Notas sobre o desencadeamento político global no ano de 2025
- Barravento Revista
- 5 de jan.
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Em um ano de acirramento das contradições típicas da sociabilidade do capital, a extrema-direita, além de consolidar o espaço conquistado na última década, busca expandir sua hegemonia na correlação de forças mundial, arregimentando as frustrações da classe trabalhadora e, mais do que isso, intenta se colocar como gestora das sucessivas crises não solucionadas pelas políticas esgotadas do reformismo, hoje expresso principalmente pelo campo progressista internacional.
Israel, o genocídio Palestino e a criminalização do combate ao antissionismo e o antifascismo.
O ano de 2025 foi marcado pela vergonhosa censura politico-midiática mundialmente articulada pelos países centrais do capitalismo global e rapidamente assimilados pelas burguesias nacionais ao redor do mundo, mascarando através dos meios de comunicação hegemônicos o genocídio palestino como um conflito entre iguais, como a guerra entre a civilidade (Israel) e o monstro do “terrorismo” (palestinos). O maniqueísmo típico dos mascaramentos ideológicos abstratos de um capitalismo em deterioração buscou na desculpa de ver o Hamas em todos os lugares, o pretexto para que o governo fascista de Israel destruísse mais de 90% dos edifícios de Gaza e assassinasse mais de 60 mil palestinos segundo a Organização Mundial da saúde (OMS). A instrumentalização da pauta do antissemitismo como forma de normalizar o sionismo replicou (aos moldes da análise marxiana), “primeiro como tragédia e depois como farsa”, um dos mascaramentos mais cruéis e bárbaros vistos na história recente das “civilizadas” democracias liberais. Benjamin Netanyahu, que não pode mais se reeleger para o cargo de primeiro-ministro, fez o “trabalho sujo” para a extrema-direita israelense em conluio com os governos dos EUA (tanto Biden quanto Trump).
O apartheid praticado por Israel soterrou os anseios idealistas, ainda que bem intencionados, dos que sonhavam com uma solução de dois Estados, evidenciando que enquanto existir o Estado sionista de Israel, não haverá paz para o povo palestino e para a classe trabalhadora do chamado Oriente Médio. Tampouco haverá paz para a classe trabalhadora mundial, visto que a forma militarista de autoimposição do governo sionista nos levou a possibilidade de escalada de conflitos entre os blocos hegemônicos do capital.
Para além do contexto regional e apesar das cenas de um genocídio mundialmente assistido — escorrendo pelos dedos da mão de ferro dos algoritmos cenas da barbárie através de canais independentes —, o consenso dos grandes oligopólios de mídia em censurar as expressões de apoio para a causa palestina (além da reiterada e explícita repressão policial, com detenções às manifestações físicas e de ativistas internacionais), evidência o caráter privado das redes, controladas de maneira impessoal, mas muito bem direcionadas, via algoritmos que normalmente não têm seus parâmetros claros ao público. Temos aí uma contradição importante dessa era digital, que se expressa na medida em que a insatisfação da classe cresce mundialmente. Quando esta mesma classe se alinha à esquerda e busca se valer da velocidade da divulgação para expor as barbáries cometidas pelos capitalistas ao redor do globo, numa tentativa desesperada de circular imagens de um mundo em colapso, cresce também, na mesma velocidade, o controle e o mascaramento perpetrado pelos reais detentores desse espaço supostamente democrático chamado internet.
A cooptação do ressentimento das massas, as redes sociais como potencializadoras da barbárie e a brutalização dos vínculos pessoais.
Enquanto manifestações de apoio a causa palestina e de rechaço ao genocídio cometido por Israel são censurados, as mesmas redes sociais são ambiente para a difusão de discursos de ódio misóginos. Não podemos esquecer que no Brasil em 2025 o machismo e a misoginia fizeram com que homens matassem cerca de 1000 mulheres segundo o Ministério da justiça e Segurança Pública. O atual patamar da violência de gênero no Brasil evidencia a crise do capital, a falta de um bloco histórico revolucionário solidificado e o esgotamento da gestão burguesa progressista de suas próprias contradições, penetrando em todos os poros da sociabilidade.
Avanços, marcos legais e culturais que antes eram tidos como inabaláveis, advindo de ciclos de lutas históricos que culminaram em avanços instrumentalizados pelo progressismo (gênero, racial e afins), já não são suficientes para apaziguar a insatisfação advinda dos e das trabalhadoras. Neste aspecto temos uma contradição gritante e consequentemente uma tática da direita e até mesmo de alguns setores de esquerda para lidar com tal contradição. Esta se exprime no fato de que, tais marcos culturais e legais, advindos da política econômica de crescimento dos primeiros anos do governo petista, ao se consolidarem como conquistas no âmbito do Estado, nos legando avanços culturais e leis como políticas de estado para a formalização do combate às opressões (política de cotas, reconhecimento do racismo como crime de injúria racial, lei maria da penha e demais políticas buscando solucionar a desigualdades de gênero, assistência às camadas mais vulneráveis da classe trabalhadora, incentivo para o acesso ao ensino superior e afins) se tivessem sua expansão afirmada de maneira efetiva, levaria nada mais e nada menos que a uma demanda cada vez maior de aprofundamento na solução de tais mazelas, indo de encontro necessariamente com as políticas econômicas de corte de gastos.
Partindo desta tensão colocada, o reformismo lida com tais pautas de forma puramente marketeira ao impulsioná-las durante o período eleitoral e até mesmo gesta (ou retroalimenta) em seu bojo um rechaço reacionário a tais pautas na medida em que elas são fatores de cobrança advindas da classe, sobretudo a classe organizada, que coloca a própria gestão reformista contra a parede (a exemplo do que se observa a partir de 2022). Se tornou comum nos setores reformistas a análise preguiçosa de enquadrar qualquer movimento que cobra ações efetivas do governo diretamente nessas questões como “pós-modernismo” e “identitarismo”, como se os casos de feminicídios não viessem numa crescente, como se o racismo não fosse a forma predominante de tratamento das pessoas negras no capitalismo brasileiro, como se a direita não estivesse pronta para transformar as periferias em campos de guerra por meio de operações policiais eleitoreiras, como se não fossem bandeiras históricas dos movimentos de esquerda colocar na ordem do dia tais questões e se mobilizar para que a disputa e o combate ao capitalismo passem por elas.
Já a direita, sobretudo após sua derrota eleitoral aos 45 do segundo tempo das eleições e por uma diferença ínfima em termos proporcionais de votantes, recorre a tática com a qual sempre se colocou mais forte diante do reformismo brasileiro: não tendo força para derrubar legalmente as regras jurídicas do jogo (apesar de ter tentado várias vezes), apela para sua capilarização nas massas a fim — também — de esvaziar no cotidiano das relações na classe trabalhadora qualquer progresso de costumes e reconhecimento nos assuntos que o progressismo tanto se valeu para conquistar e manter sua hegemonia. Aposta na mobilização cotidiana (nas redes e nos espaços urbanos) simbólica reacionária ligadas ao machismo, as religiões dominantes, ao cristianismo mais obtuso, ao terrorismo psicológico das diversas ideologias que surgem com as contradições latentes dos problemas do capital no Brasil (evidentes na crise da segurança pública), para disputar a consciência e a formação subjetiva das massas trabalhadoras. Nesse ínterim, a explosão dos movimentos red pills despontam – como causa e efeito - no leque de ferramenta dos setores burgueses da sociedade brasileira ligados ao bolsonarismo e a centro direita, tendendo sempre a se alinharem econômica e politicamente, numa simbiose macabra. A contradição entre o Estado com seu aparato político e jurídico e a sociedade civil tende a se acentuar no desenvolvimento conjutural, na mesma medida que se acentuarão as disputas em ambos os âmbitos.
Perante a degradação das condições de vida e trabalho, o patriarcado no modo de produção capitalista retoma as velhas, porém vividas, fórmulas de regulação opressiva das relações de gênero, tendo a família monogâmica enquanto núcleo da reprodução social capitalista. O patriarcado enquanto regime de reprodução capitalista no interior da família mata as mulheres, afeta as crianças e, ao mesmo tempo, degrada a subjetividade socialmente estipulada como masculina, como bem pontuou a militante Nathália Mozer (PCB). A luta pela vida das mulheres e seus direitos reprodutivos se faz essencial na medida que a degradação das condições de emprego aliada à função produtiva que o patriarcado imputa aos homens enquanto “chefes de família” faz com que parte considerável dos homens trabalhadores adiram a ideologias conservadoras e misóginas como a Red Pill.
A Internacional Reacionária e a morte da esquerda
Diante de uma conjuntura marcada pela intensificação da degradação ecológica, pelo avanço tecnológico não planejado e feito sob as espontâneas e fetichizadas relações de troca no capitalismo, pelo acirramento das disputas geopolíticas (especialmente em seu âmbito geoestratégico) entre as potências capitalistas e pelo genocídio do povo palestino, a incapacidade dos setores de esquerda em conduzir as massas para um projeto político de ruptura se faz flagrante.
A ofensiva da extrema-direita em todo o mundo, principalmente no chamado ocidente - estruturada na forma de uma Internacional Reacionária em expansão, com unidade de ação e um aparente programa mínimo (a liberação de quaisquer amarras no processo de reprodução do capital e ampliação da vigilância internacional) - faz com que seja urgente para os comunistas tirar lições do último ciclo de governos progressistas (encerrado com a vitória eleitoral de direita na Bolívia). Caso contrário, a ascendente cooptação das insatisfações populares pela extrema-direita, tende a ser terra arrasada no embate político.
Vemos em nosso continente, em seus últimos espasmos vacilantes e ainda mais rebaixados, o esgotamento da chamada “Onda Rosa”: desde a acachapante vitória da direita pinochetista no Chile (com 59% dos votos) e da crise política na Venezuela, até o Brasil em que o petismo busca se segurar na institucionalidade, nos legando não mais que vitórias advindas dos erros de seus adversários, que não dão sinais de que serão finalmente derrotados (devem apenas se rearticular em novas faces e métodos).
O equívoco de Francis Fukuyama com relação ao seu “fim da história” nos anos 1990, tem se tornado um pesadelo para o progressismo na medida que a história continua e os principais setores da extrema-direita sabem disso, e a tem conduzido em direção aos seus interesses. Resta para as principais forças progressistas um papel defensivo, e, por vezes, reativo às pautas imposta pela direita. O ano de 2025 se encerra com uma ofensiva político-militar do governo Trump em relação aos governos de Venezuela e Colômbia, em um ato de pirataria ao primeiro e ameaça ao segundo (o que se comprovou com o bombardeio de Caracas e sequestro de Nicolás Maduro do dia 03 de janeiro).
Os ataques não são somente uma projeção no contexto de disputa geopolítica por recursos no Atlântico equatorial/norte, mas também é um claro flanqueamento que visa animar as lideranças internas de extrema-direita latino-americanas para atuarem em suas respectivas conjunturas locais com a replicação da retórica do “combate ao terrorismo” em uma visada de criminalizar setores marginalizados e grupos opositores e legitimar um regime de exceção em operações que supostamente combateriam organizações criminosas, como recentemente ocorreu nos complexos do Alemão e da Penha no dia 29 de outubro no Rio de Janeiro. A estratégia da extrema-direita não tem elementos novos, como antes é claramente cooptar o medo e a sensação de insegurança presente na classe trabalhadora - medo e inseguranças estas causadas pelas próprias condições de vida no capitalismo em sua fase neoliberal - para legitimar e naturalizar uma política de repressão à própria classe. Talvez o que possamos elencar de novidade neste contexto, seja a perda de hegemonia inconteste dos EUA’s no capitalismo global, fator que o faz dobrar as apostas em todos os cantos do globo, na tentativa de manter suas zonas de influência mesmo perante a expansão econômica do bloco capitalista chinês.
De um lado temos um setor burguês mais poderoso e concentrado em torno do projeto político reacionário, sendo 2025 o ano onde Elon Musk se tornou o primeiro trilionário do mundo. De outro, as massas trabalhadoras; desarticuladas em sua grande maioria, imersas sob toneladas de investimentos burgueses no controle dos canais de impressa ou loteamento das mídias virtuais e, mesmo quando organizadas em pequenos nichos, se debatendo para encontrar métodos e saídas (com pontuais avanços que não se solidificam em um bloco histórico). Somado a isso, se encontram majoritariamente amedrontadas devido à degradação constante das condições de trabalho e destruição ambiental que ameaça o futuro da humanidade, possibilidades de escaladas nos conflitos advindos das constantes repartições do globo entre os capitalistas e a piora cotidiana das condições de vida (moradia, alimentação, saúde e seguridade social), atingindo até mesmo nações centrais do capitalismo. As contradições entre capital e trabalho se evidenciam em direção ao conflito de interesses de classe, para além das fronteiras nacionais como quer reduzir o simples nacionalismo.
Entre os dois está o setor progressista que conquistou o poder político nos últimos 30 anos na América Latina e que é incapaz de apresentar uma alternativa de projeto social na direção da solução dos problemas essenciais da classe trabalhadora. A esquerda reformista, eufemisticamente chamada de “progressista” se vê refém de suas próprias contradições: o apelo às “instituições democráticas” se torna cada vez mais ineficaz diante de uma extrema-direita que se exime de participar dos “espaços de diálogo da comunidade internacional” - como o governo Trump fez recentemente ao se ausentar da COP 30 - e aos invés disso aproveita uma correlação de forças extremamente favorável para si desde a queda da URSS (já que tanto Rússia quanto China, apesar de rivalizam com os EUA, tampouco atuam politicamente para além dos seus próprios interesses políticos imediatos: o que reforça o caráter burguês dos governos desses países) para implementar sua agenda antiterrorista em todo o globo, da América Latina à Ásia. No extremo oriente, a recém eleita primeira-ministra japonesa Sanae Takaichi e Bongbong Marcos das Filipinas desempenham o papel que aqui (na A.L) é feito por Javier Milei e Naybe Bukele.
Encurralada pelos próprios recuos, a dita esquerda perde cada vez mais espaço nos campos de batalha em que se fez especialista: o parlamento e a administração política do Estado. Se o intento golpista das alas mais reacionárias da extrema-direita encontra-se num crescente mundial que pode ser observado com clareza no exemplo brasileiro, é porque elas carecem de predador natural na fauna política. Não atoa, os episódios do dia 9 para o dia 10 de dezembro na câmara de deputados — Expulsão violenta de Glauber Braga da mesa diretora com corte da transmissão da TV Câmara, agressão à imprensa e aprovação do PL da dosimetria — nos comprovam que o jogo está perdido, por mais que se insista em jogá-lo até o fim. Ainda que em 2026 no Brasil tenhamos que revisitar o drama das saídas de emergências com o medo da “volta do fascismo”, vemos que elas, tanto no Brasil quanto em outros locais do mundo, demonstram ser nada mais que a agonizante emergência de uma saída realmente revolucionária que deve ser construída desde agora!
Há tempos se fala sobre a morte da esquerda, em especial como projeto societário e organização coletiva, mas não o fazemos como descrença na possibilidade de solução dos problemas sociais impostos pela sociedade de classes, mas pelo escancaramento de que, mesmo com esforços hercúleos de elementos neste campo político, houve uma troca da primazia dos interesses concretos (além dos subjetivos) do proletariado pela primazia da negociata politicista em prol de uma suposta democracia, que mantém-se como ditadura da classe capitalista. Não há solução no Estado Democrático de Direito, pois este é a salvação para os os grandes proprietários. Ele é a expressão política das relações sócio-econômicas, que tem como seu fundamento a reprodução da sacrossanta propriedade privada.
Dessa maneira, o crescente golpismo reacionário assume formas distintas daquelas encontradas no século passado (Estado Novo, ditadura empresarial-militar, operação condor, franquismo, etc.), ou seja, o da tomada do poder à base das baionetas, de modo que não é mais necessário para a maioria dos setores reacionários operarem uma ruptura com a forma democrática para executarem seus fins, escancarando publicamente sua censura, abuso de poder, violência e mesquinhez. Tática essa adotada globalmente pela Internacional Reacionária, cuja organização, embora lhe falte estatuto e resoluções congressuais, caminha com mais assertividade e efetividade que qualquer reunião internacional de partidos comunistas e socialistas. Desaprendemos com a História, nossos inimigos não; independente de suas divergências regionais, a extrema direita vêm, dia após dia, demonstrando sua agenda unificada, ao passo que a assim chamada esquerda se acanha, por vontade própria, para caber nas votações de uma sessão qualquer legislativa.
Pesa em nosso país o especial momento pré-eleitoral que se inicia. Sem muitas perspectivas com relação à sucessão da presidência, aposta-se no suprassumo neoliberal lulista e na carta em branco dada ao petismo para mais uma vez fazer valer a inescrupulosa tentativa de conciliação de classes. Dessa maneira, não é leviano afirmar que até no campo eleitoral, onde tanto nos especializamos, perdemos mesmo ganhando. Embora tenha se estabelecido julgamento e punições aos golpistas e militares reacionários como nunca antes nesse país (o que é, de fato, uma vitória), a mistificada correlação de forças nunca está favorável para avançar rápida e assertivamente no que há de mais imediato para a classe trabalhadora, como é o caso do fim da escala 6x1, que atravessou o ano em discussão na Câmara e finda o ano sem votação. Mesmo a punição dos golpistas já se enfraquece com o PL da dosimetria, aprovado na Câmara na madrugada do dia 9 de dezembro e no Senado no dia 19.
Conclusão e necessária rearticulação do movimento comunista.
Todas as disputas políticas apresentadas se dão em um contexto onde o capital chinês desponta como possivelmente sendo o hegemônico para os próximos anos a nível mundial devido a sua capacidade produtiva, tendo o banco central, sob direção do partido comunista chinês, anunciado esse ano um superávit de 1 trilhão de dólares . Um modelo de gestão capitalista baseado em um controle centralizado no controle do fluxo de capitais e da infra estrutura produtiva, mas espontâneo na realização das trocas mundiais através dos setores privados, evidencia sinais de ganhar a disputa intercapitalista com os EUA, já que o deslocamento das cadeias produtivas do Atlântico norte para a Ásia nos últimos 40 anos, especialmente para a China nos últimos 30, se mostra uma tendência cada vez mais irreversível. Isso se dá pelo contexto específico em que se deu a abertura de capitais chinesa a partir da década de 70 - tanto o potencial mercado consumidor interno, o baixo preço da força de trabalho, quanto a concentração dos meios de produção na mão do Estado devido a Revolução Chinesa - colocou a China em vantagem em relação às demais potências, levando a cabo um processo de industrialização em uma escala muito maior do que se deu com os países do centro do capital, e quase irrepetível para os demais países da periferia.
A América Latina, enquanto continente que tende menos a crescer, têm governos de centro-esquerda nos dois principais polos industriais da região: Brasil e México, sendo esses dois países os únicos que cresceram significativamente em tais governos “progressistas”. Apesar do crescimento não se reverter necessariamente em melhoria da qualidade de vida para os trabalhadores devido a baixa qualidade do emprego, o que faz com que os governos de centro-esquerda desses países fiquem ainda a espreita, tendo que propagandear seus índices econômicos para uma classe cada vez mais precarizada em regime de trabalho uberizados. Diante da degradação da qualidade do emprego, a luta por regulação dos setores precarizados e mecanismos de seguridade se fazem necessários pois a subjetividade desses setores sem uma referência programática clara de pautas de melhoria das condições de trabalho bem como a própria redução da jornada laboral, se torna presa fácil de ideologias neoliberais produtivistas e reacionárias, mesmo que os governos progressistas tentem apresentar índices de redução e pobreza como ocorre com Brasil e México.
O laboratório neoliberal feito no Chile, elevou cerca de 40% da população as classes médias no final do século XX e início do XXI, devido ao boom das commodities na primeira década de nosso século, e agora, em sua primeira eleição presidencial obrigatória, viu os restante 60% da população que antes não votavam e que ficavam com os dejetos do crescimento eleger o pinochetista José Antônio Kast. Tal fenômeno, aparentemente paradoxal para um militante da esquerda que desenvolveu sua atividade política predominantemente no século XX, se deve ao fato de que a extrema-direita pós-guerra fria - na ausência de um inimigo direto a qual associar a ele a própria irracionalidade do modo de vida sob o capitalismo, como era feito com a URSS - conseguiu exitosamente atribuir as consequências da economia globalizada aos governos de esquerda primeiro, e ao ideário progressista em geral, depois. Os setores de esquerda - hegemonizados pelos setores médios devido à repressão das organizações de massas através de ditaduras ou de governos civis ao longo de todo o século passado, mas também devido a capitulação de organismos históricos à governos reformistas - tem agora dificuldade (ou nem buscam) de formar novos quadros de massas que articulem as demandas imediatas das massas a um horizonte de ruptura política com o modo de produção, ruptura essa que só a classe trabalhadora pode desempenhar. Na impossibilidade do horizonte de ruptura da forma societal ser apresentada por movimentos anticapitalistas, é a extrema-direita que o faz, em direção não ao comunismo mas à um nível de barbárie institucionalizada talvez nunca antes visto na história da humanidade. Portanto, aos comunistas cabe tarefa de compreender e analisar as mudanças do modo de produção pós-fordista na morfologia objetiva e subjetiva da classe para que as velhas formas políticas de organização sejam superadas por outras efetivas na superação do capitalismo, ainda que sob a acusação de revisionistas vindas daqueles setores que ainda estão melancolizados, apegados a um mundo de direitos e garantias jurídicas - o mundo do século XX - que já não existe mais.
A despeito das tentativas de reação por parte de setores importantes de nossa classe, como nos países europeus, alguns até com greves e enfrentamentos diretos, ou como no caso das diversas mobilizações de massa na América Latina puxadas pelas organizações de esquerda, todas elas um respiro límpido para nossos pulmões sufocados nessa atmosfera densa pela falta de alternativas, nos vimos sem meios de intervir enquanto bloco históricos de trabalhadores. Que o futuro nos traga mais eficiência, maior articulação e maior poder de combate.




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