A Arte pela Arte e a Literatura Proletária (1926)
- há 2 horas
- 9 min de leitura

György Lukács1
Tradução para o português: Wesley Sousa e Felipe Alves
A arte pela arte é sempre um sinal claro de desespero de uma classe social quanto a sua própria existência. Isso se deve quanto à possibilidade no quadro traçado pela estrutura econômica da sociedade que lhe é subjacente, bem como pelas formas e os conteúdos da vida social que resultam de forma figurativa o modo que tenha sua existência digna do ser humano.
Quem conhece os grandes e honestos representantes da arte pela arte [l’art pour l’art] (menciono sobretudo Gustave Flaubert e, particularmente, suas cartas) sabe quanto esse desespero os afetou profundamente. Eles sabem o quanto suas posturas “puramente artísticas” não eram mais do que uma máscara que escondia toda evidência do ódio furioso e desprezível de sua própria classe social contra a burguesia.
Apesar disso, mesmo os representantes mais honestos e mais perspicazes desta orientação não conseguiram esclarecer as verdadeiras causas do seu desespero, ou mesmo encontrar em suas palavras uma saída salvadora que desse um senso vital ao artista. Mas isso não é apenas o fato de que, como burgueses, eles não conseguem saltar além de suas limitações, nem rasgar o horizonte de sua existência de classe. Inúmeros membros de sua classe social saíram, na ideia e na prática, dos limites de sua existência burguesa, encontraram o caminho para o proletariado, caminho da justa crítica – a crítica na teoria e na prática – da sociedade burguesa. Além dessa dificuldade para qualquer pessoa nascida burguesa de romper totalmente de sua classe, o limite reside no próprio fato de ser artista.
O artista sempre aborda a vida diretamente. Quanto mais é autenticamente artista, mais ele está na imediatez. Ele pode bem exercer uma crítica, por mais severa que seja, aos homens, grupos, instituições, formas fundamentais da objetividade, sob as quais a vida de seu tempo se apresenta a ele, mas ele precisa manter-se como um artista sempre em uma imediaticidade ingênua e sensível. (Deste ponto de vista, Dante se situa na mesma linha que Homero, Cervantes, na mesma linha que Shakespeare.)
A tragédia do artista na sociedade burguesa, resultado de todo movimento da arte pela arte que reside nessa relação de imediatismo, base de aproximação artística da realidade, é perturbada, ou mesmo tornada impossível. Primeiramente, o desenvolvimento da sociedade burguesa, condicionada pelo desenvolvimento do capitalismo como modo de produção que rege toda a sociedade, torna insuportáveis, abstratas, imateriais, impossíveis de figurar [figurer], as ações humanas e as relações dos homens entre si (a matéria da arte). No capitalismo, a divisão social do trabalho, o predomínio da relação mercantil sobre todos os fenômenos da vida social, o fetichismo de todas as formas de vida que ela está indissociavelmente ligada, etc. mergulha o artista em um ambiente para o qual, por ser artista – com uma sensibilidade poderosa, exigente e seletiva –, ele não pode absolutamente ter uma atividade ingênua – imediata de prazer e de criação jocosa; em relação qual, no entanto, ele não pode – se quiser continuar sendo um artista – comportar-se de maneira puramente crítica e, portanto, intelectual, indo além da imediaticidade.
Esse dilema insolúvel continua a ser exacerbado pelo artista moderno. Como toda arte autêntica e grandiosa é uma figuração [figuration] da vida em suas mais elevadas possibilidades, ela vai sempre além da realidade óbvia e superficial do cotidiano na sua banalidade [platitude]. Ela busca figurar no seu conjunto a vida de sua época, em suas expressões elevadas; abandona o naturalismo para reencontrar a natureza viva; renúncia à imediaticidade posta que o artista reencontra na banalidade, para chegar a uma figuração sensível, englobando tudo que há de essencial. Nesse sentido, toda composição literária autêntica é uma crítica da sua época. Mas o escritor moderno [os modernistas], se ele quiser ser o crítico de seu tempo, deveria manter-se na simples crítica abstrata, imaterial e artisticamente insatisfatória. Para a consciência burguesa, de fato, toda a sociedade é considerada, no máximo, como um conceito abstrato. E se – por razões artísticas – o artista se desvia desta totalidade abstrata, se ele se volta exclusivamente aos fenômenos “concretos” menos isolados percebidos de maneira acrítica, então ele vai artisticamente sufocar-se na trivialidade cinza e desértica da vida burguesa. Sua consciência artística exige dele o impossível (Basta referir-se aqui a Hebbel, Tolstói, Hauptmann etc.)
Isso já deveria ser suficiente para explicar o desespero subjacente à arte pela arte. Mas, em segundo lugar, o desenvolvimento da sociedade burguesa também torna a existência do escritor problemática de uma maneira que nunca havia sido antes. De fato, também interior e exteriormente. Exteriormente, porque a invasão crescente na sociedade pelo capitalismo torna mais restrita a necessidade real e viva da literatura e da arte, transformando cada vez mais a relação entre o escritor e o público em uma relação abstrata, sujeita à lei do valor da relação mercantil. O escritor sabe cada vez menos para quem escreve. E, então, quando ele expressa essa ausência das raízes sociais que seria sua como uma teoria orgulhosa da arte pela arte, isto é, no melhor dos casos, uma autoanestesia desesperada que os artistas honestos estão sempre percebendo em seus instantes de lucidez (volto a referir-me a Flaubert). Mas em artistas de menor envergadura e menos honestos, isso se agrava em uma autoilusão que corrompe o caráter – inclusive como artista (pensemos em artistas do tipo Wilde, d'Annunzio, Hofmannsthal etc.).
Esse desenraizamento social do artista vai se conservar com a ausência intrínseca de raízes da arte. As formas artísticas, como Goethe e Schiller perceberam com toda clareza, nasceram de certas necessidades da experiência vital, na qual as possibilidades típicas da satisfação sensual [sensuelle] mais intensa se condensam em formas artísticas (épico, drama, etc.). Mas o desenvolvimento capitalista, com sua divisão do trabalho que torna abstratas as relações humanas, etc., não somente aniquila a matéria da composição literária, mas esmaga suas formas, engendrando algo nos homens, tornando-os abstratos, socialmente atomizados das necessidades tão caóticas de uma experiência intensa da vida que estas não podem ser satisfeitas adequadamente, qual seja sua forma artística. O escritor deve simplesmente encontrar suas formas em si mesmo: ele se torna um esteta, um adepto da arte pela arte [l’art pour l’art]. Uma grande arte, uma arte referente às formas verdadeiramente perfeitas, nunca nasceu, entretanto, a não ser pela satisfação de uma necessidade clara e nítida da época. Os estetas pesquisadores de formas, sejam eles chamados neorromânticos ou expressionistas, devem permanecer necessariamente desprovidos intrinsecamente de forma.
Certamente há, diríamos, uma arte engajada. Mas esta não indica, de modo algum, uma saída artística para o labirinto da arte pela arte [l’art pour l’art]. É muito mais – de um ponto de vista social e ao mesmo tempo artístico – sua exata imagem invertida. Pois essas “tendências” que devem definir a matéria e a forma das composições literárias e que são possíveis de um ponto de vista burguês na vida burguesa, seja em plano comum das utopias românticas abstratas tão bem acimas da vida materialmente configurada, em que eles não podem mais, no plano artístico se reunir organicamente a ela (o último Ibsen, mais ainda G. Kaiser, Toller, etc.)2, ou seja, tendências que tratam de problemas da vida burguesa tão abstratos e triviais que nunca conseguem atingir o auge artístico.
Esse dilema não é fortuito. Ele reflete a existência social da classe burguesa que – desde a entrada na cena histórica do proletariado, sempre crescente – é cada vez mais incapaz de considerar com imparcialidade as bases de sua existência social. Da mesma forma que é impossível aceitá-la honestamente ou criticá-la com imparcialidade. Ela é obrigada a refugiar-se ou numa hipocrisia desesperada (a “ausência de tema” da arte pela arte, o reinado absoluto da forma), ou desta hipocrisia trivial segundo a qual esses problemas, cuja existência ela própria suspeita, poderiam ser eliminados por “reformas” superficiais.
Assim, na arte pela arte, seja qual for o ponto de vista sob o qual a consideremos, revela-se cada vez mais claramente o beco sem saída em que se encontra a existência burguesa; inclusive do ponto de vista da arte. Mas o que a revolução proletária pode oferecer para o desenvolvimento da arte? Muito pouco, em um primeiro momento. E não é conveniente para o revolucionário proletário, para o marxista, superestimar utopicamente as possibilidades realmente existentes.
Ele não deve, acima de tudo, esquecer que a arte proletária revolucionária se encontra socialmente numa situação largamente mais desfavorável do que aquela em que se encontrava a arte da burguesia revolucionária nos séculos XVII e XVIII. As formas econômico-sociais da vida burguesa já podiam, de fato, desenvolver-se naquela época no seio do mundo feudal [au sein du monde féodal]. Os escritores burgueses estavam então em condições de figurar esta existência de maneira imediatamente sensível inclusive puderam ainda sinceramente crer na vocação de emancipar o mundo (o romance inglês do século XVIII, Diderot, Lessing, etc.). Por outro lado, não só enquanto não destruiu o capitalismo, mas também, como Marx demonstrou de forma incomparável em A Crítica ao Programa de Gotha3, na primeira e inferior fase do comunismo, o proletariado vive num mundo cuja estrutura de fundo (regido pela lei do valor, divisão do trabalho, direito igual e abstrato, etc.) conserva, apesar de todas as revoluções, as formas estruturais do capitalismo. A enorme revolução que vivemos, realizada pelo proletariado revolucionário, perturba inicialmente menos a realidade imediatamente sensível (a matéria e a forma da composição literária) do que se poderia superficialmente acreditar. Isso explica a “decepção” em relação à Revolução Russa por parte dos intelectuais que esperavam dela a solução instantânea para as misérias particulares de suas vidas.
Muita coisa, no entanto, aconteceu. Inclusive para escritores da Europa Ocidental ainda capitalista. Pois para esses escritores inteiramente unidos à revolução proletária, que participam realmente no desenvolvimento revolucionário, que passaram a viver essa experiência, surge uma via de saída das antinomias da arte pela arte. Apesar de todos seus defeitos, O Cidadão [Der Burger], de Leonhard Frank4, se eleva com veemência contra as “literaturas engajadas”. Justamente porque o tamanho de sua tendência permite uma fusão artística viva com o material concreto, porque o ódio vivo ao encontro da sociedade burguesa, que se torna claro e consciente, o leva além da ausência da pura arte formal. E Andersen-Nexø⁵ é bem-sucedido em descrever o despertar da consciência de classe de um trabalhador agrícola com uma riqueza de detalhes e uma vastidão do mundo, como apenas os escritores da melhor época da burguesia conseguiram fazer com seus temas.
Enquanto o resto da Europa lamenta-se, em geral e com justa razão, que a literatura esteja estagnada e careça de jovens escritores talentosos, surge na Rússia toda uma série de jovens escritores de grande talento, nas suas obras – mesmo se são muitas vezes hesitantes e vacilantes – já se pode sentir o terreno firme em que se posicionam como escritores. Isso não é como se agora, subitamente, fosse nascer uma literatura inédita, em ruptura com toda a evolução precedente. Aqueles que esperam e desejam isso são precisamente os mais burgueses, aqueles que estão mais próximos da literatura europeia desesperada, exageradamente formal e informe (sobre essa literatura, cf. o livro do camarada Trotsky, Literatura e revolução6). Pressentimos somente que os escritores começaram a sentir de novo socialmente sob os seus pés um terreno sólido – e repercute sobre o material e a forma de sua literatura. Não me parece, de forma alguma, um acaso que a obra com a forma mais sólida, resultante até agora dessa revolução, tenha sido Uma semana, de Libedinsky7, a obra do proletário e comunista mais consciente entre esses escritores. Pois é precisamente no proletariado e no comunismo que se realiza esse processo que está destinado a superar a sociedade burguesa (e com ela os problemas de sua arte). Certamente, de acordo com o que Marx afirma, “o direito não pode estar acima da organização econômica... da sociedade”8, idem a literatura não pode estar! Mas, se não esperarmos um milagre repentino, uma solução única para todos os problemas, podemos começar a ver e a reconhecer o enorme progresso que se tornou possível na revolução proletária, inclusive para a literatura.
__________________________________________________________________________________________
1 Traduzido por Wesley Sousa (UFMG) e por Felipe Alves (USP). Este texto é a tradução do ensaio L’art pour l’art und proletarische Dichtung (1926). A presente tradução foi feita a partir da versão francesa, realizada por Jean-Pierre Morbois. As notas são todas do tradutor em língua francesa e os itálicos foram mantidos tal como aparecem. O texto original pode ser consultado em: https://amisgeorglukacs.org/2022/04/georg-lukacs-art-pour-l-art-et-litterature-proletarienne.1926.html. Publicado pela primeira vez na revista Die Tat, Monatsschrift für die Zukunft deutscher Kultur [O Fato, periódico para o futuro da cultura alemã], Iena, Eugen Diederichs, 26 de junho de 1926, p. 220-223, em um número especial dedicado à educação dos trabalhadores, entre outros artigos, muitos escritos por social-democratas. [N.T]
2 Georg Kaiser (1878-1945), dramaturgo expressionista e ator alemão. Ernst Toller (1893-1939), escritor, dramaturgo expressionista e poeta alemão.
3 Commentaires en marge du programme du Parti Ouvrier Allemand, Trad. Sonia Dayan-Herzbrun, Paris, Les editions sociales, 2008, pp. 57-58.
4 Leonhard Frank (1882-1961), escritor expressionista alemão, Der Bürger [O cidadão], Berlim, Malik, 1924.
5 Martin Andersen-Nexø, (1869-1954), écrivain danois, communiste. Connu notamment pour Pelle le Conquérant, Paris, Points Seuil, 2005
6 Paris, UGE 10/18, 1971.
7 Youri Nikolaı̈evitch Libedinsky [Юрии˘ Николаевич Либединскии˘ ] (1898-1959) e écrivain et critique sovietique. Неделя [La semaine] Ekaterinbourg, Éditions le livre de l’Oural, 1923.
8 Commentaires en marge du programme du Parti Ouvrier Allemand, op. cit., p. 59.



![Sobre a revista Svoboda [A respeito de uma escrita popular]](https://static.wixstatic.com/media/8a1993_14d2ca08d9fd40a59e4934c99520246a~mv2.webp/v1/fill/w_980,h_707,al_c,q_85,usm_0.66_1.00_0.01,enc_avif,quality_auto/8a1993_14d2ca08d9fd40a59e4934c99520246a~mv2.webp)
Comentários