O atentado contra a Venezuela e a ingerência do imperialismo na América Latina
- Lucas Rodrigues
- 4 de jan.
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A esta altura, já é de conhecimento público que os Estados Unidos realizaram ataques militares contra pelo menos sete pontos estratégicos das Forças Armadas da Venezuela: a academia militar bolivariana da marinha, o porto de La Guarira, a base de La Carlota, a base militar do Forte Tiuna, o observatório Cagigal, as Antenas El Volcán e o aeroporto Higuerote inauguram uma nova fase na correlação de forças da política latino-americana. A operação durou duas horas, matou cerca de quarenta civis e nos deu uma breve demonstração do que são capazes os atuais gestores políticos do capital estadunidense, nomeadamente, o séquito trumpista. O episódio supera os golpes e invasões militares na América Latina e Oriente Médio do último século por sua ousadia. Donald Trump, desavergonhadamente, em seu primeiro pronunciamento a respeito da operação, mencionou o interesse das petrolíferas norte-americanas no abundante petróleo venezuelano e chegou a afirmar a possibilidade de uma governança estadunidense direta do território, escancarando o caráter intervencionista de suas incursões pelo Mar do Caribe sob o pretexto de combater o narcotráfico.
O condenável sequestro de Nicolás Maduro é uma demonstração de força e poder dos Estados Unidos enquanto potência hegemônica global que, mesmo passando por um forte abalo de seu domínio econômico, tenta demarcar o continente americano como sua área de influência, resgatando abertamente a Doutrina Monroe.
Para os setores de esquerda que se agarram a uma concepção um tanto campista da correlação de forças global, o estupor e a surpresa podem acometê-los: China e Rússia se limitaram a repudiar os ataques dos EUA através de tímidas notas e, até o momento, não deram qualquer sinal de que vão fornecer auxílio militar ou econômico (curiosamente, o representante chinês para a América Latina estava em Caracas no momento dos ataques e havia se reunido com Maduro). Não seria absurdo pensar que Trump, na busca por garantir uma partilha do mundo entre grandes potências econômicas, possa ter se precavido negociando a América Latina como sua zona de influência, dando em troca seu aval aos interesses russos na Ucrânia e aos chineses no sudeste asiático, principalmente na relação com Taiwan.
Não se pode esquecer que pouco tempo antes de Trump começar o deslocamento de tropas no Caribe, ele havia tido uma “produtiva conversa” com Vladimir Putin no Alasca. Tal negociata se torna possível e provável na medida em que todo o sócio-metabolismo do capital permanece plenamente vigente não apenas na Rússia, como também na China. Os gestores políticos da alta cúpula desses países pensam e articulam seus projetos nacionais particulares (sejam eles chamados de projetos socialistas ou não, como no caso chinês) tendo a garantia das condições gerais para reprodução do capital como objetivo. É preciso ter em mente que a política chinesa está muito distante mesmo da mais rebaixada das políticas internacionais soviéticas durante a Guerra Fria, já que a URSS, mesmo que movida pelos interesses mais mesquinhos, interveio indiretamente em muitas lutas decisivas do século passado. A China parece realmente ter como o melhor dos horizontes a mera divisão do mundo, como reza a cartilha da lógica do capital.
Por outro lado, no plano interno venezuelano, subsistem importantes incógnitas quanto às condições que teriam permitido às forças militares dos Estados Unidos realizar uma operação sem obstáculos significativos e sem resistência armada. Não se pode descartar a hipótese de que sectores das Forças Armadas venezuelanas tenham facilitado ou mesmo colaborado abertamente com a Força Delta dos EUA no sequestro de Maduro. Em rigor, tudo indica que apenas uma traição oriunda do alto escalão do governo, articulada com uma intervenção direta norte-americana, teria capacidade real para derrubar o presidente. O bolivarianismo vinha demonstrando notável capacidade de sobrevivência política – capacidade essa que precisaria de uma análise aprofundada sobre a relação complexa entre as lideranças políticas e os militares. A oposição de direita jamais conseguiu representar uma ameaça efetiva ao governo Maduro, e nenhuma dissidência militar relevante chegou a prosperar no seio do Exército. No entanto, mais recentemente, a política interna conduzida pelo sucessor de Chávez acabou por empurrar o país para um quadro acentuado de isolamento regional. Até mesmo aliados naturais, como o governo colombiano e brasileiro, questionaram a legitimidade do resultado das urnas que reelegeu Maduro. Se o governo vinha sobrevivendo às sanções aplicadas à Venezuela pelos EUA desde 2014, os últimos acontecimentos acirraram decisivamente a permanente tensão entre o governo venezuelano e as potências capitalistas mundiais.
O dilema vivido pela Venezuela dos nossos dias configura-se como uma verdadeira bomba-relógio, resultado de um processo político radical, de caráter popular, democrática e anti-oligárquica – iniciado pela eleição de Chávez –, que, contudo, não promoveu uma transformação revolucionária das estruturas econômicas. Essa contradição gerou impasses profundos na base produtiva do país. A perigosa dependência da economia petrolífera, a instabilidade econômica imposta às massas populares, o consequente afastamento destas dos processos políticos e econômicos decisivos, bem como a consolidação de uma vasta burocracia militarizada, distante da vida cotidiana do povo, são manifestações evidentes desse impasse estrutural.
Não há a menor dúvida de que à classe trabalhadora venezuelana interessa, no plano imediato, a defesa da soberania de seu país. Mas para isso, é indispensável que as massas populares estejam dispostas a enfrentar não apenas os inimigos externos, mas também os internos. Nesse sentido, não se pode ignorar o esgotamento tanto retórico quanto prático da chamada “Revolução Bolivariana”, inserida, aliás, num contexto mais amplo de declínio da chamada “onda rosa” latino-americana. Esse processo político transitou da defesa do famigerado “socialismo do século XXI” para um chauvinismo tardio, no qual o chamado “projeto nacional” passou a expressar-se, entre outras coisas, na tentativa de recuperar o território atualmente guianense de Essequibo. Tratou-se de uma manobra semelhante à realizada por Leopoldo Galtieri em relação às Ilhas Malvinas, em 1982: uma reivindicação territorial que, embora possa ser considerada legítima – e no caso das Malvinas certamente o é –, é instrumentalizada por um governo que representa a burguesia, ou ao menos um setor dela, com o objetivo de produzir um efeito artificial de coesão nacional em torno do antagonismo com um inimigo externo. Tal estratégia servia para legitimar o governo Maduro num momento em que, internamente, as nacionalizações e estatizações do período Chávez entraram em processo de reversão, através de gestões privadas de empresas públicas, numa economia que permanece estruturalmente dependente da monoexportação de petróleo. Nessas condições, o governo bolivariano – não apenas sob Maduro – revela seus limites e não se apresenta como uma alternativa revolucionária para a classe trabalhadora.
O ato de terror estatal perpetrado contra o povo venezuelano só pode ser compreendido como um sinal verde para que as forças efetivamente revolucionárias avancem. Assim, para além do repúdio incondicional à ingerência imperialista, impõe-se aos sectores mais avançados da esquerda venezuelana a tarefa de radicalizar o processo bolivariano, orientando-o no sentido de uma verdadeira revolução social. Convém recordar que se trata de um país no qual existem milícias populares armadas e importantes meios de mobilização das massas – ainda que estes tenham sido atravessados, ao longo do tempo, por processos de burocratização e de repressão aos comunistas venezuelanos ¹. A questão decisiva é saber em que medida as condições sociais concretas da Venezuela podem transformar o país não em um Afeganistão latino-americano, mas sim em um Vietnã das Américas.
Aos comunistas dos demais países, para além do necessário e evidente repúdio à política externa dos Estados Unidos e aos seus títeres regionais, cabe a tarefa de estudar com seriedade a estratégia e a tática da extrema-direita internacional e qual o movimento do capital ela tem efetivamente representado. Trata-se de um campo político que não apenas se vangloria da própria barbárie, como também ameaça abertamente lideranças de outros países, apresentando-as como potenciais alvos futuros. Compreender esse movimento é condição indispensável para antecipar seus métodos, desmascarar suas alianças e organizar uma resposta internacionalista à altura dos desafios colocados. ***
1) Para uma análise in loco das perseguições aos comunistas e crises do governo de Maduro, vale ver balanço do PCV.




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