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Receita para Adiar o Fim do Mundo: acabar com o modo de Produção Capitalista! E nós acadêmicos, o que temos a ver com isso?

  • Foto do escritor: Igor Dias
    Igor Dias
  • há 1 dia
  • 23 min de leitura



APRESENTAÇÃO


É com imenso prazer que a Equipe Editorial da Revista Barravento anuncia a publicação de um texto de autoria da professora Deise Luiza da Silva Ferraz no qual a autora discute o potencial revolucionário da Extensão Universitária, ou seja, a possibilidade de realização de projetos de extensão que possam contribuir para a destruição do modo de produção capitalista. O texto agora publicado pela Revista Barravento foi inicialmente preparado pela autora para a conferência de título “Capitalismo, Colapso Ambiental e Extensão Popular” a qual foi exposta no Seminário "Ciência Tecnologia e Sociedade na Extensão Popular", realizada no CEFET-MG em novembro de 2025.


Ao reivindicar o potencial revolucionário da Extensão Universitária e, por conseguinte, sua capacidade de "adiar o fim do mundo" , o texto em questão nos convida a pensar sobre como efetivamente realizar tal potencial revolucionário. A autora, que possui anos de experiência na realização de projetos de Pesquisa e Extensão junto a Rede Tra-Ma e ao Nec Tra-Ma, como é o caso de projeto com os trabalhadores do Sistema Prisional e Socioeducativo de Minas Gerais, deixa claro que a a Extensão Universitária somente pode adquirir caráter revolucionário se for popular. Assim sendo, a autora sai em defesa da chamada "Extensão Popular", a qual seria parametrizada pelo "método da Produção Compartilhada de Conhecimento", ou seja, uma Extensão Universitária que entrelace pesquisa, ensino, extensão e luta para e com a classe trabalhadora.


Em suma, para antecipar um trecho do texto a seguir: "A prática institucional que chamamos de Extensão tem o potencial de ser o espaço para nós, membros da classe trabalhadora, nos educarmos em conjunto com outros trabalhadores e trabalhadoras a fim de transformar o fazer científico em uma atividade revolucionária na teoria e na prática". Reside aí, portanto, o potencial revolucionário da Extensão Popular quando comparada a outras atividades curriculares tais como Estágios obrigatórios, Iniciação Científica e Monitorias: a possibilidade de entrelaçamento entre pesquisa, ensino e extensão voltado a ação prática revolucionária por parte daqueles envolvidos no projeto diante das circunstâncias concretas estudadas e vividas.


Vê-se, portanto, que a curricularização da Extensão Universitária implementada no ano de 2018 não efetiva per se - grife-se - o potencial revolucionário das atividades de Extensão. Prova disso são as atividades de Extensão que incorrem na apologia do capital e no fomento acrítico à prática empreendedora, atividades que têm sido realizadas em larga escala especialmente no campo do conhecimento ao qual a autora do trabalho que se segue está ligada: o campo da Administração - "ligação" tão somente institucional, é bom que se diga. Isso porque a autora defende, enquanto marxista de rigor, um conhecimento totalizante do real, sendo contrária, portanto, às ciências parcelares e ao restrito enquadramento da produção de conhecimento científico a um único e exclusivo campo do conhecimento. Contudo, a existência de tantos projetos de Extensão de cunho acrítico e, ao fim e ao cabo, apologetas do modo de produção capitalista não atesta o fracasso e/ou à impossibilidade de realização da Extensão Popular nos moldes aludidos pela autora, antes o contrário: deflagra a vigência da cooptação das atividades universitárias pelos interesses da classe dominante e, por conseguinte, atesta a relevância de se discutir a temática da Extensão Popular e sua implementação como forma de adiar o fim do mundo. Isso porque só se adia o fim do mundo destruindo o modo de produção capitalista.


Boa leitura!

Rodrigo Vieira Ferreira (Barravento)[1]


[1] Professor substituto no Departamento de Ciências Administrativas da Faculdade de Administração e Ciências Contábeis da Universidade Federal de Juiz de Fora. Membro da Equipe Editorial e do Núcleo de Entrevistas da Revista Barravento. Pesquisador da Rede-TraMa.



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Receita para Adiar o Fim do Mundo: acabar com o modo de Produção Capitalista! E nós acadêmicos, o que temos a ver com isso?[i]

Por Deise Luiza da Silva Ferraz[ii]

Hodiernamente, é comum dizer que o fim do mundo está mais próximo do que o fim do capitalismo. Querem nos ensinar que é impossível mudar o modo de produção capitalista, porém sabendo: i) que a partir da lei geral das trocas de mercadorias se estabelece uma tendência geral de queda da taxa de lucros, a qual a classe capitalista responde com medidas contrarestantes visando frear tal lei tendencial da produção capitalista: ii) essas medidas passam pelo aumento da produtividade do trabalho mediado pelo desenvolvimento tecnológico subsumido às necessidades da valorização; iii) desenvolvimento que repõe as relações de propriedade privada, onde de um lado temos uma classe que tem a propriedade dos meios de produção e dos meios de subsistência e, de outro, temos uma classe de despossuídos que se encontram numa posição na qual necessariamente sua capacidade de trabalho precisa assumir a forma de mercadoria força de trabalho; iv) necessidade que revela - ainda que não imediatamente - à classe trabalhadora que, para mudar o existente de modo radical, é necessária uma luta intencional para a superação do capitalismo. Uma luta que não se restrinja a adiar o fim do mundo e sim dar fim às condições concretas que fazem do fim do mundo uma realidade cotidiana.

Tendo em mente essa necessidade histórica, pretendo provocá-los e provocá-las a pensar sobre a Extensão Popular como uma ferramenta nesta luta, sobretudo sobre os desafios que se colocam para nós extensionistas. Para isso vou seguir três linhas de raciocínio: 

A primeira visa falar do imediato, falar do porquê é mais fácil pensar no fim do mundo do que no fim do capitalismo. Na segunda linha, colocar elementos que permitam pensar como, subjetivamente, é difícil imaginar o fim do capitalismo e, face a essa dificuldade, pensar como as formas cotidianas e tradicionais de viver aparecem como uma forma de resistência. Na terceira linha vou provocá-los e provocá-las a pensar sobre o papel dos extensionistas e dos pesquisadores e pesquisadoras para se produzir um conhecimento que seja alavanca para se pensar no fim do capitalismo.

A extensão é uma atividade laboral exigida do corpo docente e discente no país e fazer dessa exigência um instrumento na luta de classe pode vir a ser uma resposta às ofensivas da classe capitalista. Nesse sentido, problematizar a disputa da Extensão para que ela se converta em uma ferramenta da classe trabalhadora e para a luta da classe trabalhadora é urgente, pois a classe capitalista há muito entendeu o potencial da Extensão tanto que, se antes ela era uma atividade “supérflua” para a carreira universitária e servia, em geral, para aumentar a renda de docentes e discentes via igualação da Extensão aos serviços de consultorias, hodiernamente, a Extensão se tornou carga obrigatória nos currículos escolares, atividade fomentada por editais públicos e critério de avaliação dos programas de pós-graduação conforme seus impactos sociais.

Evidente que a régua para medir o que são esses impactos segue a métrica da criação de oportunidades para a expansão do capital, demonstrando que a Extensão é uma ferramenta que se constitui nas disputas sobre sua finalidade: da Extensão mercadológica à Extensão Popular, passando pela conhecida Extensão Filantrópica. As disputas sobre a finalidade das atividades extensionistas determinam sua potência enquanto ferramenta para a classe trabalhadora avançar na luta, mas também, a potencialidade de servir a contraofensiva do capital.

Deste modo, é nesse momento em que a denúncia das mazelas vividas pela classe trabalhadora devido à exploração desmedida da natureza se manifesta como morte anunciada do mundo, que tomar a Extensão como nossa ferramenta para pensar e agir no sentido de não mais adiar o fim do capitalismo é a forma de atuarmos para adiar o fim do mundo.

Agir para o fim do modo de produção capitalista é tarefa histórica para que se adie o fim do mundo, contudo, por que é mais fácil pensar no fim do mundo do que pensar no fim do capitalismo?

Essa semana mesmo, Bill Gates, um capitalista entusiasta da “economia verde”, decretou que a crise ambiental não iria extinguir a humanidade, porque a ciência sempre pode produzir respostas aos colapsos ambientais. Contudo, se olharmos de perto, vamos observar que as respostas que a ciência tem produzido freiam as quedas das taxas de lucro e abrem outros campos para a exploração capitalista - inclusive a chamada economia verde -, mas sem frear o movimento de exploração da natureza e da classe trabalhadora.

E nós, trabalhadores e trabalhadoras, sentimos os efeitos dessa intensificação capitalista da exploração. 

E sentimos diariamente e de diferentes modos:

  • Sentimos quando olhamos para o céu no final da jornada de trabalho para avaliar se no caminho de casa não seremos atropelados pelas enxurradas dos finais de tarde em Belo Horizonte, cidade que se ergueu canalizando seus rios e cobrindo-os com asfalto.

  • Sentimos quando relembramos no dia 05 de novembro de 2025 os dez anos do crime do rompimento da barragem de Fundão que destruiu toda uma comunidade, a comunidade de Bento Rodrigues, matou 19 pessoas e deixou um rastro de destruição ambiental irreparável. 

  • Sentimos quando presenciamos, só no Brasil, mais de 700 mil mortes por Covid-19 - um vírus que, como sabemos, se desenvolveu a partir das condições em que os animais são produzidos para se tornarem mercadoria.

  • Sentimos quando - e aí falo como uma sul-rio-grandense - casas são tomadas pela água que cobriu uma parte significativa de um estado inteiro por meses. Milhares de pessoas recorreram aos abrigos precários e reaprenderam a viver sem energia elétrica, sem água potável e sem internet.

Esses poucos exemplos já nos dizem porque, para nós trabalhadores e trabalhadoras, pensar no fim do mundo é mais fácil do que pensar no fim do capitalismo - e nem entro no fim do mundo expresso a partir das práticas de guerra e genocídio, como os da faixa de gaza; ou ainda, nem menciono o fim do mundo que chega quando ocorrem chacinas como a que deixou 121 mortos no RJ. Como diria a minha saudosa avó: realmente, é o fim do mundo! 

O nosso mundo imediato acaba todo dia um pouco, mas ele acaba no mesmo movimento que faz todo dia crescer a conta bancária dos capitalistas, sobretudo dos transnacionais. Frente a isso, é fácil dizer, tal como o tio Bill, que a crise ambiental não vai acabar com a humanidade, porque no horizonte médio da classe capitalista, a humanidade pode ser resumida ao seu extrato bancário. 

Os desdobramentos nefastos da exploração capitalista se materializam em processo de adoecimento de trabalhadores e trabalhadoras, nos crimes ambientais que destroem moradias e comunidades, na violência crescente da ação do estado e de grupos organizados em torno do que podemos chamar de indústria ilegal - tal como a guerra às drogas, por exemplo -, nas diferentes formas de opressão que violentam e matam quem supostamente é julgado como ameaça por ser diferente. Porém, na nossa consciência imediata de classe, esses desdobramentos não são apreendidos como um produto da exploração de humanos e não-humanos por uma classe cujo interesse necessário é acumulação segundo uma reprodução ampliada do capital. Muito pelo contrário, apreendemos tais desdobramentos como o fim do mundo e, enquanto ele não chega de fato para todo mundo, o capitalismo até parece produzir algumas vantagens para a classe trabalhadora.

Nossa?! Quem aqui imagina como seria viver sem redes sociais? Como seria a vida sem poder desopilar jogando videogame ou vendo uma partida de futebol no domingo? O fim da jornada 6X1, que é uma luta urgente e necessária, reivindica justamente um tempo a mais para a classe trabalhadora poder usufruir das mercadorias produzidas pela própria classe trabalhadora e compradas em 12 vezes no carnê das Casas Bahia. E na nossa consciência imediata, não haveria internet, celular, videogame se não fosse a classe capitalista, se não vivêssemos no capitalismo.

A reprodução das nossas vidas mediadas pela forma mercadoria faz com que seja produzida uma forma de subjetividade, uma consciência, que no limite, só quer é ter acesso a essas mercadorias e superar o modo de produzi-las aparece como um contrassenso às possibilidades de usufruir da vida.

Nosso modo de viver, nossa prática e nossas ideias - nossos elementos culturais, nossas crenças, nossa ciência, em suma, o conjunto de ideias que expressa a nossa forma de conhecer o mundo - emana diretamente das relações que traçamos e, enquanto relações determinantes, temos a relação em que o trabalho está subsumido ao capital. E aí, a indústria cinematográfica, a indústria fonográfica, a indústria dos influenciadores digitais, a indústria da fé e inclusive a ciência burguesa, em especial as ditas ciências sociais e humanas, são mediações necessárias que reforçam nosso apego sentimental aos modos de viver mediados pelo consumo de mercadorias. Ao estarmos subjetivamente apegadas e apegados aos nossos modos de viver como sendo a forma possível de usufruir do mundo, fica mais fácil para a classe capitalista tornar a necessidade histórica do fim do capitalismo uma impossibilidade.

Porém, diferente do que imaginava Hegel, o racional não é real, nem o real é racional. O real da sociedade de classes é contraditório. Assim, a forma como estamos no mundo pode também ser resistência e sua potencialidade de vir a compor uma luta emancipatória depende do grau de sua radicalidade. Agora, nossas resistências também produzem a contraofensiva do capital, de modo que cooptar aqueles que resistem é tarefa da classe capitalista. Na maioria das vezes, essa tarefa é realizada pela mediação do Estado via suas diferentes instituições, como as universidades, por exemplo; mas também, pelos aparelhos empresariais tais como seus empreendimentos que tomam a forma de fundações, institutos e associações e que ora ou outra apresentam, por exemplo, suas propostas de iluminar à educação da classe trabalhadora com uma “Led na Educação”. Disputar nossas resistências e cooptá-las antes que elas sejam por nós transformadas em luta emancipatória é uma necessidade da classe capitalista.

Vale registrar que a forma de estarmos no mundo e o conjunto de saberes sobre as relações sociais que travamos estão postos para todos os despossuídos que compõem, de forma mediada ou imediata, a classe trabalhadora. Friso isso porque é preciso destacar que quando digo classe trabalhadora, de modo algum, me refiro a um grupo homogêneo que vem ao nosso imaginário sendo homem, cis, branco, hétero e de macacão marrom e capacete. 

A classe trabalhadora é diversa. Em sua maioria, as pessoas que a compõem se reproduzem apenas por meio da venda de sua força de trabalho - e aqui não se exige que essa venda tenha uma carteira de trabalho. Se para se reproduzir precisas - ou alguém de teu grupo imediato, vulgo família - vender tua capacidade de trabalho, sinto informar, és membro da classe trabalhadora. O nosso gênero, nossa cor, nossa sexualidade são elementos que historicamente determinam as possibilidades da venda; mas não eliminam a necessidade dela. Porém, a classe trabalhadora é diversa em outro sentido. Ela é composta, também, por aqueles grupos que conhecemos como grupos tradicionais e/ou originários, no estado de Minas Gerais, as comunidades quilombolas e indígenas, por exemplo. 

Comunidades que têm seus costumes e que reproduzem suas vidas, concomitantemente, em maior ou menor grau, por meio do resultado direto de seus trabalhos e por meio de mercadorias adquiridas no mercado. Tal concomitância só é possível porque ainda possuem uma relação de posse da terra - esse meio de produção essencial para a produção dos meios mais básicos de subsistência. Eis porque a demarcação dos territórios é fundamental para a continuidade da resistência dessas comunidades, que resistem não porque estão apartadas do modo de produção capitalista, mas porque estão formalmente subsumidas a ele. Porém, essa posse nem sempre é suficiente para garantir a reprodução dos grupos, não sendo raro encontrar - em especial entre os quilombolas e pequenos agrupamentos campesinos -, indivíduos que vendem sua força de trabalho como forma de garantir o acesso desses grupos às mercadorias necessárias à reprodução da vida. A reprodução dos costumes, da cultura e das crenças que compõem o conjunto do conhecimento dessas comunidades é a expressão de uma resistência que tenta frear a transformação de uma subsunção formal a uma subsunção real.

Tal como para as “comunidades não-tradicionais” - mas que possuem suas tradições - que compõem a classe trabalhadora, ou seja, as comunidades do morro, do bairro, os sindicalizados, os não sindicalizados… que quando resistem precisam estar vigilantes para que suas bandeiras não sejam transformadas em lema de inclusão pró-capital; a resistência das comunidades tradicionais também está em disputa. E novamente, nessa disputa, a classe capitalista lança mão de atividades mediadoras, lança mão de suas fundações e das instituições do Estado, inclusive, valendo-se das Universidades, Institutos, Cefets e da famosa indissociabilidade entre ensino-pesquisa-extensão. 

Como já dito, nas sociedades de classe, o real é contraditório e nossa forma de estar no mundo, nossa forma de produzir conhecimento científico e expandi-lo para além dos muros das Universidades, Institutos, Cefets e Colégios de Aplicação não é somente consentimento ao capital, é também resistência. Porém, como para o restante da classe trabalhadora, para nós também vale a máxima: resistir apenas não basta. É preciso também enfrentar! Isso está posto para todo e qualquer grupo que é expressão da diversidade na unidade da classe.

No que diz respeito ao campo científico, o desenvolvimento das forças produtivas aprofundou a divisão técnica do trabalho e a tarefa de produzir ciência, que há 300 anos era realizada pelos membros da classe dominante, hoje é tarefa dos membros da classe trabalhadora. As Universidades, os Institutos, os Cefets, os Colégios de Aplicação são formados por trabalhadores e trabalhadoras. Somos docentes-pesquisadores/as, somos técnicos/as administrativos/as, somos trabalhadores e trabalhadoras em formação. E no processo de produzir conhecimento para o capital, somos também treinados na habilidade de produzir conhecimento em geral. É aqui que quero problematizar o nosso papel na Extensão Popular.

Quando digo Extensão Popular, me posiciono no lugar da disputa por essa ferramenta institucional. Uma ferramenta que se constitui no próprio processo de luta. A Extensão ao ser qualificada como Popular indica a existência de um movimento de resistência e enfrentamento no interior do campo científico que sabe que essa prática institucionalizada não pode servir ao capital; não pode ser mitigadora pontual dos problemas gerados pelo processo de valorização do valor. A Extensão Popular tem potencial e precisa ser uma ferramenta que sirva de alavanca para transformar resistência em enfrentamento e luta. A Extensão Popular pode ser um elemento que nos auxilia na produção de conhecimento e práticas rumo à emancipação das classes e superação de todas as formas de opressão.

Para que a extensão popular seja uma ferramenta de resistência e luta, nós extensionistas - sejamos docentes ou discentes -, precisamos ser vigilantes e não praticar a militância ingênua que assume a dualidade entre os/as intelectuais e os demais membros da classe.

Para explicar o que estou querendo alertar, vou recorrer ao vivenciado nas atividades de Extensão-Pesquisa que desenvolvo há mais de 15 anos.

Atualmente, a Rede-TraMa, rede nacional de grupos de pesquisa da qual faço parte e, mais especificamente, o Nec-TraMa, grupo de pesquisa da UFMG que coordeno, utiliza para a realização de suas pesquisas o que é chamado de método da Produção Compartilhada de Conhecimento, um método que tem origem nas experiências do Movimento Operário Italiano e na luta sanitarista de meados do século XX. Sua principal referência é o Odone e na América Latina, no campo da saúde, Asa Cristina Laurell e sua equipe da escola de Xochimilco no México.

Esse método, para nós, é também uma técnica. É uma técnica que proporciona mecanismo de intervenção militante na realidade. É um método porque, das experiências vivenciadas na intervenção, se produz conhecimento com e para a classe trabalhadora. Enquanto técnica, é possível, por meio da institucionalidade da extensão, montar grupos de trabalho nas comunidades pesquisadas. Em nossa prática, já tivemos grupos de trabalho formados com trabalhadores e trabalhadoras da reciclagem, com trabalhadores e trabalhadoras do MST, com trabalhadores e trabalhadoras do MTD, com trabalhadores e trabalhadoras da siderurgia, do sistema prisional e da mineração. Ademais, para nós, a comunidade são todos aqueles grupos atingidos pelo problema no qual estamos intervindo juntos e juntas. Por exemplo, na pesquisa sobre os desdobramentos da mineração para a saúde da classe trabalhadora em MG, não só os empregados e terceirizados das mineradoras são a comunidade, mas também toda a população que reproduz sua existência no ambiente de operação das empresas mineradoras. Mas, com um detalhe, os grupos de trabalho são compostos por aqueles e aquelas que resistem em maior ou menor medida à forma exploratória do capital sobre a classe trabalhadora e sobre a natureza e pelos trabalhadores e trabalhadoras da ciência - docentes, técnicos administrativos e discentes. Esses grupos de trabalho são denominados no âmbito da Produção Compartilhada de Conhecimento como Comunidade Científica Ampliada.

Na nossa técnica extensionista e de pesquisa, não há espaços na Comunidade Científica Ampliada para representantes de empresas ou do Estado (não desconsideramos que, em geral, esses representantes são também classe trabalhadora, a questão aqui não é o indivíduo, mas sua persona, a máscara econômica que ele representa). Na Produção Compartilhada do Conhecimento, não se assumem as propostas de outros métodos de pesquisa-extensão, tais como a Pesquisa-Ação, que advogam, buscando uma tal neutralidade, a incorporação dos diferentes agentes representantes de diferentes interesses, isso porque para nós, essa neutralidade é impossível, pois não se trata apenas de interesses diferentes, mas de interesses contraditórios.

Isso lhes soa antidemocrático? Cuidado! Não podemos esquecer que democracia em abstrato é dominação!

Representantes da classe capitalista não tomam parte nos grupos de trabalho porque estes são espaços para a classe trabalhadora produzir informações necessárias à resistência da classe trabalhadora. Ter “cota” para o capital nesses espaços é ingenuamente ceder à contraofensiva da classe que nos explora. 

A defesa de espaços “democráticos” de construção discursiva ao gosto da ação comunicativa é uma ingenuidade que a Extensão Popular não pode ter. Consensos sobre a relação contraditória capital-trabalho apenas repõem as condições necessárias à exploração, isso porque “democratiza” os saberes que são mecanismos de nossa resistência.

Porém, como dito anteriormente, no interior da classe trabalhadora, a partir do nosso modo de estar no mundo, temos uma consciência apegada ao modo de viver sob o capital e o que conhecemos das relações sociais é uma apreensão imediata destas relações. Deste modo, mesmo tendo os grupos de trabalho compostos por lutadores e lutadoras da classe trabalhadora, um obstáculo precisa ser transposto quando queremos transformar as informações coletadas em conhecimento voltado para a emancipação das classes: as consciências individuais. Esse obstáculo tem duplo aspecto. Por um lado, sua base é afetiva, por outro, ele é fruto de uma habilidade intelectual de abstração pouco desenvolvida, dificultando que a força de abstração sirva ao conhecimento do real. Em geral, o primeiro aspecto, inclusive, é a base para rechaçar o desenvolvimento da capacidade de abstração.

Aqui entra a necessidade da vigilância constante daqueles e daquelas que, devido à divisão técnica do trabalho, têm suas capacidades físicas e psíquicas consumidas no campo da produção da ciência, em resumo, nós pesquisadores e pesquisadoras formados ou em formação. Porque quando chega o momento de a atividade de extensão transformar as informações compartilhadas e coletadas pelas Comunidades Científicas Ampliadas em conhecimento que sirva a luta de classes, a forma de conhecimento imediata produzida afetivamente ao longo da vida de cada participante sobre como responder aos problemas enfrentados choca-se com a necessidade de apreender esse modo particular de viver como sendo mera expressão de um movimento totalizante. 

Na sociabilidade capitalista, nós nos reproduzimos mediados pela troca, nossos vínculos são de uma dependência recíproca, mas indiferente. E na produção dessa individualidade racionalmente egoísta, a tendência é que a minha particularidade - e a da minha comunidade - expresse a verdade do todo, na concepção imediata, o modo de ser e perceber as relações sociais do meu grupo, da minha comunidade, não é um “mero” momento do todo. A minha particularidade não é tomada, imediatamente, pela consciência, como um aspecto diverso de uma unidade. Unidade que é produzida pela determinação do processo de valorização do valor. Por isso, em nossos projetos de extensão e produção de conhecimento, corremos o risco de assumir o saber imediato sobre a forma pelas quais as comunidades se reproduzem como um obstáculo para a produção de um conhecimento emancipatório. E a afirmação de um modo de vida que é produto da negação das condições necessárias para um desenvolvimento pleno da humanidade se torna a forma de resistir a essas condições. Nos defrontamos, então, com a criatura reafirmando seu criador. E o tamanho desse obstáculo pode ser mensurado pelo grau de afetividade que existe nas formas pelas quais apreendemos o mundo. 

No que tange a relação dos colapsos ambientais frutos da exploração capitalista da natureza, por exemplo, em minha experiência extensionista, já vivenciei a resistência ao avanço do capital sobre os territórios de comunidades ter como denúncia acertada a crítica ao modo como o ser humano se relaciona com a natureza sob o imperativo da geração do lucro, mas como solução não se encontra a superação das condições que produzem o lucro, mas a alteração ética da relação humano-natureza pela antropomorfização do natural, ou seja, resgatando explicações ancestrais tais como a de que a natureza é parte de nossa família.

Aí, com todo o respeito, eu me pergunto, para nós mulheres que somos exploradas e oprimidas para que se realizem os interesses do capital, basta ser da família para garantir o fim da exploração? Trata-se de uma pergunta retórica, pois, como aponta a tese de Marília Souza e vários outros estudos, a maior parte da violência contra a mulher e meninas é realizada por companheiros, pais e tios, ou seja, por membros da família. Se ser reconhecido como membro da família não garante a segurança e a vida das mulheres, presume-se que tampouco reconhecer rios, montanhas, mares como sendo da família daria fim à exploração desmedida da natureza.

Porém, no imaginário generalista e imediato, família é afeto positivo idealizado e, deste modo, tal solução é palatável para toda pessoa que se indigna face ao que se julga injustiça. Assim as soluções que possuem apego afetivo e incluem crítica a racionalidade científica dita ocidental dificultam o processo de apreender o limite das soluções que brotam da imediaticidade do real - seja ele pautado num presente próximo ou na ancestralidade -, pois apreendê-lo exige, por um lado, um rompimento afetivo com nossas crenças e saberes imediatos e por outro, superar o modo racional de produzir a ciência burguesa.

Ao que diz respeito ao rompimento afetivo com nosso saber imediato (tradições, costumes, crenças, opiniões) frisa-se: ignorar a necessidade do rompimento visando evitar dilemas e conflitos pessoais é uma ingenuidade que a Extensão Popular não pode se dar ao luxo. Onde houver Extensão Popular, existirá a produção de dilemas pessoais e conflitos interpessoais, pois não se criam práticas revolucionárias dentro de posições que nos foram ensinadas como confortáveis pelo capital. A tarefa de todos e todas na Comunidade Científica Ampliada não é evitar os dilemas e conflitos pessoais, mas encontrar os meios de superá-los.

Para que se rompa com as soluções imediatistas, outra tarefa que cabe aos membros da Comunidade Científica Ampliada na Extensão Popular é a criação de espaços para o desenvolvimento da capacidade de abstração.

Num primeiro momento, poderia dizer que se existe um lugar ímpar dentro da divisão técnica do trabalho para o desenvolvimento dessa capacidade, é justamente no extrato da classe trabalhadora que se ocupa do fazer científico. Porém, como dito anteriormente, esse fazer científico também responde às necessidades da valorização e, no campo das ciências sociais e humanas, atender a tais necessidades significa produzir um conhecimento que abstraía, pero no tanto.

Prova disso é a estruturação do conhecimento em disciplinas. E assim, como pesquisadores e pesquisadoras, somos educados a recortar o objeto pesquisado, mas não somos educados para investigar os nexos determinantes que mantêm a ligação real entre os recortes artificiais que realizamos. Isso porque, apreender essas determinações é produzir um conhecimento que expõe a raiz dos problemas e, não somos pagos para isso.

Pelo contrário, comprar nossa força de trabalho só tem valor de uso para o capital se produzirmos um conhecimento que até fale da raiz, mas sem demonstrar o que é a raiz. E, por isso, o desenvolvimento de nossa capacidade analítica só pode alçar o voo da generalização amostral ou da categorização de sentidos. Até podemos, dentro dos limites do cardápio epistemológico da ciência moderna ou pós-moderna, descrever os modos de viver e resistir de um grupo particular da classe trabalhadora, mas jamais expô-lo como produto particular do movimento de universalização do capital; porque fazer isso seria contribuir para o entendimento da necessidade histórica desses sujeitos particulares se constituírem como sujeitos históricos na luta de classe.

Então, a questão que se coloca para nós acadêmicos - docentes e discentes - membros da classe trabalhadora é: até quando nos manteremos presos e presas às amarras da ciência necessária ao capital? Romper com essas amarras, tal como posto para os demais grupos da classe trabalhadora, também exige que rompamos com o modo que aprendemos a ser acadêmicos e acadêmicas. Um modo que nos aparta do ser da nossa classe.

A divisão técnica do trabalho exige uma qualificação da nossa força de trabalho que até, em certa medida, garante um salário que corresponde ao necessário para a manutenção dessa qualificação, mas como já dizia Marx, um salário maior não significa deixar de ser trabalhador e trabalhadora assalariado. E, aí, um segundo aspecto da extensão ingênua precisa ser rompido: a suposta superioridade do intelectual garantido pelo fazer científico que tanto aterroriza os extensionistas que acreditam que praticar o exercício da abstração é oprimir os não acadêmicos. Na ânsia de não serem frutos de uma educação não libertadora, isto é, na ânsia de não serem o oprimido que se torna opressor apenas por ter ascendido ao ensino superior, negam o que essa divisão técnica do trabalho pode nos permitir: produzir um saber que apreende o real para além de sua aparência.

Ademais, digo suposta, porque basta terminar a bolsa ou o desemprego bater, que as bases da superioridade científica começam a ruir, provando que, no atual momento do estágio do desenvolvimento das forças produtivas - talvez nem se possa restringir apenas ao tempo atual -, a superioridade de ninguém se garante pelo seu quantum de “capital intelectual”. Afinal, vivemos num tempo em que a ciência tem sua legitimidade social sobre a produção da verdade abalada. Presenciamos o crescimento desmedido do rechaço ao saber científico. E assumir que nos contrapomos a esse rechaço apenas limitando o produto do fazer científico aos saberes locais e às crenças dogmáticas gerais é uma resposta ingênua da classe trabalhadora à contraofensiva da classe capitalista que fez do irracionalismo seu porta estandarte científico que abriu alas para o recrudescer dos ataques ideológicos postos em marcha pelas diferentes indústrias culturais e da fé.

Não será abrindo mão do potencial de produzir conhecimento que expresse a universalização do movimento do capital que produz uma diversidade de particularidades nefastas para a classe trabalhadora que iremos colaborar para mudar o que nos foi dito ser impossível de mudar. O desafio que se coloca para nós trabalhadores e trabalhadoras da ciência que tem na prática extensionista sua forma de estar junto na luta não é saber equilibrar o saber local com o saber científico; é conseguir criar condições em que se supere inclusive o modo tradicional de fazer ciência. É necessário romper com a primazia do subjetivismo na ciência - caráter este presente tanto no que se chama de ciência moderna quanto no que se chama de ciência pós-moderna e que, em última instância, são apenas dois modos de ser da ciência burguesa. É necessário superar a ciência burguesa e não a prática científica, pois, como já colocava Marx, a ciência só seria desnecessária se aparência e essência coincidissem. 

Como aparência e essência não coincidem e, no capitalismo, a segunda tem na primeira sua expressão fetichizada, a ciência radical é a ciência necessária à classe trabalhadora. Eis porque uma tarefa que se coloca aos trabalhadores e trabalhadoras da ciência na Comunidade Científica Ampliada é criar espaços em que todos e todas que se colocam em luta consigam desenvolver a capacidade intelectiva da abstração, espaços em que consigam, em suma, entender como sua particularidade é produto de um movimento que se universaliza e que essa sua particularidade se conecta com outras particularidades sociais e naturais de modo que a reciprocidade dessas conexões reproduzem as condições exploratórias de uns seres humanos sobre outros seres humanos e sobre não-humanos. Condições exploratórias que necessariamente precisam ocorrer e se intensificar em nome da reprodução do parasitismo de uma classe que não vê o mundo se acabando todo dia porque não precisa “subir o morro depois de 12 horas de trabalho antes da chuva chegar”.

Para nossa classe, o mundo acaba um pouco todos os dias e todo dia acaba um pouco. Por assim ser, temos que colocar a Extensão a serviço da classe trabalhadora, disputá-la e torná-la uma ferramenta para a produção de uma prática militante emancipatória que se efetiva no mesmo processo de produção de conhecimento emancipatório. Esse é o sentido de não existir movimento revolucionário sem teoria revolucionária e não existir teoria revolucionária sem a prática revolucionária. A prática institucional que chamamos de Extensão tem o potencial de ser o espaço para nós, membros da classe trabalhadora, nos educarmos em conjunto com outros trabalhadores e trabalhadoras a fim de transformar o fazer científico em uma atividade revolucionária na teoria e na prática. 

Como todo dia o mundo acaba um pouco para a classe trabalhadora e o canto do trabalhador segue apenas soando como um soluçar de dor, nossa prática de trabalhadores e trabalhadoras do fazer científico necessita ser uma prática diária que visa revolucionar o modo de produção que torna o fim do mundo a possibilidade possível. Não há mais como adiar, o fim do mundo está acontecendo e a forma de nos salvarmos é dar fim ao que o produz. O fim do capitalismo é nossa tarefa de classe desde que nos tornamos classe e, como membros da classe trabalhadora, podemos lutar com as ferramentas à disposição. A extensão é uma delas! Tomemo-la e transformamo-la em Extensão que sirva à emancipação das classes, ou seja, sejamos trabalhadores e trabalhadoras da ciência unidos e unidas aos trabalhadores e às trabalhadoras do mundo! 


Notas

[i] Este texto foi produzido para a conferência “Capitalismo e Colapso Ambiental e Extensão Popular” proferida no Seminário Ciência Tecnologia e Sociedade na Extensão Popular, realizada no CEFET-MG de 05 a 07 de novembro de 2025. Na ocasião o debate foi antecedido por uma fala de abertura em memória a Professora Vera Cotrim. Fala reproduzida nesta nota: “Boa tarde a todos, a todas e a todes. Antes de falar sobre o tema que nos traz aqui hoje, eu quero fazer um agradecimento pessoal em público. E peço uns poucos minutos para contextualizar esse meu agradecimento. Eu sou do RS, mudei para Minas Gerais em função do concurso público na UFMG em 2012. Desde então, tenho uma relação com o CEFET, tanto acadêmica quanto pessoal. Essa não é minha primeira participação no Seminário. E me sinto lisonjeada cada vez que o convite chega. Em 2019, eu fui convidada para fazer uma mesa no Evento. Uma professora nova no Cefets, mas conhecida no meio acadêmico seria a mediadora e, na semana do evento, me enviou um e-mail perguntando como eu gostaria de ser apresentada. Respondi como geralmente respondo a essa pergunta: Pode dizer que estou Professora de Administração na FACE/UFMG, e que sou marxista, feminista e militante sindical. Ela me respondeu: serei fiel às tuas palavras. Ao chegar ao CEFET naquele dia, eu me perdi, não achava a sala e ainda estava chovendo. Entre segurar a sombrinha e mandar mensagens para a organização do evento, foram minutos de atraso. Lembro muito bem do momento em que eu consegui localizar o corredor em que seria a atividade. Lembro porque prontamente uma mulher desconhecida abriu os braços e veio em minha direção com um enorme sorriso e me deu um forte abraço. Foi um gesto que me tocou profundamente e depois desse dia, nós estabelecemos parcerias acadêmicas e uma grande amizade. Sua alegria contagiante, sua indignação contra a exploração e as opressões e sua intelectualidade preenchiam horas de conversas e confidências. Pela influência dela, iniciei meu curso de filosofia na UFMG e no último encontro que tive com ela em julho passado, ela compartilhou o projeto que tinha de um novo livro que envolvia a filosofia. E, nesta semana, estaríamos comemorando o aniversário dela. Por isso, eu não teria como começar minha fala, e espero que todos e todas me compreendam, sem deixar público meus mais profundos agradecimentos por tudo que essa mulher me ensinou, nos ensinou. E quem foi aluno e aluna da Professora Vera Cotrim entende do que estou falando, porque se havia algo que a motivava na vida acadêmica, era ver os olhos de vocês indagando o mundo e compartilhar com vocês a mesma vontade de mudar o mundo. Espero que todos e todas tenham sempre na lembrança esse ensinamento dela: nada é impossível de mudar e por isso, não é impossível superar o capital e todas as formas de opressão que ele engendra. Vera Cotrim, Presente!”


[ii] Professora no Departamento de Ciências Administrativas da Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade Federal de Minas Gerais. Feminista, Marxista e Militante Sindical. Pesquisadora da Rede-TraMa.

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