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  • A Crença na Identidade: individualidade burguesa e prática social

    Imagem: "O Caminhante sobre o Mar de Névoa" (1818) de Caspar David Friedrich. ícone do romantismo alemão, é uma representação do indivíduo solitário, isolado, fechado em si mesmo diante da imensidão de um mundo que o avilta. Lucas Rodrigues Coelho O saber é resultado da prática efetiva do ser humano com o mundo. Já o descolamento das diversas formas de saber de sua base prática é uma das consequências do processo de alienação que incide sobre a prática humana. Psiquicamente, as consequências desse processo de alienação produzem um efeito quase delirante: o indivíduo crê que sabe os resultados de sua prática antes de efetivá-la no mundo. Dissemos quase delirante, porque a base de tal crença, que aparece na consciência imediata como uma certeza, nos parece ser, até agora, as fantasias de onipotência mais primárias do indivíduo. Essa fantasia individualista se dá porque a fantasia geral; compartilhada, isso é: intersubjetiva como toda fantasia, desenvolvida a partir da modernidade; é a do indivíduo em forma de mônada: ou seja, um indivíduo como unidade indivisível e primária do mundo. Anteriormente à modernidade, a vida social era organizada a partir de vínculos tradicionais, onde a força da tradição e a reprodução do ordenamento social eram mais relevantes na vida social como um todo e principalmente no cotidiano do que as vontades e aspirações individuais. Com a expansão do colonialismo europeu, tais vínculos tradicionais passam a se desfazer, a individualidade ganha cada vez mais força e a vida coletiva passa a ser cada vez mais sentida como desamparo, onde o Eu individual passa a ser uma espécie de refúgio para um indivíduo que não tem mais referências da tradição. À medida que o modo de produção capitalista vai se consolidando ao longo dos séculos XVIII e XIX, o novo ordenamento social impõe ao indivíduo novos desafios antes inexistentes nos velhos ordenamentos: agora não é possível somente pela força da tradição, da confiança por ela produzida, se manter em um mundo competitivo, instável e volátil. A sociabilidade do capital está baseada em um regime de trocas incontroláveis e imprevisíveis: elas podem não se realizar na proporção na qual os agentes esperam, mas sua realização é necessária para a reprodução social e ela parte de antemão, antes da socialização dessas trocas no mercado, da dimensão privada. Se tornando fundamental para os atores que desempenham as trocas no mercado, a capacidade de ler e tentar estimar os setores e condições nas quais a troca é mais favorável trará maior lucratividade, etc. A capacidade de ler as dinâmicas voláteis e os jogos de força que estabelecem pesos e contrapesos passa a ser essencial para a racionalidade moderna. Nicolau Maquiavel, em seu O príncipe (1532/2000) (talvez sendo um dos primeiros modernos), demonstra como mais do que ser príncipe, é necessário jogar o jogo da política a partir de leituras concretas. Com a modernidade não basta Ser, passa a ser necessário fazer. A possibilidade de ler correlações de forças, e a partir delas estabelecer ações que alterem-nas passa a ser central para cada indivíduo burguês moderno: o que era antes reservado a um punhado de reis, imperadores e generais, passa a ser condição básica de sobrevivência do indivíduo, que tem como exigência social para sua sobrevivência a observância às tendências e flutuações do mercado. Marx, em O Capital (1867/2013) demonstra o fundamento econômico da base material do novo indivíduo quando explicita a própria forma das trocas do mercado por meio da equiparação das infinitas mercadorias com a mercadoria dinheiro, fazendo com que o detentor individual dessa mercadoria dinheiro (objetivação do valor das demais mercadorias), tenha a necessidade e o poder de guardá-la buscando como um jogador usá-la individualmente novamente nas trocas quando assim for mais vantajoso: “A paixão de enriquecer, ao contrário da paixão pelas riquezas naturais particulares ou pelos valores de uso tais como o vestuário, as jóias, os rebanhos etc., só é possível no momento em que a riqueza geral se individualiza numa coisa particular e pode, assim, ser retida sob a forma de mercadoria isolada. O dinheiro surge, portanto, como objeto e fonte da paixão por enriquecer” (Marx apud Rubin 2020, pág. 173) Só este fato confere ao indivíduo, neste exemplo, o detentor da mercadoria que dá acesso a todas as outras, objetivamente uma posição acentuada de destaque. É a partir desse marco histórico que entendemos as contradições que essa sociedade impõe para os seus indivíduos a partir da sua existência mais básica: nos atos de compra e venda, os indivíduos aparecem como proprietários isolados, ficando abstraídas todas as diferenças existentes entre um indivíduo que vende sua força de trabalho (outra mercadoria) e o outro que a compra através da mercadoria que transita universalmente nas infinitas trocas cotidianas; o dinheiro. Subjetivamente, a aparência de igualdade entre os agentes tende a prevalecer no cotidiano, pois os atos de compra e venda parecem os únicos possíveis em uma sociedade onde, graças ao seu caráter impessoal, o mercado parece natural. O indivíduo se sente livre para vender e comprar, ainda quando a mercadoria a ser vendida é seu próprio corpo e as mercadorias compradas são itens de consumo que seus antepassados tinham acesso pelo seu trabalho ligado à terra (como no caso dos alimentos e o trabalho agrícola, por exemplo). O Eu passa a ser um objeto na medida que está submetido à troca e se torna meio pelo qual ela se vale para acontecer. O Eu se torna, igualmente, uma mercadoria a ser gerida, investida, organizada, vendida, comprada ou conquistada pelo indivíduo que a tem. O problema da identidade e a divisão a nível individual. Nas sociedades antigas, pré-modernas, as pessoas ocupavam uma posição relativamente fixa e ordenada na estratificação social e isso era a base para a sua identidade pessoal, ligando de maneira orgânica a subjetividade, mais especificamente a personalidade e a identidade individual, à comunitária que geria todo o conjunto de relações sociais fundamentais. Já com o modo de produção capitalista, a vida social passa a ser regida pelo mecanismo impessoal do mercado e os indivíduos se igualam no ato da troca, ainda que, particularmente, sejam pessoas muito distintas entre si. Neste processo, não importa de onde vem e para onde vai o fluxo geral da organização social, desde que dela se extraia o necessário para a efetivação isolada do comprar e do vender. Tal situação produz não só uma liberdade, mas também um impasse: agora há uma pessoa pública e outra privada. A liberdade reside no fato de que o indivíduo pode se personalizar, se distinguir dos demais o quanto for possível para ele objetivar suas finalidades no mundo: quanto mais finalidades relacionadas aos seus interesses, apetites, necessidades e desejos esse indivíduo conseguir realizar, por meio do dinheiro, mais a sua personalidade tende a se desenvolver, ficando o indivíduo cada vez mais singular. Por outro lado, na vida social, para que ele possua a mercadoria, ele precisa repetir os mesmos atos de compra e venda que garantem a sua sobrevivência e a reprodução social. Temos então, uma tensão interna a cada pessoa cujo Eu vai se encarregar de fazer síntese através da identidade. A identidade nada mais é do que a imagem mais ou menos estável que temos de nós mesmos e na qual nos reconhecemos. Aqui caberia uma grande digressão sobre a função de reconhecimento e sua relação com a percepção, no entanto, para motivos desse texto, basta dizer que com essa tensão posta na vida social entre o público e o privado, tendencialmente tensionado também está o próprio Eu, que é convocado a fazer uma síntese a partir de uma cisão estrutural do modo como a vida social se constitui. O indivíduo tende a se refugiar na própria identidade como forma de tentar integrar sua vida pessoal com sua atuação impessoal nas relações sociais, buscando unir uma dinâmica social que o cinde sem que ele se dê conta. No entanto, como não é possível se reconhecer na impessoalidade das relações de troca, sua capacidade de autorreconhecimento está tendencialmente bloqueada: o indivíduo tem o seu próprio Eu como refúgio e como possibilidade de expressão e crescimento, mas ao tentar superar uma divisão imposta desde fora com uma síntese interna, ele também se divide, e a identidade que o parecia diferenciar de outros indivíduos passa a parecer falsa e genérica. No consultório, é relativamente comum escutar pacientes que mais se sentem uma farsa quanto mais se apegam aos signos que historicamente constituíram sua identidade. A chave para esse problema clínico está na investigação das causas do fechamento do indivíduo para o mundo e retorno para o próprio Eu: desamparo, instabilidade, incerteza e insegurança são os sentimentos que causam tal processo. No capitalismo, tais sentimentos tendem a ser basais porque, para que o ser humano possa se reconhecer, ele necessita vínculos seguros, estáveis, previsíveis e confiáveis. Na contramão disso, o desenvolvimento do capitalismo desterrou o ser humano de tais vínculos, e agora, tentando se defender da imprevisibilidade, instabilidade e ameaças externas, o indivíduo recorre ao seu próprio Eu e reencontra dentro dele as ameaças das quais foge. As questões que nos resta são: como ocorre tal passagem do interno para o externo? Por que as determinações externas são expressas internamente na subjetividade, mesmo quando o indivíduo não pode se reconhecer em sua relação com o mundo? Tais perguntas podem ser melhor esclarecidas com um avanço na compreensão de como surgem e se desenvolvem as necessidades humanas e a relação desse complexo com a personalidade. Sabemos que o psicólogo estadunidense, teórico de referência na área dos estudos das necessidades humanas, Abraham Maslow (1908-1970) em seu Clássico “Motivación y Personalidad” (1954/1991) “Motivação e personalidade” (em tradução livre), mesmo sem quaisquer referenciais marxistas ou hegelianas conhecidas, percebeu a necessidade de autorrealização como uma das necessidades mais elevadas de sua famosa pirâmide das necessidades. Se partimos da premissa de que autoconhecimento é condição para autorrealização, temos como quadro geral um cenário onde o ser humano, sob o capitalismo, está tendencialmente insatisfeito com suas aspirações mais propriamente humanas mesmo quando não partimos de um referencial marxista. No entanto, um estudo mais pormenorizado de como as necessidades humanas se desenvolvem e qual é a incidência de tal desenvolvimento sob a personalidade, pode nos ajudar a compreender melhor os intrincados processos onde uma pessoa prefere persistir em certezas de estrutura delirante a saber a verdade. Temos a impressão de que as certezas que cultiva estão muito arraigadas em que essa pessoa acredita ser, e isso parece ser condição suficiente para a negação da realidade quando esta contraria suas crenças. Ainda que não saibamos os pormenores desse processo, está claro que o apego ao seu Eu a impede de saber verdades efetivas, vindas da prática, pois está tendencialmente impedida a formulação de novas objetivações orientadas por novas finalidades, sendo a prioridade nesse modo de funcionamento resguardar o próprio senso de identidade. Individualismo e prática política revolucionária Para além das consequências clínicas que um avanço em tais questões possa ter, o tema também tem implicações políticas: a constituição de um saber que possibilite um sujeito revolucionário, constituído onde antes somente havia uma massa difusa e desorganizada ainda que carente e insatisfeita, exige superação do individualismo que nas organizações de esquerda historicamente se expressa principalmente no que correntemente se chama de personalismo, mas também no tarefismo que abstrai o indivíduo de suas determinações psicossociais e o reduz à mera peça operacional organizativa. Se vivemos no século XXI uma crise organizativa entre os comunistas, entender como o ser humano é capaz de se fechar em crenças ilusórias e ser refratário a qualquer argumentação racional pode contribuir no avanço de debates políticos mais bem argumentados racionalmente sem quaisquer prejuízos para a dimensão afetiva das causas que nos mobilizam: razão e emoção só estão dicotomizados quando o indivíduo está dividido e o seu recurso básico é negar um dos pólos de um campo em detrimento do outro. A consequência disso é que o indivíduo nada pode saber sobre si ou sobre o mundo a partir da negação, restando apenas uma imensa sensação de vazio. Referências Bibliográficas: MAQUIAVEL, Nicolau. O príncipe. In: Os pensadores. São Paulo: Nova Cultural, 2000. MARX, Karl. O Capital: crítica da economia política. Livro I: O processo de produção do capital. Tradução de Rubens Enderle. São Paulo: Boitempo, 2013. MASLOW, A. H. Motivación y personalidad (C. Clemente, Trad.) Madrid: Ediciones Díaz de Santos, 1991. RUBIN, Isaak Illich. A Teoria do Dinheiro em Marx. Tradução de Tiago Camarinha Lopes. São Paulo: Instituto Caio Prado Jr., 2020.

  • Glauber fica! Entre a anistia aos abutres e a cassação de combatentes: quem está ganhando a luta política?

    Sérgio Lima/Poder 360 Na última quarta-feira, 9 de abril, o Conselho de Ética da Câmara dos Deputados aprovou a abertura de um processo de cassação do mandato do deputado federal Glauber Braga (PSOL-RJ). No entanto, essa tentativa de retaliação não é novidade: trata-se de mais um capítulo na longa trajetória de perseguições movidas pela extrema-direita contra o mandato de Glauber, que se destaca como a principal voz da minúscula bancada da esquerda socialista na Câmara. Desde 2016, Glauber tem sido alvo de diversas investidas. Naquele ano, foi alvo de uma queixa-crime no Supremo Tribunal Federal após declarar, durante seu voto contra o impeachment de Dilma Rousseff, que Eduardo Cunha — principal articulador do processo — era um “gângster”. Em 2019, o PSL, então sob a liderança de Jair Bolsonaro, também tentou cassar seu mandato após Glauber chamar o então ministro da Justiça, Sérgio Moro, de “juiz ladrão”. A acusação ocorreu durante sessão no Congresso em que Moro prestava esclarecimentos sobre as revelações da Vaza Jato, que expuseram conluios entre o ex-juiz e procuradores para condenar Lula. Em 2022, foi a vez do então presidente da Câmara, Arthur Lira, ameaçar o mandato de Glauber. Na ocasião, o deputado socialista questionou, perante o plenário, se Lira “não tinha vergonha” de apoiar a privatização da Petrobrás, ao que Lira respondeu, em tom de ameaça, que Glauber “exagerava há muito tempo”. Mais recentemente, em abril de 2024, o PL — atual partido de Bolsonaro — iniciou novo pedido de cassação, desta vez em resposta à defesa pública feita por Glauber à causa palestina. E foi em setembro do mesmo ano que a Comissão de Ética da Câmara admitiu a representação contra o deputado, apresentada pelo Partido Novo, que desencadeou todo o processo que agora estamos vendo. Além disso, neste mesmo mês, Glauber foi preso arbitrariamente ao tentar intermediar uma solução pacífica para uma reintegração de posse na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), campus Maracanã, ocupada por estudantes mobilizados contra mudanças nas regras de concessão de bolsas. Há, portanto, um método — ou, no mínimo, uma recorrência — que deveria chamar a atenção de qualquer observador da política brasileira. Cabe-nos não apenas destacar essa repetição das tentativas de impedir a continuidade do trabalho de Glauber Braga, mas também denunciar o que ela revela sobre o atual estado da representação institucional da esquerda na política brasileira. O processo atualmente em curso arrasta-se há alguns meses, mas apenas nos últimos dias passou a mobilizar figuras públicas de um progressismo mais amplo. Isso demonstra que, embora Glauber Braga já denunciasse a perseguição de que vem sendo alvo – com algumas manifestações em defesa do seu mandato –, não houve, até então, uma mobilização efetiva por parte do campo progressista capaz de impedir, ainda na Comissão de Ética, a aprovação do pedido de cassação. O campo político governista e as demais forças de esquerda revelaram-se incapazes de garantir a continuidade de um mandato legitimamente popular. Essa incapacidade manifestou-se tanto pela aposta ineficaz num republicanismo simplório e difuso, ao tentar persuadir os parlamentares da Comissão de Ética, quanto pela incapacidade efetivamente de tumultuar e atrasar a sessão de votação. Enquanto as atenções estavam voltadas para as novas tarifas implementadas por Donald Trump — efetivadas no mesmo dia —, os deputados aprovavam um processo de cassação sem precedentes, baseado numa acusação frágil: o episódio em que Glauber, de forma correta em nossa avaliação, expulsou das dependências da Câmara o provocador Gabriel Costerano. Este, há meses, vinha constrangendo o deputado, dificultando o seu trabalho naquele dia e, de forma covarde, atacando a reputação da sua mãe. Evidentemente, trata-se de um procedimento burocrático, usado como pretexto para atacar a figura de Glauber, que representa um sentimento presente – ainda que de modo disperso – na base social que reelegeu Lula em 2022: a vontade de desmoralizar o canalha do MBL e de outros movimentos afins diante da opinião pública, nem que seja a base de pontapés! O fato é que a perseguição já estava consumada, e o mandato de Glauber Braga corria, desta vez, sério risco de ser cassado – enquanto o processo contra Chiquinho Brazão, indiciado pelo assassinato de Marielle Franco, permanece parado mesmo após completar um ano desde a sua abertura. Fica evidente que os criminosos aliados de Arthur Lira estão bem protegidos. Neste ambiente político sufocante, Glauber recorreu à tática derradeira: a greve de fome. E apesar desta tática estar historicamente associada a práticas ascéticas e quase religiosas – e não propriamente a uma estratégia de mobilização de massas –, o seu gesto teve um impacto impressionante para todos que o acompanharam, inclusive para aqueles seus mais próximos e fieis aliados. A greve conseguiu colocar a perseguição contra Glauber no centro do debate público. Em primeiro lugar, o ato forçou os grandes meios de comunicação – que até então ignoravam completamente o caso – a darem atenção ao processo, e muitos deles denunciaram a desproporcionalidade da pena proposta. E foi apenas após o início da greve que oito ministros do governo Lula manifestaram solidariedade ao deputado, ampliando a visibilidade da perseguição que ele vem sofrendo. Em segundo lugar, a pressão gerada pela deterioração do estado físico de Glauber levou o presidente da Câmara, Hugo Motta, a garantir que o processo de cassação só será levado ao plenário pelo menos 60 dias após a análise da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ). Com isso, aumentam significativamente as possibilidades de o processo ser enterrado de forma definitiva. No entanto, é importante destacar que, enquanto a esquerda e o campo progressista correm o risco real de perder um dos seus mais coerentes, corajosos e qualificados porta-vozes, o bolsonarismo vem emplacando algumas vitórias e pautando o debate público, impulsionado pela passividade do governo petista, que se afunda cada vez mais num cretinismo parlamentar, o qual pouco serviu para assegurar a preservação do mandato de Glauber Braga. Os sucessivos atos em defesa da anistia e de Jair Bolsonaro têm ganhado força, permitindo que essas pautas sejam tratadas com leviandade por parte da população e avancem perigosamente nas instâncias legislativas. O movimento pró-anistia aos golpistas ganha novo fôlego com a abertura do processo contra Bolsonaro e alguns generais – o que, convém lembrar, não significa o fim do bolsonarismo. E o cenário torna-se ainda mais grave com a apresentação de um pedido de urgência para o projeto de anistia, protocolado por Sóstenes Cavalcante – líder do PL na Câmara –, justamente num momento em que já tramitam dez propostas com o mesmo objetivo: três no Senado e sete na Câmara, todas visando beneficiar os envolvidos nos atos golpistas de 8 de janeiro de 2023. Do episódio de perseguição a Glauber Braga, extrai-se uma certeza que o próprio deputado já compreendeu a partir da sua posição política radical – razão pela qual adota uma postura combativa: a de que, mesmo que a burguesia que deu origem ao bolsonarismo acabe por descartar Jair Bolsonaro, continuará a contar com operadores políticos como Arthur Lira dentro do Estado para impedir, ao máximo, qualquer confronto real entre os interesses de classe dentro do parlamento. Apegar-se cegamente à democracia burguesa – cada vez mais marcada por sinais de falência – é um erro grave cometido por aqueles que ignoram os ensinamentos da história e se esquecem do trágico desfecho da República de Weimar e do subsequente surgimento do Terceiro Reich. Não afirmamos que estejamos a viver uma reedição do nazismo, mas o atual rearranjo das extremas-direitas pelo mundo, num contexto de crise do capital imperialista, tem dado origem a novas ideologias igualmente destrutivas. No Brasil, esse cenário parece favorecer a reabilitação do bolsonarismo, o qual, com vista às eleições de 2026, ao mesmo tempo que embarca efusivamente na tentativa de silenciar um dos mais destacados combatentes socialistas no parlamento, tenta enfiar goela a baixo da opinião pública brasileira a anistia para o golpismo. Por tanto, é preciso comemorar a vitória de hoje. Glauber Braga fica! Essa palavra de ordem deve manter-se viva até que esta batalha esteja definitivamente encerrada. No entanto, deixamos uma pergunta à esquerda decadente e ao campo progressista, cujas análises se apoiam mais no otimismo da ilusão – um otimismo que vê avanços até mesmo nos recuos do governo Lula III – do que na tentativa de uma mobilização real: Quem está realmente a vencer a luta política?

  • Contra o sionismo, solidariedade ao camarada Zé Maria (PSTU)!

    Na última semana, mais precisamente no dia 28 de abril, veio à tona a condenação do camarada Zé Maria, ex-metalúrgico e quadro histórico do PSTU, a 2 anos de prisão. Seu crime: falar a verdade às massas. Essa condenação ocorre por ter expressado, em ato na Avenida Paulista em outubro de 2023, o posicionamento hegemônico e coerente da esquerda marxista brasileira em relação ao Estado Genocida de Israel, posicionamento alinhado à defesa do fim do massacre a que população Palestina está submetida há décadas e que se agrava, a passos largos, nos últimos anos. Zé Maria foi e continua sendo um quadro fundamental nas fileiras contra a burguesia brasileira e mundial, fortalecendo, por meio de sua organização, gerações de militantes trabalhadores que buscam se armar, intelectual e materialmente, contra um sistema que os explora, não prescindindo da denúncia aos setores reformistas de esquerda que, ao pactuarem com os setores hegemônicos da burguesia, fortalecem a extrema-direita. Com esta condenação, comprova-se que o lobby sionista avança na mesma proporção em que as contradições da politica genocida de Israel se escancaram ao redor do mundo, tendo também como um de seus campos de atuação as disputas ideológicas no Brasil. Deve-se sublinar que mesmo fazendo criticas a Israel no âmbito do discurso público e diplomático, o governo brasileiro (PT) não travou sequer uma batalha forte contra a expansão do lobby sionista no país. Para além de alguns parlamentares terem votado contra o projeto de Tabata Amaral (PSB) para equiparar críticas ao Estado Genocida de Israel a antissemitismo, em alinhamento à Aliança Internacional para a Memória do Holocausto (IHRA), não se observa, por parte do governo, rompimento de qualquer relação econômica com Israel, inclusive exportando petróleo para o Estado Sionista. Para qualquer leitor atento da conjuntura, nota-se que o pilar de sustentação de qualquer hegemonia política está justamente na sua possibilidade de reprodução do ciclo econômico, tanto na esfera nacional quanto internacional. Em outras palavras, um combate efetivo do sionismo passa necessariamente pelo rompimento econômico com Israel, visto que sem tal ruptura as críticas no plano político não passam de sustentações retóricas de um dever-ser, que mascara a continuidade de uma relação que continua sólida em seu eixo central: a economia. A estratégia do lobby sionista é clara e já conhecida: confundir as massas fazendo com que a crítica ao sionismo — uma ideologia racista e supremacista — se passe por anti-semitismo — um preconceito étnico-racial contra os povos semitas, dos quais fazem parte tanto árabes quanto judeus —. Essa tática vitimista dos setores políticos que hoje governam Israel é usada para blindar sua agenda genocida em curso no Oriente Médio: agora não mais somente na Palestina, mas também ao sul do Líbano e no Irã. As investidas militares para o atual governo de Israel são como o pedalar de uma bicicleta: se parar o governo cai. O papel imperialista que desempenha o governo Netanyahu vem entrando em contradição com a própria população judaica ortodoxa no seio de Israel, como se pode observar com a crise dos alistamentos. Internamente, Netanyahu tenta justificar sua política bélica pela retórica de “guerra justa do bem contra o mal" para, utilizando-se de um inimigo externo, estabelecer um contrapeso ao escândalo de corrupção na qual ele é réu: o primeiro-ministro sionista é acusado de ter aceitado favores para beneficiar empresários, negociado a divulgação de versões favoráveis ao imperialismo de Israel com um grande jornal em troca da repressão da concorrência na imprensa e subornado a grande imprensa com marcos regulatórios favoráveis para uma cobertura positiva de sua política; acusação que não vem de hoje, sendo Netanyahu investigado desde 2016, indiciado em 2019 e estando em julgamento desde 2020. A prisão de Zé Maria, frente a tal conjuntura, é inadmissível, pois busca calar as vozes daqueles que denunciam o escancarado e desumano avanço imperialista de Israel e prejudicar uma figura de profunda relevância na luta contra a opressão capitalista por meio da imputação de um crime que não foi cometido. A prisão de Zé Maria sob a justificativa de racismo é uma cortina de fumaça para a crítica e grave conivência da República Federativa do Brasil com as políticas genocidas do governo sionista de Israel. Declaramos, assim, a nossa mais profunda solidariedade com o camarada Zé Maria e a estendemos a todos aqueles que lutam contra o genocídio palestino. Lutar pelo futuro é uma tarefa árdua que só pode ser levada a cabo por meio de um absoluto comprometimento com a verdade, ainda que o capital insista em utilizar de todos os meios possíveis para suprimir nossas vozes e obscurecer a esperança. Pela absolvição do camarada Zé Maria! Palestina livre, do rio ao mar!

  • A Arte pela Arte e a Literatura Proletária (1926)

    O Nascimento de Vênos, de Sandro Botticelli György Lukács 1 Tradução para o português: Wesley Sousa e Felipe Alves A arte pela arte é sempre um sinal claro de desespero de uma classe social quanto a sua própria existência. Isso se deve quanto à possibilidade no quadro traçado pela estrutura econômica da sociedade que lhe é subjacente, bem como pelas formas e os conteúdos da vida social que resultam de forma figurativa o modo que tenha sua existência digna do ser humano. Quem conhece os grandes e honestos representantes da arte pela arte [l’art pour l’art] (menciono sobretudo Gustave Flaubert e, particularmente, suas cartas) sabe quanto esse desespero os afetou profundamente. Eles sabem o quanto suas posturas “puramente artísticas” não eram mais do que uma máscara que escondia toda evidência do ódio furioso e desprezível de sua própria classe social contra a burguesia. Apesar disso, mesmo os representantes mais honestos e mais perspicazes desta orientação não conseguiram esclarecer as verdadeiras causas do seu desespero, ou mesmo encontrar em suas palavras uma saída salvadora que desse um senso vital ao artista. Mas isso não é apenas o fato de que, como burgueses, eles não conseguem saltar além de suas limitações, nem rasgar o horizonte de sua existência de classe. Inúmeros membros de sua classe social saíram, na ideia e na prática, dos limites de sua existência burguesa, encontraram o caminho para o proletariado, caminho da justa crítica – a crítica na teoria e na prática – da sociedade burguesa. Além dessa dificuldade para qualquer pessoa nascida burguesa de romper totalmente de sua classe, o limite reside no próprio fato de ser artista. O artista sempre aborda a vida diretamente . Quanto mais é autenticamente artista, mais ele está na imediatez. Ele pode bem exercer uma crítica, por mais severa que seja, aos homens, grupos, instituições, formas fundamentais da objetividade, sob as quais a vida de seu tempo se apresenta a ele, mas ele precisa manter-se como um artista sempre em uma imediaticidade ingênua e sensível. (Deste ponto de vista, Dante se situa na mesma linha que Homero, Cervantes, na mesma linha que Shakespeare.) A tragédia do artista na sociedade burguesa, resultado de todo movimento da arte pela arte que reside nessa relação de imediatismo, base de aproximação artística da realidade, é perturbada, ou mesmo tornada impossível. Primeiramente, o desenvolvimento da sociedade burguesa, condicionada pelo desenvolvimento do capitalismo como modo de produção que rege toda a sociedade, torna insuportáveis, abstratas, imateriais, impossíveis de figurar [figurer], as ações humanas e as relações dos homens entre si (a matéria da arte). No capitalismo, a divisão social do trabalho, o predomínio da relação mercantil sobre todos os fenômenos da vida social, o fetichismo de todas as formas de vida que ela está indissociavelmente ligada, etc. mergulha o artista em um ambiente para o qual, por ser artista – com uma sensibilidade poderosa, exigente e seletiva –, ele não pode absolutamente ter uma atividade ingênua – imediata de prazer e de criação jocosa; em relação qual, no entanto, ele não pode – se quiser continuar sendo um artista – comportar-se de maneira puramente crítica e, portanto, intelectual, indo além da imediaticidade. Esse dilema insolúvel continua a ser exacerbado pelo artista moderno. Como toda arte autêntica e grandiosa é uma figuração [figuration] da vida em suas mais elevadas possibilidades, ela vai sempre além da realidade óbvia e superficial do cotidiano na sua banalidade [platitude]. Ela busca figurar no seu conjunto a vida de sua época, em suas expressões elevadas; abandona o naturalismo para reencontrar a natureza viva; renúncia à imediaticidade posta que o artista reencontra na banalidade, para chegar a uma figuração sensível, englobando tudo que há de essencial. Nesse sentido, toda composição literária autêntica é uma crítica da sua época. Mas o escritor moderno [os modernistas], se ele quiser ser o crítico de seu tempo, deveria manter-se na simples crítica abstrata, imaterial e artisticamente insatisfatória. Para a consciência burguesa, de fato, toda a sociedade é considerada, no máximo, como um conceito abstrato. E se – por razões artísticas – o artista se desvia desta totalidade abstrata, se ele se volta exclusivamente aos fenômenos “concretos” menos isolados percebidos de maneira acrítica, então ele vai artisticamente sufocar-se na trivialidade cinza e desértica da vida burguesa. Sua consciência artística exige dele o impossível (Basta referir-se aqui a Hebbel, Tolstói, Hauptmann etc.) Isso já deveria ser suficiente para explicar o desespero subjacente à arte pela arte . Mas, em segundo lugar, o desenvolvimento da sociedade burguesa também torna a existência do escritor problemática de uma maneira que nunca havia sido antes. De fato, também interior e exteriormente. Exteriormente, porque a invasão crescente na sociedade pelo capitalismo torna mais restrita a necessidade real e viva da literatura e da arte, transformando cada vez mais a relação entre o escritor e o público em uma relação abstrata, sujeita à lei do valor da relação mercantil. O escritor sabe cada vez menos para quem escreve. E, então, quando ele expressa essa ausência das raízes sociais que seria sua como uma teoria orgulhosa da arte pela arte , isto é, no melhor dos casos, uma autoanestesia desesperada que os artistas honestos estão sempre percebendo em seus instantes de lucidez (volto a referir-me a Flaubert). Mas em artistas de menor envergadura e menos honestos, isso se agrava em uma autoilusão que corrompe o caráter – inclusive como artista (pensemos em artistas do tipo Wilde, d'Annunzio, Hofmannsthal etc.). Esse desenraizamento social do artista vai se conservar com a ausência intrínseca de raízes da arte. As formas artísticas, como Goethe e Schiller perceberam com toda clareza, nasceram de certas necessidades da experiência vital, na qual as possibilidades típicas da satisfação sensual [sensuelle] mais intensa se condensam em formas artísticas (épico, drama, etc.). Mas o desenvolvimento capitalista, com sua divisão do trabalho que torna abstratas as relações humanas, etc., não somente aniquila a matéria da composição literária, mas esmaga suas formas, engendrando algo nos homens, tornando-os abstratos, socialmente atomizados das necessidades tão caóticas de uma experiência intensa da vida que estas não podem ser satisfeitas adequadamente, qual seja sua forma artística. O escritor deve simplesmente encontrar suas formas em si mesmo: ele se torna um esteta, um adepto da arte pela arte [l’art pour l’art]. Uma grande arte, uma arte referente às formas verdadeiramente perfeitas, nunca nasceu, entretanto, a não ser pela satisfação de uma necessidade clara e nítida da época. Os estetas pesquisadores de formas, sejam eles chamados neorromânticos ou expressionistas, devem permanecer necessariamente desprovidos intrinsecamente de forma. Certamente há, diríamos, uma arte engajada. Mas esta não indica, de modo algum, uma saída artística para o labirinto da arte pela arte [l’art pour l’art]. É muito mais – de um ponto de vista social e ao mesmo tempo artístico – sua exata imagem invertida. Pois essas “tendências” que devem definir a matéria e a forma das composições literárias e que são possíveis de um ponto de vista burguês na vida burguesa, seja em plano comum das utopias românticas abstratas tão bem acimas da vida materialmente configurada, em que eles não podem mais, no plano artístico se reunir organicamente a ela (o último Ibsen, mais ainda G. Kaiser, Toller, etc.) 2 ,  ou seja, tendências que tratam de problemas da vida burguesa tão abstratos e triviais que nunca conseguem atingir o auge artístico. Esse dilema não é fortuito. Ele reflete a existência social da classe burguesa que – desde a entrada na cena histórica do proletariado, sempre crescente – é cada vez mais incapaz de considerar com imparcialidade as bases de sua existência social. Da mesma forma que é impossível aceitá-la honestamente ou criticá-la com imparcialidade. Ela é obrigada a refugiar-se ou numa hipocrisia desesperada (a “ausência de tema” da arte pela arte, o reinado absoluto da forma), ou desta hipocrisia trivial segundo a qual esses problemas, cuja existência ela própria suspeita, poderiam ser eliminados por “reformas” superficiais. Assim, na arte pela arte , seja qual for o ponto de vista sob o qual a consideremos, revela-se cada vez mais claramente o beco sem saída em que se encontra a existência burguesa; inclusive do ponto de vista da arte. Mas o que a revolução proletária pode oferecer para o desenvolvimento da arte? Muito pouco, em um primeiro momento. E não é conveniente para o revolucionário proletário, para o marxista, superestimar utopicamente as possibilidades realmente existentes. Ele não deve, acima de tudo, esquecer que a arte proletária revolucionária se encontra socialmente numa situação largamente mais desfavorável do que aquela em que se encontrava a arte da burguesia revolucionária nos séculos XVII e XVIII. As formas econômico-sociais da vida burguesa já podiam, de fato, desenvolver-se naquela época no seio do mundo feudal [au sein du monde féodal]. Os escritores burgueses estavam então em condições de figurar esta existência de maneira imediatamente sensível inclusive puderam ainda sinceramente crer na vocação de emancipar o mundo (o romance inglês do século XVIII, Diderot, Lessing, etc.). Por outro lado, não só enquanto não destruiu o capitalismo, mas também, como Marx demonstrou de forma incomparável em A Crítica ao Programa de Gotha 3, na primeira e inferior fase do comunismo, o proletariado vive num mundo cuja estrutura de fundo (regido pela lei do valor, divisão do trabalho, direito igual e abstrato, etc.) conserva, apesar de todas as revoluções, as formas estruturais do capitalismo. A enorme revolução que vivemos, realizada pelo proletariado revolucionário, perturba inicialmente menos a realidade imediatamente sensível (a matéria e a forma da composição literária) do que se poderia superficialmente acreditar. Isso explica a “decepção” em relação à Revolução Russa por parte dos intelectuais que esperavam dela a solução instantânea para as misérias particulares de suas vidas. Muita coisa, no entanto, aconteceu. Inclusive para escritores da Europa Ocidental ainda capitalista. Pois para esses escritores inteiramente unidos à revolução proletária, que participam realmente no desenvolvimento revolucionário, que passaram a viver essa experiência, surge uma via de saída das antinomias da arte pela arte. Apesar de todos seus defeitos, O Cidadão [Der Burger], de Leonhard Frank 4 ,  se eleva com veemência contra as “literaturas engajadas”. Justamente porque o tamanho de sua tendência permite uma fusão artística viva com o material concreto, porque o ódio vivo ao encontro da sociedade burguesa, que se torna claro e consciente, o leva além da ausência da pura arte formal. E Andersen-Nexø ⁵ é bem-sucedido em descrever o despertar da consciência de classe de um trabalhador agrícola com uma riqueza de detalhes e uma vastidão do mundo, como apenas os escritores da melhor época da burguesia conseguiram fazer com seus temas. Enquanto o resto da Europa lamenta-se, em geral e com justa razão, que a literatura esteja estagnada e careça de jovens escritores talentosos, surge na Rússia toda uma série de jovens escritores de grande talento, nas suas obras – mesmo se são muitas vezes hesitantes e vacilantes – já se pode sentir o terreno firme em que se posicionam como escritores. Isso não é como se agora, subitamente, fosse nascer uma literatura inédita, em ruptura com toda a evolução precedente. Aqueles que esperam e desejam isso são precisamente os mais burgueses, aqueles que estão mais próximos da literatura europeia desesperada, exageradamente formal e informe (sobre essa literatura, cf. o livro do camarada Trotsky, Literatura e revolução 6 ). Pressentimos somente que os escritores começaram a sentir de novo socialmente sob os seus pés um terreno sólido – e repercute sobre o material e a forma de sua literatura. Não me parece, de forma alguma, um acaso que a obra com a forma mais sólida, resultante até agora dessa revolução, tenha sido Uma semana , de Libedinsky 7 , a obra do proletário e comunista mais consciente entre esses escritores. Pois é precisamente no proletariado e no comunismo que se realiza esse processo que está destinado a superar a sociedade burguesa (e com ela os problemas de sua arte). Certamente, de acordo com o que Marx afirma, “o direito não pode estar acima da organização econômica... da sociedade” 8 , idem a literatura não pode estar! Mas, se não esperarmos um milagre repentino, uma solução única para todos os problemas, podemos começar a ver e a reconhecer o enorme progresso que se tornou possível na revolução proletária, inclusive para a literatura. __________________________________________________________________________________________ 1 Traduzido por Wesley Sousa (UFMG) e por Felipe Alves (USP). Este texto é a tradução do ensaio L’art pour l’art und proletarische Dichtung (1926). A presente tradução foi feita a partir da versão francesa, realizada por Jean-Pierre Morbois. As notas são todas do tradutor em língua francesa e os itálicos foram mantidos tal como aparecem. O texto original pode ser consultado em: https://amisgeorglukacs.org/2022/04/georg-lukacs-art-pour-l-art-et-litterature-proletarienne.1926.html . Publicado pela primeira vez na revista Die Tat, Monatsschrift für die Zukunft deutscher Kultur  [O Fato, periódico para o futuro da cultura alemã], Iena, Eugen Diederichs, 26 de junho de 1926, p. 220-223, em um número especial dedicado à educação dos trabalhadores, entre outros artigos, muitos escritos por social-democratas. [N.T] 2 Georg Kaiser (1878-1945), dramaturgo expressionista e ator alemão. Ernst Toller (1893-1939), escritor, dramaturgo expressionista e poeta alemão. 3 Commentaires en marge du programme du Parti Ouvrier Allemand , Trad. Sonia Dayan-Herzbrun, Paris, Les editions sociales, 2008, pp. 57-58. 4 Leonhard Frank (1882-1961), escritor expressionista alemão, Der Bürger [O cidadão], Berlim, Malik, 1924. 5 Martin Andersen-Nexø, (1869-1954), écrivain danois, communiste. Connu notamment pour Pelle le Conquérant , Paris, Points Seuil, 2005 6 Paris, UGE 10/18, 1971. 7 Youri Nikolaı̈evitch Libedinsky [Юрии˘ Николаевич Либединскии˘ ] (1898-1959) e écrivain et critique sovietique. Неделя [ La semaine ] Ekaterinbourg, Éditions le livre de l’Oural, 1923. 8 Commentaires en marge du programme du Parti Ouvrier Allemand , op. cit., p. 59.

  • Acerca da relevância teórica e atualidade do epílogo de A Destruição da Razão: o entrelaçamento entre a “nova forma do irracionalismo” e o fenômeno do politicismo

    Por Rodrigo Vieira Ferreira [1] O presente texto tem como objetivo retomar o conteúdo próprio do epílogo de A Destruição da Razão de György Lukács afim de jogar luz sobre o entrelaçamento entre o fenômeno do politicismo e a “nova forma de irracionalismo” denunciada pelo filósofo magiar. Defende-se que o pós-escrito de a A Destruição da Razão , redigido em 1953, contém apontamentos relevantes e pouco visitados acerca do fenômeno do irracionalismo e do politicismo, ainda que Lukács não tenha feito uso explícito desta última categoria. Assim sendo, o presente texto terá dois objetivos: 1) demonstrar a relevância teórica do epílogo de A Destruição da Razão a partir de discussão ancorada no conteúdo próprio deste escrito de Lukács, apesar de seu caráter sintético e 2) demonstrar, a partir do conteúdo deste escrito de Lukács, o entrelaçamento existente entre entre a ascensão da “nova forma de irracionalismo” e o fenômeno do politicismo, este último marcado pela exacerbação da política enquanto fator explicativo para o surgimento de problemas de ordem econômica e, por conseguinte, enquanto fator preponderante para a resolução de tais problemas. Em outros termos, nos propomos aqui a reivindicar a relevância teórica deste escrito para a crítica e compreensão dos fenômenos do irracionalismo e do politicismo, ainda que reconheçamos seu caráter sintético quando comparado ao texto base de A Destruição da Razão . Nos propomos a “reivindicar” a relevância de tal escrito uma vez que não tem sido um texto muito visitado e estudado no Brasil uma vez que pesquisas sobre A Destruição da Razão debruçam-se mais recorrentemente sobre o texto base. Contudo, é possível argumentar que o próprio texto base de A Destruição da Razão ainda está por receber a mesma atenção que outros escritos de Lukács como História e Consciência de Classe e Para uma Ontologia do Ser Social por parte de pesquisadores e militantes marxistas brasileiros. À título de ilustração, basta dizer que a obra em análise foi traduzida para o português e publicada no Brasil pela primeira muito recentemente no ano de 2020 a partir de iniciativa do Instituto Lukács. Além de ser um texto menos frequentemente visitado, o epílogo de A Destruição da Razão recebeu ainda duras críticas de autor relevante do marxismo brasileiro (Netto, 1978) o que incentiva e justifica ainda mais a necessidade da “defesa” de sua relevância. Assim sendo, antes de adentrarmos o conteúdo próprio de tal Epílogo, acreditamos ser relevante trazermos à baila uma passagem da obra “Lukács e a crítica da filosofia burguesa” de autoria de José Paulo Netto, na qual o autor tece comentários críticos ao Epílogo de A Destruição da Razão , que, se por um lado apontam para as limitações que este pós-escrito teria - e de fato tem -, por outro, parecem fomentar sua completa descredibilidade: Depois de esclarecer como o nazi-fascismo instrumentalizou o irracionalismo, quer como forma de neutralização da resistência intelectual, quer como meio para implementar a sua demagogia social, quer, ainda, na tentativa de fundar o seu pretenso carácter «revolucionário», Lukács propõe-se esboçar, no epílogo de A Destruição da Razão, as principais linhas evolutivas do irracionalismo no pós-guerra. Indicando rapidamente a emergência de uma epistemologia neomachista, ele assinala que à hegemonia ideológica dos Estados Unidos da América passa a corresponder um método de justificação do capitalismo que restaura a velha apologia directa (Lukács menciona, então, brevemente, as ideias de Lippmann e Burnham) e faz um ligeiro comentário sobre as teses históricas de Toynbee, que é, para Lukács, «um simples epígono do epígono da filosofia da vida, Spengler». Não se pode contestar que este epílogo — que não condiz com a magnitude da obra — é a parte mais fraca do livro. E não apenas em função da sua brevidade ou da sua estrutura jornalística, como o reconheceu Lukács reiteradas vezes. A meu ver, o defeito que enfraquece estruturalmente o fecho (de A Destruição da Razão reside em que o seu autor não formula, em nenhum momento — e talvez isto possa ser compreensível invocando-se a época da redacção do texto —, com clareza, uma hipótese explicativa para o facto de que não apenas o irracionalismo continuaria a servir à reacção, mas que, por outro lado, já se tornava possível, à burguesia imperialista, reutilizar-se do racionalismo formal para amenizar as posições teórico-críticas do movimento operário revolucionário. Numa palavra: neste epílogo, Lukács não estabelece nenhuma relação entre a destruição e a miséria da razão. Eis o que compromete, medularmente, as páginas finais da grande obra lukacsiana (Netto, 1978, p. 53-54). Da passagem anterior, é possível reter duas características do epílogo em análise que atestariam ser esta a “parte mais fraca do livro”, segundo José Paulo Netto: 1) sua “brevidade” e “estrutura jornalística” e 2) o fato de Lukács não ter tecido neste pós-escrito nenhuma “hipótese explicativa” para a vigência do fenômeno do irracionalismo e da racionalidade meramente formal no período pós-guerra. Quanto ao primeiro ponto, concordamos integralmente, contudo, quanto ao segundo, julgamos ser necessário discordar. Sem qualquer pretensão de “polemizar” com um autor do rigor e relevância de um José Paulo Netto, nosso objetivo neste primeiro momento será tão somente trazer à baila passagens da própria lavra de Lukács que demonstram que, apesar de o autor húngaro de fato não ter tecido um extenso tratado sobre como e porquê o irracionalismo teria perdurado mesmo após a derrota nazista na segunda Guerra Mundial e encontrado nos EUA solo fértil para sua renovação, indicam ao menos que o mesmo teceu uma “hipótese explicativa” para tal fenômeno, qual seja: a forma particular em que o capitalismo se objetivou naquele país e sua natureza “democrática” e a necessária oposição dos EUA à União Soviética no contexto da Guerra Fria, a qual havia de incorrer no desenvolvimento de formas de defesa do modo de produção capitalista em face da experiência socialista intentada a duras penas na URSS. De partida, é importante retomar o fato de que o epílogo em análise foi escrito no ano de 1953, ou seja, durante os primeiros anos da chamada Guerra Fria. Nesse sentido, Lukács apresenta que o fim da 2° Guerra Mundial “não significou senão a preparação de uma nova guerra, dessa vez, contra a União Soviética” (Lukács, 2020, p. 663). E é nesse contexto geopolítico que os Estados Unidos irão desbancar a Alemanha nazista recentemente derrotada na 2° Guerra e vão assumir a posição de ponta de lança da reação burguesa a nível global, isso porque no contexto da “Guerra Fria” marcado pelo contundente embate ideológico contra a União Soviética necessariamente “os Estados Unidos passaram a assumir cada vez mais a força da liderança da reação imperialista, tomando assim o lugar da Alemanha” (Lukács, 2020, p. 663). Não por acaso, Lukács se volta a analisar as elaborações de ideólogos erradicados nos EUA, chegando a afirmar explicitamente que o objetivo do Epílogo “é indicar as principais tendências da ideologia da guerra fria, nos seus representantes mais significativos” (Lukács, 2020, p. 664). Dos apontamentos anteriores, resta claro que foi em decorrência da inconteste consolidação de sua posição enquanto a principal potência imperialista no pós-guerra e a consequente e imperativa necessidade de sair em defesa do modo de produção capitalista que os EUA passaram a assumir a posição de bastião da reação burguesa naquele quadro histórico. Levando em conta essas circunstâncias globais e a posição dos EUA na divisão internacional do trabalho no período pós-guerra, Lukács apresenta que os EUA perpetraram o retorno à “apologia direta” do modo de produção capitalista e explica tal fenômeno remetendo-o às condições histórico-sociais que o habilitaram. Em outros termos, aludindo à determinação social do pensamento , Lukács volta a sua análise às condições objetivas dos EUA, país em que, ao contrário da Alemanha: a existência do sistema capitalista não chegou a se encontrar em perigo nem nos mais profundos períodos de crise. A Constituição dos Estados Unidos foi desde o princípio, ao contrário da alemã, uma Constituição democrática, e a classe dominante havia conseguido ali, especialmente durante o período imperialista, consolidar as formas democráticas de tal modo que se pudesse assegurar, com os meios da legalidade democrática, uma ditadura do capital monopolista pelo menos tão vigorosa quanto a que Hitler havia conquistado com seus procedimentos tirânicos. As prerrogativas do presidente dos Estados Unidos, o poder de decisão da Suprema Corte em matéria constitucional (e depende sempre do capital monopolista que um problema seja ou não considerado como tal), o monopólio financeiro sobre a imprensa, o rádio etc., os enormes gastos eleitorais que impedem eficazmente a formação e o funcionamento de partidos democráticos reais, ao lado dos já tradicionais que representam o monopólio capitalista e, finalmente, o emprego de meios terroristas (o sistema de Lynch), tudo isso contribui para criar uma “democracia” que funciona dentro da normalidade, e que pode obter de fato, sem romper formalmente com a democracia, tudo aquilo a que Hitler aspirava. Acrescente-se a isso a base econômica incomparavelmente mais extensa e mais sólida do capitalismo monopolista nos Estados Unidos (Lukács, 2020, p. 667). Isto posto, o filósofo húngaro adiciona que a forma de ser e ir sendo do capitalismo norte americano, para usar uma expressão de José Chasin [2] , implica que “Para eles, o sistema ideal da economia continua sendo o capitalismo, e a ‘liberdade democrática’ o modelo da organização do Estado e do regime de governo” (Lukács, 2020, p. 668). Na sequência, Lukács arremata a questão: “as condições econômicas, sociais e políticas dos Estados Unidos têm necessariamente que engendrar uma ideologia em cujo centro se ergue a defesa aberta do capitalismo, da ‘liberdade’ capitalista” (Lukács, 2020, p. 668). Dito de outra maneira, a forma particular de desenvolvimento da economia capitalista norte americana explica a solidez “democrática” e a legitimidade social de sua correspondente forma político-jurídica institucionalizada, forma de ser e ir sendo capitalismo que se posiciona ontologicamente enquanto condição habilitadora para a correspondente renovação da “apologia direta” e irrestrita do modo de produção capitalista por parte dos ideólogos do capital monopolista. Feitos tais apontamentos a partir da própria pena de Lukács, parece ser possível discordar pontualmente da colocação de José Paulo Netto de que no epílogo de A Destruição da Razão o autor húngaro “não formula, em nenhum momento — e talvez isto possa ser compreensível invocando-se a época da redacção do texto —, com clareza, uma hipótese explicativa para o facto de que não apenas o irracionalismo continuaria a servir à reacção, mas que, por outro lado, já se tornava possível, à burguesia imperialista, reutilizar-se do racionalismo formal para amenizar as posições teórico-críticas do movimento operário revolucionário”. Como dito anteriormente, não é nosso interesse “polemizar” tal questão, sendo nosso objetivo tão somente apontar que, se de um lado Lukács não se estende minuciosamente sobre a questão - e o próprio autor explicita tal fato em diversos momentos de sua obra -, ao menos apresenta uma - sintética, é verdade - “hipótese explicativa” para o fenômeno da renovação da apologia aberta ao modo de produção capitalista e sobre os motivos de tal renovação ter tido como epicentro justamente os Estados Unidos da América naquele quadro histórico marcado pela Guerra Fria e pela vigência do capital monopolista, donde os EUA figuravam - e ainda figuram - como ponta de lança. Uma vez demonstrada a forma não tão simplória com que Lukács trata da renovação do irracionalismo no período pós-guerra no epílogo de A Destruição da Razão, alguns questionamentos ainda perduram: quem são os ideólogos estudados por Lukács neste escrito? Como foi perpetrada a apologia direta do capitalismo por parte destes ideólogos? Qual o conteúdo de suas formulações? Para responder a tais formulações continuemos retendo atenção sobre o conteúdo próprio do epílogo em análise. Fato é que, ao respondermos a tais questionamentos a partir de passagens do próprio epílogo, estaremos cumprindo o segundo objetivo deste texto, qual seja, apresentar os apontamentos de Lukács acerca do entrelaçamento entre a “nova forma do irracionalismo” e o fenômeno do politicismo. Quanto ao conteúdo da apologia ao capitalismo em sua etapa monopolista, Lukács salienta que, apesar de ser uma “apologia direta”, esta não poderia ser simplória dado que “as massas que já compreenderam a conexão íntima que os monopólios possuem com as leis que regem a vida do capitalismo não se deixam facilmente enganar por uma propaganda apologética” (Lukács, 2020, p. 669). Portanto, diante da impossibilidade de negligenciar por completo o problema dos monopólios e da concentração de riqueza, os ideólogos do capital monopolista têm de tratar do problema dos monopólios, contudo, o fazem sem remetê-los à lógica de reprodução do modo de produção capitalista, objetivando em última instância “fazer do capitalismo monopolista algo fortuito e contingente, passível de ser eliminado”, conforme Lukács (2020, p. 669). Em síntese, o objetivo é apresentar o capitalismo monopolista como algo passageiro, um mero desvio de curso. Conforme apontado anteriormente, o pós-escrito de A Destruição da Razão teve como objetivo “indicar as principais tendências da ideologia da guerra fria, nos seus representantes mais significativos” (Lukács, 2020, p. 664). Assim, Lukács tece comentários críticos sobre as formulações de alguns ideólogos, entre eles Lippmann e Röpke. Sobre o primeiro, nosso autor dirá que Seu método é o da economia normal e vulgar; ele identifica a economia com a técnica, fala praticamente sempre em técnica no lugar de economia para extrair daí a seguinte “prova”, que, evidentemente, não tem nenhuma força de convencimento, nem mesmo partindo-se de seus próprios pressupostos: o de que o desenvolvimento da técnica e da produção em massa “não exige nenhum tipo de monopólio”. “A concentração tem sua origem no privilégio e não na técnica”. Mas de onde vem esse privilégio? A resposta soa extremamente simples: os liberais – em consequência de sua míope e equivocada aplicação do princípio do laissez-faire – têm admitido e inclusive estimulado a criação de tais privilégios; [...] Desse erro dos liberais surgiram os monopólios (Lukács, 2020, p. 669-670). Da passagem anterior é possível reter que Lippmann chega de fato a endereçar o problema dos monopólios, entretanto, diante da missão social de negar o vínculo umbilical entre o surgimento dos monopólios e a lógica imanente de reprodução do capital, atesta que os monopólios são resultado de um erro dos liberais e de sua “míope e equivocada aplicação do princípio do laissez-faire”. Desta primeira passagem acerca das formulações de Lippmann, começa a ficar claro que os problemas do capitalismo monopolista são tratados pelos ideólogos do capital como algo fortuito e trivial, um mero erro de cálculo, um erro de gestão. Já no que diz respeito ao economista Röpke, Lukács (2020, p. 670) apresenta que, diante da tarefa de defesa do capitalismo, este se vê obrigado a negar “assim como Lippmann, a necessidade econômica da concentração do capital e, portanto, dos trusts, dos cartéis, das holdings etc”. Dito de outra forma “tanto Lippmann quanto Röpke estão de acordo quanto ao fato de que os monopólios não são fenômenos inevitáveis”. Uma vez apresentado como um problema contingente, portanto, solucionável sem a necessária destruição do modo de produção de produção capitalista, os ideólogos apologetas do capitalismo monopolista trazem à baila a solução para tal problema circunstancial: a intervenção estatal. E aqui começa a se desvelar o entrelaçamento entre a renovação da apologética direta ao capitalismo e o politicismo, este último devendo ser entendido enquanto fenômeno ideológico que exacerba a potência da esfera política em resolver problemas emanados da própria dinâmica econômica (Chasin, 1977). Dito de outra forma, ideologias marcadas pelo politicismo tratam os problemas advindos da esfera econômico-social enquanto resultado da esfera da política, reduzindo tais problemas a simples erros de gestão e de direcionamento político. Por conseguinte, as propostas de resolução para tais problemas são pensadas a partir do próprio âmbito da política e do aprimoramento da gestão estatal. Retomando o conteúdo do epílogo, Lukács apresenta claramente o vínculo aqui discutido ao dizer que a proposta de resolução dos monopólios a partir da intervenção estatal parte da premissa de que “Se a legislação da sociedade burguesa criou os trustes etc., ela também pode impor limites a isso, inclusive aboli-los totalmente, pondo um fim à concentração do capital” (Lukács, 2020, p. 670-671). Fica claro que, uma vez tratados pelos ideólogos do capital monopolista enquanto problemas contingenciais criados pela “legislação”, o problema dos monopólios e trustes pode igualmente ser eliminado através da mesma esfera que supostamente os criou. Em adição, argumentamos que desse apontamento de Lukács é possível sublinhar uma proposta de administração política do modo de produção capitalista por parte de Lippmann, ou seja, uma propositura de gestão da dinâmica econômica capitalista e de suas contradições sem o objetivo de eliminá-las (Paço Cunha, 2021). Ademais, é também possível sublinhar a ênfase de Lippmann sobre os “meios jurídicos” de administração política [3] do capitalismo monopolista (Paço Cunha, 2021). E o mesmo, dirá Lukács, se verifica para o caso do economista suiço Röpke. De acordo com nosso autor: Uma mudança, porém, segundo Lippmann, é possível: “Os homens de hoje podem reformar a ordem social, modificando as leis”. Como Lippmann enxerga apenas a superfície subjetivamente distorcida da sociedade capitalista, não lhe ocorre perguntar como surgem as leis, ou seja, investigar mais de perto a relação entre a economia e a superestrutura jurídico-política. Assim, ele pode declarar, com a desfaçatez do “cretinismo parlamentar”, que esse tipo de mudança é possível; mas passa completamente por alto a única questão que realmente interessa, qual seja, a de saber quais forças sociais são capazes de operar realmente essa mudança; antes, se contenta em tecer projetos demagógicos – e teoricamente inconsistentes – a fim de ludibriar leitores incautos. Esse tipo de raciocínio é um claro exemplo de falta de bonna fide. Isso pode se comprovar ainda mais facilmente com Röpke, autor com ideias afins às de Lippmann. Ele apoia com os seguintes argumentos sua política antimonopolista “ativa”, que culmina, como no caso de Lippmann, num apelo à legislação: “A prova de que esse último caminho é perfeitamente viável foi dada pelo exemplo dos Estados Unidos com o ato Sherman, a lei que proíbe o monopólio e toda associação monopolista, e que continua sendo ainda hoje a base do direito econômico americano”. Naturalmente, os fatos o obrigaram a reconhecer que “até agora essa lei se mostrou ineficaz” (Lukács, 2020, p. 671, grifos nossos). Como se vê, a ênfase da propositura dos autores aqui analisados por Lukács para a suposta resolução do problema dos monopólios está no acionamento de “meios jurídicos” de administração política do modo de produção capitalista. Assim, é inegável o caráter politicista de tais formulações que apresentam a esfera da política e a atuação do poder político institucionalizado enquanto fator preponderante diante da esfera da economia. E esse será, de acordo com Lukács, a linha de pensamento basilar que perpassará a formulação dos demais ideólogos do capital monopolista isso porque “Os mesmos raciocínios, ainda que formulados de um modo distinto, encontramos em outros autores” (Lukács, 2020, p. 672). Quanto a isso o filósofo húngaro dirá que Como elementos essenciais e comuns a todos, destacam-se principalmente dois. Em primeiro lugar, a concepção do capitalismo (a chamada “economia de livre-mercado”) como ordem social ideal. As eventuais “perturbações” que nela porventura ocorram são simplesmente fenômenos secundários que a legislação pode sempre que quiser eliminar ; e isso é possível, na medida em que se vive na “liberdade” de uma “democracia”, em que a voz da maioria é decisiva e todo-poderosa. Em segundo lugar, esse método representa idealmente um suposto retorno aos clássicos da economia. Mas que tipo de retorno é esse? A grande contribuição teórica dos clássicos foi ter criado a teoria do valor-trabalho, ou seja, ter concebido e demonstrado realmente, ainda que com falhas e de modo fragmentário, a legalidade do capitalismo, de modo a poder fundamentar a teoria da mais-valia (da exploração), a consciência das contradições do capitalismo, tal como isso já se torna visível na dissolução da escola de Ricardo. É claro que não cabe falar aqui realmente de um retorno. Seu nexo não é tanto com os clássicos quanto com os epígonos decadentes, com os economistas vulgares, aqueles que eliminaram da teoria do capitalismo toda contradição e que interpretam os clássicos como se a sua própria superficialidade, que busca a todo custo a harmonia, constituísse realmente a essência da doutrina clássica (Lukács, 2020, p. 672, grifos nossos). A passagem anterior traz à tona outra questão muito relevante para o entrelaçamento entre irracionalismo e o politicismo: o fato de que para formular sua propositura de administração política de ênfase jurídica, os ideólogos do capitalismo monopolista defendem um suposto “retorno aos clássicos da economia” como forma de adornar suas elaborações de um caráter pretensiosamente técnico e racional de tal forma que “A defesa atual – diretamente apologética – do capitalismo, renuncia, aparentemente, ao mito e ao irracionalismo” (Lukács, 2020, p. 673). A respeito dessa aparente renúncia ao irracionalismo perpetrada pelos ideólogos do capital monopolista o filósofo húngaro dirá que segundo a forma, o modo de exposição, o estilo, trata-se aqui de uma cadeia argumentativa puramente conceitual e científica. Mas só aparentemente, pois o conteúdo dessas construções conceituais é a pura falta de conceito, a construção de conexões não existentes, a negação da legalidade real em função de conexões aparentes, reveladas imediatamente (livres de conceitos) pela imediaticidade da superfície da realidade econômica. Estamos, portanto, diante de uma nova forma de irracionalismo, que se caracteriza por sua aparência de racionalidade (Lukács, 2020, p. 673). Aqui chegamos àquela que é, muito provavelmente, a principal contribuição teórica de todo o epílogo de A Destruição da Razão : a denúncia explícita de Lukács quanto ao tom e ao conteúdo das formas de consciência que marcam a renovação da apologia direta do modo de produção capitalista. Nosso autor denuncia o surgimento de uma “nova forma de irracionalismo” no período pós-guerra atrelada a formulações marcadas por sua “aparência de racionalidade” apesar de essencialmente serem completamente vazias de conteúdo - uma vez que não se propõem a compreender a realidade social de forma totalizante e radical, antes o contrário: em decorrência de seu caráter politicista invertem sujeito e predicado e, em última instância, impedem a reta apreensão da realidade e seus nexos causais, compreendendo-a pela aparência que se quer desta. Não é casual, portanto, que as proposituras que marcam a “nova forma de irracionalismo”, conforme denunciado por Lukács, incorram na defesa da “técnica”, em um cientificismo formal e no aprimoramento das medidas de administração política como forma de atribuir a si mesmas uma aparência de cientificidade, de rigor metodológico e de comprometimento com a resolução dos problemas vividos na cotidianidade. Trata-se, em síntese, de uma tentativa de atribuir a tais elaborações uma aparência de racionalidade . Parece-nos válido ressaltar a atualidade desta argumentação de Lukács para os dias de hoje, donde imperam propostas de resolução dos problemas sócio-econômicos calcadas no “aprimoramento de modelos de gestão estatal” e na “redução da corrupção”. Para que fique claro: não se trata de dizer que a melhoria das medidas de administração política e a redução da corrupção não tenham eficácia relativa diante dos problemas inerentes à própria ordem econômica. É evidente que o Estado pode - e deve - tomar determinadas medidas diante dos problemas sócio-econômicos, contudo, o que o Estado faz ou é capaz de fazer está circunscrito aos próprios limites ditados por sua base de sustentação objetiva, ou seja, as medidas de administração política acionadas estão limitadas à tarefa última de manutenção da sociabilidade capitalista. Assim sendo, o Estado possui “autonomia relativa” para atuar diante da dinâmica econômica capitalista, sendo, em última análise, apenas capaz de administrar tais problemas sem jamais resolvê-los radical e efetivamente (Paço Cunha, Mendes, Ferreira, 2023). Conforme apresentado até aqui, nas formulações aparentemente racionais que marcam a “nova forma de irracionalismo”, os problemas de ordem econômica aparecem como algo fortuito, contingente, capazes de ser ultimamente resolvidos pela atuação estatal. Aí está, portanto, o vínculo entre a renovação do irracionalismo em sua “aparente racionalidade” e o politicismo: uma vez que os problemas sócio-econômicos vivenciados são preponderantemente tomados como resultado de políticas falhas e de modelos de gestão estatal ineficazes, a consequente proposta de resolução permanece enclausurada na esfera da política. Em suma, se os problemas vivenciados são primariamente tomados enquanto a consequência de erros de administração política, é esta última que deve ser reformulada. Não é casual, por conseguinte, o apelo constante a termos vagos como "técnica", "aprimoramento da gestão", enfim, uma série de conceitos que dão a estas formulações uma aparência de racionalidade e rigor conceitual. Ao fim e ao cabo, a tarefa última do ideário irracionalista é cumprida: a reta apreensão do vínculo entre os problemas sócio-econômicos e a lógica imanente de reprodução do capital é escanteada e, assim, fica aberto o caminho para a apologia do modo de produção capitalista, o qual desponta como o estágio último de desenvolvimento da humanidade restando tão somente a tarefa de administrá-lo, humanizá-lo ad infinitum . Nesses termos, não haveria, portanto, qualquer possibilidade de alteração radical da sociabilidade vigente. Uma vez finalizada a discussão aqui pretendida, deixamos a seguinte indagação: passados tantos anos dos apontamentos e críticas apresentados por Lukács no epílogo de A Destruição da Razão , qual não seria sua atualidade para a análise crítica das formas de consciência dos atuais ideólogos do capital? E mais: qual não seria sua atualidade para o escrutínio das formulações teóricas angariadas pelo próprio campo da esquerda marcadas pela crença quase religiosa de que o Estado seria o agente capaz de resolver os problemas próprios da sociabilidade capitalista? Feitos tais questionamentos, é necessário ainda indagar: até que ponto a esquerda atual não se tornou apologeta do capitalismo e do Estado burguês efetivando, no plano ideal, a renovação da “nova forma de irracionalismo” marcada por sua aparência de racionalidade, conforme denunciado por Lukács? E por fim: até que ponto a direita não tem efetivado a renovação de um irracionalismo cada vez mais vulgar, explícito, reacionário e comprometido com a criação de mitos? Parece-nos possível argumentar que esquerda hegemônica atual tem nutrido proposituras de administração política de horizontes cada vez mais conservadores posicionando-se - com questionável grau de eficácia e convencimento - enquanto defensora formal da possibilidade de manutenção e “humanização”, via intervenção estatal, do modo de produção capitalista enquanto a direita tem se posicionado cada vez mais como sendo supostamente “radical” e “anti-sistema” com um discurso calcado na defesa de termos vazios como “liberdade”, “livre iniciativa” e “menos Estado” - de forma falsa e fraseológica, não há dúvidas, mas isso pouco importa diante da inconteste eficácia e capacidade de convencimento de tais ideias. Parece, ao fim e ao cabo, que as duas alternativas hegemônicas que se colocam hoje são: esquerda de horizonte conservador versus direita reacionária, irracionalismo formal e aparentemente racional versus irracionalismo explícito, vulgar e ancorado em mitos. Portanto, mais do que nunca, parece-nos crucial a defesa de uma perspectiva revolucionária de esquerda, uma perspectiva verdadeiramente comprometida com os interesses da classe trabalhadora, com a tarefa histórica de destruição do modo de produção capitalista e com a defesa da razão, em outros termos, com a decidida defesa da capacidade humana de efetivar a reta apreensão da realidade - apreensão esta, portanto, necessariamente radical ainda que do reconhecimento de seu caráter invariavelmente aproximado - pois somente apreendendo objetivamente a realidade em seus múltiplos nexos determinantes estaremos verdadeiramente habilitados a atuar conscientemente na realidade material visando alcançar os fins últimos desejados: a destruição do modo de produção capitalista e a construção ativa de uma outra forma de sociabilidade. Argumentamos, por fim, que a necessidade de renovação de uma esquerda verdadeiramente revolucionária se coloca como tarefa cada vez mais crucial porque, conforme nos alertou José Chasin em A Sucessão na Crise e a Crise na Esquerda , “quando a esquerda não rasga horizontes, nem infunde esperanças, a direita ocupa o espaço e draga perspectivas: é então que a barbárie se transforma em tragédia cotidiana” (Chasin, 1989, p. 121). E a barbárie, há muito, já se fez cotidiana. Referências CHASIN, J. A “Politicização” da totalidade: oposição e discurso econômico. Revista Temas de Ciências Humanas. São Paulo: Editorial Grijalbo, n. 2, 1977. CHASIN, J. A sucessão na Crise e a Crise na Esquerda. Ensaio 17/18. São Paulo: Editora Ensaio, 1989. LUKÁCS, G. A Destruição da Razão. São Paulo: Instituto Lukács, 2020. NETTO, J. P. Lukács e a crítica da filosofia burguesa. Lisboa: Seara Nova, 1978. PAÇO CUNHA, E.; MENDES, G. P. A.; FERREIRA, R. V. Interação e Autonomia entre Estado e Capital: Uma Análise Baseada nos Membros da Câmara Brasileira da Indústria 4.0. Administração Pública e Gestão Social , [S. l.], v. 15, n. 3, 2023. PAÇO CUNHA, E. Capacidades Estatais para Administração Política: Proposta Analítica Fundamentada na Ontologia Materialista. In: Encontro Nacional dos Programas de Pós-Graduação em Administração , 2021, Online. XLV Encontro da ANPAD. EnANPAD, 2021. [1] Professor substituto do Departamento de Ciências Administrativas da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Membro da Equipe Editorial e integrante do Núcleo de Entrevistas da Revista Barravento. E-mail para contato: rodrigovieiraferreira98@gmail.com   [2] A formulação aparece originalmente na tese de doutoramento de José Chasin intitulada “O Integralismo de Plínio Salgado: forma de regressividade no capitalismo hipertardio”, a qual seria publicada em livro no ano de 1978 pela editora Ciências Humanas. Contudo, como a tese de Chasin somente foi defendida em dezembro de 1977 e publicada em livro no ano seguinte, a formulação é efetivamente levada à público de forma pioneira através do texto “A ‘Politicização’ da totalidade: oposição e discurso econômico”, publicado no segundo semestre de 1977 na 2° edição da Revista Temas em Ciências Humanas . [3] Além dos "meios jurídicos" de administração política , o Estado burguês conta ainda com a possibilidade de acionamento de outros "meios gerais passíveis de derivação em diversos instrumentos específicos e amalgamados" tais como "medidas administrativas", "ação política" além da "ameaça ou efetivo emprego de armas" (Paço Cunha, 2021, p. 7).

  • Festa da abolição da escravatura* - Roberto Arlt

    Tradução: João Paulo Veloso Matos Roberto Arlt foi um escritor argentino vinculado às vanguardas hispano-americanas. Filho de imigrantes pobres, cresceu em uma Buenos Aires marcada pela intensa imigração e pela transformação urbana. Considerado um precursor do existencialismo e figura importante do teatro argentino [1], Arlt publicou romances, novelas, contos, crônicas e peças de teatro. Suas obras mais conhecidas, Os Sete Loucos (Los Siete Locos) e O Brinquedo Raivoso (El juguete rabioso), se destacam pelo uso do grotesco e pela abordagem de temas como humilhação, marginalidade, infâmia, traição e a vida nas cidades modernas e na sociedade burguesa As Aguafuertes Cariocas são uma série de crônicas que Arlt publicou em jornais argentinos, nas quais ele tece uma visão crítica e irônica da sociedade e do cotidiano urbano brasileiro. Em "Festa da Abolição da Escravatura" (Fiesta de la abolición de la esclavitud), Arlt, com sua perspectiva de estrangeiro, explora os contrastes sociais no Brasil e a permanência das marcas do passado escravista no Rio de Janeiro da década de 1930. Essa crônica, escrita de um ponto de vista estrangeiro, evidencia, por meio do contraste, como a história da escravidão no Brasil é banalizada. Numa perspectiva histórica, a abolição da escravatura ocorreu "ontem". O país viveu a maior parte de sua história desde a colonização sob um regime escravocrata, que durou cerca de 400 anos. Na década de 1930, a história do trabalho livre ainda era algo recente, e o Brasil permanecia permeado por relações sociais herdadas do escravismo, assim como ainda ocorre nos dias de hoje. Isso tudo está profundamente enraizado na formação da sociedade brasileira. A violência extrema era vista apenas como forma de manter a ordem, e os matizes, como diz a crônica, nos fazem ver como os maltratos da dominação do escravizado eram o mínimo a se esperar do trabalho de um capataz. Está tudo tão entranhado nessa sociedade, que o anormal, o que é considerado castigo, é agir além da frieza do ofício de capataz. Com um estilo de escrita seco, Arlt retrata uma sociedade que não resolveu os problemas gerados pelo escravismo, se recusa a criticá-los e naturaliza tais problemas através da indiferença ou até mesmo da justificativa reacionária. *** (Quarta-feira, 14 de maio de 1930) Almocei na companhia do senhor catalão a quem não nomearei por razões que vocês podem imaginar. Ele me disse: — O 14 de maio é um feriado nacional… — Ah! É mesmo? E continuei colocando azeite na salada. — Feriado da abolição da escravatura. — Entendi. E como o assunto não me interessava muito, eu dedicava, naquele momento, a minha atenção a medir a quantidade de vinagre que punha nas folhas. — Semana que vem, faz quarenta e dois anos que a escravidão foi abolida. Dei um pulo tão grande da cadeira, que metade da garrafa de vinagre foi parar na salada. — Como é? — respondi espantado. — Sim, quarenta e dois anos, sob a regência de Dona Isabel de Bragança, aconselhada por Benjamin Constant. Dona Isabel era filha de Dom Pedro II. —Quarenta e dois anos? Não é possível! — 13 de maio de 1888 menos 1930: 42 anos. — Ou seja… — Que qualquer homem negro de cinquenta anos que você encontrar hoje pelas ruas foi escravo até os 8 anos de idade; o negro de 60 anos, escravo até os 18. — Então: essas mulheres negras velhas? — Foram escravas… — Mas não é possível! Você deve estar equivocado. Não seria o ano de 1788... Veja: eu acho que está equivocado. Não é possível. — Rapaz, se não acredita em mim, olha por aí. Na associação. Assim que terminei de almoçar, me dirigi à associação e perguntei no balcão aos meninos: — Qual é o feriado de 13 de maio? — Abolição da escravidão. — Quando isso aconteceu? — Em 13 de maio de 1888. — 1888... 1888... 1930... menos 1888... não há dúvidas! 42 anos. Mas não é possível... 1888… — Amigo — disse alguém com toda naturalidade — meu pai foi capataz de escravos. Eu fiquei gelado e pálido. — Se precisa de fatos… Olho para esse homem como olharia para o filho de um carrasco da prisão de Sing-Sing; logo, me controlando rapidamente, pego em seu braço e digo: — Venha aqui, preciso falar com você. Por qual preço se vendia um escravo? — Vejamos... variavam muito os preços, dependia das localidades, estado físico e aptidões do escravo. Em São Paulo, por exemplo, um escravo custava dois contos de réis, ou seja, seiscentos pesos argentinos; em Minas, o mesmo escravo custava de 5 a 6 contos de réis. Um escravo estropiado pelos castigos, 200 pesos argentinos. Mas não é possível fixar uma tarifa exata porque o escravo não era vendido individualmente. Por exemplo: você precisava de dinheiro, juntava os seus escravos e os levava ao mercado. Leia o senhor a A escrava Isaura de Alencar, um romancista brasileiro que retratou bem a escravidão. Então. Como eu lhe dizia, levavam o escravo ao mercado e o vendiam a quem fizesse o melhor lance. Aqui, no Rio de Janeiro, o mercado de escravos ficava na rua Primeiro de Março, em frente à drogaria de Granado. Eu ouço como se estivesse sonhando. — E é verdade que os castigavam? — Sim, quando não obedeciam, com um chicote. Ora, havia fazendas onde maltratavam o escravo, mas eram poucas. (“Castigar com chicote” e “maltratar” são coisas muito distintas, quer dizer, dar vinte ou trinta chibatadas num escravo não era maltratá-lo, mas “castigá-lo”). Os matizes. À noite me encontro com o senhor catalão e lhe digo: — É verdade que castigar é uma coisa e maltratar é outra? — Claro, homem de Deus! Castigar... quer dizer, o açoite era de uso corrente em todas as fazendas para manter a ordem mais fundamental. Maltratar um escravo era, por sua vez, trocar o uso da chibata pelo de instrumentos pontiagudos, cortantes... rasgar os braços com golpes, perfurá-lo... como o senhor se dá conta, é simplesmente uma questão de matizes. — Sim... entendi... de matizes... e os donos? — Os patrões? Devia ser muito selvagem quem se incumbia de um escravo. Para que? Se para isso tinham feitores. O feitor era o capataz responsável pelos escravos, geralmente também um escravo, mas que era liberado dos trabalhos brutais para fazer seus companheiros trabalharem e castigá-los. Esse escravo era o terror dos outros. Cumpria a ordem do senhor ao pé da letra. Se lhe ordenavam dar cinquenta chibatadas a um escravo e este morria na chibatada número trinta e nove, o outro dava as onze restantes. Uma questão de princípios, amigo. A obediência absoluta. — Quer dizer que esses brancos velhos, de aspecto respeitável, que a gente encontra em carros particulares… — Foram senhores de escravos. Leia o que escreveram Alencar e Ruy Barbosa… — Mas eu fui nas livrarias e me disseram que não havia livros sobre a escravidão. — É normal. Deixa que eu consigo pra você... mas faça isso: vá a algum porto e converse com algum negro velho, desses que você viu arrumando as redes… — E essas mulheres negras velhas, tão simpáticas, as pobres? — Também foram escravas... mas vá e converse... Não me decido. E ainda não resolvi se falo com um ex-escravo. Não sei. Me dá uma sensação de terror entrar no "País do Medo e do Castigo". O que me contaram me parecem histórias de romances... Prefiro acreditar que o que escreveu Alencar, tremendo de indignação, é uma história acontecida num país de fantasia. Acho que é melhor. [1] Castagnino, R. H. (1964). El teatro de Roberto Arlt. Monografías y tesis, VI. pp.7-11 *Reedição: 25/02/2026

  • Receita para Adiar o Fim do Mundo: acabar com o modo de Produção Capitalista! E nós acadêmicos, o que temos a ver com isso?

    APRESENTAÇÃO É com imenso prazer que a Equipe Editorial da Revista Barravento anuncia a publicação de um texto de autoria da profes sora Deise Luiza da Silva Ferraz no qual a autora discute o potencial revolucionário da Extensão Universitária, ou seja, a possibilidade de realização de projetos de extensão que possam contribuir para a destruição do modo de produção capitalista. O texto agora publicado pela Revista Barravento foi inicialmente preparado pela autora para a conferência de título “Capitalismo, Colapso Ambiental e Extensão Popular” a qual foi exposta no Seminário "Ciência Tecnologia e Sociedade na Extensão Popular", realizada no CEFET-MG em novembro de 2025. Ao reivindicar o potencial revolucionário da Extensão Universitária e, por conseguinte, sua capacidade de "adiar o fim do mundo" , o texto em questão nos convida a pensar sobre como efetivamente realizar tal potencial revolucionário. A autora, que possui anos de experiência na realização de projetos de Pesquisa e Extensão junto a Rede Tra-Ma e ao Nec Tra-Ma , como é o caso de projeto com os trabalhadores do Sistema Prisional e Socioeducativo de Minas Gerais , deixa claro que a a Extensão Universitária somente pode adquirir caráter revolucionário se for popular. Assim sendo, a autora sai em defesa da chamada "Extensão Popular", a qual seria parametrizada pelo "método da Produção Compartilhada de Conhecimento", ou seja, uma Extensão Universitária que entrelace pesquisa, ensino, extensão e luta para e com a classe trabalhadora. Em suma, para antecipar um trecho do texto a seguir: "A prática institucional que chamamos de Extensão tem o potencial de ser o espaço para nós, membros da classe trabalhadora, nos educarmos em conjunto com outros trabalhadores e trabalhadoras a fim de transformar o fazer científico em uma atividade revolucionária na teoria e na prática". Reside aí, portanto, o potencial revolucionário da Extensão Popular quando comparada a outras atividades curriculares tais como Estágios obrigatórios, Iniciação Científica e Monitorias: a possibilidade de entrelaçamento entre pesquisa, ensino e extensão voltado a ação prática revolucionária por parte daqueles envolvidos no projeto diante das circunstâncias concretas estudadas e vividas. Vê-se, portanto, que a curricularização da Extensão Universitária implementada no ano de 2018 não efetiva per se - grife-se - o potencial revolucionário das atividades de Extensão. Prova disso são as atividades de Extensão que incorrem na apologia do capital e no fomento acrítico à prática empreendedora, atividades que têm sido realizadas em larga escala especialmente no campo do conhecimento ao qual a autora do trabalho que se segue está ligada: o campo da Administração - "ligação" tão somente institucional, é bom que se diga. Isso porque a autora defende, enquanto marxista de rigor, um conhecimento totalizante do real, sendo contrária, portanto, às ciências parcelares e ao restrito enquadramento da produção de conhecimento científico a um único e exclusivo campo do conhecimento. Contudo, a existência de tantos projetos de Extensão de cunho acrítico e, ao fim e ao cabo, apologetas do modo de produção capitalista não atesta o fracasso e/ou à impossibilidade de realização da Extensão Popular nos moldes aludidos pela autora, antes o contrário: deflagra a vigência da cooptação das atividades universitárias pelos interesses da classe dominante e, por conseguinte, atesta a relevância de se discutir a temática da Extensão Popular e sua implementação como forma de adiar o fim do mundo. Isso porque só se adia o fim do mundo destruindo o modo de produção capitalista. Boa leitura! Rodrigo Vieira Ferreira (Barravento) [1] [1] Professor substituto no Departamento de Ciências Administrativas da Faculdade de Administração e Ciências Contábeis da Universidade Federal de Juiz de Fora. Membro da Equipe Editorial e do Núcleo de Entrevistas da Revista Barravento. Pesquisador da Rede-TraMa. *** Receita para Adiar o Fim do Mundo: acabar com o modo de Produção Capitalista! E nós acadêmicos, o que temos a ver com isso? [i] Por Deise Luiza da Silva Ferraz [ii] Hodiernamente, é comum dizer que o fim do mundo está mais próximo do que o fim do capitalismo. Querem nos ensinar que é impossível mudar o modo de produção capitalista, porém sabendo: i) que a partir da lei geral das trocas de mercadorias se estabelece uma tendência geral de queda da taxa de lucros, a qual a classe capitalista responde com medidas contrarestantes visando frear tal lei tendencial da produção capitalista: ii) essas medidas passam pelo aumento da produtividade do trabalho mediado pelo desenvolvimento tecnológico subsumido às necessidades da valorização; iii) desenvolvimento que repõe as relações de propriedade privada, onde de um lado temos uma classe que tem a propriedade dos meios de produção e dos meios de subsistência e, de outro, temos uma classe de despossuídos que se encontram numa posição na qual necessariamente sua capacidade de trabalho precisa assumir a forma de mercadoria força de trabalho; iv) necessidade que revela - ainda que não imediatamente - à classe trabalhadora que, para mudar o existente de modo radical, é necessária uma luta intencional para a superação do capitalismo. Uma luta que não se restrinja a adiar o fim do mundo e sim dar fim às condições concretas que fazem do fim do mundo uma realidade cotidiana. Tendo em mente essa necessidade histórica, pretendo provocá-los e provocá-las a pensar sobre a Extensão Popular como uma ferramenta nesta luta, sobretudo sobre os desafios que se colocam para nós extensionistas. Para isso vou seguir três linhas de raciocínio:  A primeira visa falar do imediato, falar do porquê é mais fácil pensar no fim do mundo do que no fim do capitalismo. Na segunda linha, colocar elementos que permitam pensar como, subjetivamente, é difícil imaginar o fim do capitalismo e, face a essa dificuldade, pensar como as formas cotidianas e tradicionais de viver aparecem como uma forma de resistência. Na terceira linha vou provocá-los e provocá-las a pensar sobre o papel dos extensionistas e dos pesquisadores e pesquisadoras para se produzir um conhecimento que seja alavanca para se pensar no fim do capitalismo. A extensão é uma atividade laboral exigida do corpo docente e discente no país e fazer dessa exigência um instrumento na luta de classe pode vir a ser uma resposta às ofensivas da classe capitalista. Nesse sentido, problematizar a disputa da Extensão para que ela se converta em uma ferramenta da classe trabalhadora e para a luta da classe trabalhadora é urgente, pois a classe capitalista há muito entendeu o potencial da Extensão tanto que, se antes ela era uma atividade “supérflua” para a carreira universitária e servia, em geral, para aumentar a renda de docentes e discentes via igualação da Extensão aos serviços de consultorias, hodiernamente, a Extensão se tornou carga obrigatória nos currículos escolares, atividade fomentada por editais públicos e critério de avaliação dos programas de pós-graduação conforme seus impactos sociais. Evidente que a régua para medir o que são esses impactos segue a métrica da criação de oportunidades para a expansão do capital, demonstrando que a Extensão é uma ferramenta que se constitui nas disputas sobre sua finalidade: da Extensão mercadológica à Extensão Popular, passando pela conhecida Extensão Filantrópica. As disputas sobre a finalidade das atividades extensionistas determinam sua potência enquanto ferramenta para a classe trabalhadora avançar na luta, mas também, a potencialidade de servir a contraofensiva do capital. Deste modo, é nesse momento em que a denúncia das mazelas vividas pela classe trabalhadora devido à exploração desmedida da natureza se manifesta como morte anunciada do mundo, que tomar a Extensão como nossa ferramenta para pensar e agir no sentido de não mais adiar o fim do capitalismo é a forma de atuarmos para adiar o fim do mundo. Agir para o fim do modo de produção capitalista é tarefa histórica para que se adie o fim do mundo, contudo, por que é mais fácil pensar no fim do mundo do que pensar no fim do capitalismo? Essa semana mesmo, Bill Gates, um capitalista entusiasta da “economia verde”, decretou que a crise ambiental não iria extinguir a humanidade, porque a ciência sempre pode produzir respostas aos colapsos ambientais. Contudo, se olharmos de perto, vamos observar que as respostas que a ciência tem produzido freiam as quedas das taxas de lucro e abrem outros campos para a exploração capitalista - inclusive a chamada economia verde -, mas sem frear o movimento de exploração da natureza e da classe trabalhadora. E nós, trabalhadores e trabalhadoras, sentimos os efeitos dessa intensificação capitalista da exploração.  E sentimos diariamente e de diferentes modos: Sentimos quando olhamos para o céu no final da jornada de trabalho para avaliar se no caminho de casa não seremos atropelados pelas enxurradas dos finais de tarde em Belo Horizonte, cidade que se ergueu canalizando seus rios e cobrindo-os com asfalto. Sentimos quando relembramos no dia 05 de novembro de 2025 os dez anos do crime do rompimento da barragem de Fundão que destruiu toda uma comunidade, a comunidade de Bento Rodrigues, matou 19 pessoas e deixou um rastro de destruição ambiental irreparável.  Sentimos quando presenciamos, só no Brasil, mais de 700 mil mortes por Covid-19 - um vírus que, como sabemos, se desenvolveu a partir das condições em que os animais são produzidos para se tornarem mercadoria. Sentimos quando - e aí falo como uma sul-rio-grandense - casas são tomadas pela água que cobriu uma parte significativa de um estado inteiro por meses. Milhares de pessoas recorreram aos abrigos precários e reaprenderam a viver sem energia elétrica, sem água potável e sem internet. Esses poucos exemplos já nos dizem porque, para nós trabalhadores e trabalhadoras, pensar no fim do mundo é mais fácil do que pensar no fim do capitalismo - e nem entro no fim do mundo expresso a partir das práticas de guerra e genocídio, como os da faixa de gaza; ou ainda, nem menciono o fim do mundo que chega quando ocorrem chacinas como a que deixou 121 mortos no RJ. Como diria a minha saudosa avó: realmente, é o fim do mundo!  O nosso mundo imediato acaba todo dia um pouco, mas ele acaba no mesmo movimento que faz todo dia crescer a conta bancária dos capitalistas, sobretudo dos transnacionais. Frente a isso, é fácil dizer, tal como o tio Bill, que a crise ambiental não vai acabar com a humanidade, porque no horizonte médio da classe capitalista, a humanidade pode ser resumida ao seu extrato bancário.  Os desdobramentos nefastos da exploração capitalista se materializam em processo de adoecimento de trabalhadores e trabalhadoras, nos crimes ambientais que destroem moradias e comunidades, na violência crescente da ação do estado e de grupos organizados em torno do que podemos chamar de indústria ilegal - tal como a guerra às drogas, por exemplo -, nas diferentes formas de opressão que violentam e matam quem supostamente é julgado como ameaça por ser diferente. Porém, na nossa consciência imediata de classe, esses desdobramentos não são apreendidos como um produto da exploração de humanos e não-humanos por uma classe cujo interesse necessário é acumulação segundo uma reprodução ampliada do capital. Muito pelo contrário, apreendemos tais desdobramentos como o fim do mundo e, enquanto ele não chega de fato para todo mundo, o capitalismo até parece produzir algumas vantagens para a classe trabalhadora. Nossa?! Quem aqui imagina como seria viver sem redes sociais? Como seria a vida sem poder desopilar jogando videogame ou vendo uma partida de futebol no domingo? O fim da jornada 6X1, que é uma luta urgente e necessária, reivindica justamente um tempo a mais para a classe trabalhadora poder usufruir das mercadorias produzidas pela própria classe trabalhadora e compradas em 12 vezes no carnê das Casas Bahia. E na nossa consciência imediata, não haveria internet, celular, videogame se não fosse a classe capitalista, se não vivêssemos no capitalismo. A reprodução das nossas vidas mediadas pela forma mercadoria faz com que seja produzida uma forma de subjetividade, uma consciência, que no limite, só quer é ter acesso a essas mercadorias e superar o modo de produzi-las aparece como um contrassenso às possibilidades de usufruir da vida. Nosso modo de viver, nossa prática e nossas ideias - nossos elementos culturais, nossas crenças, nossa ciência, em suma, o conjunto de ideias que expressa a nossa forma de conhecer o mundo - emana diretamente das relações que traçamos e, enquanto relações determinantes, temos a relação em que o trabalho está subsumido ao capital. E aí, a indústria cinematográfica, a indústria fonográfica, a indústria dos influenciadores digitais, a indústria da fé e inclusive a ciência burguesa, em especial as ditas ciências sociais e humanas, são mediações necessárias que reforçam nosso apego sentimental aos modos de viver mediados pelo consumo de mercadorias. Ao estarmos subjetivamente apegadas e apegados aos nossos modos de viver como sendo a forma possível de usufruir do mundo, fica mais fácil para a classe capitalista tornar a necessidade histórica do fim do capitalismo uma impossibilidade. Porém, diferente do que imaginava Hegel, o racional não é real, nem o real é racional. O real da sociedade de classes é contraditório. Assim, a forma como estamos no mundo pode também ser resistência e sua potencialidade de vir a compor uma luta emancipatória depende do grau de sua radicalidade. Agora, nossas resistências também produzem a contraofensiva do capital, de modo que cooptar aqueles que resistem é tarefa da classe capitalista. Na maioria das vezes, essa tarefa é realizada pela mediação do Estado via suas diferentes instituições, como as universidades, por exemplo; mas também, pelos aparelhos empresariais tais como seus empreendimentos que tomam a forma de fundações, institutos e associações e que ora ou outra apresentam, por exemplo, suas propostas de iluminar à educação da classe trabalhadora com uma “Led na Educação”. Disputar nossas resistências e cooptá-las antes que elas sejam por nós transformadas em luta emancipatória é uma necessidade da classe capitalista. Vale registrar que a forma de estarmos no mundo e o conjunto de saberes sobre as relações sociais que travamos estão postos para todos os despossuídos que compõem, de forma mediada ou imediata, a classe trabalhadora. Friso isso porque é preciso destacar que quando digo classe trabalhadora, de modo algum, me refiro a um grupo homogêneo que vem ao nosso imaginário sendo homem, cis, branco, hétero e de macacão marrom e capacete.  A classe trabalhadora é diversa. Em sua maioria, as pessoas que a compõem se reproduzem apenas por meio da venda de sua força de trabalho - e aqui não se exige que essa venda tenha uma carteira de trabalho. Se para se reproduzir precisas - ou alguém de teu grupo imediato, vulgo família - vender tua capacidade de trabalho, sinto informar, és membro da classe trabalhadora. O nosso gênero, nossa cor, nossa sexualidade são elementos que historicamente determinam as possibilidades da venda; mas não eliminam a necessidade dela. Porém, a classe trabalhadora é diversa em outro sentido. Ela é composta, também, por aqueles grupos que conhecemos como grupos tradicionais e/ou originários, no estado de Minas Gerais, as comunidades quilombolas e indígenas, por exemplo.  Comunidades que têm seus costumes e que reproduzem suas vidas, concomitantemente, em maior ou menor grau, por meio do resultado direto de seus trabalhos e por meio de mercadorias adquiridas no mercado. Tal concomitância só é possível porque ainda possuem uma relação de posse da terra - esse meio de produção essencial para a produção dos meios mais básicos de subsistência. Eis porque a demarcação dos territórios é fundamental para a continuidade da resistência dessas comunidades, que resistem não porque estão apartadas do modo de produção capitalista, mas porque estão formalmente subsumidas a ele. Porém, essa posse nem sempre é suficiente para garantir a reprodução dos grupos, não sendo raro encontrar - em especial entre os quilombolas e pequenos agrupamentos campesinos -, indivíduos que vendem sua força de trabalho como forma de garantir o acesso desses grupos às mercadorias necessárias à reprodução da vida. A reprodução dos costumes, da cultura e das crenças que compõem o conjunto do conhecimento dessas comunidades é a expressão de uma resistência que tenta frear a transformação de uma subsunção formal a uma subsunção real. Tal como para as “comunidades não-tradicionais” - mas que possuem suas tradições - que compõem a classe trabalhadora, ou seja, as comunidades do morro, do bairro, os sindicalizados, os não sindicalizados… que quando resistem precisam estar vigilantes para que suas bandeiras não sejam transformadas em lema de inclusão pró-capital; a resistência das comunidades tradicionais também está em disputa. E novamente, nessa disputa, a classe capitalista lança mão de atividades mediadoras, lança mão de suas fundações e das instituições do Estado, inclusive, valendo-se das Universidades, Institutos, Cefets e da famosa indissociabilidade entre ensino-pesquisa-extensão.  Como já dito, nas sociedades de classe, o real é contraditório e nossa forma de estar no mundo, nossa forma de produzir conhecimento científico e expandi-lo para além dos muros das Universidades, Institutos, Cefets e Colégios de Aplicação não é somente consentimento ao capital, é também resistência. Porém, como para o restante da classe trabalhadora, para nós também vale a máxima: resistir apenas não basta. É preciso também enfrentar! Isso está posto para todo e qualquer grupo que é expressão da diversidade na unidade da classe. No que diz respeito ao campo científico, o desenvolvimento das forças produtivas aprofundou a divisão técnica do trabalho e a tarefa de produzir ciência, que há 300 anos era realizada pelos membros da classe dominante, hoje é tarefa dos membros da classe trabalhadora. As Universidades, os Institutos, os Cefets, os Colégios de Aplicação são formados por trabalhadores e trabalhadoras. Somos docentes-pesquisadores/as, somos técnicos/as administrativos/as, somos trabalhadores e trabalhadoras em formação. E no processo de produzir conhecimento para o capital, somos também treinados na habilidade de produzir conhecimento em geral. É aqui que quero problematizar o nosso papel na Extensão Popular. Quando digo Extensão Popular, me posiciono no lugar da disputa por essa ferramenta institucional. Uma ferramenta que se constitui no próprio processo de luta. A Extensão ao ser qualificada como Popular indica a existência de um movimento de resistência e enfrentamento no interior do campo científico que sabe que essa prática institucionalizada não pode servir ao capital; não pode ser mitigadora pontual dos problemas gerados pelo processo de valorização do valor. A Extensão Popular tem potencial e precisa ser uma ferramenta que sirva de alavanca para transformar resistência em enfrentamento e luta. A Extensão Popular pode ser um elemento que nos auxilia na produção de conhecimento e práticas rumo à emancipação das classes e superação de todas as formas de opressão. Para que a extensão popular seja uma ferramenta de resistência e luta, nós extensionistas - sejamos docentes ou discentes -, precisamos ser vigilantes e não praticar a militância ingênua que assume a dualidade entre os/as intelectuais e os demais membros da classe. Para explicar o que estou querendo alertar, vou recorrer ao vivenciado nas atividades de Extensão-Pesquisa que desenvolvo há mais de 15 anos. Atualmente, a Rede-TraMa, rede nacional de grupos de pesquisa da qual faço parte e, mais especificamente, o Nec-TraMa, grupo de pesquisa da UFMG que coordeno, utiliza para a realização de suas pesquisas o que é chamado de método da Produção Compartilhada de Conhecimento, um método que tem origem nas experiências do Movimento Operário Italiano e na luta sanitarista de meados do século XX. Sua principal referência é o Odone e na América Latina, no campo da saúde, Asa Cristina Laurell e sua equipe da escola de Xochimilco no México. Esse método, para nós, é também uma técnica. É uma técnica que proporciona mecanismo de intervenção militante na realidade. É um método porque, das experiências vivenciadas na intervenção, se produz conhecimento com e para a classe trabalhadora. Enquanto técnica, é possível, por meio da institucionalidade da extensão, montar grupos de trabalho nas comunidades pesquisadas. Em nossa prática, já tivemos grupos de trabalho formados com trabalhadores e trabalhadoras da reciclagem, com trabalhadores e trabalhadoras do MST, com trabalhadores e trabalhadoras do MTD, com trabalhadores e trabalhadoras da siderurgia, do sistema prisional e da mineração. Ademais, para nós, a comunidade são todos aqueles grupos atingidos pelo problema no qual estamos intervindo juntos e juntas. Por exemplo, na pesquisa sobre os desdobramentos da mineração para a saúde da classe trabalhadora em MG, não só os empregados e terceirizados das mineradoras são a comunidade, mas também toda a população que reproduz sua existência no ambiente de operação das empresas mineradoras. Mas, com um detalhe, os grupos de trabalho são compostos por aqueles e aquelas que resistem em maior ou menor medida à forma exploratória do capital sobre a classe trabalhadora e sobre a natureza e pelos trabalhadores e trabalhadoras da ciência - docentes, técnicos administrativos e discentes. Esses grupos de trabalho são denominados no âmbito da Produção Compartilhada de Conhecimento como Comunidade Científica Ampliada. Na nossa técnica extensionista e de pesquisa, não há espaços na Comunidade Científica Ampliada para representantes de empresas ou do Estado (não desconsideramos que, em geral, esses representantes são também classe trabalhadora, a questão aqui não é o indivíduo, mas sua persona, a máscara econômica que ele representa). Na Produção Compartilhada do Conhecimento, não se assumem as propostas de outros métodos de pesquisa-extensão, tais como a Pesquisa-Ação, que advogam, buscando uma tal neutralidade, a incorporação dos diferentes agentes representantes de diferentes interesses, isso porque para nós, essa neutralidade é impossível, pois não se trata apenas de interesses diferentes, mas de interesses contraditórios. Isso lhes soa antidemocrático? Cuidado! Não podemos esquecer que democracia em abstrato é dominação! Representantes da classe capitalista não tomam parte nos grupos de trabalho porque estes são espaços para a classe trabalhadora produzir informações necessárias à resistência da classe trabalhadora. Ter “cota” para o capital nesses espaços é ingenuamente ceder à contraofensiva da classe que nos explora.  A defesa de espaços “democráticos” de construção discursiva ao gosto da ação comunicativa é uma ingenuidade que a Extensão Popular não pode ter. Consensos sobre a relação contraditória capital-trabalho apenas repõem as condições necessárias à exploração, isso porque “democratiza” os saberes que são mecanismos de nossa resistência. Porém, como dito anteriormente, no interior da classe trabalhadora, a partir do nosso modo de estar no mundo, temos uma consciência apegada ao modo de viver sob o capital e o que conhecemos das relações sociais é uma apreensão imediata destas relações. Deste modo, mesmo tendo os grupos de trabalho compostos por lutadores e lutadoras da classe trabalhadora, um obstáculo precisa ser transposto quando queremos transformar as informações coletadas em conhecimento voltado para a emancipação das classes: as consciências individuais. Esse obstáculo tem duplo aspecto. Por um lado, sua base é afetiva, por outro, ele é fruto de uma habilidade intelectual de abstração pouco desenvolvida, dificultando que a força de abstração sirva ao conhecimento do real. Em geral, o primeiro aspecto, inclusive, é a base para rechaçar o desenvolvimento da capacidade de abstração. Aqui entra a necessidade da vigilância constante daqueles e daquelas que, devido à divisão técnica do trabalho, têm suas capacidades físicas e psíquicas consumidas no campo da produção da ciência, em resumo, nós pesquisadores e pesquisadoras formados ou em formação. Porque quando chega o momento de a atividade de extensão transformar as informações compartilhadas e coletadas pelas Comunidades Científicas Ampliadas em conhecimento que sirva a luta de classes, a forma de conhecimento imediata produzida afetivamente ao longo da vida de cada participante sobre como responder aos problemas enfrentados choca-se com a necessidade de apreender esse modo particular de viver como sendo mera expressão de um movimento totalizante.  Na sociabilidade capitalista, nós nos reproduzimos mediados pela troca, nossos vínculos são de uma dependência recíproca, mas indiferente. E na produção dessa individualidade racionalmente egoísta, a tendência é que a minha particularidade - e a da minha comunidade - expresse a verdade do todo, na concepção imediata, o modo de ser e perceber as relações sociais do meu grupo, da minha comunidade, não é um “mero” momento do todo. A minha particularidade não é tomada, imediatamente, pela consciência, como um aspecto diverso de uma unidade. Unidade que é produzida pela determinação do processo de valorização do valor. Por isso, em nossos projetos de extensão e produção de conhecimento, corremos o risco de assumir o saber imediato sobre a forma pelas quais as comunidades se reproduzem como um obstáculo para a produção de um conhecimento emancipatório. E a afirmação de um modo de vida que é produto da negação das condições necessárias para um desenvolvimento pleno da humanidade se torna a forma de resistir a essas condições. Nos defrontamos, então, com a criatura reafirmando seu criador. E o tamanho desse obstáculo pode ser mensurado pelo grau de afetividade que existe nas formas pelas quais apreendemos o mundo.  No que tange a relação dos colapsos ambientais frutos da exploração capitalista da natureza, por exemplo, em minha experiência extensionista, já vivenciei a resistência ao avanço do capital sobre os territórios de comunidades ter como denúncia acertada a crítica ao modo como o ser humano se relaciona com a natureza sob o imperativo da geração do lucro, mas como solução não se encontra a superação das condições que produzem o lucro, mas a alteração ética da relação humano-natureza pela antropomorfização do natural, ou seja, resgatando explicações ancestrais tais como a de que a natureza é parte de nossa família. Aí, com todo o respeito, eu me pergunto, para nós mulheres que somos exploradas e oprimidas para que se realizem os interesses do capital, basta ser da família para garantir o fim da exploração? Trata-se de uma pergunta retórica, pois, como aponta a tese de Marília Souza e vários outros estudos, a maior parte da violência contra a mulher e meninas é realizada por companheiros, pais e tios, ou seja, por membros da família. Se ser reconhecido como membro da família não garante a segurança e a vida das mulheres, presume-se que tampouco reconhecer rios, montanhas, mares como sendo da família daria fim à exploração desmedida da natureza. Porém, no imaginário generalista e imediato, família é afeto positivo idealizado e, deste modo, tal solução é palatável para toda pessoa que se indigna face ao que se julga injustiça. Assim as soluções que possuem apego afetivo e incluem crítica a racionalidade científica dita ocidental dificultam o processo de apreender o limite das soluções que brotam da imediaticidade do real - seja ele pautado num presente próximo ou na ancestralidade -, pois apreendê-lo exige, por um lado, um rompimento afetivo com nossas crenças e saberes imediatos e por outro, superar o modo racional de produzir a ciência burguesa. Ao que diz respeito ao rompimento afetivo com nosso saber imediato (tradições, costumes, crenças, opiniões) frisa-se: ignorar a necessidade do rompimento visando evitar dilemas e conflitos pessoais é uma ingenuidade que a Extensão Popular não pode se dar ao luxo. Onde houver Extensão Popular, existirá a produção de dilemas pessoais e conflitos interpessoais, pois não se criam práticas revolucionárias dentro de posições que nos foram ensinadas como confortáveis pelo capital. A tarefa de todos e todas na Comunidade Científica Ampliada não é evitar os dilemas e conflitos pessoais, mas encontrar os meios de superá-los. Para que se rompa com as soluções imediatistas, outra tarefa que cabe aos membros da Comunidade Científica Ampliada na Extensão Popular é a criação de espaços para o desenvolvimento da capacidade de abstração. Num primeiro momento, poderia dizer que se existe um lugar ímpar dentro da divisão técnica do trabalho para o desenvolvimento dessa capacidade, é justamente no extrato da classe trabalhadora que se ocupa do fazer científico. Porém, como dito anteriormente, esse fazer científico também responde às necessidades da valorização e, no campo das ciências sociais e humanas, atender a tais necessidades significa produzir um conhecimento que abstraía, pero no tanto. Prova disso é a estruturação do conhecimento em disciplinas. E assim, como pesquisadores e pesquisadoras, somos educados a recortar o objeto pesquisado, mas não somos educados para investigar os nexos determinantes que mantêm a ligação real entre os recortes artificiais que realizamos. Isso porque, apreender essas determinações é produzir um conhecimento que expõe a raiz dos problemas e, não somos pagos para isso. Pelo contrário, comprar nossa força de trabalho só tem valor de uso para o capital se produzirmos um conhecimento que até fale da raiz, mas sem demonstrar o que é a raiz. E, por isso, o desenvolvimento de nossa capacidade analítica só pode alçar o voo da generalização amostral ou da categorização de sentidos. Até podemos, dentro dos limites do cardápio epistemológico da ciência moderna ou pós-moderna, descrever os modos de viver e resistir de um grupo particular da classe trabalhadora, mas jamais expô-lo como produto particular do movimento de universalização do capital; porque fazer isso seria contribuir para o entendimento da necessidade histórica desses sujeitos particulares se constituírem como sujeitos históricos na luta de classe. Então, a questão que se coloca para nós acadêmicos - docentes e discentes - membros da classe trabalhadora é: até quando nos manteremos presos e presas às amarras da ciência necessária ao capital? Romper com essas amarras, tal como posto para os demais grupos da classe trabalhadora, também exige que rompamos com o modo que aprendemos a ser acadêmicos e acadêmicas. Um modo que nos aparta do ser da nossa classe. A divisão técnica do trabalho exige uma qualificação da nossa força de trabalho que até, em certa medida, garante um salário que corresponde ao necessário para a manutenção dessa qualificação, mas como já dizia Marx, um salário maior não significa deixar de ser trabalhador e trabalhadora assalariado. E, aí, um segundo aspecto da extensão ingênua precisa ser rompido: a suposta superioridade do intelectual garantido pelo fazer científico que tanto aterroriza os extensionistas que acreditam que praticar o exercício da abstração é oprimir os não acadêmicos. Na ânsia de não serem frutos de uma educação não libertadora, isto é, na ânsia de não serem o oprimido que se torna opressor apenas por ter ascendido ao ensino superior, negam o que essa divisão técnica do trabalho pode nos permitir: produzir um saber que apreende o real para além de sua aparência. Ademais, digo suposta, porque basta terminar a bolsa ou o desemprego bater, que as bases da superioridade científica começam a ruir, provando que, no atual momento do estágio do desenvolvimento das forças produtivas - talvez nem se possa restringir apenas ao tempo atual -, a superioridade de ninguém se garante pelo seu quantum de “capital intelectual”. Afinal, vivemos num tempo em que a ciência tem sua legitimidade social sobre a produção da verdade abalada. Presenciamos o crescimento desmedido do rechaço ao saber científico. E assumir que nos contrapomos a esse rechaço apenas limitando o produto do fazer científico aos saberes locais e às crenças dogmáticas gerais é uma resposta ingênua da classe trabalhadora à contraofensiva da classe capitalista que fez do irracionalismo seu porta estandarte científico que abriu alas para o recrudescer dos ataques ideológicos postos em marcha pelas diferentes indústrias culturais e da fé. Não será abrindo mão do potencial de produzir conhecimento que expresse a universalização do movimento do capital que produz uma diversidade de particularidades nefastas para a classe trabalhadora que iremos colaborar para mudar o que nos foi dito ser impossível de mudar. O desafio que se coloca para nós trabalhadores e trabalhadoras da ciência que tem na prática extensionista sua forma de estar junto na luta não é saber equilibrar o saber local com o saber científico; é conseguir criar condições em que se supere inclusive o modo tradicional de fazer ciência. É necessário romper com a primazia do subjetivismo na ciência - caráter este presente tanto no que se chama de ciência moderna quanto no que se chama de ciência pós-moderna e que, em última instância, são apenas dois modos de ser da ciência burguesa. É necessário superar a ciência burguesa e não a prática científica, pois, como já colocava Marx, a ciência só seria desnecessária se aparência e essência coincidissem.  Como aparência e essência não coincidem e, no capitalismo, a segunda tem na primeira sua expressão fetichizada, a ciência radical é a ciência necessária à classe trabalhadora. Eis porque uma tarefa que se coloca aos trabalhadores e trabalhadoras da ciência na Comunidade Científica Ampliada é criar espaços em que todos e todas que se colocam em luta consigam desenvolver a capacidade intelectiva da abstração, espaços em que consigam, em suma, entender como sua particularidade é produto de um movimento que se universaliza e que essa sua particularidade se conecta com outras particularidades sociais e naturais de modo que a reciprocidade dessas conexões reproduzem as condições exploratórias de uns seres humanos sobre outros seres humanos e sobre não-humanos. Condições exploratórias que necessariamente precisam ocorrer e se intensificar em nome da reprodução do parasitismo de uma classe que não vê o mundo se acabando todo dia porque não precisa “subir o morro depois de 12 horas de trabalho antes da chuva chegar”. Para nossa classe, o mundo acaba um pouco todos os dias e todo dia acaba um pouco. Por assim ser, temos que colocar a Extensão a serviço da classe trabalhadora, disputá-la e torná-la uma ferramenta para a produção de uma prática militante emancipatória que se efetiva no mesmo processo de produção de conhecimento emancipatório. Esse é o sentido de não existir movimento revolucionário sem teoria revolucionária e não existir teoria revolucionária sem a prática revolucionária. A prática institucional que chamamos de Extensão tem o potencial de ser o espaço para nós, membros da classe trabalhadora, nos educarmos em conjunto com outros trabalhadores e trabalhadoras a fim de transformar o fazer científico em uma atividade revolucionária na teoria e na prática.  Como todo dia o mundo acaba um pouco para a classe trabalhadora e o canto do trabalhador segue apenas soando como um soluçar de dor, nossa prática de trabalhadores e trabalhadoras do fazer científico necessita ser uma prática diária que visa revolucionar o modo de produção que torna o fim do mundo a possibilidade possível. Não há mais como adiar, o fim do mundo está acontecendo e a forma de nos salvarmos é dar fim ao que o produz. O fim do capitalismo é nossa tarefa de classe desde que nos tornamos classe e, como membros da classe trabalhadora, podemos lutar com as ferramentas à disposição. A extensão é uma delas! Tomemo-la e transformamo-la em Extensão que sirva à emancipação das classes, ou seja, sejamos trabalhadores e trabalhadoras da ciência unidos e unidas aos trabalhadores e às trabalhadoras do mundo!  Notas [i] Este texto foi produzido para a conferência “Capitalismo e Colapso Ambiental e Extensão Popular” proferida no Seminário Ciência Tecnologia e Sociedade na Extensão Popular, realizada no CEFET-MG de 05 a 07 de novembro de 2025. Na ocasião o debate foi antecedido por uma fala de abertura em memória a Professora Vera Cotrim. Fala reproduzida nesta nota: “Boa tarde a todos, a todas e a todes. Antes de falar sobre o tema que nos traz aqui hoje, eu quero fazer um agradecimento pessoal em público. E peço uns poucos minutos para contextualizar esse meu agradecimento. Eu sou do RS, mudei para Minas Gerais em função do concurso público na UFMG em 2012. Desde então, tenho uma relação com o CEFET, tanto acadêmica quanto pessoal. Essa não é minha primeira participação no Seminário. E me sinto lisonjeada cada vez que o convite chega. Em 2019, eu fui convidada para fazer uma mesa no Evento. Uma professora nova no Cefets, mas conhecida no meio acadêmico seria a mediadora e, na semana do evento, me enviou um e-mail perguntando como eu gostaria de ser apresentada. Respondi como geralmente respondo a essa pergunta: Pode dizer que estou Professora de Administração na FACE/UFMG, e que sou marxista, feminista e militante sindical. Ela me respondeu: serei fiel às tuas palavras. Ao chegar ao CEFET naquele dia, eu me perdi, não achava a sala e ainda estava chovendo. Entre segurar a sombrinha e mandar mensagens para a organização do evento, foram minutos de atraso. Lembro muito bem do momento em que eu consegui localizar o corredor em que seria a atividade. Lembro porque prontamente uma mulher desconhecida abriu os braços e veio em minha direção com um enorme sorriso e me deu um forte abraço. Foi um gesto que me tocou profundamente e depois desse dia, nós estabelecemos parcerias acadêmicas e uma grande amizade. Sua alegria contagiante, sua indignação contra a exploração e as opressões e sua intelectualidade preenchiam horas de conversas e confidências. Pela influência dela, iniciei meu curso de filosofia na UFMG e no último encontro que tive com ela em julho passado, ela compartilhou o projeto que tinha de um novo livro que envolvia a filosofia. E, nesta semana, estaríamos comemorando o aniversário dela. Por isso, eu não teria como começar minha fala, e espero que todos e todas me compreendam, sem deixar público meus mais profundos agradecimentos por tudo que essa mulher me ensinou, nos ensinou. E quem foi aluno e aluna da Professora Vera Cotrim entende do que estou falando, porque se havia algo que a motivava na vida acadêmica, era ver os olhos de vocês indagando o mundo e compartilhar com vocês a mesma vontade de mudar o mundo. Espero que todos e todas tenham sempre na lembrança esse ensinamento dela: nada é impossível de mudar e por isso, não é impossível superar o capital e todas as formas de opressão que ele engendra. Vera Cotrim, Presente!” [ii] Professora no Departamento de Ciências Administrativas da Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade Federal de Minas Gerais. Feminista, Marxista e Militante Sindical. Pesquisadora da Rede-TraMa.

  • Notas sobre o desencadeamento político global no ano de 2025

    Fonte: Human Rights Watch Em um ano de acirramento das contradições típicas da sociabilidade do capital, a extrema-direita, além de consolidar o espaço conquistado na última década, busca expandir sua hegemonia na correlação de forças mundial, arregimentando as frustrações da classe trabalhadora e, mais do que isso, intenta se colocar como gestora das sucessivas crises não solucionadas pelas políticas esgotadas do reformismo, hoje expresso principalmente pelo campo progressista internacional. Israel, o genocídio Palestino e a criminalização do combate ao antissionismo e o antifascismo. O ano de 2025 foi marcado pela vergonhosa censura politico-midiática mundialmente articulada pelos países centrais do capitalismo global e rapidamente assimilados pelas burguesias nacionais ao redor do mundo, mascarando  através dos meios de comunicação hegemônicos o genocídio palestino como um conflito entre iguais, como a guerra entre a civilidade (Israel) e o monstro do “terrorismo” (palestinos). O maniqueísmo típico dos mascaramentos ideológicos abstratos de um capitalismo em deterioração buscou na desculpa de ver o Hamas em todos os lugares, o pretexto para que o governo fascista de Israel destruísse mais de 90% dos edifícios de Gaza e assassinasse mais de 60 mil palestinos segundo a Organização Mundial da saúde (OMS). A instrumentalização da pauta do antissemitismo como forma de normalizar o sionismo replicou (aos moldes da análise marxiana), “primeiro como tragédia e depois como farsa”, um dos mascaramentos mais cruéis e bárbaros vistos na história recente das “civilizadas” democracias liberais. Benjamin Netanyahu, que não pode mais se reeleger para o cargo de primeiro-ministro, fez o “trabalho sujo” para a extrema-direita israelense em conluio com os governos dos EUA (tanto Biden quanto Trump).  O apartheid praticado por Israel soterrou os anseios idealistas, ainda que bem intencionados, dos que sonhavam com uma solução de dois Estados, evidenciando que enquanto existir o Estado sionista de Israel, não haverá paz para o povo palestino e para a classe trabalhadora do chamado Oriente Médio. Tampouco haverá paz para a classe trabalhadora mundial, visto que a forma militarista de autoimposição do governo sionista nos levou a possibilidade de escalada de conflitos entre os blocos hegemônicos do capital. Para além do contexto regional e apesar das cenas de um genocídio mundialmente assistido — escorrendo pelos dedos da mão de ferro dos algoritmos cenas da barbárie através de canais independentes —, o consenso dos grandes oligopólios de mídia em censurar as expressões de apoio para a causa palestina (além da reiterada e explícita repressão policial, com detenções às manifestações físicas e de ativistas internacionais), evidência o caráter privado das redes, controladas de maneira impessoal, mas muito bem direcionadas, via algoritmos que normalmente não têm seus parâmetros claros ao público. Temos aí uma contradição importante dessa era digital, que se expressa na medida em que a insatisfação da classe cresce mundialmente. Quando esta mesma classe se alinha à esquerda e busca se valer da velocidade da divulgação para expor as barbáries cometidas pelos capitalistas ao redor do globo, numa tentativa desesperada de circular imagens de um mundo em colapso, cresce também, na mesma velocidade, o controle e o mascaramento perpetrado pelos reais detentores desse espaço supostamente democrático chamado internet. A cooptação do ressentimento das massas, as redes sociais como potencializadoras da barbárie e a brutalização dos vínculos pessoais. Enquanto manifestações de apoio a causa palestina e de rechaço ao genocídio cometido por Israel são censurados, as mesmas redes sociais são ambiente para a difusão de discursos de ódio misóginos. Não podemos esquecer que no Brasil em 2025 o machismo e a misoginia fizeram com que homens matassem cerca de 1000 mulheres  segundo o Ministério da justiça e Segurança Pública. O atual patamar da violência de gênero no Brasil evidencia a crise do capital, a falta de um bloco histórico revolucionário solidificado e o esgotamento da gestão burguesa progressista de suas próprias contradições, penetrando em todos os poros da sociabilidade.  Avanços, marcos legais e culturais que antes eram tidos como inabaláveis, advindo de ciclos de lutas históricos que culminaram em avanços instrumentalizados pelo progressismo (gênero, racial e afins), já não são suficientes para apaziguar a insatisfação advinda dos e das trabalhadoras. Neste aspecto temos uma contradição gritante e consequentemente uma tática da direita e até mesmo de alguns setores de esquerda para lidar com tal contradição. Esta se exprime no fato de que, tais marcos culturais e legais, advindos da política econômica de crescimento dos primeiros anos do governo petista, ao se consolidarem como conquistas no âmbito do Estado, nos legando avanços culturais e leis como políticas de estado para a formalização do combate às opressões (política de cotas, reconhecimento do racismo como crime de injúria racial, lei maria da penha e demais políticas buscando solucionar a desigualdades de gênero, assistência às camadas mais vulneráveis da classe trabalhadora, incentivo para o acesso ao ensino superior e afins) se tivessem sua expansão afirmada de maneira efetiva, levaria nada mais e nada menos que a uma demanda cada vez maior de aprofundamento na solução de tais mazelas, indo de encontro necessariamente com as políticas econômicas de corte de gastos. Partindo desta tensão colocada, o reformismo lida com tais pautas de forma puramente marketeira ao impulsioná-las durante o período eleitoral e até mesmo gesta (ou retroalimenta) em seu bojo um rechaço reacionário a tais pautas na medida em que elas são fatores de cobrança advindas da classe, sobretudo a classe organizada, que coloca a própria gestão reformista contra a parede (a exemplo do que se observa a partir de 2022). Se tornou comum nos setores reformistas a análise preguiçosa de enquadrar qualquer movimento que cobra ações efetivas do governo diretamente nessas questões como “pós-modernismo” e  “identitarismo”, como se os casos de feminicídios não viessem numa crescente, como se o racismo não fosse a forma predominante de tratamento das pessoas negras no capitalismo brasileiro, como se a direita não estivesse pronta para transformar as periferias em campos de guerra por meio de operações policiais eleitoreiras, como se não fossem bandeiras históricas dos movimentos de esquerda colocar na ordem do dia tais questões e se mobilizar para que a disputa e o combate  ao capitalismo passem por elas. Já a direita, sobretudo após sua derrota eleitoral aos 45 do segundo tempo das eleições e por uma diferença ínfima em termos proporcionais de votantes, recorre a tática com a qual sempre se colocou mais forte diante do reformismo brasileiro: não tendo força para derrubar legalmente as regras jurídicas do jogo (apesar de ter tentado várias vezes), apela para sua capilarização nas massas a fim — também — de esvaziar no cotidiano das relações na classe trabalhadora qualquer progresso de costumes e reconhecimento nos assuntos que o progressismo tanto se valeu para conquistar e manter sua hegemonia. Aposta na mobilização cotidiana (nas redes e nos espaços urbanos) simbólica reacionária ligadas ao machismo, as religiões dominantes, ao cristianismo mais obtuso, ao terrorismo psicológico das diversas ideologias que surgem com as contradições latentes dos problemas do capital no Brasil (evidentes na crise da segurança pública), para disputar a consciência e a formação subjetiva das massas trabalhadoras. Nesse ínterim, a explosão dos movimentos red pills despontam – como causa e efeito -  no leque de ferramenta dos setores burgueses da sociedade brasileira ligados ao bolsonarismo e a centro direita, tendendo sempre a se alinharem econômica e politicamente, numa simbiose macabra. A contradição entre o Estado com seu aparato político e jurídico e a sociedade civil tende a se acentuar no desenvolvimento conjutural, na mesma medida que se acentuarão as disputas em ambos os âmbitos. Perante a degradação das condições de vida e trabalho, o patriarcado no modo de produção capitalista retoma as velhas, porém vividas, fórmulas de regulação opressiva das relações de gênero, tendo a família monogâmica enquanto núcleo da reprodução social capitalista. O patriarcado enquanto regime de reprodução capitalista no interior da família mata as mulheres, afeta as crianças e, ao mesmo tempo, degrada a subjetividade socialmente estipulada como masculina, como bem pontuou a militante Nathália Mozer (PCB) . A luta pela vida das mulheres e seus direitos reprodutivos se faz essencial na medida que a degradação das condições de emprego aliada à função produtiva que o patriarcado imputa aos homens enquanto “chefes de família” faz com que parte considerável dos homens trabalhadores adiram a ideologias conservadoras e misóginas como a Red Pill .   A Internacional Reacionária e a morte da esquerda Diante de uma conjuntura marcada pela intensificação da degradação ecológica, pelo avanço tecnológico não planejado e feito sob as espontâneas e fetichizadas relações de troca no capitalismo, pelo acirramento das disputas geopolíticas (especialmente em seu âmbito geoestratégico) entre as potências capitalistas e pelo genocídio do povo palestino, a incapacidade dos setores de esquerda em conduzir as massas para um projeto político de ruptura se faz flagrante.  A ofensiva da extrema-direita em todo o mundo, principalmente no chamado ocidente - estruturada na forma de uma Internacional Reacionária  em expansão, com unidade de ação e um aparente programa mínimo (a liberação de quaisquer amarras no processo de reprodução do capital e ampliação da vigilância internacional) -  faz com que seja urgente para os comunistas tirar lições do último ciclo de governos progressistas (encerrado com a vitória eleitoral de direita na Bolívia). Caso contrário, a ascendente cooptação das insatisfações populares pela extrema-direita, tende a ser terra arrasada no embate político. Vemos em nosso continente, em seus últimos espasmos vacilantes e ainda mais rebaixados, o esgotamento da chamada “Onda Rosa”: desde a acachapante vitória da direita pinochetista no Chile (com 59% dos votos) e da crise política na Venezuela, até o Brasil em que o petismo busca se segurar na institucionalidade, nos legando não mais que vitórias advindas dos erros de seus adversários, que não dão sinais de que serão finalmente derrotados (devem apenas se rearticular em novas faces e métodos).  O equívoco de Francis Fukuyama com relação ao seu “fim da história” nos anos 1990, tem se tornado um pesadelo para  o progressismo na medida que a história continua e os principais setores da extrema-direita sabem disso, e a tem conduzido em direção aos seus interesses. Resta para as principais forças progressistas um papel defensivo, e, por vezes, reativo às pautas imposta pela direita. O ano de 2025 se encerra com uma ofensiva político-militar do governo Trump em relação aos governos de Venezuela e Colômbia, em um ato de pirataria ao primeiro e ameaça ao segundo ( o que se comprovou com o bombardeio de Caracas e sequestro de Nicolás Maduro do dia 03 de janeiro ). Os ataques não são somente uma projeção no contexto de disputa geopolítica por recursos no Atlântico equatorial/norte, mas também é um claro flanqueamento que visa animar as lideranças internas de extrema-direita latino-americanas para atuarem em suas respectivas conjunturas locais com a replicação da retórica do “combate ao terrorismo” em uma visada de criminalizar setores marginalizados e grupos opositores e legitimar um regime de exceção em operações que supostamente combateriam organizações criminosas, como recentemente ocorreu nos complexos do Alemão e da Penha no dia 29 de outubro no Rio de Janeiro. A estratégia da extrema-direita não tem elementos novos, como antes é claramente cooptar o medo e a sensação de insegurança presente na classe trabalhadora - medo e  inseguranças estas causadas pelas próprias condições de vida no capitalismo em sua fase neoliberal - para legitimar e naturalizar uma política de repressão à própria classe. Talvez o que possamos elencar de novidade neste contexto, seja a perda de hegemonia inconteste dos EUA’s no capitalismo global, fator que o faz dobrar as  apostas em todos os cantos do globo, na tentativa de manter suas zonas de influência mesmo perante a expansão econômica do bloco capitalista chinês. De um lado temos um setor burguês mais poderoso e concentrado em torno do projeto político reacionário, sendo 2025 o ano onde Elon Musk se tornou o primeiro trilionário do mundo. De outro, as massas trabalhadoras; desarticuladas em sua grande maioria, imersas sob toneladas de investimentos burgueses no controle dos canais de impressa ou loteamento das mídias virtuais e, mesmo quando organizadas em pequenos nichos, se debatendo para encontrar métodos e saídas (com pontuais avanços que não se solidificam em um bloco histórico). Somado a isso, se encontram majoritariamente amedrontadas devido à degradação constante das condições de trabalho e destruição ambiental que ameaça o futuro da humanidade, possibilidades de escaladas nos conflitos advindos das constantes repartições do globo entre os capitalistas e a piora cotidiana das condições de vida (moradia, alimentação, saúde e seguridade social), atingindo até mesmo nações centrais do capitalismo. As contradições entre capital e trabalho se evidenciam em direção ao conflito de interesses de classe, para além das fronteiras nacionais como quer reduzir o simples nacionalismo. Entre os dois está o setor progressista que conquistou o poder político nos últimos 30 anos na América Latina e que é incapaz de apresentar uma alternativa de projeto social na direção da solução dos problemas essenciais da classe trabalhadora. A esquerda reformista, eufemisticamente chamada de “progressista” se vê refém de suas próprias contradições: o apelo às “instituições democráticas” se torna cada vez mais ineficaz diante de uma extrema-direita que se exime de participar dos “espaços de diálogo da comunidade internacional” - como o governo Trump fez recentemente ao se ausentar da COP 30 - e aos invés disso aproveita uma correlação de forças extremamente favorável para si desde a queda da URSS (já que tanto Rússia quanto China, apesar de rivalizam com os EUA, tampouco atuam politicamente para além dos seus próprios interesses políticos imediatos: o que reforça o caráter burguês dos governos desses países) para implementar sua agenda antiterrorista  em todo o globo, da América Latina à Ásia. No extremo oriente, a recém eleita primeira-ministra japonesa Sanae Takaichi   e Bongbong Marcos das Filipinas desempenham o papel que aqui (na A.L) é feito por Javier Milei e Naybe Bukele. Encurralada pelos próprios recuos, a dita esquerda perde cada vez mais espaço nos campos de batalha em que se fez especialista: o parlamento e a administração política do Estado. Se o intento golpista das alas mais reacionárias da extrema-direita encontra-se num crescente mundial que pode ser observado com clareza no exemplo brasileiro, é porque elas carecem de predador natural na fauna política. Não atoa, os episódios do dia 9 para o dia 10 de dezembro na câmara de deputados — Expulsão violenta de Glauber Braga da mesa diretora com corte da transmissão da TV Câmara , agressão à imprensa  e aprovação do PL da dosimetria  — nos comprovam que o jogo está perdido, por mais que se insista em jogá-lo até o fim. Ainda que em 2026 no Brasil tenhamos que revisitar o drama das saídas de emergências com o medo da “volta do fascismo”, vemos que elas, tanto no Brasil quanto em outros locais do mundo, demonstram ser nada mais que a agonizante emergência de uma saída realmente revolucionária que deve ser construída desde agora! Há tempos se fala sobre a morte da esquerda, em especial como projeto societário e organização coletiva, mas não o fazemos como descrença na possibilidade de solução dos problemas sociais impostos pela sociedade de classes, mas pelo escancaramento de que, mesmo com esforços hercúleos de elementos neste campo político, houve uma troca da primazia dos interesses concretos (além dos subjetivos) do proletariado pela primazia da negociata politicista em prol de uma suposta democracia, que mantém-se como ditadura da classe capitalista. Não há solução no Estado Democrático de Direito, pois este é a salvação para os os grandes proprietários. Ele  é a expressão política das relações sócio-econômicas, que tem como seu fundamento a reprodução da sacrossanta propriedade privada.    Dessa maneira, o crescente golpismo reacionário assume formas distintas daquelas encontradas no século passado (Estado Novo, ditadura empresarial-militar, operação condor, franquismo, etc.), ou seja, o da tomada do poder à base das baionetas, de modo que não é mais necessário para a maioria dos setores reacionários operarem uma ruptura com a forma democrática para executarem seus fins, escancarando publicamente sua censura, abuso de poder, violência e mesquinhez. Tática essa adotada globalmente pela Internacional Reacionária , cuja organização, embora lhe falte estatuto e resoluções congressuais, caminha com mais assertividade e efetividade que qualquer reunião internacional de partidos comunistas e socialistas. Desaprendemos com a História, nossos inimigos não; independente de suas divergências regionais, a extrema direita vêm, dia após dia, demonstrando sua agenda unificada, ao passo que a assim chamada esquerda se acanha, por vontade própria, para caber nas votações de uma sessão qualquer legislativa. Pesa em nosso país o especial momento pré-eleitoral que se inicia. Sem muitas perspectivas com relação à sucessão da presidência, aposta-se no suprassumo neoliberal lulista e na carta em branco dada ao petismo para mais uma vez fazer valer a inescrupulosa tentativa de conciliação de classes. Dessa maneira, não é leviano afirmar que até no campo eleitoral, onde tanto nos especializamos, perdemos mesmo ganhando. Embora tenha se estabelecido julgamento e punições aos golpistas e militares reacionários como nunca antes nesse país (o que é, de fato, uma vitória), a mistificada correlação de forças nunca está favorável para avançar rápida e assertivamente no que há de mais imediato para a classe trabalhadora, como é o caso do fim da escala 6x1, que atravessou o ano em discussão na Câmara e finda o ano sem votação. Mesmo a punição dos golpistas já se enfraquece com o PL da dosimetria, aprovado na Câmara na madrugada do dia 9 de dezembro e no Senado no dia 19. Conclusão e necessária rearticulação do movimento comunista.  Todas as disputas políticas apresentadas se dão em um contexto onde o capital chinês desponta como possivelmente sendo o hegemônico para os próximos anos a nível mundial devido a sua capacidade produtiva, tendo o  banco central, sob direção do partido comunista chinês, anunciado esse ano um superávit de 1 trilhão de dólares  . Um modelo de gestão capitalista baseado em um controle centralizado no controle do fluxo de capitais e da infra estrutura produtiva, mas espontâneo na realização das trocas mundiais através dos setores privados,  evidencia sinais de ganhar a disputa intercapitalista com os EUA, já que o deslocamento das cadeias produtivas do Atlântico norte para a Ásia nos últimos 40 anos, especialmente para a China nos últimos 30, se mostra uma tendência cada vez mais irreversível. Isso se dá pelo contexto específico em que se deu a abertura de capitais chinesa a partir da década de 70 - tanto o potencial mercado consumidor interno, o baixo preço da força de trabalho, quanto a concentração dos meios de produção na mão do Estado devido a Revolução Chinesa - colocou a China em vantagem em relação às demais potências, levando a cabo um processo de industrialização em uma escala muito maior do que se deu com os países do centro do capital, e quase irrepetível para os demais países da periferia.  A América Latina, enquanto continente que tende menos a crescer,  têm governos de centro-esquerda nos dois principais polos industriais da região: Brasil e México, sendo esses dois países os únicos que cresceram significativamente em tais governos “progressistas”. Apesar do crescimento não se reverter necessariamente em melhoria da qualidade de vida para os trabalhadores devido a baixa qualidade do emprego, o que faz com que os governos de centro-esquerda desses países fiquem ainda a espreita, tendo que propagandear seus índices econômicos para uma classe cada vez mais precarizada em regime de trabalho uberizados. Diante da degradação da qualidade do emprego, a luta por regulação dos setores precarizados e mecanismos de seguridade se fazem necessários pois a subjetividade desses setores sem uma referência programática clara de pautas de melhoria das condições de trabalho bem como a própria redução da jornada laboral, se torna presa fácil de ideologias neoliberais produtivistas e reacionárias, mesmo que os governos progressistas tentem apresentar índices de redução e pobreza como ocorre com Brasil e México.   O laboratório neoliberal feito no Chile, elevou cerca de 40% da população as classes médias no final do século XX e início do XXI, devido ao boom das commodities na primeira década de nosso século, e agora, em sua primeira eleição presidencial obrigatória, viu os restante 60% da população que antes não votavam e que ficavam com os dejetos do crescimento eleger o pinochetista José Antônio Kast. Tal fenômeno, aparentemente paradoxal para um militante da esquerda que desenvolveu sua atividade política predominantemente no século XX, se deve ao fato de que a extrema-direita pós-guerra fria - na ausência de um inimigo direto a qual associar a ele a própria irracionalidade do modo de vida sob o capitalismo, como era feito com a URSS - conseguiu exitosamente atribuir as consequências da economia globalizada aos governos de esquerda primeiro, e ao ideário progressista em geral, depois. Os setores de esquerda - hegemonizados pelos setores médios devido à repressão das organizações de massas através de ditaduras ou de governos civis ao longo de todo o século passado, mas também devido a capitulação de organismos históricos à governos reformistas - tem agora dificuldade (ou nem buscam) de formar novos quadros de massas que articulem as demandas imediatas das massas a um horizonte de ruptura política com o modo de produção, ruptura essa que só a classe trabalhadora pode desempenhar. Na impossibilidade do horizonte de ruptura da forma societal ser apresentada por movimentos anticapitalistas, é a extrema-direita que o faz, em direção não ao comunismo mas à um nível de barbárie institucionalizada talvez nunca antes visto na história da humanidade. Portanto, aos comunistas cabe tarefa de compreender e analisar as mudanças do modo de produção pós-fordista na morfologia  objetiva e subjetiva da classe para que as velhas formas políticas de organização sejam superadas  por outras efetivas na superação do capitalismo, ainda que sob a acusação de revisionistas vindas daqueles setores que ainda estão melancolizados, apegados a um mundo de direitos e garantias jurídicas - o mundo do século XX - que já não existe mais. A despeito das tentativas de reação por parte de setores importantes de nossa classe, como nos países europeus, alguns até com greves e enfrentamentos diretos, ou como no caso das diversas mobilizações de massa na América Latina puxadas pelas organizações de esquerda,  todas elas um respiro límpido para nossos pulmões sufocados nessa atmosfera densa pela falta de alternativas, nos vimos sem meios de intervir enquanto bloco históricos de trabalhadores. Que o futuro nos traga mais eficiência, maior articulação e maior poder de combate.

  • O atentado contra a Venezuela e a ingerência do imperialismo na América Latina

    Protestos em todo o mundo ocorrem contra a ingerência imperialista. (Foto: Xinhua) A esta altura, já é de conhecimento público que os Estados Unidos realizaram ataques militares contra pelo menos sete pontos estratégicos das Forças Armadas da Venezuela: a academia militar bolivariana da marinha, o porto de La Guarira, a base de La Carlota, a base militar do Forte Tiuna, o observatório Cagigal, as Antenas El Volcán e o aeroporto Higuerote inauguram uma nova fase na correlação de forças da política latino-americana.  A operação durou duas horas, matou cerca de quarenta civis  e nos deu uma breve demonstração do que são capazes os atuais gestores políticos do capital estadunidense, nomeadamente, o séquito trumpista. O episódio supera os golpes e invasões militares na América Latina e Oriente Médio do último século por sua ousadia. Donald Trump, desavergonhadamente, em seu primeiro pronunciamento a respeito da operação, mencionou o interesse das petrolíferas norte-americanas no abundante petróleo venezuelano e chegou a afirmar a possibilidade de uma governança estadunidense direta do território, escancarando o caráter intervencionista de suas incursões pelo Mar do Caribe sob o pretexto de combater o narcotráfico.  O condenável sequestro de Nicolás Maduro é uma demonstração de força e poder dos Estados Unidos enquanto potência hegemônica global que, mesmo passando por um forte abalo de seu domínio econômico,  tenta demarcar o continente americano como sua área de influência, resgatando abertamente a Doutrina Monroe. Para os setores de esquerda que se agarram a uma concepção um tanto campista da correlação de forças global, o estupor e a surpresa podem acometê-los: China e Rússia se limitaram a repudiar os ataques dos EUA através de tímidas notas e, até o momento, não deram qualquer sinal de que vão fornecer auxílio militar ou econômico ( curiosamente, o representante chinês para a América Latina estava em Caracas no momento dos ataques e havia se reunido com Maduro ). Não seria absurdo pensar que Trump, na busca por garantir uma partilha do mundo entre grandes potências econômicas, possa ter se precavido negociando a América Latina como sua zona de influência, dando em troca seu aval aos interesses russos na Ucrânia e aos chineses no sudeste asiático, principalmente na relação com Taiwan. Não se pode esquecer que pouco tempo antes de Trump começar o deslocamento de tropas no Caribe, ele havia tido uma “produtiva conversa” com Vladimir Putin no Alasca.  Tal negociata se torna possível e provável na medida em que todo o sócio-metabolismo do capital permanece plenamente vigente não apenas na Rússia, como também na China. Os gestores políticos da alta cúpula desses países pensam e articulam seus projetos nacionais particulares (sejam eles chamados de projetos socialistas ou não, como no caso chinês) tendo a garantia das condições gerais para reprodução do capital como objetivo. É preciso ter em mente que a política chinesa está muito distante mesmo da mais rebaixada das políticas internacionais soviéticas durante a Guerra Fria, já que a URSS, mesmo que movida pelos interesses mais mesquinhos, interveio indiretamente em muitas lutas decisivas do século passado. A China parece realmente ter como o melhor dos horizontes a mera divisão do mundo, como reza a cartilha da lógica do capital. Por outro lado, no plano interno venezuelano, subsistem importantes incógnitas quanto às condições que teriam permitido às forças militares dos Estados Unidos realizar uma operação sem obstáculos significativos e sem resistência armada. Não se pode descartar a hipótese de que sectores das Forças Armadas venezuelanas tenham facilitado ou mesmo colaborado abertamente com a Força Delta dos EUA no sequestro de Maduro. Em rigor, tudo indica que apenas uma traição oriunda do alto escalão do governo, articulada com uma intervenção direta norte-americana, teria capacidade real para derrubar o presidente. O bolivarianismo vinha demonstrando notável capacidade de sobrevivência política – capacidade essa que precisaria de uma análise aprofundada sobre a relação complexa entre as lideranças políticas e os militares. A oposição de direita jamais conseguiu representar uma ameaça efetiva ao governo Maduro, e nenhuma dissidência militar relevante chegou a prosperar no seio do Exército. No entanto, mais recentemente, a política interna conduzida pelo sucessor de Chávez acabou por empurrar o país para um quadro acentuado de isolamento regional. Até mesmo aliados naturais, como o governo colombiano e brasileiro, questionaram a legitimidade do resultado das urnas que reelegeu Maduro . Se o governo vinha sobrevivendo às sanções aplicadas à Venezuela pelos EUA desde 2014 , os últimos acontecimentos acirraram decisivamente a permanente tensão entre o governo venezuelano e as potências capitalistas mundiais. O dilema vivido pela Venezuela dos nossos dias configura-se como uma verdadeira bomba-relógio, resultado de um processo político radical, de caráter popular, democrática e anti-oligárquica – iniciado pela eleição de Chávez –, que, contudo, não promoveu uma transformação revolucionária das estruturas econômicas. Essa contradição gerou impasses profundos na base produtiva do país. A perigosa dependência da economia petrolífera, a instabilidade econômica imposta às massas populares, o consequente afastamento destas dos processos políticos e econômicos decisivos, bem como a consolidação de uma vasta burocracia militarizada, distante da vida cotidiana do povo, são manifestações evidentes desse impasse estrutural. Não há a menor dúvida de que à classe trabalhadora venezuelana interessa, no plano imediato, a defesa da soberania de seu país. Mas para isso, é indispensável que as massas populares estejam dispostas a enfrentar não apenas os inimigos externos, mas também os internos. Nesse sentido, não se pode ignorar o esgotamento tanto retórico quanto prático da chamada “Revolução Bolivariana”, inserida, aliás, num contexto mais amplo de declínio da chamada “onda rosa” latino-americana. Esse processo político transitou da defesa do famigerado “socialismo do século XXI” para um chauvinismo tardio, no qual o chamado “projeto nacional” passou a expressar-se, entre outras coisas, na tentativa de recuperar o território atualmente guianense de Essequibo . Tratou-se de uma manobra semelhante à realizada por Leopoldo Galtieri em relação às Ilhas Malvinas, em 1982: uma reivindicação territorial que, embora possa ser considerada legítima – e no caso das Malvinas certamente o é –, é instrumentalizada por um governo que representa a burguesia, ou ao menos um setor dela, com o objetivo de produzir um efeito artificial de coesão nacional em torno do antagonismo com um inimigo externo. Tal estratégia servia para legitimar o governo Maduro num momento em que, internamente, as nacionalizações e estatizações do período Chávez entraram em processo de reversão, através de gestões privadas de empresas públicas , numa economia que permanece estruturalmente dependente da monoexportação de petróleo. Nessas condições, o governo bolivariano – não apenas sob Maduro – revela seus limites e não se apresenta como uma alternativa revolucionária para a classe trabalhadora. O ato de terror estatal perpetrado contra o povo venezuelano só pode ser compreendido como um sinal verde para que as forças efetivamente revolucionárias avancem. Assim, para além do repúdio incondicional à ingerência imperialista, impõe-se aos sectores mais avançados da esquerda venezuelana a tarefa de radicalizar o processo bolivariano, orientando-o no sentido de uma verdadeira revolução social. Convém recordar que se trata de um país no qual existem milícias populares armadas e importantes meios de mobilização das massas – ainda que estes tenham sido atravessados, ao longo do tempo, por processos de burocratização e de repressão aos comunistas venezuelanos ¹ . A questão decisiva é saber em que medida as condições sociais concretas da Venezuela podem transformar o país não em um Afeganistão latino-americano, mas sim em um Vietnã das Américas. Aos comunistas dos demais países, para além do necessário e evidente repúdio à política externa dos Estados Unidos e aos seus títeres regionais, cabe a tarefa de estudar com seriedade a estratégia e a tática da extrema-direita internacional e qual o movimento do capital ela tem efetivamente representado. Trata-se de um campo político que não apenas se vangloria da própria barbárie, como também ameaça abertamente lideranças de outros países, apresentando-as como potenciais alvos futuros. Compreender esse movimento é condição indispensável para antecipar seus métodos, desmascarar suas alianças e organizar uma resposta internacionalista à altura dos desafios colocados. *** 1) Para uma análise in loco das perseguições aos comunistas e crises do governo de Maduro, vale ver balanço do PCV .

  • Observações Críticas sobre a Questão Nacional: 4."AUTONOMIA CULTURAL NACIONAL”

    Lenin Tradução para o Português : Marco Túlio Texto extraído e traduzido do marxists.org .*   A questão da palavra de ordem “cultura nacional” é de enorme importância para os marxistas, não só porque determina o conteúdo ideológico de toda a nossa propaganda e agitação sobre a questão nacional, distinta da propaganda burguesa, mas também porque todo o programa da tão discutida autonomia cultural nacional se baseia nessa palavra de ordem. A principal e fundamental falha desse programa é que visa introduzir o nacionalismo mais refinado, mais absoluto e mais extremo. A essência desse programa é que cada cidadão seja registrado como pertencente a uma determinada nação, e que cada nação constitua uma entidade jurídica com o direito de impor tributação obrigatória aos seus membros, com parlamentos nacionais (Dietas) e secretários de Estado nacionais (ministros). Tal ideia, aplicada à questão nacional, assemelha-se à ideia de Proudhon, aplicada ao capitalismo. Não abolindo o capitalismo e a sua base — a produção de mercadorias —, mas purgando  essa base de abusos, de excrescências, e assim por diante; não abolindo a troca e o valor de troca, mas, pelo contrário, tornando-a “constitucional”, universal, absoluta, “ justa ” e livre de flutuações, crises e abusos — assim era a ideia de Proudhon. Assim como Proudhon era pequeno-burguês, e a sua teoria converteu a troca e a produção de mercadorias numa categoria absoluta e exaltou-as como o ápice da perfeição, o mesmo acontece com a teoria e o programa da “autonomia cultural nacional” pequeno-burguesa; ao converter o nacionalismo burguês numa categoria absoluta, exalta-o como o ápice da perfeição e expurga-o da violência, da injustiça, etc. O marxismo não pode conciliar-se com o nacionalismo, mesmo que seja do tipo “mais justo”, “mais puro”, mais refinado e civilizado. No lugar de todas as formas de nacionalismo, o marxismo promove o internacionalismo, a fusão de todas as nações na unidade superior, uma unidade que cresce diante dos nossos olhos a cada milha de linha ferroviária construída, a cada truste internacional e a cada associação de trabalhadores que é formada (uma associação internacional nas suas atividades econômicas, bem como nas suas ideias e objetivos). O princípio da nacionalidade é historicamente inevitável na sociedade burguesa e, considerando seriamente essa sociedade, o marxismo reconhece plenamente a legitimidade histórica dos movimentos nacionais. Mas, para evitar que esse reconhecimento se torne uma apologia ao nacionalismo, deve-se limitá-lo estritamente ao que é progressivo em tais movimentos, a fim de que a ideologia burguesa não obscureça a consciência proletária. O despertar das massas da letargia feudal e a sua luta contra toda a opressão nacional, pela soberania do povo e da nação são progressistas. Portanto, é o dever juramentado  do marxismo defender o democratismo mais resoluto e coerente em todos os aspectos da questão nacional. Esta tarefa é, na sua maioria, negativa. Mas esse é o limite a que o proletariado pode ir para apoiar o nacionalismo, pois, além disso, começa a atividade “positiva” da burguesia esforçando-se para fortificar  o nacionalismo. Livrar-se do jugo feudal, de toda a opressão nacional e de todos os privilégios de que goza qualquer nação ou língua em particular é um dever imperativo do proletariado como força democrática, e é certamente do interesse da luta de classes proletária, obscurecida e retardada pela discussão sobre a questão nacional. Mas ir além  desses contornos históricos estritamente limitados e definidos para auxiliar o nacionalismo burguês significa trair o proletariado e aliar-se à burguesia. Há aqui uma fronteira, muitas vezes bem estreita, que os bundistas e os nacionalistas-socialistas ucranianos perdem completamente de vista. Combater toda a opressão nacional? Sim, claro! Lutar por  qualquer tipo de desenvolvimento nacional, pela  “cultura nacional”, em geral? Claro que não. O desenvolvimento econômico da sociedade capitalista apresenta-nos exemplos de movimentos nacionais imaturos em todo o mundo, exemplos da formação de grandes nações a partir de uma série de pequenas, ou em detrimento de algumas das pequenas, e também exemplos da assimilação de nações. O desenvolvimento da nacionalidade em geral é o princípio do nacionalismo burguês; daí a exclusividade do nacionalismo burguês, daí a interminável disputa nacional. O proletariado, porém, longe de se empenhar em defender o desenvolvimento nacional de todas as nações, pelo contrário, adverte as massas contra tais ilusões, defende a mais plena liberdade das relações capitalistas e acolhe toda a espécie de assimilação das nações, exceto a que se baseia na força ou no privilégio. Consolidar o nacionalismo no interior de uma certa esfera “justamente” delimitada, “constitucionalizar” o nacionalismo e assegurar a separação de todas as nações umas das outras por meio de uma instituição estatal especial — tal é o fundamento ideológico e o conteúdo da autonomia cultural nacional. Essa ideia é completamente burguesa e completamente falsa. O proletariado não pode apoiar qualquer consagração do nacionalismo; pelo contrário, apoia tudo que ajude a obliterar as distinções nacionais e a eliminar as barreiras nacionais; apoia tudo o que torna os laços entre nacionalidades cada vez mais estreitos ou tende a fundir nações. Agir de forma diferente significa aliar-se ao filistinismo nacionalista reacionário. Quando, no seu Congresso em Brunn [2]  (em 1899), os Social-Democratas austríacos discutiram o plano de autonomia cultural nacional, praticamente nenhuma atenção foi dada a uma avaliação teórica deste plano. É, no entanto, digno de nota que os seguintes argumentos foram levantados contra este programa: (1) tenderia a reforçar o clericalismo; (2) “o seu resultado seria a perpetuação do chauvinismo, a sua introdução em todas as pequenas comunidades, em todos os pequenos grupos” (p. 92 do relatório oficial do Congresso de Brunn, em alemão. Uma tradução russa foi publicada pelo Partido Nacionalista judeu, o J. S. L. P. [3] ). Não pode haver dúvida de que hoje em dia, a “cultura nacional”, no sentido comum do termo, ou seja, escolas, etc., está predominantemente sob a influência do clero e dos chauvinistas burgueses em todos os países do mundo. Quando os bundistas, ao defenderem a autonomia “cultural nacional”, diziam que a constituição das nações manterá a luta de classes dentro delas limpa  de qualquer consideração estranha, então isso é manifestamente um sofisma ridículo. Em qualquer sociedade capitalista, é sobretudo na esfera econômica e política que se desenvolve uma luta de classes séria. Separar a esfera da educação disso é, em primeiro lugar, absurdamente utópico, porque as escolas (como a “cultura nacional”, em geral) não podem ser separadas da economia e da política; em segundo lugar, é a vida econômica e política de um país capitalista que necessita, a cada passo, do esmagamento das barreiras e preconceitos nacionais absurdos e ultrapassados, enquanto a separação do sistema escolar e afins só perpetuaria, intensificaria e fortaleceria o clericalismo “puro” e o chauvinismo burguês “puro”. Nos conselhos de administração das sociedades por ações, encontramos capitalistas de diferentes nações reunidos em completa harmonia. Nas fábricas, trabalhadores de diferentes nações trabalham lado a lado. Em qualquer questão política realmente séria e profunda, os lados são tomados segundo as classes, não segundo as nações. Tirar a educação escolar e afins do controle estatal e colocá-la sob o controle das nações é, de fato, uma tentativa de separar da economia, que une as nações, a esfera mais altamente ideológica da vida social, a esfera na qual a cultura nacional “pura” ou o cultivo nacional do clericalismo e do chauvinismo tem o movimento mais desinibido. Na prática, o plano de autonomia “extraterritorial” ou “cultural nacional” só poderia significar uma coisa: a divisão dos assuntos educativos segundo a nacionalidade , ou seja, a introdução das cúrias nacionais nos assuntos escolares. Pensamento suficiente acerca do real  significado do famoso plano do Bund permitirá compreender o quanto ele é totalmente reacionário, mesmo do ponto de vista da democracia e mais ainda do ponto de vista da luta de classes proletária pelo socialismo. Um simples exemplo e um simples esquema da “nacionalização” do sistema escolar tornarão este ponto mais claro. Nos Estados Unidos da América, a divisão dos Estados em norte e sul mantém-se até hoje em todos os elementos da vida; os primeiros possuem as principais tradições de liberdade e de luta contra os proprietários de escravos; os últimos possuem as principais tradições de propriedade de escravos, sobrevivendo à perseguição dos negros, os quais são economicamente oprimidos e culturalmente atrasados (44% dos negros são analfabetos e somente 6% dos brancos), e assim por diante. Nos estados do norte, as crianças negras frequentam as mesmas escolas que as crianças brancas. No sul, existem escolas “nacionais” ou raciais, como quiserem, para crianças negras. Penso que esse é o único exemplo de uma verdadeira “nacionalização” das escolas. Na Europa Oriental existe um país onde coisas como o caso Beilis [4]  ainda são possíveis, e os judeus são condenados pelos purishkeviches a uma condição pior do que a dos negros. Nesse país, um regime de nacionalização das escolas judaicas  foi recentemente debatido no Ministério. Felizmente, esta utopia reacionária não é mais provável de ser concretizada do que a utopia da pequena burguesia austríaca, que perdeu a esperança de alcançar uma democracia consistente ou de pôr fim às disputas nacionais, inventando compartimentos  de educação escolar para evitar que as nações disputassem a distribuição  das escolas… Mas “constituíram” para si disputa eterna  entre uma “cultura nacional” e outra. Na Áustria, a ideia de autonomia cultural nacional manteve-se em grande parte uma fuga literária fantasiosa, que os próprios sociais-democratas austríacos não levaram a sério. Na Rússia, no entanto, foi incorporada aos programas de todos os partidos burgueses judeus e de vários elementos oportunistas pequeno-burgueses nas diferentes nações — por exemplo, os bundistas, os liquidacionsistas no Cáucaso e a Conferência dos partidos nacionais russos da tendência Narodnik de esquerda (essa conferência, mencionaremos entre parênteses, teve lugar em 1907, sua decisão tendo sido adotada com abstenção por parte dos Socialistas-Revolucionários russos[5] e do P. S. P.[6], os social-patriotas poloneses). A abstenção de voto é um método surpreendentemente característico dos Socialistas-Revolucionários e do P. S. P., quando querem mostrar a sua atitude perante uma questão de princípio muito importante no âmbito do programa nacional!). Na Áustria, foi Otto Bauer o principal teórico da “autonomia cultural nacional”, que dedicou um capítulo especial do seu livro para provar que tal programa não pode ser proposto para os judeus. Na Rússia, porém, é precisamente entre os judeus que todos os partidos burgueses — e o Bund que os ecoa — adotaram este programa. [1]  O que isso mostra? Mostra que a história, através da prática política de outro Estado, expôs o absurdo da invenção de Bauer, exatamente da mesma forma que os bernsteinianos russos (Struve, Tugan-Baranovsky, Berdayev e Co.), por meio da sua rápida evolução do marxismo ao liberalismo, expuseram o verdadeiro conteúdo ideológico do bernsteinismo alemão.[7]  Nem os Social-Democratas austríacos, nem os russos incorporaram a autonomia “cultural nacional” ao seu programa. No entanto, os partidos burgueses judeus num país mais atrasado, e uma série de pequenos-burgueses, os chamados grupos socialistas, adotaram-no  a fim de difundir as ideias do nacionalismo burguês entre a classe operária de uma forma refinada. Este fato fala por si. * Uma vez que temos de abordar o programa austríaco sobre a questão nacional, devemos reafirmar uma verdade frequentemente distorcida pelos bundistas. No Congresso de Brunn um programa puro  de “autonomia cultural nacional” foi apresentado. Esse foi o programa dos Social-Democratas eslavos do Sul, no qual se lê no 2º parágrafo: “cada nação que vive na Áustria, independentemente do território ocupado pelos seus membros, constitui um grupo autônomo que gere todos os seus assuntos nacionais (linguísticos e culturais) de forma bastante independente”. O programa foi apoiado não só por Kristan, mas também pelo influente Ellenbogen. Mas foi retirado; nem um único voto foi dado a seu favor. Um programa territorialista  foi adotado, i. e., um que não criava nenhum grupo nacional “independentemente do território ocupado pelos membros da nação”. A cláusula 3 do programa adotado diz: “as regiões  autoadministradas de uma mesma nação formarão conjuntamente uma associação unida nacionalmente, que gerirá os seus assuntos nacionais numa base absolutamente autônoma” (cf. Prosveshcheniye , 1913, No. 4, p. 28 [8] ). É evidente que este programa de conciliação também está errado. Um exemplo ilustrará isso. A comunidade de colonos alemães em Saratov, Gubernia, mais o subúrbio operário alemão de Riga ou Lodz, mais o conjunto habitacional alemão perto de São Petersburgo, etc., constituiriam uma “associação unida nacionalmente” de alemães na Rússia. É evidente que os Sociais-Democratas não podem reivindicar  tal coisa ou garantir tal associação, embora, é claro, não neguem nenhuma liberdade de associação de qualquer tipo de associação, incluindo associações de quaisquer comunidades de qualquer nacionalidade num determinado Estado. A segregação, por uma lei do Estado, dos alemães, etc., em diferentes localidades e de diferentes classes na Rússia, em uma única associação nacional alemã pode ser praticada por qualquer pessoa — padres, burgueses ou filisteus, mas não por Social-Democratas. * Revista Barravento: optamos por deixar o link das notas vinculadas ao site do qual o texto foi extraído. Notas [1]  Que os bundistas muitas vezes negam veementemente que todos  os partidos burgueses judeus aceitaram que a “autonomia cultural nacional” é compreensível. Este fato expõe de forma demasiado flagrante o papel que o Bund desempenha. Quando o Sr. Manin, bundista, tentou, em Luch [9]  repetir sua negação, ele foi totalmente exposto por N. Skop (ver Prosveshcheniye  N. o 3 [10] ). Mas quando o Sr. Lev Yurkevich, em Dzvin  (1913, N. 7-8, p. 92), cita a declaração de N. Sk no Prosveshcheniye (No. 3, p. 78) de que “os bundistas, juntamente com todos os partidos e grupos burgueses judeus, defendem há muito tempo a autonomia cultural nacional” e distorce essa declaração ao abandonar a palavra “bundistas”, e substituir  as palavras “direitos nacionais” pelas palavras “autonomia nacional-cultural”, só se pode levantar as mãos com espanto! O Sr. Lev Yurkevich não é somente um nacionalista, não só um ignorante espantoso em matéria de história dos Social-Democratas e do seu programa, mas um falsificador de citações  em benefício do Bund. Os assuntos do Bund e dos yurkeviches devem estar em mau estado! — Lenin [2]  Refere-se ao Congresso do Partido Social-Democrata austríaco realizado em Brunn (Áustria) de 24 a 29 de setembro de 1899 (novo estilo). A questão nacional era o ponto principal da ordem do dia. Foram apresentadas ao Congresso duas resoluções com diferentes pontos de vista: (1) a resolução do Comitê Central do partido, que apoia a ideia da autonomia territorial das nações, e (2) a resolução do Comitê do Partido Social-Democrata Eslavo do Sul que apoia a ideia da autonomia cultural nacional extraterritorial. O Congresso rejeitou por unanimidade o programa de autonomia cultural nacional e adotou uma resolução de compromisso que reconhece a autonomia nacional no interior das fronteiras do Estado austríaco. (Ver o artigo de Lenin “uma contribuição para a história do Programa nacional na Áustria e na Rússia”, p. 36 deste volume). [N. T.] [3]   J. S. L. P.  (Partido Trabalhista Socialista Judaico) — organização nacionalista pequeno-burguesa, fundada em 1906. O seu programa baseava-se na exigência de autonomia nacional para os judeus — a criação de parlamentos judaicos extraterritoriais autorizados a resolver questões relativas à organização política dos judeus na Rússia. O J. S. L. P. manteve-se próximo dos Socialistas-Revolucionários, com os quais travou uma luta contra o POSDR [4]   O caso Beilis  — julgamento provocativo planejado pelo governo czarista em 1913, em Kiev. Beilis, um judeu, foi falsamente acusado de ter assassinado um menino cristão chamado Yushchinsky para fins rituais (na verdade, o assassinato foi organizado pelas Centúrias Negras). O objetivo dessa farsa era fomentar o antissemitismo e incitar pogroms [movimento organizado visando ao extermínio de certas coletividades - nota do tradutor] para desviar as massas do crescente movimento revolucionário. O julgamento despertou grande sentimento público. As manifestações de protesto dos trabalhadores foram realizadas em várias cidades. Beilis foi absolvido. [5]   Socialistas-Revolucionários — partido pequeno-burguês na Rússia, que surgiu no final de 1901 e início de 1902 como resultado de uma fusão de vários grupos e círculos populistas. Os SR não viam distinções de classe entre o proletário e o pequeno proprietário, minimizavam a diferenciação de classe e os antagonismos no interior do campesinato e recusavam-se a reconhecer o papel dirigente do proletariado na revolução. Os seus pontos de vista eram uma mistura eclética das ideias do narodismo e do revisionismo. Nas palavras de Lenin, eles tentaram consertar “as rendas nas ideias dos Narodniks com pedaços de uma “crítica” oportunista do marxismo que estava na moda” (Ver presente edição, Vol. 9, p. 310). O programa agrário dos Socialistas-Revolucionários previa a abolição da propriedade privada da terra, que deveria ser transferida para a comuna da aldeia com base no “princípio do trabalho” e na “posse igualitária da terra” e também o desenvolvimento de cooperativas. Este programa, que os SR chamaram de “socialização da terra”, não tinha nada de socialista. Na sua análise deste programa, Lenin mostrou que a preservação da produção mercantil e da agricultura privada em terras comunais não acabaria com a dominação do capital nem libertaria o campesinato trabalhador da exploração e do empobrecimento. Nem as cooperativas poderiam ser um remédio para os pequenos agricultores sob o capitalismo, pois serviam somente para enriquecer a burguesia rural. Ao mesmo tempo, como salientou Lenin, a exigência de uma posse igualitária da terra, embora não socialista, era de carácter progressista, democrático-revolucionário, enquanto era dirigida contra o latifundiário reacionário. O Partido Bolchevique expôs as tentativas dos SR de se passarem por socialistas. Travou uma luta obstinada contra eles pela influência sobre o campesinato e revelou os danos que a sua táctica de terrorismo individual causava ao movimento operário. Ao mesmo tempo, os bolcheviques, em termos definidos, celebraram acordos temporários com os socialistas-revolucionários para combater o czarismo. A instabilidade política e ideológica e a incoerência organizativa do Partido Socialista-Revolucionário, bem como a sua constante vacilação entre a burguesia liberal e o proletariado, deveram-se à ausência de homogeneidade de classe entre os camponeses. Durante a Primeira Revolução Russa, a ala à direita dos SR separou-se do partido e formou o legal Partido Socialista Popular Trabalhista, cujas opiniões eram próximas das dos Democratas Constitucionais (Cadetes), enquanto a ala à esquerda se separou e formou uma liga semi-anarquista de “maximalistas”. Durante o período da reação de Stolypin, o Partido Socialista-Revolucionário sofreu uma completa quebra ideológica e organizativa. Durante a Primeira Guerra Mundial, a maioria dos seus membros assumiu uma posição social-chauvinista. Depois da revolução democrático-burguesa de fevereiro de 1917, os socialistas-revolucionários, juntamente com os mencheviques e os cadetes, foram o esteio do Governo Provisório contrarrevolucionário da burguesia e dos latifundiários. Os líderes do partido SR — Kerensky, Avksentyev e Chernov — eram membros deste gabinete. O Partido SR recusou-se a apoiar a exigência dos camponeses pela abolição dos latifundiários e defendeu a preservação das suas propriedades. Os membros SR do Governo Provisório autorizaram uma ação punitiva contra os camponeses que haviam tomado posse de terras. No final de novembro de 1917, a ala esquerda do Partido SR formou um partido independente de Socialistas-Revolucionários de Esquerda que, num esforço para preservar a sua influência entre as massas camponesas, reconheceu formalmente o domínio soviético e celebrou um acordo com os bolcheviques. Em pouco tempo, porém, iniciaram uma luta contra os soviéticos. Durante os anos de intervenção estrangeira e da Guerra Civil, os SR exerceram atividades subversivas contrarrevolucionárias. Apoiaram ativamente os intervencionistas e os guardas brancos, participaram em conspirações contrarrevolucionárias e organizaram atos terroristas contra os dirigentes do Estado soviético e do Partido Comunista. Após a Guerra Civil, os SR prosseguiram com suas atividades antissoviéticas no interior do país e no campo dos emigrados brancos. [6]   O Partido Socialista Polonês (Polska Partia Socjalistyczna) — organização nacionalista reformista fundada em 1892. Adotando a palavra de ordem de luta por uma Polônia independente, o PSP, sob Pilsudski e os seus adeptos, fez propaganda nacionalista separatista entre os trabalhadores poloneses, tentando desviá-los da luta conjunta com os trabalhadores russos contra a autocracia e o capitalismo. Ao longo da história do PSP, grupos de esquerda continuaram a surgir no interior do partido, como resultado das atividades dos trabalhadores de base. Alguns desses grupos acabaram por se juntar à ala revolucionária do movimento operário polonês. Em 1906, o partido dividiu-se na ala esquerda do PSP e na ala direita, chauvinista (a chamada “facção revolucionária”). Sob a influência dos bolcheviques e do Partido Social-Democrata da Polônia e da Lituânia, a ala esquerda adotou gradualmente uma posição revolucionária coerente. Durante a Primeira Guerra Mundial, alguns dos esquerdistas do PSP adotaram uma posição internacionalista. Em dezembro de 1918, o partido uniu-se aos Social-Democratas da Polônia e da Lituânia para formar o Partido Comunista dos Trabalhadores da Polônia (como o Partido Comunista da Polônia era conhecido até 1925). Durante a Primeira Guerra Mundial, a ala direita do PSP continuou a sua política de chauvinismo nacional, organizando legiões polonesas no território da Galiza para lutar ao lado do imperialismo austro-alemão. Com a formação do Estado burguês polonês, o PSP de direita, em 1919, uniu-se às organizações do PSP existentes nos territórios polacos anteriormente tomados pela Alemanha e pela Áustria e retomou o nome do PSP. À frente do governo, organizou a transferência de poder para a burguesia polonesa, conduziu sistematicamente a propaganda anticomunista e apoiou uma política de agressão contra a União Soviética, uma política de conquista e opressão contra a Ucrânia ocidental e a Bielorrússia ocidental. Vários grupos do PSP que discordavam dessa política juntaram-se ao Partido Comunista da Polônia. Depois do golpe de Estado fascista de Pilsudski (maio de 1926), o PSP foi nominalmente uma oposição parlamentar, mas, na verdade, não travou nenhuma luta ativa contra o regime fascista e continuou a sua propaganda anticomunista e antissoviética. Durante esse período, os elementos de esquerda do PSP colaboraram com os comunistas poloneses e apoiaram as tácticas da Frente Única numa série de campanhas. Durante a Segunda Guerra Mundial, o PSP voltou a dividir-se. A sua facção reacionária e chauvinista, que assumiu o nome de Liberdade, Igualdade, Independência, participou no reacionário “governo” polonês emigrado em Londres. A facção de esquerda, que se autodenominava Partido dos Trabalhadores Socialistas Poloneses, sob a influência do Partido dos Trabalhadores Polacos, fundado em 1942, juntou-se à frente popular contra os invasores nazistas, lutou pela libertação da Polônia e prosseguiu uma política de relações amistosas com a URSS. Em 1944, após a libertação dos territórios orientais da Polônia e a formação de um Comitê Polonês de Libertação Nacional, o Partido dos Trabalhadores Socialistas Poloneses retomou o nome de PSP e, juntamente com o Partido dos Trabalhadores Polacos, participou na construção de uma Polônia democrático-popular. Em dezembro de 1948, os dois partidos se amalgamaram e formaram o Partido dos Trabalhadores Unidos da Polônia. [9]   Luch  ( Ray ) — diário legal dos liquidacionistas mencheviques, publicado em São Petersburgo de 16(29) de setembro de 1912 a 5(18) de julho de 1913. Publicaram 237 questões. O jornal foi mantido principalmente por contribuições dos liberais. A liderança ideológica era dos bandos de P. B. Axelrod, F. I. Dan, L. Martov e A. S. Martynov. Os liquidacionistas usaram as colunas deste jornal para se oporem à táctica revolucionária dos bolcheviques, defenderem a palavra de ordem oportunista de um “partido aberto”, atacarem as greves revolucionárias de massas dos trabalhadores e tentarem rever os pontos mais importantes do programa do partido. Lênin escreveu que Luch  foi “escravizado por uma política liberal” e chamou o jornal de porta-voz dos renegados. [10]   Prosveshcheniye  ( Iluminação ) — jornal legal bolchevique, teórico e mensal, publicado em São Petersburgo de dezembro de 1911 a junho de 1914, com uma tiragem de até cinco mil exemplares. Fundado por iniciativa de Lenin para substituir a revista Mysl , um jornal bolchevique fechado pelo governo czarista. Outros trabalhadores da nova revista foram V. V. Vorovsky, A. I. Ulyanova-Yelizarova, N. K. Krupskaya, entre outros. Lenin recrutou os Serviços de Maxim Górki para dirigir a seção literária do jornal. Lenin dirigiu Prosveshcheniye  de Paris e, posteriormente, de Cracóvia e Poronin. Ele editava artigos e se correspondia regularmente com a equipe editorial. O jornal publicou os seguintes artigos de Lenin: “ as três fontes e as três partes componentes do marxismo ”, “ observações críticas sobre a questão nacional ”, “o direito das nações à autodeterminação ”, “ ruptura da unidade sob a cobertura de protestos pela unidade ”, entre outros. O jornal expôs os oportunistas — liquidacionistas, otzovistas e os trotskistas, bem como os nacionalistas burgueses. Destacou a luta da classe operária em condições de um novo surto revolucionário, propagandeou palavras de ordem bolcheviques na quarta campanha eleitoral da Duma e se manifestou contra o revisionismo e o centrismo nos partidos da Segunda Internacional. O jornal desempenhou um papel importante na educação internacionalista marxista dos trabalhadores mais avançados da Rússia. Às vésperas da Primeira Guerra Mundial, Prosveshcheniye  foi fechado pelo governo czarista. Retomou a publicação no outono de 1917, mas somente uma edição (dupla) apareceu, contendo “ os bolcheviques podem reter o poder do Estado?”  e “ uma revisão do programa do partido” . [7]   Bernsteinismo —  uma tendência antimarxista na social-democracia internacional. Surgiu no final do século XIX na Alemanha e tinha o nome do social-democrata oportunista alemão Eduard Bernstein. Após a morte de F. Engels, Bernstein defendeu publicamente a revisão da teoria revolucionária de Marx no espírito do liberalismo burguês (ver seu artigo “problemas do socialismo” e seu livro As premissas do socialismo e as tarefas da Social-Democracia ) numa tentativa de converter o Partido Social-Democrata num partido pequeno-burguês de reformas sociais. Na Rússia, essa tendência foi representada pelos “marxistas legais”, pelos economicistas, pelos bundistas e pelos mencheviques. [8]  Lenin refere-se ao artigo de Stalin “ marxismo e a questão nacional ” publicado no jornal legal bolchevique Prosveshcheniye 3, 4 e 5 de 1913, sob o título “ A questão nacional e a Social-Democracia ”. O Capítulo 4 do artigo de Stalin cita o texto do Programa Nacional adotado no Congresso Brunn do Partido Social-Democrata austríaco.   Segue abaixo a introdução do Marxist’s Internet Archive   Observações críticas sobre a questão nacional [1] ________________________________________ Escrito : entre outubro e dezembro de 1913. Publicado : 1913, na revista Prosveshcheniye, números 10, 11 e 12. Assinado: V. Ilyin. Publicado conforme o texto da revista. Fonte : Lenin Collected Works, Progress Publishers, 1972, Moscou, Volume 20, páginas 17-51. Traduzido : Bernard Isaacs e o falecido Joe Fineberg Transcrição\Marcação: R. Cymbala Domínio público : Lenin Internet Archive (2004). Você pode copiar, distribuir, exibir e executar este trabalho livremente, bem como criar trabalhos derivados e comerciais. Por favor, cite “Marxists Internet Archive” como sua fonte. Notas [1] O artigo “Observações críticas sobre a questão nacional” foi escrito por Lenin entre outubro e dezembro de 1913 e publicado no mesmo ano na revista legal bolchevique Prosveshcheniye, números 10, 11 e 12. O artigo foi precedido por palestras sobre a questão nacional que Lenin proferiu em várias cidades suíças — Zurique, Genebra, Lausanne e Berna — no verão de 1913. No outono de 1913, Lenin fez um relatório sobre a questão nacional na Conferência “de Agosto” (“de Verão”) do Comitê Central do POSDR com os trabalhadores do partido. Uma resolução sobre o relatório redigido por Lenin foi adotada. Após a conferência, Lenin começou a trabalhar em seu artigo “Observações críticas sobre a questão nacional”.

  • Em defesa de Glauber Braga e contra o Congresso Inimigo do Povo: às ruas!

    Fonte: Getty images A Revista Barravento vem se manifestar contra a postura autocrática e golpista de Hugo Motta levada a cabo na madrugada desta quarta (09/12) para a quinta-feira (10/12), retirando forçosamente o deputado Glauber Braga da mesa da plenária por meio de ação truculenta da Polícia Legislativa, sob seu comando, ao mesmo tempo em que cortou a transmissão da TV câmara, no intuito de calar as denúncias corajosamente realizadas, e agrediu jornalistas e trabalhadores do legislativo para o esvaziamento da câmara. Tal ação se faz em consonância a um projeto de beneficiamento dos golpistas, que não foram punidos mesmo em situações mais drásticas, e culmina na aprovação, pouco depois e na mesma madrugada, de medidas que privilegiam a impunidade de Bolsonaro e sua corja. A solução para o congresso inimigo do povo não pode vir de dentro do parlamento, mas da mobilização popular. Crer na maioria parlamentar como extensão da vontade do povo, é, ainda mais neste momento conflituoso, se fazer cego aos interesses em jogo. "[...] agora, o partido da apatia e da covardia [...] diz à classe trabalhadora: “A questão não é se você é neste momento a única força criadora da história, se você é capaz de defenestrar as classes proprietárias, que degeneraram nesse bando de ladrões; a questão não é que ninguém fará isso além de você, nem que a história não lhe oferece trégua — porque as consequências do caos sangrento atual ameaçam enterrá-lo também sob as últimas ruínas do capitalismo. O problema é bem outro: consiste no fato de que os bandidos que governam conseguiram, ontem ou hoje, enganar, violar e frustrar a opinião pública, alcançando, graças a isso, 51% dos votos, contra 49%. Pereça o mundo, mas viva a maioria parlamentar!”" (Trotsky, 2023, p. 38) Todo apoio a Glauber Braga! Referências: TROTSKY, Leon. Terrorismo e Comunismo. 1. ed. São Paulo: LavraPalavra Editorial, 2023.

  • Compra de ouro por bancos centrais e investidores privados.*

    Rolando Astarita Tradução: Lucas Rodrigues Fonte: © Thinkstock   Talvez o ponto mais controverso da teoria monetária de Marx gira em torno do papel monetário do ouro. A ideia dominante, inclusive entre os marxistas, é que a teoria de Marx havia sido válida quando a libra esterlina, o dólar estadunidense e outras moedas eram oficialmente convertidas ao ouro, mas haveria ficado desatualizada com a inconversibilidade oficial (no caso do dólar as cédulas não foram resgatáveis  ("redimibles")  em ouro desde Janeiro de 1934). Em vários links anteriores ( veja aqui , aqui , aqui ) sinalizamos as principais críticas a esse enfoque. Dentre os argumentos, sustentamos que, segundo a teoria de Marx, o dinheiro surge da necessidade de expressar o valor das mercadorias a través de um equivalente que encarna valor (tempo de trabalho social, objetivado). Por isso, segundo este enfoque, o valor do dinheiro não pode se fundar simplesmente no respaldo dos governos, nem é mera criação estatal. Mais ainda, como sinalizou Marx, om respeito a regimes monetários sem convertibilidade oficial (Prússia, Inglatérra durante períodos prolongados no século XIX) a relação entre a cédula com o ouro se estabeleceu através do mercado (o valor da cédula pode ser considerado o inverso do preço do ouro). No entanto,  ("pero además") , e isso é chave, é um dado da realidade que o ouro continua sendo um ativo de reserva dos bancos centrais das principais potências. Nos finais de 2022 representava 77% das reservas oficiais dos EUA (8.133 toneladas de ouro); 73,5% das de Alemanha (3.366 toneladas); 68,3% da Itália e 63,2% de França. São cifras não desprezíveis em termos de riqueza imóvil. Por exemplo, as reservas oficiais de ouro dos EUA, ao preço (julho 2023) de 1.957 à onça equivalem a uns 560.000 milhões ( o valor livro registrado no FED é muito menor, US$ 42,22 a onça).Para que se mantém a tesourada essa massa de valor? Uma teoria monetária coerente deve poder explicar esta permanência do ouro nos sistemas monetários. Aumentos recentes de compras de ouro por bancos centrais A fim de atualizar nosso argumento, destacamos que nos últimos anos, vários bancos centrais aumentaram significativamente as compras do metal amarelo. Segundo o World Gold Council, no ano passado os bancos centrais agregaram às suas reservas 1.136 toneladas; um aumento de 152% com relação ao ano anterior. Foi o 13º ano consecutivo de compras líquidas; E foi a demanda anual mais elevada desde que se mantém registros, 1950. A tendência parece continuar esse ano. )No  primeiro trimestre de 2023 os bancos centrais junto a outras instituições oficiais incrementaram suas tendências de ouro 228 toneladas, um aumento de 176% com respeito a 2022. Também é mantida a demanda de ouro (moedas e barras de ouro, principalmente) com motivos de entesouramento: em 2022 foram 1.107 toneladas. Se houve uma queda na demanda por ouro para ETF, as tendências destes ao final de 2022 totalizaram 3.473 toneladas. (ETF, sigla em inglês para Exchange Traded Fund; é um ativo que cotiza na bolsa e está respaldado por um subjacente, no caso o ouro). Voltando as reservas de ouro dos bancos centrais, o maior comprador nos últimos meses é o Banco Popular da China (BPC). Depois de um período em que havia diminuído suas compras, em novembro de 2022 anunciou a compra de 62 toneladas. Com ela, as reservas oficiais de ouro superaram pela primeira vez 2.000 toneladas. As compras continuaram na primeira metade de 2023; Hoje (princípios de Julho) o stock [preservamos o anglicanismo do original] de ouro do BPC alcança as 2.330 toneladas. A motivação por detrás da compra do ouro. Cada vez mais analistas de mercado do ouro e funcionários dos bancos centrais reconhecem que com suas compras de ouro muitos bancos centrais procuram respaldar suas moedas em um ativo que não é passivo de outro governo ou banco central. Em particular, se trata de reduzir a dependência com respeito ao dólar como moeda de reserva (operou-se uma desdolarização  de reservas internacionais nos últimos 20 anos; voltamos sobre esse tema em um próximo artigo.) Em particular, a diminuição da exposição ao dólar estaria no primeiro plano das preocupações da China. As sanções da OTAN à Rússia depois da invasão à Ucrânia foram um alerta. Com respaldo dos aliados europeus, os EUA congelou reservas oficiais russas; excluiu a Russia do sistema de comunicação SWIFT para as compras de ouro por parte dos bancos centrais, e o caso da China, em primeiro lugar , se explica nesse contexto de tensões geopolíticas crescentes. Lembremos que as reservas da China, avaliadas em uns US$ 3,2 Bilhões, estão majoritariamente em dólares e bônus do tesouro dos EUA. As compras de ouro reduzem a exposição a represálias financeiras e monetárias; e fortalecem o respaldo das moedas nacionais. Em uma perspectiva histórica , se calcula que ao redor de 208.874 toneladas de ouro foram minadas ao longo da história (WGC, fevereiro 2023) das quais aproximadamente dois terços foram entre 1950 e o presente. Sempre segundo o WGC, todo o ouro extraído da terra entraria em um cubo de 22 metros de lado (No seu Ouro e moeda na história 1450-1920 Pierre Vilar diz que todo o ouro disponível na Europa em 1500 poderia ser contido em um cubo de 2 metros de lado). Dado para os defensores da teoria quantitativa do dinheiro: A massa de moeda-ouro nunca pode ser comparada com a quantidade de mercadorias multiplicadas pelos seus preços (inclusive quando regia o padrão ouro). Destacamos por sua vez que se mantém o papel do metal amarelo com reserva de valor: Aos finais de 2022 o ouro em barras e moedas, incluindo o que respaldava ETFs, totalizava 46.517 toneladas (22% do total). O stock de ouro em forma de joalheria alcançava 95.547 toneladas (46%). Uma parte deste ouro é empregada em joalheria barata, já que o objetivo é o entesouramento (por exemplo, na índia). Por sua vez, os bancos centrais reuniam 35.715 toneladas (17%) e “outros” stocks 31.096 toneladas (15%). O ouro como “existência da riqueza Abstrata” Os dados anteriores encaixam mal com a conhecida afirmação de Keynes de que o ouro em sua função monetária seria “uma bárbara relíquia”, em vias de extinção, ou pouco menos. Passam-se os anos e as décadas e os Stocks da “bárbara relíquia” sustenta-se e inclusive se incrementam, na medida em que cresce a riqueza burguesa. A teoria de Marx, ao contrário, sugere uma explicação do fenômeno que parte de reconhecer que o ouro representa uma relação social (O Capital, Cap1,livro 1). De maneira que seu entesouramento deve poder se explicar pela mesma natureza do modo de produção capitalista. A esse respeito, Marx resgata o elemento de verdade contido no ideal mercantilista de acumular ouro e prata: É manifestação, diz, da “vocação da sociedade burguesa, fazer dinheiro”. Acumular ouro e prata é incrementar “a existência da riqueza abstrata” (Contribuição para a crítica da Economia Política). é “abstrata” porque o valor de uso do ouro passa a ser expressão do seu contrário, do valor, algo que é puramente social, por fora do conteúdo material da riqueza (questão teoricamente irresoluta para os que explicam o valor do dinheiro-ouro por sua utilidade). O qual subjaz a aspiração de “ correr atrás do tesouro eterno que não pode ser corroído nem pelas formigas, nem pela ferrugem” (Contribuição..). Em definitivo, tudo indicaria que o ouro segue sendo “a forma sempre pronta, absolutamente social da riqueza” (O Capital), não só para investidores privados, senão também para os Estados capitalistas e seus bancos centrais: Daí também o fetiche do ouro. A crítica marxista  não deveria ignorar estas questões, que estão no seio das contradições da mercadoria (e em consequência, do capital). Referências bibliográficas: MARX, Karl. Contribuição à Crítica da Economia Política . Tradução e introdução de Florestan Fernandes. 2. ed. São Paulo: Expressão Popular, 2008. Notas do tradutor: *Texto originalmente publicado no blog Economia e Marxismo no dia 27 de Julho de 2023 ** Na tradução usamos  a edição da Contribuição à crítica da Economia Política da Expressão Popular para não  traduzir a passagem de Marx para uma terceira língua: Do alemão-espanhol-português. No  texto original de Astarita, a citação ao texto de Marx usa polilla onde a Expressão Popular  usou formiga. Pollila é literalmente Mariposa, o que é contra intuitivo para o leitor brasileiro  já que na passagem Marx se refere a algum animal capaz de “perfurar” as cédulas, como as  formigas fazem com as folhas das árvores. *** No original: “y el de China”  expressão coloquial comum no espanhol rioplatense para se referir “ao caso de..” ou “na  situação de...”.

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