violência e mesquinhez. Tática essa adotada globalmente pela Internacional Reacionária , cuja organização, embora lhe falte estatuto e resoluções congressuais, caminha com mais assertividade e efetividade que qualquer reunião internacional de partidos comunistas e socialistas. Desaprendemos com a História, nossos inimigos não; independente de suas divergências regionais, a extrema direita vêm, dia após dia, demonstrando sua agenda unificada, ao passo que a assim chamada esquerda se acanha, por vontade própria, para caber nas votações de uma sessão qualquer legislativa. Pesa em nosso país o especial momento pré-eleitoral que se inicia. Sem muitas perspectivas com relação à sucessão da presidência, aposta-se no suprassumo neoliberal lulista e na carta em branco dada ao petismo para mais uma vez fazer valer a inescrupulosa tentativa de conciliação de classes. Dessa maneira, não é leviano afirmar que até no campo eleitoral, onde tanto nos especializamos, perdemos mesmo ganhando. Embora tenha se estabelecido julgamento e punições aos golpistas e militares reacionários como nunca antes nesse país (o que é, de fato, uma vitória), a mistificada correlação de forças nunca está favorável para avançar rápida e assertivamente no que há de mais imediato para a classe trabalhadora, como é o caso do fim da escala 6x1, que atravessou o ano em discussão na Câmara e finda o ano sem votação. Mesmo a punição dos golpistas já se enfraquece com o PL da dosimetria, aprovado na Câmara na madrugada do dia 9 de dezembro e no Senado no dia 19. Conclusão e necessária rearticulação do movimento comunista.  Todas as disputas políticas apresentadas se dão em um contexto onde o capital chinês desponta como possivelmente sendo o hegemônico para os próximos anos a nível mundial devido a sua capacidade produtiva, tendo o  banco central, sob direção do partido comunista chinês, anunciado esse ano um superávit de 1 trilhão de dólares  . Um modelo de gestão capitalista baseado em um controle centralizado no controle do fluxo de capitais e da infra estrutura produtiva, mas espontâneo na realização das trocas mundiais através dos setores privados,  evidencia sinais de ganhar a disputa intercapitalista com os EUA, já que o deslocamento das cadeias produtivas do Atlântico norte para a Ásia nos últimos 40 anos, especialmente para a China nos últimos 30, se mostra uma tendência cada vez mais irreversível. Isso se dá pelo contexto específico em que se deu a abertura de capitais chinesa a partir da década de 70 - tanto o potencial mercado consumidor interno, o baixo preço da força de trabalho, quanto a concentração dos meios de produção na mão do Estado devido a Revolução Chinesa - colocou a China em vantagem em relação às demais potências, levando a cabo um processo de industrialização em uma escala muito maior do que se deu com os países do centro do capital, e quase irrepetível para os demais países da periferia.  A América Latina, enquanto continente que tende menos a crescer,  têm governos de centro-esquerda nos dois principais polos industriais da região: Brasil e México, sendo esses dois países os únicos que cresceram significativamente em tais governos “progressistas”. Apesar do crescimento não se reverter necessariamente em melhoria da qualidade de vida para os trabalhadores devido a baixa qualidade do emprego, o que faz com que os governos de centro-esquerda desses países fiquem ainda a espreita, tendo que propagandear seus índices econômicos para uma classe cada vez mais precarizada em regime de trabalho uberizados. Diante da degradação da qualidade do emprego, a luta por regulação dos setores precarizados e mecanismos de seguridade se fazem necessários pois a subjetividade desses setores sem uma referência programática clara de pautas de melhoria das condições de trabalho bem como a própria redução da jornada laboral, se torna presa fácil de ideologias neoliberais produtivistas e reacionárias, mesmo que os governos progressistas tentem apresentar índices de redução e pobreza como ocorre com Brasil e México.   O laboratório neoliberal feito no Chile, elevou cerca de 40% da população as classes médias no final do século XX e início do XXI, devido ao boom das commodities na primeira década de nosso século, e agora, em sua primeira eleição presidencial obrigatória, viu os restante 60% da população que antes não votavam e que ficavam com os dejetos do crescimento eleger o pinochetista José Antônio Kast. Tal fenômeno, aparentemente paradoxal para um militante da esquerda que desenvolveu sua atividade política predominantemente no século XX, se deve ao fato de que a extrema-direita pós-guerra fria - na ausência de um inimigo direto a qual associar a ele a própria irracionalidade do modo de vida sob o capitalismo, como era feito com a URSS - conseguiu exitosamente atribuir as consequências da economia globalizada aos governos de esquerda primeiro, e ao ideário progressista em geral, depois. Os setores de esquerda - hegemonizados pelos setores médios devido à repressão das organizações de massas através de ditaduras ou de governos civis ao longo de todo o século passado, mas também devido a capitulação de organismos históricos à governos reformistas - tem agora dificuldade (ou nem buscam) de formar novos quadros de massas que articulem as demandas imediatas das massas a um horizonte de ruptura política com o modo de produção, ruptura essa que só a classe trabalhadora pode desempenhar. Na impossibilidade do horizonte de ruptura da forma societal ser apresentada por movimentos anticapitalistas, é a extrema-direita que o faz, em direção não ao comunismo mas à um nível de barbárie institucionalizada talvez nunca antes visto na história da humanidade. Portanto, aos comunistas cabe tarefa de compreender e analisar as mudanças do modo de produção pós-fordista na morfologia  objetiva e subjetiva da classe para que as velhas formas políticas de organização sejam superadas  por outras efetivas na superação do capitalismo, ainda que sob a acusação de revisionistas vindas daqueles setores que ainda estão melancolizados, apegados a um mundo de direitos e garantias jurídicas - o mundo do século XX - que já não existe mais. A despeito das tentativas de reação por parte de setores importantes de nossa classe, como nos países europeus, alguns até com greves e enfrentamentos diretos, ou como no caso das diversas mobilizações de massa na América Latina puxadas pelas organizações de esquerda,  todas elas um respiro límpido para nossos pulmões sufocados nessa atmosfera densa pela falta de alternativas, nos vimos sem meios de intervir enquanto bloco históricos de trabalhadores. Que o futuro nos traga mais eficiência, maior articulação e maior poder de combate.

  • O atentado contra a Venezuela e a ingerência do imperialismo na América Latina

    Protestos em todo o mundo ocorrem contra a ingerência imperialista. (Foto: Xinhua) A esta altura, já é de conhecimento público que os Estados Unidos realizaram ataques militares contra pelo menos sete pontos estratégicos das Forças Armadas da Venezuela: a academia militar bolivariana da marinha, o porto de La Guarira, a base de La Carlota, a base militar do Forte Tiuna, o observatório Cagigal, as Antenas El Volcán e o aeroporto Higuerote inauguram uma nova fase na correlação de forças da política latino-americana.  A operação durou duas horas, matou cerca de quarenta civis  e nos deu uma breve demonstração do que são capazes os atuais gestores políticos do capital estadunidense, nomeadamente, o séquito trumpista. O episódio supera os golpes e invasões militares na América Latina e Oriente Médio do último século por sua ousadia. Donald Trump, desavergonhadamente, em seu primeiro pronunciamento a respeito da operação, mencionou o interesse das petrolíferas norte-americanas no abundante petróleo venezuelano e chegou a afirmar a possibilidade de uma governança estadunidense direta do território, escancarando o caráter intervencionista de suas incursões pelo Mar do Caribe sob o pretexto de combater o narcotráfico.  O condenável sequestro de Nicolás Maduro é uma demonstração de força e poder dos Estados Unidos enquanto potência hegemônica global que, mesmo passando por um forte abalo de seu domínio econômico,  tenta demarcar o continente americano como sua área de influência, resgatando abertamente a Doutrina Monroe. Para os setores de esquerda que se agarram a uma concepção um tanto campista da correlação de forças global, o estupor e a surpresa podem acometê-los: China e Rússia se limitaram a repudiar os ataques dos EUA através de tímidas notas e, até o momento, não deram qualquer sinal de que vão fornecer auxílio militar ou econômico ( curiosamente, o representante chinês para a América Latina estava em Caracas no momento dos ataques e havia se reunido com Maduro ). Não seria absurdo pensar que Trump, na busca por garantir uma partilha do mundo entre grandes potências econômicas, possa ter se precavido negociando a América Latina como sua zona de influência, dando em troca seu aval aos interesses russos na Ucrânia e aos chineses no sudeste asiático, principalmente na relação com Taiwan. Não se pode esquecer que pouco tempo antes de Trump começar o deslocamento de tropas no Caribe, ele havia tido uma “produtiva conversa” com Vladimir Putin no Alasca.  Tal negociata se torna possível e provável na medida em que todo o sócio-metabolismo do capital permanece plenamente vigente não apenas na Rússia, como também na China. Os gestores políticos da alta cúpula desses países pensam e articulam seus projetos nacionais particulares (sejam eles chamados de projetos socialistas ou não, como no caso chinês) tendo a garantia das condições gerais para reprodução do capital como objetivo. É preciso ter em mente que a política chinesa está muito distante mesmo da mais rebaixada das políticas internacionais soviéticas durante a Guerra Fria, já que a URSS, mesmo que movida pelos interesses mais mesquinhos, interveio indiretamente em muitas lutas decisivas do século passado. A China parece realmente ter como o melhor dos horizontes a mera divisão do mundo, como reza a cartilha da lógica do capital. Por outro lado, no plano interno venezuelano, subsistem importantes incógnitas quanto às condições que teriam permitido às forças militares dos Estados Unidos realizar uma operação sem obstáculos significativos e sem resistência armada. Não se pode descartar a hipótese de que sectores das Forças Armadas venezuelanas tenham facilitado ou mesmo colaborado abertamente com a Força Delta dos EUA no sequestro de Maduro. Em rigor, tudo indica que apenas uma traição oriunda do alto escalão do governo, articulada com uma intervenção direta norte-americana, teria capacidade real para derrubar o presidente. O bolivarianismo vinha demonstrando notável capacidade de sobrevivência política – capacidade essa que precisaria de uma análise aprofundada sobre a relação complexa entre as lideranças políticas e os militares. A oposição de direita jamais conseguiu representar uma ameaça efetiva ao governo Maduro, e nenhuma dissidência militar relevante chegou a prosperar no seio do Exército. No entanto, mais recentemente, a política interna conduzida pelo sucessor de Chávez acabou por empurrar o país para um quadro acentuado de isolamento regional. Até mesmo aliados naturais, como o governo colombiano e brasileiro, questionaram a legitimidade do resultado das urnas que reelegeu Maduro . Se o governo vinha sobrevivendo às sanções aplicadas à Venezuela pelos EUA desde 2014 , os últimos acontecimentos acirraram decisivamente a permanente tensão entre o governo venezuelano e as potências capitalistas mundiais. O dilema vivido pela Venezuela dos nossos dias configura-se como uma verdadeira bomba-relógio, resultado de um processo político radical, de caráter popular, democrática e anti-oligárquica – iniciado pela eleição de Chávez –, que, contudo, não promoveu uma transformação revolucionária das estruturas econômicas. Essa contradição gerou impasses profundos na base produtiva do país. A perigosa dependência da economia petrolífera, a instabilidade econômica imposta às massas populares, o consequente afastamento destas dos processos políticos e econômicos decisivos, bem como a consolidação de uma vasta burocracia militarizada, distante da vida cotidiana do povo, são manifestações evidentes desse impasse estrutural. Não há a menor dúvida de que à classe trabalhadora venezuelana interessa, no plano imediato, a defesa da soberania de seu país. Mas para isso, é indispensável que as massas populares estejam dispostas a enfrentar não apenas os inimigos externos, mas também os internos. Nesse sentido, não se pode ignorar o esgotamento tanto retórico quanto prático da chamada “Revolução Bolivariana”, inserida, aliás, num contexto mais amplo de declínio da chamada “onda rosa” latino-americana. Esse processo político transitou da defesa do famigerado “socialismo do século XXI” para um chauvinismo tardio, no qual o chamado “projeto nacional” passou a expressar-se, entre outras coisas, na tentativa de recuperar o território atualmente guianense de Essequibo . Tratou-se de uma manobra semelhante à realizada por Leopoldo Galtieri em relação às Ilhas Malvinas, em 1982: uma reivindicação territorial que, embora possa ser considerada legítima – e no caso das Malvinas certamente o é –, é instrumentalizada por um governo que representa a burguesia, ou ao menos um setor dela, com o objetivo de produzir um efeito artificial de coesão nacional em torno do antagonismo com um inimigo externo. Tal estratégia servia para legitimar o governo Maduro num momento em que, internamente, as nacionalizações e estatizações do período Chávez entraram em processo de reversão, através de gestões privadas de empresas públicas , numa economia que permanece estruturalmente dependente da monoexportação de petróleo. Nessas condições, o governo bolivariano – não apenas sob Maduro – revela seus limites e não se apresenta como uma alternativa revolucionária para a classe trabalhadora. O ato de terror estatal perpetrado contra o povo venezuelano só pode ser compreendido como um sinal verde para que as forças efetivamente revolucionárias avancem. Assim, para além do repúdio incondicional à ingerência imperialista, impõe-se aos sectores mais avançados da esquerda venezuelana a tarefa de radicalizar o processo bolivariano, orientando-o no sentido de uma verdadeira revolução social. Convém recordar que se trata de um país no qual existem milícias populares armadas e importantes meios de mobilização das massas – ainda que estes tenham sido atravessados, ao longo do tempo, por processos de burocratização e de repressão aos comunistas venezuelanos ¹ . A questão decisiva é saber em que medida as condições sociais concretas da Venezuela podem transformar o país não em um Afeganistão latino-americano, mas sim em um Vietnã das Américas. Aos comunistas dos demais países, para além do necessário e evidente repúdio à política externa dos Estados Unidos e aos seus títeres regionais, cabe a tarefa de estudar com seriedade a estratégia e a tática da extrema-direita internacional e qual o movimento do capital ela tem efetivamente representado. Trata-se de um campo político que não apenas se vangloria da própria barbárie, como também ameaça abertamente lideranças de outros países, apresentando-as como potenciais alvos futuros. Compreender esse movimento é condição indispensável para antecipar seus métodos, desmascarar suas alianças e organizar uma resposta internacionalista à altura dos desafios colocados. *** 1) Para uma análise in loco das perseguições aos comunistas e crises do governo de Maduro, vale ver balanço do PCV .

  • Observações Críticas sobre a Questão Nacional: 4."AUTONOMIA CULTURAL NACIONAL”

    Lenin Tradução para o Português : Marco Túlio Texto extraído e traduzido do marxists.org .*   A questão da palavra de ordem “cultura nacional” é de enorme importância para os marxistas, não só porque determina o conteúdo ideológico de toda a nossa propaganda e agitação sobre a questão nacional, distinta da propaganda burguesa, mas também porque todo o programa da tão discutida autonomia cultural nacional se baseia nessa palavra de ordem. A principal e fundamental falha desse programa é que visa introduzir o nacionalismo mais refinado, mais absoluto e mais extremo. A essência desse programa é que cada cidadão seja registrado como pertencente a uma determinada nação, e que cada nação constitua uma entidade jurídica com o direito de impor tributação obrigatória aos seus membros, com parlamentos nacionais (Dietas) e secretários de Estado nacionais (ministros). Tal ideia, aplicada à questão nacional, assemelha-se à ideia de Proudhon, aplicada ao capitalismo. Não abolindo o capitalismo e a sua base — a produção de mercadorias —, mas purgando  essa base de abusos, de excrescências, e assim por diante; não abolindo a troca e o valor de troca, mas, pelo contrário, tornando-a “constitucional”, universal, absoluta, “ justa ” e livre de flutuações, crises e abusos — assim era a ideia de Proudhon. Assim como Proudhon era pequeno-burguês, e a sua teoria converteu a troca e a produção de mercadorias numa categoria absoluta e exaltou-as como o ápice da perfeição, o mesmo acontece com a teoria e o programa da “autonomia cultural nacional” pequeno-burguesa; ao converter o nacionalismo burguês numa categoria absoluta, exalta-o como o ápice da perfeição e expurga-o da violência, da injustiça, etc. O marxismo não pode conciliar-se com o nacionalismo, mesmo que seja do tipo “mais justo”, “mais puro”, mais refinado e civilizado. No lugar de todas as formas de nacionalismo, o marxismo promove o internacionalismo, a fusão de todas as nações na unidade superior, uma unidade que cresce diante dos nossos olhos a cada milha de linha ferroviária construída, a cada truste internacional e a cada associação de trabalhadores que é formada (uma associação internacional nas suas atividades econômicas, bem como nas suas ideias e objetivos). O princípio da nacionalidade é historicamente inevitável na sociedade burguesa e, considerando seriamente essa sociedade, o marxismo reconhece plenamente a legitimidade histórica dos movimentos nacionais. Mas, para evitar que esse reconhecimento se torne uma apologia ao nacionalismo, deve-se limitá-lo estritamente ao que é progressivo em tais movimentos, a fim de que a ideologia burguesa não obscureça a consciência proletária. O despertar das massas da letargia feudal e a sua luta contra toda a opressão nacional, pela soberania do povo e da nação são progressistas. Portanto, é o dever juramentado  do marxismo defender o democratismo mais resoluto e coerente em todos os aspectos da questão nacional. Esta tarefa é, na sua maioria, negativa. Mas esse é o limite a que o proletariado pode ir para apoiar o nacionalismo, pois, além disso, começa a atividade “positiva” da burguesia esforçando-se para fortificar  o nacionalismo. Livrar-se do jugo feudal, de toda a opressão nacional e de todos os privilégios de que goza qualquer nação ou língua em particular é um dever imperativo do proletariado como força democrática, e é certamente do interesse da luta de classes proletária, obscurecida e retardada pela discussão sobre a questão nacional. Mas ir além  desses contornos históricos estritamente limitados e definidos para auxiliar o nacionalismo burguês significa trair o proletariado e aliar-se à burguesia. Há aqui uma fronteira, muitas vezes bem estreita, que os bundistas e os nacionalistas-socialistas ucranianos perdem completamente de vista. Combater toda a opressão nacional? Sim, claro! Lutar por  qualquer tipo de desenvolvimento nacional, pela  “cultura nacional”, em geral? Claro que não. O desenvolvimento econômico da sociedade capitalista apresenta-nos exemplos de movimentos nacionais imaturos em todo o mundo, exemplos da formação de grandes nações a partir de uma série de pequenas, ou em detrimento de algumas das pequenas, e também exemplos da assimilação de nações. O desenvolvimento da nacionalidade em geral é o princípio do nacionalismo burguês; daí a exclusividade do nacionalismo burguês, daí a interminável disputa nacional. O proletariado, porém, longe de se empenhar em defender o desenvolvimento nacional de todas as nações, pelo contrário, adverte as massas contra tais ilusões, defende a mais plena liberdade das relações capitalistas e acolhe toda a espécie de assimilação das nações, exceto a que se baseia na força ou no privilégio. Consolidar o nacionalismo no interior de uma certa esfera “justamente” delimitada, “constitucionalizar” o nacionalismo e assegurar a separação de todas as nações umas das outras por meio de uma instituição estatal especial — tal é o fundamento ideológico e o conteúdo da autonomia cultural nacional. Essa ideia é completamente burguesa e completamente falsa. O proletariado não pode apoiar qualquer consagração do nacionalismo; pelo contrário, apoia tudo que ajude a obliterar as distinções nacionais e a eliminar as barreiras nacionais; apoia tudo o que torna os laços entre nacionalidades cada vez mais estreitos ou tende a fundir nações. Agir de forma diferente significa aliar-se ao filistinismo nacionalista reacionário. Quando, no seu Congresso em Brunn [2]  (em 1899), os Social-Democratas austríacos discutiram o plano de autonomia cultural nacional, praticamente nenhuma atenção foi dada a uma avaliação teórica deste plano. É, no entanto, digno de nota que os seguintes argumentos foram levantados contra este programa: (1) tenderia a reforçar o clericalismo; (2) “o seu resultado seria a perpetuação do chauvinismo, a sua introdução em todas as pequenas comunidades, em todos os pequenos grupos” (p. 92 do relatório oficial do Congresso de Brunn, em alemão. Uma tradução russa foi publicada pelo Partido Nacionalista judeu, o J. S. L. P. [3] ). Não pode haver dúvida de que hoje em dia, a “cultura nacional”, no sentido comum do termo, ou seja, escolas, etc., está predominantemente sob a influência do clero e dos chauvinistas burgueses em todos os países do mundo. Quando os bundistas, ao defenderem a autonomia “cultural nacional”, diziam que a constituição das nações manterá a luta de classes dentro delas limpa  de qualquer consideração estranha, então isso é manifestamente um sofisma ridículo. Em qualquer sociedade capitalista, é sobretudo na esfera econômica e política que se desenvolve uma luta de classes séria. Separar a esfera da educação disso é, em primeiro lugar, absurdamente utópico, porque as escolas (como a “cultura nacional”, em geral) não podem ser separadas da economia e da política; em segundo lugar, é a vida econômica e política de um país capitalista que necessita, a cada passo, do esmagamento das barreiras e preconceitos nacionais absurdos e ultrapassados, enquanto a separação do sistema escolar e afins só perpetuaria, intensificaria e fortaleceria o clericalismo “puro” e o chauvinismo burguês “puro”. Nos conselhos de administração das sociedades por ações, encontramos capitalistas de diferentes nações reunidos em completa harmonia. Nas fábricas, trabalhadores de diferentes nações trabalham lado a lado. Em qualquer questão política realmente séria e profunda, os lados são tomados segundo as classes, não segundo as nações. Tirar a educação escolar e afins do controle estatal e colocá-la sob o controle das nações é, de fato, uma tentativa de separar da economia, que une as nações, a esfera mais altamente ideológica da vida social, a esfera na qual a cultura nacional “pura” ou o cultivo nacional do clericalismo e do chauvinismo tem o movimento mais desinibido. Na prática, o plano de autonomia “extraterritorial” ou “cultural nacional” só poderia significar uma coisa: a divisão dos assuntos educativos segundo a nacionalidade , ou seja, a introdução das cúrias nacionais nos assuntos escolares. Pensamento suficiente acerca do real  significado do famoso plano do Bund permitirá compreender o quanto ele é totalmente reacionário, mesmo do ponto de vista da democracia e mais ainda do ponto de vista da luta de classes proletária pelo socialismo. Um simples exemplo e um simples esquema da “nacionalização” do sistema escolar tornarão este ponto mais claro. Nos Estados Unidos da América, a divisão dos Estados em norte e sul mantém-se até hoje em todos os elementos da vida; os primeiros possuem as principais tradições de liberdade e de luta contra os proprietários de escravos; os últimos possuem as principais tradições de propriedade de escravos, sobrevivendo à perseguição dos negros, os quais são economicamente oprimidos e culturalmente atrasados (44% dos negros são analfabetos e somente 6% dos brancos), e assim por diante. Nos estados do norte, as crianças negras frequentam as mesmas escolas que as crianças brancas. No sul, existem escolas “nacionais” ou raciais, como quiserem, para crianças negras. Penso que esse é o único exemplo de uma verdadeira “nacionalização” das escolas. Na Europa Oriental existe um país onde coisas como o caso Beilis [4]  ainda são possíveis, e os judeus são condenados pelos purishkeviches a uma condição pior do que a dos negros. Nesse país, um regime de nacionalização das escolas judaicas  foi recentemente debatido no Ministério. Felizmente, esta utopia reacionária não é mais provável de ser concretizada do que a utopia da pequena burguesia austríaca, que perdeu a esperança de alcançar uma democracia consistente ou de pôr fim às disputas nacionais, inventando compartimentos  de educação escolar para evitar que as nações disputassem a distribuição  das escolas… Mas “constituíram” para si disputa eterna  entre uma “cultura nacional” e outra. Na Áustria, a ideia de autonomia cultural nacional manteve-se em grande parte uma fuga literária fantasiosa, que os próprios sociais-democratas austríacos não levaram a sério. Na Rússia, no entanto, foi incorporada aos programas de todos os partidos burgueses judeus e de vários elementos oportunistas pequeno-burgueses nas diferentes nações — por exemplo, os bundistas, os liquidacionsistas no Cáucaso e a Conferência dos partidos nacionais russos da tendência Narodnik de esquerda (essa conferência, mencionaremos entre parênteses, teve lugar em 1907, sua decisão tendo sido adotada com abstenção por parte dos Socialistas-Revolucionários russos[5] e do P. S. P.[6], os social-patriotas poloneses). A abstenção de voto é um método surpreendentemente característico dos Socialistas-Revolucionários e do P. S. P., quando querem mostrar a sua atitude perante uma questão de princípio muito importante no âmbito do programa nacional!). Na Áustria, foi Otto Bauer o principal teórico da “autonomia cultural nacional”, que dedicou um capítulo especial do seu livro para provar que tal programa não pode ser proposto para os judeus. Na Rússia, porém, é precisamente entre os judeus que todos os partidos burgueses — e o Bund que os ecoa — adotaram este programa. [1]  O que isso mostra? Mostra que a história, através da prática política de outro Estado, expôs o absurdo da invenção de Bauer, exatamente da mesma forma que os bernsteinianos russos (Struve, Tugan-Baranovsky, Berdayev e Co.), por meio da sua rápida evolução do marxismo ao liberalismo, expuseram o verdadeiro conteúdo ideológico do bernsteinismo alemão.[7]  Nem os Social-Democratas austríacos, nem os russos incorporaram a autonomia “cultural nacional” ao seu programa. No entanto, os partidos burgueses judeus num país mais atrasado, e uma série de pequenos-burgueses, os chamados grupos socialistas, adotaram-no  a fim de difundir as ideias do nacionalismo burguês entre a classe operária de uma forma refinada. Este fato fala por si. * Uma vez que temos de abordar o programa austríaco sobre a questão nacional, devemos reafirmar uma verdade frequentemente distorcida pelos bundistas. No Congresso de Brunn um programa puro  de “autonomia cultural nacional” foi apresentado. Esse foi o programa dos Social-Democratas eslavos do Sul, no qual se lê no 2º parágrafo: “cada nação que vive na Áustria, independentemente do território ocupado pelos seus membros, constitui um grupo autônomo que gere todos os seus assuntos nacionais (linguísticos e culturais) de forma bastante independente”. O programa foi apoiado não só por Kristan, mas também pelo influente Ellenbogen. Mas foi retirado; nem um único voto foi dado a seu favor. Um programa territorialista  foi adotado, i. e., um que não criava nenhum grupo nacional “independentemente do território ocupado pelos membros da nação”. A cláusula 3 do programa adotado diz: “as regiões  autoadministradas de uma mesma nação formarão conjuntamente uma associação unida nacionalmente, que gerirá os seus assuntos nacionais numa base absolutamente autônoma” (cf. Prosveshcheniye , 1913, No. 4, p. 28 [8] ). É evidente que este programa de conciliação também está errado. Um exemplo ilustrará isso. A comunidade de colonos alemães em Saratov, Gubernia, mais o subúrbio operário alemão de Riga ou Lodz, mais o conjunto habitacional alemão perto de São Petersburgo, etc., constituiriam uma “associação unida nacionalmente” de alemães na Rússia. É evidente que os Sociais-Democratas não podem reivindicar  tal coisa ou garantir tal associação, embora, é claro, não neguem nenhuma liberdade de associação de qualquer tipo de associação, incluindo associações de quaisquer comunidades de qualquer nacionalidade num determinado Estado. A segregação, por uma lei do Estado, dos alemães, etc., em diferentes localidades e de diferentes classes na Rússia, em uma única associação nacional alemã pode ser praticada por qualquer pessoa — padres, burgueses ou filisteus, mas não por Social-Democratas. * Revista Barravento: optamos por deixar o link das notas vinculadas ao site do qual o texto foi extraído. Notas [1]  Que os bundistas muitas vezes negam veementemente que todos  os partidos burgueses judeus aceitaram que a “autonomia cultural nacional” é compreensível. Este fato expõe de forma demasiado flagrante o papel que o Bund desempenha. Quando o Sr. Manin, bundista, tentou, em Luch [9]  repetir sua negação, ele foi totalmente exposto por N. Skop (ver Prosveshcheniye  N. o 3 [10] ). Mas quando o Sr. Lev Yurkevich, em Dzvin  (1913, N. 7-8, p. 92), cita a declaração de N. Sk no Prosveshcheniye (No. 3, p. 78) de que “os bundistas, juntamente com todos os partidos e grupos burgueses judeus, defendem há muito tempo a autonomia cultural nacional” e distorce essa declaração ao abandonar a palavra “bundistas”, e substituir  as palavras “direitos nacionais” pelas palavras “autonomia nacional-cultural”, só se pode levantar as mãos com espanto! O Sr. Lev Yurkevich não é somente um nacionalista, não só um ignorante espantoso em matéria de história dos Social-Democratas e do seu programa, mas um falsificador de citações  em benefício do Bund. Os assuntos do Bund e dos yurkeviches devem estar em mau estado! — Lenin [2]  Refere-se ao Congresso do Partido Social-Democrata austríaco realizado em Brunn (Áustria) de 24 a 29 de setembro de 1899 (novo estilo). A questão nacional era o ponto principal da ordem do dia. Foram apresentadas ao Congresso duas resoluções com diferentes pontos de vista: (1) a resolução do Comitê Central do partido, que apoia a ideia da autonomia territorial das nações, e (2) a resolução do Comitê do Partido Social-Democrata Eslavo do Sul que apoia a ideia da autonomia cultural nacional extraterritorial. O Congresso rejeitou por unanimidade o programa de autonomia cultural nacional e adotou uma resolução de compromisso que reconhece a autonomia nacional no interior das fronteiras do Estado austríaco. (Ver o artigo de Lenin “uma contribuição para a história do Programa nacional na Áustria e na Rússia”, p. 36 deste volume). [N. T.] [3]   J. S. L. P.  (Partido Trabalhista Socialista Judaico) — organização nacionalista pequeno-burguesa, fundada em 1906. O seu programa baseava-se na exigência de autonomia nacional para os judeus — a criação de parlamentos judaicos extraterritoriais autorizados a resolver questões relativas à organização política dos judeus na Rússia. O J. S. L. P. manteve-se próximo dos Socialistas-Revolucionários, com os quais travou uma luta contra o POSDR [4]   O caso Beilis  — julgamento provocativo planejado pelo governo czarista em 1913, em Kiev. Beilis, um judeu, foi falsamente acusado de ter assassinado um menino cristão chamado Yushchinsky para fins rituais (na verdade, o assassinato foi organizado pelas Centúrias Negras). O objetivo dessa farsa era fomentar o antissemitismo e incitar pogroms [movimento organizado visando ao extermínio de certas coletividades - nota do tradutor] para desviar as massas do crescente movimento revolucionário. O julgamento despertou grande sentimento público. As manifestações de protesto dos trabalhadores foram realizadas em várias cidades. Beilis foi absolvido. [5]   Socialistas-Revolucionários — partido pequeno-burguês na Rússia, que surgiu no final de 1901 e início de 1902 como resultado de uma fusão de vários grupos e círculos populistas. Os SR não viam distinções de classe entre o proletário e o pequeno proprietário, minimizavam a diferenciação de classe e os antagonismos no interior do campesinato e recusavam-se a reconhecer o papel dirigente do proletariado na revolução. Os seus pontos de vista eram uma mistura eclética das ideias do narodismo e do revisionismo. Nas palavras de Lenin, eles tentaram consertar “as rendas nas ideias dos Narodniks com pedaços de uma “crítica” oportunista do marxismo que estava na moda” (Ver presente edição, Vol. 9, p. 310). O programa agrário dos Socialistas-Revolucionários previa a abolição da propriedade privada da terra, que deveria ser transferida para a comuna da aldeia com base no “princípio do trabalho” e na “posse igualitária da terra” e também o desenvolvimento de cooperativas. Este programa, que os SR chamaram de “socialização da terra”, não tinha nada de socialista. Na sua análise deste programa, Lenin mostrou que a preservação da produção mercantil e da agricultura privada em terras comunais não acabaria com a dominação do capital nem libertaria o campesinato trabalhador da exploração e do empobrecimento. Nem as cooperativas poderiam ser um remédio para os pequenos agricultores sob o capitalismo, pois serviam somente para enriquecer a burguesia rural. Ao mesmo tempo, como salientou Lenin, a exigência de uma posse igualitária da terra, embora não socialista, era de carácter progressista, democrático-revolucionário, enquanto era dirigida contra o latifundiário reacionário. O Partido Bolchevique expôs as tentativas dos SR de se passarem por socialistas. Travou uma luta obstinada contra eles pela influência sobre o campesinato e revelou os danos que a sua táctica de terrorismo individual causava ao movimento operário. Ao mesmo tempo, os bolcheviques, em termos definidos, celebraram acordos temporários com os socialistas-revolucionários para combater o czarismo. A instabilidade política e ideológica e a incoerência organizativa do Partido Socialista-Revolucionário, bem como a sua constante vacilação entre a burguesia liberal e o proletariado, deveram-se à ausência de homogeneidade de classe entre os camponeses. Durante a Primeira Revolução Russa, a ala à direita dos SR separou-se do partido e formou o legal Partido Socialista Popular Trabalhista, cujas opiniões eram próximas das dos Democratas Constitucionais (Cadetes), enquanto a ala à esquerda se separou e formou uma liga semi-anarquista de “maximalistas”. Durante o período da reação de Stolypin, o Partido Socialista-Revolucionário sofreu uma completa quebra ideológica e organizativa. Durante a Primeira Guerra Mundial, a maioria dos seus membros assumiu uma posição social-chauvinista. Depois da revolução democrático-burguesa de fevereiro de 1917, os socialistas-revolucionários, juntamente com os mencheviques e os cadetes, foram o esteio do Governo Provisório contrarrevolucionário da burguesia e dos latifundiários. Os líderes do partido SR — Kerensky, Avksentyev e Chernov — eram membros deste gabinete. O Partido SR recusou-se a apoiar a exigência dos camponeses pela abolição dos latifundiários e defendeu a preservação das suas propriedades. Os membros SR do Governo Provisório autorizaram uma ação punitiva contra os camponeses que haviam tomado posse de terras. No final de novembro de 1917, a ala esquerda do Partido SR formou um partido independente de Socialistas-Revolucionários de Esquerda que, num esforço para preservar a sua influência entre as massas camponesas, reconheceu formalmente o domínio soviético e celebrou um acordo com os bolcheviques. Em pouco tempo, porém, iniciaram uma luta contra os soviéticos. Durante os anos de intervenção estrangeira e da Guerra Civil, os SR exerceram atividades subversivas contrarrevolucionárias. Apoiaram ativamente os intervencionistas e os guardas brancos, participaram em conspirações contrarrevolucionárias e organizaram atos terroristas contra os dirigentes do Estado soviético e do Partido Comunista. Após a Guerra Civil, os SR prosseguiram com suas atividades antissoviéticas no interior do país e no campo dos emigrados brancos. [6]   O Partido Socialista Polonês (Polska Partia Socjalistyczna) — organização nacionalista reformista fundada em 1892. Adotando a palavra de ordem de luta por uma Polônia independente, o PSP, sob Pilsudski e os seus adeptos, fez propaganda nacionalista separatista entre os trabalhadores poloneses, tentando desviá-los da luta conjunta com os trabalhadores russos contra a autocracia e o capitalismo. Ao longo da história do PSP, grupos de esquerda continuaram a surgir no interior do partido, como resultado das atividades dos trabalhadores de base. Alguns desses grupos acabaram por se juntar à ala revolucionária do movimento operário polonês. Em 1906, o partido dividiu-se na ala esquerda do PSP e na ala direita, chauvinista (a chamada “facção revolucionária”). Sob a influência dos bolcheviques e do Partido Social-Democrata da Polônia e da Lituânia, a ala esquerda adotou gradualmente uma posição revolucionária coerente. Durante a Primeira Guerra Mundial, alguns dos esquerdistas do PSP adotaram uma posição internacionalista. Em dezembro de 1918, o partido uniu-se aos Social-Democratas da Polônia e da Lituânia para formar o Partido Comunista dos Trabalhadores da Polônia (como o Partido Comunista da Polônia era conhecido até 1925). Durante a Primeira Guerra Mundial, a ala direita do PSP continuou a sua política de chauvinismo nacional, organizando legiões polonesas no território da Galiza para lutar ao lado do imperialismo austro-alemão. Com a formação do Estado burguês polonês, o PSP de direita, em 1919, uniu-se às organizações do PSP existentes nos territórios polacos anteriormente tomados pela Alemanha e pela Áustria e retomou o nome do PSP. À frente do governo, organizou a transferência de poder para a burguesia polonesa, conduziu sistematicamente a propaganda anticomunista e apoiou uma política de agressão contra a União Soviética, uma política de conquista e opressão contra a Ucrânia ocidental e a Bielorrússia ocidental. Vários grupos do PSP que discordavam dessa política juntaram-se ao Partido Comunista da Polônia. Depois do golpe de Estado fascista de Pilsudski (maio de 1926), o PSP foi nominalmente uma oposição parlamentar, mas, na verdade, não travou nenhuma luta ativa contra o regime fascista e continuou a sua propaganda anticomunista e antissoviética. Durante esse período, os elementos de esquerda do PSP colaboraram com os comunistas poloneses e apoiaram as tácticas da Frente Única numa série de campanhas. Durante a Segunda Guerra Mundial, o PSP voltou a dividir-se. A sua facção reacionária e chauvinista, que assumiu o nome de Liberdade, Igualdade, Independência, participou no reacionário “governo” polonês emigrado em Londres. A facção de esquerda, que se autodenominava Partido dos Trabalhadores Socialistas Poloneses, sob a influência do Partido dos Trabalhadores Polacos, fundado em 1942, juntou-se à frente popular contra os invasores nazistas, lutou pela libertação da Polônia e prosseguiu uma política de relações amistosas com a URSS. Em 1944, após a libertação dos territórios orientais da Polônia e a formação de um Comitê Polonês de Libertação Nacional, o Partido dos Trabalhadores Socialistas Poloneses retomou o nome de PSP e, juntamente com o Partido dos Trabalhadores Polacos, participou na construção de uma Polônia democrático-popular. Em dezembro de 1948, os dois partidos se amalgamaram e formaram o Partido dos Trabalhadores Unidos da Polônia. [9]   Luch  ( Ray ) — diário legal dos liquidacionistas mencheviques, publicado em São Petersburgo de 16(29) de setembro de 1912 a 5(18) de julho de 1913. Publicaram 237 questões. O jornal foi mantido principalmente por contribuições dos liberais. A liderança ideológica era dos bandos de P. B. Axelrod, F. I. Dan, L. Martov e A. S. Martynov. Os liquidacionistas usaram as colunas deste jornal para se oporem à táctica revolucionária dos bolcheviques, defenderem a palavra de ordem oportunista de um “partido aberto”, atacarem as greves revolucionárias de massas dos trabalhadores e tentarem rever os pontos mais importantes do programa do partido. Lênin escreveu que Luch  foi “escravizado por uma política liberal” e chamou o jornal de porta-voz dos renegados. [10]   Prosveshcheniye  ( Iluminação ) — jornal legal bolchevique, teórico e mensal, publicado em São Petersburgo de dezembro de 1911 a junho de 1914, com uma tiragem de até cinco mil exemplares. Fundado por iniciativa de Lenin para substituir a revista Mysl , um jornal bolchevique fechado pelo governo czarista. Outros trabalhadores da nova revista foram V. V. Vorovsky, A. I. Ulyanova-Yelizarova, N. K. Krupskaya, entre outros. Lenin recrutou os Serviços de Maxim Górki para dirigir a seção literária do jornal. Lenin dirigiu Prosveshcheniye  de Paris e, posteriormente, de Cracóvia e Poronin. Ele editava artigos e se correspondia regularmente com a equipe editorial. O jornal publicou os seguintes artigos de Lenin: “ as três fontes e as três partes componentes do marxismo ”, “ observações críticas sobre a questão nacional ”, “o direito das nações à autodeterminação ”, “ ruptura da unidade sob a cobertura de protestos pela unidade ”, entre outros. O jornal expôs os oportunistas — liquidacionistas, otzovistas e os trotskistas, bem como os nacionalistas burgueses. Destacou a luta da classe operária em condições de um novo surto revolucionário, propagandeou palavras de ordem bolcheviques na quarta campanha eleitoral da Duma e se manifestou contra o revisionismo e o centrismo nos partidos da Segunda Internacional. O jornal desempenhou um papel importante na educação internacionalista marxista dos trabalhadores mais avançados da Rússia. Às vésperas da Primeira Guerra Mundial, Prosveshcheniye  foi fechado pelo governo czarista. Retomou a publicação no outono de 1917, mas somente uma edição (dupla) apareceu, contendo “ os bolcheviques podem reter o poder do Estado?”  e “ uma revisão do programa do partido” . [7]   Bernsteinismo —  uma tendência antimarxista na social-democracia internacional. Surgiu no final do século XIX na Alemanha e tinha o nome do social-democrata oportunista alemão Eduard Bernstein. Após a morte de F. Engels, Bernstein defendeu publicamente a revisão da teoria revolucionária de Marx no espírito do liberalismo burguês (ver seu artigo “problemas do socialismo” e seu livro As premissas do socialismo e as tarefas da Social-Democracia ) numa tentativa de converter o Partido Social-Democrata num partido pequeno-burguês de reformas sociais. Na Rússia, essa tendência foi representada pelos “marxistas legais”, pelos economicistas, pelos bundistas e pelos mencheviques. [8]  Lenin refere-se ao artigo de Stalin “ marxismo e a questão nacional ” publicado no jornal legal bolchevique Prosveshcheniye 3, 4 e 5 de 1913, sob o título “ A questão nacional e a Social-Democracia ”. O Capítulo 4 do artigo de Stalin cita o texto do Programa Nacional adotado no Congresso Brunn do Partido Social-Democrata austríaco.   Segue abaixo a introdução do Marxist’s Internet Archive   Observações críticas sobre a questão nacional [1] ________________________________________ Escrito : entre outubro e dezembro de 1913. Publicado : 1913, na revista Prosveshcheniye, números 10, 11 e 12. Assinado: V. Ilyin. Publicado conforme o texto da revista. Fonte : Lenin Collected Works, Progress Publishers, 1972, Moscou, Volume 20, páginas 17-51. Traduzido : Bernard Isaacs e o falecido Joe Fineberg Transcrição\Marcação: R. Cymbala Domínio público : Lenin Internet Archive (2004). Você pode copiar, distribuir, exibir e executar este trabalho livremente, bem como criar trabalhos derivados e comerciais. Por favor, cite “Marxists Internet Archive” como sua fonte. Notas [1] O artigo “Observações críticas sobre a questão nacional” foi escrito por Lenin entre outubro e dezembro de 1913 e publicado no mesmo ano na revista legal bolchevique Prosveshcheniye, números 10, 11 e 12. O artigo foi precedido por palestras sobre a questão nacional que Lenin proferiu em várias cidades suíças — Zurique, Genebra, Lausanne e Berna — no verão de 1913. No outono de 1913, Lenin fez um relatório sobre a questão nacional na Conferência “de Agosto” (“de Verão”) do Comitê Central do POSDR com os trabalhadores do partido. Uma resolução sobre o relatório redigido por Lenin foi adotada. Após a conferência, Lenin começou a trabalhar em seu artigo “Observações críticas sobre a questão nacional”.

  • Em defesa de Glauber Braga e contra o Congresso Inimigo do Povo: às ruas!

    Fonte: Getty images A Revista Barravento vem se manifestar contra a postura autocrática e golpista de Hugo Motta levada a cabo na madrugada desta quarta (09/12) para a quinta-feira (10/12), retirando forçosamente o deputado Glauber Braga da mesa da plenária por meio de ação truculenta da Polícia Legislativa, sob seu comando, ao mesmo tempo em que cortou a transmissão da TV câmara, no intuito de calar as denúncias corajosamente realizadas, e agrediu jornalistas e trabalhadores do legislativo para o esvaziamento da câmara. Tal ação se faz em consonância a um projeto de beneficiamento dos golpistas, que não foram punidos mesmo em situações mais drásticas, e culmina na aprovação, pouco depois e na mesma madrugada, de medidas que privilegiam a impunidade de Bolsonaro e sua corja. A solução para o congresso inimigo do povo não pode vir de dentro do parlamento, mas da mobilização popular. Crer na maioria parlamentar como extensão da vontade do povo, é, ainda mais neste momento conflituoso, se fazer cego aos interesses em jogo. "[...] agora, o partido da apatia e da covardia [...] diz à classe trabalhadora: “A questão não é se você é neste momento a única força criadora da história, se você é capaz de defenestrar as classes proprietárias, que degeneraram nesse bando de ladrões; a questão não é que ninguém fará isso além de você, nem que a história não lhe oferece trégua — porque as consequências do caos sangrento atual ameaçam enterrá-lo também sob as últimas ruínas do capitalismo. O problema é bem outro: consiste no fato de que os bandidos que governam conseguiram, ontem ou hoje, enganar, violar e frustrar a opinião pública, alcançando, graças a isso, 51% dos votos, contra 49%. Pereça o mundo, mas viva a maioria parlamentar!”" (Trotsky, 2023, p. 38) Todo apoio a Glauber Braga! Referências: TROTSKY, Leon. Terrorismo e Comunismo. 1. ed. São Paulo: LavraPalavra Editorial, 2023.

  • Compra de ouro por bancos centrais e investidores privados.*

    Rolando Astarita Tradução: Lucas Rodrigues Fonte: © Thinkstock   Talvez o ponto mais controverso da teoria monetária de Marx gira em torno do papel monetário do ouro. A ideia dominante, inclusive entre os marxistas, é que a teoria de Marx havia sido válida quando a libra esterlina, o dólar estadunidense e outras moedas eram oficialmente convertidas ao ouro, mas haveria ficado desatualizada com a inconversibilidade oficial (no caso do dólar as cédulas não foram resgatáveis  ("redimibles")  em ouro desde Janeiro de 1934). Em vários links anteriores ( veja aqui , aqui , aqui ) sinalizamos as principais críticas a esse enfoque. Dentre os argumentos, sustentamos que, segundo a teoria de Marx, o dinheiro surge da necessidade de expressar o valor das mercadorias a través de um equivalente que encarna valor (tempo de trabalho social, objetivado). Por isso, segundo este enfoque, o valor do dinheiro não pode se fundar simplesmente no respaldo dos governos, nem é mera criação estatal. Mais ainda, como sinalizou Marx, om respeito a regimes monetários sem convertibilidade oficial (Prússia, Inglatérra durante períodos prolongados no século XIX) a relação entre a cédula com o ouro se estabeleceu através do mercado (o valor da cédula pode ser considerado o inverso do preço do ouro). No entanto,  ("pero además") , e isso é chave, é um dado da realidade que o ouro continua sendo um ativo de reserva dos bancos centrais das principais potências. Nos finais de 2022 representava 77% das reservas oficiais dos EUA (8.133 toneladas de ouro); 73,5% das de Alemanha (3.366 toneladas); 68,3% da Itália e 63,2% de França. São cifras não desprezíveis em termos de riqueza imóvil. Por exemplo, as reservas oficiais de ouro dos EUA, ao preço (julho 2023) de 1.957 à onça equivalem a uns 560.000 milhões ( o valor livro registrado no FED é muito menor, US$ 42,22 a onça).Para que se mantém a tesourada essa massa de valor? Uma teoria monetária coerente deve poder explicar esta permanência do ouro nos sistemas monetários. Aumentos recentes de compras de ouro por bancos centrais A fim de atualizar nosso argumento, destacamos que nos últimos anos, vários bancos centrais aumentaram significativamente as compras do metal amarelo. Segundo o World Gold Council, no ano passado os bancos centrais agregaram às suas reservas 1.136 toneladas; um aumento de 152% com relação ao ano anterior. Foi o 13º ano consecutivo de compras líquidas; E foi a demanda anual mais elevada desde que se mantém registros, 1950. A tendência parece continuar esse ano. )No  primeiro trimestre de 2023 os bancos centrais junto a outras instituições oficiais incrementaram suas tendências de ouro 228 toneladas, um aumento de 176% com respeito a 2022. Também é mantida a demanda de ouro (moedas e barras de ouro, principalmente) com motivos de entesouramento: em 2022 foram 1.107 toneladas. Se houve uma queda na demanda por ouro para ETF, as tendências destes ao final de 2022 totalizaram 3.473 toneladas. (ETF, sigla em inglês para Exchange Traded Fund; é um ativo que cotiza na bolsa e está respaldado por um subjacente, no caso o ouro). Voltando as reservas de ouro dos bancos centrais, o maior comprador nos últimos meses é o Banco Popular da China (BPC). Depois de um período em que havia diminuído suas compras, em novembro de 2022 anunciou a compra de 62 toneladas. Com ela, as reservas oficiais de ouro superaram pela primeira vez 2.000 toneladas. As compras continuaram na primeira metade de 2023; Hoje (princípios de Julho) o stock [preservamos o anglicanismo do original] de ouro do BPC alcança as 2.330 toneladas. A motivação por detrás da compra do ouro. Cada vez mais analistas de mercado do ouro e funcionários dos bancos centrais reconhecem que com suas compras de ouro muitos bancos centrais procuram respaldar suas moedas em um ativo que não é passivo de outro governo ou banco central. Em particular, se trata de reduzir a dependência com respeito ao dólar como moeda de reserva (operou-se uma desdolarização  de reservas internacionais nos últimos 20 anos; voltamos sobre esse tema em um próximo artigo.) Em particular, a diminuição da exposição ao dólar estaria no primeiro plano das preocupações da China. As sanções da OTAN à Rússia depois da invasão à Ucrânia foram um alerta. Com respaldo dos aliados europeus, os EUA congelou reservas oficiais russas; excluiu a Russia do sistema de comunicação SWIFT para as compras de ouro por parte dos bancos centrais, e o caso da China, em primeiro lugar , se explica nesse contexto de tensões geopolíticas crescentes. Lembremos que as reservas da China, avaliadas em uns US$ 3,2 Bilhões, estão majoritariamente em dólares e bônus do tesouro dos EUA. As compras de ouro reduzem a exposição a represálias financeiras e monetárias; e fortalecem o respaldo das moedas nacionais. Em uma perspectiva histórica , se calcula que ao redor de 208.874 toneladas de ouro foram minadas ao longo da história (WGC, fevereiro 2023) das quais aproximadamente dois terços foram entre 1950 e o presente. Sempre segundo o WGC, todo o ouro extraído da terra entraria em um cubo de 22 metros de lado (No seu Ouro e moeda na história 1450-1920 Pierre Vilar diz que todo o ouro disponível na Europa em 1500 poderia ser contido em um cubo de 2 metros de lado). Dado para os defensores da teoria quantitativa do dinheiro: A massa de moeda-ouro nunca pode ser comparada com a quantidade de mercadorias multiplicadas pelos seus preços (inclusive quando regia o padrão ouro). Destacamos por sua vez que se mantém o papel do metal amarelo com reserva de valor: Aos finais de 2022 o ouro em barras e moedas, incluindo o que respaldava ETFs, totalizava 46.517 toneladas (22% do total). O stock de ouro em forma de joalheria alcançava 95.547 toneladas (46%). Uma parte deste ouro é empregada em joalheria barata, já que o objetivo é o entesouramento (por exemplo, na índia). Por sua vez, os bancos centrais reuniam 35.715 toneladas (17%) e “outros” stocks 31.096 toneladas (15%). O ouro como “existência da riqueza Abstrata” Os dados anteriores encaixam mal com a conhecida afirmação de Keynes de que o ouro em sua função monetária seria “uma bárbara relíquia”, em vias de extinção, ou pouco menos. Passam-se os anos e as décadas e os Stocks da “bárbara relíquia” sustenta-se e inclusive se incrementam, na medida em que cresce a riqueza burguesa. A teoria de Marx, ao contrário, sugere uma explicação do fenômeno que parte de reconhecer que o ouro representa uma relação social (O Capital, Cap1,livro 1). De maneira que seu entesouramento deve poder se explicar pela mesma natureza do modo de produção capitalista. A esse respeito, Marx resgata o elemento de verdade contido no ideal mercantilista de acumular ouro e prata: É manifestação, diz, da “vocação da sociedade burguesa, fazer dinheiro”. Acumular ouro e prata é incrementar “a existência da riqueza abstrata” (Contribuição para a crítica da Economia Política). é “abstrata” porque o valor de uso do ouro passa a ser expressão do seu contrário, do valor, algo que é puramente social, por fora do conteúdo material da riqueza (questão teoricamente irresoluta para os que explicam o valor do dinheiro-ouro por sua utilidade). O qual subjaz a aspiração de “ correr atrás do tesouro eterno que não pode ser corroído nem pelas formigas, nem pela ferrugem” (Contribuição..). Em definitivo, tudo indicaria que o ouro segue sendo “a forma sempre pronta, absolutamente social da riqueza” (O Capital), não só para investidores privados, senão também para os Estados capitalistas e seus bancos centrais: Daí também o fetiche do ouro. A crítica marxista  não deveria ignorar estas questões, que estão no seio das contradições da mercadoria (e em consequência, do capital). Referências bibliográficas: MARX, Karl. Contribuição à Crítica da Economia Política . Tradução e introdução de Florestan Fernandes. 2. ed. São Paulo: Expressão Popular, 2008. Notas do tradutor: *Texto originalmente publicado no blog Economia e Marxismo no dia 27 de Julho de 2023 ** Na tradução usamos  a edição da Contribuição à crítica da Economia Política da Expressão Popular para não  traduzir a passagem de Marx para uma terceira língua: Do alemão-espanhol-português. No  texto original de Astarita, a citação ao texto de Marx usa polilla onde a Expressão Popular  usou formiga. Pollila é literalmente Mariposa, o que é contra intuitivo para o leitor brasileiro  já que na passagem Marx se refere a algum animal capaz de “perfurar” as cédulas, como as  formigas fazem com as folhas das árvores. *** No original: “y el de China”  expressão coloquial comum no espanhol rioplatense para se referir “ao caso de..” ou “na  situação de...”.

  • O caricaturista e sua arte: Elias Jabbour, o marxismo contra Marx e o socialismo com capital.

    Fonte: https://jornalggn.com.br/wp-content/uploads/2021/02/jornalggn.com.br-china-1024x576-1.jpg por Frederico Lambertucci  Em 2021, Elias Jabbour publicou um artigo no portal GGN , apontando brevemente sua concepção sobre a China e a definição dela como o que se consolidou nominalmente como "socialismo de mercado" ou "socialismo real". De lá para cá não somente tal concepção não mudou, mas ganhou mais projeção, tendo Jabbour como principal expoente e resultou na ascenção de diversos divulgadores online, do reformismo ao suposto campo radicalizado do marxismo brasileiro. Estes últimos parecem amaciar em suas referências a Jabbour as defesas dele do programa petista eleitoral de 2022, como "programa máximo", ainda que o que vimos foi o menos que o mínimo deste "máximo" que nunca existiu para além da retórica reformista. Como o texto contém, de maneira geral, um sumário resumido de suas ideias, achamos que uma crítica conseguiria pegar pontos interessantes de sua construção teórica, se é possível chamar assim o que o apologista chinês faz. Elias Jabbour, talvez, seja o melhor exemplo da decadência intelectual da Universidade Burguesa e de que forma a decadência ideológica da burguesia encontrou uma via específica nos ditos "intelectuais" progressistas e nos autointitulados "marxistas", que na realidade não passam de reformistas pagos a soldo. Sim, o reformismo, desde Bernstein, também produz seus próprios espadachins, que funcionam como salvaguarda do capital, mas pelo “lado oposto”. No caso em tela, o “intelectual”, que só pode ser chamado assim em tempos da mais profunda miséria teórica e prática no movimento comunista, é um apologista do capital chinês. Peguemos alguns argumentos de Elias Jabbour dos porquês a China seria "socialista". No pequeno texto indicado no início deste texto, ele resume seus argumentos, que são, no mínimo, risíveis, do ponto de vista de qualquer marxista sério e rigoroso. O primeiro argumento encontra-se já no primeiro parágrafo, segundo o propagandista chinês É uma caricatura afirmar que os defensores do caminho socialista na China baseiam-se no fato da China ter estatais. É muito conhecida a noção marxiana para quem a forma de propriedade dominante é o que define uma formação econômico-social. A existência de estatais é um ponto de partida fundamental para as transformações que a China tem conseguido empreender. (Jabbour, 2021)   O argumento utilizado procura, paradoxalmente, se defender da “caricatura” afirmando que a questão não é a China ter “estatais”, ao mesmo tempo que é central na argumentação sobre o caráter da “formação econômico-social” que a China tenha estatais, como “forma de propriedade dominante”. Desse modo, que, no mínimo deveria ofender qualquer leitor por subestimar sua inteligência, Elias Jabbour busca se amparar na categoria marxiana, a tal "noção" marxiana de formação econômico-social para defender que a propriedade estatal, e lembremos que estamos falando de propriedade jurídica, é a forma dominante de propriedade e que, portanto, a China seria socialista, ou no mínimo estaria seguindo esse caminho. Comecemos, portanto, com a categoria de formação econômico-social de Marx. Ao discutir como uma nova forma de relação social de produção só pode se desenvolver a partir de certo grau de forças produtivas, as quais também correspondiam certas relações sociais de produção, Marx, nos Grundrisse, discute a peculiaridade da forma como na “formação econômico-social” burguesa, os elementos de relações sociais de produção passados, inclusive formas jurídicas de propriedade são assimilados, transformados segundo a relação social dominante da sociedade burguesa, por isso, diz ele que: É preciso considerar que as novas forças produtivas e relações de produção não se desenvolvem do nada, nem do ar nem do ventre da ideia que se põe a si mesma; mas o fazem no interior do desenvolvimento da produção existente e das relações de produção tradicionais herdadas, e em contradição com elas. Se no sistema burguês acabado cada relação econômica pressupõe a outra sob a forma econômico-burguesa e, desse modo, cada elemento posto é ao mesmo tempo pressuposto, o mesmo sucede em todo sistema orgânico . Como totalidade, esse próprio sistema orgânico tem seus pressupostos, e seu desenvolvimento na totalidade consiste precisamente em subordinar a si todos os elementos da sociedade, ou em extrair dela os órgãos que ainda lhe faltam . É assim que devém uma totalidade historicamente. O vir a ser tal totalidade constitui um momento de seu processo, de seu desenvolvimento (Marx, 2011, p. 283) Como o leitor pode ver, na formação econômico-social da sociedade burguesa, o seu processo de tornar-se uma totalidade para-si, consistiu precisamente em subordinar todos os elementos da sociedade, ou em criar os novos. Por exemplo, a propriedade da terra, deve, necessariamente ser subordinada a forma de produção do capital, de modo a produzir a condição de sua reprodução própria, através do trabalho assalariado, como seu fundamento. A peculiaridade da “formação econômico-social” da sociedade burguesa, é que o capital, exatamente pela sua universalidade fundada no trabalho assalariado, só pode continuar existindo como processo de contínua expansão, e, deve, subordinar e transformar todas as relações sociais na direção da sua própria estrutura produtiva. Isto é, para produzir o capital enquanto tal, tem que, necessariamente, transformar o trabalho em trabalho assalariado, por isto, Marx diz que “no sistema burguês acabado, cada relação econômica pressupõe a outra sob a forma econômico-burguesa e, desse modo, cada elemento posto é ao mesmo tempo pressuposto”. Ou seja, o que Marx está dizendo é que a constituição da sociedade burguesa enquanto uma totalidade, tem que necessariamente, tal como todo sistema orgânico, produzir todas as partes enquanto totalidades reciprocamente determinadas que se sustentam reflexivamente. Isto é, todas as partes são postas sob a forma econômico-burguesa, como pressupostos de outras relações da mesma sociedade burguesa. O trabalho assalariado, por exemplo, é pressuposto do capital, mas quando o capital se torna posto, a própria reprodução da força de trabalho enquanto elemento do trabalho assalariado, se torna reposta pelo capital, a determinação de reflexão significa partes que não são mais cindíveis, assim que o sistema orgânico do capital é uma totalidade concreta, como síntese real. O que significa que, qualquer parte, para que continue existindo sob “a forma econômico-burguesa” deve necessariamente integrar elementos de formas passadas de sociedade, como pressupostos das relações do capital. Isto é, elementos preservados só sobrevivem na totalidade da sociedade burguesa, caso constituam-se como partes do processo de reprodução dessa formação econômico-social em que domina o capital como relação social fundamental.   É isso que Marx tem em mente, na análise da sociedade burguesa, quando nos Grundrisse discute a peculiaridade dessa forma social e sua relação com as formas de propriedade passada, diz ele que A sociedade burguesa é a mais desenvolvida e diversificada organização histórica da produção. Por essa razão, as categorias que expressam suas relações e a compreensão de sua estrutura permitem simultaneamente compreender a organização e as relações de produção de todas as formas de sociedade desaparecidas, com cujos escombros e elementos edificou-se, parte dos quais ainda carrega consigo como resíduos não superados, parte [que] nela se desenvolvem de meros indícios em significações plenas etc. [...]. Do mesmo modo, a economia burguesa fornece a chave da economia antiga etc. Mas de modo algum à moda dos economistas, que apagam todas as diferenças históricas e veem a sociedade burguesa em todas as formas de sociedade. Pode-se compreender o tributo, a dízima etc. quando se conhece a renda da terra. Porém, não se deve identificá-los. Como, ademais, a própria sociedade burguesa é só uma forma antagônica do desenvolvimento, nela são encontradas com frequência relações de formas precedentes inteiramente atrofiadas ou mesmo dissimuladas . Por exemplo, a propriedade comunal . Por conseguinte, se é verdade que as categorias da economia burguesa têm uma verdade para todas as outras formas de sociedade, isso deve ser tomado cum grano salis[e]. Elas podem conter tais categorias de modo desenvolvido, atrofiado, caricato etc., mas sempre com diferença essencial.  [...]. Em todas as formas de sociedade, é uma determinada produção e suas correspondentes relações que estabelecem a posição e a influência das demais produções e suas respectivas relações. É uma iluminação universal em que todas as demais cores estão imersas e que as modifica em sua particularidade. É um éter particular que determina o peso específico de toda existência que nele se manifesta . [...]. [...]. O capital é a potência econômica da sociedade burguesa que tudo domina. Tem de constituir tanto o ponto de partida quanto o ponto de chegada, e tem de ser desenvolvido antes da renda da terra. Após o exame particular de cada um, é necessário examinar sua relação recíproca. (Ibid. , p . 76-78)   Parece-nos que é evidente que, dado que o “capital é a potência econômica da sociedade burguesa que tudo domina”, e depois de dizer que em “todas as formas de sociedade, é uma determinada produção e suas correspondentes relações que estabelecem a posição e a influência das demais produções e suas respectivas relações” que Marx tem clareza do fato de que, ainda que relações não inteiramente superadas possam sobreviver no interior de uma “formação econômico-social”, elas só continuam existindo subordinadas a relação social que é predominante na reprodução social. No caso da sociedade burguesa, subordinadas ao próprio capital, enquanto “potência econômica da sociedade burguesa que tudo domina”. Dessa forma, é completamente compreensível que formas de trabalho escravo, ou mesmo na China, de trabalho “comunal” convivam com o trabalho assalariado. A questão fundamental é que, posto o trabalho assalariado como forma fundamental de relação social de produção, o capital pode tornar formas de propriedade e de trabalho, que não são assalariadas, em vantagem produtiva para sua própria reprodução. O que é o trabalho familiar, praticamente artesanal, que produz jeans em fundo de quintal no México, ou a pequena propriedade familiar que produz seda no Brasil, ou mesmo o trabalho camponês do chinês que tem a permissão de uso da terra pelo Estado chinês, se não isso? No primeiro e no segundo caso não temos propriamente trabalho assalariado, mas temos trabalho abstrato que é apropriado, através do mercado mundial, pelos monopólios imensamente mais produtivos, e não há possibilidade de produção para o consumo, antes de tudo, se produzem mercadorias. No segundo caso, pela via política, o Estado chinês ao determinar o preço dos grãos e pela proibição do camponês da venda no mercado mundial dos grãos produzidos, ele impõe o preço e consequentemente determina o nível da apropriação de riqueza pelo Estado. Ao pagar abaixo do preço do mercado mundial pelo grão, tal forma de produção possui um caráter fundamental na reprodução do capital, pois rebaixa o valor da força de trabalho do trabalhador assalariado chinês através dessa apropriação. Em suma, transforma o que incautos chamariam de formas de “não-propriedade”, quando o verdadeiramente o são, em vantagem produtiva para o conjunto do capital na China. Há ainda que ressaltar, que nessa “formação econômico-social”, o momento predominante é sempre o capital, pela sua própria natureza universalizadora e seus critérios reprodutivos, que, necessariamente subordinam todos os elementos para si e em última análise, permanecem sempre como formas da relação-capital. Atente-se ainda o leitor, que nos nossos três exemplos, o trabalho assalariado é facilmente combinável com as formas existentes trabalho, no exemplo do México e do Brasil, se pode, facilmente, contratar um trabalhador de fora da família na base de um contrato de trabalho, e no caso da propriedade estatal, ao qual é outorgado direito de uso ao camponês, o camponês pode simplesmente arrendar a terra ou mesmo contratar força de trabalho, passando com isso ao trabalho assalariado na produção agrária chinesa. Nenhuma das relações sociais está em contradição com o modo de produção do capital de forma antagônica, são formas de propriedade constitutivas da relação capital, ainda que, se possa, em termos gerais, falar que são constitutivas da formação econômico-social. Não obstante, ainda precisamos falar da propriedade estatal dos meios de produção pelo Estado, seria essa forma jurídica de propriedade antagônica ao capital e produziria uma “formação econômico-social” em que formas de propriedade concorrem entre si, como quer o apologista do capital chinês? Vejamos o que diz Engels sobre a propriedade estatal Enquanto as crises revelaram a incapacidade da burguesia de continuar administrando as modernas forças produtivas, a metamorfose das grandes instituições de produção e intercâmbio em sociedades por ações e propriedades do Estado mostraram a dispensabilidade da burguesia para esse fim. Todas as funções sociais do capitalista passam a ser exercidas por funcionários remunerados . [...]. Tendo o modo de produção capitalista alijado primeiramente os trabalhadores, ele passa agora a alijar os capitalistas e os remete, a exemplo do que ocorreu com os trabalhadores, à população supérflua, embora num primeiro momento não os atire ao exército industrial de reserva. Porém, nem a metamorfose em sociedades por ações nem a metamorfose em propriedades do Estado retiram das forças produtivas sua qualidade de capital . No caso das sociedades por ações, isso é evidente. E o Estado moderno, por sua vez, é apenas a organização que a sociedade burguesa monta para sustentar as condições exteriores gerais do modo de produção capitalista contra ataques tanto dos trabalhadores como de capitalistas individuais. O Estado moderno, qualquer que seja sua forma, é, portanto, uma máquina essencialmente capitalista, é o Estado dos capitalistas, é o capitalista global ideal. Quanto maior é o número de forças produtivas que ele assume como sua propriedade, mais ele se torna um capitalista global real, maior é o número de cidadãos do Estado que ele espolia. Os trabalhadores permanecem trabalhadores assalariados, proletários. A relação com o capital não é revogada; ao contrário, é levada ao extremo. (Engels, 2015, p. 390) Assim Engels ensina ao nosso apologista do capital chinês que a verdadeira propriedade privada capitalista é o capital, e não a propriedade jurídica, que permanece sempre formal, deste. O fato do Estado controlar uma massa maior de capital ou menor sob a posse dos meios de produção, só comprova o fato de que o Estado é, antes de tudo, pertencente a estrutura social do capital, não como “superestrutura” jurídico-política apenas, mas enquanto instrumento produtivo a serviço da reprodução do capital. Desse modo, se a relação capital-trabalho é preservada, seja sob a posse de um punhado de capitalistas, seja sob posse estatal, nada se altera na relação real de subordinação objetiva do trabalho ao capital, pela qual O caráter social da atividade, assim como a forma social do produto e a participação do indivíduo na produção, aparece aqui diante dos indivíduos como algo alheio, como coisa; não como sua conduta recíproca, mas como sua subordinação a relações que existem independentemente deles e que nascem do entrechoque de indivíduos indiferentes entre si. A troca universal de atividades e produtos, que deveio condição vital para todo indivíduo singular, sua conexão recíproca, aparece para eles mesmos como algo alheio, autônomo, como uma coisa. No valor de troca, a conexão social entre as pessoas é transformada em um comportamento social das coisas; o poder [Vermögen] pessoal, em poder coisificado. (Marx, 2011, p. 137)   Ora, na sociedade chinesa o caráter social da atividade, bem como a forma social do produto não comparecem como “algo alheio”, exatamente na medida em que todas as determinações e relações do capital permanecem controlando todo o metabolismo social? Não é o trabalho assalariado o que produz toda a riqueza social chinesa, apropriada sob a forma de mais-valia? Não é a completa separação dos indivíduos do controle real, determinado, o que existe na China? Pois, se existe capital, não pode haver nenhum tipo de controle real pelos produtores associados, na medida em que 1) o trabalho associado é completamente antagônico ao trabalho assalariado, ele só pode se pôr contra e superando a forma assalariada de trabalho 2) o capital é em-si mesmo a alienação do controle, na medida em que ele mesmo é trabalho objetivado alienado, a sua substância é isto, ele não pode conviver com nenhum tipo de controle real, pois sua existência permanece inteiramente condicionada a reprodução da separação entre produção e controle. Isto é, a própria existência do capital é constitutiva dessa separação, o que exige que um grupo de indivíduos personifique o trabalho e outra as exigências objetivas de sua reprodução ampliada, as personificações do capital, que podem ser os capitalistas, ou burocratas do partido, comandando o capital na forma de propriedade estatal chinesa. É assim que a condição alienada da produção e seu caráter fetichista continuam determinantes na produção e no caráter da atividade e de vida do indivíduo. A estrutura geral da sociedade burguesa, suas determinações fundamentais permanecem completamente intocadas no processo reprodutivo da sociedade burguesa chinesa. Contudo, para o apologista chinês, tais constitutivos da sociedade burguesa, são unicamente "noções positivistas e neopositivistas”, como afirma no texto Por outro lado noções positivistas e neopositivistas afirmam relação direta entre a dinâmica chinesa, os países desenvolvimentistas asiáticos e outras formas de Estado Industrial. Nesse caso as “teorias anteriores” são suficientes para explicar a China. Trata-se de uma meia verdade, a começar pelo regime de propriedade e a inauguração de formas superiores nas relações do ser-humano e a natureza. (Jabbour, 2021) Abstraindo-se o completo relaxo quanto à forma do texto de Jabbour, convém indagar ao Jabbour se ele considera Marx e Engels “neopositivistas” avant la lettre  ou se considera enquadrados no que ele menciona serem as “teorias anteriores”, que por algum motivo místico, excetuando-se a passagem do tempo, perderam a sua validade teórica, ainda que o objeto sob o qual sua teoria se constituiu, não foram formas singulares e efêmeras do desenvolvimento capitalista, mas sobretudo os fundamentos causais da sociedade burguesa, principalmente, as condições sociais de produção do capital enquanto tal, em relação às quais, os elementos singulares e as formas concretas são mutáveis, mas que conservam aquele caráter dialético da continuidade na descontinuidade e vice-versa. Convém perguntar se apesar da casca “marxista” que Jabbour pretende atribuir a si mesmo, além desse formalismo tosco e rude, ao qual designaríamos o termo “neokantiano” caso não fosse sujar o nome dos já péssimos neokantianos, se o que Marx designa abaixo, não permanece como verdade teórica geral para a sociedade burguesa, incluindo a China: O pressuposto elementar da sociedade burguesa é que o trabalho produz imediatamente valor de troca, por conseguinte, dinheiro; e então, igualmente, que o dinheiro compra imediatamente o trabalho e, por isso, o trabalhador tão somente na medida em que ele próprio aliena sua atividade na troca. Portanto, trabalho assalariado, por um lado, e capital, por outro, são apenas outras formas do valor de troca desenvolvido e do dinheiro enquanto sua encarnação. Com isso, o dinheiro é, ao mesmo tempo, imediatamente a comunidade real, uma vez que é a substância universal da existência para todos e o produto coletivo de todos. (Marx, 2011, p. 212)   Na China o trabalho não produz imediatamente valor de troca, e por conseguinte dinheiro? O dinheiro não compra força de trabalho, abstraída enquanto potência alienável, vendável? E enquanto vendável, o capital que a compra, seja estatal, seja privado, não controla o conjunto do processo de produção, inclusive a própria atividade do trabalho? Não continuam existindo, portanto, capital de um lado e trabalho assalariado, de outro? O dinheiro não permanece sendo a “comunidade real” enquanto vínculo social dos indivíduos com a totalidade social na China? Ou é alguma forma mística de sensação de pertencimento vinculada a “cultura” ou ao “confucionismo”, enquanto conteúdos ideológicos completamente dissociados das relações sociais reais de produção e distribuição e formas etéreas de consciência social. E por conseguinte, qual seria essa “forma superior de relação do ser-humano e a natureza” quando o conjunto de alienações de que trata Marx nos Manuscritos econômico-filosóficos permanece existindo? E principalmente, quando a atividade do trabalho e o produto do trabalho permanecem alheios, tornando o gênero humano, a relação do trabalho com a totalidade da sociedade, como um meio para a existência física do trabalhador. Esta produção é a sua vida genérica operativa. Por ela, a natureza aparece como obra sua e sua realidade. O objeto do trabalho é, portanto, a objetivação da vida genérica do homem, na medida em que ele se duplica não só intelectualmente, como na consciência, mas também operativamente (werktätig), realmente, e contempla-se por isso num mundo criado por ele. Por isso, na medida em que arranca ao homem o objeto da sua produção, o trabalho alienado arranca-lhe a sua vida genérica, a sua real objetividade genérica, e transforma sua vantagem sobre o animal na desvantagem de lhe ser retirado o seu corpo inorgânico, a natureza. (Marx, 2015, p. 313)   Então, do mesmo modo, na medida em que reduz a autoatividade, a atividade livre, a um meio, o trabalho alienado faz da vida genérica do homem um meio para a sua existência física. A consciência que o homem tem do seu gênero transforma-se, portanto, pela alienação, de modo que a vida genérica se torna um meio para ele. Assim, o trabalho alienado faz: 3) do ser genérico do homem – tanto a natureza quanto a sua capacidade espiritual genérica (Gattungsvermögen) – uma essência alienada a ele, num meio da sua existência individual. Ele aliena do homem o seu corpo próprio, bem como a natureza fora dele, bem como a sua essência espiritual, a sua essência humana. (Marx, 2015, p. 313-314)   Não estão, na China, alienadas dos reais produtores, dos trabalhadores chineses, tanto o produto do seu trabalho, sob a forma de mercadorias, quanto a sua atividade, enquanto força de trabalho vendável e pertencente aos empregadores (sejam capitalistas, sejam burocratas do partido), e, portanto, não está a própria vida genérica, a qual o trabalho produz necessariamente enquanto gênero humano objetivamente constituído a partir da transformação da natureza? O gênero humano não se tornou, desse modo, meio para a existência do indivíduo sob mediação determinante deste com aquela, isto é, o trabalho assalariado? E assim, sob a égide da reprodução do capital, enquanto invólucro do gênero humano, não está a natureza alienada, igualmente, dos indivíduos? Não é ela mesma, a natureza, um meio para a reprodução ampliada do capital, o qual está, necessariamente subordinado aos critérios do aumento da produtividade social do trabalho? O que implica em um critério unicamente quantitativo, abstrato, da relação entre homem e natureza, em que essa só conta enquanto menor tempo de trabalho socialmente necessário para sua exploração, como massa de trabalho alienado objetivado. Talvez essas questões sejam muito “positivistas” ou “neopositivistas”. Ou será que já podemos dizer que essas qualificações são fugas fáceis para obstaculizar o debate? Comentemos, por último, todo o restante do texto de Jabbour e tornemos ainda mais explícita sua miséria intelectual. Diz ele que: Existem novas regularidades geradas e a necessidade de novos marcos teóricos, conceituais e categorias à apreensão daquela totalidade. Definitivamente a chamada “Economia do Desenvolvimento” já demonstra fadiga à compreensão de realidades disruptivas. Minha diferença com os economistas do desenvolvimento heterodoxos não é se a China é socialista ou capitalista. Nossas diferenças residem na profunda opção conservadora deles em matéria de ciência e teoria do conhecimento. O positivismo deles os tornam grandes economistas para entender economias “estáveis” e sem grandes novidades no nível das relações dos seres humanos e a natureza. Enfim, são formados e modelados para entender um modo de produção específico. A China é socialista? Esta pergunta não é da tradição marxista. Quem levanta esta questão é fiel ao figurino intelectual que tratei mais acima. Marx nos ensinou a buscar a compreender a natureza e a síntese de determinadas combinações entre fenômenos “subterrâneos” de diferentes idades históricas. (Jabbour, 2021)   O apologista tem razão sobre o fato de que novas regularidades exigem, de fato, novos marcos teóricos, ainda que nem sempre esses marcos teóricos necessitem de fundamentos ontometodológicos distintos, mas isto não vem ao caso aqui. A questão, fundamental, é que na medida em que é o capital a relação social fundamental da produção na sociedade chinesa, e na medida em que está se liga a partir do mesmo conjunto categorial ao mercado mundial, a mera existência de uma burocracia “comunista” não significa alteração alguma nas leis sociais de produção. Por essa razão, na China encontramos as mesmas categorias que Marx, em O Capital, apreendeu as determinações mais profundas e gerais do modo de produção capitalista. Na China a produção tem por objetivo a mais-valia, a separação entre produção e controle é determinante da existência do capital enquanto relação social de produção, e como Engels bem explicou, mesmo a propriedade estatal não altera em nada as leis que regem a produção e a distribuição sob a lógica do capital. É evidente que tais categorias se expressam em formas fenomênicas em tudo distintas, o capitalismo americano apresenta uma “configuração” distinta do francês, do inglês e do chinês, sem que nenhuma das expressões concretas do capital perda seu caráter de capitalismo, enquanto totalidades parciais do mercado mundial articulado em conjunto com as formações estatais do capital. A divergência de Jabbour com quem realiza a crítica da China como forma de desenvolvimento capitalista, a quem ele coloca no mesmo balaio de “economistas do desenvolvimento heterodoxo”, é que diferente dele, não são apologistas cego do capitalismo chinês, e principalmente nada tem que ver com “opção conservadora” em “matéria de ciência e conhecimento”, mas sim do fato de que, os marxistas sérios e rigorosos, não são economistas, são críticos da economia política, e isso possui um sentido muito preciso. Ao invés de capitular frente à realidade, a crítica da economia política deve perquirir a matéria social, reproduzir intelectivamente a realidade em si mesma, tomando o conjunto das relações enquanto processos constitutivos de totalidades que possuem identidade e não-identidade. Tal fato não implica essa espécie de relativismo teórico, dizer como as coisas realmente são implica dizer o que são, qual sua identidade última. No fundo, Jabbour promove um irracionalismo epistemológico tacanho como se para Marx, fosse impossível dizer o que algo realmente é. Ora, Marx apreendeu o que o capital é enquanto processo, enquanto relação, é evidente que não se pode simplesmente dizer “o capital é isso” e ponto, contudo é um processo real e teoricamente apreensível, cujas balizas fundamentais permitem dizer o que é o capital e o que é a negação do capital. O relativismo epistemológico de Jabbour serve a um propósito muito claro, pois, caso fosse impossível determinar os fundamentos objetivos do socialismo enquanto processo de transição, qualquer tipo de fenômeno poderia ser apontado, como faz o apologista, como um passo na transição socialista. Assim, não é casual que a pergunta se a china é socialista seja tratada como pergunta que “não é da tradição marxista”, pode-se, dessa forma, se argumentar pelo mais puro relativismo se passando por um fiel marxista. Marx não nos ensinou a compreender “a natureza e a síntese de determinadas combinações entre fenômenos ‘subterrâneos’ de diferentes idades históricas”, e não o fez simplesmente porquê Marx não é Weber. A ideia de que os fenômenos são “subterrâneos” e que sua constituição é uma síntese de diferentes idades históricas é simplesmente um tipo ideal, um pressuposto. Marx, ao contrário, nunca partiu do fato de que os fenômenos que estão dados na realidade são frutos necessariamente subterrâneos de uma síntese, antes, o próprio fato do fenômeno constituir uma apresentação não exaustiva da realidade teve que ser explicado enquanto determinação, primeiro ontológica da realidade, depois metodológica, ainda que a segunda seja apenas em termos da relação fundamental entre sujeito e objeto, e nunca a produção de um método formal segundo o qual a realidade seria compreensível. A segunda questão é que, como vimos, para Marx, um sistema orgânico, uma totalidade para-si, sempre é produto de um processo em que uma relação constitui o momento predominante no processo, e subordina todos os elementos a sua própria reprodução. Se existe em uma formação social, elementos de “diferentes idades históricas”, esse fato deve ser averiguado na própria investigação da “matéria social”, nunca um pressuposto. E, ainda, mesmo que em um sistema orgânico hajam elementos de “diferentes idades históricas” o que é importante é a função que esse elemento cumpre na reprodução da totalidade presente, não enquanto traço remanescente que pode ser enquadrado conforme sua apresentação histórica genética. Isto é, a reprodução de um elemento de uma sociedade passado só é importante na medida em que sustenta a reprodução das outras partes e da totalidade da sociedade que é o objeto atual. É por essas razão que Marx diz que A anatomia do ser humano é uma chave para a anatomia do macaco. Por outro lado, os indícios de formas superiores nas espécies animais inferiores só podem ser compreendidos quando a própria forma superior já é conhecida. Do mesmo modo, a economia burguesa fornece a chave da economia antiga etc. Mas de modo algum à moda dos economistas, que apagam todas as diferenças históricas e veem a sociedade burguesa em todas as formas de sociedade. Pode-se compreender o tributo, a dízima etc. quando se conhece a renda da terra. Porém, não se deve identificá-los. Como, ademais, a própria sociedade burguesa é só uma forma antagônica do desenvolvimento, nela são encontradas com frequência relações de formas precedentes inteiramente atrofiadas ou mesmo dissimuladas. (Marx, 2011, p. 76)   E finalmente, se vê a completa incongruência de Jabbour, ao fim quando diz no último parágrafo quando diz que A Economia do Projetamento descoberta por Rangel fora produto de uma combinação (planificação soviética, keynesianismo é o capital financeiro). A Nova Economia do Projetamento que surge na China é algo em que estamos avançando em sua conceituação. Qual país capitalista trocou a iniciativa privada por dois milhões de técnicos à serviço de um Partido Comunista na gerenciamento da “destruição criativa”? Nada disso estava em algum escrito dos clássicos do materialismo histórico. É o que chamo de “historicamente construído. (Jabbour, 2021)   Caro leitor, usemos nossos neurônios, pelo menos mais do que Elias Jabbour, o que certamente não é difícil. Lhes pergunto, como é possível descobrir uma economia que não existe? Como a “Economia do Projetamento” pode ser ao mesmo tempo descoberta por Rangel e produto de uma combinação que, na realidade, nunca existiu? Ora, se se trata na realidade de um modelo produzido tomando elementos da planificação soviética, do keynesianismo e do capital financeiro, só pode ser um construto ideal a ser aplicado, e não a realidade. O que poderia estar mais distante do marxismo do que a produção de um modelo de gerenciamento do capital? Logo Marx que buscava apreender as relações sociais em sua totalidade, como processo objetivo realmente existente? A crítica da economia política de Marx se volta para a apreensão da realidade tal qual ela está constituída, é por isso que ele diz que Como em geral em toda ciência histórica e social, no curso das categorias econômicas é preciso ter presente que o sujeito, aqui a moderna sociedade burguesa, é dado tanto na realidade como na cabeça, e que, por conseguinte, as categorias expressam formas de ser, determinações de existência, com frequência somente aspectos singulares, dessa sociedade determinada, desse sujeito, e que, por isso, a sociedade, também do ponto de vista científico, de modo algum só começa ali onde o discurso é sobre ela enquanto tal. (Marx, 2011, p. 77)   É cristalino o fato de que para Marx, teoria é a reprodução ideal do movimento real do objeto determinado, aqui, como diz ele, a “moderna sociedade burguesa”. Assim, a mistura eclética de modelos econômicos de forma a construir uma “cartilha” aplicável, ou buscar compreender a manifestação fenomênica de uma forma de desenvolvimento nacional do capital, como a chinesa, através da mescla estranha de três “modelos”, juntando a planificação soviética, com o pensamento keynesiano e o capital financeiro, seja lá como se pretenda realizar isto, não poderia estar mais longe e ser mais estranho ao pensamento de Marx. Além, obviamente, de só poder produzir um “voo de Ícaro”, pois entre a relação social real que se desdobra processualmente no mercado mundial, e a malfadada e hoje esgotada via de desenvolvimento nacional do capital e o projeto de desenvolver o capital pelo Estado chinês através da “Economia do projetamento” só pode levar a um beco sem saída, pois no fundo, o capital nacional chinês nada tem de realmente nacional. Em suma, Jabbour não pode conceituar uma forma de desenvolvimento econômico, com todas as suas relações, se ao invés de realizar sua crítica, no real significado marxiano de crítica, ele contrapõe à investigação um modelo idealmente elaborado e pré-concebido de “conceitos”, a partir dos quais constrói seu “objeto”. De marxista Jabbour possui apenas o jargão. Do ponto de vista teórico se refugia no mais puro relativismo, ao tentar cancelar o questionamento fundamental dos critérios objetivos segundo os quais o socialismo pode ser caracterizado enquanto processo e na medida em que pretende cancelar o critério objetivo de validação do conhecimento. E ainda se torna um weberiano inconsciente quando em detrimento da investigação da realidade, realiza uma inversão em que a partir de um modelo ideal, que poderíamos facilmente atribuir ao Dr. Frankenstein, pretende conceituar o real. Caminho completamente oposto ao de Marx. E finalmente, o patético argumento de que a troca dos controladores do trabalho, gerenciadores do trabalho privado por funcionários públicos, fazem qualquer diferença, no quadro em que, de fato a função a qual são chamados a responder é a de serem impositores da lógica quantitativa, da produtividade social do trabalho. De forma alguma isso implica uma transformação qualitativa no sistema do capital. Ora, o próprio fato de que o processo de trabalho requer “técnicos” – uma forma encontrada para escamotear o fato de que ocupam a mesma função na estrutura produtiva do que os gerentes capitalistas – demonstra que do ponto de vista da relação social, as determinações e a alienação entre produção e controle permanecem exatamente às mesmas. Mas agora, ao invés de alguns milhões de gerenciadores privados do processo de trabalho, se tem “dois milhões de técnicos”, gerenciando não a “destruição criativa”, mas a produção destrutiva, característica de nossa época histórica. Nenhum dos “dois milhões de técnicos” a serviço do Partido Comunista Chinês, enquanto personificação do capital, controla o processo, é a lógica do capital, externamente determinada pelo mercado mundial que determina. Tal qual os capitalistas individuais estão sujeitos a lei do valor operando no mercado mundial, o Estado chinês e cada uma de suas unidades produtivas estão igualmente subordinadas a mesma estrutura social. Por essa razão, enquanto a relação-capital existir, não faz a mínima diferença se são “técnicos” de empresas privadas que realizam o “gerenciamento do trabalho”, em verdade, da imposição dos critérios de ritmo e de controle do processo de trabalho sobre os trabalhadores, ou se são “dois milhões de técnicos à serviço de um Partido Comunista”, independentemente de quão bem intencionados estejam os técnicos ou o partido em questão. Ao fim e ao cabo, o que Elias Jabbour chama de “historicamente construído” é qualquer coisa e qualquer fenômeno em qualquer lugar, ou em termos cinematográficos “tudo em todo lugar ao mesmo tempo”, mas que também pode ser nada. É uma tautologia imbecil dizer que fenômenos sociais são “historicamente construídos”, nem Weber, nem mesmo o positivista Durkheim teriam divergências com essa frase. A questão não é se algo é historicamente construído, mas como o ser social se constrói historicamente, e fundamentalmente, qual a relação entre estrutura e história. Quais as determinações ontológicas fundamentais da reprodução social e de uma forma determinada de reprodução social. Qual a identidade interna e a não-identidade de uma forma social com o desenvolvimento histórico. Quais são as determinações de uma totalidade que apresentam a negação ontológica de uma forma de reprodução social? Quais os elementos que constituem limites relativos e limites absolutos em uma estrutura social? O que caracteriza uma forma social e sua negação e com base nisso, quais as categorias transicionais de uma forma a outra? Todas essas são perguntas que se dirigem a apreensão de determinações objetivas. Perguntar quais os fundamentos sociais do socialismo é uma pergunta que Marx, de maneira geral, balizou, compreendendo que apesar das particularidades históricas de apresentação do modo de produção capitalista, as formas nacionais do capital, as determinações mais gerais do capital, do Estado, deveriam ser negadas e superadas no processo de transição, através da positividade do trabalho associado, ou dos produtores livremente associados. Marx nunca produziu uma relativização do conhecimento, negando a possibilidade de determinar o fundamento social de uma reorganização da sociedade sob a base do trabalho associado. Nos próprios Grundrisse, por exemplo, falando sobre o trabalho assalariado e o trabalho comunal, diz que: O trabalho do indivíduo considerado no próprio ato de produção é o dinheiro com que ele compra diretamente o produto, o objeto da sua atividade particular; mas é um dinheiro particular que compra precisamente só este produto específico. Para ser diretamente dinheiro geral, teria que ser desde o início não um trabalho particular, mas trabalho geral, isto é, teria que ser posto como um elo na produção geral. Mas, com esta pressuposição, não é a troca que dá ao trabalho seu caráter geral, mas é antes seu pressuposto caráter comunal que determina a distribuição de produtos. O caráter comunal de produção faz, desde o início, do produto um produto comunal, geral. A troca que originalmente acontece na produção – que não é uma troca de valores de troca mas de atividades, determinada por necessidades e propósitos comunais – inclui desde o início a participação do indivíduo no mundo comunal de produtos. Com base em valores de troca, o trabalho só é posto como geral pela troca. Mas, neste fundamento [comunal], ele é postulado como tal antes da troca; isto é, a troca de produtos não é de maneira alguma o meio pelo qual a participação do indivíduo na produção geral é mediada. A mediação deve, claro, ocorrer. No primeiro caso, que procede da produção independente de indivíduos – não importa quanto estas produções independentes se determinem e se modifiquem reciprocamente post festum – a mediação acontece pela troca de mercadorias, pelo valor de troca e pelo dinheiro; todas expressões de uma e mesma relação. No segundo caso, a própria pressuposição é mediada, isto é, em uma produção comunal, a comunidade é pressuposta como a base da produção. O trabalho do indivíduo é posto desde o início como trabalho social. Assim, qualquer que seja a forma material particular do produto que ele cria ou ajuda a criar, o que foi comprado com o seu trabalho não é um produto específico e particular, mas antes uma porção especial da produção comunal. Ele não tem, portanto, nenhum produto particular para trocar. O seu produto não é um valor de troca. O produto não tem que ser antes transposto a uma forma particular para atingir um caráter geral para o indivíduo. Em vez de uma divisão de trabalho, trabalho que necessariamente é criado no intercâmbio de valores de troca, aconteceria uma organização do trabalho cuja consequência seria a participação do indivíduo no consumo comunal. No primeiro caso, o caráter social de produção é posto apenas post festum com a elevação dos produtos a valores de troca e o intercâmbio destes valores de troca. No segundo caso, é pressuposto o caráter social da produção, e a participação no mundo de produtos, no consumo, não é mediada pela troca de produtos de trabalho ou de trabalhos mutuamente independentes. É mediada, antes, pelas condições sociais de produção no interior das quais o indivíduo é ativo. Aqueles que querem transformar diretamente o trabalho dos indivíduos em dinheiro (isto é, o seu produto também), em valor de troca realizado, querem, portanto, determinar diretamente o trabalho enquanto trabalho geral, isto é, negar precisamente as condições nas quais ele deve ser transformado em dinheiro e valores de troca, nas quais ele depende do intercâmbio privado. Esta demanda só pode ser satisfeita em condições nas quais já não pode ser feita. O trabalho com base em valores de troca pressupõe, precisamente, que nem o trabalho do indivíduo nem o seu produto sejam diretamente gerais; que o produto só atinge esta forma passando por uma mediação objetiva [gegenständliche], por meio de uma forma de dinheiro distinta de si mesmo. (Marx, 2011, p. 170)   Assim, o fundamental real sob o qual se assenta a produção, fundamento do socialismo/comunismo, é o trabalho social antefestum , isto é, o trabalho comunal como elo social da produção. Se no capitalismo o trabalho social só se afirma enquanto social na troca, em que se prova como social pelo valor de troca, o trabalho comunal é social já na própria produção, porque é trabalho geral imediatamente, de todo o conjunto social, e seu produto é imediatamente geral, pois apropriável pelo conjunto da sociedade. Em suma, é evidente como Marx já apreende determinações da positividade do trabalho livre da alienação do trabalho, enquanto trabalho genérico, elo imediatamente conectado com a produção em geral. Distintamente da relação privada de distintos ramos da produção, privados ou públicos, que só se tornam social posfestum , e que o produto do trabalho só ganha caráter social através da abstração do trabalho enquanto objetivação alienada e abstrata. Com isto, cessa o caráter externo e alheio do produto e da atividade do trabalho, tal qual delineou Marx já em 1845 na Ideologia Alemã:   Esse fixar-se da atividade social, essa consolidação de nosso próprio produto num poder objetivo situado acima de nós, que foge ao nosso controle, que contraria nossas expectativas e aniquila nossas conjeturas, é um dos principais momentos no desenvolvimento histórico até aqui realizado. O poder social, isto é, a força de produção multiplicada que nasce da cooperação dos diversos indivíduos condicionada pela divisão do trabalho, aparece a esses indivíduos, porque a própria cooperação não é voluntária mas natural, não como seu próprio poder unificado, mas sim como uma potência estranha, situada fora deles, sobre a qual não sabem de onde veio nem para onde vai, uma potência, portanto, que não podem mais controlar e que, pelo contrário, percorre agora uma sequência particular de fases e etapas de desenvolvimento, independente do querer e do agir dos homens e que até mesmo dirige esse querer e esse agir. (Marx; Engels, 2007, p. 38) A superação desse caráter alienado do trabalho, eis a tarefa de uma revolução comunista, e, certamente, não a reposição dessa alienação sob o controle do Estado, como personificação do capital. Pois, como aponta Mészáros   O capital deve ser superado na totalidade de suas relações, caso contrário o seu modo de reprodução sociometabólica, que a tudo domina, não poderá ser deslocado mesmo em relação a assuntos de relativamente menor importância. Isto porque o capital “não é uma simples relação, mas um processo, em cujos vários momentos sempre é capital. [...] a troca não permaneceu inalterada com a colocação formal de valores de troca, mas avançou necessariamente para a sujeição da própria produção ao valor de troca. (Mészáros, 2011, p. 711)   A nosso juízo, é exatamente disto que se trata, a impossibilidade de superar o capital na totalidade de suas relações resultou na reposição de seu modo de reprodução sóciometabólica, que não pode ser deslocado. Exatamente porque o capital é um processo, que permanece sempre capital, e no qual, a produção de valores de uso sempre se subordina a produção de valores de troca. Dessa forma, fica claro, tanto como Jabbour não poderia estar mais distante do marxismo, quanto, ao mesmo tempo, a China não poderia estar realizando nenhuma transição ao socialismo, que possui, fundamentos objetivos, balizadores, pelos quais um processo pode realmente ser bem sucedido, e em relação aos quais, não existe nenhum sinal nas relações sociais existentes na China nos dias de hoje. Tal qual colocou Mészáros, o capital domina o conjunto das relações sociais e não pode ser deslocado, nem superado de forma parcial, ou é superado em sua integralidade – e isto é impossível em um só país – ou se repõe como o comando geral sobre o trabalho com todos os seus imperativos objetivos reprodutivos. Bibliografia: ENGELS, Friedrich. AntiDuhring . São Paulo: Boitempo, 2015. JABBOUR, Elias. A China é Socialista? in: Portal GGN . Disponível em: https://jornalggn.com.br/internacional/a-china-e-socialista-por-elias-jabbour/ . 23 fev. 2021. MARX, Karl. Grundrisse . São Paulo: Boitempo, 2011. MARX, Karl; Engels, Friedrich . A ideologia alemã . São Paulo: Boitempo, 2007. MÉSZÁROS, István. Para além do capital . São Paulo: Boitempo, 2011. MARX, Karl. Cadernos de Paris e Manuscritos econômico - filosóficos de 1844 . São Paulo: Expressão Popular, 2015.

  • O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho – uma ode ao ofício do historiador

    Cena de O Agente Secreto Por Igor Dias Desde o pacto federativo de 1988, a produção audiovisual brasileira foi marcada por filmes acerca da ditadura empresarial-militar levada a cabo no país de 1964 a 1985. Com o cenário político contemporâneo marcado pela ascensão da extrema direita prócere da ditadura, personificada na família Bolsonaro e aliados, temáticas de memória do período encontram novamente nas telonas um espaço privilegiado para dar conta, por meio da História e da narrativa fílmica, tanto de problemas sociais, no melhor espírito da primeira geração dos Annales, como dos anos subsequentes ao fim do regime. As incontáveis premiações, entre elas o Oscar, conquistadas pela obra Ainda Estou Aqui  (2024) novamente abriram as discussões acerca do direito à memória, fragilmente executado pela Comissão da Verdade em 2011 (26 anos após o fim do regime) com a garantia de impunidade aos lesas-pátrias, torturadores e assassinos a serem identificados; uma memória sem responsabilização e sem reparação, ou seja, sem justiça. Estes marcos temporais de que se fala tanto em nosso país explicam-se nos debates acerca das balizas definidoras do escopo da História do Tempo Presente, muitas vezes definidas pelo último grande trauma a marcar nossa sociedade. Nesse sentido, o velho continente tende a se balizar pela Segunda Grande Guerra, que este ano completou 66 anos de seu fim, porém, as condições históricas do Cone Sul são profundamente distintas daquelas encontradas no centro do capital, não podendo, portanto, ser definidas pelos mesmos limites temporais. Os países cuja entificação do Capital ocorreu de modo hiper-tardio, foram submetidos a todo tipo de pressão e repressão para se manterem na periferia do mundo, tanto por agentes externos, ou seja, pelo interesse dos países imperialistas, quanto por agentes internos, nossas próprias burguesias (urbana e rural), que se beneficiam da posição subserviente que ocupam nas relações de Capital internacionalmente. Este marco, para muitos dos países do Cone Sul, são as ditaduras militares da segunda metade do século XX, financiadas com largo apoio dos Estragos Unidos da América. Nossas feridas ainda estão abertas e não fizemos o trabalho de tratá-las adequadamente. Nesse sentido, no último dia 6 de novembro, estreou O Agente Secreto , novo filme de Kleber Mendonça Filho, já aclamado por Bacurau (2019), Aquarius (2016) e O Som ao Redor (2012). Apesar de usualmente trabalhar bem o olhar crítico para problemas sociais, dessa vez, o diretor parece ter chegado na maturidade de sua linguagem cinematográfica ao experimentar uma narrativa lacunar que desenvolve o enredo por meio da relação entre a encenação do que aparentemente ocorreu e as fontes, escritas (jornais) e em áudio (cassetes), construídas pelos personagens desta maravilhosa ficção, tanto no passado quanto no presente. Resultado disso é a constituição de um problema concreto e não uma crítica social abstrata: o problema da relação entre História e o direito à memória, tendo como base o contexto da ditadura empresarial-militar brasileira; algo fundamental quando observamos que somente no último dia 9 de outubro, 40 anos após o fim do regime militar, a República Federativa do Brasil iniciou a retificação dos atestados de óbito de mortos e desaparecidos políticos durante o período . Ao buscar reconstituir, ainda que na lógica ficcional, o passado no presente, a obra nos demonstra em diversos níveis a impossibilidade de completa restituição do passado, inclusive podendo dar a ele novo sentido no presente, a exemplo da interpretação ficcional apresentada sobre o caso real da “Perna Cabeluda” que assolou Recife naquele ano de 1976 e que talvez tenha tido o maior impacto na recepção do filme. O filme optou por representar a ação da perna tal qual descrito nos jornais, ou seja, de uma perna humana desprovida de corpo que agredia os civis, tomando-a por ser folclórico-mitológico, quando, em verdade, é resultado de uma narrativa que buscou burlar a censura e apresentar casos de violência policial nos jornais. Ainda mais essencial é a forma como as informações sobre os personagens não são entregues descaradamente (muito se valendo de uma montagem meticulosa para conectar informações), cabendo ao espectador desvendar a peça audiovisual que se desvela aos seus olhos e realizar, por si próprio, a ligação causal do que se estabelece, à exceção do enredo central, que conta a história de Marcelo/Armando. Desse modo, rememorar o período ditatorial significa também acessar, numa posição de espectador ativo, todo seu repertório acerca do período e tomar partido das informações apresentadas; o que fomenta não só o direito à memória, mas a responsabilidade e o direito de ação frente a essa memória ao nos colocar perante o agora Dr. Fernando em um dilema não respondido: manteremos nossos pais esquecidos ou acessaremos as fontes que, ainda que dolorosas, nos permitirão manter a memória viva?

  • Todo apoio a Jones Manoel contra o terrorismo neonazista

    Imagem: Jones Manoel Jones Manoel, militante do PCBR, vem denunciando há semanas as ameaças à sua vida e integridade feitas por um grupo que se autodenomina nazista. Os supremacistas, por meio de e-mails, demonstram conhecer diversas informações pessoais sobre ele e seus familiares, além de proferirem graves injúrias raciais. O grupo exige uma quantia em dinheiro, ameaçando ir até sua residência e atacá-lo caso a exigência não seja atendida.  O grupo neonazista, identificado pelos advogados de Jones como responsável pelas ameaças, é uma organização de alcance internacional, com atuação também na Europa e nos Estados Unidos. Estima-se que seus membros estejam envolvidos em cerca de uma dúzia de assassinatos ao redor do mundo, sendo cinco deles ocorridos apenas nos Estados Unidos. O grupo se declara abertamente “nacional-socialista”, incita a guerra racial e defende a criação de um Estado étnico de supremacia branca por meio de ações terroristas. Nenhum marxista minimamente responsável e coerente pode encarar esse tipo de situação como mera bravata ou simples histrionismo político. É natural que existam, entre nós, diferentes interpretações sobre o real peso social da extrema-direita no Brasil e no mundo, bem como sobre a própria existência de algo que se possa chamar de fascismo – ou “neofascismo” – enquanto expressão política da luta de classes no capitalismo contemporâneo. No entanto, a violência e o uso sistemático do terror pela chamada alt-right  – a “direita alternativa”, denominação estadunidense para a vertente mais irracional e radicalizada da direita – revelam-se uma realidade concreta. No Brasil, figuras como Eduardo Bolsonaro, Nikolas Ferreira e membros do MBL aproveitaram o assassinato do militante direitista norte-americano Charlie Kirk para tentar insuflar o medo e a repulsa contra nós, comunistas, nos responsabilizando pela violência que, na verdade, é promovida por eles. Independentemente do grau de concordância que se tenha com as posições de Jones, sua forma de agitação e propaganda o projetou, de fato, no debate público como uma figura da esquerda comunista, motivo pelo qual agora ele é alvo da ferocidade anticomunista. Portanto, o caso diz respeito, em primeiro lugar, à vida e à integridade física de Jones, além de servir como um prenúncio do nível de violência que pode vir a atingir toda a esquerda marxista no país. Embora o marxismo ocupe hoje um espaço reduzido e de pouca influência na dinâmica geral da conjuntura, cabe a nós exigir uma investigação rápida e a devida resolução do caso, além da garantia imediata da segurança de Jones. Se os marxistas brasileiros, seja qual for sua profissão de fé – “marxismo-leninismo”, “trotskismo”, “maoísmo” –, não forem capazes de demonstrar o mínimo de preocupação diante de uma situação como esta, então nossa crise ideológica será, mais uma vez, confirmada pelo sectarismo caduco e pela cegueira da autoconstrução. Todo apoio e solidariedade a Jones Manoel contra as ameaças do terrorismo neonazista.   Comitê editorial da Revista Barravento, 21 de outubro de 2025

  • Vera Cotrim, presente!

    A Revista Barravento vem em nome de todos os seus membros manifestar profundo pesar pela perda da professora Vera Cotrim. Em nome da relevância e do respeito ao qualificado debate que Vera sempre cultivou e promoveu, republicamos sua contribuição direta a esta revista, o texto "Intelectualidade e Luta de Classes: uma crítica à postura tuísta" partes 1 e 2 . Vera esteve sempre empenhada em contribuir no processo de aprendizagem de pesquisadores e militantes e na formulação qualificada dos debates marxistas, compreendendo a concretude dos problemas de ordem intelectual. Com sua imensa generosidade, contribuiu para nossa revista não apenas com seu texto, mas também reforçando a importância política de iniciativas críticas e independentes como a Barravento. Sua partida representa uma perda inestimável para o fortalecimento de nossos horizontes. Ao mesmo tempo, Vera Cotrim nos deixa como contribuição rica as bases necessárias para pensar nossa realidade de maneira crítica, bem como para concatenar as relações necessárias para uma crítica cotidiana da sociedade burguesa, que, ao fim, aponte para a superação dessa sociedade. Vera Cotrim, presente! Intelectualidade e luta de classes: uma crítica à postura tuísta Intelectualidade e luta de classes: uma crítica à postura tuísta - parte 2

  • Sobre a revista Svoboda [A respeito de uma escrita popular]

    Por V. I. Lênin Nota do editor: Este breve texto foi escrito por Lênin no outono de 1901 e permaneceu inédito até sua publicação póstuma em 1936. Neste único e curto parágrafo, a diferença entre aquilo que é “popular” e aquilo que é “popularismo” traz à tona o profundo e ainda recorrente engano de que a comunicação com os trabalhadores pressupõe a subestimação de suas capacidades. Não se trata de oferecer respostas simples, mastigadas e fáceis de engolir, mas sim de ensinar ao “leitor pensante” a “seguir por conta própria” e instigá-lo a “mais e mais perguntas”. Mantivemos os grifos originais do autor em itálico. Tradução e cotejamento de Pedro Badô. A revistinha “ Svoboda ” [1]  é absolutamente ruim. Seu autor – a revista dá a exata impressão de que foi escrita do começo ao fim por uma só pessoa – pretende fazer uma escrita popular “para trabalhadores”. Mas isso não é ser popular, é popularismo [популярничанье] [2] . Não há nenhuma palavrinha simples, tudo é com maneirismo... Sem afetação, sem comparações “populares” e sem palavrinhas “do povo” – tal como “deles” [ихний] [3]  – o autor não consegue dizer uma só frase. E com esta linguagem monstruosa, mastigam – sem novos dados, sem novos exemplos, sem nenhuma reelaboração – ideias socialistas banais, deliberadamente vulgarizadas. A popularização, diríamos ao autor, está muito longe da vulgarização, do popularismo. Um escritor popular leva o leitor a um pensamento profundo, a um ensinamento profundo, com base nos dados mais simples e bem conhecidos, apontando, com a ajuda de raciocínios simples ou exemplos bem escolhidos, as principais conclusões desses dados, instigando o leitor pensante a mais e mais perguntas. O escritor popular não pressupõe um leitor que não pensa, não quer ou não sabe pensar; ao contrário, ele vê no leitor ainda pouco desenvolvido a intenção séria de usar a cabeça, e o ajuda a realizar esse trabalho sério e difícil, guiando-o  nos primeiros passos e ensinando-o  a seguir por conta própria. O escritor vulgar pressupõe um leitor que não pensa e é incapaz de pensar; ele não o conduz aos fundamentos de uma ciência séria, mas, numa forma monstruosamente simplificada, temperada com piadinhas e ditados, lhe oferece já “prontas” todas as conclusões de ensinamentos bem conhecidos, de modo que o leitor não precisa nem mastigar, basta engolir aquela papinha. Notas: [1] A Svoboda  – em russo, “Liberdade” – foi uma revista editada na Suíça em 1901 e 1902 pelo grupo homônimo, fundado em maio de 1901 e descrito como um grupo “socialista revolucionário”. A revista teve duas edições. Em suas publicações, o Svoboda defendia princípios do “economicismo” e do terrorismo, além de apoiar grupos anti- Iskra  na Rússia. A revista deixou de existir em 1903. (Nota do tradutor) [2] A palavra “популярничанье” não tem tradução direta, mas é um diminutivo pejorativo de “popularização” ou “tentativa de parecer popular”. (Nota do tradutor) [3] A palavra “ихний” é uma forma comum no russo coloquial equivalente ao nosso pronome “deles”, que no russo formal seria “их”. Não encontramos uma forma compreensível de tradução para o leitor lusófono, motivo pelo qual mantivemos o texto original, o que, evidentemente, prejudica o teor satírico pretendido por Lênin. (Nota do tradutor)

  • L.A. (1): a respeito dos recentes protestos em Los Angeles

    Fonte: Mario Tama/AFP A Radencommunisten  é uma publicação periódica de crítica radical e intervenção política, ancorada na tradição do comunismo de conselhos. Sua perspectiva parte do reconhecimento da completa subordinação da vida da classe trabalhadora às dinâmicas do capital. Portanto, reivindica a centralidade da autoemancipação da classe trabalhadora, recusando quaisquer mediações institucionais promovidas por partidos ou sindicatos, os quais são tidos como elementos comprometidos com a manutenção da ordem burguesa. Dialogando criticamente com as condições do tempo presente, a publicação analisa episódios recentes de mobilização social, como as manifestações em Los Angeles, e aponta os limites dos movimentos espontâneos quando desprovidos de organização classista autônoma. O autor reivindica o legado da esquerda comunista holandesa-alemã e do KAPD, destacando a ação direta, a greve e a auto-organização enquanto ferramentas históricas da luta proletária. O texto abaixo foi escrito em formato de carta, buscando relatar brevemente o que estava se desenrolando na cidade estadunidense de Los Angeles durante as perseguições efetuadas pelo ICE ( Immigration and Customs Enforcement ). Devido a sua ampla repercussão e divulgação, a Radencommunisten explicou em nota introdutória que tal carta reflete o posicionamento e a interpretação política de um dos membros do coletivo e não da publicação como um todo. Também já foi anunciada a publicação de uma segunda carta. Acreditamos que o debate iniciado pelo texto é frutífero, enquanto umas das múltiplas compreensões e análises possíveis dos eventos em L.A. Portanto, esperamos que essa tradução também possa abrir e aprofundar o debate sobre as formas contemporâneas da luta de classes. Nota dos editores: houve um equívoco significativo sobre a relação entre Radencommunisten e esta carta. Escrita por um dos membros do Coletivo Comunistas Conselhistas, ela não representa de modo algum a opinião nem do Radencommunisten , nem do CCC. Para as opiniões aprovadas pela publicação, ver   a nossa carta de princípios  bem como   nossa página principal . O movimento nas ruas Na sexta-feira, 6 de junho, centenas de pessoas, latino y blanco igual , saíram às ruas para protestar contra a deportação violenta de milhares de imigrantes pelo ICE. Em 8 de junho, o secretário de defesa Pete Hegseth ordenou o envio da Guarda Nacional para reprimir os protestos. Em 10 de junho, 700 fuzileiros navais foram destacados para auxiliar a Guarda Nacional e o ICE. Desde então, protestos começaram em muitas cidades. Muitas organizações locais e suas respectivas filiais (PSL, 50501) organizaram manifestações para o fim de semana seguinte. Apesar da chegada de tropas federais, os protestos continuaram acontecendo. Só na noite de 7 de junho foram detidos quase 200 manifestantes. Entre os comunistas, os protestos receberam inúmeros apoios, sendo anunciados por quase todos os setores como um avanço na luta das massas trabalhadoras. Entre a esquerda estadunidense, os protestos já foram rotulados como a continuação dos protestos Black Lives Matter . No contexto deste júbilo extremo, é necessário que os comunistas façam uma avaliação fria do caráter e limitação do movimento de protesto. Aqui, em vez de mergulhar nas minúcias da conveniência de certas atividades — sejam elas violentas ou pacíficas, etc. — procuramos oferecer uma análise generalizada que reconheça a tendência degenerativa persistente no interior dos próprios protestos.   As limitações do movimento   1.             O movimento ainda é dominado ideologicamente pelas classes médias. Apesar dos manifestantes terem sua origem predominantemente na classe trabalhadora, as exigências do protesto refletem os interesses da pequena burguesia. Se os trabalhadores não puderem separar-se da parte da burguesia com que partilham a sua etnia , serão forçados a adotar uma prática interclassista, levando a uma derrota definitiva do movimento. Para qualquer trabalhador, é necessário unir-se com outros trabalhadores a partir de uma base comum de classe. 2.             O movimento está limitado a um setor da classe trabalhadora. Apesar da composição variada dos protestos, eles não se espalharam para outros setores da classe trabalhadora. Enquanto os trabalhadores militantes se reuniam para os protestos, eles não tentaram trazer seus próprios setores da classe para a luta. Aqui, a participação em confrontos de rua dificulta os esforços associativos necessários para organizar um movimento independente em toda a classe. Para que a luta dos trabalhadores latinos seja bem-sucedida, ela deve se espalhar para a classe trabalhadora em geral. 3.             O movimento está atualmente limitado somente a ações de rua. O fato de o movimento assumir a forma de batalhas de rua, anunciadas por muitos da esquerda como a sua maior força, é de fato sua maior fraqueza. A greve, a maior arma da classe trabalhadora, continua monopolizada pelos sindicatos. A auto-organização de toda a classe, maior força da classe trabalhadora, permanece enjaulada. Para que a luta da classe trabalhadora seja bem-sucedida, a revolta é uma ferramenta inadequada: a classe trabalhadora deve usar sua tática mais forte, a tática da greve, e sua maior força, a capacidade de auto-organização, para atingir seus objetivos.   Lições para os trabalhadores e os comunistas   Na luta de classes, maior barreira que a classe trabalhadora tem que superar é ela própria. Com as limitações mencionadas em mente, é evidente que, no momento, o movimento em Los Angeles não superará suas próprias limitações. No entanto, ao reconhecer o que falta atualmente ao movimento, é possível identificar quais os fatores ausentes que terão uma importância decisiva no futuro. Neste caso, nos são dadas três lições: 1.             Para que mesmo um setor limitado da classe trabalhadora alcance seus objetivos, ele deve apresentar-se baseado explicitamente na classe. As ilusões da ideologia da classe média só podem servir para frustrar continuamente a luta independente do proletariado. Os trabalhadores, por mais isolados que sejam, devem unir-se de forma independente e consciente como trabalhadores. 2.             Para que qualquer setor da classe trabalhadora avance em sua luta, ele deve unir-se ao maior número possível de outros setores. À medida que a luta se expande de setor para setor, o poder da própria classe trabalhadora se expande exponencialmente. A expansão de qualquer luta particular para toda a classe trabalhadora é a maior tarefa na própria luta de classes. 3.             As ações de rua são a maior fraqueza das classes trabalhadoras. Em vez de limitar o seu confronto à polícia, os trabalhadores devem lutar em todas as frentes contra a burguesia, tanto dentro como fora do local de trabalho. Por um lado, devem recusar-se a continuar a trabalhar e, por outro, criar novas formas de organização para gerir os seus próprios assuntos. A melhor táctica da classe operária continua a ser a greve, a sua maior força é a capacidade de auto-organização.   Sobre o fracasso dos comunistas   Embora seja certo que o movimento comunista vá aprender estas lições, é pouco provável que o faça. Seguindo as comparações dos eventos em Los Angeles com os protestos Black Lives Matter , todas essas lições poderiam ter sido aprendidas após 2020, mas não o foram. Lá, também, um forte movimento dos trabalhadores foi dominado pela ideologia da classe média. Lá, também, a luta permaneceu limitada a um setor restrito da classe trabalhadora. Lá, também, o movimento estava confinado às ruas. Mas os comunistas, em vez de aprenderem com as suas derrotas, replicaram a sua impotência . Ainda predomina a ilusão de que o Estado nos EUA — talvez no auge de seu poder — está fadado a cair devido a mais uma revolta. Cada surto esporádico de descontentamento é anunciado pelos comunistas como o prenúncio da revolução, como uma nova forma de “violência revolucionária”. Na realidade, o desenvolvimento da violência revolucionária é um processo lento e árduo, no qual a classe trabalhadora aprende continuamente com os seus sucessos e fracassos, culminando na tomada do poder. A revolta não é a violência revolucionária: é a expressão da incapacidade da classe trabalhadora de exercê-la. O tratamento zeloso e dogmático da revolta como vox populi  deve ser responsabilizado, em parte, pelo péssimo estado do movimento dos trabalhadores. Aos trabalhadores e comunistas atualmente na linha de frente , nós enviamos os cumprimentos dos compañeros  na luta. Mas, por favor, compreendam qual violência os libertará e qual violência os manterá acorrentados.   “A violência revolucionária é, em essência, a oposição da classe dos produtores à classe burguesa, à classe que, individual ou coletivamente, controla os meios de produção. Essa violência deve culminar com a expropriação da classe burguesa e a apropriação dos meios de produção pelos próprios produtores. Deste modo de olhar para a violência revolucionária, o controle do local de trabalho pelos trabalhadores — como foi tentado em certos casos na Itália — é cem vezes mais violento do que qualquer enfrentamento com a tropa de choque, simplesmente porque transcende a racionalidade econômica burguesa e olha para além da sociedade como existe hoje para uma nova ordem social na qual o trabalho é organizado pelos trabalhadores para o seu próprio bem-estar. Em contraste, guerra de guerrilha, revoltas, etc. permanecem no interior dos limites da racionalidade tal como definida pelo sistema, já que não atacam de nenhuma forma direita o controle do processo de produção pelo capital” (Chameau, 1975).   M. S. Chameau, Albert. “A few reflections”, Root and Branch: Rise of the Workers Movement (1978), 500.   https://libcom.org/article/few-reflections-albert-chameau  [“Algumas reflexões”, Raiz e ramo: Ascensão do Movimento dos Trabalhadores (1978)]

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