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Festa da abolição da escravatura* - Roberto Arlt

  • 9 de dez. de 2024
  • 5 min de leitura

Atualizado: 25 de fev.


Tradução: João Paulo Veloso Matos

Roberto Arlt foi um escritor argentino vinculado às vanguardas hispano-americanas. Filho de imigrantes pobres, cresceu em uma Buenos Aires marcada pela intensa imigração e pela transformação urbana. Considerado um precursor do existencialismo e figura importante do teatro argentino [1], Arlt publicou romances, novelas, contos, crônicas e peças de teatro. Suas obras mais conhecidas, Os Sete Loucos (Los Siete Locos) e O Brinquedo Raivoso (El juguete rabioso), se destacam pelo uso do grotesco e pela abordagem de temas como humilhação, marginalidade, infâmia, traição e a vida nas cidades modernas e na sociedade burguesa


As Aguafuertes Cariocas são uma série de crônicas que Arlt publicou em jornais argentinos, nas quais ele tece uma visão crítica e irônica da sociedade e do cotidiano urbano brasileiro. Em "Festa da Abolição da Escravatura" (Fiesta de la abolición de la esclavitud), Arlt, com sua perspectiva de estrangeiro, explora os contrastes sociais no Brasil e a permanência das marcas do passado escravista no Rio de Janeiro da década de 1930.


Essa crônica, escrita de um ponto de vista estrangeiro, evidencia, por meio do contraste, como a história da escravidão no Brasil é banalizada. Numa perspectiva histórica, a abolição da escravatura ocorreu "ontem". O país viveu a maior parte de sua história desde a colonização sob um regime escravocrata, que durou cerca de 400 anos. Na década de 1930, a história do trabalho livre ainda era algo recente, e o Brasil permanecia permeado por relações sociais herdadas do escravismo, assim como ainda ocorre nos dias de hoje. Isso tudo está profundamente enraizado na formação da sociedade brasileira. A violência extrema era vista apenas como forma de manter a ordem, e os matizes, como diz a crônica, nos fazem ver como os maltratos da dominação do escravizado eram o mínimo a se esperar do trabalho de um capataz. Está tudo tão entranhado nessa sociedade, que o anormal, o que é considerado castigo, é agir além da frieza do ofício de capataz. Com um estilo de escrita seco, Arlt retrata uma sociedade que não resolveu os problemas gerados pelo escravismo, se recusa a criticá-los e naturaliza tais problemas através da indiferença ou até mesmo da justificativa reacionária.


***

(Quarta-feira, 14 de maio de 1930)


Almocei na companhia do senhor catalão a quem não nomearei por razões que vocês podem imaginar. Ele me disse:

— O 14 de maio é um feriado nacional…

— Ah! É mesmo? E continuei colocando azeite na salada.

— Feriado da abolição da escravatura.

— Entendi.

E como o assunto não me interessava muito, eu dedicava, naquele momento, a minha atenção a medir a quantidade de vinagre que punha nas folhas.

— Semana que vem, faz quarenta e dois anos que a escravidão foi abolida.

Dei um pulo tão grande da cadeira, que metade da garrafa de vinagre foi parar na salada.

— Como é? — respondi espantado.

— Sim, quarenta e dois anos, sob a regência de Dona Isabel de Bragança, aconselhada por Benjamin Constant. Dona Isabel era filha de Dom Pedro II.

—Quarenta e dois anos? Não é possível!

— 13 de maio de 1888 menos 1930: 42 anos.

— Ou seja…

— Que qualquer homem negro de cinquenta anos que você encontrar hoje pelas ruas foi escravo até os 8 anos de idade; o negro de 60 anos, escravo até os 18.

— Então: essas mulheres negras velhas?

— Foram escravas…

— Mas não é possível! Você deve estar equivocado. Não seria o ano de 1788... Veja: eu acho que está equivocado. Não é possível.

— Rapaz, se não acredita em mim, olha por aí.


Na associação.


Assim que terminei de almoçar, me dirigi à associação e perguntei no balcão aos meninos:

— Qual é o feriado de 13 de maio?

— Abolição da escravidão.

— Quando isso aconteceu?

— Em 13 de maio de 1888.

— 1888... 1888... 1930... menos 1888... não há dúvidas! 42 anos. Mas não é possível... 1888…

— Amigo — disse alguém com toda naturalidade — meu pai foi capataz de escravos.

Eu fiquei gelado e pálido.

— Se precisa de fatos…

Olho para esse homem como olharia para o filho de um carrasco da prisão de Sing-Sing; logo, me controlando rapidamente, pego em seu braço e digo:

— Venha aqui, preciso falar com você. Por qual preço se vendia um escravo?

— Vejamos... variavam muito os preços, dependia das localidades, estado físico e aptidões do escravo. Em São Paulo, por exemplo, um escravo custava dois contos de réis, ou seja, seiscentos pesos argentinos; em Minas, o mesmo escravo custava de 5 a 6 contos de réis. Um escravo estropiado pelos castigos, 200 pesos argentinos. Mas não é possível fixar uma tarifa exata porque o escravo não era vendido individualmente. Por exemplo: você precisava de dinheiro, juntava os seus escravos e os levava ao mercado. Leia o senhor a A escrava Isaura de Alencar, um romancista brasileiro que retratou bem a escravidão. Então. Como eu lhe dizia, levavam o escravo ao mercado e o vendiam a quem fizesse o melhor lance.

Aqui, no Rio de Janeiro, o mercado de escravos ficava na rua Primeiro de Março, em frente à drogaria de Granado.

Eu ouço como se estivesse sonhando.

— E é verdade que os castigavam?

— Sim, quando não obedeciam, com um chicote. Ora, havia fazendas onde maltratavam o escravo, mas eram poucas.

(“Castigar com chicote” e “maltratar” são coisas muito distintas, quer dizer, dar vinte ou trinta chibatadas num escravo não era maltratá-lo, mas “castigá-lo”).


Os matizes.

À noite me encontro com o senhor catalão e lhe digo:

— É verdade que castigar é uma coisa e maltratar é outra?

— Claro, homem de Deus! Castigar... quer dizer, o açoite era de uso corrente em todas as fazendas para manter a ordem mais fundamental. Maltratar um escravo era, por sua vez, trocar o uso da chibata pelo de instrumentos pontiagudos, cortantes... rasgar os braços com golpes, perfurá-lo... como o senhor se dá conta, é simplesmente uma questão de matizes.

— Sim... entendi... de matizes... e os donos?

— Os patrões? Devia ser muito selvagem quem se incumbia de um escravo. Para que? Se para isso tinham feitores. O feitor era o capataz responsável pelos escravos, geralmente também um escravo, mas que era liberado dos trabalhos brutais para fazer seus companheiros trabalharem e castigá-los. Esse escravo era o terror dos outros. Cumpria a ordem do senhor ao pé da letra. Se lhe ordenavam dar cinquenta chibatadas a um escravo e este morria na chibatada número trinta e nove, o outro dava as onze restantes. Uma questão de princípios, amigo. A obediência absoluta.

— Quer dizer que esses brancos velhos, de aspecto respeitável, que a gente encontra em carros particulares…

— Foram senhores de escravos. Leia o que escreveram Alencar e Ruy Barbosa…

— Mas eu fui nas livrarias e me disseram que não havia livros sobre a escravidão.

— É normal. Deixa que eu consigo pra você... mas faça isso: vá a algum porto e converse com algum negro velho, desses que você viu arrumando as redes…

— E essas mulheres negras velhas, tão simpáticas, as pobres?

— Também foram escravas... mas vá e converse...


Não me decido.


E ainda não resolvi se falo com um ex-escravo. Não sei. Me dá uma sensação de terror entrar no "País do Medo e do Castigo". O que me contaram me parecem histórias de romances... Prefiro acreditar que o que escreveu Alencar, tremendo de indignação, é uma história acontecida num país de fantasia. Acho que é melhor.

[1] Castagnino, R. H. (1964). El teatro de Roberto Arlt. Monografías y tesis, VI. pp.7-11 *Reedição: 25/02/2026

 

 

 

 
 
 

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