top of page

O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho – uma ode ao ofício do historiador

  • Foto do escritor: Igor Dias
    Igor Dias
  • 13 de nov. de 2025
  • 3 min de leitura

Atualizado: 18 de nov. de 2025

Cena de O Agente Secreto
Cena de O Agente Secreto

Por Igor Dias


Desde o pacto federativo de 1988, a produção audiovisual brasileira foi marcada por filmes acerca da ditadura empresarial-militar levada a cabo no país de 1964 a 1985. Com o cenário político contemporâneo marcado pela ascensão da extrema direita prócere da ditadura, personificada na família Bolsonaro e aliados, temáticas de memória do período encontram novamente nas telonas um espaço privilegiado para dar conta, por meio da História e da narrativa fílmica, tanto de problemas sociais, no melhor espírito da primeira geração dos Annales, como dos anos subsequentes ao fim do regime.


As incontáveis premiações, entre elas o Oscar, conquistadas pela obra Ainda Estou Aqui (2024) novamente abriram as discussões acerca do direito à memória, fragilmente executado pela Comissão da Verdade em 2011 (26 anos após o fim do regime) com a garantia de impunidade aos lesas-pátrias, torturadores e assassinos a serem identificados; uma memória sem responsabilização e sem reparação, ou seja, sem justiça. Estes marcos temporais de que se fala tanto em nosso país explicam-se nos debates acerca das balizas definidoras do escopo da História do Tempo Presente, muitas vezes definidas pelo último grande trauma a marcar nossa sociedade. Nesse sentido, o velho continente tende a se balizar pela Segunda Grande Guerra, que este ano completou 66 anos de seu fim, porém, as condições históricas do Cone Sul são profundamente distintas daquelas encontradas no centro do capital, não podendo, portanto, ser definidas pelos mesmos limites temporais.


Os países cuja entificação do Capital ocorreu de modo hiper-tardio, foram submetidos a todo tipo de pressão e repressão para se manterem na periferia do mundo, tanto por agentes externos, ou seja, pelo interesse dos países imperialistas, quanto por agentes internos, nossas próprias burguesias (urbana e rural), que se beneficiam da posição subserviente que ocupam nas relações de Capital internacionalmente. Este marco, para muitos dos países do Cone Sul, são as ditaduras militares da segunda metade do século XX, financiadas com largo apoio dos Estragos Unidos da América. Nossas feridas ainda estão abertas e não fizemos o trabalho de tratá-las adequadamente.


Nesse sentido, no último dia 6 de novembro, estreou O Agente Secreto, novo filme de Kleber Mendonça Filho, já aclamado por Bacurau (2019), Aquarius (2016) e O Som ao Redor (2012). Apesar de usualmente trabalhar bem o olhar crítico para problemas sociais, dessa vez, o diretor parece ter chegado na maturidade de sua linguagem cinematográfica ao experimentar uma narrativa lacunar que desenvolve o enredo por meio da relação entre a encenação do que aparentemente ocorreu e as fontes, escritas (jornais) e em áudio (cassetes), construídas pelos personagens desta maravilhosa ficção, tanto no passado quanto no presente. Resultado disso é a constituição de um problema concreto e não uma crítica social abstrata: o problema da relação entre História e o direito à memória, tendo como base o contexto da ditadura empresarial-militar brasileira; algo fundamental quando observamos que somente no último dia 9 de outubro, 40 anos após o fim do regime militar, a República Federativa do Brasil iniciou a retificação dos atestados de óbito de mortos e desaparecidos políticos durante o período.


Ao buscar reconstituir, ainda que na lógica ficcional, o passado no presente, a obra nos demonstra em diversos níveis a impossibilidade de completa restituição do passado, inclusive podendo dar a ele novo sentido no presente, a exemplo da interpretação ficcional apresentada sobre o caso real da “Perna Cabeluda” que assolou Recife naquele ano de 1976 e que talvez tenha tido o maior impacto na recepção do filme. O filme optou por representar a ação da perna tal qual descrito nos jornais, ou seja, de uma perna humana desprovida de corpo que agredia os civis, tomando-a por ser folclórico-mitológico, quando, em verdade, é resultado de uma narrativa que buscou burlar a censura e apresentar casos de violência policial nos jornais.


Ainda mais essencial é a forma como as informações sobre os personagens não são entregues descaradamente (muito se valendo de uma montagem meticulosa para conectar informações), cabendo ao espectador desvendar a peça audiovisual que se desvela aos seus olhos e realizar, por si próprio, a ligação causal do que se estabelece, à exceção do enredo central, que conta a história de Marcelo/Armando. Desse modo, rememorar o período ditatorial significa também acessar, numa posição de espectador ativo, todo seu repertório acerca do período e tomar partido das informações apresentadas; o que fomenta não só o direito à memória, mas a responsabilidade e o direito de ação frente a essa memória ao nos colocar perante o agora Dr. Fernando em um dilema não respondido: manteremos nossos pais esquecidos ou acessaremos as fontes que, ainda que dolorosas, nos permitirão manter a memória viva?

© Barravento

REVISTA BARRAVENTO

bottom of page