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- Globo News: os Porcos e suas pérolas¹.
por Rafael Jácome Desde o famoso “Uma escolha muito difícil” que a imprensa brasileira não nos presenteia com um uma pérola digna dos mais sujos chiqueiros liberais. Desta vez, a Globo News reuniu um grupo de célebres liberais mediocremente alinhados entre si , para debaterem do alto de suas “especialidades” sobre o imbróglio que o governo reformista do PT causou ao ser o agente operacionalizador dos cortes que hoje ganham destaque na imprensa. Cortes pautado numa política de austeridade típica dos mais repulsivos interesses da burguesia brasileira, colocando a cúpula petista em contradição flagrante contra boa parte de sua base orgânica, eleitoral, social e oscilante. Neste show de barbaridades, destacamos aqui algumas falas desse nobre canal que outrora deu cobertura exemplar às manifestações que culminaram na deposição do próprio governo petista em 2016 e que ficou eternizado como apoiador fiel de uma ditadura que assassinou milhares de trabalhadores e combatentes de esquerda. Tais falas são emblemáticas e denotam nada mais que um desprezo cínico destes canais e de seus financiadores (a burguesia) com a classe trabalhadora deste país. Tão cínico quanto o apoio de Geraldo Alkmin às privatizações de Tarcísio , este mesmo Tarcísio que cometeu crime eleitoral contra o recentemente descartado pelos liberais paulistanos (mesmo fazendo concessões em pautas históricas); Guilherme Boulos. Vamos às duas principais pérolas. “Ele ainda pensa como sindicalista...” ( comentário sobre a resistência de Marinho em relação aos cortes na pasta do Ministério do Trabalho). Aqui vale a máxima de que os ideólogos sempre deixam escapar (sem querer) meias verdades ao contar as mais completas mentiras sobre a realidade ou sobre seus preconceitos. Como lacaios de topete e brilhantina do que existe de mais podre nas concepções do liberalismo brasileiro, nesta pérola está explicitada o que a burguesia brasileira (seja ela polida ou raivosa) realmente pensa sobre os trabalhadores, seus organismos de luta e seus anseios por condições de trabalho melhores. Para estes jornalistas existe uma separação entre o pensamento de um sindicalista, historicamente atrelada ao símbolo da combatividade em defesa dos interesses da classe trabalhadora (ou que ao menos teria sido, em outros tempos) e uma suposta superioridade intelectual dos gestores do capitalismo. Além do mais, sem perceber a apresentadora reconhece que, apesar de um alinhamento intra estado, existe um conflito gritante entre os interesses da classe dominante e a massa de trabalhadores impactados por suas políticas de austeridade (esta última representada na imagem do "pensa como sindicalista") e o jogo de cadeiras do governo evidenciar isto, mesmo que pouco, é inadmissível. Para aplacar uma contradição governamental imposta pelos cortes em áreas imprescindíveis para a qualidade de vida dos trabalhadores, tais jornalistas precisaram explicitar seu preconceito de classe para que diante das contradições que o governo petista apresenta, os interesses de Haddad e sua turma prevaleçam, saindo assim como os vencedores na resolução desta contradição. Uma disputa suja. Que o governo do PT está explicitamente alinhado aos interesses dos setores da burguesia que operam tal cortes, disto já sabemos. Entretanto o que fica concreta e simbolicamente expressada nas falas destes jornalistas é que, para bancar tal alinhamento, os setores de cúpula do petismo têm atropelado até mesmo sua base mais ligada aos anseios dos trabalhadores e um projeto de derrota do liberalismo e do bolsonarismo (ainda que por vias reformistas). Não afirmo que Marinho não tenha sido em algum momento de nossa história um expoente dos interesses históricos dos trabalhadores, não conheço sua história o suficiente. Mas apesar de seu histórico ser reafirmado pelos seus defensores, nada parece diminuir a vergonha de seus tweets desmobilizando a pauta do pelo fim da escala 6x1. Em suma, aqui destaca mais o conteúdo atacado do que o sujeito que, para esses jornalistas, expressa tal conteúdo. Se ao menos o governo tivesse mais expoentes que pensassem como sindicalistas (como não parece ser o caso de Marinho, atualmente), certamente teria a coragem de mobilizar a classe pela revogação imediata da reforma trabalhista. Reforma esta que não gerou empregos, mas sim miséria. Também não veríamos um ministro da fazenda de um governo que mobiliza símbolos – somente símbolos - históricos dos trabalhadores ser defendido por um canal que outrora foi o principal articulador do processo que culminou na ascensão do bolsonarismo. “Em que mundo ele vive?” (comentário sobre a fala de Marinho: “Se não quiser, a Uber que vá embora”, frente a resistência da empresa Uber de ter sua atividade exploratória e intensamente precarizante, regulamentadas pelo estado brasileiro). Tal fala é de uma falta de compreensão tão grande sobre as condições de trabalho e a própria dinâmica de exploração a qual os trabalhadores de aplicativos estão submetidos, que chega a dar asco. Tal fala ignora (propositalmente) que as empresas de aplicativo efetivam uma verdadeira precarização do trabalho em nosso país, colocando os trabalhadores sob um regime de perseguições e maquinações criminosas das mais diversas a fim de garantir suas taxas de lucro e de evitar a organização da categoria de motoristas e entregadores de aplicativos. Meses após o “Breque dos APP’s”, greve tocada pelos entregadores de aplicativo em solo brasileiro, o portal A Coisa Pública publicou uma matéria investigativa intitulada “A máquina oculta de propaganda do iFood”. Esta matéria investigativa demonstrou uma série de maquinações para desarticular, de maneira criminosa, uma categoria que se organizava pela melhora das condições de vida dos trabalhadores de aplicativo. Entre essas maquinações estão a instrumentalização da necessidade de vacinação para os fins de desarticulação da greve, visto que "os adesivos e a faixa que pediam “vacinação já” no estádio do Pacaembu (...) vieram acompanhados pela disseminação de posts e comentários de usuários falsos, que teriam sido criados por agências de publicidade a serviço do iFood no Twitter e Facebook.". Ou seja, a tão orgulhosa, GloboNews, que fez uma pseudo-campanha pela vacinação hoje se coloca em defesa de um segmento burguês que subverteu a lógica humanizadora por traz da luta de nossa classe por vacinação, afim de desarticular esta mesma classe em seu processo de luta por melhores condições de trabalho. Isto demonstra nada mais que tais canais burgueses se apropriam de nossas pautas, mas esvaziam seu núcleo duro revolucionário afim de perpetuar os interesses de uma classe dominante apodrecida. Tal jornalismo também evidencia outras coisas. A primeira delas é a mistificação extrema, através da imprensa. Luiz marinho (ministro do trabalho) afirmou que se a empresa quiser ir embora do Brasil, “problema” é da empresa. E, ainda que fale de um ponto de vista liberal, ele está certo. Um complemento na fala do ministro que não foi evidenciado nos títulos das notícias alarmistas, foi de que: caso a Uber fosse embora, uma concorrente ocuparia seu lugar. Até a mente liberal mais ingênua, se pautando pela abstração reducionista do eixo “oferta X demanda”, sabe que qualquer viabilidade empresarial no mercado obedece às possibilidades colocadas pelo contexto. Fato é que para operar seu lucro de 11 bi [CdM1] a Uber tem no Brasil seu segundo maior mercado. Contando com mais de 22 milhões de usuários e mais de 600 mil motoristas, tal empresa vê no Brasil um dos países centrais que alavancam sua política de expansão mundial “feroz” sustentada nas costas dos trabalhadores. Ora, caros jornalistas liberais, temos como concorrente da Uber uma empresa chinesa (99), em plena aproximação deste país do bloco econômico da China. Em termos puramente liberais: a ausência de uma empresa precarizada, num contexto em que o monopólio do setor ainda não está consolidado, obviamente fará com que a fatia abandonada por uma das concorrentes ao monopólio seja imediatamente abraçada pelo investimento da que sobrou. Será que até mesmo nas categorias que acreditam com fé religiosa, como a “concorrência”, liberais são suficientemente perdidos para não dar coerência ao que falam? Claramente, o liberal menos estúpido responderá que isso seria ruim pelo fato que diminuiria a concorrência e automaticamente implicaria num aumento de preços. Ao fazer tal movimento, cai a máscara liberal e com ela seus mitos, derretendo-se aos olhos de seus asseclas, frente à necessidade de remeter à intervenção estatal como forma de regulação do mercado. Dito isto é evidente que é justamente essa necessidade regulatória do Estado frente ao mercado que se deseja camuflar; já que o pacote de austeridade tocado pelo petismo atualmente é um verdadeiro condicionamento (esperado) da máquina estatal, a fim de proteger o mercado para que assim se favoreça uma classe que não é a dos entregadores e motoristas de aplicativo. Uma verdadeira e proposital inversão. Outra característica típica dos liberais (decorrente da constatação óbvia nos parágrafos acima) é inverter a ordem do processo econômico, centralizando o pilar econômico de nossa sociedade nos proprietários dos meios de produção (burguesia) ao invés de reconhecer na massa de trabalhadores essa centralidade. Massa sem a qual nenhuma mercadoria seria produzida e sairia das fábricas ou das lojas para ir magicamente parar no mercado para ser comercializada. O jornalismo liberal médio desconsidera ou tenta camuflar tal constatação, seus estúdios arejados são impermeáveis à compreensão mais basilar da economia política e acabam disseminando as mesmas barbaridades que o bolsonarismo mais apaixonado, porém de maneira mais polida para dar ares de sobriedade. Tal constatação óbvia (por isso tão atacada) explica o motivo de a Ifood ter investido tanto na desarticulação da greve dos motoristas e entregadores de aplicativo. Sem a atividade cotidiana da massa de trabalhadores de aplicativos em nosso país, atendendo à dinâmica do “trabalho por peças” descrita por Marx (2) (em que se coloca nas costas dos trabalhadores uma intensidade maior do ritimo de trabalho e, no cenário atual, de maneira ainda mais exploratória, também os custos dos seus meios de trabalho), a atividade de qualquer empresa de aplicativo se torna ameaçada em nosso país. Fica explicito que, invariavelmente, a permanência das empresas de aplicativo em solo nacional passa pela manutenção de condições de trabalho precárias e que hoje levam ao abarrotamento de processos trabalhistas na justiça brasileira (houve um crescimento de 400% na pandemia ), em que os relatos chocantes não parecem sensibilizar nossos queridos jornalistas da GloboNews. Com base nas linhas acima, respondemos aos “nobres” jornalistas: ao menos Marinho da indícios tímidos de ainda viver num país concreto e paralelo a confortável sala com ar condicionado dos jornalistas, em que os "especialistas" comentam barbaridades que só podem sair da boca de quem quer transformar o mercado em sujeito e o trabalhador em mercadoria. Se o governo fará mais que reconhecer este Brasil real e com isso alavancar uma mobilização digna da classe, recuar na politica de austeridade e sair da posição rendida ao capital, veremos (duvido). Certo é que devemos estar preparados e articulados para qualquer cenário; sem desânimos! Um apontamento sobre as pérolas. Uma afirmação nem sempre vem pela necessidade de se esclarecer, muitas vezes se trata só da necessidade de reafirmação do óbvio: não existe horizonte para os trabalhadores nas políticas liberais que hoje o governo vem implementando. No fim este texto é mais do mesmo, mas óbvio em tempos de barbárie é bandeira de combate. Dito isto, não nos é estranho que tais liberais e seus jornalistas alinhados disseminem, seja com educação e polidez ou com escarnio e acidez, a defesa de políticas que contribuam para a morte de milhares de trabalhadores. O que salta aos olhos é que uma parte da base petista entre nessa empreitada de defesa de tais políticas, mistificando o processo da luta de classes em mero joguete estadista para defender a forma governo e não o questionamento de seu conteúdo. Em 2016 Dilma fez concessões ao mercado e mesmo assim foi deposta de seu cargo. Naquela situação podemos dizer que o governo conseguiu emplacar a ideia de que jogou pérolas aos porcos, a fim de que eles se acalmassem e a mantivesse no executivo em nome de uma governabilidade rendida ao capital; não deu certo. Hoje vemos boa parte da base governista e o próprio governo em alinhamento com a cúpula encabeçada por Haddad: agora é o governo que decidiu, explicitamente, pegar as pérolas jogadas pelos porcos. Veremos no que vai dar. *** 1. A mídia hegemônica teve muito trabalho nos últimos dias, devido a explosão de insatisfações com a jornada 6x1. Não faltou "pérolas". Para um debate mais aprofundado, recomendo este ótimo texto do Lambertucci : " É A LUTA DE CLASSES, ESTÚPIDO! ". 2. “No salário por tempo domina, com poucas excepções, o mesmo salário para as mesmas funções, enquanto no salário à peça o preço do tempo de trabalho é, com efeito, medido por um quantum determinado de produtos, o salário diário ou semanal, pelo contrário, varia com a diversidade individual dos operários, dos quais um apenas fornece o mínimo de produto num dado tempo, o outro a média e o terceiro mais do que a média. No que diz respeito ao rendimento real têm aqui lugar grandes diferenças consoantes a diversa destreza, força, energia, resistência, etc., do operário individual. Isto naturalmente não altera em nada a relação geral entre capital e trabalho assalariado. Em primeiro lugar, na oficina total as diferenças individuais compensam-se, de tal modo que ela fornece o produto médio num determinado tempo de trabalho e o salário total pago torna-se o salário médio para este ramo de negócio. Em segundo lugar, a proporção entre salário e mais-valia permanece inalterada uma vez que ao salário individual do operário singular corresponde a massa de mais-valia por ele fornecida individualmente. Mas o espaço de manobra maior que o salário à peça proporciona à individualidade tende, por um lado, a desenvolver a individualidade e com ela o sentimento de liberdade, a autonomia e o autocontrolo dos operários, e, por outro lado, a concorrência entre eles e de uns contra os outros.” MARX, Karl. O Capital: crítica da economia política. Livro primeiro : O processo de produção do capital. Sexta seção: O salário. Décimo nono capítulo: O salário à peça. Disponível em: [ https://www.marxists.org/portugues/marx/1867/capital/livro1/cap19/01.htm](https://www.marxists.org/portugues/marx/1867/capital/livro1/cap19/01.htm) . Acesso em: 11 nov. 2024.
- Mais vale uma arma na mão do que uma verdade à mesa
Militares carregam a bandeira da União Europeia. (Foto: European Parliament / Flickr) Por Charles Jr e Antônio Carlos “ A economia da zona do euro quase não cresce há dois meses consecutivos, já que a leve expansão no setor de serviços foi quase totalmente consumi da pela recessão no setor industrial”, disse Cyrus de la Rubia, economista-chefe do Hamburguer Commercial Bank[1]. Mesmo que o sol da primavera já esteja esverdeando, o St . James 's Park, passando pelo Champs-Élysées até a imponente escultura no lindo jardim do Palácio de Livadia, na Criméia, há muito mais que as taxas de Trump soprando o vento polar no Lume da acumulação europeu. Sim, o estado estacionário assola o velho continente há algum tempo. Iss o, m eus lind os , o trem tá fe io no berço do capitalismo. Então, vamos ao que interessa, ao miolo da treta. Chama! O centro do mundo capitalista tem nome e local definido. Ou seja, o grosso da produção e circulação de mercadorias do mundo é composto pela Europa (leia-se Inglaterra, Alemanha e França), Japão e EUA. Você pode produzir em qualquer lugar do planeta, mas 48% do PIB e 26,6% das importações mundiais estão nesta tríade. Junto a isto, está a produção de tecnologia, exportação de capitais e da máquina de guerra. Ou seja, nas crises cíclicas, se seguidas da ingovernabilidade e guerra civil, podem descarrilar para todo o globo como um rastilho de pólvora, caso atinja em cheio alguns desses pilares do modo de produção capitalista. Descarrilar no melhor sentido de classes, ou seja, a velha toupeira de chapéu vermelho voltar a marchar pelo fim da pré-história da humanidade… Mas isto são outras prosas, agora vamos nos ater ao velho continente e seus apuros atuais. Estes dias, recebemos um bom artigo do marxista britânico Michael Roberts [ 2 ] . Traz dados censitários e de produtividade europeia através de um relatório da Comissão da União Europeia elaborado por Mario Draghi sobre o futuro da economia desse continente (ex-presidente do banco central europeu, dentre outras coisas mais). Draghi “apresenta um quadro […] preciso, do declínio relativo das economias da UE no crescimento da produção e da produtividade, nos padrões de vida e no progresso técnico em comparação com os EUA e a Ásia.” Antes dos dados atuais que nos traz o artigo citado acima, vamos relembrar o que o mestre José Martins ( in memoriam [3]) falara em 01 de março de 2023: “ Países de todo o mundo estão reagindo com extrema rapidez à guerra entre a Rússia e OTAN, primeira guerra de alta intensidade da Europa desde 1945; reavaliando tudo, desde a restauração da produção de centenárias indústrias de guerra, estoques de munição, até linhas comerciais de abastecimento contínuo. Esqueça os dividendos da paz de cemitérios dos últimos oitenta anos de globalização ampliada do capital. Venha para o mundo da globalização do capital e da globalização da guerra imperialista. … Apenas um ano depois do início das hostilidades no território ucraniano, um movimento tão germinal de rearmamento global das maiores potências ainda aparece pouco nas estatísticas oficiais e nas próprias publicações da mídia capitalista.”[4] Voltemos a 2025. “O crescimento econômico da UE tem sido consistentemente mais lento do que o dos EUA nas últimas duas décadas… A diferença entre a UE e os EUA no PIB em 2015 aumentou gradualmente de pouco mais de 15% em 2002 para 30% em 2023. A diferença aumentou menos em uma base per capita, pois os EUA tiveram um crescimento populacional mais rápido, mas ainda é significativo, com 34% atualmente. O principal impulsionador desses desenvolvimentos divergentes foi a produtividade[5]. Cerca de 70% da diferença no PIB per capita em relação aos EUA é explicada pela menor produtividade da UE. Muitas economias da UE dependem da expansão do comércio mundial[6].” “A UE está entrando no primeiro período de sua história em que o crescimento não será apoiado por uma população crescente. Até 2040, a projeção é de que a força de trabalho diminua em cerca de 2 milhões de trabalhadores por ano.” Draghi concluiu que: "Teremos de nos apoiar mais na produtividade para impulsionar o crescimento. Mas se a UE mantivesse sua taxa média de crescimento da produtividade desde 2015, isso seria suficiente apenas para manter o PIB constante até 2050 - em um momento em que a UE está enfrentando uma série de novas necessidades de investimento que terão de ser financiadas por meio de um crescimento maior." Após a confirmação do cenário de novo período do ciclo do capital se generalizar por toda Europa – leia-se, estagnação ou estado estacionário (tendo o aumento do preço da principal matéria-prima para todos os processos produtivos e para a reprodução da força de trabalho, a energia [ 7 ] , como pedra de toque), as sirenes e alarmes ressoam em Londres, em Paris e em todas as ruas de Berlim: o perigo da crise cíclica funga no cangote do velho continente… Draghi e sua colega Lagarde têm uma certeza: “é preciso dar um jeito meu amigo![8]”. Incentivos monetários e fiscais, cortes nos gastos públicos, desregulamentações, mais impostos, crédito barato e muitas orações em Roma e em todo canto desse mundo cristão para o barco não afundar, Draghi, repetindo a cartilha anticíclica, recomenda a queima… do capital-dinheiro em investimentos, das reservas dos Estados e dos idosos e pobres... ops!, dos investimentos em bem estar social. Rapar o tacho, custe o que e a quem custar. Mas o trabalho nunca é fácil para os gestores estatais. Tinham alguns poréns para troca do estado de bem-estar social pelo estado de guerra, essa nova face dos Estados europeus. Estes são: a animosidade em relação às guerras, principalmente na Europa pós segunda grande guerra, o estado de bem-estar social em si, as barreiras legais para o endividamento dos Estados, como os “freios fiscais” na Alemanha, e a correlação diretamente proporcional das políticas públicas com as eleições. Para explicar como estão pondo as recomendações de Draghi em prática, pescamos outros três “detalhes” do texto de Mr. Roberts. First - “uma área em que não serão impostos limites de gastos é a defesa.” Second - “nos EUA uma maior concentração de capital aumentou os lucros das poucas megatecnologias no topo.” Third - "é necessário um investimento adicional anual mínimo de 750 a 800 bilhões de euros”. Resumidamente, aumentar a concentração do capital, bombar o investimento em tecnologia e ampliar os gastos na indústria bélica. Tudo com a finalidade de retomar a produtividade e ganhar a concorrência para retomar a taxa de lucro perdida no ciclo atual do capital. Europa no ciclo econômico Observando dados da OCDE, podemos ter uma noção de como está a totalidade de cada economia. Na passagem do primeiro para o segundo trimestre de 2020, a produção da manufatura na maior economia da Europa, a Alemanha, caiu abaixo de índice 100 [9] . Já na maior parte dos trimestres até o quarto trimestre de 2024, a produção se mantém abaixo de 100. Fato similar ocorreu na França. Entretanto na Inglaterra, após queda na crise iniciada em 2020, observamos uma notável recuperação, porém, o crescimento da produção industrial vem desacelerando paulatinamente. Já na produtividade [ 10 ] da manufatura observamos que, com a crise iniciada em 2020, tal produtividade desabou. Ocorreu uma robusta recuperação em 2021. E, em 2022, o Reino Unido se juntou a seus irmãos, passando todas as três grandes economias por uma queda na produtividade. Na média, desde a eclosão da crise de 2020, o crescimento da produtividade de Alemanha, França e Reino Unido foi 0.86, -0.52 e 2.76 e a média do crescimento da produção foi de 94.7, 97.9 e 105.9, respectivamente. Observando esses dados do recente ciclo econômico, vemos a queda da Alemanha e França na produção da manufatura, mantendo-se abaixo de 100, e a desaceleração da produtividade cola um adesivo na testa do Reino Unido: “O próximo é você”. Ou seja, salve-se quem puder. Tabela 1: produção da manufatura[11] Tabela 2: Taxa anual de crescimento da Produtividade da Manufatura (%)[12] Está aí o MEGA: Make Europe Great Again. Como a coisa urge, os europeus já estão no ataque. Entraram na corrida da guerra da Ucrânia, anunciaram pesados investimentos na indústria bélica, €800 BI, trocaram legislações, reduziram gastos públicos e foram à luta contra os seus compatriotas. Assim, puseram em ação uma operação similar à que utilizaram para aprovar os créditos de guerra alemães em 191 4, fizeram a sociedade imaginar a guerra, sentir e sonhar com um perigo imaginário a fim de apoiar as mudanças necessárias. O tratoraço da época foi tão grande que somente houve um voto contrário aos créditos de guerra no parlamento alemão, o do gigante Karl Liebknecht. Já disse Hegel, a história se repete, primeiro como tragédia, segundo como farsa. Desde a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, passando por Macron, presidente da França, o primeiro-ministro do Reino Unido, Keir Starmer os governantes europeus repetem o mesmo mantra: todos pelos cortes nos gastos sociais e endividamento dos Estados em prol dos gastos com “defesa”. Toda essa demagogia e manipulação pelo não dito, isto é: o investimento na indústria bélica, além de gerar uma fugaz retomada, agita todos os ramos da economia, gera desenvolvimento tecnológico em todos os setores da economia e queima muito, mas muito capital. Abaixo reproduzimos uma mensagem do governo da França a um cidadão. “Semana passada recebemos aqui na caixa do correio um tutorial do governo distribuído a todas residências na França de como proceder em caso de guerra ou ameaça química e nuclear ”... E para fechar, o amável nigeriano colunista do Financial Times, nos dá a pérola que resume o pensamento do tabloide da burguesia inglesa: “Os cortes de gastos são mais fáceis de vender em nome da defesa do que em nome de uma noção generalizada de eficiência. Ainda assim, esse não é o propósito da defesa, e os políticos devem insistir neste ponto. O objetivo é a sobrevivência. O chamado “capitalismo liberal” precisa sobreviver e isso significa reduzir os padrões de vida para os mais pobres e gastar dinheiro para ir à guerra. Do estado de bem-estar social ao estado de guerra.”[13] E vão nesta toada, reduzindo gastos sociais, aumentando a capacidade de endividamento e, numa nova rodada, tendem a retomar a retirada de direitos dos trabalhadores. Cenas como o suicídio do aposentado Dimitris Christoulas em Atenas, infelizmente, podem vir a se repetir. Esta é a saída da decrépita burguesia europeia. Só resta a paz: paz entre nós e guerra aos senhores. "E sempre temos nós, da favela do Moinho[14], Américas, Europa e Ásia: Vamos, levante e lute, vamos, levante e ajude Vamos, levante e grite, vamos, levante agora Que a vida não parou, a vida não para aqui A luta não acabou e nem acabará Só quando a liberdade raiar, iê, ah Só quando a liberdade raiar” *** Notinha : ao contrário da propaganda, o investimento não aumenta a lucratividade por si só, as inovações tecnológicas aumentam a taxa de lucro quando proporcionam o aumento da exploração de cada trabalhador e da classe, retomando a taxa de lucros perdida no ciclo anterior, ganhando a concorrência ao implementar um novo patamar de exploração do proletariado de cada país e/ou região. Notas [1] https://www.cnnbrasil.com.br/economia/macroeconomia/economia-da-zona-do-euro-volta-a-patinar-em-fevereiro-mostra-pmi/?utm_source=social&utm_medium=facebook&utm_campaign=macroeconomia&fbclid=IwY2xjawI5gddleHRuA2FlbQIxMQABHbYmbzcuKCI28ZZE9wWFnbdAkC1BEKoZyVc253Pdm5VsK8xH96zsCwroqA_aem_SEOY-2j-OePIDGrmQkQdWg [2] https://thenextrecession.wordpress.com/wp-content/uploads/2025/01/mr-12.pdf?fbclid=IwZXh0bgNhZW0CMTAAAR3AvzjC5SXI73Ast3xiDYqwoYsmrSqItUW-5Rd5CcB9-f1iA9iS2mETb8o_aem_E8c-c2DSGl7a7JtcHnotcg [3] Todo nosso esforço em escrever traduzindo o real através da crítica da economia política é inspirado em sua trajetória. Como disse muito bem nosso camarada Aj: “O mundo fica menor sem ele” ( https://passapalavra.info/2025/04/156232/ ). Seguimos. [4] https://criticadaeconomia.com/2023/03/butter-or-gun-os-capitalistas-preferem-os-canhoes/ [5] A quantidade de trabalho morto (matérias primas e máquinas) que cada trabalhador transforma em novas mercadorias. [6] A Alemanha é o 3 maior exportador do mundo. [7] https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/afp/2023/06/06/cia-sabia-que-ucrania-tinha-planos-de-explodir-gasoduto-nord-stream-diz-imprensa.htm [8] https://passapalavra.info/2025/03/156079/ [9] O índice base 100, foi a produção observada no ano de 2015 e está sendo utilizada pelo OCDE como base de comparação para outros anos. Para nós, além disso, serve de ponto mais alto do ciclo econômico. [10] O índice de produtividade percentual por ano e é medido a partir da produtividade de 2015, sendo o valor acrescentado bruto por pessoa empregada. [11] https://data-explorer.oecd.org/vis?tm=production&pg=0&snb=517&vw=tb&df[ds]=dsDisseminateFinalDMZ&df[id]=DSD_STES%40DF_INDSERV&df[ag]=OECD.SDD.STES&df[vs]=4.2&dq=GBR%2BFRA%2BDEU.A.PRVM.IX.C.Y...&pd=2020%2C2024&to[TIME_PERIOD]=false [12] https://data-explorer.oecd.org/vis?fs[0]=Topic%2C1%7CEconomy%23ECO%23%7CProductivity%23ECO_PRO%23&pg=0&fc=Topic&bp=true&snb=6&vw=tb&df[ds]=dsDisseminateFinalDMZ&df[id]=DSD_PDB%40DF_PDB_ISIC4_I4&df[ag]=OECD.SDD.TPS&df[vs]=1.0&dq=GBR%2BDEU%2BFRA.A.GVAEMP.C.PA....&pd=2020%2C2023&to[TIME_PERIOD]=false [13] https://www.ft.com/content/37053b2b-ccda-4ce3-a25d-f1d0f82e7989 [14] https://www.instagram.com/reel/DIxChzqpnGo/? utm_source=ig_web_copy_link&igsh=MzRlODBiNWFlZA== Notas adicionais 1 https://www.infomoney.com.br/mundo/esqueceram-o-que-aconteceu-com-napoleao-diz-putin-apos-pronunciamento-de-macron/ 2 https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/macron-revida-comentarios-sobre-napoleao-e-chama-russia-de-imperialista/ Referências https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/alemanha-merz-e-democratas-superam-primeiro-obstaculo-para-formar-coalizao/?utm_source=social&utm_medium=facebook&utm_campaign=internacional&fbclid=IwY2xjawI5f7pleHRuA2FlbQIxMQABHaDn11Lpg14FbitmOw7W0CAr1CymSlRF1qyyRByEou8l2M5Nbv5pFMhHxA_aem_NJoWyWCPqdd1byFl5zOHeQ https://www.cnnbrasil.com.br/economia/macroeconomia/economia-da-zona-do-euro-volta-a-patinar-em-fevereiro-mostra-pmi/?utm_source=social&utm_medium=facebook&utm_campaign=macroeconomia&fbclid=IwY2xjawI5gddleHRuA2FlbQIxMQABHbYmbzcuKCI28ZZE9wWFnbdAkC1BEKoZyVc253Pdm5VsK8xH96zsCwroqA_aem_SEOY-2j-OePIDGrmQkQdWg https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/macron-convoca-lideres-europeus-para-reuniao-sobre-ucrania/?utm_source=social&utm_medium=facebook&utm_campaign=internacional&fbclid=IwY2xjawI5gepleHRuA2FlbQIxMQABHRzkagRpRpba_EgbtcYAsBJqrM8al88FLcxD0oLEdICNMgXf5h6vfN8LQw_aem_yq1-MrJ3_sFMD7zq_GupJg https://www.cnnbrasil.com.br/economia/macroeconomia/ue-propoe-emprestimo-de-150-bi-de-euros-em-esforco-de-rearmamento-local/?utm_source=social&utm_medium=facebook-feed&utm_campaign=economia-cnn-economia&utm_content=link https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/uniao-europeia-propoe-emprestimo-conjunto-em-plano-de-defesa-de-e800-bi/?utm_source=social&utm_medium=facebook&utm_campaign=internacional&fbclid=IwY2xjawI5gfRleHRuA2FlbQIxMQABHfhe96Y8USActedvMHaryIg04pAL2IiUJa8zorcTqNfO3sGFw3vtdwO_3A_aem_W-hU_-wxHszs93hOYKL1lA https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/europa-busca-assumir-controle-das-negociacoes-sobre-a-ucrania-em-cupula/?utm_source=social&utm_medium=facebook&utm_campaign=internacional&fbclid=IwY2xjawI5gflleHRuA2FlbQIxMQABHfUrr7rkxb1A7CZkoYDJ8hxNV9XSm8ObAkzaeKmIPA2Pjthgh7LFYDTfHg_aem_-mq1WH8t7s6HQzoqn3Vmyw https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/paises-querem-se-juntar-a-coalizao-dos-dispostos-da-europa-diz-starmer/?utm_source=social&utm_medium=facebook&utm_campaign=internacional&fbclid=IwY2xjawI5gf9leHRuA2FlbQIxMQABHYFvbIVZZtZ_bTdFjSMRHasd36BjtkSXBmPAKL0EgcCxrenqizuQkeOfVg_aem_PKTdGbI7wbwrKHcoP6N_Lw https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/reino-unido-anuncia-novo-acordo-de-us-2-bi-para-financiar-misseis-para-ucrania/?utm_source=social&utm_medium=facebook&utm_campaign=internacional&fbclid=IwY2xjawI5gmlleHRuA2FlbQIxMQABHRoYpYtX2erE9jMHnBV8LmZCvajOROJ1yg042TdqG0P4BJ4npL7hPY48vA_aem_cu4ZxrS6oIk7Id4FX-StzA https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/europa-deve-ser-rearmada-urgentemente-diz-von-der-leyen/?utm_source=social&utm_medium=facebook&utm_campaign=internacional&fbclid=IwY2xjawI5gm5leHRuA2FlbQIxMQABHSrq6xkKmAWktGV_N8tYnTdOln2F4bjr90V9YD0oWTxH9Rxc5HnFop7rhg_aem_blBQfJpQcHo5M2niJhU_Vw https://www.cnnbrasil.com.br/economia/macroeconomia/ata-do-bce-indica-preocupacoes-persistentes-com-a-inflacao-da-zona-do-euro/?utm_source=social&utm_medium=facebook&utm_campaign=macroeconomia&fbclid=IwY2xjawI5gnlleHRuA2FlbQIxMQABHUxtU8OhxabJa1aoriN1-4UWWKWTL0PRYNteigFlaab5ebpsY4_iaEhRUA_aem_ozhYnCMdf6S9B0fTFsdGlA https://thenextrecession.wordpress.com/wp-content/uploads/2025/01/mr-12.pdf?fbclid=IwZXh0bgNhZW0CMTAAAR3AvzjC5SXI73Ast3xiDYqwoYsmrSqItUW-5Rd5CcB9-f1iA9iS2mETb8o_aem_E8c-c2DSGl7a7JtcHnotcg https://thenextrecession.wordpress.com/2025/03/22/from-welfare-to-warfare-military-keynesianism/?fbclid=IwY2xjawJM3-NleHRuA2FlbQIxMAABHZY4alfT_sgz7sRAp_w1TaDWdc61iKyTrSi51N69oRRZ4ZfJ6vgEOL5Djg_aem_4KhaXcn4pjkGXy_EqLZRmA https://br.investing.com/news/world-news/russia-se-prepara-para-confronto-com-europa-diz-ursula-von-der-leyen-1493862 https://istoedinheiro.com.br/alemanha-quer-investir-1-trilhao-de-euros-mas-nao-sabe-bem-como/ https://www.correiodopovo.com.br/not%C3%ADcias/mundo/parlamento-da-alemanha-aprova-reforma-que-permitir%C3%A1-forte-aumento-de-gastos-com-defesa-1.1590986 https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2025/03/pacote-de-estimulo-alemao-estreia-com-ajuda-de-r-186-bilhoes-para-a-ucrania.shtml
- Aculturação Substitui a Luta de Classes - Clovis Moura
Clóvis Moura (1925-2003) O trecho “Aculturação Substitui a Luta de Classes”, do sociólogo Clóvis Moura, integra a obra Sociologia do Negro Brasileiro, publicada em 1988. Nele, o autor faz uma ainda pertinente critica ao uso do conceito de “aculturação” como ferramenta ideológica que busca mascarar as profundas desigualdades sociais presentes no Brasil. Moura argumenta que, embora certos elementos da cultura negra tenham sido incorporados ao imaginário nacional, isso ocorreu de forma subordinada a uma cultura branca, europeia e advinda de um processo de dominação histórico que busca camuflar sua base material de produção em nome de uma suposta “democracia racial”. A partir de uma perspectiva marxista, o autor demonstra que a questão racial no país está intrinsecamente ligada à luta de classes e à estrutura econômica desigual da sociedade brasileira e mundial. E qualquer abordagem de nossas instituições e aspectos culturais, por parte dos movimentos que encampam a luta pela emancipação das pessoas negras, através da emancipação da classe, deve levar tal constatação em consideração; seja no âmbito religioso, político e cultural de maneira geral. Reduzir as tensões raciais que tais instituições geram a meras trocas culturais é uma ingenuidade que, mais que simples relapso de cabeças desatentas, ignora tratar-se de dispositivos de dominação. A simplificação oculta o debate sobre os mecanismos de exploração que historicamente afetam a população negra, por vias do sincretismo religioso e outros aspectos da relação entre a cultura europeia e a cultura brasileira impactada pelo processo de escravidão. Em tempos que se ventila disputar espaços reacionários somente com base no “por que existe na classe trabalhadora” o texto afirma sua validade ainda pujante e se propõem a uma leitura crítica da realidade brasileira, enfatizando a necessidade de compreender a materialização do racismo não só como forma meramente moral ou simbólica do capitalismo no Brasil, mas também no conteúdo econômico e cultural que tal capitalismo consolida em seu processo de exploração da classe trabalhadora em nosso país. Equipe editorial Aculturação Substitui a Luta de Classes Outro conceito abundantemente utilizado pelos nossos antropólogos e sociólogos no estudo das relações interétnicas no Brasil, em especial no relacionamento entre brancos e negros, é o de aculturação. Temos a impressão, mesmo, de que esse conceito foi o mais usado nos últimos anos pelos cientistas sociais brasileiros na abordagem do assunto. O conceito de aculturação é empregado constantemente como aquele que explicaria e definiria de forma abrangente e satisfatória as formas de contato permanente e as transformações de comportamento entre a população negra dominante (antes da Abolição, escrava; depois, marginalizada) e os grupos representativos da cultura dominante do ponto de vista econômico, social e, por extensão, cultural. Ora, esse conceito, cunhado exatamente para explicar o contato entre aquelas culturas que se expandiam como transmissoras da “civilização” (colonizadores) e aqueles povos dominados, ágrafos, considerados portadores de uma cultura primitiva , exótica (colonizados) e cujos padrões, por isso mesmo, eram mais permeáveis a uma influência modificadora por parte da cultura dominadora, tem limitações científicas enormes. Toda a manipulação conceitual objetivava demonstrar como nesse contato cultural os povos dominados sofriam a influência dos dominadores e disso resultaria uma síntese na qual os dominados também transmitiriam parte dos seus padrões aos dominadores, que os incorporaria à sua estrutura cultural básica. Com isso, os povos aculturados seriam beneficiados. Era como se não houvesse contradições sociais estruturais que dificultassem e/ou impedissem que os padrões culturais de etnias ou povo dominado fossem institucionalizados pela sociedade dominadora. Isto é, que religião, indumentária, culinária, organização familiar deixassem de ser vistas como padrões pertencentes a minorias ou grupos dominados e passassem à posição de padrões dominantes. Na verdade, as coisas acontecem de forma diferente. No Brasil, o catolicismo continua sendo a religião dominante, a indumentária continua sendo a ocidental-europeia, a culinária afro-brasileira continua sendo apenas uma cozinha típica de uma minoria étnica e assim por diante. Isto é, no processo de aculturação os mecanismos de dominação econômica, social, política e cultural persistem determinando quem é superior ou inferior. Para os culturalistas, no entanto, o ato de “dar e tomar” os traços e complexos culturais seria um todo harmônico e funcionaria como simples acréscimos quantitativos de cada uma das culturas em contato. Os elementos de dominação estrutural – econômico, social e político – de uma das culturas sobre a outra ficaram diluídos porque esses contatos permanentes trocariam somente ou basicamente o superestrutural. Religião, indumentária, culinária, organização familiar entrariam em intercâmbio, mas esse movimento, essa dinâmica de dar e tomar não se estenderia às formas fundamentais de propriedade, continuando, sempre, os membros da cultura superior como dominadores e os da inferior como socialmente dominados por manterem a posse dos meios de produção nas mãos dos membros da primeira. O culturalismo exclui a historicidade do contato, não retratando, por isso, a situação histórico-estrutural em que cada cultura se encontra nesse processo. Dessa forma, não se pode destacar o conteúdo social do processo e não se consegue visualizar cientificamente quais são aquelas forças que proporcionam a dinâmica social e que, em nossa opinião, não têm nada a ver com os mecanismos do contato entre culturas. Para nós, esse dinamismo não está nesse contato horizontal de traços e complexos de culturas, mas na posição vertical que os membros de cada cultura ocupam na estrutura social, ou seja, no sistema de propriedade. Isso quer dizer que a aculturação nada tem a ver com os mecanismos impulsionadores da dinâmica social nem modifica, no fundamental, a posição de dominados dos membros da cultura subalternizada. Em outras palavras: os negros brasileiros podem continuar se aculturando constantemente influindo na religião, na cozinha, na indumentária, na música, na língua, nas festas populares, mas, no fundamental, esse processo não influirá nas modificações da sua situação na estrutura econômica e social da sociedade brasileira, a não ser em proporções não significativas ou individuais. Com isso queremos dizer que os mecanismos que imprimem dinâmica à estrutura de qualquer sociedade poliétnica, dividida em classes, está em um nível muito mais profundo do que aqueles níveis da aculturação que não têm forças para produzir qualquer mudança social. Essa dinâmica surge de mecanismos internos das estruturas das sociedades poliétnicas, estabelecendo ritmos maiores ou menores de transformação. Enquanto a aculturação realiza-se em um plano passivo, a sociedade na qual essas culturas estão engastadas aciona outras forças dinamizadoras que nascem dos antagonismos surgidos da posição que os membros ou grupos de cada etnia ocupam no processo de produção. Daí não podermos aceitar o conceito de aculturação como aquele que iria explicar as mudanças sociais, mas, pelo contrário, achamos que a aculturação em uma sociedade composta de uma cultura dominadora e de outras dominadas estimula a desigualdade social dos membros das dominadas através de mecanismos mediadores que neutralizam a sua revolta. Através desses mecanismos mediadores, os membros das culturas dominadas submetem-se ao controle da cultura dominante. No particular, concordamos com Godfrey Lienhardt, quando afirma que “é necessário distinguir entre cultura como soma dos recursos materiais e morais de qualquer população e os sistemas sociais”. Isso porque os mecanismos que produzem a mudança cultural têm pouca relação com aqueles que produzem a mudança social. O problema de uma sociedade poliétnica dividida em classes não pode ser resolvido apenas através da aculturação. Muitas vezes, pelo contrário, a aculturação pode servir para dificultar, amortecer ou diferenciar o processo de mudança social. Isso porque a estrutura social tem mecanismos diferentes daqueles que atuam no plano cultural. No caso específico do Brasil, queremos dizer que enquanto se realizou intensa e continuamente o processo de aculturação, pouco se modificou no nível econômico, social e político a situação do negro portador das culturas africanas. Em palavras mais simples, esclarecedoras e objetivas: a aculturação não modifica as relações sociais e consequentemente as instituições fundamentais de uma estrutura social. Não modifica as relações de produção. No que diz respeito à sociedade brasileira, no seu relacionamento interétnico, podemos dizer que há um processo constante daquilo que se poderá chamar aculturação. Uma interação que leva a que muitos traços das culturas africanas e afro-brasileira realizem uma trajetória permanente de contato com a cultura dominante, aparecendo isso como uma realidade no cotidiano do brasileiro. No entanto, do ponto de vista histórico-estrutural, a nossa sociedade passou por apenas dois períodos básicos que foram: a. até 1888, uma sociedade escravista; b. de 1889 até hoje, uma sociedade de capitalismo dependente. A circulação de traços das culturas africanas, seu contato com a cultura ocidental-cristã dominante, finalmente, os contatos horizontais no plano cultural, quase nada influíram para mudanças substantivas da sociedade brasileira. O culturalismo, como vemos, não dá elementos de análise e interpretação para saber-se as causas que determinaram essas mudanças. Conforme veremos em outro capítulo deste livro, as populações descendentes das culturas africanas, apesar do grande ritmo e intensidade do processo aculturativo, continuam congeladas nas mais baixas camadas da nossa sociedade. Os níveis de dominação e subordinação quase não se modificaram durante praticamente quinhentos anos. A dinâmica social que produza mudança depende de um conjunto de causas que nada têm a ver com o nível e extensão do processo aculturativo. Em consequência, os costumes funerários, organização familiar, formas de casamento não institucionais, religião, festas religiosas, grupos de lazer, culto, ritual, técnicas agrícolas domésticas, arquitetura rústica, pintura etc., todos esses traços culturais podem ser incorporados à cultura dominante, contanto que, na estrutura social, eles continuem sendo elementos de uma cultura de folk, primitivista ou agregados suplementares à cultura dominante. Jamais esses traços ascenderão ao nível de dominantes. Isso somente acontecerá se houver um processo de mudança social radical que eleve os componentes da cultura afro-brasileira à dominação social e política. Absolutizando-se o processo aculturativo iremos desembocar diretamente no conceito de democracia racial , tão caro a inúmeros sociólogos e políticos brasileiros. Uma branca dançando em uma escola de samba com um negro não seria símbolo dessa democracia tão apregoada, via canais da aculturação? Nada mais lógico dentro dessa óptica de análise da realidade. No entanto, socialmente, esses dois membros da escola de samba estão inseridos em uma escala de valores e de realidade social bem diferentes e em espaços sociais imensamente distantes. Simbolicamente, contudo, eles são projetados como elementos que comprovam como, através da aculturação, chegamos a diluir os níveis de conflitos sociais existentes. A realidade demonstra o contrário. O modo de produção que existe no Brasil é o capitalismo dependente. As relações de produção determinam, em última instância, a estrutura básica da nossa sociedade, alocam no espaço social diversas classes e frações de classes que, por seu turno, são dinamizadas de acordo com o nível da luta de classes. Por questões de formação histórica, os descendentes dos africanos, os negros de um modo geral, em decorrência da sua situação inicial de escravos, ocupam as últimas camadas da nossa sociedade. Em consequência, a sua cultura é também considerada inferior e somente entra no processo de contato como sendo cultura primitiva exótica, assimétrica e perturbadora daquela unidade cultural almejada e que é exatamente a branca, ocidental e cristã. A aculturação, por isso, é aceita (permitida) porque cria espaços culturais neutros para que os negros não se unam “ante a desgraça comum”, como já dizia o Conde dos Arcos. Não é portanto um elemento de dinâmica social, mas um mecanismo usado pelas classes dominantes e os seus seguidores ideológicos para neutralizar a radicalização da população negra, de um lado, e, de outro, mostrar-nos internacionalmente como a maior democracia racial do mundo. No entanto, do ponto de vista de estrutura social, de um lado, e aculturação, do outro, podemos esquematizar essa realidade da seguinte forma: Pelo gráfico acima, podemos ver que a sociedade brasileira na sua trajetória econômico-social teve apenas dois modos de produção. O primeiro foi o escravista e o segundo o capitalista (dependente). Enquanto isso, houve um fluxo permanente do processo aculturativo entre as culturas africanas dominadas e a cultura branca dominante, sem que esse processo tivesse influído na mudança social estrutural, isto é, na passagem de um modo de produção para outro. Prova de que o processo aculturativo não influiu em nenhuma mudança substantiva da sociedade brasileira, ou seja, nas suas relações de produção. Alguns antropólogos no Brasil, ao sentir a insuficiência dos métodos culturalistas e dos seus conceitos fundamentais, como o de aculturação , procuram completá-los com a psicanálise. Artur Ramos foi o mais representativo desses cientistas sociais. Ele acreditava, mesmo, que a junção da psicanálise com o método histórico-cultural seria a chave para a compreensão científica das relações interétnicas no Brasil. Esse conceito – aculturação – surgiu exatamente para racionalizar os contatos entre membros de sociedades ou grupos sociais colonizados e grupos de dominação colonizadores. Isso Ramos não viu. A sua junção com a psicanálise, numa opção pendular, demonstra a resistência desses cientistas sociais a uma opção pelo método dialético diante do problema. Artur Ramos, por isso mesmo, escreve em 1937: O método histórico-cultural em etnologia evidentemente veio trazer novas luzes e múltiplos problemas de gênese e desenvolvimento das culturas materiais e espirituais dos grupos humanos. Mas não resolveu certas questões de psicologia social, ainda pendentes de solução. Para os que me criticam um não exclusivismo na aplicação daquele método aos meus livros sobre as culturas negras no Brasil, lembro que hoje certos tratadistas se batem por uma conciliação de critérios metodológicos. […] Por outro lado, há uma aproximação, cada vez maior, entre os historiadores e os psicólogos. Destaco apenas os interessantíssimos trabalhos de Kurt Lewin, aplicando à psicologia social os resultados metodológicos da Gestalt, e os de Sapir e de multidão de outros autores, aproximando a antropologia cultural da psicanálise. Essa opção pendular entre antropólogos que sentem a insuficiência do método histórico-cultural ou funcionalista e assumem uma postura crítica em relação aos mesmos, substituindo-os pela psicanálise, persiste até hoje. Por exemplo, o cultural scientist (antropólogo) Gerard Kubik, ao criticar as posições culturalistas, propõe a explicação do comportamento dos colonialistas através de categorias da psicanálise. Gerard Kubik esteve em 1965 no continente africano, especialmente em Angola, onde exerceu intensa atividade como pesquisador, particularmente sobre as instituições mukanda do leste daquele país. Em entrevista concedida ao suplemento Vida & Cultura , de Luanda, combate sistematicamente o conceito de aculturação. Afirma: Eu hoje recuso o termo aculturação porque baseia-se em concepções que não são aceitáveis cientificamente para nós que queremos estudar uma cultura na sua própria expressão. A aculturação é quase uma estrada de uma só direção e a sua base ideológica encontra-se em noções de superioridade cultural de um povo e na inferioridade cultural de outro. Uma ideia que eu não posso aceitar por não ter qualquer evidência é a de que na Terra existem culturas superiores e culturas inferiores. Uma cultura nunca é superior ou inferior. Ela explicase estruturalmente, ou seja, pelo seu conteúdo. Não há culturas superiores e inferiores. Esse processo, aculturação, baseia-se numa ideologia que defende a existência de diferenças de qualidade entre culturas e propõe teoricamente que as “culturas inferiores” devam adaptar-se às “culturas superiores”: as culturas “fracas” às “mais fortes” (isso é outra forma de dizer superior/inferior). Assim como, de um ponto de vista colonialista, as culturas africanas eram consideradas inferiores, também nas culturas africanas no Novo Mundo (no Continente Americano) foram supostas de se terem aculturado às culturas europeias. Tal conceito não é aceitável porque não há provas científicas de que exista tal aculturação. Hoje, para estudar esses fenômenos, com o estudo do contato cultural, do intercâmbio cultural que se faz quando populações de culturas diferentes se encontram, aceitamos muito mais a concepção que foi pronunciada pela primeira vez por Fernando Ortiz: a concepção de transculturação. E prossegue Gerard Kubik: O Brasil é um formidável exemplo de transculturação entre culturas africanas de várias origens (Yoruba, Kimbundu, Umbundu) e a cultura luso-brasileira, além de outros elementos de culturas europeias. O Brasil é um bom exemplo mas também Cuba, Haiti e outros países da América Latina. Mesmo na África, por exemplo, Luanda também tem a sua cultura particular que mostra muitos elementos de transculturação. Depois de criticar o conceito de aculturação, substituindo-o pelo de transculturação 19 , Kubik procura explicar como será possível fazer-se uma interpretação científica do contato entre culturas. Aí ele volta à solução pendular (culturalismo-psicanálise, psicanálise-culturalismo) de forma unilateral. A esse respeito, ele afirma: um europeu, no tempo colonial, chega pela primeira vez à África, encontra aqui uma cultura diferente da sua. Como reagirá? Ele vai identificar o comportamento das pessoas da África como uma coisa que ele não sabe que está na sua psique. Às vezes como uma coisa que ele reprime, mesmo por força dos seus parentes. Isso chama-se projeção. […] O europeu projeta a sua própria personalidade inconsciente que ele determina como inferior para os africanos. Isso quer dizer que o europeu encontra em si mesmo o que ele entende como uma personalidade inferior e identifica-a com os africanos. Isso é o mecanismo psicológico que se passa em muitos europeus e que os leva a reações como: se esse europeu não aceita nada da sua personalidade reprimida, ele cria uma forma de separação para se proteger, para se defender porque os homens da outra cultura, nesse caso os africanos, que esse europeu identifica com a sua personalidade, que ele pensa inferior, são ao mesmo tempo uma tentação para ele porque no seu íntimo ele gostaria de viver assim e de fazer exatamente o que ele pensa que os africanos representam. Como reação da sua personalidade, que ele diz inferior, ele pode estabelecer uma barreira, que pode ser mesmo institucionalizada. Conduz ao que encontramos na África do Sul que é a reação que se poderia chamar reação “apartheid”. Ele faz uma separação, ele vive, mas não quer viver junto dos membros da outra cultura, ele vive de uma forma separada. Isso é uma reação porque viver com os membros da outra cultura, para ele é um perigo. Essa longa citação é para informar o leitor como certos cientistas sociais, ao sentirem a insuficiência dos métodos culturalistas, caem em explicações mais absurdas ainda. Ora, o que Gerard Kubik não analisou foi por que esse mesmo fenômeno não se reflete no sentido inverso, isto é, nos membros da cultura oprimida pelo colonialismo. Também não destaca os métodos repressivos que os colonizadores usam constantemente, numa sistemática de dominação violenta, contra as populações dominadas. Não viu esse antropólogo que se usarmos o método psicanalítico e mais especificamente o conceito de projeção para explicarmos o colonialismo e sua política, o comportamento das suas elites de poder e a violência política contra as populações colonizadas, estamos criando explicações que justificam a sua eternização? Porque se esse inconsciente individual é o responsável pelo comportamento social, político e militar dos grupos colonizadores, só nos resta esperar que haja uma transformação, via terapia de divã, na psique do colonizador para que terminem o colonialismo e o neocolonialismo. Como vemos, a falta de historicidade, o desconhecimento da dialética por parte dos culturalistas e o subjetivismo do método psicanalítico aplicado para explicar processos sociais globais, levam certos cientistas sociais a se perderem em critérios analógicos de explicação e interpretação que não se sustentam cientificamente. Link para o livro completo (Editora Ática)
- A teoria das abstrações
Por Vânia Noeli Ferreira de Assunção* 'Rain, Steam and Speed - The Great Western Railway' é uma pintura a óleo sobre tela do mestre inglês J. M. William Turner realizada em 1844 e que está na National Gallery de Londres - (London National Gallery/Reprodução) Este excerto faz parte de um texto maior e mais completo da Professora Vânia Noeli. Versa sobre um tema de fundamental importância para a teorização marxista, na medida em que trata das fronteiras entre a forma de abordagem de Marx, que se diferencia das chamadas ciências naturais justamente pelo objeto de estudo também ser diferenciado. Além disso, oferece pressupostos críticos aos adversários políticos e intelectuais de Marx, do marxismo e dos movimentos sociais, que, além de buscarem viabilizar formas práticas de disputa hegemônica, também devem pautar tal disputa em uma análise criteriosa dos aspectos sociais do modo de produção burguês e seus desdobramentos. Disponibilizamos o link do texto completo ao final desta publicação. Indicamos também este excelente vídeo do Canal Aurora Humanista , baseado justamente nesses escritos. Como suporte adicional do entendimento desse debate tão caro aos marxistas. Boa leitura! Equipe Editorial Revista Barravento. III – A teoria das abstrações No “Prefácio” à primeira edição de O capital o filósofo alemão diferencia cabalmente a forma de captura da realidade social daquela própria dos estudos da natureza. Para o autor, nas análises das estruturas societárias, “não podem servir nem o microscópio nem reagentes químicos. A faculdade de abstrair deve substituir ambos” (Marx, 1988, p. 18). Em outros termos, no tocante ao estudo do ser social, experimentos semelhantes aos das ciências naturais são ontologicamente impossíveis , dada a especificidade do campo societário, cabendo à capacidade humana de abstração a possibilidade de apreensão do objeto. O Mouro ressalta que o caminho que vai do abstrato ao concreto, mentalmente apresentado, é “o modo do pensamento de apropriar-se do concreto, de reproduzi-lo como um concreto mental” (Marx, 2011, p. 54). Ou seja, afastadas as possibilidades experimentais e controláveis que estão dadas às ciências da natureza, a forma científica (e, portanto, distinta da artística, religiosa etc.) de apropriar-se da especificidade do ser social é reproduzi-la como concreto pensado : “O todo como um todo de pensamentos (...) é um produto da cabeça pensante que se apropria do mundo do único modo que lhe é possível” (Marx, 2011, p. 55). O concreto pensado reproduz a conexão entre efetividade e cientificidade, entre existir e pensar, em que o primeiro, dado independentemente das atividades do intelecto, pode ser apreendido e reproduzido pelo pensamento – no caso do ser social, a única forma de estatuir a cientificidade. Expondo seu “método” – ou, se tomado este termo na sua acepção moderna, seu antimétodo (Alves, 2012) – de pesquisa, o filósofo vaticina: a realidade preexiste à pesquisa, o objeto precede o conhecimento e deve, portanto, estar constantemente em consideração na sua representação ideal, ou seja, cientificamente deve-se partir do imediatamente dado. Observe-se, porém, que não se trata de um fenomenologismo nem de um empirismo. Esclarece: “Parece ser correto começarmos pelo real e pelo concreto, pelo pressuposto efetivo (...). Considerado de maneira mais rigorosa, entretanto, isso se mostra falso” (Marx, 2011, p. 54). Marx argumenta que, partindo- se do todo imediato, aparente apenas em seus complexos parciais, desemboca-se numa “representação caótica do todo”: a totalidade e cada parte abordada são simples abstrações, se desconsiderados seus elementos constituintes. Para Marx, portanto, o recurso metodológico adequado para o estudo do ser social é a força de abstração – uma competência intelectiva para extrair os momentos mais centrais das relações, coisas e seres estudados no âmbito social e, assim, apropriar-se deles em sua plenitude e complexidade. A força de abstração é o “órgão peculiar da individualidade” no que pertine à apropriação ideal dos objetos sociais, a “capacidade mental de escavar e garimpar as coisas”, por meio da qual o sujeito que “opera cognitivamente” consegue captar o movimento real (Chasin, 2009, p. 122). Ou, ainda: é uma qualidade individual ou força essencial de apropriação peculiar dos objetos, que se realiza de modo específico de acordo com a sua própria natureza e em consonância com a natureza do objeto apropriado. Enquanto força performática, sua apropriação é ideal, reprodução intelectual de entidades reais, o que se confirma pelo caráter ontológico das abstrações produzidas (Chasin, 2009, p. 123). Desta forma, a pesquisa não é idêntica ao coletar e agrupar caracteres empiristas e/ou à sua descrição por um silogismo lógico superficial, mas um processo de garimpagem de elementos da coisa estudada pelo intelecto humano, um processo de abstração. Como as categorias ontológicas não querem figurar universais a priori ou conceitos autônomos com relação ao concreto, mas expressar as próprias coisas efetivas e complexas, devem ser regidas pelo complexo fenomênico em tela. A cientificidade se põe, assim, não como um processo prévio, separado da efetividade, mas só pode ser definida com base na processualidade que pretende apreender. De forma que as abstrações ontológicas (Chasin, 2009) são determinações ou categorias simples que não são geradas por pontos de vista epistemológicos, mas derivam da própria coisa. Marx especifica categorias simples ou relações gerais , ainda que expressem “frequentemente aspectos isolados”, como “formas de ser, determinações de existência” (Marx, 2011, p. 59), que estão dadas na realidade efetiva – e, pelo esforço intelectivo, reproduzidas no entendimento. Elas devem registrar adequadamente traços comuns a todos ou a muitos dos objetos que investiga, evitando a repetição cansativa e pouco producente de informações idênticas e permitindo também o destaque das diferenças essenciais, por comparação. Segundo Chasin, a abstração retém “ aspectos reais , comuns às formas temporais de entificação dos complexos fenomênicos considerados”, comparando entes concretos, num processo de síntese – e só por isso as abstrações resultantes são razoáveis : “A razoabilidade está no registro ou constatação adequado, ‘através da comparação’, do que pertence a todos ou a muitos sob diversos modos de existência. (...) seu mérito é operar subsumida à comparação dos objetos que investiga” (Chasin, 2009, pp. 124-5). Essas abstrações vazias constituem-se no ponto de partida da elaboração teórica, a qual, “por meio de uma determinação mais precisa, chegaria analiticamente a conceitos cada vez mais simples; do concreto representado [chegaria] a conceitos abstratos [ Abstrakta ] cada vez mais finos, até que tivesse chegado às determinações mais simples” (MARX, 2011, p. 54). As abstrações razoáveis destacam e fixam característicos compartilhados, mas nenhum destes traços comuns é substância pura, e sim um todo complexo integrado por múltiplas formas e modos de ser, que nele atuam como “partes moventes e movidas” (Lukács, 2010, p. 289), como “unidade do diverso”. Sendo o universal comum multiplamente articulado, “síntese de múltiplas determinações”, a função primária das abstrações razoáveis é evidenciar a diferença específica, já que ignorá-la é distanciar-se dos objetos reais (com o que se criam abstrações irrazoáveis , generalizadamente vazias). Afinal, já dissera Marx, “uma explicação que não dá a differentia specifica não é uma explicação”, mas dá “apenas a aparência de um conhecimento real, pois esses sujeitos reais permanecem incompreendidos, visto que não são determinações apreendidas em sua essência” (Marx, 2005, p. 34). Em poucas palavras, a perda da “diferença essencial mutila a reprodução ideal do ser-precisamente-assim , indeterminando o objeto pelo cancelamento de sua processualidade formativa e especificação histórica” (Chasin, 2009, p. 125). No processo de pesquisa, a síntese categorial, que é objetiva, imanente à concretude, deve também passar a existir enquanto “concreto pensado”(6). Em outros termos, a “concretude sintética, o existente, em Marx, nesse contexto, se diz de dois modos: primeiro como este ente ou processo efetivo por-si; depois, como totalidade de pensamentos ” (Alves, 2012, p. 161). As abstrações são, portanto, o ponto de partida do método científico exato, e isto não por um critério epistemológico qualquer, mas por imposição da própria natureza da coisa que se pesquisa. As abstrações delimitadas , depuradas são um meio, não o fim do conhecimento, logo, têm o caráter de uma etapa analítica apenas provisória. Esta é justamente a sua função secundária: são o ponto de partida da elaboração teórica, não seu resultado último. Tal somente se alcança medindo comparativamente aquelas abstrações com a realidade que elas pretendem reproduzir mentalmente em sua totalidade multifacetada. Depuradas as abstrações em sua razoabilidade, trata-se agora da caminhada de volta, dando de novo com o real – não mais como “a representação caótica de um todo, mas como uma rica totalidade de muitas determinações e relações” (Marx, 2011, p. 54). Conforme sintetizou Ronaldo Vielmi Fortes, O processo de formação ideal das categorias consiste na apreensão dos traços gerais de elementos concretamente existentes. Abstrai-se aqui o complexo de interações da categoria – tais como suas determinações e peculiaridades históricas, sociais, de circunstância etc. – focalizando a atenção nos atributos mais gerais de tal elemento. (...) Este caminho leva do concreto imediato até a síntese abstrata e ainda “rarefeita” de elementos da totalidade. O caminho de volta implica, por sua vez, a decomposição rigorosa e minuciosa das características da categoria e do complexo parcial no interior da totalidade, em outras palavras a especificação das categorias, de suas interações, no interior do complexo. (Fortes, 2011, p. 125) Essa “viagem de retorno” é necessária porque a verdade está na efetividade, na concretude, no sensível. Deste modo, a verdade não é determinável por algum critério da faculdade de julgar ou de abstrair, mas sim pela própria existência: o efetivamente existente é o metro pelo qual se mede a correção ou não de um pensamento, parâmetro que não pode ser substituído pela mera aplicação de qualquer construto metodológico prévio e independente com relação à sua própria malha interna e às interdeterminações recíprocas da coisa pesquisada. Tampouco ficam a meio caminho, como a economia política, que toma a abstração como o resultado da pesquisa. Nos termos chasinianos, “o ser é chamado a parametrar o conhecer ”, de forma que, segundo o “rigor ontológico, a consciência ativa procura exercer os atos cognitivos na deliberada subsunção, criticamente modulada, aos complexos efetivos, às coisas reais e ideais da mundaneidade” (Chasin, 2009, p. 58). Aí ocorre uma metamorfose: as abstrações razoáveis, mantendo a condição de pensamentos, convertem-se em momentos concretos de apreensão e reprodução dos graus históricos efetivos. Parte-se do empírico para se alcançar o concreto pensado , passando pela abstração de determinados momentos isolados, donde se retorna à própria concretude, a qual lhes dá sua última configuração. Exposto, em suas determinações mais gerais, nas abstrações razoáveis, o concreto não é apenas fundamento da pesquisa, mas permanece presente em todo o processo, enquanto parâmetro último. Por outras palavras, A remissão categorial ao concreto realmente existente tem, pois uma dupla vigência teórica. Por um lado, na aferição da razoabilidade dos conceitos, na avaliação da relação destes, como pontos em comum ao diverso. Por outro lado, e principalmente, na etapa de concreção das abstrações, onde estas perdem sua vacuidade e são preenchidas pelo conteúdo determinativo real e particular. (Alves, 2012, p. 387) Para que as categorias percam seu caráter genérico e simples e ganhem concretude e se saliente a diferença específica deve haver uma intensificação ontológica , a “atualização das virtualidades de sua natureza ontológica enquanto forma de apropriação ideal dos objetos reais” (Chasin, 2009, p. 129). Esta intensificação se opera por meio da aproximação e comparação destas potencialidades aos traços efetivos, para serem medidas por estes e, então, ajustadas, procedendo-se à especificação, à delimitação e à articulação categoriais. Dentre os momentos necessários para que ocorra a elevação das “abstrações razoáveis” a reprodução de momentos concretos, Chasin destaca o do “deperecimento da abstratividade”, a especificação : “na rota que vai do simples ao complexo, do abstrato ao concreto, as abstrações razoáveis devem perder generalidade por especificação, adquirindo os perfis da particularidade e da singularização, ou seja, a fisionomia de abstrações razoáveis delimitadas ” (CHASIN, 2009, pp. 129-30). A especificação é um momento analítico do qual resulta uma determinação histórica e social que pode restringir o conteúdo e a vigência de determinadas categorias. De acordo com Lukács, Especificação significa aqui em termos ontológicos: examinar que êxitos determinadas leis, sua concreção, sua transformação, seu fazer-se tendência, seu concreto operar em determinadas circunstâncias concretas possuem para determinados complexos concretos. (Lukács apud Fortes, 2011, p. 117) A especificação das particularidades é necessária porque os aspectos, leis e diretrizes gerais não dão conta da compleição concreta das coisas em sua complexidade. Quando dissolvidas as categorias, estas agora são apreendidas em suas forma mais profunda, concreta, em articulação com as formas de aparição. Assim, o momento da especificação subentende a representação das formas concretas de realização dos complexos, momento em que se dissipam as representações genérico-abstratas da legalidade tendencial e tem lugar a diversidade histórica de suas efetivações. (...) O tracejamento geral das tendências históricas fornece apenas a dimensão geral das determinantes atuantes na realidade; a demarcação dos desvios históricos reais destas leis tendenciais é a determinação precisa e necessária do procedimento investigativo (Fortes, 2011, p. 117). Se toda coisa é uma pletora complexa de determinações e inter-relações, nem por isso todas são equivalentes e têm idêntico peso, fazendo-se necessário demonstrar as determinações delimitadoras recíprocas que regem a proposição de cada qual no todo da coisa pesquisada. Para dar conta do rico gradiente de caracteres dos objetos estudados, é preciso trazer a lume sua concatenação, sua específica articulação entre si e com o todo. Em Marx, ao contrário do que ocorria na economia política e na especulação, a articulação categorial não advém de uma atribuição formalista ou lógica, mas do retratamento da conexão íntima do próprio objeto em estudo. O próprio complexo estudado que diz da situação e da importância dos nexos entre as categorias, não selecionadas por critérios exteriores, de forma a alcançar sua integração e suas relações mútuas. Em outros termos, as abstrações razoáveis e delimitadas são articuladas segundo a lógica imanente que legisla o feixe de determinações examinado. Trata-se, conforme Chasin, do “estágio mais desenvolvido do próprio método, que integra e proporciona a plena realização de seus momentos anteriores” (Chasin, 2009, p. 131). Como apontou Lukács, os tipos de interações entre as infinitas determinações contidas em toda objetividade exprime esta infinitude de possibilidades (LUKÁCS, 2010). Nesta direção, remetendo-se novamente à diferença entre método de pesquisa e modo de exposição, Chasin destaca que a ordem em que aparecem e as posições ocupadas pelas categorias nos trabalhos marxianos não é aquela pela qual o pesquisador delas tomou conhecimento, mas reproduz teoricamente a coisa estudada. Assim, em Marx, a sequência em que aparecem e o lugar que ocupam as categorias remetem sempre a suas incorporações pertinentes ao concreto de pensamentos, ou seja, da integração de cada uma delas, pela via das múltiplas e sucessivas intensificações, delimitações e articulações das abstrações, ao processo de reprodução mental do objeto real, de modo a recompor, ao nível da concreção realizada, na ordem própria ao concreto pensado, por conseguinte de seu discurso, o ordenamento intrínseco ao objeto em reprodução, de tal forma que a sequencialidade das categorias, no concreto pensado, seja a reprodução de sua simultaneidade real no objeto (Chasin, 2009, pp. 244-5). A investigação não termina, entretanto, ao perspectivar as interações categoriais, com o que se correria o risco do unicausalismo ou da indeterminação. As determinações são momentos essenciais constitutivos do próprio ser societário e, portanto, a “relação entre categorias não é da mesma ordem, relevância e grau, uma vez que a participação de determinadas categorias no interior do complexo pode dar-se sob a forma da primazia ou da anterioridade necessária em relação a outros elementos” (FORTES, 2011, pp. 131-2). Em outros termos, a análise das inter-relações categoriais deve considerar o fato de que não estão contempladas ali apenas relações paritárias, mas também a sobreordenação e a subordinação das categorias, as quais, destituídas de homogeneidade, formam um conjunto de determinações diferentes e divergentes. Assim, a pesquisa deve compreender o grau e a relevância das categorias em interconexão, identificando claramente aquela que desempenha o papel de momento preponderante . Saliente-se que a predominância não é simples interação, mas diz respeito à posição central que tem a categoria na articulação dos nexos, já que se trata do “elo tônico”, daquela abstração razoável que sobredetermina as demais, tornando-se a categoria estruturante do todo concreto – e, portanto, também da totalidade ideal. É nesse momento que se manifesta a delimitação ou diferenciação por intensificação ontológica, na medida em que esta categoria que tem acentuação ordenadora específica fornece a construtura de todo o processo de síntese. Ainda no interior do processo de articulação, há também que demonstrar como se inter-relacionam em sua concretude as determinações reflexivas: as categorias que estão conectadas umbilicalmente em pares ou conjuntos, de tal forma que a compreensão de cada uma é forçosa à apreensão de todas, cuidando-se para não perder a especificidade de cada qual. Na arguta síntese de Antônio Alves, para fechar, a teoria das abstrações É teoria da coisa sob o mando da própria coisa, a qual é analisada, dissecada, separada, decomposta em seus aspectos múltiplos, diversos e, até mesmo, opostos. Tipo de procedimento teórico o qual a toma como aquela mesma “se dá” na realidade social, para, através do conjunto de atos da analítica que, miudamente, decompõe o existente em seus elementos. Os quais passam à forma de abstrações, para numa posterior etapa de reconstru- ção, apresentá-la como um todo de determinações que a delimitam como ente, ou processualidade, específica, na forma de um todo pensado. Conjunto de operações que distinguem as partes constitutivas de uma coisa umas das outras, e, na sequência, identifica o nível de determinações preciso em que cada uma delas se encontra na particularidade da existência atual (Alves, 2012, pp. 92-3). Da analítica das coisas , possibilitada pela inexistência preliminar de método e consubstanciada na teoria das abstrações , conclui-se que o método marxiano é a exposição crítica do próprio real. Não há nele uma prescrição, do que resulta que os métodos não têm valor de conhecimento baseado em si mesmos, muito menos podem servir de modelo ou guia de pesquisa. Antes, ao contrário, cumprida sua função, deixam de ser referência, não têm serventia como suposta metodologia universal que oriente outras jornadas, mas apenas registram um roteiro de percurso : “De modo que o conhecimento é possível, a ciência pode alcançar seus objetivos, mas não há um caminho preconfigurado, uma chave de ouro ou uma determinada metodologia de acesso ao verdadeiro” (Chasin, 2009, p. 231). *** (6) “A ascensão do abstrato ao concreto não é uma passagem de um plano (sensível) para outro plano (racional); é um movimento no pensamento e do pensamento. Para que o pensamento possa progredir do abstrato ao concreto, tem de mover-se no seu próprio elemento, isto é, no plano abstrato, que é a negação da imediaticidade, da evidência e da concreticidade sensível. (...) O progresso da abstratividade à concreticidade é, por conseguinte, em geral, o movimento da parte para o todo e do todo para a parte; do fenômeno para a essência e da essência para o fenômeno; da totalidade para a contradição e da contradição para a totalidade; do objeto para o sujeito e do sujeito para o objeto.” (Kosík, 1995, pp. 36-7) *Professora da Universidade Federal Fluminense – Rio das Ostras. E-mail: vanianoeli@uol.com.br. Link do texto completo.
- Entrevista com Gustavo Machado: Formação social brasileira, teoria do valor e atualidade do marxismo
Barravento Entrevista #1 – Gustavo Machado: Formação Social Brasileira, Teoria do Valor e a atualidade do marxismo Apresentação Rodrigo Vieira Ferreira (Revista Barravento) É com enorme satisfação que a Revista Barravento publica agora em formato de texto a transcrição da entrevista recentemente realizada com Gustavo Machado, coordenador do Instituto Latino-Americano de Estudos Econômicos ( Ilaese ) e responsável pela condução do canal Orientação Marxista . A entrevista em tela, já disponível no canal do YouTube da Revista Barravento , teve como tema “Formação social brasileira, teoria do valor e atualidade do marxismo”. Antes de partirmos para a leitura, alguns breves apontamentos acerca dos procedimentos metodológicos tomados para a consecução do texto. Em primeiro lugar, a transcrição da fala do entrevistado e dos entrevistadores foi realizada com uso de software próprio para essa tarefa e, uma vez feita, foi revisada visando aferir quaisquer eventuais equívocos de compreensão por parte do software utilizado. Além do mais, a revisão teve como intuito tornar a leitura do texto o mais inteligível e fluida quanto possível. Por conta do material original se tratar de uma entrevista em áudio de uma hora e quarenta e dois minutos, naturalmente haveria de ocorrer erros gramaticais e digressões durante a fala dos participantes. No que diz respeito aos eventuais erros gramaticais cometidos, a revisão realizada corrigiu-os de acordo com as normas da língua portuguesa, não mantendo, portanto, os erros de concordância que invariavelmente ocorrem na linguagem falada. Já no que diz respeito às digressões, também conhecidas como os “parênteses” feitos no meio de uma fala, a revisão fez uso da vírgula inglesa ( - ) para indicar as pausas e as mudanças de tema feitas pelo entrevistado em meio a suas linhas de raciocínio. Destacamos ainda que, visando manter a inteligibilidade e a fluidez da leitura do texto, em algumas passagens foram inseridos ainda apontamentos, pronomes e até mesmo frases inteiras por parte do revisor, as quais foram explicitamente indicadas entre colchetes ( [ ] ). Em suma, o texto que se segue é uma transcrição fiel do conteúdo das falas dos entrevistadores e do entrevistado de tal forma que a revisão feita buscou tão somente lapidar suas falas a fim de torná-las o mais compreensível possível e, por conseguinte, aptas a serem publicadas em formato de texto. Assim sendo, nenhuma elaboração apresentada durante a entrevista foi suprimida e/ou essencialmente alterada. Em adição, destacamos que a publicação dessa entrevista também no formato de texto teve objetivo duplo. Em primeiro lugar, potencializar a divulgação da entrevista e principalmente do conteúdo trabalhado, e, em segundo lugar, construir um material passível de ser citado em eventuais elaborações escritas, sejam elas de caráter acadêmico, como livros e artigos ou de caráter político, voltadas ao debate e à agitação, como publicações em blogs e posts nas redes sociais. Por fim, a equipe editorial da Revista Barravento agradece uma vez mais ao Gustavo por ter aceitado essa proposta e solicita aos leitores que, se possível, se inscrevam no canal do YouTube da Revista Barravento e sigam a página oficial da Barravento no Instagram , onde serão publicados, em breve, cortes desta mesma entrevista a fim de ampliar a divulgação deste material e fomentar o debate nas redes. Agradecemos o apoio e desejamos uma boa leitura a todos! *** Entrevista com Gustavo Machado: Formação social brasileira, teoria do valor e atualidade do marxismo Transcrição e revisão do texto: Rodrigo Vieira Entrevistadores: Rodrigo Vieira e Marcos Castilho Suporte técnico: Rafael Jácome Divulgação: Igor Dias Roteiro: Equipe editorial Introdução - Marcos/Revista Barravento: Bom dia, boa tarde, boa noite para todo mundo presente, para todo mundo que vai assistir esse vídeo. Nós somos da Revista Barravento, uma revista dedicada à divulgação do marxismo. Estamos aqui eu, Marcos, o Rodrigo e o Jácome, como integrantes e editores da Revista, para entrevistar o Gustavo Machado, quem comanda o canal Orientação Marxista . Nossa entrevista terá como foco “a formação social brasileira, teoria do valor e a atualidade do marxismo”. E também essa entrevista, posteriormente, vai ser divulgada na Revista por meio de texto e ficará disponibilizado no link na descrição. 1° pergunta - Rodrigo/Revista Barravento: Gustavo, para a gente começar essa conversa, do começo, a gente queria retomar algumas questões com você daquilo que vem sendo tratado muitas vezes nos vídeos do canal e também nos debates recentes que você participou, que é a questão da gênese do capitalismo e a sua generalização. Dando destaque, por exemplo, para a situação da Índia e da China que você comentou em debates recentes, a gente viu então que o capitalismo nesses países se desenvolveu a partir da truculência, inclusive de empresas privadas e das principais potências da época, naquele momento. Então isso chama atenção para nós para uma questão que é bastante clara: que esses processos, por exemplo, na Índia e na China, se deram de forma diferente daquilo que Marx e Engels chamaram dos países de “via clássica”, como é o caso da Inglaterra, para citar um exemplo. Então, isso deixa claro que o capitalismo, para se desenvolver, não tem uma “receita de bolo”, uma “cartilha” a ser seguida. Então, nesse sentido, a gente gostaria de começar perguntando para você como você caracterizaria as particularidades desse “caminho” brasileiro de objetivação do capitalismo e os seus reflexos sobre as relações sociais e políticas aqui no Brasil. E também gostaríamos de saber se teria havido, portanto, uma “expropriação originária” em solo brasileiro, que colocasse em desenvolvimento o capitalismo no nosso país. Resposta - Gustavo Machado/Canal Orientação Marxista: Obrigado, Rodrigo. Primeiro, queria agradecer o convite. Marcos, Rodrigo, o pessoal da Revista Barravento, para mim é um prazer enorme, estou inteiramente à disposição e fico muito feliz com o tema também, que está ligado ao desenvolvimento, à formação social brasileira, às suas especificidades. O marxismo se esbarra nesses dois problemas. Primeiro, a gente tem que entender rigorosamente o funcionamento do capital, a sua origem, suas características, mas a gente ainda fica no nível muito grande de abstração se a gente não ver como isso vai se materializar nas realidades específicas, as características particulares do seu desenvolvimento, os desafios que colocam e por aí vai. Então, fico bastante feliz com o tema. A questão me parece muito importante: “como se dá esse processo de expropriação que funda o capitalismo no Brasil?”. Eu sempre acentuo o seguinte: o que tem em comum em todos os países capitalistas desse ponto de vista é, de uma forma ou de outra, um processo de expropriação tem que ter acontecido para o capitalismo se desenvolver, ele tem que acontecer de alguma forma porque o capitalismo necessita, para se desenvolver, que a grande massa da população perca os seus vínculos diretos, seja com a terra, seja com os instrumentos de trabalho, seja com instituições que garantam a sua sobrevivência. Então, a liberdade abstrata do capitalismo está sentada nesse traço, na verdade, que a liberdade aí é: “você não tem nada de garantido, você está livre, leve e solto, solto no mundo, e não vai ter nenhuma outra chance para sobreviver que não seja vender sua força de trabalho”. Como que uma situação como essa se estabeleceu? Essa questão irremediavelmente se coloca. E em países onde esse processo de apropriação não foi desenvolvido, o capitalismo enfrenta barreiras gigantescas para se desenvolver. Você mencionou os debates e vídeos que eu produzo, materiais também que escrevo, trato um pouco disso no meu livro - Antes de entrar no Brasil, acho que um fato, um caso muito ilustrativo é a China, por exemplo, porque diferente da Índia, onde a Inglaterra colonizou por meio de uma empresa privada, na China, ela [Inglaterra] só ganhou uma guerra, as Guerras do Ópio - foram duas grandes guerras, na verdade - e forjou um tratado de livre comércio. E a China, na época, já era o país com maior população do mundo, por várias razões que não vem ao caso. Eles [Inglaterra] falaram: “poxa, aqui nós estamos feitos”. Você imagina: uma população dez vezes maior que a da Inglaterra, nós [Inglaterra] vamos escoar, aumentar a nossa produção de maneira colossal [voltada] à população chinesa. E foi um fracasso tremendo porque a população chinesa não tinha por que comprar, por exemplo, os produtos da indústria tecelã inglesa, porque ela [população chinesa] produzia, regra geral, as suas vestes no interior da própria propriedade camponesa, à qual a enorme maioria da população chinesa estava ligada. Então, aquela veste para ela não custava nada em termos de valor no sentido capitalista. Custava esforço, trabalho, uma divisão ali no interior da família, mas normalmente as sociedades eram de uma forma mais familiar na China, elas tinham teares, elas produziam isso tudo lá dentro. Então, se você não destrói isso, você não consegue criar um mercado interno. Por um lado, você não tem força de trabalho para ser empregada de forma capitalista, e por outro, você não tem um mercado interno para comprar as mercadorias capitalistas. Então, os ingleses vendiam ali só para a margem mesmo, uma franja do setor chinês. O Brasil é um caso bastante específico porque aqui no Brasil, diferente de outros países da América Latina, houve - entre aspas - um “extermínio” da população que existia aqui no território brasileiro pela colonização portuguesa já nos seus primórdios. Para o “extermínio”, não quero dizer que não sobrou ninguém, não é exatamente isso, mas, por exemplo, diferente do que se deu na colonização espanhola, onde civilizações seculares, até milenares - como a dos Incas, ou mesmo no México, Astecas, vestígios da sociedade Maia - continuaram existindo. Os espanhóis simplesmente se apropriaram delas, assumiram o controle e colocaram uma forma de trabalho compulsório como dominante. Mas então elas se desenvolvem a partir de uma estrutura de sociedade pré-existente à colonização inglesa e que foi adaptada aos interesses da colonização espanhola. No Brasil, esse problema não houve. A população originária daqui foi exterminada, foi afastada mesmo pros grotões, onde a colonização não tinha chegado, e teve uma colonização que se impôs por força externa por meio dos portugueses. A dizimação que esse processo produz é um debate historiográfico longínquo, porque depende de estimativas muito amplas, mas mesmo as mais pessimistas são dezenas de milhões de mortos. Um processo de colonização e o Brasil é um dos seus epicentros. Agora, diferente dos Estados Unidos, o Brasil foi colonizado por Portugal, que teve processos muito específicos dentro dessa colonização. Portugal é um país pioneiro no desenvolvimento capitalista, de um ponto de vista comercial, de um ponto de vista mercadológico e tudo mais, mas ele não revoluciona a sua produção internamente, como acontece na Inglaterra para produzir mercadorias em larga escala. Então, a Inglaterra, já tempos depois da colonização, logo tornou-se o epicentro, acabou subordinando Portugal no interior desse processo. Isso cria uma contradição de que o Brasil já surge dentro desse processo capitalista em desenvolvimento, mas ele surge completamente atrelado a esse mercado internacional que se desenvolvia a partir da Europa. Então, é impossível compreender o Brasil nesse período sem ser um braço da Europa em desenvolvimento. Isso não é nenhum eurocentrismo, foi assim que foi, foi assim que aconteceu, não estou elogiando esse processo. O mercado interno brasileiro, por séculos, era significativo de um ponto de vista puramente material, mas ele não se dá sobre formas tipicamente capitalistas, ou seja, no sentido de uma produção em massa por empresas capitalistas que produzem mercadoria para atender esse mercado interno. Por exemplo, a indústria inglesa, desde a abertura dos portos, [desde] as invasões napoleônicas, estabeleceu um vínculo muito forte entre a produção industrial inglesa e Portugal, mas essa produção industrial era para um grupo muito restrito da população, não era para atender o mercado interno brasileiro no seu conjunto. Então, isso vai gerar uma série de características que é importante a gente ter em vista, que é o desenvolvimento capitalista do Brasil intensivo, no sentido de alterar as suas relações internas e submeter todas elas à produção de mercadorias, valorização do capital. [No Brasil] esse não é um processo do século XVI e do século XVII, é muito mais um processo do século XX já propriamente dito. Inicia no século XIX com a independência, mas vai se estender mesmo no século XX e é um processo de expropriação que se reproduz dentro dele. Então, eu só vou dar alguns exemplos aqui para vocês: quando começam a vir as primeiras indústrias para o Brasil, [na] primeira metade do século XX, meados do século XX, você tem uma expropriação massiva da população do campo, [que] agora já é uma população de origem europeia, [ainda que] aqui também com indígenas, mas para a construção, por exemplo, de grandes plantações voltadas à exportação já adequada ao processo do século XX, produção de eucalipto para atender a siderurgia que estava surgindo. O Norte de Minas, por exemplo, hoje é todo [voltado a] produção de eucalipto. Essas terras eram terras que os moradores não tinham a propriedade legal, eles são expulsos dessas terras e [a produção de eucalipto] se torna aí de uma quantidade absurda, mais de um estado de plantação de eucalipto para produzir carvão para a siderurgia que se deu ali no Vale do Aço, só para pegar um exemplo. Então, esse é um processo que se reproduziu no Brasil com muita força e que vai fazer, no século XX, com que o Brasil, que era um país predominantemente rural, até a primeira metade do século, se torne um país propriamente urbano por distintas formas de expropriação dessa população rural. Então, é um processo que se desenvolve no século XX e que tem muito a ver com o Brasil mais moderno, [com] essa gênese mais moderna do Brasil. Então, eu destacaria, assim, grosso modo, esses dois pontos - tem vários que poderiam ser destacados. O primeiro deles é esse: o Brasil já começa desenvolvendo o capitalismo a partir do extermínio da população local, do afastamento e extermínio da população local. Isso coloca diferenças brutais do Brasil com relação a vários lugares da América Latina, cujas estruturas sociais [não foram tão fortemente alteradas]. Vou dar um exemplo aqui para vocês. Se você for, por exemplo, na Bolívia - o Peru menos, porque o grau de deterioração lá é muito grande -, os vínculos comunais, de solidariedade, os vínculos pessoais no interior da Bolívia são muito maiores [que os] do Brasil, porque ainda descendem organicamente de uma comunidade que não foi dissolvida lá no interior. No Brasil, não. Você já conseguiu criar essa ideia do indivíduo mais abstrato, do indivíduo mais solto, com vínculo indireto com a sociedade, desde o começo, ao destruir as sociedades que estavam aqui constituídas e instalar um processo de colonização que estava orientado para exportação em grandes propriedades, mas com uma parte gigante da população que se apossou de pequenas propriedades em várias regiões do país, populações que estavam à margem desse centro ligado ao mercado europeu de colonização do país. Esse setor vai ser fortemente expropriado ao longo do século XX, expulso do campo, gerando aí a população urbana, assalariada, que vai conformar o mercado interno e o desenvolvimento industrial com as características específicas do Brasil ao longo do século XX. Eu acho que essas são as duas principais características, mas é óbvio que, veja, essa história não foi escrita. Infelizmente, os historiadores marxistas se centraram mais ao longo do século XX em coisas como “etapas [do] desenvolvimento do Brasil”, “Brasil feudal”, baseado num esquema mecânico de transição. E, por exemplo, uma história de fôlego que analisasse com vasta documentação, nas distintas localidades, esse processo de apropriação ao longo de séculos de existência brasileira, não conheço nenhuma obra com essa abordagem, ainda que as obras existentes possam mencionar aspectos relativos a um momento, relativos a um local. Então, isso está longe de ser um tema que se esgotou, pelo contrário, ele mal se abriu. O que eu menciono aqui são só os aspectos mais óbvios. Mas isso abre campo, sem dúvida, para todo um campo de pesquisa, da historiografia, que seria extremamente importante para a gente entender esse processo brasileiro, que tem uma outra peculiaridade, que é a sua violência extrema. O processo de apropriação é sempre violento. O Brasil com quase quatro séculos de escravidão, [é] marcado por uma divisão, por um preconceito, por uma opressão de caráter ético, racial muito forte, um processo de urbanização completamente caótico e que sempre foi extremamente centralizador a partir da colônia. Então, foi um processo bastante violento, arbitrário e que certamente essa história, com essa abordagem, com esse enfoque, ainda está por ser escrita. 2° pergunta - Marcos/Revista Barravento: Ok, Gustavo. Você falando, me surge uma questão. Como você falou, não dá para pensar o Brasil, pelo menos o surgimento da nação Brasil, sem pensar na intervenção dos países europeus, em especial Portugal. Mas eu gostaria de ressaltar uma questão específica, que é a respeito, por exemplo, da abolição da escravidão. Tem-se como condição da generalização do capitalismo o sujeito livre e igual, ao menos do ponto de vista formal, jurídico formal. E como é que se deu [esse processo no Brasil], qual foi a influência das potências internacionais para que houvesse essa generalização aqui no Brasil, e como que isso, de alguma forma ou não, constituiu o Estado brasileiro enquanto tal. E como que isso se diferencia, por exemplo, da “via clássica”, do Estado nos países ditos desenvolvidos, europeus. Resposta - Gustavo Machado/Canal Orientação Marxista: Certo. Eu penso, Marcos, que esse é um processo cheio de peculiaridades e que explicações unilaterais tendem talvez até a esclarecer algum aspecto, mas a fracassar no seu conjunto. Eu não vejo o processo de abolição do trabalho escravo no Brasil como se fosse assim - isso aparece em algumas abordagens intituladas de marxismo - “os capitalistas viram que eles precisavam de mão de obra livre para poder empregar trabalhador salariado e por isso a escravidão saiu para criar o trabalho livre”. Mas os capitalistas viram quais capitalistas? Onde? Em que lugar? Onde é que está a ata da “Reunião Nacional dos Capitalistas Brasileiros”, onde eles falaram assim: “precisamos acabar com a escravidão para poder desenvolver o trabalho livre, para que surja o mercado interno”? Desconheço essa documentação e tudo mais. Então, eu acho que é um conjunto de aspectos que se confluem. Primeiro, já no final do XVIII e já em pleno século XIX, o Brasil, que teve um período forte do ciclo da cana, um período forte do ouro, exigia grandes contingentes de trabalhadores no mesmo local. Não é só pelo fato de se atender ao mercado externo, mas dependia de contingentes gigantescos. Quando o Brasil começa a entrar no ciclo do café, o café depende de solos específicos, região de São Paulo, Minas Gerais, etc. É uma produção que é muito menos extensiva, você não consegue fazer milhares e milhares de hectares contíguos, hábitos a plantação de café, então são propriedades menores. Para propriedades não tão grandes, o custo da escravidão é alto, porque a gente não pode esquecer que a escravidão você compra o escravo, tem um mercado de compra e venda dos escravos. Então, por um lado, o tipo de atividade agroexportadora, a mudança [para a hegemonia da produção cafeeira] se tornava menos propícia à escravidão. Você teve também processos de rebelião de escravos muito significativos no Brasil durante esse período. Os processos revolucionários no Brasil, via de regra, foram todos derrotados, mas eles foram muito expressivos e numerosos, ao contrário da nossa história oficial - a gente tende a valorizar a história só a partir de quem venceu, mas esquecem da quantidade de processos que existiram, como a Revolução Pernambucana, lá em 1817, Confederação do Equador, vários movimentos separatistas, Cabanagem, Revolução Praieira, Balaiada, Sabinada, Revolução Farroupilha, e por aí vai. Também, já havia um processo, tanto com um fluxo grande de ideias liberais que atingiam alguns setores médios aqui no Brasil, que não eram setores dominantes, mas que atingiam esses setores. Existiam rebeliões organizadas, os quilombos de escravos muito significativos e, ao mesmo tempo, também uma inadequação cada vez maior daquele tipo de trabalho escravo para as mudanças que se tinham no capitalismo agroexportador, já independente de Portugal, que se desenvolveu no Brasil ao longo do século XIX. Então, esse é um aspecto que eu ressaltaria a respeito dessa questão da mudança do trabalho escravo. E, óbvio, que numa situação dessas especificidades do Brasil, o capitalismo brasileiro só se desenvolveu e pôde se desenvolver com o papel gigantesco do Estado. Porque até a sua independência, você não tinha propriamente uma burguesia brasileira. Você tinha intermediários, mas ligados como intermediários da metrópole, como intermediários da coroa. Então, toda a atividade econômica do Brasil, e eu sei que tem um debate historiográfico a respeito disso aí, a questão não é tanto [sobre o fato de] que a maior parte do que era produzido no Brasil era para exportação. Não é esse cálculo quantitativo que importa. O que importa é que toda a estrutura social do Brasil, as funções, a distribuição, a hierarquia social, estava orientada para a exportação. Naquilo que Caio Prado chamava do “sentido da colonização” e tudo mais. Então, até a independência, você não tem nem sequer uma burguesia brasileira arcaica. A burguesia brasileira estava lá na Europa. A burguesia brasileira estava em Portugal. E aqui você tinha intermediários. Evidentemente, você tinha setores burgueses dentro do país, setores capitalistas dentro do país, mas que não se constituíam enquanto uma burguesia nacional. Essa que é a questão. Com interesses próprios, com interesses independentes. Isso coloca uma diferença novamente brutal entre o Brasil e a América Latina, por exemplo. O processo de independência da América Latina - e a colonização espanhola - realmente fomentou uma autonomia local muito maior. Eu chamo a atenção aqui que nas colônias espanholas você teve a fundação de centros autônomos, de universidades, muito cedo. Na colonização brasileira, quem queria ter uma formação superior, ia para Coimbra, em Portugal, e muito tardiamente se começou as primeiras faculdades [no Brasil] de direito, de engenharia, daquelas coisas que eram mais básicas e imediatas. A colonização espanhola fomentou a criação de uma elite local, de uma classe dominante local, que era chamada de elite crioula, e que entrou em contradição com a metrópole. Então, a independência na América Latina se dá por uma via revolucionária, por uma via onde essas elites locais conseguem trazer atrás de si a massa de produtores, sujeitos a trabalho compulsório, escravo, camponês, que mobiliza o país de maneira significativa, cria uma identidade nacional muito menos abstrata e difusa do que o que a gente tem aqui no Brasil, enquanto no Brasil foi desde o início um processo de conciliação a tal ponto de que o primeiro imperador do Brasil - os primeiros [imperadores] do Brasil Império - é simplesmente um herdeiro da coroa de Portugal, que assume as rédeas e o comando interno do Brasil ao longo de quase um século. Depois, o processo da Primeira República Brasileira é um processo onde até hoje nós temos a família real, [a qual] é bancada pelo governo brasileiro, algo que permanece até os dias de hoje. Então, se deu por uma via da conciliação muito forte. Então, o Brasil não desenvolveu uma classe dominante com o mínimo de independência que fosse, que em algum momento da história tivesse que partir para a ofensiva e trazer o resto da nação atrás de si. Tanto que as figuras históricas brasileiras [não evocam apoio popular]. Hoje com a ultradireita, é até engraçado, eles tentam reativar vários nomes, mas é extremamente artificial, porque ninguém sente emoção em torno daquelas figuras, elas não te remetem a capítulos da história, onde você pode, por que não, ter certo orgulho de certas ações que a classe dominante do seu país teve ao longo da história. Várias classes dominantes de vários países ao longo da história têm capítulos da sua história que são motivo de orgulho, sem dúvida. No Brasil, isso é bastante mais raro. Quando tem, se restringe a medidas administrativas que podem ser mais ou menos assertivas. Isso tem um impacto tão grande, já próximo da nossa história, que eu costumo sempre chamar a atenção para as diferenças do peronismo na Argentina, agora em profunda crise - mas não é esse o caso [que estamos discutindo] - e do varguismo no Brasil. O peronismo deixou raízes na história da Argentina, tanto que até hoje você tem grandes correntes políticas do país consideradas peronistas. O varguismo não deixou nenhuma marca na história do Brasil, virou meramente um referencial. Vargas tinha um comportamento em relação à população muito mais paternalista, muito mais passivo, enquanto o Peron não, ele convocava inclusive os setores industriais, trabalhadores assalariados, para a ofensiva contra outros setores aristocráticos argentinos, contra quem ele combatia. E não sem razão deixou formas organizativas, deixou uma vinculação muito mais orgânica, muito mais sólida e muito mais duradoura do ponto de vista histórico. Então, esse é um traço, sem dúvida, congênito do Brasil, que não é comum a todos os países periféricos. Ele tem o seu desenvolvimento muito centrado no Estado, uma quase completa [ausência] de autonomia da sua classe dominante ao longo de toda a sua história, ainda que tenha tido inflexões. Se a gente pegar [de] 1930, depois com a tentativa da Revolução Constitucionalista de 1932 em São Paulo, até a ditadura militar, você tinha um conflito maior entre uma burguesia mais moderna que se desenvolvia no Brasil e outra agroexportadora. Então, teve conflitos, mas que termina na conciliação de ambos ali no início da ditadura militar, onde todos entram naquilo que o FHC chamou de “desenvolvimento capitalista associado”, ódio à globalização e tudo. Esse desenvolvimento histórico deixa traços muito particulares e isso tem uma característica que está na burguesia brasileira até hoje, muito forte, que ela nunca conseguiu construir alternativas políticas minimamente consistentes ao longo dessa história. Tanto que as legendas políticas no Brasil são motivo de maior risada, de um modo geral, porque elas são meramente um aspecto formal ao qual as pessoas se vinculam nas [disputas] eleitorais, que, igual você troca de roupa, você troca de legenda. E não houve alternativas políticas organizadas da classe dominante brasileira, de modo que ela tem sempre que recorrer àquelas alternativas que são mais adequadas para o momento e abrem mão daquela que eles apoiavam até um ano atrás, seis meses atrás. É assim, por exemplo, que no início dos anos [19]90 eles jogaram todas as suas fichas em Ulisses Guimarães, que deu completamente errado. Depois eles vão abraçar Fernando Henrique Cardoso, que constituía uma espécie de esquerda intelectual acadêmica em ascensão ali naquele momento. Depois eles vão abraçar o PT já dentro de um processo de crise do governo de Fernando Henrique Cardoso no Brasil e assim sucessivamente. Não tem vínculo político-organizativo historicamente constituído, porque ela [burguesia nacional] nunca foi um agente ativo dos processos, ela sempre foi um agente associado, um agente subordinado a setores do capital internacional sem ter interesses independentes e sem ter projeto de país. 3° pergunta - Rodrigo/Revista Barravento: Beleza, Gustavo. Ainda mantendo então essa temática da particularidade brasileira, você até chegou a comentar na sua primeira fala sobre as teorizações sobre esse “caminho brasileiro”, essa questão de tratar mecanicamente o Brasil como um país feudal e tudo mais. Então, nessa direção, a gente gostaria de saber de você a sua posição com relação a dois movimentos teóricos em especial, que se deram principalmente na segunda década do século passado. A primeira delas é o uso da noção de “via prussiana” por vários autores marxistas, a “via prussiana” elaborada por Lênin, como uma chave de compreensão desse “caminho brasileiro” de objetivação do capitalismo. E outra teorização que é a do filósofo brasileiro José Chasin, que elaborou a teoria da “via colonial”, como, mais uma vez, essa chave de compreensão da realidade brasileira. Então, a gente queria saber se você tem algum acordo total ou parcial com essas duas elaborações. Se sim ou não, por quê? Resposta - Gustavo Machado/Canal Orientação Marxista: Então, vamos lá. Por partes. “Via prussiana” foi muito utilizada aqui no Brasil por causa do Nelson Coutinho, por exemplo, e outros autores, que é de fato algo que o Lênin cunha a partir das análises que Marx faz nos anos [18]40 do processo de desenvolvimento capitalista na Alemanha. Um capitalismo que entrou de maneira retardatária dentro desse processo de divisão internacional do trabalho, sem ter feito, à época, uma revolução tipicamente burguesa e trazendo várias especificidades. Esse processo de desenvolvimento do capitalismo, eu acho que sempre há paralelos possíveis com outros locais, mas, ao mesmo tempo, são processos fortemente particulares. Eu acho que esse é um ponto em que o Chasin acerta em mostrar que, certamente, essa analogia com a “via prussiana”, em vários aspectos, ela cabe no Brasil. Tem alguns textos do Marx que a gente lê da época, vou pegar aqui, por exemplo, a Introdução à Crítica à Filosofia do Direito de Hegel . A Introdução , publicada ali nos anais franco-alemães de [18]44, é um texto onde [em] um dos momentos em que ele aborda esse tema, é impossível não ver certos paralelos, vários paralelos com o Brasil. Então, para dar um exemplo, quando o Carlos Nelson Coutinho pega esse aspecto, acentua esse aspecto para o desenvolvimento brasileiro, não é uma coisa sem pé nem cabeça, longe disso. Agora, evidentemente que o Brasil vai ter traços do seu desenvolvimento também, que, em hipótese alguma, podem ser analogados com a Alemanha. Basta a gente ver o que aconteceu com a Alemanha e pensar se esse processo teria sido tão fácil no Brasil, que depois com o bismarquismo vai conseguir fazer um processo de modernização da Alemanha, desenvolvimento industrial. No caso alemão, o desenvolvimento retardatário foi até mais importante, porque ela [Alemanha], ao entrar depois nessa disputa, conseguiu industrializar o país com uma indústria muito mais moderna, com uma infraestrutura muito mais moderna, e já aparecer no pré-Primeira Guerra Mundial como um país que era, de um ponto de vista técnico, mais desenvolvido que a Inglaterra. Com outras variáveis que não vêm ao caso, acontece uma coisa muito parecida com a China ao longo das últimas duas, três décadas. Ainda que certamente a história do Brasil não teria que ser exatamente o que foi, a gente poderia ter seguido outros percursos, mas eu não vejo o Brasil como tendo no século XX as possibilidades que a Alemanha teve lá na segunda metade do XIX, tão pouco as que a China teve nos últimos 40, 50 anos. Então, quando o Chasin cunha o termo “via colonial” e ressalta o que se diferencia da “via prussiana” clássica, eu tenho acordo e acompanho quase que integralmente. Eu ressalto aqui, pelo que me lembre - eu li esse texto do Chasin, por exemplo, o escrito dele sobre o Plínio Salgado, já tem muito tempo, eu não vou me recordar aqui dos detalhes - mas eu me lembro dele tratar não só da ausência de uma revolução tipicamente burguesa no Brasil, que é consensual, mas da completa impossibilidade de que ela venha a existir. De uma completa impossibilidade, porque a conformação específica da classe dominante, da burguesia brasileira, nunca colocou [essa possibilidade], ela nasce de maneira associada desde o começo. A associação de forma subordinada é a razão de ser - entre aspas - do seu “sucesso”, desde o começo. Ela nunca é colocada em uma situação de entrar em conflito com outros setores, sejam internos, sejam setores burgueses internos, para procurar algum tipo de independência, seja no revolucionamento das relações sociais internas, seja de uma mudança do Brasil na divisão internacional do trabalho lá fora. Então, isso é um traço que me parece que está absolutamente válido. Ele [José Chasin] também trabalha muito aquela ideia de que o “novo” no Brasil se desenvolve associado ao velho. Há uma associação entre o que é atrasado e o que é - entre aspas - “avançado”, do ponto de vista técnico. Não é uma oposição de um em relação ao outro. Uma ideia que foi muito tratada pelo Chico de Oliveira também [em] um escrito clássico dele no final dos anos [19]50 [em] que ele usa a figura do ornitorrinco para dizer que no Brasil atrás do desenvolvimento, aquela agricultura obsoleta, voltada para exportação, com monocultura, com um desenvolvimento técnico precário, mesmo em relação ao que existia na Europa na época, ela [agricultura] não foi uma oposição ao desenvolvimento industrial brasileiro, mas ela está na base da especificidade do desenvolvimento industrial brasileiro, inclusive da conformação do que vai ser uma nova burguesia brasileira que vai se desenvolver no século XX. A burguesia atual brasileira não é do século XIX, tem algumas raízes ali, mas que vai se desenvolver principalmente em São Paulo. Florestan vai tratar muito disso. Então é algo que o Chasin trata, que eu também acompanho bastante. O que eu me diferencio um pouco dos desenvolvimentos que ele [Chasin] faz nessa abordagem dele: em primeiro lugar, eu sei que ele cunha a expressão “hipertardio” em referência a Mandel, que escreveu o livro do “capitalismo tardio”, que pelo menos nesse aspecto ele acompanhava, mas eu realmente não acho - e até remeto ao exemplo da Alemanha e da China que eu dei recentemente - que entrar depois na divisão internacional do trabalho significa necessariamente que você vai ter um desenvolvimento periférico e dominado. E muitos autores dos anos [19]50, [19]60, se unilateralizam muito nessa questão agroexportadora do Brasil, o Brasil como um país agroexportador e que, portanto, jamais desenvolveria o mercado interno de forma significativa. Eu vejo alguns aspectos disso no Chasin, pelo que eu me lembro também, mas eu posso estar sendo injusto, porque tem muito tempo que eu li. Mas autores sérios acentuaram muito isso. Por exemplo, o Mauro Marini que foi muito esquecido aqui no Brasil também. Não tanto a questão agroexportadora, mas ele focava muito no aspecto fundamentalmente exportador do Brasil. Eu acho que [Marini] subestimou um pouco o que é a característica do imperialismo dos nossos dias, onde a tecnologia, o avanço, é exportada pelos outros países para dentro do seu, fazendo com que a gente tenha aqui, pelo menos em muitos setores, patamares de produtividade muito próximos aos que você tem no capitalismo lá fora, [fazendo com que] você consiga ter um barateamento dos bens de consumo num patamar muito próximo do que você tem lá fora, e você consiga conformar o mercado interno. É fato que o Brasil construiu um mercado interno intensivo, significativo, que não se restringe a um setor médio da sociedade, a partir dos anos [19]60 dentro dessa visão de “capitalismo associado”. Claro que um mercado interno em que a propriedade do capital não é brasileira, onde os excedentes migram para fora do Brasil, onde os trabalhos de mais elevada qualificação, que estão ligados ao desenvolvimento científico, são feitos lá fora porque aqui a gente só tem matrizes que replicam isso. Então, eu não acho que o Brasil dos anos [19]60 para cá, e mesmo hoje, pode em sentido algum ser chamado de um país agroexportador. Hoje, a exportação de commodities no Brasil cumpre um papel de máxima importância dentro da divisão internacional do trabalho, mas um papel específico. Está ligado ao fato de que é através do setor agroexportador que o Brasil consegue dólares para poder tapar o déficit da indústria, da balança comercial porque [para a] indústria a gente importa máquinas e equipamentos. Os capitais são exportados, a gente depende de comprar lá de fora, em dólar, o tempo inteiro, a alta tecnologia que nós usamos. A gente usa a alta tecnologia comprada lá de fora. Nós [a] consumimos, inclusive, dentro das unidades produtivas [brasileiras]. O setor de máquinas e equipamentos no Brasil, ele existe mais ou menos para o agronegócio, depois [para outros setores] ele é completamente inexistente. É o maior déficit na balança comercial brasileira. Então, como é que você vai comprar tecnologia que não é sua sem ter um excedente em termos de moeda internacional em algum setor? Aí você precisa dos setores chamados commodities , setor mineração, petróleo, agricultura, etc. Mas hoje, o grosso da economia brasileira, onde a maior parte do valor é produzido no Brasil, onde a maior parte dos trabalhadores estão empregados, inclusive aqueles com maior remuneração, não é em setores exportadores, é em setores que atendem o mercado interno. E dos anos [19]60 em diante, o Brasil conformou - dessa forma atrófica, limitada e tudo, mas conformou - o mercado externo [na verdade Gustavo se referia aqui a conformação do mercado interno e não externo] . Os produtos duráveis hoje, por exemplo, estão na cesta de consumo do grosso da população brasileira. Hoje, 99% da população do Brasil, mesmo que só com dados no celular, tem acesso à internet. Você tem televisão na quase totalidade das residências e metade delas é LCD conectada à internet. Hoje você tem 38 milhões de brasileiros que têm carros, que se tornou um meio de locomoção básica em grande parte dos centros urbanos. E esses 38 milhões, se a gente pegar em termos de família, vai dar 40% da população do Brasil. Então, esse mercado interno foi conformado. E eu acho que o Brasil não é um país agroexportador, é um país que depende da exportação de commodities para poder equalizar a sua balança comercial e conseguir, inclusive, manter o seu mercado interno. Essa conta fica cada vez mais difícil de fechar - [há] vários problemas crônicos aí -, mas é uma estruturação onde se tem aqui uma produtividade do trabalho, que às vezes é baixa em alguns pequenos setores da economia nacional, mas no geral ela segue a média do mercado internacional, porque são as empresas estrangeiras aqui instaladas que comandam. [Há] O subsequente barateamento dos produtos, aumento das necessidades e das capacidades, até das necessidades de consumo de uma massa da classe trabalhadora. Mas o segundo ponto que o Chasin trata um pouco também, eu me lembro bem dele tratar desse ponto, que eu teria algumas diferenças é que - e aí eu acho que, [como] eu disse, essa questão da diferença do Brasil com a Prússia, eu concordo com ele, com a “via prussiana”, o caráter muito mais cronicamente retardatário do desenvolvimento do capitalismo brasileiro, da massa de contradições que existe, mas daí - ele faz um transpassamento disso para as formas organizativas do que ele vai chamar da esquerda brasileira ao longo do século XX até hoje. E eu não creio que esse seja o principal fator. Basta dizer aqui que, na minha opinião, e eu acho que Chasin concordaria com isso, por alguns textos dele que eu já li, a esquerda mais fértil, por assim dizer, marxista, que teve no século XX, foi na Rússia, nas primeiras décadas, e a Rússia era um país que padecia de inúmeros atrasos. A classe trabalhadora russa era uma classe analfabeta, na sua maior parte, de baixíssima qualificação, na sua maior parte, e isso não impediu [sua radicalização]. Eu vejo que toda essa característica que é marcante da esquerda brasileira se deve muito mais por uma esquerda construída por influência externa, principalmente da União Soviética, onde o PC foi a organização hegemônica até os anos [19]60, onde toda a leitura do Brasil era enquadrada num esquema contra o qual o Chasin lutou a vida inteira, inclusive, um esquema mecânico dos modos de produção, onde o Brasil era considerado um “Brasil feudal”, que tinha que desenvolver uma burguesia brasileira, e era uma esquerda amplamente hegemônica. Ela [esquerda] realmente caiu na ditadura militar por várias razões. Nos anos [19]60, ela perdeu bastante a sua influência, mas as marcas ficaram. E são as marcas de uma esquerda que aposta num desenvolvimento nacional autônomo e que vê a possibilidade revolucionária no Brasil como algo que estaria colocado para uma outra época histórica e que não poderia ser forjada, construída de forma consciente, a partir das necessidades que estão dadas a partir de agora. Eu concordo com as críticas que ele [Chasin] faz a essa esquerda dominante. Eu não me lembro agora as terminologias específicas que ele utilizava ao tratar desse tema, mas eu me lembro que ele fala algo de que seria a incompletude da burguesia brasileira [que] ia gerar uma incompletude também da classe trabalhadora, entende? Eu realmente não faria essa transposição. Inclusive, eu relembro aqui que o movimento dos anos [19]70, dos anos [19]80, [que] foi um dos movimentos de organização operária, organizada, partindo de organismos de base. É dos mais intensos e fortes que a gente teve no mundo dos anos [19]70 para cá. Eu acho que depois disso nós não tivemos igual, inclusive, no mundo. Aí tem a ver com outros fatores, fragmentação da classe, vários aspectos que se deram depois, mudanças do capitalismo a nível mundial. Eu acho que ele foi um movimento que, se existissem, organizações com uma elaboração teórica mais sólida, com a compreensão do Brasil vivo, sem a transposição de esquemas de fora, que conseguisse disputar e ganhar os trabalhadores em meio a esse processo, você poderia claramente ter aberto aí uma possibilidade revolucionária no Brasil das mais poderosas que a gente teria tido no mundo ao longo das últimas décadas. Então, eu não faço essa associação [entre o atraso brasileiro e a formação de uma esquerda estéril] e eu vejo muito mais como sendo um subproduto do hegemonismo do PC, a força do PCB no Brasil até o final dos anos [19]60, e essas bases extremamente débeis com que essa, por assim dizer, “esquerda brasileira”, “esquerda marxista”, foi construída [do que] como sendo uma transposição do atraso do capitalismo brasileiro. Eu vou até mais longe. Eu vejo no mundo hoje, por exemplo - as coisas podem mudar, tá? Pode ser que daqui a 5, 10 anos eu já tenha outra opinião, porque as coisas hoje estão acontecendo muito rápido - eu não vejo uma possibilidade revolucionária imediata nos países que estão no topo do capitalismo hoje. Não vejo. Para mim, hoje é inconcebível imaginar uma revolução que comece com os Estados Unidos. Não que a classe trabalhadora dos Estados Unidos não lute. Tem lutado, se organizado, mas a transferência de capital por meio dessa forma imperialista que o capitalismo atingiu do mundo inteiro para os Estados Unidos, faz com que circule tanta riqueza no país que a classe trabalhadora de lá tem algo a perder. Até onde ela está disposta a ir é menos do que em outros países. É claro que isso pode mudar e está mudando ao longo dos últimos anos, mas eu vejo a possibilidade revolucionária - dela começar - muito mais em países da periferia do capitalismo do que do topo do capitalismo nesse período histórico que a gente está vivendo. 4° pergunta - Marcos/Revista Barravento: Ok, Gustavo. Retornando um pouquinho, especialmente para a questão das commodities , a gente vê, nas últimas décadas - e isso você trata no seu canal, ao menos pincela isso em alguns momentos - que nas últimas décadas a gente passa por um processo de desindustrialização muito forte. Mas, diante desse cenário, a gente vê também respostas. Especialmente os setores da esquerda que são mais desenvolvimentistas, entendem que existiria uma solução para isso [desindustrialização] dentro do Estado. E eu queria saber de você justamente sobre a relação entre esse processo de desindustrialização e [o] Estado. Se você entende que existe alguma possibilidade, seja de barrar ou seja de retardar esse processo através do Estado, como alguns setores da esquerda defendem. Resposta - Gustavo Machado/Canal Orientação Marxista: Certo. Essa é uma questão que é capciosa, porque eu também não quero recair aqui em nenhum lateralismo. Eu realmente não acho que o Brasil poderia ter sido, no século XX o que foi a Alemanha no XIX, como eu disse antes, e tampouco que o Brasil poderia, pela via do Estado, com a “política acertada”, sei lá, ter feito o que aconteceu com a China, dando um exemplo. Vou pegar aqui o caso chinês. A China teve condições, porque houve um processo de desenvolvimento capitalista ali. Não necessariamente um processo de libertação da classe trabalhadora chinesa, em nenhum sentido, mas de desenvolvimento capitalista indiscutivelmente houve. Agora, isso partiu, em primeiro lugar, de um mercado consumidor gigantesco, potencialmente o maior do mundo. Eu digo “potencialmente” porque o mercado consumidor não depende só da população, depende dos recursos que essa população tem para comprar. E até hoje a China ainda não ultrapassou os Estados Unidos, mas ela pode ultrapassar e muito porque é um país de 1,4 bilhões de habitantes. É um país que, com a revolução abortada e a restauração do capitalismo que se deu na China em [19]78, você já tinha uma estrutura produtiva inteiramente concentrada nos braços do Estado, que pôde traçar uma proposta de desenvolvimento a partir daí. E traçou uma proposta de desenvolvimento muito bem sucedida, diga-se de passagem, direcionando os créditos por meio da estrutura bancária, controlando os setores de insumos produtivos para prover insumos em larga escala e barato, tanto para a indústria de capital chinês quanto para a indústria de capital estrangeiro. E tem um elemento externo aí, que não está na conta de decisão política nenhuma do Estado chinês, que é o fato de que, por várias razões, o capital internacional migrou para dentro da China, enquanto fábrica, manufatura, centro de manufaturas do mundo, permitindo que uma fatia desse capital que tenha migrado, indiretamente tenha que parar no colo chinês, porque alimenta todo um setor da classe trabalhadora com salário, que paga imposto - vai ter formas diretas e indiretas de taxação do Estado. Então, se migrou um núcleo volumoso do capital mundial para dentro da China. No Brasil, nenhuma dessas condições ocorreu, nem está em vias de ocorrer. Agora, posto isso, eu não vejo solução para o problema estrutural brasileiro à parte de um processo de revolução social profunda, que ataque diretamente as relações de propriedade brasileira, que possa, a partir daí, direcionar o Brasil para outro lugar. Isso não quer dizer que a coisa teria que ter sido mais ou menos como foi. Houve oportunidades para o Brasil ao longo da sua história. Então é importante que se admita isso: que a gente não seria uma potência capitalista imperialista dominante, mas pelo menos poderia ter uma posição melhor, inclusive com reflexos sociais e de outra natureza. Então, eu ressalto aqui, por exemplo, que o Brasil, quando surgiu lá atrás a tecnologia - quando chegou aqui a tecnologia - de automóveis, o Brasil tinha um setor automobilístico, que foi marginalizado, foi entregue e [efetivou-se a] abertura completa ao setor automobilístico estrangeiro. Setor eletroeletrônico no Brasil: o Brasil tinha diversas marcas do setor eletroeletrônico. Eram cópias no início, mas produziam computadores quando começou a era da computação. Qual era o problema? Eram políticas de incentivo muito toscas, baseadas em subsídio, deixado na mão de um capital privado que ficou ali enquanto aquilo dava algum “lucrozinho” e migrou seu capital para outro lugar quando viu que não tinha condições de competir. Ou seja, poderia haver um projeto estruturado no Brasil que permitisse que o Brasil despontasse pelo menos em alguns ramos de produção específicos. Eu vou dar exemplo aqui do que aconteceu na Coreia do Sul no setor eletroeletrônico e de semicondutores hoje. De Taiwan, que se desenvolve à parte da China desde [19]28 no setor de chips, semicondutores e microprocessadores. Então, não é verdade que algo dessa natureza não poderia, sob nenhuma hipótese, ter sido construído no Brasil no passado, na minha opinião. Agora, é evidente que mesmo iniciativas como essa que podem vir a ocorrer agora e no futuro, elas se tornam cada vez mais limitadas, por várias razões. Primeiro: hoje a gente tem um Estado que está totalmente atrelado ao capital e que tem uma função básica hoje, que é fazer política monetária. E fazer política monetária porque os recursos estatais estão integralmente direcionados para isso, por meio do mecanismo da dívida, por meio do mecanismo de reservas internacionais para evitar desvalorização cambial. O Estado hoje tem no Brasil e no mundo espaços de intervenção muito menores do que teve no passado. Até o Estado chinês eu chamo atenção para o seguinte: a China, no projeto de desenvolvimento dela, não se baseia em recursos estatais que são direcionados para área nenhuma, se baseia no controle direto de empresas que acumulam capital, mas são de propriedade estatal. Percebe? O capitalismo hoje, o capital privado, depende do Estado numa magnitude tão grande por meio do mecanismo da dívida, que absorve para o Estado o capital que o setor privado não consegue investir, por meio do mecanismo em que o Estado tem que comprar dólar para fazer reservas internacionais, para poder fazer política monetária, e por meio do corte sistemático dos serviços públicos, para que depois você consiga garantir e devolver esse capital lá na frente, porque se você não consegue devolver o capital lá na frente, você compromete a economia do país e o capital privado inteiro. O Estado hoje está colocado diante de limites infinitamente maiores do que o que existia nos anos [19]60 e nos anos [19]70. Então, eu não quero ter uma visão aqui determinista. Poderia ter ocorrido um curso diferente no Brasil. Seria uma maravilha? Sem chance. Mas poderia ter sido melhor do que é agora? Eu acho que poderia ter sido melhor do que é agora. Houve oportunidades perdidas em vários momentos. Agora, essas oportunidades, elas ficam cada vez menores. O espaço existente para a intervenção estatal, que tem hoje as suas receitas atreladas, enraizadas com o capital privado em todas as vias imagináveis, [apresenta limites evidentes]. E veja, é uma dependência mútua. O capital privado precisa do Estado. Não é que o político do Estado quer ajudar o capital privado, pura e simplesmente. [O Estado] precisa absorver capital por meio do mecanismo da dívida, precisa para consumir. Hoje, os gastos dos municípios no Brasil, por exemplo, é 25%, 30%, 35%, 40% com o capital privado como consumo, consumo estatal. [Há também] políticas de renda básica. Estou longe de ser contra, tá? Só acho que não é solução para nada. Políticas de renda básica hoje, num país com um capitalismo atrófico, que gera um exército industrial de reserva tão grande, se torna para o capital algo absolutamente necessário para você não ter um caos social. No Brasil hoje nós temos 40 milhões de famílias que vivem dos auxílios, das assistências do governo, por exemplo. Então, eu não vou dizer para você que não dá para fazer nada. Mas os espaços são cada vez menores. E eu não vejo qualquer mudança drástica do país que não seja pela via das mudanças das relações de propriedade, pela quebra das patentes, dos segredos comerciais, que pode possibilitar, aí sim, escolher vias estratégicas em que os recursos do país possam ser depositados, onde você possa distribuir o trabalho entre as pessoas que estão disponíveis para trabalhar, onde você possa investir em ciência e tecnologia e ter onde empregar essa ciência e tecnologia. Hoje, as universidades brasileiras têm um problema que ninguém fala, que é o fato de que boa parte das tecnologias que são pesquisadas na universidade, não são de fato usadas em lugar nenhum, porque o Brasil não é produtor de tecnologias, salvo algumas raras exceções. Porque os setores que produzem tecnologia estão lá fora, nós só consumimos. Claro que vai ter uma coisinha ali, você tem a Embraer, você tem uma coisa ou outra na Petrobras, você vai ter alguns âmbitos [da economia] que vão [produzir tecnologia]. Mas hoje, basicamente, a universidade brasileira forma técnicos para operar tecnologias já produzidas, e não para produzir nada. Então, eu não vejo qualquer mudança estrutural de fôlego no país, à parte de uma mudança nas relações de propriedade, à parte da construção de um processo revolucionário no Brasil que possa colocar as principais estruturas produtivas sob controle de conselhos de trabalhadores organizados e que possa fazer de forma planejada a economia do Brasil, mas mesmo isso é muito limitado. O processo de desindustrialização no Brasil é tão grande que isso vai depender fortemente da expansão desse processo em escala internacional. Veja que correr atrás de tecnologia que nós não possuímos [é tarefa árdua]. Eu vou dar um exemplo para você da China - está todo mundo aí falando, “a China, blá, blá, blá” [alusão aos debates recentes sobre China nas redes sociais], não vou entrar em detalhes sobre isso, mas, por exemplo - a China está no topo em tecnologias novas que surgiram nos últimos 15, 20 anos, 25, 30 no máximo, e que ela conseguiu entrar com força já na largada. É o caso de painéis solares, é o caso do carro elétrico, que embora exista há mais de um século, só recentemente, tem sido produzido em escala industrial. Ela entrou na largada, ela não entrou depois. É o caso das torres de internet 5G, da Huawei, que está hoje no topo da tecnologia. Todos são setores que a China entrou na largada. O problema da disputa tecnológica é que os países dominantes não só têm controle do capital, mas eles têm controle do conhecimento técnico. Então, você vai correr atrás de um conhecimento que você não tem, você vai levar 5, 6, 7 anos para adquirir. E quando você adquirir, aqueles que você adquiriu de formas legais ou ilegais já estão lá na frente de novo. Então, veja o que acontece na China em semicondutores, por exemplo. Há 10 anos atrás, a China estava duas gerações atrás na produção de semicondutores e teve investimento estatal massivo, inclusive empresas adquiridas, para poder correr atrás disso e não depender de semicondutores feitos hoje em Coreia, Taiwan, Estados Unidos. Cinco anos atrás, ela continuava duas gerações atrás. E hoje ela está duas gerações atrás. Ela avança na sua tecnologia de semicondutores, só que os outros avançam um, dois degraus para frente junto com ela. Ela não consegue alcançar, ela continua ainda absolutamente obsoleta nessa área. Então, eu não tenho dúvidas de que para ter uma mudança realmente estrutural, profunda no Brasil, você precisa de um processo revolucionário no país que organize a sua produção e distribuição sobre novas bases. Agora, o que não quer dizer que nós não perdemos oportunidades, que continuamos a perder e que a situação poderia estar “ melhorzinha ” do que ela está agora. Também não quero cair nesse determinismo de dizer que desde lá do século XIX, salvo uma revolução socialista, o Brasil estava predeterminado a estar exatamente onde ele está agora. Não, não é verdade. Também isso não é verdade. 5° pergunta - Rodrigo/Revista Barravento: Gustavo, no seu último comentário, você ressaltou uma série de mecanismos que o Estado possui para, vamos dizer assim, tentar salvaguardar essa dinâmica econômica capitalista. E, logicamente, igual você bem pontuou, isso não se dá da mesma forma em todos os lugares . Então, é claro que o Estado possui uma autonomia relativa, inclusive, sobre a dinâmica econômica, para agir. Mas a gente gostaria de perguntar para você sobre um dos mecanismos em específico de atuação do Estado que você até chegou a mencionar na última resposta, que é a questão da dívida pública, que eu acho que é uma deflagração clara dessa articulação entre Estado e a dinâmica econômica. E aí a gente faz essa pergunta justamente porque, para nós, parece que tem tido alguma relevância, para além da realidade brasileira, também para o seu estudo, enfim, para os temas que estão sendo trabalhados no canal [Orientação Marxista]. É um tema que está sendo recorrentemente tratado por lá. Então a gente gostaria de entender como funciona esse mecanismo, quais são os seus limites e problemas para um futuro próximo, ou talvez até mesmo iminente da dinâmica econômica. Resposta - Gustavo Machado/Canal Orientação Marxista: Certo, Rodrigo. Agradeço demais pela pergunta. Esse tema é absurdamente fundamental. Curiosamente, a maioria das pessoas não sabe que Marx tratou dele de maneira significativa - o livro III do Capital, na parte do crédito e capital fictício, que é a segunda parte da sessão 5. É verdade que é uma sessão bastante caótica, porque ele fez apenas uma redação dessa parte. É a única parte do Capital que só tem uma redação no sentido de que todas as outras partes do Capital, você vai ter esboços anteriores, nos manuscritos de [18]61 e [18]63, nos Grundrisse , esboços iniciais dessas partes, que ele [Marx] reescreve no manuscrito que Engels usou de base para editar o livro. Essa é a única parte que foi [utilizado] o primeiro [esboço] que ele escreveu, foi essa do crédito do Capital Fictício. Inclusive, eu tenho feito uma ampla discussão [sobre a dívida pública] - pelo menos tenho iniciado, pretendo fazer uma ampla discussão. [Há, por exemplo] alguns materiais que a gente publicou no Ilaese. Inclusive, o último anuário já traz alguma coisa sobre isso, mas o Ilaese vai publicar um novo anuário estatístico esse ano com análise bem mais detalhada sobre a questão da dívida pública. E eu também, assim que eu conseguir terminar de dar o “ok” na revisão, porque a quantidade de tarefas está me matando, estou indo publicar o meu livro, que eu venho anunciando há muito tempo, Marx e a Filosofia, o Capital como Crítica à Metafísica , que tem toda a quarta sessão dele dedicada ao livro III e com uma ênfase bem grande nessa parte do capital a juros, que é a sessão 5, e todas as formas derivadas do capital a juros, onde os títulos da dívida pública, que é uma forma de capital fictício, se encontram. E essas discussões que eu tenho feito, elas, na verdade, estão lá no Marx. Dá um pouco de trabalho pelo aspecto caótico do manuscrito. Nessa parte a estruturação que o Engels tentou fazer lá, acabou não ajudando muito. Em outras partes, o Engels foi muito bem na edição, na minha opinião, mas essa parte, ela é difícil, de fato, de organizar. E eu tenho batido nessa tecla que a dívida pública. E a “dívida” que Marx está analisando lá [no livro III] não é a dívida externa, não, é a dívida interna, é a compra e venda de títulos da dívida, ela tem uma função primordial para o capitalismo e é um dos traços que entrelaça o Estado, não só como condição para a reprodução do capital, mas dentro do movimento do capital. Eu vou até explicar isso um pouco mais, porque isso é muito importante. Por exemplo, o Estado tem que criar um padrão monetário. Veja que você pode usar mil moedas dentro de um país, não é essa a questão, mas essas moedas todas você vai valorar em relação a uma moeda que é um padrão estabelecido em um país inteiro para criar uma referência de comparação entre as mercadorias. Se você chegar aqui e falar assim “quanto custa esse celular?”. Se falar assim “é 0,03 Bitcoin” e se uma outra coisa está valorada em uma outra criptomoeda, você não consegue comparar as duas coisas. Então, todas elas [mercadorias] têm que estar [valoradas em relação a um padrão monetário]. Veja que um padrão monetário é só uma condição para a reprodução do capitalismo. Não é o Estado atuando no movimento, é ele estabelecendo as condições. Se você pegar regulamentação de jornada de trabalho, de maneira a permitir que as empresas concorram em iguais condições com relação [umas às outras], mesma coisa. O movimento da dívida não, ela entrelaça o Estado ao movimento de reprodução do capital porque o principal papel da dívida pública é tentar resolver o que eu digo que é a contradição mais mortal do capital, que é o fato de que o capital não tem outra saída a não ser crescer de maneira contínua. Toda empresa capitalista quando produz, ela produz um excedente. Ela tem que reinvestir todo esse excedente, senão o dinheiro se desvaloriza. O efeito da inflação parte daí. Se a massa das empresas em um país não consegue reinvestir o seu excedente, você produziu de forma monetária mais dinheiro ao final do processo, mas você não gerou mais riqueza. Só que qual é o problema? O capital coloca problemas para que ele próprio possa se reproduzir em escala ampliada. E aí sim, os limites do mercado interno brasileiro atuam de maneira decisiva. Com relação a esse aspecto, o Ruy Mauro Marini tem razão. Ele subestimou o ponto de que o Brasil pode sim desenvolver um mercado interno tipicamente capitalista para a massa da população, mas com relação aos limites desse mercado interno, ele tem razão. No Brasil, você não amplia a produção, por exemplo, de bens de consumo duráveis, tirando coisas que surgiram agora, quase nada, há décadas. A produção de automóveis no Brasil hoje é quase metade do que era 10 anos atrás, 40%, 35% menor. Então, o capital não tem para onde sair. A dívida pública é a forma como o Estado absorve o capital excedente da sociedade, que não tem por onde ser aplicado. O Estado absorve esse capital e evidentemente vai imediatamente gastá-lo, e as coisas vão se vincular, porque, veja: se os capitais não estão tendo onde colocar os capitais deles, é porque a economia não consegue crescer. Se a economia não consegue crescer, significa que você não consegue produzir mais riqueza, as pessoas não conseguem comprar essa riqueza e isso impacta nas despesas, na arrecadação estatal, que extrai essa riqueza da sociedade. Então, também o Estado está precisando de dinheiro. Então, o Estado absorve esse capital [por meio da emissão de títulos da dívida pública], ele [capital] passa a existir de forma puramente fictícia, fictícia na forma de um título de valor. É diferente da forma fictícia de uma ação, porque numa ação, aquele capital continua existindo, aquele capital representado pela ação - a empresa está produzindo, está comprando, vendendo, comprando, vendendo. Aquele capital continua existindo -, o título da dívida, não. O Estado recebe o recurso, gasta, e aquilo vira só um título de papel. Ele paga os juros, seja produzindo mais títulos, seja arrancando recursos da sociedade. Mas na promessa de que dias melhores virão, ou seja, de que ele vai poder pegar esse capital que ele absorveu e agora, além de absorver capital, agora ele está, na média, devolvendo capital para os capitalistas poderem aplicar. Esse é um processo que, evidentemente, adia o problema da reprodução do capital pela via do Estado. O capital não consegue se expandir e o Estado absorve. Mas se isso não é invertido, uma hora a coisa explode, evidentemente. Porque você vai ter que ficar pagando títulos com títulos, títulos com títulos. Você vai ter que estar absorvendo tanto capital, numa magnitude tal, que a emissão monetária no país se torna completamente descontrolada, você volta a ter problemas de inflação absolutamente crônica, você corre o perigo do Estado entrar num processo de falência, como o da Argentina, [que] já está nesse estágio há bastante tempo, diga-se passagem. Então, a dívida pública é um processo por meio do qual o Estado absorve capitais da sociedade que já não têm onde mais ser colocados. A elevação do endividamento público na enorme maioria dos países, mundo afora, representa isso. No fundo, aquilo ali é capital, capital privado, em sua maior parte, que não tem mais onde ser colocado e que é colocado nos braços do Estado, que o remunera - com a promessa de devolvê-lo no futuro. Por isso, a palavra de ordem dos capitais no mundo inteiro - e no Brasil mais do que em outros lugares do mundo hoje - é: “ajuste fiscal”. Ou seja, eu quero ter a garantia de que o Estado vai conseguir devolver esses títulos no momento adequado, quando a indústria brasileira, quando o capital brasileiro começar a se expandir. E para isso o país tem que passar a ter superávit , o país tem que começar a ter mais arrecadação do que gastos para ele começar a usar esse excedente para devolver esse capital para o restante dos capitalistas brasileiros. A palavra de ordem é “ajuste fiscal”. Hoje isso é verdade até para o Estados Unidos, pela primeira vez em décadas. O Estados Unidos nunca precisou se preocupar com isso, porque o Estados Unidos - como é a moeda usada no mercado mundial, o dólar - mandava dólar para o mundo inteiro por meio de um déficit comercial, que ele já tem há muito tempo, então ele comprava mais de fora do que vendia para fora. Com isso você mandava dólar [para fora] e esses dólares voltavam para os Estados Unidos comprando títulos do Tesouro Americano, e os juros do Tesouro Americano eram zero, eram 0,2, 0,3, ou seja, ele [EUA] era financiado a juros irrisórios pelo capital do mundo inteiro. Agora os Estados Unidos têm tanta crise interna - que gerou uma inflação que chegou a duas casas decimais com o Biden -, [que] eles tiveram que ampliar a taxa de juros e o Estados Unidos, ano passado, pela primeira vez em décadas, pela primeira vez desde a Primeira Guerra Mundial, gastou mais com juros da dívida do que com defesa, por exemplo. Então, o mecanismo da dívida é um mecanismo fundamental para a gente entender a natureza do capitalismo, para a gente entender o atrelamento do Estado ao capital - Estado e capital são dois lados da mesma moeda -, o atrelamento do Estado capitalista ao capital privado e como, aí, ele se vincula ao próprio movimento de reprodução do capital, absorvendo ou ressuscitando o capital excedente quando os capitalistas não conseguem mais investir, devolvendo assim que for possível e quando for. Então, eu sei que é um mecanismo que não é simples de ser explicado, ele depende de algumas mediações, vamos chamar assim, mas a gente tem que fazer um esforço nesse sentido. Acho que ele é fundamental para a gente entender os limites que estão dados para a intervenção do Estado hoje em qualquer país. Eu acho que esses limites não são absolutos, mas eles não permitem nenhuma reconfiguração geral da sociedade, principalmente no caso brasileiro. E [é também fundamental] para que a gente entenda como hoje os capitalistas a nível mundial dependem do Estado como uma questão de vida ou morte. A tal ponto [que] até mesmo o Estados Unidos, como eu falei [também assumem a palavra de ordem de “ajuste fiscal”]. Não sem razão, Musk pegou o ministério que tinha como principal missão cortar gastos públicos, o que nunca foi bandeira central dos Estados Unidos ao longo das últimas décadas. É [bandeira central] para o Brasil. Desde uns 30, 40 anos. O centro aqui é cortar gastos públicos. Mas não reduzir a carga tributária. É cortar gastos públicos para que essa despesa possa alimentar o capital cada vez mais dependente do Estado. Seja o Estado como consumidor, por via da terceirização e outras coisas, seja por via, inclusive, das políticas assistencialistas, seja pela via da absorção do capital por meio do mecanismo da dívida. Então, o resumo da ópera é esse: quando o Estado tem superávit , o Estado está devolvendo capital para a sociedade. O Brasil, durante o período de maior crescimento, durante o período dos dois primeiros mandatos do Lula e do mandato da Dilma, tinha superávit primário, ou seja, ele arrecadava mais do que gastava. O excedente ia para a dívida pública, devolvendo para o capitalista aquele capital que os capitalistas tinham locais de investimento naquele momento, até 2014, 2015. Bate certinho. De 2014, 2015 para cá, é déficit orçamentário e, fundamentalmente, o Estado brasileiro, ano após ano, absorve o capital da sociedade que não tem onde ser colocado. É, de fato, um processo que caminha para uma implosão, para um colapso social, nos patamares em que a Argentina vem passando desde o início dos anos 2000. talvez até mais forte. Para a gente ver como a situação do Brasil hoje é pior, por exemplo, houve um boom das commodities que alimentou a economia brasileira nos anos 2000 com o governo Lula. Houve de novo um boom das commodities durante a pandemia, até ano passado, tão grande como o que houve nos anos 2000. Só que esse boom das commodities só serviu para o Brasil conseguir tapar o buraco naqueles anos. Ela não pôde mais fomentar processo de desenvolvimento nenhum. Ou seja, não se trata de uma reprodução de mais do mesmo, se trata de uma reprodução descendo a ladeira, se trata de uma reprodução que caminha para cenários sociais, políticos, econômicos muito mais drásticos no futuro próximo. 6° pergunta - Marcos/Revista Barravento: Gustavo, indo agora mais para o final, vou tentar sintetizar aqui algumas questões - que eu acredito que possam ser sintetizadas, porque muitas das questões que a gente tinha pensado previamente já foram abarcadas de uma forma ou de outra ao decorrer dessa exposição, mas pensando agora na questão de um certo projeto de reindustrialização e nas disputas que existem dentro das esquerdas em torno de uma possibilidade de projeto de reindustrialização. Eu falo isso pensando em certas figuras, claro, não me remeto aqui à academia, mas a figuras atuantes politicamente, penso no Ciro, em todo esse pessoal mais ligado ao desenvolvimentismo e tal, e que vê no Estado uma possibilidade de uma outra coisa. Pelo menos hoje, diante desse marco que você delimitou de possibilidades muito reduzidas em relação ao que foi o Estado brasileiro antes, pensando nisso, como é que você enxerga a intervenção estatal, pensando no problema da reindustrialização, da necessidade de uma reindustrialização? Resposta - Gustavo Machado/Canal Orientação Marxista: Certo. Essa coisa é bastante curiosa. Eu mesmo - hoje menos, mas um tempo atrás - eu assistia muito as entrevistas do Ciro Gomes, por exemplo. E era muito curioso, quando ele fazia o diagnóstico dos problemas, muita coisa eu concordava com ele. Muita coisa. É até interessante desse ponto de vista. Agora, quando vinha as soluções, eu às vezes ficava pensando assim, “será que ele acredita mesmo que dá para reverter todo esse cenário que ele acabou de descrever, com essas medidas?” Porque, por exemplo, quando a gente fala em industrialização no Brasil, tem gente que não entende nada disso, acha que está falando de um setor da economia, não, está falando da produção de riqueza de toda a sociedade. A questão da desindustrialização do Brasil pode ser resumida na seguinte frase: uma desindustrialização relativa. Todos os setores que existem são industriais em alguma medida, inclusive o agroexportador. Mas significa redução da cadeia de valores do capitalismo produzido aqui no Brasil. E redução da cadeia de valores para todos os agentes sociais, trabalhadores e capitalistas. Significa que a gente tem menos indústrias com tecnologia intensa, com alto valor agregado. E [isso] se deve a vários fatores que se agravaram nas últimas décadas. As transformações tecnológicas que nós tivemos no século XX - primeira metade do século XX - elas levaram a setores de ponta que demandavam que as suas unidades produtivas fossem instaladas razoavelmente próximas do local de consumo. Não dava para você produzir automóvel lá nos Estados Unidos e transportar. Até dava, mas o preço que ia chegar aqui era exorbitante. Para você de fato alimentar o mercado brasileiro com automóvel, tinha que ter montadora aqui. Para você de fato alimentar o mercado interno brasileiro com eletrodomésticos, geladeira, fogão, televisão, equipamento de som, tinha que ter mercado interno aqui. Tinha que ter unidades [produtivas] instaladas aqui. As últimas transformações tecnológicas, os setores de maior valor agregado não precisam mais disso. Primeiro a gente teve nos anos [19]70 - ah, o quê? As pessoas chamam [assim], a classificação pouco me importa - a “terceira revolução industrial” nos anos [19]70, que abriu caminho para os setores cuja base é semicondutores. Hoje, praticamente, todo eletroeletrônico virou um computador. Uma televisão hoje é um computador, por exemplo. Até uma máquina de lavar hoje é, em grande medida. São todos digitalizados. São produtos muito mais leves, produtos que ocupam muito menos espaço. Celulares. Hoje a forma de computador mais usada são celulares. São bens que podem ser produzidos em um local só do mundo e transportados para cá ou meramente montados aqui. Até na indústria automotiva, o carro elétrico, se você não produz a bateria aqui, você abastece o mercado interno brasileiro com 80% menos de trabalho em toda a cadeia de produção, porque o grosso está na produção da bateria e de mecanismos digitais, semicondutores, que são todos feitos lá fora. Então, o que a gente tem é uma redução da produção de riqueza aqui dentro do Brasil. Aí é muito curioso, por exemplo: o governo Lula faz um projeto de reindustrialização que dá subsídios, por exemplo, para o setor siderúrgico. Olha, mas o setor siderúrgico, já tem uma capacidade instalada que atende mais do que o suficiente para atender o mercado interno brasileiro, até porque o uso de aço tem reduzido, os veículos se transformam cada vez [mais], demandam menos aço. Coisas que antes utilizavam aço, sei lá, latas de óleo, não precisa mais, agora é tudo indústria química, plástico, dentro da cadeia do petróleo. Então, não tem o que ampliar no setor siderúrgico brasileiro. E não fosse bastante, a China tem hoje um setor de meios de produção altamente organizado. O aço chinês só não fale o setor siderúrgico brasileiro inteiro porque existem tarifas que impedem que ele seja simplesmente transportado de lá e vendido aqui, senão ele chegava aqui mais barato. Ora, o que vai fazer o setor siderúrgico [brasileiro] com esses subsídios no setor siderúrgico? Eles vão embolsar e vão transferir para o mercado estrangeiro, vão comprar títulos da dívida interna brasileira, vão ver se tem algum "setorzinho" de serviços, alguma coisa aqui dentro do Brasil que possibilita aquilo ali ser aplicado. No máximo, [vai] abrir as fábricas de fertilizantes no Brasil, estou extremamente favorável, acho que é positivo, mas é uma coisa “desse tamanhinho”. E você está falando de uma indústria de fertilizantes que nem é voltada para exportação, que nem é capaz de atender o agronegócio brasileiro interno. [Aos] setores de alta tecnologia, não há nenhum projeto do Brasil entrar em absolutamente nada. Não há projetos estruturados. Lembrando que o Brasil tem alguns pontos de partida. O Brasil tem, por exemplo, a Embraer, que é uma indústria de tecnologia de ponta que poderia servir de ponto de partida para o desenvolvimento de outros setores. Porque dentro da indústria aeroespacial, hoje a gente tem software avançado, a gente tem alguns equipamentos eletroeletrônicos avançados, a gente tem sistemas que poderiam ser usados na navegação, a partir daí, e na indústria ferroviária. O Brasil, pouca gente sabe - quando eu digo que a gente perdeu oportunidades - tinha uma das maiores indústrias navais do mundo no início do século XX. O Brasil hoje não tem mais indústria naval. O Brasil tinha marcas consolidadas no setor eletroeletrônico. Na época a CCE [Comércio de Componentes Eletrônico] tinha má fama, mas [a] Gradiente era de umas marcas de eletroeletrônico mais renomadas dentro do Brasil. Foram todas para o ralo. Você tinha que ter um projeto de desenvolvimento, evidentemente, que partisse de polos que ainda sobrevivem no Brasil, para a gente não começar do zero, como a Embraer. Você ia ter que reestruturar o setor aeroespacial no Brasil. A Embraer tem condições hoje de construir um avião que concorra com as versões menores do Boeing 737 e do Airbus A320, que são os aviões que são usados na aviação comercial do Brasil hoje. Ela já produz o E-195, que já está a uma capacidade de 80, 90 passageiros para igualar esses aviões. Ela só não entra, porque para você entrar, primeiro: não poderia ser uma empresa de capital quase totalmente privado, maior parte estrangeira, como é ela, que está preocupada com lucro rápido e precisa de ter uma retaguarda que garanta o mercado interno brasileiro. Mas [ainda sobre] os aviões da Embraer, vou te dar uma ideia: a Boeing, o 737, o protótipo inicial que eles vêm aprimorando, foi feito na passagem dos anos [19]50 para os [19]60. A Embraer reconstruiu aviões novos nas últimas décadas, foram construídos do zero e já estão no mercado. Com tecnologias extremamente avançadas em termos de design, em termos de projeto de asa, coisas nesse sentido. Então você teria que ter projetos arrojados nesse sentido. Vamos usar essa empresa como ponta de lança. O setor privado não quer saber? Então essa empresa tem que ser expropriada. O mercado interno vai ser abastecido com esses aviões para que você garanta saída e essa tecnologia seja utilizada para a reconstrução da indústria naval brasileira e vários outros setores que estão associados à indústria aérea, setor ferroviário - o Brasil, que a malha ferroviária foi abandonada para fomentar uma indústria automobilística de caminhões e veículos de grande porte, que é muito mais caro [manter]. Enfim, teria que ter projetos dessa natureza. E isso, eu estou fazendo um esforço aqui para não precisar falar de revolução socialista, de nada disso. Um projeto de desenvolvimento nos marcos do capitalismo. Eles teriam que ter propostas, pelo menos para me escutar e falar “pago para ver”. Está entendendo? Isso não vai resolver o conjunto dos problemas sociais do Brasil, mas vale a pena apoiar isso aí. Teriam que ter propostas nesse sentido, e não subsídio para setores industriais que já não têm mais para onde correr, tanto em termos tecnológicos quanto em termos de abastecimento interno, e menos ainda em termos de exportação. Então, quando o Ciro Gomes traça o quadro do Brasil, você fala assim “pô, uns 80% que você está falando aí, eu concordo”. Eu acho que o quadro é até pior do que esse [traçado por Ciro], mas agora, quando vêm as propostas, elas são muito tímidas, são “desse tamanhinho assim”. Você fala assim “pô, eu não consigo acreditar que esse cara acredita que essa proposta dele vai resolver o tamanho do problema que ele mesmo falou no momento anterior”. Percebe? Mas eu acho que a gente tem que conseguir mostrar para a população brasileira que o problema da desindustrialização relativa no Brasil é o problema da redução da cadeia de valores produzidos aqui dentro. É da indústria que vem o valor que o comércio distribui. É da indústria que vem o valor que o serviço consome. O que faz [a] saúde? Consome equipamentos médicos. Você está entendendo? Os serviços consomem riqueza que já foi produzida. Um país só pode ser uma potência em serviços, os Estados Unidos [por exemplo], porque ele tem uma produção industrial dentro e, sobretudo, fora dos Estados Unidos, gigantesca, com o capital migrando para lá. A redução da indústria brasileira do ponto de vista do valor que ela agrega é uma redução de todos os outros setores, que eles não têm de onde arrancar valor. Eu acho que o centro do que os marxistas têm que saber falar em termos de teoria do valor para o Brasil é que teoria do valor, o núcleo central dela, é só o seguinte: não existe riqueza criada do nada. O centro dela [teoria do valor] é esse. Toda aquela complicação é para mostrar só onde ela foi produzida, como ela se redistribui, você está entendendo? Mas não existe setor bancário que vive de juros se esses juros não têm de onde arrancar esses juros. Não existe setor imobiliário que vive da renda se não tem de onde arrancar aquela renda que é paga ao setor imobiliário. Não existe excedente para o comércio se não tem de onde tirar as mercadorias que vão ser comercializadas. Não tem recurso nenhum para os serviços, se você não tiver de onde arrancar a riqueza, que os serviços vão consumir ao oferecer aquele serviço. Percebe? E posso até ilustrar com exemplos recentes do noticiário brasileiro, por exemplo - não quero mudar para esse tema não, viu, gente? É só um exemplo - a guerra tarifária agora do Trump. O pessoal [diz] “Ah, mas o que a China exporta para o Estados Unidos é só 2% do PIB da China”. Vocês estão de brincadeira comigo. 2% é porque o PIB, na metodologia do PIB, ele soma o excedente do banco, soma o excedente do comércio. Ora, esses 2% do PIB da China estão alimentando ali 20 milhões de trabalhadores, que vão deixar de consumir no comércio, que vão deixar de consumir nos serviços, em todos os demais domínios, empresas que vão deixar de pegar financiamento, que não vai produzir juros para os bancos. Não é 2% da economia, é muito mais do que isso - ainda que o problema seja ainda maior para dentro dos Estados Unidos, não vou entrar nisso agora. Então, o problema da industrialização do Brasil é isso: é da redução da riqueza produzida aqui dentro. Isso [se] enraíza para todos os setores da sociedade. Daí, para quê pesquisa, desenvolvimento e extensão na universidade pública se nós não usamos isso para nada e o Estado mal está dando conta de absorver capital e consumir o que o capital demanda para ele manter o patamar em que ele está? “Fecha essa porcaria”, entendeu? “Vamos formar só tecnólogos para operar essas tecnologias que estão aí”. E por aí a gente vai descendo a ladeira ano após ano, tempo após tempo. Então eu acho que é sim uma discussão fundamental e que a gente tem que conseguir passar para a sociedade que é muito maior o problema do que se fosse um setor dentre dez que está caindo. A gente está falando aqui da redução da economia brasileira no seu conjunto e que nenhuma dessas propostas que vão aí do Haddad ao Ciro Gomes não passam de subsídios tímidos em setores de pouco valor agregado, situados, assim, na periferia da cadeia de produção de valores do capitalismo de hoje. E que, às vezes, eu tenho dúvida se eles acreditam na efetividade daquilo ali. 7° pergunta - Rodrigo/Revista Barravento: Gustavo, já estamos, então, caminhando para o final da nossa conversa. Talvez, de arremate, você já até comentou algumas questões que eu vou te perguntar agora, na sua última fala, sobre explicar para a classe trabalhadora como se dão esses processos, que não é apenas uma questão de falha da gestão do Estado. E aí a pergunta que fica é: como fazê-lo? Como ganhar o coração e mente dos trabalhadores e o que nós, comunistas, podemos e devemos fazer diante desse contexto [em] que, em grande medida, a classe trabalhadora se aliou a uma esquerda que tem quase que uma crença de fé mesmo, de cunho religioso, de que o Estado será capaz de resolver todos os problemas, ditos estruturais, enfim, os problemas que nós sentimos na vida cotidiana? Então, como fazê-lo? Resposta - Gustavo Machado/Canal Orientação Marxista: Antes de eu dar um pitaco sobre essa questão, eu também vou fazer um “parênteses” aqui: não pode parecer que eu tenho aqui a fórmula e a chave mágica de todos [os problemas], está longe de ser verdade. Eu admito várias dificuldades. Eu admito várias dificuldades que existem atualmente, ligadas, por exemplo, à fragmentação da classe, envolvendo a terceirização que se torna generalizada, trabalhos feitos em casa, vários sistemas hoje digitalizados com trabalhos dispersos ao longo do país inteiro. Eu não nego que existem vários problemas e que nós temos algumas mudanças de fundo na conformação da classe trabalhadora. É muito contraditório: não é que está existindo menos trabalhador assalariado, e nem sequer [menos trabalhadores] industriais, para ser bem sincero. Na verdade, essas revoluções tecnológicas que estão aí, elas atingem em cheio o setor de serviços e o setor de mais elevada qualificação, [atingem] mais do que o trabalho manual, por exemplo. Então, existem dificuldades que eu não nego que elas existem, elas têm que ser estudadas e a gente tem que entender as melhores formas de intervenção em meio a cada uma delas. E eu estou longe de achar que eu tenho todas as respostas para essas questões e tudo mais, mas alguns pontos eu acho que dá para ser comentados sem o menor pudor. O primeiro deles: domina hoje uma esquerda que insiste em achar que dá para apresentar uma solução para os problemas que afligem hoje a massa da população, dos trabalhadores, por um viés puramente institucional e desenvolvimentista. E pior, não é que isso é apenas um discurso, isso é o que dominou os governos, por exemplo, na Europa, no Brasil e na América Latina ao longo das últimas décadas. Eu, inclusive, não tenho dúvida de que essa é uma das bases que deu gás à ultradireita. Não só, tá? Eu acho que tem outras coisas também. Eu sei que tem muitos preconceitos na sociedade, várias coisas aí que também alimentaram [a ascensão da ultradireita]. Eu acho que há setores médios na sociedade em descenso social, desesperados, que também foram alimentados por esses setores. Mas, se você parar para analisar, hoje nós temos uma esquerda dominante que não tem nada a dizer, ela só defende as instituições que estão dadas. As pessoas querem mudança e a esquerda faz o quê? “Não, nós temos que defender esse Estado democrático de direito”. Veja, acho que tem que defender as liberdades democráticas ao máximo, mas isso é completamente diferente do que defender toda a institucionalidade que ancora o Estado democrático de direito, tipicamente capitalista, com todas as suas características. Está entendendo? Se tornaram o quê? O bastião, a esquerda hoje se tornou o suprassumo do conservadorismo. Ou seja, é quem se coloca na porta de frente de defesa das instituições, de defesa daquilo que o mundo vem vivenciando nas últimas décadas e que tem gerado uma série de problemas, crises, das mais diversas naturezas, que fazem com que hoje a maioria da população esteja indignada. É uma esquerda, sobretudo uma esquerda dita marxista, onde o socialismo aparece para os dias de festa, e que sempre respondem a mesma coisa quando se coloca isso. “Ah, mas a revolução não está dada para amanhã”. A questão não é essa. Eu não sei quando vai ou não vai ser dada uma revolução. Eu não sei, eu não tenho a chave da história na minha mão. O que eu sei é o seguinte: qual é a situação e o que nós temos que fazer e o que nós temos que construir a partir disso. Está entendendo? Nunca vai estar dada uma situação em que processos revolucionários possam ser guiados no sentido de uma socialização dos meios de produção, no sentido de um trabalho que seja feito de forma planejada, consciente. Nunca vai estar dado se nós não construirmos isso. E também colabora muito para [o predomínio dessa posição] uma esquerda que se diz marxista, mas que faz apenas um trabalho de denúncia dos problemas imediatos que todo mundo sabe, e depois dá saltos gigantescos sem mostrar a conexão daqueles problemas com a sociedade que nós vivemos, percebe? Não adianta nada eu chegar aí e falar assim “o Brasil precisa do socialismo”. Mas por que? De onde isso aí surgiu? Você pega e coloca a culpa nos setores capitalistas, mas sem mostrar por que eles têm culpa, onde está, quais os vínculos, quais as conexões. A gente precisa ter propaganda, precisa ter o discurso afiado, precisa conhecer o Brasil a fundo, as especificidades do Brasil, as inúmeras cisões que são produzidas, fazer disputas de propaganda permanente em todos os espaços existentes, procurando dar uma compreensão às pessoas, das características da sociedade que a gente tem e, sobretudo, atuar de forma organizada dentro desses espaços. Eu estou longe de acreditar que eu tenho resposta para todas essas questões, mas nós não vamos ganhar corações e mentes meramente defendendo as instituições. Nós vamos defender o que foram os direitos acumulados pela classe trabalhadora ao longo da história. Isso é diferente de defender as instituições, percebe? Eu quero liberdade para me organizar, óbvio que sim. Quero liberdade para me organizar, para lutar pelo que é meu, para poder fazer propaganda, disputar os processos, atuar. Isso sim. É completamente diferente de defender o aparato jurídico, estatal, político existente. E, sobretudo agora, que a gente vive um momento que o próprio capital, para continuar o processo de acumulação, ele está pondo abaixo vários dos preceitos que foram consolidados ao longo das últimas décadas, dos anos [19]70 para cá, inclusive com possibilidades de abrir mão mesmo de regimes democráticos capitalistas burgueses, para regimes mais autoritários. A gente cai em um ledo engano se a gente acha que vai garantir isso que a gente está perdendo, segurando defensivamente nas instituições que são justamente o alvo da indignação de boa parte das pessoas. A gente tem que mostrar para elas o vínculo dessas instituições com o setor privado, como elas estão organicamente ligadas umas para às outras, como elas se beneficiam desse sistema. Então, [temos que mostrar] essa vinculação entre o Estado e o setor privado como parte de um mesmo sistema e, principalmente, mostrar como várias coisas ordinárias que nós temos na nossa vida hoje [se articulam], [coisas] que a gente se acostuma - juros, renda, preço, lucro, etc. [Temos que] conseguir mostrar para as pessoas, ainda que de formas não teóricas, de formas mais palatáveis e tudo, a vinculação que existe entre aquilo ali com a disputa pelo trabalho excedente que a classe trabalhadora a nível mundial produz e reproduz todos os dias. Essa é a briga Estados Unidos/China. Percebe? Essa é a briga entre o setor agroexportador brasileiro com algum setor incipiente da indústria voltada para o mercado interno ou com o setor bancário do Brasil. Nós temos que saber levar essas discussões adiante, fazer propaganda, estudar mais por parte dos setores que intervêm na realidade, no sentido de estar qualificado para fazer essa disputa. O que foi, em certo sentido, o que a ultradireita fez ao longo dos últimos 15, 20 anos. “Ah, Gustavo, mas as pessoas não vão querer saber disso, não vão querer entender”. Cara, a ultradireita hoje organizou milhões de pessoas com discussões teóricas de liberalismo. Você está entendendo? É claro que isso vai para o povão, para a massa da população, de forma mais palatável, mas conseguiu ganhar a massa de pessoas de que “a previdência pública não presta”, que “o bom é a previdência privada”, que “o problema é o grau de intervenção estatal”, com discursinhos arranjados e um argumento encadeado de por que “o livre mercado vai ser bom para todo mundo e vai resolver o problema de todas as pessoas”. Conseguiu ganhar uma pancada de pessoas. Só que a gente não consegue sair da detecção dos problemas para o vínculo estrutural com a sociedade no seu conjunto. É aí que a gente se engasga - para quem está bem intencionado, querendo fazer uma transformação revolucionária. E o grupo majoritário [da esquerda] nem pensa nisso. É a detecção dos problemas e uma saída institucional que já tem sido colocada à prova há décadas e fracassou no Brasil, na América Latina, na Europa, no mundo. Então, eu acho que a tarefa que está colocada imediatamente é criar um grupo de pessoas organizadas, grande, numericamente significativo, que possa fazer uma disputa sobre isso na sociedade, fazer uma disputa sobre isso no Brasil, para que as pessoas no seu conjunto possam conhecer essa posição. Aí é que nós vamos contar com as contradições do capitalismo, com as crises e tudo, para que as pessoas possam fazer experiência. Não é que a gente vai falar e todas elas vão acreditar em nós. Elas podem achar um absurdo, mas elas entendendo o que está sendo dito, elas podem fazer uma experiência e tirar suas conclusões. Mas se você não explica, ninguém tira conclusão nenhuma, aconteça o que acontecer. Vocês estão entendendo? Então, eu acho que passa por isso. Não estou negando várias questões que tem aí. Nós vamos ter que ter linhas, vamos ter que saber entender. Por exemplo, hoje a gente tem uma estrutura sindical que é completamente inadequada em relação à estruturação do trabalho no Brasil. Então, você pega uma empresa qualquer aí: “ah, organiza os metalúrgicos na empresa X”. Beleza, 60% para 70% dos trabalhadores ali são terceirizados e são sindicatos de outro setor, por exemplo. São vários limites dessa natureza que são colocados. Hoje você tem um grau de estabilidade no trabalho que é muito mais reduzido. Você ia em Contagem - eu que atuei muito a partir do PSTU no setor lá -, você ia há 15 anos nos setores industriais, você conversava com os trabalhadores que estavam ali naquela empresa ou em outra do lado há 15, 20, 30 anos. Hoje a pessoa fica um, dois, três anos na indústria e depois ela sai e está na Uber, depois ela sai e está trabalhando online, depois ela está fazendo uma outra coisa. E quem está lá não tem a menor perspectiva de continuar no longo prazo, para dar um exemplo. Então, existe, sim, uma série de mudanças que exigem de nossa parte reflexão, entender essas alterações e saber a melhor forma de intervir em meio a elas. E que eu estou longe de achar que tenho resposta para todas elas. Mas eu acho que alguns caminhos podem ser claramente indicados e, sobretudo, alguns problemas do que tem sido a prática dominante da débil esquerda brasileira ao longo das últimas décadas. Considerações finais - Marcos/Revista Barravento: Ok, Gustavo. A gente vai agora ao fim. Agradecemos enquanto Revista ao Gustavo pela entrevista a nós prestada. Acredito que tenha sido uma entrevista de muita valia. E, primeiramente, alguns comunicados. Como eu falei no início, essa entrevista vai ser transcrita e vai ser publicada no nosso site. E para acessar o nosso site, basta escrever lá no Google ou em um navegador semelhante: “Revista Barravento” e vai chegar no nosso trabalho. E segundo: para também acompanhar o que a gente vem publicando, os textos que a gente tem publicado de outras pessoas, [podem] acessar o nosso Instagram: @RevistaBarravento . E diante disso, terceiro ponto: deixamos agora esse espaço para que o Gustavo diga às pessoas os locais em que ele pode ser acompanhado, em que o trabalho dele pode ser visto, e [para que faça] suas considerações finais. Considerações finais - Rodrigo/Revista Barravento: E [deixamos esse espaço para divulgar] as novas empreitadas também, Gustavo. Você comentou sobre a nova edição que vem aí do ILAESE, [diga] onde pode ser encontrado, a publicação do livro que vai vir agora também, e tudo mais… Resposta final - Gustavo Machado/Canal Orientação Marxista: Perfeito. Rodrigo e Marcos, primeiro eu agradeço enormemente pelo espaço. Estou sempre inteiramente à disposição. Para mim é um prazer enorme estar conversando com vocês. Eu atualmente estou num período de transição. Eu terminei meu doutorado há algum tempo e estou trabalhando na publicação do texto. Vai sair um texto bastante melhorado em relação à versão original, que vai ser esse livro - “Marx e a Filosofia, o Capital como Crítica à Metafísica”. [Será] a primeira tentativa - da qual eu tenho conhecimento, tá? - de uma análise de conjunto dos três livros do Capital e o eixo que perpassa todo ele. A melhor forma de entender o Capital como crítica à metafísica, está ligado exatamente, penso, com a consciência ordinária das pessoas que, mergulhadas na sociedade capitalista, são sempre expostas a compreensões mais palpáveis e palatáveis que não coincidem com a forma que nossa sociedade funciona no seu conjunto. Então, “como o capitalismo produz essas formas de consciência no interior das pessoas” é um eixo que perpassa a análise, mas que vai estar orientada também por ter essa análise de conjunto da obra principal de Marx. Sobretudo, eu destaco os livros II e III, que são bastante negligenciados e que foi feita uma análise de peso e acredito que tem bastantes aspectos muito originais lá. Eu tenho dedicado muito tempo a isso. O texto, a editora já fez a revisão, só que eu estou dando “ok” na revisão e aproveitando para dar uma passada a limpo no texto no seu conjunto, vão ser dois volumes, mais de mil páginas, provavelmente. Estou trabalhando também no anuário do Ilaese - e é um anuário que nós publicamos não anualmente. chama anuário por causa do formato, viu, gente? -, que são séries de dados anuais. O Ilaese, que é o Instituto Latino-Americano de Estudos Socioeconômicos, o instituto que eu trabalho, a gente não tem forças pessoais e materiais suficientes para publicar todo ano, mas esse ano vai sair uma edição nova, que tem como novidade uma análise do capitalismo a nível mundial a partir das suas maiores empresas. Nós conseguimos dados - já está em cerca de 600, 700 - das maiores empresas do mundo em série histórica de 25 anos respeitando o peso dos respectivos países. Só de empresas chinesas são 130, 140, que nós fizemos um esforço hercúleo ao longo de 6, 7 anos para conseguir construir essa base de dados. E vai sair junto dela um anuário metodológico digital. Vai ter esse [anuário] impresso e vai ser divulgado [em formato digital] no site do Ilaese: ilaese.org.br , nas minhas redes sociais, [e] no meu canal vou falar muito disso. E esse anuário metodológico apresenta a nossa metodologia, que é uma crítica ferrenha à pseudociência burguesa chamada macroeconomia. Então, é a primeira vez que nós vamos apresentar as primeiras formulações dessa metodologia nossa que procura aplicar uma metodologia marxista para a análise dos dados. Então, a gente faz recálculos, apresenta novos critérios em cima desses dados primários para analisar, por exemplo, o peso real do capital americano, chinês, europeu, brasileiro, etc., onde eles estão. [Para analisar] setores de tecnologia de ponta, o deslocamento da classe trabalhadora a nível mundial, a evolução da produtividade entre esses diversos países do mundo e os diversos setores, entre várias dessas questões. Então, o anuário vai ter uma parte nacional e uma parte internacional, também com artigos e com apresentação desses dados que a gente está apresentando de forma inovadora. [Além disso] dou uns pitacos lá no meu canal - e eu estou me organizando agora para atuar de maneira mais sistemática -, que é o canal Orientação Marxista. Ainda estou no processo de transição aqui, comprando equipamento, melhorando, tentando tornar ele um pouquinho menos amador, mas todas as iniciativas que iniciei lá - curso do Capital, “enciclopédia marxista”, que comecei ano passado - vou dar vazão ao longo deste ano. Então por lá também dá para acompanhar alguma coisa. Por ora, como eu estou envolvido nessas coisas todas, eu estou escrevendo muito pouco para periódicos, etc. Pretendo voltar à ativa nesse sentido, mas vai ser mais a partir do final deste ano. Só essa tese aí, acho que eu já tenho aqui uns 20 ou 30 artigos possíveis de serem feitos, mas isso eu estou deixando um pouco mais para frente. E pretendo começar em breve também no portal Opinião, que é organizado pelo partido do qual eu faço parte, uma coluna fixa minha. A gente está organizando isso aí também, com temas mais leves, ensaísticos, textos menores. Devo começar a fazer isso a partir das próximas semanas também. Então, acho que é isso. Considerações finais - Rodrigo/Revista Barravento: Beleza, Gustavo. Então, mais uma vez, muito obrigado. Nós agradecemos a você, em nome de toda a equipe editorial da Revista Barravento. E como a gente comentou, esse aqui vai ser o primeiro vídeo do canal do YouTube . Acho que não teria pessoa melhor para a gente estar estreando essa nossa empreitada. Então, é algo até novo para nós: para quem chegou até aqui, que possa seguir nas redes sociais, acompanhar o canal e curtir o vídeo, compartilhar e tudo mais. Agradecemos a quem chegou até aqui e principalmente ao Gustavo, por ter aceito prontamente o convite e ter feito essa conversa conosco hoje. Obrigadão.
- Acerca do método e da questão de método em Karl Marx: entrevista com Vitor Sartori
ENTREVISTADO : Vitor Sartori [1] ENTREVISTADORES : Revista Barravento [1] Professor adjunto da Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, Minas Gerais, Brasil. Mestre em História social pela PUC SP e doutor em teoria e filosofia do Direito pela USP. E-mail:vitorbsartori@gmail.com. ORCID:https://orcid.org/0000-0001-9570-9968. Revista Barravento: Muito se fala sobre o caráter essencial do método de Marx para o marxismo. O senhor poderia dizer algumas palavras sobre o tema? Vitor Sartori : Há alguns pontos essenciais sobre a questão, que me parece estar longe de ser tratada sem controvérsias. O primeiro deles diz respeito ao modo pelo qual normalmente se lê a obra de Marx. Ouso dizer que ela é lida a partir de pressupostos totalmente alheios à posição do autor alemão: do fato de o autor de O capital mencionar a palavra método algumas vezes – e há de se lembrar que mesmo algumas citações célebres no Brasil sobre o tema decorrem de um erro de tradução que toma modo de pesquisa ( Forschungsweise ) e de exposição ( Darstellungsweise ) por método de pesquisa e de exposição – retira-se que Marx tem um tratamento sobre a metodologia, a metodologia dialética, materialista dialética, ontológica, etc. Ou seja, da menção à expressão método dialético, mais precisamente ao “meu método dialético” ( Meine dialektische Methode ) em O capital , ou ao “método cientificamente correto” ( wissenschaftlich richtige Methode ) nos Grundrisse retirou-se que haveria em Marx um tratamento de questões de método que poderiam ser apartadas da apreensão da própria realidade efetiva, como uma espécie de tema prévio à apreensão da própria realidade: debates metodológicos, assim, tornaram-se um prefácio essencial para todo o marxista. Neste sentido, para muitos, a primeira coisa a se fazer seria compreender o método dialético de Marx; nos casos mais sofisticados, ter-se-ia a relação deste método com o método hegeliano, que seria a oposição direta ao marxiano. Alguns ainda remetem à contrariedade do método de Marx àquele da economia política. Ou seja, o pressuposto oculto vem a ser que a questão primeira a ser levantada é a questão de método. Assim como Descartes teria tratado das regras para a direção do espírito e dos requisitos sem os quais não se pode construir o conhecimento humano, algo análogo se daria em Marx. Tal qual Weber debate a necessidade dos tipos ideais, Marx afloraria como alguém que debate o conceito de classe social, por exemplo. E, assim, no campo da filosofia, ouso dizer que Marx é lido a partir de pressupostos idealistas e, no terreno sociológico, suas categorias são analisadas como formações ideais mais ou menos decorrentes de uma visão de mundo e de um ponto de vista (e não como formas de ser e determinações de existência objetivas). A rigor, deste modo, Marx aparece como um idealista que aceita a conformação das ciências parcelares como a correta. A impressão que se tem é que nosso autor está na posição de alguém que precisa justificar seus métodos e hipóteses antes de ter escavado o material suficientemente. Não deixa de ser curioso que tais suposições acabam por ler o autor de O capital como se ele estivesse preparando um projeto de mestrado ou doutorado para algum dos programas de pós-graduação que possuem como requisito do projeto um item apartado sobre método. Eu diria que o modo pelo qual se diz que o método é essencial em Marx pode ter várias tonalidades. Mas, algumas delas, que tomam por método um construto prévio à apreensão do material ser analisado, são absolutamente alheias ao próprio autor. Elas podem ser comuns nas universidades, mas são estranhas ao modo como nosso autor procede diante da realidade. Se olharmos para as passagens da obra marxiana em que o método é discutido, percebemos primeiramente que elas são polêmicas: remetem às diferenças entre o modo de proceder da economia política e de Hegel diante do próprio Marx. Com isso, nota-se: ao tratar de um método cientificamente correto ou de seu método dialético, o autor de O capital está comparando suas posições com aquelas de outros. Ele está demonstrando que o conhecimento é sempre mediado e que isto pode se dar de modo mais ou menos consciente dos condicionamentos sociais; mas não está dizendo que isto faz com que haja uma espécie de conhecimento prévio metódico que paira acima do modo pelo qual os diferentes posicionamentos são trazidos à tona. Em Marx, não há qualquer conhecimento apriorístico ou transcendental. A imanência das relações reais, o ser consciente, bem como a conformação das individualidades na história, na divisão do trabalho, na produção etc. são o essencial para que se compreenda a maneira pela qual há certa gênese das formações ideais. Estas últimas, por sua vez, possuem uma estrutura interna e, a partir das determinações objetivas desta estrutura, vêm a exercer funções específicas na realidade material. Assim, para que comecemos nossa conversa, gostaria de pontuar que falar de método em Marx não implica em se colocar qualquer metodologia, questão prévia à apreensão do real ou negar a determinação social do pensamento. Estamos em um terreno que não é aquele dos debates sobre metodologia das ciências sociais, ao menos como normalmente é concebida. Revista Barravento : Isto coloca uma questão importante, professor: autores cuja importância não pode ser negada, como Michael Löwy, tratam da questão de método de modo não dissociado do ponto de vista das classes sociais. Ou seja, ele procura criticar justamente aspectos que o senhor mencionou em sua resposta inicial. Não possível enxergar em Marx uma metodologia conscientemente influenciado pela determinação social, ou seja, não haveria um método contrário ao positivismo e apoiado na visão proletária? Vitor Sartori : As pesquisas de Löwy são bastante sérias e precisam ser debatidas. A partir da leitura de autores como Lucien Goldmann e de Lukács da época de História e consciência de classe , o pensador desenvolve uma correlação entre a perspectiva, o ponto de vista do proletariado e a emergência o desenvolvimento do próprio marxismo. Sua pesquisa historiográfica, presente em Teoria da revolução no jovem Marx , é de grande relevo para a compreensão da emergência da teoria marxiana, bem como para a problematização da relação entre classes sociais, intelectuais e as formações ideais. Porém, é curioso que o próprio Goldmann discorde de Löwy sobre sua tese central, e que Lukács vá adotar uma posição bastante diversa quanto a seu texto de 1923, como fica claro no posfácio de 1967 que escreve a História e consciência de classe . Isto não invalida os pontos de partida de Löwy, mas não pode deixar de ser destacado. Digo isto porque, no campo das homologias estruturais (centrais ao autor de Ciências humanas e filosofia ), bem como da fundamentação da correlação entre o proletariado e a concepção materialista de Marx, Goldmann questiona este ponto de modo enfático. Aqui, porém, ao trazermos à tona a preocupação com a concepção marxiana sobre o método, o que é mais importante de ser destacado vem de outro lado: Lukács vem a criticar, de modo decidido, certa centralidade que atribuía ao método na obra que mencionamos. Ainda com influências do modo como as ciências do espírito trazem a questão – há elogios à concepção de Dilthey sobre a interpretação em oposição à apreensão dos fatos como tais, por exemplo – o método é elevado a um patamar de grande relevo e chega a adquirir certa autonomia diante do conteúdo concreto veiculado por Marx. Justamente um dos elementos que é fortemente atacado em A destruição da razão é elogiado em 1923. E, assim, há de se apontar que os elementos mais problemáticos da obra lukacsiana são aqueles que tiveram vida longa, trazendo-se em vertentes sofisticadas e interessantes do marxismo – como bem apontou Ricardo Musse – uma concepção que aproxima a dialética de uma espécie de discurso de método. Seja ao se enfatizar a categoria totalidade, seja ao se propor uma espécie de materialismo interdisciplinar, há destaque a um debate que se situa bastante longe daquele em que Marx se posicionava. Mais recentemente, o debate sobre as ciências sociais e o debate acerca da reconstrução do materialismo histórico efetivam conscientemente esta ruptura: quando Habermas trata da questão, explicitamente procura se afastar de Marx e de Hegel e volta a Kant. Aqui, porém, não vem ao caso debatermos Habermas, até mesmo porque Löwy é um crítico deste autor e sempre procurou ater-se a uma compreensão marxista e comprometida com o socialismo. Löwy, porém, vem a enfocar um ponto que o autor de Para uma ontologia do ser social acredita ser extremamente problemático em sua obra juvenil. O método marxista foi visto por Lukács como a maior contribuição do autor de O capital . E isto dá um destaque exagerado à questão de método. Em 1923, este destaque se dá simultaneamente à crítica às ciências da natureza e à cisão trazida pelo autor húngaro (e apropriada metodologicamente por Löwy) entre o mundo natural e o mundo dos homens. Ou seja, por mais que o autor de As aventuras de Karl Marx contra o barão de Münchhausen defenda o caráter imprescindível da categoria da totalidade na esteira de História e consciência de classe , ele vem a partir de uma cisão entre ser natural e social. E esta cisão opera em sua obra, por vezes, de modo um tanto quanto abrupto e dependente de uma oposição entre, de um lado, o positivismo, fortemente marcado pela neutralidade axiológica e pela explicação ( Erklärung ) e doutro, o historicismo ligado à valoração, aos interesses (inclusive materiais), à interpretação e à compreensão ( Verstehen ). Ou seja, há uma valorização muito grande da oposição entre ciências da natureza e ciências do espírito. Uma figura central nesta interpretação é Dilthey, e não Marx. A meu ver, mas também no de Lukács, como o autor húngaro deixa claro tanto no mencionado posfácio quanto em sua obra posterior à década de 1930, isto seria equivocado. Esta crítica ao positivismo, assim, parece ter um aporte muito mais amplo na questão de método levantada por um autor como Dilthey que por Marx. E o próprio Löwy não deixa de destacar, em As aventuras de Karl Marx contra o barão de Münchhausen por exemplo, os méritos desta tradição alemã em que se situa, segundo A destruição da razão , em meio ao desenvolvimento de uma reação ao marxismo, e à emergência do movimento dos trabalhadores. A tradição que tem em Dilthey um importante expoente é apropriada criticamente pelo sociólogo brasileiro. Mas Lukács é extremamente crítico quanto à esta tradição, bem como à tradição sociológica como um todo, para que digamos a verdade. Está longe de mim dizer que um autor importante e socialmente comprometido como Michael Löwy não tenha importância. Pelo contrário: devido à qualidade de seu trabalho, ele é referência obrigatória aos estudiosos do marxismo e da obra de Marx. Porém, neste ponto específico, que passa pela questão de método e pela leitura da obra marxiana, mesmo que reconhecendo o relevo de seus trabalhos, não posso concordar com ele. Acredito que ele acaba por aceitar certas determinações da tradição sociológica que são, no mínimo, estranhas ao pensamento de Marx. E, deste modo, parece que se paga um preço alto ao se tentar desenvolver uma metodologia nestes moldes mencionados. A oposição entre explicação e compreensão, bem como o caráter não dialético da abordagem dada à natureza, parecem-se entranhas a Marx, como mostraram, mesmo que com tonalidades opostas, autores como Lukács (na Ontologia ) e Alfred Schmidt e, mais recentemente, John Bellamy Foster. Deve-se mesmo apontar que Marx e Engels saúdam a obra de Charles Darwin (claro, de modo crítico); na medida em que ela demonstra que a natureza possui um desenvolvimento e não tem qualquer télos , tratar-se-ia de uma contribuição essencial e que provaria que a fobia diante das ciências naturais não se justificaria. Aliás, tal posicionamento seria condenável. A natureza não seria algo carente de processos e saltos qualitativos, nem algo plasmado em uma unidade prévia colocada nas formas de leis imutáveis quase que de origem divina. Entre nós, brasileiros, quem destaca este aspecto de modo rigoroso e interessantíssimo é Maurício Vieira Martins, cujo livro Marx, Spinoza e Darwin: pensadores da imanência julgo valorosíssimo. Ou seja, a pretensão de compreender os fenômenos naturais – até mesmo para que as potências da natureza possam se voltar ao incremento das forças produtivas, em sentido amplo das capacidades do gênero humano – está presente em Marx também. Isto seria essencial para que se rompesse com a visão teológica de mundo (o que não é pouco), já que, como se coloca em Crítica à filosofia do Direito de Hegel – introdução , o pressuposto de toda a crítica é a crítica à religião. E, por mais que eu não possa aprofundar aqui a questão, não deixa de ser bastante interessante perceber que este modo de proceder diante da natureza talvez tenha alguma influência no fato de Michael Löwy se consagrar como um estudioso – dos mais sérios e dedicados – da sociologia da religião. Aqui, porém, não posso tratar deste tema, até mesmo porque nosso enfoque hoje é abordar a obra marxiana. Marx procura distinguir-se de duas abordagens opostas quanto à natureza. A primeira delas, típica do materialismo mecanicista, vê a natureza como algo plasmado e sem um desenvolvimento processual; a segunda, presente em Hegel, enxerga a natureza como uma espécie de alienação ou estranhamento do espírito e acaba por negar qualquer autarquia à esfera do ser natural. Ou seja, trata-se de apreender, ao mesmo tempo, a diferença do ser natural diante do social e a indissociabilidade deles, que ocorre em uma interrelação marcada pelo afastamento, mas nunca pela supressão das barreiras naturais. Acredito que grande parte da sociologia marxista, Löwy incluso, ao enfocar questões de método ao modo de Dilthey e da tematização sobre a metodologia das ciências sociais, coloca-se de modo um tanto quanto débil diante desta questão, que é central a Marx. Apesar das críticas, é preciso ressaltar que fato de estarmos aqui a tratar da obra deste sociólogo brasileiro mostra sua importância e sua influência, bem como a sua seriedade. Há, em Michael Löwy, uma equação entre a visão de mundo, os interesses de uma classe e o método que é adotado pelos intelectuais em determinado momento. No autor de Para um sociologia dos intelectuais revolucionários , isto teria por base a distinção entre a consciência imediata de uma classe e o máximo de consciência possível para esta mesma classe. Ou seja, o tema coloca-se com certa afinidade eletiva com alguns pontos da obra weberiana, mas tem-se aqui por guia a correlação trazida por Marx e Engels entre classe em-si e classe para-si. A partir das posições do próprio Marx, tem-se uma tentativa de solucionar problemas trazidos na sociologia do conhecimento, principalmente a partir de Ideologia e utopia de Karl Mannheim. Ou seja, em Löwy, trata-se de uma empreitada bastante sofisticada e com resultados interessantíssimos no que diz respeito, por exemplo, ao estudo dos intelectuais revolucionários do começo do século XX. Também aqui, não posso entrar nas minúcias e em eventuais discordâncias sobre tal tarefa hercúlea. Porém, pelo que venho dizendo, fica claro que, em minha opinião, o contexto trazido por este importante marxista na leitura da obra de Marx é outro que aquele marxiano. O autor de Para uma sociologia dos intelectuais revolucionários pode contribuir, e certamente contribui em diversos aspectos do estudo da obra de Marx. Porém, o modo pelo qual as questões são levantadas está muito próxima daquele da sociologia, já conformada como ciência parcelar. Tanto é verdade isto que o autor brasileiro não deixa de propor certo marxismo weberiano, principalmente ao ter em conta questões que passam pela tematização da burocracia. E sobre este uso crítico de Weber, presente em autores diferentes como aqueles da escola de Frankfurt, mas também em Polantzas, não vou tratar aqui. Isto nos desviaria muito do assunto que procuramos abordar aqui; mas não posso deixar de me manifestar no sentido de que não acredito na necessidade de se recorrer à teoria weberiana para que o marxismo possa tratar de determinados assuntos. Primeiramente, porque há abordagens, sobre a burocracia por exemplo, interessantíssimas já em Marx e Engels (e mesmo em autores importantes do marxismo como Gramsci e Lukács, por exemplo). Depois, destacaria que o processo de surgimento da sociologia talvez esteja demasiadamente ligado à crise da economia política e do neohegelianismo, que caracteriza o momento em que as posições burguesas se tornam apologéticas, como diria Marx, uma espécie de espadachinharia; e isto, no caso, implica, para dizer o mínimo, nos melhores dos casos, em se ter uma visão um pouco segmentada sobre alguns temas e sobre o modo de se proceder diante da realidade, por exemplo, ao não se considerar como passo essencial na abordagem da categoria “classe” a crítica à economia política e o desdobramento desta no desenrolar do modo de produção capitalista. Esta é uma questão que nos levaria de Marx à discussão sobre o século XX, porém. E, assim, termino esta resposta minha reiterando a incompatibilidade entre as questões colocadas pelas ciências parcelares, em que a construção de aparatos metodológicos vem a ser central, e aquelas do autor de O capital . Revista Barravento : Acabamos por nos afastar um pouco de nosso tema central, aquele do método em Marx. Como o senhor vê a relação entre a metodologia das ciências sociais e a interpretação da obra de Marx? Não seria possível um método marxista sociológico? O senhor poderia aprofundar a questão, que já foi abordada acima de modo inicial? Vitor Sartori : Acredito que as ciências parcelares usualmente acabam direcionando as suas interpretações a partir dos problemas que aparecem, de imediato, aos pesquisadores de cada área; talvez seja apressado buscar um método marxista sociológico. Neste sentido, eu preciso aprofundar tanto minhas explanações sobre a especificidade da noção de método em Marx quanto sobre a própria obra marxiana. Não se pode ter uma abordagem demasiadamente sistemática de um autor que, tanto na exposição quanto na pesquisa, procurou explicitar a imanência da própria realidade. Marx procedeu com recurso a abstrações, à abstração razoável ( verständige Abstraktion ) para que se use a dicção marxiana dos Grundrisse . Porém, a teoria das abstrações de Marx, longe de ser uma teorização sobre a metodologia e sobre o método das ciências sociais, é uma crítica ao que elas se tornariam no futuro (digo isto porque o processo que leva à especialização das ciências sociais não estava completo na época de nosso autor). A posição marxiana é aquela segundo a qual as categorias são formas de ser, determinações de existência ( Daseinsformen, Existenzbestimmungen ), e não construtos mentais prévios à apreensão da própria realidade; as categorias são, portanto, partes moventes do próprio real e que são espelhadas de modo aproximado na cabeça dos indivíduos. O tratamento sistemático da questão, bem como a colocação dela nos termos das ciências parcelares contemporâneas (aqui mencionei somente a filosofia e a sociologia, mas poderia remeter a muitas outras) faz com que, por vezes, a autarquia da própria realidade objetiva seja perdida e que o esforço científico deixe de ser aquele de apreender as determinações objetivas existentes na própria realidade. Explico melhor: na abordagem que critico, as categorias se tornam construtos mentais, e não expressões do próprio real espelhadas com auxílio das abstrações, e, portanto, da subjetividade. Com a “metodologia” das ciências parcelares, o ponto de partida e a posição são aqueles do pesquisador e de suas preocupações, de modo que o que aparece como dado primário não é o fato de que a consciência não pode ser outra coisa que o ser consciente, para que se use as palavras da Ideologia alemã . Em verdade, mesmo ao se ter as preocupações de uma metodologia marxista sociológica, se a questão prévia é trazida pelo método, tem-se o seguinte: longe da consciência ser vista como o ser consciente, tem-se uma separação entre consciência e ser como algo primordial e, depois, procuram-se os artifícios metodológicos para que se possa abordar o real. Para que falemos em termos mais próximos da filosofia: na melhor das hipóteses, constrói-se uma espécie de sujeito transcendental kantiano, por mais que este sujeito seja – para que remetamos agora à sociologia, e como em teóricos como Weber, por exemplo – bastante complexo e retorcido se comparado com a figuração presente no autor da Crítica da razão pura . Ainda sobre o assunto das ciências parcelares e de seu modo de proceder diante do real (Marx diria, em um sentido bastante diferente daquele consolidado hoje, de seu método) há, ainda, colocações importantes. Devo apontar algumas posições que considero equivocadas: do mesmo modo que se retira de Marx uma metodologia a partir de referências ao método dialético, acredita-se que exista nele uma espécie de abordagem etnológica por ter abordado comunidades sem classes sociais (o exemplo de Krader é forte neste sentido); de seu tratamento da relação entre fenômeno e essência, procura-se aproximá-lo da fenomenologia (Kosik, por exemplo); de sua abordagem da natureza humana, diz-se haver nele uma espécie de antropologia filosófica (Markus); a partir de uma abordagem sobre a atividade humana sensível e social em condições diuturnas desenvolve-se uma sociologia da vida cotidiana (Heller). Eu poderia ainda mencionar vários outros exemplos, como aquele de um autor de grande envergadura como Althusser, que trata Marx a partir da filosofia da ciência de Bachelard. Porém, meu ponto é que há certa tendência a dar um enfoque unilateral em aspectos da obra de Marx para que o enquadre em um foco que é bastante alheio ao seu, aquele das ciências parcelares. Estas últimas, diz nosso autor ao tratar da teoria do Direito em seus escritos sobre Maine (compilados um tanto quanto no sentido que criticamos aqui em meio aos Cadernos etnológicos ), decorrem da degeneração da economia política e possuem suas raízes no afastamento do pensamento burguês diante da conformação, ao mesmo tempo, concreta e unitária do real. Se o concreto é concreto porque é unidade do diverso e síntese de múltiplas determinações, o pensamento burguês começa a se preocupar, de um lado, com o desenvolvimento de teorias gerais, doutro, com determinações múltiplas, como se não houvesse uma ligação necessária entre estas duas dimensões do real. Assim, em A destruição da razão de Lukács, ou seja, a partir de um desenvolvimento aquilo que foi trazido por Marx, mas já não em uma identidade imediata com sua obra, podemos pensar na sociologia, que começa a se formar a partir de uma incapacidade de teorização das relações sociais com referência à economia política e à sua crítica. A separação entre a ciência econômica (que se torna próxima daquilo que Marx chamou de economia vulgar) da tematização sobre o ser da sociedade faz com que a conjunção entre a sociedade e as relações econômicas somente possa ocorrer de modo problemático, dado que se separou artificialmente aquilo que é indissociável de início. Se é verdade que há tratamentos bastante sofisticados e mesmo enciclopédicos de elementos econômicos por parte dos sociólogos (novamente o exemplo é Max Weber), isto só ocorre na medida em que aspectos unilaterais são agrupados de modo mais ou menos sofisticados e intrigantes, porém, não sem um tom fortemente idealista. E, neste cenário, para que se evite as discricionariedades e as arbitrariedades nesta junção abrupta, tem-se na tradição sociológica certa centralidade do método. Pelo que digo aqui, fica claro que o enfoque metodológico vem muito mais de algo que talvez possamos apontar como uma fraqueza nos pontos de partida do que de um rigor científico de pesquisadores comprometidos com a verdade, mesmo que eu não tenha dúvida que há vários desses pesquisadores. Em verdade, a própria concepção de ciência é, então, marcada pela fragmentação, e a concepção de verdade tende a adquirir tons, não raro, revestidos de um relativismo e de um idealismo marcantes. Ou seja, tem-se algo diametralmente oposto ao que se pode chamar de método cientificamente correto e que marca a posição de Marx diante do real. Revista Barravento : Chegamos em um ponto decisivo aqui: pode-se, então, falar de um método em Marx? Parece-nos que não há algo como uma questão de método colocada previamente até onde acompanhamos em sua fala, mas Marx explicitamente fala de um método cientificamente correto. Como compreender estes aspectos? Vitor Sartori : Acredito que a noção de método se encontra, hoje, fortemente envolvida por este contexto o qual mencionei, e que não é o de Marx. Na verdade, o uso da expressão em Marx – tal como ocorre com outras palavras, como partido, por exemplo – é muito mais trivial. Trata-se, no caso do método, de um modo de se apreender a realidade; vou tentar esclarecer as coisas ao explicitar alguns aspectos. Quando perguntamos se há um método em Marx, assim como quando perguntamos se ele desenvolve uma teoria do partido, temos em mente algo. Ao tratar de método, pensamos naquilo que normalmente se entende pela palavra, e algo similar se dá ao trazermos à tona o partido. No último caso, pensamos no modo como os partidos políticos são indissolúveis da burocracia estatal, das disputas eleitorais imediatas etc. Ou seja, nos colocamos em um debate sobre certa forma consolidada de partido político que tem suas origens no século XX, mais precisamente no começo do século XX. Ao falarmos “partido” pensamos sempre nestes termos. E, por isso, que é difícil hoje compreender o que Marx e Engels tratam ao trazer à tona a categoria partido. Não há, em Marx, uma teoria do partido nestes termos. Mesmo que o autor possa ser útil para que compreendamos tal fenômeno, ele não trata exatamente disso e é um erro crasso utilizar as passagens marxianas sobre o partido para dizer o que ele acha sobre a organização partidária que se dá a partir do século XX. Com o método, há algo bastante similar, mas um pouco mais complexo. De um lado, não podemos nos voltar à tradição anterior a Marx, que tem como marco Descartes e que culmina em Hegel – uma tradição que hipertrofia o papel da consciência e da razão e se configura de modo idealista – doutro, não há como aproximarmos a análise marxiana daquela consolidada depois de sua morte, no século XX e com as ciências parcelares. Desta maneira, é preciso ter muito cuidado com a análise deste ponto em nosso autor. Falar de partido na obra marxiana significa falar de uma tomada de posição como classe, ou, mais concretamente, da organização desta tomada de posição diante da realidade. Por vezes, há inclusive, confluência de classes, como no partido da ordem, ou no partido democrático etc., tema o qual não podemos aprofundar aqui. Mas fica claro que o sentido marxiano da categoria partido é muito diferente do nosso. No caso do método, tem-se um modo de lidar com o real, que pressupõe certa posição diante do real. Hegel buscaria ver a efetividade do presente como o cume do desenvolvimento histórico ao passo que Marx não, por exemplo. Neste sentido, o método dialético de Marx seria a oposição direta do hegeliano. Isto também passa pela crítica marxiana à inversão entre sujeito e predicado realizada por Hegel e, de certo modo, e correlacionado a este segundo aspecto, remete à crítica à própria política e ao Direito. Se o autor da Filosofia do Direito acredita que as contradições da sociedade civil-burguesa se encontram reconciliadas e, no limite, superadas no Estado, o autor de O capital destaca como o que se dá é o oposto disso: o Estado é o resumo das contradições da sociedade e o Direito é o reconhecimento oficial do fato. Hegel procede de modo idealista e especulativo. Como autor marcado pela sociabilidade burguesa, encontra na política a resolução dos conflitos sociais; Marx, por outro lado, traz a crítica à especulação e à política e, ao analisar mais a fundo a sociedade capitalista, vê a necessidade de uma crítica à economia política. Vejam onde chegamos ao tratar do método dialético de Marx: na apreensão da própria realidade. Não se tem qualquer aparato metodológico prévio à apreensão do real; antes, o método marxiano é oposto ao hegeliano devido aos posicionamentos concretos destes em relação ao real. Ou seja, ao criticar o método dialético de Hegel, Marx critica a posição deste diante da realidade efetiva, analisa a gênese, a estrutura e a função do pensamento do autor. Realiza, portanto, uma crítica imanente do autor da Fenomenologia do espírito e da sociedade que dá base a ele. Daí, o método dialético de Marx ser crítico e revolucionário, em oposição ao hegeliano, que parecia tornar sublime o existente. Sobre este exemplo, Engels chega a trazer certa oposição entre sistema e método em Hegel: de um lado, o autor idealista procuraria destacar o movimento do real, seu caráter processual e complexo; doutro, traria o fechamento de um sistema coerentemente lógico. Engels opõe a metafísica à dialética e coloca diversos autores como representantes da dialética (Descartes, Spinoza, Kant, Hegel) e, deste modo, percebemos que duas palavras que parecem ter um poder sobrenatural para muitas pessoas – método e dialética – possuem um sentido mais amplo e, por vezes, trivial para os autores da Ideologia alemã . Ao tratarmos de dialética e de método em Marx estamos muito distantes das abordagens usuais sobre o tema do que supomos inicialmente. Esta forma de colocar a questão e de se colocar diante da realidade é vigente de um modo mais ou menos mediado nas ciências parcelares, como a sociologia e a filosofia, para que fiquemos nas que mencionamos aqui. E, insisto sobre este ponto sob risco de ser repetitivo: a teorização marxiana não está neste contexto, mas noutro, em que a ciência tem pretensões muito maiores, as de apreender o movimento unitário da realidade efetiva em meio à diferença específica de cada esfera do ser social. Somente com esta representação científica seria possível a transformação substantiva da sociedade. Neste sentido, só com muitas ressalvas, como faz Engels – ainda que de modo problemático em alguns momentos de sua exposição – é possível fazer algo como aplicar o método dialético. Percebam: quando Marx e Engels falam de método, estão se referindo aos diferentes modos de tratar a realidade efetiva. Eles destacam o modo pelo qual o conteúdo social emerge organicamente, seja em Hegel, seja neles próprios, a partir de uma posição diante e na própria realidade objetiva. Fazem o mesmo quanto à economia política. Os momentos em que a tematização sobre o método aparece em Marx sempre estão ligados à comparação entre sua posição e aquela de outros autores. Ou seja, trata-se muito mais de enxergar com cuidado certo modo de se colocar concretamente diante da realidade efetiva – de que os indivíduos que questionam teoricamente sobre a realidade fazem parte – do que se de trazer à tona qualquer questão epistemológica prévia ao conhecimento da sociedade. A atividade humana é um fato e ela não prescinde do mínimo de conhecimento sobre a sociedade e a natureza. É um fato que conhecemos. Trata-se de analisar como isto ocorre, em meio a que mediações e condicionamentos históricos. O ponto de partida, portanto, não é uma colocação epistemológica, “como posso conhecer a sociedade?”; mas da apreensão de diferentes posições diante da realidade efetiva, em suas diversas dimensões. Não se trata, portanto, de saber que categorias ou visões de mundo possuem maior potencial crítico – como se, no limite, uma visão crítica, quase que por si, modificasse a própria realidade. Antes, tem-se a necessidade de compreender a gênese das categorias em meio à realidade. Primeiramente, isto passa por pressupostos que não são propriamente ligados à consciência ou a qualquer metodologia das ciências sociais: como dizem Marx e Engels na Ideologia alemã , os homens existem e precisam sobreviver; ou seja, precisam produzir e reproduzir suas condições materiais de existência. Para que coloquemos as coisas doutro modo, mas ainda de acordo com a obra mencionada: para que a consciência que coloca a questão de como é possível o conhecimento possa trazer à tona tal tema, primeiro, ela precisa existir materialmente: a consciência não pode ser outra coisa que o ser consciente. E, assim, é necessário ver o modo pelo qual os seres conscientes produzem e se reproduzem. Se é certo que isto passa pelo trabalho, ou seja, pelo metabolismo do homem com a natureza, a coisa não se reduz a isto. Para que nos adiantemos – infelizmente não é possível trazer aqui a ontogênese do ser social e seu desenvolvimento como tentou fazer Lukács em sua Ontologia , por exemplo... – precisamos ver que, na sociedade atual, isto passa pela anatomia da sociedade civil-burguesa, ou seja, por aquilo que foi tratado na economia política. A compreensão do ser consciente e do modo pelo qual este ser se posiciona diante da sociedade precisa remeter às relações materiais e à crítica à economia política. Percebam que aquilo que Marx chama de método cientificamente correto certamente implica em saber lidar com os distintos níveis de abstração que vêm à cabeça dos indivíduos. Tem-se também que compreender o que são abstrações razoáveis, e se colocar contra quaisquer robinsonadas ou abordagens ahistóricas ou apologéticas. Porém, nada tem a ver com a elaboração de uma metodologia marxista; e digo que talvez quem tenha destacado com mais cuidado tal ponto foi José Chasin. E, desta maneira, não se trata de trazer um modelo pronto – por mais elaborado que seja, como aquele modelo bastante sofisticado e interessante desenvolvido por Althusser em Sobre a reprodução e em suas tematizações sobre os Aparelhos ideológicos de Estado – para que a realidade seja vista pelas lentes deste modelo. Em um sentido distinto àquele que Marx coloca ao tratar de Hegel, porém, de modo até certo ponto análogo, acho que se tem em Althusser um método que é oposto ao de Marx, uma oposição direta àquela do autor de O capital nestes casos. Não adentrarei aqui na questão Althusser, porém. E nem abordarei a provocação de Jameson segundo a qual o marxismo althusseriano seria uma tentativa de pós-modernizar Marx. O autor de Por Marx é sério e precisa ser debatido com muito mais cuidado do que posso fazer aqui, até mesmo porque seria preciso vermos a peculiaridade da filosofia da ciência, bem como dos debates do PCF, da recepção de autores como Heidegger etc. Voltemos, assim, a Marx e à indagação sobre a existência ou não de uma questão de método. Pelo que venho trazendo, acredito que se possa dizer que, no autor de O capital , passa a ser essencial, não tanto a colocação sobre a possibilidade do conhecimento, mas algo substancialmente distinto; afinal, os indivíduos, objetivamente, conhecem. Somente assim é possível que atuem diante da realidade. O que se torna de maior relevo é enxergar, basilarmente, embora não só, a posição destes indivíduos diante da economia política e das relações sociais de produção analisadas por esta. Tem-se a correlação entre as relações materiais de produção, a família, a sociedade civil-burguesa e o Estado como uma chave (e não a chave) para que vejamos como que a consciência e o ser consciente explicitam-se em sociedade. Fica claro neste ponto: como bem disse Chasin, se, por método, entendemos qualquer colocação de condições prévias a priori para que se possa apreender a realidade, não existe qualquer método em Marx. Aqueles que procedem com referência a qualquer pressuposto independente da experiência, são profundamente criticados pelo autor alemão e acredito que uma metodologia marxista sociológica, no sentido que trouxe o tema acima, precisa passar por críticas decididas. Não há uma questão de método. Quando Marx fala de método, trata de diferentes posições diante da realidade efetiva, da conformação destas posições na história e no desenvolvimento das contradições do capitalismo. Não há a possibilidade de se abordar o método em abstrato e, neste sentido, aquilo que se entende usualmente por método não está presente no pensamento marxiano. A elaboração de construtos mentais prévios à atuação e à apreensão do real é vista como algo essencialmente idealista. As robinsonadas – a hipostasia de condições históricas específicas de modo atemporal – também são profundamente criticadas por nosso autor. E, assim, sob o risco de me repetir em demasia, reafirmo: há de se perceber que não há especificamente uma questão de método em Marx. Como mencionei acima, as ciências parcelares – bem como visões mais globais no campo da filosofia – tendem a fetichizar de modo extremo tal questão. Em Marx, porém, a coisa se coloca de modo completamente distinto. Da dificuldade, inerente a todo o começo, e bastante presente nas tentativas de desenvolvimento científico, de apreender o movimento do próprio real, não podemos fazer um mérito e, assim, cair nas mãos do idealismo do epistemologismo. E, com Lukács e Chasin (também com Marx, acredito), nunca é demais destacar tal aspecto. Isto se dá mesmo que tal ponto tenda a ser contrário ao instinto dos pesquisadores acadêmicos de diversas linhagens mais ou menos críticas e progressistas, marxistas ou não. Há ainda um último apontamento que gostaria de fazer sobre o tema no espaço que temos aqui: Karl Korsch, de modo bastante perspicaz, disse que nos Grundrisse (mais especificamente na introdução de 1857) estaria à nossa disposição o método marxiano. Isto se daria de modo imanente, de modo que seria preciso analisar a coisa com cuidado. Há dois pontos sobre isto. Primeiramente, Korsch, com sua inteligência e cultura quase que únicas na compreensão das temáticas mais espinhosas e ligadas ao que chamamos de filosofia – na década de 1920, além de Lenin, Gramsci e Lukács destacam-se – traz um grande acerto: não há como tratar do método dialético, ou de qualquer outro tema de Marx, isolando-os da imanência de seu pensamento e de sua época. Não faz muito sentido, portanto, exigir do autor de O capital um escrito sistemático sobre o método, sobre o Estado, sobre o Direito etc. O autor de Marxismo e filosofia acerta em cheio, portanto. Porém, há um aspecto sobre o tema que foi pouco destacado (acredito que o primeiro a fazê-lo no Brasil foi Mário Duayer, que infelizmente não pode mais falar sobre o assunto por ter morrido devido à condução absurda das autoridades do país na pandemia de Covid-19) e que merece destaque. Nos Grundrisse , Marx posiciona-se sobre a imanência do material que trata, ou seja, sobre a economia política. As passagens em que nosso autor se posiciona dizem respeito ao método da economia política, e não ao seu método dialético. Também aqui não há como se exigir que se trate de método como algo prévio e que pode ser aplicado sobre a matéria. Aquilo que se diz sobre as esferas da produção, sobre o momento preponderante, sobre os distintos graus de abstração (bem como sobre as abstrações razoáveis), sobre as categorias etc. não paira no ar. É levantado imanentemente e de modo crítico diante do material fornecido pela economia política. Marx critica esta última, não tanto porque esta fornece uma visão burguesa sobre a sociedade, mas porque nela encontram-se posicionamentos sobre a anatomia da sociedade, que se coloca sobre as relações materiais de produção. Ou seja, tem-se nesta seara parte essencial da posição burguesa, bem como do funcionamento da própria sociedade civil-burguesa. A crítica imanente à economia política, assim, torna-se a crítica às próprias condições mediante as quais se produz e reproduz a sociedade. E, assim, ao tratar do método da economia política, tem-se também a apreensão aproximada das categorias que compõem a própria realidade efetiva. Trata-se do método de Marx, crítico e revolucionário e que, não se coloca como qualquer questão de método, pressuposto epistemológico. Assim, se compreendemos por método aquilo que normalmente nos é trazido no cotidiano, há de se colocar de modo claro: não há um método em Marx. Esta resposta, porém, sempre precisa ser completada com a concepção marxiana sobre o método, que, por sua vez, como pretendo ter esclarecido, é indissolúvel de praticamente todos os desenvolvimentos da obra de nosso autor, uma obra que vem sendo vista por um prisma, no mínimo, problemático. Termino dizendo que, não havendo uma questão de método em Marx, é preciso voltarmos os olhos para os aspectos que destaquei aqui e a outros que não pude abordar, mas que são essenciais ao que analisamos: a ciência e sua determinação social, a conformação da posição ( Standpunkt ) em meio às relações sociais de produção, a individualidade moderna, a correlação entre a produção capitalista e a ciência como uma força produtiva. Estes são somente exemplos de aspectos essenciais para o autor de O capital e que dizem respeito àquilo sobre o que conversamos aqui. Mas isto é assunto para outra oportunidade, em que meu objetivo não venha a ser explicitar a colocação de uma questão em nossos meios, mas tratar da conformação concreta da realidade social.
- Uma questão de tática - Rosa Luxemburgo
Tradução de Gabriel Vezeiro-Sueiras gentilmente cedida pelo portal Ollaparo e revisada por Igor Dias Domingues de Souza* A entrada de Millerand [1] no gabinete do governo de Waldeck-Rousseau merece ser estudada em termos de tática e princípios, tanto pelos socialistas franceses quanto pelos socialistas de outros países. A participação ativa dos socialistas num governo burguês é, em todo caso, um fenômeno que vai além da atividade usual do socialismo. Temos aqui uma forma de servir à causa proletária tão legítima e oportuna quanto, por exemplo, a atuação no Parlamento, nas câmaras municipais? Ou, ao contrário, isso seria uma ruptura com os princípios e táticas socialistas? Ou, enfim, a participação dos socialistas no governo burguês não passa de um caso excepcional, admissível e necessário em certas condições, mas condenável e desastroso em outras? Do ponto de vista da concepção oportunista do socialismo tal como se manifestou recentemente no nosso partido e particularmente nas teorias de Bernstein – isto é, do ponto de vista da introdução gradual do socialismo na sociedade burguesa – a entrada de elementos socialistas no governo deve aparecer como algo tão desejável quanto natural. Se, por um lado, o socialismo pode ser introduzido gradualmente, em pequenas doses, na sociedade capitalista e se, por outro, o Estado capitalista se transforma gradualmente num Estado socialista, a admissão cada vez mais ampla de socialistas dentro do governo burguês é, na verdade, uma consequência natural do desenvolvimento progressivo dos Estados burgueses, o que corresponderia plenamente à sua pretensa evolução para uma maioria socialista nos órgãos legislativos. Se o caso é correspondente à teoria oportunista, ele não pode corresponder menos à prática oportunista. Como a obtenção de resultados imediatos e tangíveis, por qualquer meio, constitui o leitmotiv desta prática, a entrada de um socialista no governo burguês deve parecer aos “políticos práticos” um sucesso inestimável. Um ministro socialista não poderia fazer mais do que remendar pequenas melhorias, adoçamentos e arranjos sociais de todos os tipos! Se, ao contrário, partirmos do ponto de vista de que a introdução do socialismo só pode ser pensada após a destruição do sistema capitalista, e que a atividade socialista se reduz agora à preparação objetiva e subjetiva a partir deste momento da luta de classes, a questão é colocada de outra maneira. É claro que a social-democracia, para realizar uma ação efetiva, deve ocupar todos os cargos disponíveis no atual Estado e deve ganhar terreno em todos os lugares. A única condição é que essas posições devem permitir que se trave a luta de classes, a luta contra a burguesia e seu Estado. No entanto, para este ponto de vista, há uma diferença essencial entre as legislaturas e o governo de um Estado burguês. Enquanto no Parlamento os eleitos pelos trabalhadores não conseguem fazer valer suas reivindicações, eles poderiam pelo menos continuar na luta, persistindo numa atitude de oposição. O governo, por outro lado, que executa as leis, que toma medidas, não tem lugar em seu quadro para uma oposição de princípios; deve atuar em todos os seus membros e em todos os momentos; portanto, mesmo que seja composto por diferentes representantes partidários, como tem acontecido na França há vários anos nos ministérios mistos, sempre tem sob seus pés um terreno fundamentalmente comum, que lhes permite agir, o terreno do existente, em uma palavra, o terreno do Estado burguês. O representante mais extremo do radicalismo burguês, de fato, pode governar ao lado dos conservadores mais reacionários. Por outro lado, um adversário radical do sistema atual, se depara com a seguinte alternativa: ou se opor à maioria burguesa no governo a qualquer momento, ou seja, não ser um membro ativo do governo – o que criaria uma situação aparentemente insustentável, obrigando ao afastamento do membro socialista do governo – ou então teria de colaborar, desempenhando as funções cotidianas necessárias à manutenção e funcionamento da máquina estatal, ou seja, de fato, não ser um socialista, pelo menos não no contexto de suas funções governamentais. Embora o programa da social-democracia contenha muitas reinvindicações que poderiam – abstratamente falando – ser aceitas por um governo ou um parlamento burguês, pode-se imaginar à primeira vista que um socialista, tanto no governo quanto no parlamento, pode servir à causa do proletariado, esforçando-se para arrancar a seu favor tudo o que for possível obter no campo das reformas sociais. No entanto, mais uma vez, aparece um fato que a política oportunista sempre ignora: o fato de que na luta da social-democracia o que importa principalmente não é o quê, mas o como. Se os representantes da social-democracia estão tentando realizar reformas sociais nos órgãos legislativos, eles têm todas as oportunidades, por intermédio de sua oposição simultânea à legislação e ao governo burguês como um todo – o que encontra sua expressão manifesta na rejeição do orçamento, por exemplo –, para dar à sua luta pelas reformas burguesas um caráter socialista, o caráter de uma luta de classes proletária. Porém, um social-democrata que está tentando introduzir as mesmas reformas sociais como membro do governo, ou seja, apoiando ao mesmo tempo o Estado burguês, na realidade está reduzindo seu socialismo, na melhor das hipóteses, à democracia burguesa ou à política operária burguesa. Assim, enquanto a ascensão dos social-democratas nas representações populares permitir o fortalecimento da luta de classes, sua penetração no governo só pode trazer corrupção e desordem nas fileiras da social-democracia. Os representantes da classe trabalhadora podem, sem negar sua razão de ser, entrar no governo burguês em apenas um caso: para tomá-lo e transformá-lo num governo da classe trabalhadora dominante. Sem dúvida, pode haver na evolução, ou melhor, na decadência da sociedade burguesa, os momentos finais em que a posse de poder por parte dos representantes do proletariado ainda não é possível, e onde, no entanto, sua participação no governo burguês aparece como necessária, especialmente quando a liberdade do país ou conquistas democráticas, como a República, estão em jogo, enquanto o governo burguês já está muito comprometido e muito desorganizado para convencer o povo a segui-lo sem o apoio dos representantes dos trabalhadores. Nesses casos, é claro, os representantes dos trabalhadores não têm o direito, por amor a princípios abstratos, de se recusar a defender a causa comum. Mesmo assim, a participação dos social-democratas deve ser exercida de forma a não deixar à burguesia ou ao povo a menor dúvida sobre o caráter temporário e o objetivo exclusivo de sua ação. Em outras palavras, a participação dos socialistas no governo não seria equivalente à solidariedade com suas atividades e sua existência como um todo. Parece duvidoso que a situação acima tenha sido criada na França, porque os partidos socialistas, desde o início e sem pensar em sua participação no governo, se declaram prontos para apoiar qualquer governo republicano sincero, enquanto, inversamente, foram parcialmente dissuadidos desse apoio pela entrada de Millerand no ministério, que, em todo caso, ocorreu sem qualquer autorização de seus colegas. De qualquer jeito, nossa preocupação não era julgar o caso específico do gabinete Waldeck-Rousseau, mas sim derivar uma orientação geral de nossos princípios. Desse ponto de vista, a participação socialista nos governos burgueses parece ser uma experiência que só pode ser prejudicial à luta de classes. Na sociedade burguesa, a social-democracia está essencialmente destinada a desempenhar o papel de um partido de oposição; como partido governante, só pode se manifestar sobre as ruínas do estado burguês. *** * A partir do texto original, disponível em: https://www.marxists.org/deutsch/archiv/luxemburg/1899/07/taktisch.html 1.Alexandre-Étienne Millerand, que representou uma tendência oportunista no movimento socialista francês, foi Ministro do Comércio de 22 de junho de 1899 a 28 de maio de 1902 no gabinete burguês reacionário Waldeck-Rousseau. Este primeiro passo prático dado polo oportunismo para integrar o movimento operário francês no estado burguês levou a discussões acaloradas entre as forças revolucionárias e os oportunistas da Segunda Internacional.
- Além do romance: a família, o casamento e o destino social em “A mulher de trinta anos”
Fonte da imagem: https://www.gettyimages.com.br/fotos/honor%C3%A9-de-balzac Por Wesley Sousa [1] “A minha virtude repousa sobre princípios determinados e fixos. Saberei ter uma vida irrepreensível, mas, deixe-me viver” (BALZAC, in: A mulher de trinta anos [La Femme de trente ans] ). Advertência do autor: o texto consiste em alguns comentários mais ou menos esparsos sobre o romance “A mulher de trinta anos”, escrito por Honoré de Balzac. A hipótese de leitura é que este romance de folhetim publicado à época consiste, entre outras coisas, em expor o destino social do casamento, como aquela que se realiza na sociedade civil como elemento responsabilidade, mesmo à revelia das intenções de seu próprio autor: funciona como apêndice de uma instituição necessária e perene do capitalismo. Assim, no decorrer do texto, o leitor verá que não se trata propriamente de uma “crítica literária” no sentido estrito e formal de uma obra literária. Aliás, seria um trabalho exaustivo de elaboração, que não é a intenção. Tal trabalho teórico ultrapassaria o escopo pretendido. Trabalhos dessa magnitude, como se averígua em trabalhos competentes de nossa tradição crítica da literatura brasileira, são vistos como os de Luiz Costa Lima, Alfredo Bosi e Walnice Nogueira Galvão, para mencionar alguns nomes. Um romance inacabado? A hipótese de saída deste texto gravita na interpretação de que o romance “A mulher de trinta anos”, escrito por Honoré de Balzac (1799-1850), constitui numa construção estética e social diante da figuração do casamento. Mas interessa algo mais simples: pretendo uma argumentação mais rápida: destacar alguns aspectos do livro que recentrem, não apenas o aspecto estilístico, mas o modo como a composição do escritor nela adquire, em seu gérmen , narrações da vida social – as cenas privadas . Ao centrar nos elementos que sobressaltam ao ideal de análise literária, o modo como as personagens ali representam, em seus modos e nas dinâmicas das ações, as características de uma sociedade de época e as movimentações de classes sociais expostas. Com isso, Balzac oferece, pois, um quadro dinâmico e profundo da sociedade de sua época. O romance está articulado, na parte da “Cenas da vida privada”, no que se refere à coleção imensa de “A Comédia Humana” – obra completa que contém cerca de 85 títulos. O romance em questão é composto por seis pequenas partes (escritas em momentos difusos em jornais locais), concluído em 1842 com uma nota específica: “Mesma história”. Observamos que o livro começa em 1813 (período Napoleônico) e termina em 1844. Como o autor deixa a entender ao longo da narrativa, no contexto de diversas mudanças históricas, as cenas sociopolíticas fornecem ao enredo a dinâmica própria, sem que o autor precisasse “criar” um cenário. Aliás, os cenários que aclimatam o enlevo da trama, em que as personagens se encaixem nela como peças moventes das ações, aparecem também, como comentou György Lukács, no ensaio “Narrar ou descrever?” (Lukács, 1968), não como figuras decorativas, mas como atuantes . Neste sentido, não é corrosiva a dissonância cronológica citada. Basta, porém, um olhar atento a respeito personagem Julie, o eixo pelo qual a história se desenrola. A não-linearidade do enredo não é o central da composição de Balzac. Aos leitores e leitoras, o enredo é bem conhecido: ainda adolescente, apaixonada por Arthur d’Aglemont – um coronel do exército napoleônico –, Julie contraria a vontade do pai e decide se casar. [2] Rapidamente, o casal tem uma filha, mas Julie percebe que sua filha foi apenas concessão genitora; e acaba por sentir-se presa a uma vida conjugal apenas aparente e à maternidade. A filha Hélène, a mais velha, ama o pai, e não tem o amor da mãe. A menina percebe a indiferença, uma indiferença que repõe a infelicidade da personagem, adiante num quase monólogo com o Padre (representante do oficialato do Antigo Regime): a conclusão da confissão é que a maternidade é exclusiva às mulheres . Podemos caracterizar de modo breve, como sugerem Corrêa, Hess e Rosa, que a “literatura é sempre mais rica do que a reprodução pura e simples da realidade”. Segundo os autores, um grande escritor explicita “elementos da vida social [que] são inseridos no texto literário pelo trabalho do escritor, que reduz as contradições sociais à estrutura do romance, do conto ou do poema, para, assim, ampliar e tornar visível o que está diluído na vida social” (Corrêa, Hess, Rosa, 2019, p. 23). Esse ponto de partida fornece o “caráter realista da criação literária”. Assim, o pressuposto dos autores é de que realismo não seria um modelo de literatura ou das artes, mas uma atitude criativa , um enlace artístico, que une a criação e o criador da obra; este será, pois, ao que se compele neste ensaio em tela, o realismo que se vê em Balzac. Este desenrolar longe de ser um “romance inacabado”, como pode ser dito por aqueles ou aquelas que, ao lerem a obra, perceberem certas “desconexões” (é certo que Balzac, pela sua insana labuta de trabalho, não revisou a obra antes de publicá-la); ela deve ser lida como uma passagem de vida , de um ponto ao outro , da vida da mulher. Uma vida feminina, no caso, embora na cena do século XIX na França, traz um diagnóstico histórico de momentos e de experiências . Como sublinha novamente o filósofo húngaro György Lukács, ao se referir a Ilusões Perdidas – uma outra importante obra do autor francês –, assevera desta maneira: “Seu olhar penetra camadas mais profundas, ele enfrenta os problemas mais profundos. Percebe que o fim heroico da evolução burguesa na França é, ao mesmo tempo, o início da evolução do capitalismo francês” (Lukács, 1968, p. 103). Ademais, esse desenvolvimento se mostra na forma que as personagens encorpam os movimentos históricos e nas cenas narradas: o velho e o novo formam a dialética do romance num presente próprio. Neste caso, atentemos ao romance aqui trabalhado. Um ponto de dialética: o casamento burguês No interessante estudo da professora de literatura comparada e literatura francesa, a estadunidense Sandy Petrey (cf. Petrey, 1988) redigiu uma interessante pesquisa que relaciona o realismo balzaquiano (na obra literária de O Coronel Chabert ) na França com os escritos de Karl Marx (no livro O 18 de Brumário de Luís Bonaparte ). A autora defende a tese de que “Balzac e Marx estão em perfeita concordância com a exata descrição da existência social requerer acordo de igual importância de como o material pode se tornar sem sentido e como o significado pode ser material” (Petrey, 1988, p. 461, tradução nossa). Esta concordância merece destaque. Não apenas por Marx ser um admirador e leitor conhecido da literatura de Balzac, mas por meio da arte literária, no qual os problemas e dilemas de mundo podem ser trazidos como são, revela sua grandeza com a universalidade dos dilemas humanos. As cenas parisienses retratadas na obra balzaquiana vão além do narrar a vida social, os costumes, as mudanças políticas e econômicas da França como algo decorativo. Mais do que isso, Balzac era um tipo de conservador no aspecto político. Entretanto, ao estar atento ao mundo francês, às transformações e às dinâmicas que ali observava e vivia, pode desvelar, por meio de sua crítica, a vida dos amores “livres”, sob o casamento como forma de contrato jurídico e modelo familiar da vida humana no tempo presente. A crítica dos costumes (bem como a petulância das relações capitalistas), fora causadora de repugnância em Balzac. Isso que lhe possibilitou a seguinte problemática que envolve a personagem protagonista do romance: Julie era o momento-personagem que se dirigia às mulheres que correm atrás das paixões na nova vida burguesa “concedida”. Porém, com essa sensação de insaciedade, acabavam sofrendo as consequências dos seus atos. Ele observa atentamente este traço tanto psíquico quanto social no feminino . No entanto, a obra acabou, por assim dizer, o “traindo”. Em A mulher de trinta anos , a passagem de Julie à Hèléne aponta que a infelicidade da mãe culminou numa culpa destinada à fuga de sua filha da realidade encarcerada (o que se pode ver na quinta parte ). Tal fuga, embora relacionada ao princípio da escolha, não se descolou da vivência fortuita que Julie carregou para si. A sua filha mais velha, em um desabafo ao pai, quando veio em sua procura após fugir com um marinheiro: Os meus desejos são mesmos excedidos; todos os meus caprichos, satisfeitos. Enfim, reino sob o mar, e sou obedecida como pode ser uma soberana. Ah! Feliz! Feliz não é a palavra que possa exprimir minha ventura. Pertence-me a parte de todas as mulheres! Sentir um amor, uma dedicação sem limites por aquele que se ama, e encontrar no seu coração um infinito sentimento onde a alma duma mulher se perde, e sempre! Diga-me, há ventura melhor? [...] A linguagem humana é insuficiente para exprimir uma felicidade celeste (Balzac, 1996, p. 130). Coloco em perspectiva a seguinte ideia: a novidade amorosa que a sociedade burguesa exposta por Balzac na “Comédia Humana”, e em especial, no romance em tela, se refere na evidenciação das novas relações conjugais, em que o amor já faz parte da própria individuação e da capacidade de escolha individual de seus agentes. É característico que, em dado momento – ou melhor, anos antes – a tia do esposo de Julie, a marquesa Listomère – uma senhora que, encarnada nos modos do Antigo Regime , venha a “consolar” a sobrinha de sua angústia pós-casamento. Aqui essa cena será muito distinta com o desabafo de Hèlene ao pai. O general é simples e amoroso à filha, e temeu perdê-la; Julie apenas é receptiva e permissível à senhora marquesa. A narrativa de Balzac consiste, então, em explicitar a personalidade condescendente da velha tia do esposo à personagem Julie: “A tia não chorou, porque a Revolução deixou poucas lágrimas nos olhos das mulheres da antiga monarquia” (Balzac, 1996, p. 34). Outro ponto a ser notado é que, enquanto no âmbito político a Monarquia dos Bourbouns regressava ao domínio institucional no país, Balzac notando esse “regresso” – um regresso no sentido de retorno : “[...] a pobre Julie sofre um profundo desgosto que muito devia influir na vida: perdeu a marquesa de Listomère Landou”. Em outras palavras, a morte da velha tia significava, objetivamente, “a pessoa a quem a idade dava o direito de esclarecer Vitor, a única que, por conselhos sensatos, poder tomar mais perfeito o acordo entre a mulher e o marido, essa pessoa morrer. [...] Não tinha mais ninguém entre ela e o marido [...]” (Balzac, 1996, p. 37). Com isso, as novas normas morais, as intenções subjetivas dos afetos e das afeições, agora expostas na mediação da velha tia, deixaram enterradas junto a ela, os “velhos costumes”; a angústia e a incerteza de um amor desencantado, por outro lado, era patente. Destaco que, se partir do pressuposto lukacsiano, a demarcação do realismo balzaquiano atravessa, até o final, com uma velocidade intensa, a dinâmica social existente emergente ao redor de Julie. Em seu diálogo com o Padre, Julie percebe sua indiferença religiosa para as explicações e justificativas do “destino” que escolheu; mais do que isso, entende-se um contraste entre “laicidade da relação matrimonial” oposta à exasperação cristã da união conjugal. E, portanto, sobrevém a questão que acerca do que está em jogo para os dias de hoje: seria a tipologia social das representações e dos “papeis de gênero” (se assim podemos dizê-lo) colocados ali? Assim, num possível enquadramento, é observável que os papeis de gênero deveriam servir como ponto de chegada na crítica, ou seja, a subsunção de duas pessoas num casamento que está ligada à maneira de como a sociedade condiciona a relação amorosa, sob o prisma da cisão entre o público e o privado. Mas a discussão sobre o assunto, porém, excederia este espaço e o objetivo inicial do texto. Entretanto, para o que interessa, a família, isto é, a base essencial assentada na sociedade civil, temos que a monogamia é o seu elemento objetivo, o que independe da crise da instituição, seja nos adultérios, seja nas “escolhas” afetivas no limiar do casamento. Antes disso, não é possível inferir, sociologicamente, que a “não-monogamia” (se é que isso tenha alguma base objetiva hoje) também seja uma “escolha” subjetiva, pelo mesmo motivo que a monogamia não seria. A questão é mais sutil. Mais do que isso, interessa notar, de Friedrich Engels, quando afirma em A origem da família, da propriedade privada e do Estado : A indissolubilidade do matrimônio é consequência, em parte, das condições econômicas que engendraram a monogamia e, em parte, uma tradição da época em que, mal compreendida ainda, a vinculação dessas condições econômicas com a monogamia foi exagerada pela religião. Atualmente, já está fendida por mil lados. Se o matrimônio baseado no amor é o único moral, só pode ser moral o matrimônio onde o amor existe (ENGELS, 2012, p. 107). Pois bem, o argumento de Engels aponta para dois problemas existentes: o primeiro é a historicidade pela qual a monogamia surge (por isso, é histórico, e não “escolha” deliberada); o segundo é que o amor autêntico é antitético ao tipo de existência de um matrimônio no qual o amor seja insignificante (e daí a relevância da subjetividade como par relacional à individualidade moderna). Mas há, por outro lado, outra ambiguidade: o mesmo o “amor romântico”, que cada vez mais consolidou a individuação do ser social, na sua escolha pessoal de relação, só pode existir onde se tem uma base objetiva de deliberação, isto é, moderna. Por isso, arriscaria dizer que o assim chamado pós-modernismo [3] (a respeito de uma época histórica) estaria estritamente vinculado a uma cultura de mercado, para se valer de Fredric Jameson [4] , a qual nossa subjetividade e os afetos se tornaram cada vez mais mercantilizáveis. Em outros termos, na monogamia, o afeto individual pode se sobrepor às dinâmicas comunitárias de relações (a capacidade de deliberação individual); para voltar às palavras de Engels, carreguem aí consigo suas contradições. Passada esta leve digressão e voltando ao romance, ao observarmos de perto o título, que marca apenas um ponto culminante da vida da mulher, ele tem como foco a sua maturidade . Temos que a maturidade não são os “trinta anos” fixos de Julie, mas refere-se às capacidades de experiências adquiridas e acumulativas, de novos e melhores atributos que só a idade pode fornecer, reverberando também uma condição social que tais elementos tornam-se proeminentes. Com isso, mulheres mais maduras apresentam-se mais interessantes do que as mais novas, pelo fato evidente destas – as mais jovens – estarem mais suscetíveis às escolhas irrefletidas, ou tomadas por momentos de grande euforia. A obra ao trazer a vida de Julie desde nova até sua maturidade marca esse aspecto de transitoriedade das ações, emoções, etc. que a história é constituída. Nas mulheres novas da idade da marquesa, essa primeira dor é a mais marcante de todas e é sempre causada pelo mesmo fato. A mulher, e principalmente a mulher nova, tão grande pela alma como pela beleza, nunca deixa de se consagrar à vida para a qual a natureza, o sentimento e a sociedade a impelem com violência. [...] De resto, esses sentimentos nunca se confiam; para se consolar uma mulher, é mister saber advinha-los; porque, sempre amarga e religiosamente sentidos, permanecem na alma, como uma avalanche que, se precipitando sobre uma encosta, esmaga o que encontra até achar um lugar (Balzac, 1996, p. 64). Segundo o escritor, a mulher madura é vista com bons olhos, pois supera a ingenuidade da mocidade em cuja condição é passageira. A história de Julie não é somente a história de uma pequena-burguesa em ascensão (conhecida como “marquesa”), não é uma narrativa frustrada de uma mulher que se decepciona com um casamento “escolhido” por ela, que suas lamúrias seriam, portanto, individualistas e mesquinhas. Na verdade, o que está em jogo na obra de Balzac, segundo penso, é que esses elementos serão efeitos, não suas causas reais. No romance, a personagem quase sucumbe à paixão por outro homem, Lord Arthur Grenville, mas a relação não prospera: o dever do casamento a impede de concretizá-la . Assim: “Não me quero prostituir a meus olhos nem aos olhos do mundo; se não serei mais ao sr. d’Aiglemont, nem de nenhum outro” (Balzac, 1996, p. 52). É notável que no seu amante inicial vê-se que a conveniência das relações extraconjugais, por parte das mulheres, era apenas uma resposta imediata às traições dos homens durante o casamento até então normalizadas; e no romance, Balzac efetua este contraste, no final, buscando sintetizar os desfechos pelos quais a velha Julie não pode dar-se conta. Em suas palavras: O desgosto será tão mortal como poderia ser a terrível doença que me curou. Não me julgo culpada. Não, os sentimentos que concebi por si são irresistíveis, eternos, mas bem involuntários, e eu quero me conservar virtuosa. Contudo, serei ao mesmo tempo fiel à minha consciência de esposa. Aos meus deveres de mãe e aos votos de do meu coração (Balzac, 1996, 52). Com isso, gradualmente a infelicidade de Julie se tornaria uma doença física: a tristeza que a leva a cair em profunda depressão. O decaimento físico de Julie é um sinal de que as relações humanas estão descaracterizadas por sua natureza. Alienação, que atinge ambos sexos; o aviltamento da felicidade comunitária atinge e remodela a subjetividade. O amor, o elo entre dois indivíduos, se tornaria um sentimento frívolo e banal. O diagnóstico da psicologia humana das personagens como elemento de ação delas, em que a trama parece tomar caminhos próprios, conforme Lukács expõe em “O Romance Histórico” , pode ser colocado da seguinte maneira: ao fazer um paralelo comparativo de Balzac com Walter Scott, argumenta o autor que Balzac vai muito além do escritor inglês, pois o escritor francês é quem “desenvolveu da maneira mais consciente o impulso que Walter Scott deu ao romance, criando assim um tipo superior e até então inédito de romance realista” (Lukács, 2011, p 106). O impulso consciente , para Lukács, é a capacidade de que o escritor teve de desvelar a psicologia das personagens , de tal modo que elas se autonomizariam na trama e, assim, o escritor seria um narrador atento aos desenvolvimentos imanentes, sem imputar resultados ou desfechos previamente estabelecidos para coadunar com a ideação anterior do autor. Este é um exemplo típico na trama. Seu desenrolar adota um sentido histórico, e não lógico. Quando percebemos que no seu decorrer as transformações francesas no cenário político são trazidas à baila como indissociáveis das movimentações internas das personagens, o romance de Balzac não se trata de um romance de folhetim, mas consiste expor o destino social da instituição do casamento – seja como ele se realiza (forma histórica de organização comunitária recente) –, atravessando uma crítica ao convencionalismo burguês. Considerações finais Atentemos a alguns pontos. Menciono três. 1) É possível partir de um pressuposto de que o romance de Balzac seja uma obra que coloca a figura feminina, censurada à época, sob um prisma de compreensão, sem quaisquer julgamentos morais? 2) Também podemos entender o romance, cujo enredo seria a compreensão dialética entre o amor e o casamento na sociedade burguesa, na figura de madura Julie, passando por Hèléne e a jovem Moïna? [5] 3) O casamento, neste aspecto, pode ser considerado uma degradação moral ? Para esboçar algumas saídas às perguntas acima, coloco alguns pontos preliminares. Para isso, centralizo um ponto de cada vez e ofereço, ao final, não uma conclusão, mas direcionamentos . No primeiro ponto, destaco que a moralidade do romance se expressa quando, no decorrer da trama, as frustrações dos romances extraconjugais de Julie nunca são colocadas como empecilhos à felicidade, mas a infelicidade é que se torna inviável às tentativas amorosas suas. No segundo ponto, seu marido nunca se opõe às vontades da esposa, o que, por si só, longe de ser algum critério derradeiro, passa a ser notado que ele não tem poder moral para mudar as condições existentes de Julie. O general passa o romance inteiro como coadjuvante da trama. Seu papel secundário dará a sustentação para a infeliz concatenação do final: as perdas dos filhos e filhas, e a esposa que se vê fustigada pela vida que leva. Já sua vida de burocrata do Estado, enfadonha e medíocre, apenas é compensada à um amor fraterno à filha mais velha como alívio sentimental que lhe deu algum motivo para agir. De fato, não se trata de moralizar as questões sociais, mas de identificar, como realiza Balzac, de como as relações sociais são moralizadas . Por outro lado, a marquesa Julie, aos 30 anos, “ápice poético da vida das mulheres”, teve a oportunidade de conhecer o diplomata Charles de Vendesesse; e ao se entregar intensamente a esta nova paixão, o romance caminha para um acontecimento e circunstâncias que pouco a pouco desenharão um destino trágico da vida burguesa: a reificação das relações humanas . A reificação é aqui um fenômeno em que a materialidade da vida é determinante para o modo de viver, em que as pessoas não se relacionam como entidades próprias, mas por coisas, e as coisas são, na trama de Balzac, um destino confinado na degradação da autenticidade vital e sentimental das personagens. Nisso, o casamento burguês desempenhará o papel de reificação do amor como escolha sentimental e consciente . Na questão, a mais interessante aqui destacar, por fim, a seguinte passagem: A marquesa viu certamente um presságio do céu no respeito que o destino parecia ter pela filha preferida, e apenas umas fracas recordações dos filhos que a morte lhe arrebatara ao sabor dos seus caprichos, e que conservava no fundo de sua alma, como se esses túmulos erigidos num campo de batalha, que quase desaparecem sob as flores do campo (Balzac, 1996, p. 139). Há uma problemática, embora no livro não seja tão central – o título –, o qual se tem o circuito de movimentos que estão em volta: a obra, temos o que ficava conhecida a expressão “a mulher balzaquiana”. Foi na maturidade que Julie, Hélène ou Moïne revelaram o que são de fato. Essas revelações, entre os desejos consolidados, anseios e as paixões vividas, não são posturas arbitrárias, mas condicionantes . Fica claro que Balzac não moraliza seu romance, mas percebe que as moralidades são uma espécie de jogo de forças, pelas quais as personagens recompõem suas características, ainda que elas sejam tonificadas pela frieza dos atos. Assim, a “mulher de trinta anos” é aquela em que as escolhas amorosas e as uniões conjugais ultrapassariam as normas sociais das relações imperfeitas e instituídas. [6] Para finalizar, faço um adendo final de deslocamento no texto: se a um crítico literário possa importar o que está em jogo na tessitura social romanesca, então é cabível dizer que um estudo materialista do romance considerará os elementos proeminentes nas investigações literárias, seja elas quais forem (um estudo, qual seja, que foque na internalidade construtiva da obra, e menos na tipificação exterior delas). Referências BALZAC, Honoré. A mulher de trinta anos . Tradução Marques Rebelo. 5° edição. Ediouro, 1996. CORRÊA, Ana Laura dos Reis; HESS, Bernard Herman; ROSA, Daniele dos Santos (orgs.). Caderno de literatura : um percurso de formação em literatura na educação do campo. 1° edição. São Paulo: Expressão Popular, 2019. EAGLETON, Terry. Marxism and critical literary . (With a new preface by the author) London e New York: Routledge, 2003. EAGLETON, Terry. The Illusions of Postmodernism . Tradução da primeira edição por Blackwell Publishers: Oxford; Inglaterra, 1996 (Versão Digital). ENGELS, Friedrich. A origem da família, da propriedade privada e do Estado . Tradução Leandro Konder. 3° edição. São Paulo: Expressão Popular, 2012. JAMESON, Fredric. Postmodernism , or The Cultural Logic of Late Capitalism. Duke University Press, 1989. LUKÁCS, György. “Balzac: Les Illusions Perdues ”. In: Ensaios sobre literatura . Organização e apresentação Leandro Konder. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1968, p. 101-121. LUKÁCS, György. “Narrar ou descrever?”. In: Ensaios sobre literatura . Organização e apresentação Leandro Konder. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1968, 47-99. LUKÁCS, György. O Romance histórico . 1° edição. Tradução Rubens Enderle. Apresentação Arlenice Silva. São Paulo: Boitempo, 2011. PETREY, Sandy. “The Reality of Representation: Between Marx and Balzac”. Critical Inquiry , v. 14, n. 3, 1988, p. 448-468. [1] Doutorando em Filosofia pela UFMG. [2] Em uma das passagens que mostra os diálogos tensos entre o velho pai e a filha: “Pois bem, minha filha, escuta-me. As moças sonham muitas vezes com uns seres nobres e encantadores, criaturas perfeitamente ideais, e assim forjam umas quiméricas fantasias acerca dos homens, dos sentimentos e do mundo; depois, elas atribuem inocentemente a um caráter as perfeições com que sonharam, e nele confiam; elas amam no homem de sua escolha esse ente imaginário; porém, mais tarde, quando já não podem fugir à desgraça, a aparência enganadora que elas embelezaram, o seu primeiro ídolo, enfim, muda-se num esqueleto odioso” (Balzac, 1996, p. 21). [3] Aqui me subsidio da teoria de Terry Eagleton: “The Illusions of Postmodernism” (1996). [4] JAMESON, Fredric. Postmodernism , or The Cultural Logic of Late Capitalism. Duke University Press, 1989. [5] “A situação desta mãe compreender-se-á explicando a da filha” (Balzac, 1996, p. 143). [6] Convém advertir também o duplo aspecto da produção artística/literária aqui entendida: “Podemos ver a literatura como um texto, mas podemos também ver como uma atividade social, uma forma de produção social e econômica que existe ao lado de outras formas interrelacionadas com elas” (EAGLETON, 2003, p. 56, tradução nossa).
- Aspectos de cultura política no Brasil (2018-2022)
‘A burguesia fede; a burguesia quer ficar rica; enquanto houver burguesia, não vai haver poesia’ – Cazuza, “ Burguesia ”. Baile Popular de Di Cavalcanti (1972) Em 1995, Eric Hobsbawm publicava “ A era dos Extremos ”, livro que encerra a tetralogia “das eras” . Em um contexto marcado por quatro anos depois da desintegração da URSS e seis anos depois da queda do muro, Hobsbawm tinha uma apreciação que era bastante arriscada para ser dita naquele contexto de euforia liberal e neoliberal, e na ofensiva da OTAN. Para se ter uma ideia, o livro que mais vendia, na época, era o livro de Francis Fukuyama, “O fim da história e o último homem” (1991), uma obra em que seu autor defendia a ideia de que a história tinha chegado ao fim, uma ideia toscamente “hegeliana”. Passados pouco mais de 30 anos da obra, parece que o esquecimento, veja só, foi justamente o fim destinado a este livro. Foi Hobsbawm que também, em 1995, alegou que qualquer um que entrasse no século XXI apostava que o mundo seria “estável”, uma vez que o mais provável era que esse século fosse repetir os dois séculos anteriores. E assim Hobsbawm seguiu-se como um historiador consagrado: o mundo de fato continuou em guerras (civis ou interregionais), com imperialismo, intervenções, golpes e contragolpes, mas também com revoluções. O mesmo diagnóstico fez, por exemplo, a cientista política Ellen Wood, em seu “O império do capital”, afirmando que o capitalismo não pode transformar a si mesmo sem também modificar formas culturais de vida. Assim, por mais que possa parecer que em nosso contexto, fazer um breve apontamento de conjuntura política seja relativamente simples, entender as “formas culturais de vida” sob a lógica de mercado (categorias como, fetichismo e indústria cultural , etc.), é tarefa complexa que exige perspicácia para notar várias sutilezas. Guy Debord, com seu “A sociedade do espetáculo” (publicado no final dos anos 60), pode ser uma baliza para entender como, por exemplo, o escândalo da Cambridge Analytica evidenciou como foram conduzidas, em colaboração com essas redes, experiências político-digitais com vistas a produzir um determinado comportamento eleitoral e, mais do que isso: direcionar conteúdos tendenciais ao público diretamente. Nas primeiras décadas do séc. XX boa parte das produções artísticas (literária, dramaturgia, cinematográfica, etc.) passavam, generalizando, a ideia de um progresso: homem descobrindo feitos científicos, a busca pela reconciliação no mundo, as buscas pelas distopias (de Huxley e Orwell), etc.; entretanto, por outro lado, havia o estranhamento (Brecht), o monólogo interior (Tchekov, Beckett, etc.) e a impotência de realizar-se na efetividade (“O homem sem qualidades”, de Musil, “O estrangeiro”, de Camus). Desde os anos 1970–80 vemos um retorno dessa dominante cultural trágica, agora baseada no apocalipse zumbi, nuclear, viral, no perigo e no conflito, intercalada com momentos de reativação de uma nova possibilidade de contenção social, de consenso social . Nesse período vale analisar o caso do Brasil, pensando principalmente em países de “economias emergentes”. Em nosso caso, a ditadura (1964-1985) no Brasil cortou pela raiz o processo de amadurecimento político das bases político-culturais, especialmente dos trabalhadores, além de impor o crescente isolamento social ao mundo universitário com a reforma presidida pelo acordo MEC/USAID aplicada a partir de 1968. A ditadura militar, como também foi o caso da ditadura Vargas, no “Estado Novo”, moldou uma parte considerável da consciência popular, tanto que até hoje muitas pessoas fazem referências saudosistas a esses governos. A chegada da crise da dívida e o ascenso do movimento de massas destruíram a legitimidade da ditadura e mudaram a hegemonia da sociedade brasileira. Nos anos 1980, nas grandes cidades, enquanto talvez a maioria da população fosse vagamente social-democrata de esquerda a extrema-direita brasileira, até idos dos anos 1990, era sinônimo de grupos isolados neonazistas, ou mesmo de políticos considerados exóticos e bizarros, como o caso de Enéas Carneiro. Foi neste caldo cultural que o Movimento Tropicalista, nos anos 70, partindo da música popular brasileira como o “epicentro” de eclosão, tratou-se de um espectro cultural mais amplo e diretamente conectado à emergência, em um pós AI-5, do que se convencionou chamar de marginália, aproveitando-se de aberturas e rupturas estabelecidas pelos artistas durante a breve aventura da Tropicália . Abrindo espaços para a renovação da cultura brasileira, a Tropicália transbordou a caixa de categorização de diversos setores artísticos: Glauber Rocha, Hélio Oiticica, Torquato Neto, Gal Costa, etc. todos eles artistas do híbrido, da mescla e confluência entre vertentes, sempre “desafinando o coro dos contentes” (para lembrar exatamente um verso de Torquato, musicado por Jards Macalé em “Let’s Play That”). Fazer esse giro histórico significa fazer um paralelo, no plano cultural, entre o ambiente da cena 2018-2022 e os demais períodos como os por nós comentados, em que se deram o levante de pautas do pensamento conservador/reacionário no século XX. No caso do período mais recente, os debates acerca de pautas como o porte de armas, a criminalização do aborto, o “Escola Sem Partido”, a “ideologia de gênero”, o fantasma do “comunismo”, dentre outros “fantasmas” foram utilizados como ferramenta de compensação por uma coalização de direita, conservadora e retrógrada que enquanto proclamavam esses absurdismos, forjavam a base que conferia certa estabilidade ao governo Bolsonaro. No entanto, as classes populares sofrendo com a incapacidade do governo de lidar com a agenda econômica – e no caso sanitário/saúde pública – até organizaram mobilizações para derrubar o governo nas ruas e sem obterem sucesso , conseguiram somente ver o Bolsonarismo ser derrotado através da via eleitoral que organizou uma coalizão que envolveu forças institucionais e atores da centro-direita. No plano cultural esse interregno temporal foi marcado por uma catástrofe “monumental”. O Memorial da América Latina em 2013; Museu da Língua Portuguesa em 2015; Museu Nacional da UFRJ em 2018; Museu de História Natural da UFMG em 2020 e a Cinemateca Nacional em 2016 e 2021. O que há em comum entre eles? Todos foram queimados. Em 2 de setembro de 2018, o caso do Museu Nacional do Rio de Janeiro, consumido pelas chamas, repercutiu internacionalmente, devido à importância da instituição que contava com 200 anos recém-completados e era um dos mais ricos acervos de antropologia e história natural da América Latina. A Ancine (Agência Nacional de Cinema) foi estrangulada; A destituição do MinC (Ministério da Cultura) se deu já no primeiro dia de 2019. O Iphan (Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) foi atacado, reduzido à “entrave para empresas” fazerem “empreendimentos em lugares e regiões de proteção cultural e histórica”. E quando, em 2021, a Cinemateca pegava fogo, Bolsonaro fazia uma live constrangedora em todos os sentidos (menos para sua base relinchante): STF “comprometendo” as instituições e as “fraudes eleitorais”. Talvez, a maior tragédia no Brasil, não sintomaticamente, tenha sido ele próprio. A Secretaria da Cultura , viu passar um Goebbels tupiniquim (Ricardo Alvim, demitido logo após replicar discurso nazist@), uma famosa ex-atriz que debochou do luto dos mortos por covid (Regina Duarte) e um um ex-ator medíocre e ressentido (o neanderthal Mário Frias). Inclusive, vale lembrar que a “Lei Rouanet", loucamente atacada eleitoralmente por Bolsonaro, promoveu, durante o governo Bolsonaro, financiamentos de produções “pró-armas” e conteúdos “anti-esquerdistas”. No plano literário cinematográfico atual, a situação não é menos dramática –bem como na música, o processo é o mesmo. Salvo alguns exemplos, há uma chuva de livros exacerbadamente “autobiográficos”, descolados muitas vezes de uma narratividade que amarre mesmo o tom “pessoal” à estruturação poética do fazer literário. O fenômeno no qual o processo de politização obedece aos novos escritores e diretores brasileiros atinge outro “patamar”: a literatura, por exemplo, cortou seu cabelo, fez a barba, colocou sapatos de couro, um belo vestido ou uma gravata. Virou “o genro que mamãe pediu a Deus”. Vale destacar que a pasteurização crítica em escala industrial, não é novidade. Só se adequou às novas modas de “resistência”. De fato, Indústria cultural não é sinônimo de arte popular. Tampouco é um adjetivo para designar “cultura de gente alienada” ou “arte reificada” . Não faz o menor sentido, para Adorno, utilizar essa expressão para designar programas e músicas específicos, pois a “indústria cultural” não é um conjunto de bens culturais (ou, “poder” ter algo, ou acesso a tal), já que também é uma crítica baseada em conceitos elementares da tradição marxista. Ao olharmos as produções cinematográficas de “Intenso Agora” (2017) e “Democracia em Vertigem” (2019), respectivamente do herdeiro de um banco (João Moreira Salles) e da herdeira de uma empreiteira (Petra Costa), acompanhamos uma produção que usa “a mesmíssima configuração de um documentário em voice over monocórdica, de fusão entre a história pública e privada deles mesmos (como vítimas) em direção a uma inevitável decadência civilizacional, permeado por uma celebração da impotência e uma ausência de futuro”, como comenta o doutor em Teoria Literária, Lindberg Campos . Um exemplo de produção engajada é o filme “Marighella” (2019), dirigido por Wagner Moura. Premiado fora do país, mas sofrendo boicotes (previsíveis) pelo governo federal , causou um frisson de uma melancolia revolucionária ao tratar de um guerrilheiro que tragicamente caiu por terra; mas, por outro lado, houve a ausência de colocações de situações, talvez compreendidas apenas por quem conhece a história de Carlos Marighella, ou sabe de detalhes de como funcionava a luta armada no Brasil (como se Marighella e ALN fossem apenas “apaixonados” pelo que faziam), em uma espécie de idealização do filme foi quase que uma “obrigação”, como se a linha narrativa do filme fosse uma “necessidade conjuntural” de um Brasil pós-2013 (o filme começou a ser gravado nesse período). Outro filme que repercutiu nesse período, “Bacurau” (2019), dirigido por Kleber Mendonça Filho, passa-se em um vilarejo “heroico” que teve de expulsar o “imperialismo” pela força bruta (e não que isso seja por nós lido de tudo como absurdo, mas não é esse o ponto que se quer tratar aqui). O ideal conservador na ideologia é a distinção maniqueísta entre “mocinhos” e “bandidos” dentro do cinema, e os estereótipos para essas categorias de personagens, a violência espetacular (tipicamente Hollywoodianas ), e os “finais felizes” (redentores) são apenas alguns exemplos. Equivalem-se, por exemplo, a dizer que “estamos do lado certo da história” (inteligibilidade histórica?). Já o livro aclamado pela crítica foi “Torto Arado” (2019), de Itamar Vieira Jr., um modelo esquemático típico do jdanovismo soviético (a redenção deus ex machina) dos oprimidos; as composições beatas das personagens e a fé “ancestral” da terra (em alusão à defesa da reforma agrária ), além de exaustivas descrições de imagens e objetos como se o público precisasse de “passar o tempo” até saber do enredo central. Disso tudo, o que fica de lição para nós? Nesse contexto, 1) a destruição patrimonial por via de um governo desastroso em todos os sentidos deve ser entendida como parte do “programa” e não um caso de “desleixo” ou de “incompetência” política e 2) que as produções críticas na cena da construção cultural (artística) e politicamente interessada e consciente, a nosso ver, podem ter um papel fundamental dentro desse quadro de conflitos sociais. Pode-se notar que algumas produções artísticas tenham a força de tornar as proposições mais atraentes e com maior capacidade de circulação, além de formar artistas politizados dentro e fora dos movimentos sociais, coletivos e partidos políticos que produzam a defesa desses movimentos e partidos nas suas respectivas linguagens . Assim fez, por exemplo, Glauber Rocha no “cinema novo” e Graciliano Ramos em “Vidas Secas” (1937). Atualmente, o livro de José Falero, publicado em 2020, intitulado “Os supridores”, que conta a história de dois amigos que vão para o crime de tráfico de drogas, tentando-se “livrar” da exploração do trabalho e da pobreza, é uma sátira do mito do “empreendedorismo” da “livre iniciativa” na sociedade capitalista. Dentro de limites, o livro – talvez pela pressa do mercado editorial – faltou melhor desfecho, ou composição, para sua interessante forma. Em 2023, estreia o filme “O pastor e guerrilheiro”, dirigido por José Eduardo Belmonte, trata de uma preservação da memória do passado de nossa experiência social (no caso da ditadura e o período da redemocratização) em diversos níveis (será que “atende” às expectativas?). Para além das obras em suas especificidades, devemos olhar para os resultados das mobilizações dos produtores culturais/artísticos, iniciadas em 2020, com a Lei Aldir Blanc e da Lei Paulo Gustavo (voltado ao audiovisual). Esses seriam recursos de lei, que serão distribuídos aos 5.700 municípios do Brasil, aos 26 estados e ao Distrito Federal, independente de partido político ou mesmo de decisão do Ministério . A disputa por editais, Leis de incentivo a cultura – monetária –, de um lado, e o sufocamento de produções autorais (pintura, artesanato, etc.), seja no teatro (que não sobrevive de bilheteria), seja na literatura (apadrinhamento editorial), por outro lado, escanteadas pelos “financiamentos” coletivos que mal suprem os básicos de infraestruturas, materiais e de pessoal, devem chamar nossa atenção e mostrar nossos limites – mais especificamente, os limites das políticas públicas de Estado atuais para a cultura como se pudessem ser “monetizadas” ou “gerenciadas” . Estamos aqui – em 2023 – após os anos de Bolsonaro e seus efeitos e as “formas culturais” reverberam nas urdiduras da sociedade brasileira em todos os sentidos. A campanha eleitoral do ano passado foi uma verdadeira “guerrilha” virtual de ambas partes. A ala bolsonarista, com a máquina de corrupção, violência e apelos sensacionalistas, viu-se contraposta por uma organização – quase desesperada – por uma ampla “frente democrática” diante da obscena e encarniçada “batalha” ideológica, que também marca pontos de cultura política. A questão que fica é a seguinte: é possível criar uma expressão cultural que seja, de fato, “resistente” a ponto de criar novas rupturas para formar uma “cultura”? As grandes produtoras, editoras, companhias e também estúdios, antes de “revelarem” talentos, ou darem espaços criativos, visam atender um público já determinado, criam sensações frívolas ligadas às “estéticas” do presente, eliminando organizações autônomas e ideologicamente direcionadas às demandas populares. Um contraponto a isso – embora singular – poderíamos ver no filme “Eles não usam Black-Tie” (1981), baseado na peça de teatro de Gianfrancesco Guarnieri, cuja boa interpretação do Brasil da luta sindical na época constituiu o enredo do drama de uma família de operários fabris em dado período. No ano passado, entretanto, uma aliança para um governo de amplíssima coalizão (Lula), “superou” a fraseologia anterior (Bolsonaro). Mas a incapacidade orgânica na sociedade civil paralisou iniciativas de nova “cultura política”. Talvez porque o verbo “fazer” do Brasil feliz de novo , nunca foi algo definitivo para nós. O mesmo vale para a cultura num todo. Quase não há sinal de “hegemonia” de esquerda nas formações ideológicas, muito menos uma organização cultural que tensione uma nova “consciência” prática. Existe o contrário. A perseguição da cultura, a massificação dos afetos, a “defesa” da catástrofe, a modulação da subjetividade em “ caça-clicks ”, a padronização do charlatanismo – “ coaches ” ( influencers digitais) – e da insensibilidade coletiva são, de fato, a regra imposta pela subjetividade neoliberal. Curiosamente, o exemplo da construção da “hegemonia da extrema-direita” que nos mostra o caminho a seguir. Em vinte anos, eles sem apoio da direita oficiais, conseguiram formular um discurso e enrolá-lo profundamente na sociedade, com pautas senão velhas do ponto de vista histórico, mas com adesão significativas em grupos neopentecostais crescentes que faziam “oposição” aos adeptos da “Teologia da Libertação” (liderados por padres e bispos “católicos de esquerda”). Talvez fique, neste caso, uma relevante lição de que a arte e a cultura, também, é uma práxis: ridicularizar o presente e criar um mundo que ainda não existe .
- Marx e Engels: novas traduções (MEGA)
Capa da edição publicada por Riazanov em 1927. Traduzido do alemão para o inglês por Kaan Kangal. Traduzido do inglês para o português por Marco Aurélio Palu. Apresentação Na última década, o Brasil sediou um número importante de eventos relacionados à divulgação do projeto MEGA² ( Marx-Engels-Gesamtausgabe ), as obras completas de Marx e Engels. Pesquisadores relacionados ao projeto estiveram em nosso país participando de eventos acadêmicos, editoriais e políticos falando sobre o processo de publicação dos originais de Marx e Engels. Nomes como Michael Heinrich, Marcello Musto, Terrel Carver, Kevin Anderson contribuíram por (re)ascender o crítico e instigante debate sobre o renascimento e a atualidade da obra de Marx e Engels. Não são de hoje, no entanto, os esforços pela redescoberta do pensamento dos pioneiros da crítica da economia política. Desde os anos 1960, alguns autores brasileiros e internacionais - poucos, é verdade -, buscaram nas novas edições da obra marxiana o arsenal necessário para enfrentar as crises de todo tipo que assolavam o seu tempo. Biografias, coletâneas e livros sobre Marx e Engels foram sendo lançados em toda parte do planeta, do Japão ao Brasil. Os desafios materiais e espirituais postos pelo século XX e XXI mostram que é urgente e necessário o resgate da obra de Marx em todas as suas dimensões e regiões. Dimensões até então desconhecidas ou negligenciadas da obra de Marx e Engels, como ecologia, etnia, atividade e organização partidárias, entre outras, podem ser desveladas a partir das publicações da MEGA. Com a presente tradução do HKWM pode-se perceber que, embora o esforço e o rigor editorial não dispensem um método filológico-genético com princípios sólidos, uma certa hermenêutica também foi necessária no trabalho de redescoberta dos materiais de Marx e Engels (por exemplo, com o apoio de cartas a terceiros). Desse modo, é notável que na falta de uma obra acabada e sistematizada, que fosse capaz de fornecer um caminho seguro aos fundamentos do método de Marx e Engels, muitos pensadores, atribuindo “lacunas” ao pensamento dos autores alemães, se socorriam de Hegel, Maquiavel - até mesmo Kant. Como é sabido, Marx recusou enfaticamente ser um marxista. Em carta a seu genro, Paul Lafargue - publicada pela primeira MEGA, em 1924, e presente nas MECW/Volume 46 -, no ímpeto de livrar-se de maus entendidos envolvendo seu nome, o Mouro declara “tudo que sei é que não sou marxista”. Publicada pela MEGA², redigidas em Londres da segunda metade de 1879 até novembro de 1880 e contidas em seu caderno de excertos dos anos 1879-81, as Glosas Marginais ao Manual de Economia Política de Adolph Wagner , um dos últimos trabalhos de Marx em vida, revelam o que Marx pensa de seu “sistema”: o marxismo não é um sistema socialista, completo, fechado e finalizado. Muito ao contrário, ao final do Prefácio à primeira edição de O capital Marx é enfático em afirmar que todo avanço científico é bem-vindo. O estilo de nosso autor não é, portanto, clássico e sistemático, mas sim, como consta no Posfácio à segunda edição do mesmo livro “crítico e revolucionário”. Também fica claro o ganho editorial que o projeto representa nessa empreitada: até os anos 1960, Marx e o marxismo eram, com raríssimas exceções, um capital político da URSS e dos Partidos Comunistas ao redor do globo. Ou seja, cumpriam a função precípua de legitimar esse Estado e esses partidos. No que se refere ao problema do Estado, por exemplo, a trilogia de escritos sobre a França parecia consagrar a definição de Estado como Estado burguês – algo que fazia muito sentido no país da Revolução de 1789 –, privilegiando um entendimento “histórico” sobre o “idealista” da juventude. Sem o conhecimento de obras como as Glosas Críticas marginais ao artigo “O rei da Prússia e a reforma social” de um prussiano e a Crítica a filosofia do direito de Hegel , a primeira publicada por Franz Mehring, em 1902, e a segunda por Riazanov, em 1927, na primeira MEGA, seja por extravio, omissão, negligência ou desconhecimento desses textos, perdeu-se a dimensão de base no pensamento marxiano de que o Estado e a política estão em vínculo orgânico com a propriedade privada, sendo sua contrapartida ideal e esfera comunitária alienada. Essa dimensão inarredável do pensamento de Marx não seria convenientemente aceita na URSS de Stalin, principalmente se temos em vista que as necessidades de legitimação ideológicas só cresceram com a II Guerra Mundial e a configuração geopolítica bipolar. Entre outras coisas, isso levaria aos países do Leste Europeu a se entenderem como subsistema do capital, pois ainda que não orbitassem em torno da propriedade privada dos meios de produção, isto é, ainda que não de forma propriamente capitalista, geriam seu capital mediante uma outra forma de propriedade, igualmente estranhada, a propriedade coletiva/não-social. Talvez a maior e mais polêmica conquista atingida pelo projeto se refere aos manuscritos de O capital produzidos por Marx na década de 1860. Já é amplamente sabido as alterações, adições, supressões e subdivisões capitulares feitas por Engels na publicação dos livros II e III – especialmente desse último. Por exemplo, o capítulo sobre a crise do capital no livro III é seguido pelo da queda tendencial à queda de lucro, levando a um entendimento de que um deriva do outro. Algo que levou e ainda leva à resistências e óbices de toda sorte, dado que gerações de leitores, estudiosos e militantes ao redor do mundo se formaram nos originais e traduções baseadas nas publicações feitas por Engels. Graças à MEGA² hoje se sabe, mediante a consulta dos manuscritos originais de Marx, que isso foi realizado por Engels. Ainda que os pesquisadores da MEGA, hoje tido como os herdeiros/guardiões do legado pessoal/autoral de Marx e Engels, insistam que são mais filólogos que políticos – afinal não se sabe se esses “marxólogos” são ou não efetivamente marxistas, pois isso não deixam claro - e que inclusive tenham essa ambiguidade em boa conta -, é um fato que confirma o infortúnio pela qual a obra de Marx ainda padece. Isso, no entanto, não retira deles o mérito e o sucesso naquilo que se propõem. Parte I 1. O projeto de Obras Completas de Marx & Engels ( Marx-Engels-Gesamtausgabe [ MEGA ]) encarou desafios bem além daqueles tipicamente vistos em revisões, coleções, e processos editoriais de qualquer corpo editorial substantivo nesse nível [1] . Como parte integrante da história da recepção do marxismo no século XX, ela esteve diretamente envolvida em disputas sobre sua apropriação. As contradições decorrentes do fato de que o MEGA é tanto um projeto editorial acadêmico guiado pelos princípios da análise histórico-crítica dos textos, quanto um empreendimento dependente de mudanças políticas e financiamento estatal, podem ser estudadas exemplarmente em dois — ou, estritamente falando, até três – projetos da MEGA: o primeiro de 1924 até 1941, na União Soviética; o segundo, conhecido como MEGA², de 1965, na RDA (antiga República Democrática Alemã, ou Alemanha Oriental); e finalmente, depois de um hiato e um relançamento com conceito modificado e pequenas modificações pessoais, desde 1990, na Alemanha Ocidental. O esforço em fornecer a fundamentação mais abrangente possível para o estudo das obras e biografias de Marx e Engels inevitavelmente entrou em conflito com as necessidades estatais de legitimação ideológica expressas pelo marxismo-leninismo. Uma preservação e uma disseminação irrestritas das obras originais livre de deferências estatais era impossível e, no caso da primeira MEGA, com o projeto tendo mesmo sido suprimido pela repressão e pela perseguição política. Ao mesmo tempo, o legado de Marx e Engels era gradativamente ameaçado pelo fascismo. Nesse sentido, foi corretamente observado retrospectivamente – logo após o resgate do projeto em meio às inseguranças vindas dos abalos históricos de 1989/90 – que “A MEGA é, no real sentido da palavra, um empreendimento secular, e seu começo, suas vicissitudes, e seu renascimento, espelham, quase paradigmaticamente, as tragédias históricas do século XX”. [2] As origens do projeto remontam aos anos 1880. De acordo com a visão de Engels, uma edição ideal deveria compilar todos os escritos de Marx em ordem cronológica, apresentando os textos em sua forma histórica – sem cortes ou alterações, mas com os erros textuais corrigidos – e com o entendimento facilitado por meio de prefácios e notas de rodapé explicativas. No entanto, Engels, a quem foi confiado pelos herdeiros de Marx a preservação de seu legado, fora incapaz de conduzir seriamente um projeto editorial integral, devido principalmente aos seus mais de dez anos de trabalho editando o segundo (1885) e o terceiro (1894) volumes de O capital . Em vida, Engels permitiu “o partido” reimprimir apenas “umas poucas coisas menores” de Marx em “itens individuais, sem notas explicativas ou prefácios”, a fim de evitar “esse estilo fragmentário na edição completa, cuja publicação final estou comprometido” [3] . Ao mesmo tempo, Engels ficara satisfeito em ver que Eduard Bernstein “estava ansioso em iniciar-se nesses hieróglifos”, de tal forma que ele poderia mais tarde trabalhar nas “edições reunidas de coisas de Marx e eu mesmo”, incluindo também Karl Kautsky nessas “provisões necessárias” [4] . Sob a supervisão de Engels, várias obras foram publicadas, incluindo Trabalho assalariado e capital (1884 e 1891), A miséria da filosofia (traduções alemãs em 1885 e 1892), O 18 de brumário de Luís Bonaparte (3ª edição de 1885), A crítica o programa de Gotha ( Neue Zeit , 1891), e A guerra civil na França (1891). Wilhelm Liebknecht já tinha apresentado a ideia de uma edição completa dos escritos de Marx em 1883. Entretanto, no âmbito de uma Biblioteca Internacional , apenas uns poucos trabalhos separados foram publicados, incluindo Revolução e contrarrevolução na Alemanha [5] , e uma nova edição de Contribuição para a crítica da economia política [6] , ambos editados por Kautsky. Após a morte de Engels, em 1895, vários projetos editoriais foram iniciados pelo SPD, o qual gradualmente se tornou herdeiro de grande parte do legado de Marx e Engels. O primeiro passo foi uma edição em quatro volumes, Aus dem literarischen Nachlass von Karl Marx, Friedrich Engels und Ferdinand Lassalle , preparado por Franz Mehring em nome da liderança do partido e publicado pela Dietz , em 1902. Essa edição incluía algumas obras desconhecidas da década de 1840. Já a edição em três volumes das Teorias da Mais-valia [7] , editada por Kautsky entre 1905 e 1910, dava sequência à publicação do extenso legado de manuscritos de Marx relativos à crítica da economia política, uma tarefa que Kautsky havia iniciado sob a orientação de Engels. Na virada de 1910/11, um encontro ocorreu em Viena com as presenças de Marx Adler, Otto Bauer, Adolf Braun, Gustav Eckstein, Rudolf Hilferding, Karl Renner, e David B. Riazanov. Os participantes acordaram que, depois de expirar a lei de direitos autorais, em 1913, O Partido Social Democrata Alemão (SPD) teria como tarefa a produção de “uma edição completa das obras de Marx que reuniria todos as exigências científicas, totalmente perfeita, sistematicamente organizada, comparada com os manuscritos e as várias edições dos escritos de Marx, incluindo uma introdução e também longos índices”. [8] Seguida dessa decisão, em 1913 foi publicada uma edição de quatro volumes da correspondência entre Marx e Engels ( Briefwechsel zwischen Marx und Engels ), editada por August Bebel e Bernstein. Os debates desencadeados por essa publicação revelaram, pela primeira vez, a tensão aguda entre os interesses do partido e os objetivos editoriais do projeto em sua integralidade. Bebel, Kaustky, Mehring, entre outros, temiam que uma publicação completa pudesse desacreditar determinados indivíduos e com isso prejudicar o partido. Por fim, contra a ideia original de Bernstein, ficou decidido em se publicar sob forma editada e parcialmente resumida as cartas, com algumas delas ficando inteiramente omitidas, sem critérios específicos para tais alterações. Essa decisão, por sua vez, despertou uma controvérsia sobre o valor mesmo dessas publicações. Somado a isso, Kautsky preparou uma “edição popular” do primeiro volume de O capital (1914), a qual incluiu um longo prefácio do editor, uma bibliografia, um índice de nomes, e um índice de assuntos - o último compilado por Riazanov. Em 1917, no decorrer da I Guerra, foi publicada uma coleção de dois volumes dos escritos de Marx e Engels, entre 1852-62, também editada por Riazanov. Entretanto, esses passos iniciais tornaram acessíveis apenas uma parte do legado literário de Marx e Engels. Capa da edição publicada por Riazanov em 1927. 2. A primeira MEGA – foi só na União Soviética que foram estabelecidas as condições para uma edição das obras completas. Por um lado, isso fortaleceu os laços partidários, com o projeto vindo a ser, na sequência imediata da cisão no interior do movimento dos trabalhadores, uma iniciativa do Comintern, o qual decidiu implementá-lo sob a forma da MEGA em seu 5º Congresso Mundial, sediado em Moscou – que se combinava com a expansão do status das figuras clássicas do marxismo, incluindo Lênin, e depois, temporariamente, Stalin –, o que vinculou irrevogavelmente o projeto ao Estado Soviético e a seu partido. Por outro lado, a MEGA não teria acontecido sem os esforços de pesquisa profissionais e independentes de especialistas. 2.1 Riazanov tocou o projeto em frente, para o qual ele já tinha recebido permissão, em 1921 – enquanto Lênin ainda era vivo -, para contratar “colaboradores de fora do partido” [9] . Seus estreitos vínculos com a Social Democracia Alemã remontam aos tempos pré-guerra. Desde 1907, ele vivera como imigrante na Alemanha, Áustria, e Suíça, onde ele já teria se concentrado em assuntos editoriais. A liderança do SPD permitiu a ele fotografar o legado manuscrito. Além disso, Riazanov estabeleceu uma rede de correspondentes internacionais. Em Colônia, Trier, Paris, Bruxelas, e Londres, indivíduos reconhecidos puseram-se a trabalhar coletando documentos e materiais. A despeito das convulsões sociais, partes do legado – particularmente as cartas – foram continuamente transferidas para o arquivo de Moscou (o qual depois se tornaria parte do Arquivo do Estado Russo para História Política). O projeto ficou assegurado por meio de acordos entre o Instituto Marx-Engels, de Moscou, e o Instituto para Pesquisa Social, em Frankfurt am Main, sob a liderança de Carl Grünberg, assim como também pelo estabelecimento da Sociedade Marx-Engels de Editores (Marx-Engels-Verlags-Gesellschaft), depois Marx-Engels-Verlag, sediada em Berlim. [10] Nessas bases, Riazanov dá início em Moscou a edição planejada em 42 volumes, a qual foi publicada em Frankfurt am Main e Berlim e, após 1933, impressa em Leningrado. Entre 1927 e 1941, doze volumes foram publicados. Neste contexto, uma série de primeiras edições foram lançadas – primeiro pelo Marx-Engel-Archiv, em 1925, e depois na MEGA -, as quais estimularam os estudos de crítica social, tais como o capítulo sobre Feuerbach, de A ideologia alemã , e A dialética da natureza , de Engels; os Manuscritos de 1844 [11] , e A ideologia alemã [12] . Particularmente, os assim chamados escritos juvenis fomentaram um debate sobre alienação e reificação no capitalismo. Em 1939, os Grundrisse foram publicados pela primeira vez em um volume especial da MEGA; seu impacto nas pesquisas sobre Marx não se deu antes da reimpressão realizada na Alemanha Oriental, em 1953. 2.2 Riazanov adere aos princípios histórico-filológicos de crítica textual. Além da publicação completa, baseada nas exigências da versão final, incluía-se agora o registro das relevantes versões manuscritas e impressas e também, ao menos em princípio, uma análise genético-textual. Ademais, teve lugar agora a proibição de interferências: todos os textos foram apresentados na língua original com base na testemunha textual específica, com ortografia e pontuação modernizadas e padronizadas, em contraste com as práticas editoriais da segunda MEGA. A equipe editorial de Riazanov fez contribuições extraordinárias, especialmente na transcrição de manuscritos complexos, determinando a autoria dos trabalhos publicados no anonimato e pseudoanonimato, bem como os datando. Porém, a tendência de Riazanov, movido por urgências políticas, em lançar seus projetos com preparação incompleta, teve um impacto negativo na consistência de seu quadro de publicações. Devido à falta de diretriz editorial adequada, não havia um esquema fixo que atribuísse às várias seções ao material, nem estrutura nem organização internas dos volumes individuais, especialmente de seu aparato acadêmico. 2.3 Com a consolidação do regime stalinista e a ascensão ao poder dos nazistas, o projeto se encontrou sujeito às contingências da Era dos Extremos (Hobsbawn). Depois de 1933, a impressão e a distribuição das obras de Marx e Engels não foram mais possíveis na Alemanha. Em maio daquele ano, volumes da MEGA foram até mesmo tacados na fogueira. Eles também não podiam mais ser emprestados nas bibliotecas. De forma ousada e ao custo de perdas materiais substanciais, o espólio fora contrabandeado da Alemanha e lotado em um cofre de banco em Copenhague. Negociações entre a liderança exilada do SPD e o Instituto de Moscou sobre a venda e o armazenamento seguro do material falharam. Em 1935, as pequenas e grandes séries dos manuscritos econômicos de 1857/58 e 1861-63, juntamente a outros manuscritos menores, foram entregues ao Instituto de Moscou, via embaixada soviética em Viena, por meio do intermediário Marek Krieger. [13] Somente com a aquisição pelo Instituto Internacional de História Social, fundado em Amsterdã, em 1935, e sua transferência para a Inglaterra durante a ocupação alemã da Holanda, a totalidade da coleção foi salva da destruição. Porém, o fator decisivo foi o desenvolvimento dentro da própria União Soviética. Stalin há muito via Riazanov, que desafiava os seus dogmas, como uma pedra em seu sapato. O trabalho de seu instituto foi se tornando cada vez mais difícil. Até onde pôde, Riazanov defendeu seus funcionários da perseguição política, garantindo que “à sua equipe exilada fosse permitida continuar trabalhando no local de exílio mediante o pagamento de uma taxa” [14] . No outono de 1930, Riazanov reclama que uma grande parte de sua equipe estava empregada apenas em meio turno, com alguns membros até mesmo “trabalhando no mesmo assunto simultaneamente para dois institutos”, [15] enquanto que o Instituto Lênin, responsável pela edição das obras de Lênin, podia recorrer a uma força de trabalho muito mais robusta. [16] Em 1931, num gesto de remover Riazanov e acabar com seu trabalho editorial independente, o Instituto Marx-Engels foi fundido com o Instituto Lênin; dos 243 empregados que foram “conferidos” durante esse processo, 131 foram dispensados [17] , com o próprio Riazanov sendo exilado em Saratov e substituído por Vladmir Adoratskii. Entre os dispensados estava também Karl Schmückle, que tinha liderado o “grupo alemão” no departamento editorial. [18] Ele e Riazanov foram depois acusados, durante o Grande Terror, de atividades contra o estado e executados em 1938. A edição, despojada das suas melhores forças após 1931 (em sua maioria, os volumes editados sob Adoratskii foram preparados por Riazanov), foi descontinuada em 1941. 3. A Segunda MEGA – A descontinuação da edição crítico-textual não significou o fim completo da edição das obras completas. Pois, mesmo no interior do marxismo-leninismo, havia o interesse em tal edição, de forma que tornasse o “cânone” disponível para o trabalho do partido e servisse como elemento nuclear da formação escolar e universitária. 3.1 O trabalho de edição como reconstrução – A edição russa das obras de Marx-Engels ( Sochinenia ) pretendia cumprir duas funções. Essa edição, que foi planejada para aparecer simultaneamente com a primeira MEGA, já tinha sido decidida pelo 13º Congresso do Partido Comunista da União Soviética (bolchevique), em 1924, com a publicação se iniciando em 1928. Ela continuou mesmo após a suspensão da MEGA e, depois de ser interrompida pela Segunda Guerra Mundial, foi completada em 1947 com 28 volumes (o volume 20 não foi publicado) ao longo de 33 livros, marcando a primeira edição completa. Assim como a primeira MEGA, essa ficava dividida em três seções ( obras, Capital, correspondências ). Incluía 1.247 escritos e ensaios, assim como 3.298 cartas – 600 das quais foram publicadas pela primeira vez e apresentadas em texto integral, em oposição à edição de 1913. Após a morte de Stalin em 1953, essa edição foi substituída por uma segunda edição expandida em 39 volumes, e depois suplementada por 11 volumes adicionais, devido a cartas e documentos recém-descobertos. Essa segunda edição russa serviu de base para a edição em língua alemã (MEW), que atraiu interesse significativo, particularmente na zona de ocupação soviética e na RDA, em parte porque fornecia os fundamentos necessários para as inúmeras edições individuais publicadas pós-1945. A decisão de criar essa edição foi tomada no Ano Karl Marx de 1953, tendo sido tomada pelo Instituto para o Marxismo-Leninismo no Comitê Central do SED (Partido Socialista Unificado da Alemanha). Em 1968, 39 volumes foram publicados (posteriormente mais 5 volumes suplementares). A MEW contém todas as obras, escritos, e artigos que foram editados (incluindo as várias obras anteriormente desconhecidas), junto com uma seleção de manuscritos, rascunhos, e materiais preparatórios (somando por volta de 1.700 textos), assim como todas as cartas preservadas pelos autores (pela primeira vez incluindo aquelas destinadas a terceiros, do qual um terço foi traduzido para o alemão). Foram feitas exceções ao princípio de integralidade do projeto com relação aos escritos juvenis, os quais foram posteriormente publicados em dois volumes suplementares, e a alguns escritos críticos sobre a autocracia russa e sua política externa (incluindo as revelações sobre a história da diplomacia no século XVIII). [19] Como evidenciado nas introduções e comentários, essa edição, que era internacionalmente respeitada, foi novamente alvo de interesse político. A MEW foi considerada como uma edição de estudo, sem a ambição de completude, sendo destinada ao público leitor mais amplo. No entanto, a edição complexa, com suas ricas anotações no corpo do texto, era usada menos como uma “edição popular” e mais em consonância com as necessidades científicas de utilização de acadêmicos interessados. Ela também serviu de base para inúmeras edições individuais e selecionadas, e usada para traduções em outras línguas. Nesse sentido, a MEW assumiu os encargos e as funções de uma edição moderna e cientificamente reunida, muito embora tenha sido incapaz de cumprir essas demandas. 3.2 O início em 1965 – o conceito de MEGA de Riazanov foi revisitado no contexto do debate sobre o escopo e a estrutura da segunda edição expandida da Sochinennia durante o período do assim chamado degelo em Moscou e Berlim. Entretanto, demorou outras duas décadas para que um sucessor fosse estabelecido “após um longo e árduo trabalho”. [20] Esse atraso se deveu principalmente às preocupações ainda prevalecentes na liderança do partido, especialmente no PCUS, de que a MEGA tivesse um carácter “predominantemente” “científico-acadêmico” [21] e, além disso, pudesse minar a teoria marxista-leninista, pois demonstrava que poderia superar a edição de Lenin em volume. Em 1965, uma comissão editorial conjunta ficou encarregada da preparação da edição; somente dez anos depois é que foi publicado o primeiro volume da segunda MEGA. Mesmo de uma “perspectiva marxista-leninista” foi surgindo gradativamente o entendimento de que “a retenção politicamente motivada das obras de Marx e Engels [...] seria anticientífica e politicamente insensata”. [22] Mesmo com toda a oposição, o princípio mesmo de integralidade do projeto poderia assim ser mantido. No que se refere à estrutura, foi adotada a divisão básica de Riazanov por tipo de obra, com escritos introdutórios – sumários, excertos, cadernos, notas individuais, listas literárias, e anotações marginais – sendo reunidos em uma seção adicional. Esse projeto, que em muitos sentidos segue os padrões científicos – o excelente trabalho filológico realizado em Berlim e em Moscou foi amplamente reconhecido pela comunidade acadêmica internacional –, foi clara e inerentemente marcado por “uma relação tensa entre o credo marxista-leninista e as aspirações acadêmicas, os propósitos legitimadores e o cuidado editorial”. [23] 3.3 Recomeço de 1990 – se a MEGA deveria ou não continuar após o fim da RDA e da União Soviética foi uma controvérsia política e científica entre aqueles que agora tomavam decisões diante de novas estruturas de poder. A transição bem-sucedida para uma “edição acadêmica e independente do partido” [24] se deveu principalmente às parcelas interessadas do público alemão e internacional – como expresso, por exemplo, em uma campanha de apoio sem precedentes de acadêmicos japoneses. O Instituto Internacional de História Social e a Casa Karl Marx da Fundação Friedrich Ebert, em acordo com os editores anteriores de Berlim e Moscou, fundou a Fundação Internacional Marx-Engels em Amsterdã, em outubro de 1990, a qual adquiriu todos os direitos autorais e desde aí continuou a MEGA. Além das instituições acima mencionadas, são membros a Academia de Ciências Berlim-Brandenburgo, o Centro de Pesquisas Históricas da Fundação Friedrich Ebert, em Bonn, e o Arquivo para História Política e Social do Estado Russo, em Moscou. Em 1993, de acordo com um comitê internacional presidido pelo filósofo Dieter Henrich, o Conselho de Ciência Alemão recomendou sua continuação. Os princípios editoriais foram revisados, reduzindo o escopo de 164 para 114 volumes, com os planejados 40 volumes de notas marginais de Marx e Engels sendo abandonados, entre outras alterações. A estrutura anterior foi mantida: Obras, artigos, rascunhos (32 volumes), na seção I; Capital e manuscritos preparatórios (15 volumes), na seção II; Correspondência (35 volumes), na seção III; e Excertos, notas e anotações marginais (32 volumes), na seção IV. [25] Daí em diante, a responsabilidade científica coube a uma rede de pesquisa internacional com times editoriais em três continentes (na Europa, Japão e EUA, do qual o centro de comunicação está localizado na Academia de Ciências Berlim-Brandenburgo. 4.1 O novo material disponibilizado na segunda MEGA, principalmente através da extensa seção de excertos, documenta minuciosamente o processo de estudo de Marx. Isso inclui, por exemplo, os excertos de ciências naturais, geologia e química, que fornecem novos parâmetros sobre a visão de Marx da relação entre sociedade e natureza [26] , e também os elementos de um marxismo ecológico em sua obra. [27] Também foi significativamente expandida a base de materiais a respeito de seus escritos políticos e jornalísticos ( New York Tribune , excertos históricos, minutas do Conselho Geral da AIT), aprofundando assim a compreensão da atividade política de Marx. Particularmente significativa para a reconstrução de sua obra principal é a seção de O capital , a qual inclui todos os manuscritos econômicos de 1857 em diante, assim como a seção IV (os cadernos de Manchester, Paris e Londres ). Pela primeira vez o processo de pesquisa de Marx é documentado de forma abrangente. Em seu Prefácio à edição popular do volume II do Capital , Kautsky lança suspeita de que Engels “nem sempre compreendeu a linha de pensamento e nem sempre organizou e editou os manuscritos de acordo com ela”. A publicação completa fornece um novo ímpeto à pesquisa e discussão sobre a divisão de contribuições entre Marx e Engels nos volumes II e III de O capital , nas versões manuscritas e impressas do volume III, e nos planos gerais inacabados da principal obra, assim como as questões mais amplas relativas à gênese, escopo, e relevância contemporânea da análise de Marx sobre o capitalismo. Graças às publicações de cartas de terceiros, as quais estão disponíveis em sua totalidade até o fim de 1866 na seção III, a “história textual autêntica” do Capital pode ser “bem melhor” reconstruída “do que fora possível aos comentadores e leitores anteriores, os quais tiveram que confiar exclusivamente nos relatos pessoais, mais ou menos subjetivos [...], dos nossos dois autores”. [28] 4.2 Ao mesmo tempo, os desafios surgidos das diferentes necessidades na leitura e uso dos textos tornaram-se aparentes. O aspecto decisivo aqui é o princípio genético-textual, que dá forma aos princípios de qualquer edição crítica de obras com base em padrões editoriais modernos. A inspiração filológica na preparação da segunda MEGA foi retirada de Goethe e Brecht: o objetivo principal não é mais produzir um texto que fique o mais próximo possível das intenções do autor, mas sim documentar o texto em sua gênese, desde o primeiro rascunho até a versão final. A revisão crítica do texto, no sentido de corrigir as passagens claramente errôneas, é levada a cabo com grande cautela e detalhamento. Utilizando de um método originalmente desenvolvido por Richard Sperl e Inge Taubert, a gênese de uma obra é desvelada desde seus rabiscos conceituais até a versão final autorizada: as obras separadas são reproduzidas em sua inteireza na seção textual, baseados ou no manuscrito, ou na primeira impressão. Mediante várias consultas ao aparato acadêmico o desenvolvimento do texto em sua totalidade pode então ser rastreado e compreendido. Desde o seu lançamento a segunda MEGA foi acompanhada por controvérsias envolvendo essa abordagem. Membros da equipe do Sítios Nacionais de Pesquisa e Memória da Literatura Clássica Alemã, de Weimar, não viam a “gênese documental” das obras separadas como “uma tarefa independente de uma edição completa e historicamente crítica” [29] Além de uma investigação específica sobre a história filológica das obras, também foi possível interagir e recepcionar as obras de Marx e Engels sem depender totalmente da gênese textual e de diferentes versões minuciosamente preparadas. As aspirações de Marx e Engels não seriam tão bem atendidas se suas obras fossem apenas cuidadosamente restauradas, reduzindo assim o marxismo a uma “história das ideias focado unicamente na perpetuação e interpretação daquilo que Marx pensou”. [30] O fato de que, após 1990, os esforços editoriais relativos ao legado de Marx e Engels pudessem ser desvinculados de sua constelação de compromissos políticos e ideológicos prévios não significou o fim da tensão entre as suas recepções acadêmicas e as críticas da prática social da obra agora academicamente processada. Mesmo o seu papel como componente central da ideologia oficial não acabou, como o trabalho editorial e as discussões na República Popular da China demonstram. Entretanto, com a segunda MEGA, uma fundação sólida foi estabelecida, contra as quais todas as formas e trabalhos de divulgação do legado de Marx e Engels devem ser confrontados. Parte II 1. China – A Marx-Engels-Gesamtausgabe cumpre um importante papel na República Popular da China, como demonstrado por vastos esforços de tradução e pesquisa, particularmente a partir dos anos 1990. Nesse contexto, a MEGA¹, iniciada por David B. Riazanov, foi compreendida como um objeto de pesquisa historiográfica, enquanto que a MEGA² amplamente traduzida para o chinês. Indicações primárias de que a emergência da MEGA¹ já tinha atraído interesse na República da China (1911–1949) podem ser encontradas em 1933 nos jornais de esquerda e de orientação marxista Xianxiang Yiekan ( Fenômeno Mensal ) e Chuban Xiaoxi ( Publicações da Atualidade ). Em 1939, Wu Enyu, sob a supervisão de Harold Joseph Laski, escreveu uma tese de doutorado em Londres intitulada A evolução das ideias sociais e políticas de Karl Marx com especial referência ao período 1840-1848 , na qual ele usava volumes da MEGA¹ como fonte. [31] Naquele momento, os escritos de Marx e Engels ainda eram amplamente desconhecidos na China. O Manifesto foi publicado em chinês na sua totalidade pela primeira vez em 1920, enquanto o primeiro volume do Capital apareceu somente em 1936. [32] Os volumes originais da MEGA¹ estão disponíveis apenas em algumas poucas instituições acadêmicas tendo sido traduzidos para o chinês só em fragmentos. A tradução e publicação sistemática e planejada dos trabalhos de Marx e Engels começa em 1956, sob a direção do Gabinete Central de Compilação e Tradução (GCCT) em Pequim, que operava sob o Comitê Central do Partido Comunista da China (PCCh). Em 1985, foi produzida uma edição chinesa de 50 volumes, baseada principalmente na segunda edição russa da Marx-Engels Collected Works ( MECW ). Enquanto essa edição cumpria um papel crucial na disseminação e no estudo dos escritos de Marx e Engels, ela também exibia fraquezas substantivas – principalmente porque quase todos os textos foram traduzidos do russo e não das línguas originais. [33] Em 1986, no sentido de fornecer uma apresentação mais compreensível e confiável das obras de Marx e Engels, o Comitê Central do PCCh decidiu produzir uma segunda edição chinesa. Após uma comparação de várias edições estrangeiras da MECW, foi determinado que essa nova edição seria baseada originalmente na MEGA². O projeto previa uma edição em 70 volumes, estruturados em quatro seções similarmente a MEGA²: obras, Capital e manuscritos afins, correspondências e excertos. No entanto, essa segunda edição chinesa seria menos extensa que a MEGA²: as últimas duas seções seriam traduzidas somente em parte (por exemplo, a maioria das cartas endereçadas a Marx e Engels seria omitida), e os volumes dos aparatos seriam completamente excluídos. Os primeiros três volumes apareceram em 1995, e em 2017, 28 volumes foram publicados. Na preparação e desenvolvimento da segunda edição chinesa, numerosos artigos da MEGA² - incluindo seus planos editoriais, linhas diretivas, e introduções aos volumes individuais – foram traduzidos para o chinês e publicados em jornais do GCCT dedicados aos estudos sobre Marx/Engels ou Marx-Engels-Lênin-Stalin. Entretanto, esses jornais foram destinados ao uso interno do GCCT. Na verdade, essas publicações eram essencialmente um periódico cujos títulos variados refletiam seu foco em evolução: Materiais sobre as obras do marxismo-leninismo em resumo (1978-1981), Materiais de pesquisa sobre marxismo-leninismo (1982-1989), Estudos de Marx-Engels (1989-1995), Estudos de Marx-Engels-Lênin-Stalin (1996-2006, formada pela fusão do periódico anterior com os anteriormente separados Lenin Studies e Stalin Studies ), e, após 2006, Materiais de pesquisa sobre marxismo . [34] 3. Bastidores políticos da ascensão da MEGA na China – somente um pequeno número de leitores chineses foram capazes de estudar as obras de Marx e Engels no alemão original. Consequentemente, a tradução desses textos do alemão para o chinês foi essencial para disseminação do marxismo na China. No entanto, esse processo vai bem além da mera conversão linguística, ele também requere um entendimento profundo dos textos originais e uma análise cuidadosa das similaridades e diferenças entre as culturas ocidental e chinesa. Mao-Tsé-Tung já tinha reconhecido o significado do trabalho de tradução durante a Guerra Sino-Japonesa em Yan’an. Ele considerava o monge Xuanzang – quem, durante o reinado do imperador Taizong de Tang (século VII), tinha traduzido inúmeras escrituras budistas para o chinês, principalmente do sânscrito – e o renomado escritor e tradutor Lu Xun, como figuras ativas no Movimento 4 de Maio, que tinha promovido a recepção da cultura ocidental na República da China, como modelos para a tradução chinesa. [35] Durante o 7º Congresso do Partido (1945), Mao criticou fortemente a tendência em desvalorizar o trabalho de tradução e enfatizou que o marxismo-leninismo teria permanecido desconhecido na China sem os esforços dos tradutores. [36] Na China, a tradução das obras dos clássicos do marxismo contribuiu para a transformação dos discursos teóricos e políticos desde a fundação da República Popular. Mais ainda, como Ngeow Chow Bing argumenta em seu estudo sobre o GCCT, a “pesquisa marxista” permanece importante para o Partido Comunista da China, tal como a justificação “ideológica” continua a ser um componente crucial no processo de tomada de decisões. [37] “Se reformas políticas e econômicas pudessem ser formuladas nos termos que Marx teria aprovado, essas reformas teriam tido uma resistência menor. Assim como é improvável que o Partido advogue a democratização à maneira ocidental, ideias sobre reforma encontradas nos escritos de Marx e Engels, e mesmo de Lênin, essa combinação de marxismo e reformismo do GCCT pode muito bem ser relevante” [38] Ngeow enxerga o GCCT cada vez mais o GCCT como um “think tank político”, cuja liderança inclui “defensores bem conhecidos das reformas políticas e da democracia”. [39] 4. Pesquisa e controvérsias – a relevância da nova edição chinesa das obras de Marx e Engels se tornou evidente à luz dos desenvolvimentos históricos. De 1949 até 1978, a investigação marxista na República Popular da China foi baseada largamente nos desígnios do “diamat”. Com a publicação da nova edição, esforços têm aumentado a libertação das amarras da teoria marxista dogmática tradicional e ajudado a reinterpretar a doutrina de Marx incorporando métodos hermenêuticos e fontes até então inacessíveis. Pedra angular nesse desenvolvimento foi a marca do livro de Zhang Yibing, Huidao Makesi ( Back to Marx ), de 1999. Diferente de todo trabalho de pesquisa do marxismo chinês, ele grifou a importância do retorno aos textos originais. O livro recebeu atenção considerável na China, a despeito de enfrentar críticas contundentes – alguns temiam que uma reconstrução meticulosa dos textos pudesse ofuscar seus interesses práticos [40] - a tendência em direção à pesquisa textual ganhou apoio e reconhecimento, principalmente entre jovens estudiosos marxistas. Nesse contexto, Wang Dong propõe as novas bases para a pesquisa de Marx (2006), onde ele rejeita os três modelos interpretativos tradicionais – nomeadamente, explicar o pensamento de Marx da perspectiva de Engels, da União Soviética, ou do Ocidente – ao contrário, defende uma interpretação baseada nos próprios escritos de Marx, enquanto que estabelece simultaneamente uma tradição independente na investigação marxista chinesa. É frequentemente lamentado que não haja uma pesquisa original chinesa nem baseada na MEGA², em contraste ao grande volume de traduções de obras internacionais (às quais apareceram, por exemplo, nos jornais Tendências Teóricas Internacionais e Marxismo e Realidade ). Além disso, o desenvolvimento e publicação da própria MEGA² ocorreu em grande parte sem o envolvimento do partido (enquanto que, por exemplo, pesquisadores japoneses há muito tempo desempenharam um papel importante nisso). O primeiro estudo conjunto sobre a história da MEGA e seus princípios editoriais foi Da MEGA¹ à MEGA²: a emergência e o desenvolvimento das obras reunidas de Marx e Engels, de Zhao Yulan (2013). A adoção da MEGA² na China tem sido, entretanto, contraditória. Enquanto Nie Jinfang e outros defendem que a recepção ortodoxa somente pode ser superada, e um verdadeiro entendimento do marxismo adquirido, se alguns textos de Marx e Engels ainda desconhecidos em chinês – principalmente manuscritos, excertos e notas – forem traduzidos e estudados em grande profundidade, [41] outros, tal como Hu Daping, [42] pedem que a pesquisa marxista foque mais em questões atuais de desenvolvimento que a sociedade enfrenta. Há ainda aqueles que questionam o projeto da MEGA² como um todo. Sun Leqiang (2012) critica que ambos os projetos da MEGA estão manchados pela ideologia soviética desde o seu início. À respeito da MEGA² há ainda o debate sobre as diferenças entre a MEGA-Dietz e a MEGA-Akademie. Xia Fan aponta para a controversa classificação do manuscrito sobre Feuerbach dentro do complexo IA (Ideologia alemã), demonstrando com a visão da MEGA-Dietz mudou com relação à da MEGA-Akademie, e de como a última desconstruiria o legado de Marx. [43] A MEGA² também desperta, aqui e ali, expectativas irrealistas, tal como a crença de que irá se criar uma imagem nova e sem falhas de Marx que resistiria a toda crítica ao marxismo. Wei Xiaoping rejeita tais mistificações e clama por uma abordagem mais realista, que reconheça as funções fundamentais da MEGA²: apresentar o texto e o processo criativo de Marx e Engels na sua inteireza e com fidelidade, permitindo deste modo uma abordagem acadêmica à sua obra e tornando evidente o seu valor único. [44] Referências da Parte I Dlubek, Rolf 1993, ‘Tatsachen und Dokumente aus einem unbekannten Abschnitt der Vorgeschichte der MEGA2 (1961-1965)’, Marx-Engels-Forschung. Neue Folge , 1993, pp. 41-63. Dlubek, Rolf 1994, ‘Die Entstehung der zweiten Marx-Engels-Gesamtausgabe im Spannungsfeld von legitimatorischem Auftrag und editorischer Sorgfalt’, MEGA-Studien , 1994, Heft 1, pp. 60-106. 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[4] - Engels 2001b, pp. 258-9. [5] - Volume 24, 1896. [6] - Volume 30, 1897. [7] - Aqui optamos por traduzir do inglês Surplus como ‘ mais-valia’ e não “mais-valor” , tal como o termo vem sido traduzido (corretamente) do alemão Mehrwert no Brasil nos últimos anos, especialmente a partir da publicação dos Grundrisse em solo nacional em 2011. Nossa opção se baseia no fato de que é conhecimento comum a obra levar o título nessa grafia/dicção (MAP). [8] - Citado em Langkau 1983, p. 127. [9] - Hecker 1993, p. 18, fn. 5. [10] - Cf. Vollgraf et al. 2000. [11] - MEGA1 vol. I.3 (1932); Kröner edition in 1932. [12] - MEGA1 vol. I.5 (1932/33). [13] - Cf. Mis’kevič 2013, p. 7 [14] - Rokitjanskij 2001, p. 14. [15] - Referat, p. 111. [16] - Referat, p. 113. [17] - Rokitjanskij 2001, p. 20. [18] - Cf. Röhr 2014, p. XXI. [19] - MECW, vol. 15, pp. 25-96. [20] - Dlubek 1993, p. 41. [21] - Dlubek 1994, p. 70. [22] - Dlubek 1993, p. 45 [23] - Dlubek 1994, p. 100. [24] - Vollgraf 1993, p. 69. [25] - Cf. Grandjonc/Rojahn 1995. [26] - Cf. Griese 2006.. [27] - Cf. Saito 2016. [28] - Vollgraf 2017, p. 54. [29] - Quoted in Dlubek 1994, p. 89. [30] - Haug 1983/1985, p. 25. [31] - Cf. Zhang 2015, p. 15f. [32] - Xy and Lin 2017, pp. 73-4. [33] - Cf. Xy and Lin 2017, pp. 77-8. [34] - Cf. Zhao 2016, p. 285-6. [35] - Mao 1993-9 ( Letter to He Kaifeng on Newspapers and the Question of Translation Work , 15 September 1942), vol . 2, p. 441. [36] - Mao 1993-9 ( Resolution of the Seventh Congress of the CPC ), vol. 3, p. 418. [37] - Bing 2015, p. 572. [38] - Ibid. [39] - Ibid., p. 554. [40] - Cf. Nie 2008. [41] - Nie 2005. [42] - Hu 2003. [43] - Xia 2007, p. 50f. [44] - Wei 2013.
- O pathos moderno em “Pai contra mãe”, de Machado de Assis - Ana Cotrim
Apresentação Rodrigo Vieira Ferreira (Barravento) Em consonância temática com a crônica de Roberto Arlt recentemente publicada pela Revista Barravento - a escravidão no Brasil - , Machado de Assis publica no ano de 1906 o conto Pai contra mãe , obra que trata dos impasses vividos por Cândido Neves, homem branco, pobre, pai e caçador de escravos e das querelas vivenciadas por Arminda, mulher negra, grávida e escrava fugida. E é particularmente sobre esse conto, publicado originalmente no volume de contos Relíquias da casa velha , que a professora Ana Cotrim (UnB) se debruça em seu artigo O pathos moderno em “Pai contra mãe”, de Machado de Assis, agora publicado pela Barravento[1]. Tendo já publicado outros trabalhos a partir da análise do conto Pai contra mãe , Ana Cotrim visa, no texto que se segue, analisar particularmente a presença do pathos neste conto de Machado de Assis, categoria que diz respeito, nas palavras da autora, a “uma força que se manifesta ao mesmo tempo no movimento social e no coração ou alma individual, pertence simultaneamente ao humano como gênero ou forma social e como indivíduo”. Em outros termos, trata-se da figuração de forças sociais em disputa em determinado momento histórico nos destinos individuais dos personagens artisticamente criados. Isto posto, alicerçada nas elaborações de György Lukács acerca do realismo na literatura[2], a autora nos apresenta como os personagens do conto machadiano - Cândido e Arminda - encarnam em seus destinos individuais forças sociais em conflito no Brasil escravocrata, donde, naquelas circunstâncias sócio-históricas, prevalece aquela força social encarnada por Cândido Neves: a naturalização e a legitimidade social da escravidão, então em voga, a tortura e a repressão brutal sofridas pelas pessoas escravizadas, em suma, prevalece a desumanização de Arminda - e, portanto, a desumanização de toda a população escravizada - frente a sua desesperada e impossibilitada tentativa de se fazer humana. Dessa maneira, o artigo em tela, que de imediato se insere no eixo temático Ideologia, Arte e Cultura do site da Barravento, cumpre dupla tarefa: apresenta as elaborações próprias da autora a partir da análise rigorosa do texto de Machado e, ao fazê-lo, exprime e advoga pela relevância deste conto machadiano. Assim sendo, até buscaríamos convencer o leitor a travar contato com o conto Pai contra mãe, porém, estamos certos de que a leitura do artigo de Ana Cotrim já o fará. Boa leitura! [1] Agradecemos abertamente à professora Ana Cotrim pelo interesse em publicar seu artigo na Revista Barravento. [2] Ainda a respeito da produção intelectual da autora sobre o realismo na literatura, convidamos o leitor a ouvir o episódio de podcast intitulado Especial - O Realismo Literário de György Lukács , publicado em duas partes pelo Ontocast . Ademais, na 1° parte do episódio, por volta dos 59 minutos, a autora comenta especificamente sobre o conto Pai contra mãe. *** O PATHOS MODERNO EM “PAI CONTRA MÃE”, DE MACHADO DE ASSIS Ana Cotrim* I. Nas suas formulações sobre o realismo literário, é conhecida a ênfase de György Lukács no caráter típico da obra, seguindo a célebre definição de Engels, em carta a Margareth Harkness, segundo a qual a literatura realista se constitui de “personagens típicos em situações típicas”. Em diversas ocasiões, o pensador húngaro aproxima a tipicidade ao pathos antigo. Em O romance como epopeia burguesa , a fim de definir esse termo que, como tantos outros termos gregos antigos, abrangem uma significação mais ampla e profunda do que as suas traduções modernas, Lukács recorre à acepção oferecida por Hegel, na Fenomenologia do Espírito , para quem essa palavra seria intraduzível: Segundo os antigos, pode-se designar com a palavra pathos as potências gerais que não se manifestam apenas para si, em sua independência, mas que são igualmente vivas no coração humano e agitam a alma humana até em suas mais profundas regiões. (Hegel, apud Lukács, 2011, p. 208) Quer dizer que o pathos significa uma força que se manifesta ao mesmo tempo no movimento social e no coração ou alma individual, pertence simultaneamente ao humano como gênero ou forma social e como indivíduo. Lukács comenta a passagem hegeliana: “Portanto, o pathos não é simplesmente idêntico à paixão: decerto, ele se exterioriza na paixão, mas é ao mesmo tempo ‘uma potência da alma, legítima em si, um conteúdo essencial da racionalidade’” (Lukács, 2011, p. 208). Na épica e na tragédia antigas, as paixões dos personagens individuais coincidem imediatamente com forças sociais, devido à unidade do universal com o particular na vida mesma, dada pela ausência de separação e dicotomia entre público e privado. No período homérico, essa unidade é tal que, na sua figuração poética, a paixão de um personagem concentra a finalidade de todo um povo. Marx diz sobre esse período que os povos se organizavam como numa “democracia guerreira”, em que todos os homens são armados e não existe uma força capaz de obrigar o povo a agir em oposição a seus próprios interesses. Ainda havendo uma hierarquia interna, a ação dos chefes só poderia confirmar e fomentar o interesse do povo. Assim, por exemplo, na ação e no destino de Heitor se funde a luta e o destino de toda a Troia: sua morte é o fim da cidade. Na Ilíada , os acontecimentos que se seguiriam à sua morte não são desenvolvidos e, no que se refere ao destino dos troianos, a narração termina com a demanda de Príamo pelo corpo do filho morto. De fato, não é necessário que se figure a tomada, o saqueio, a fuga etc., porque a sua morte significa já o fim do povo. Na Atenas clássica, estabelecida a nova unidade social, definida agora por critérios locais, e não mais de laços consanguíneos – como ainda prevalecia no período homérico – e as contradições que acompanham tal forma social: um princípio de oposição entre interesse público e interesse privado, advindo do desenvolvimento da propriedade privada; o trabalho escravo; a conseguinte formação de uma força separada do próprio povo, a garantir certos interesses gerais que poderiam ser ameaçados por interesses particulares; enfim, na pólis ateniense, emergem as contradições no interior de um mesmo povo que impossibilitam figurar poeticamente um único personagem que encarne a paixão de todo o povo. Contudo, na tragédia, as paixões dos personagens em conflito coincidem ainda, diretamente, com forças sociais ou valores universais em disputa. Representando conflitos vividos na cidade em decorrência da transformação mesma da forma social, um tema que aparece na tragédia é justamente a contradição entre os valores da cidade, como a justiça e o direito patriarcal, e os valores religiosos advindos do antigo direito de ordem matriarcal. A figuração desses conflitos encarnados em intensas paixões individuais traz aos espectadores uma maior consciência de sua própria conformação como povo. Nesse rol estão Antígona e a trilogia Oresteia . Na primeira, a paixão que move a protagonista é a obrigação religiosa de realizar o ritual fúnebre para os parentes. A paixão que move seu antagonista, Creonte, então no governo de Tebas, é o direito da cidade, que proíbe o enterro de inimigos dentro dos seus muros. O destino de Antígona é mais um capítulo da maldição que acompanha a linhagem da casa real tebana, que tem em Édipo, seu pai, a figura mais famosa. Dos seus irmãos, fadados a mataram-se mutuamente, um deles, Etéocles, é considerado defensor de Tebas, enquanto o outro, Polinice, um agressor externo. O conflito se cria pela húbris ou desmedida a que Creonte leva a sua paixão, estendendo a proibição do ritual fúnebre para fora dos muros da cidade. A paixão de Antígona, diante disso, também é levada ao extremo, mas não à húbris, e sim ao desafio da autoridade – que se caracteriza na tragédia pela contraposição com a subordinação da irmã Ismene. Interessa-nos aqui a encarnação imediata de dois valores socialmente vigentes nas personagens de Antígona e Creonte, bem como o modo como esses valores movem suas almas a ponto de se conformarem como suas próprias paixões. Nessa história, o valor antigo, religioso e de matriz matriarcal, que aparece subordinado aos interesses da cidade, constitui, na figura de Antígona, o heroísmo, ao passo que o direito da cidade, encarnado em Creonte, se conforma como vilania. Isso se dá pelo modo individual como os personagens vivem suas respectivas paixões: enquanto Antígona aceita a restrição e procura fazer valer o direito religioso conforme à posição que a cidade lhe confere, enterrando Polinice fora dos muros de Tebas – e apenas se rebela quando esse direito lhe é negado –, Creonte padece da húbris e busca impor a lei da cidade para além de sua própria determinação e, por isso, de maneira contrária a ela mesma. A Oresteia figura uma sequência de crimes que culmina com o julgamento de Orestes. Na última peça da trilogia, o julgamento significa e traz à tona precisamente o embate entre os direitos patriarcal da cidade, com seu sistema de justiça, e os valores derivados das ligações consanguíneas antes vigentes. O crime que dá início a esse conjunto de tragédias é o sacrifício de Ifigênia pelo pai, Agamenon, no contexto da guerra de Troia. A mãe de Ifigênia, Cliptemnestra, que nas tragédias encarna o vínculo consanguíneo, vinga a morte de sua filha assassinando o pai. Seus filhos mais novos, Electra e Orestes, exilados durante a infância justamente a fim de evitar sua vingança, se unem na idade adulta para vingar a morte do pai, assassinando a mãe. Com esse crime, Orestes passa a ser perseguido pelas Fúrias, deusas do matriarcado, que buscam castigá-lo, demandadas pelo espírito de Cliptemnestra. Ele se refugia no templo de Apolo, que o defende, encarnando aqui o direito citadino, patriarcal. No julgamento final, o que está em disputa é: qual é o pior crime, o assassinato do marido pela esposa ou o assassinato da mãe pelo filho? O júri composto de cidadãos não alcança solucionar o problema, chegando a um empate. O voto de Atena, a deusa sem mãe, que nasceu adulta da cabeça do pai, Zeus, deusa da cidade, desempata, absolvendo Orestes e determinando que as Fúrias se recolham e passem a ser adoradas regularmente em um templo próprio, chamando-se a partir de então as benevolentes (eumênides). Vence o direito patriarcal: o pior crime é o assassinato do marido, do rei. Todo esse caminho significa que as leis da antiga organização por vínculo consanguíneo, segundo as quais nada pode ser pior que o matricídio, persistem como direito secundário, submetido às leis próprias da cidade. As Fúrias são pacificadas e obrigadas à passividade, o que sentem como sua derrota. Ativamente, regem Atena e Apolo. Vemos no empate do júri o quanto esses valores religiosos ainda eram caros aos cidadãos e como buscavam compatibilizá-los, embora subordinadamente, às leis da nova ordem social. A Oresteia conta essa história, e traz aos espectadores uma maior clareza de sua forma social de existência. Nos dois casos, tanto de Antígona como de Orestes, Sófocles e Ésquilo criam ações que colocam seus personagens diante de dilemas: o conjunto de situações que enfrentam conduzem-nos ao extremo, de modo que os conflitos vividos na cidade são trazidos à tona nas suas pessoas: encarnam-se nas suas paixões. Assim, não é apenas o seu grau de paixão, o extremo que se condensa em seus caracteres, mas também as situações criadas que impulsionam o afloramento desses conflitos que, de outro modo, poderiam permanecer subjacentes e mesmo ocultos na vida social. Sem a singular disputa dos irmãos por Tebas, sem a húbris de Creonte, sem o sacrifício de Ifigênia e a sequência de crimes e vinganças que acarreta, a paixão dos personagens não afloraria. Desse modo, o pathos se realiza na tragédia antes de tudo pelas ações criadas, diante das quais os personagens manifestam o seu elevado grau de paixão, e assim expressam como seus conflitos individuais os conflitos vividos pelo conjunto da sociedade. Como indicamos anteriormente, no caso da épica e da tragédia gregas, os personagens encarnam imediatamente, no conjunto das ações criadas, ou bem o interesse de todo um povo, ou bem valores e interesses contraditórios no interior de um povo. Com o desenvolvimento moderno e a conseguinte separação entre público e privado, a literatura perde a possibilidade de fazer encarnar em seus personagens diretamente valores éticos, públicos, universais. Entretanto, de acordo com a formulação de Engels seguida por Lukács, a literatura realista continua se caracterizando por “personagens típicos em situações típicas”. Quer dizer que os artistas modernos seguem criando ações e situações diante das quais os personagens manifestam, por suas ações, seu elevado nível de paixão. Agora de maneira indireta, já que nenhum caráter coincide imediatamente com os interesses do conjunto da sociedade ou com um dos valores ou forças sociais em luta. O pathos antigo se apoiava na ligação imediata entre o privado e o público na pólis e, ao mesmo tempo, na unidade imediata, nos personagens da epopeia e do drama antigos, do universal e do particular, do típico e do individual. Na vida moderna, esta unidade imediata é inatingível. A separação entre as funções sociais e as questões privadas condena toda poesia burguesa do “cidadão” a uma universalidade abstrata: é precisamente por causa disso que esta poesia perde seu pathos no sentido antigo da palavra. Mas este fechamento no privado e o isolamento entre os indivíduos – que, como diz Marx, é “a realização completa do materialismo da sociedade civil” – tornam-se não um fenômeno casual, mas uma lei universal; e, por isso, a busca do pathos da vida moderna só pode ter sucesso, até certo ponto, seguindo esta direção. Assim, ainda nas palavras de Marx, “quando o sol universal se põe, a borboleta procura a luz da lâmpada do particular”. (Lukács, 2011, pp. 208-209) Na vida mesma, separa-se o universal, abstrato (a esfera do Estado e da vida pública, as “funções sociais”) das particularidades concretas, a vida material, prática (que Marx denomina, seguindo ironicamente a denominação moderna, a sociedade civil). Essa separação de universalidade e particularidades na vida mesma – e a prioridade da vida material e prática sobre a sua forma política, o Estado – é o que direciona a literatura ao material da vida privada, porque é nessa esfera que as atividades e ações realmente determinantes da vida social têm lugar. Assim, figuras que ocupam altos postos no Estado perdem paulatinamente, em especial na prosa, o protagonismo literário. Vale notar que esse é um impulso próprio da literatura, que busca criar uma ação verdadeira e, por conseguinte, se volta à esfera da vida em que ela acontece. Segundo Lukács, a necessidade de se voltar aos materiais da vida privada acarreta uma dificuldade aos escritores, precisamente no que se refere à construção da ação. Por um lado, o pathos moderno só pode ser alcançado na vida privada; por outro, a universalidade não aparece imediatamente no conjunto das ações da vida privada, não se expressa na média social: (...) este grande realismo na figuração do desenvolvimento social pode se encarnar na obra de arte somente quando se vai além do âmbito da realidade cotidiana "média" e o escritor atinge o pathos da vida privada (Balzac) ou "o materialismo da sociedade burguesa" (Marx). Mas este pathos só pode ser encontrado por meio de caminhos muito indiretos e complexos. (Lukács, 2011, p. 209) A literatura realista figura destinos sociais como destinos individuais, o que a representação do estado médio não pode alcançar, mas sim as ações extremas, movidas por uma grande intensidade de paixão: O caráter contraditório da sociedade capitalista se manifesta por toda parte e a humilhação e depravação do homem impregnam toda a vida na sociedade burguesa, tanto subjetiva quanto objetivamente; por isso, quem vive uma experiência apaixonada e profunda até o fim torna-se inevitavelmente objeto destas contradições, um rebelde (mais ou menos consciente) que se põe contra a ação despersonalizadora do automatismo da vida burguesa. (Lukács, 2011, p. 210) Trata-se, assim, da difícil tarefa de criar uma ação verdadeira, ou seja, um conjunto de situações, relações e conflitos de tal modo extremos que conduzam os personagens a experimentar um elevado grau de paixão, e nas suas paixões e destinos figurem-se as forças sociais em conflito e o destino dos grupos sociais assim representados. O que confere, portanto, o pathos na literatura moderna, é a ação criada – uma criação que passa agora por caminhos indiretos e complexos, uma vez que trabalha o material da vida privada. II. Machado de Assis, como grande realista da literatura moderna, foi mais de uma vez caracterizado por contemporâneos seus como um grego . É uma infelicidade, embora nenhuma casualidade, que essa maneira de o designar apareça em contextos de racismo ou preconceito colonial. Segundo Brandão (2001, p. 351), “Graça Aranha, em discurso na Academia Brasileira de Letras, chamou-o ‘um helênico no meio dos bárbaros que deslumbras’”. Além dele, também Antônio Salles, “por ocasião da morte de Machado de Assis, em setembro de 1908, escreveu que se tratava de uma ‘alma grega, exilada em nossos lares’” (Brandão, 2001, p. 351). Vemos que essas formulações opõem o caráter grego que atribuem a Machado ao comum do povo brasileiro, ele está exilado, entre bárbaros. Em sentido próximo, mas acrescido da determinação racial, José Veríssimo escrevia no Jornal do Comércio, por ocasião do 30º dia do falecimento de Machado: São tanto mais de admirar e até de maravilhar essas qualidades de medida, de tato, de bom gosto, em suma de elegância, na vida e na arte de Machado de Assis, que elas são justamente as mais alheias ao nosso gênio nacional e, muito particularmente, aos mestiços como ele. (...). Mulato, foi de fato um grego da melhor época, pelo seu profundo senso de beleza, pela harmonia de sua vida, pela euritmia da sua obra. ( Apud Azevedo, 2008) Aqui a alma helênica de Machado se dissocia não só do “gênio nacional”, mas “muito particularmente” dos “mestiços como ele”, ou seja, da negritude. Em carta a J. Veríssimo, Joaquim Nabuco lhe dirige a seguinte crítica: Eu não teria chamado o Machado mulato e penso que nada lhe doeria mais do que essa síntese (...). O Machado para mim era um branco, e creio que por tal se tornava; quando houvesse sangue estranho, isso em nada afetava a sua perfeita caracterização caucásica. Eu pelo menos só vi nele o grego. ( Apud Azevedo, 2008) O racismo do autor da carta, sabemos, não lhe é exclusivo, bastando recordar o fato conhecido de Machado ter nascido pardo e morrido branco . Ora, se olharmos para a sua obra, podemos observar que nosso autor poderia ser descrito como tão grego quanto negro, e mais: não apenas esses traços não são contraditórios, como se potencializam mutuamente. Quero dizer que o seu olhar arguto para a realidade da escravidão, para a peculiar desumanização que permeia as relações sociais no interior da forma social escravocrata é o que lhe confere a profundidade e universalidade com que apreende e figura a sociedade brasileira. Sua capacidade de encontrar e representar a essência humana das pessoas que são desumanizadas na sociedade fundada na escravidão, bem como o núcleo ativo da desumanização lhe permite alcançar o pathos moderno. É esta afirmação que pretendo demonstrar pela análise do conto “Pai contra mãe” ( Relíquias da Casa Velha , 1906) [1] : busco evidenciar a sua veia negra, ou seja, o viés que o conduz a desenhar a peculiar fisionomia humana da personagem escravizada, Arminda, explicitando o núcleo social de sua desumanização; bem como a unidade do destino desta personagem ao destino de toda a sua classe, o seu pathos , pelo qual essa veia negra faz-se também grega – não, portanto, no sentido apenas da elegância e da medida, mas no sentido de alcançar a unidade do individual ou particular com o universal. A marca do artista genial, que reside na inventividade e na criação de uma ação verdadeira a partir dos materiais da vida privada, tem nesse conto uma amostra significativa. Centramos nosso exame na figura de Arminda, por ser uma personagem que, a despeito do pouco desenvolvimento que encontramos no que tange ao seu caráter e personalidade, concentra em si, pelo movimento da ação, das interrelações com os demais personagens e pela peculiaridade do narrador, o pathos e o destinos de toda a classe. Arminda apresenta de imediato uma peculiaridade, a de ser pouquíssimo desenvolvida em termos de construção da sua subjetividade e história pessoal. Na verdade, ela aparece como figura viva apenas ao final do conto e, contudo, é a “mãe” do título. O que sabemos dela e de sua história pode ser sintetizado como se segue: Arminda é uma mulher mestiça escravizada na cidade do Rio de Janeiro, que está grávida e foge da escravidão, permanecendo escondida na cidade, e, alguns meses depois da fuga, é capturada e devolvida ao seu proprietário. A violência desse aprisionamento e o seu pavor de retornar à escravidão a levam a abortar. Sua entrada no conto se dá no momento da captura, sendo referida antes como objeto de um anúncio de recompensa. Dos fatos de sua vida, anteriores e posteriores ao episódio da captura e do aborto, sabemos muito pouco: que fugira meses antes e, por ela mesma, pela breve narração da sua súplica ao sujeito que a prende, sabemos que o seu dono é brutal, usa de violência física, de tal modo que grávida não conseguiria suportar. Nada mais. Na verdade, ela aparece como elemento da história de Cândido Neves, branco (livre) e pobre, que tem o ofício de pegar escravos fugidos, e é o “pai” do título. Toda a narrativa é centrada na história dele, e, no entanto, ela aparece no título com igual relevância e o sobrepuja na impressão que o conto causa a nós, leitores. Podemos dizer que ela se constitui como uma verdadeira “pessoa moral” [2] – para usar o termo com que Machado define o caráter concreto e ativo (definidor das suas ações) de um personagem – cujo pathos é retratado ao modo de uma pintura, que lança luz apenas a um momento de toda ação, mas a um momento que sintetiza passado e futuro, o significado do todo. A paixão que move Arminda, pretendemos mostrar, é o amor de mãe, a maternidade, que constitui o motor de sua ação e a tragédia de seu destino: ela foge para livrar a si e seu filho da escravidão, e é impedida de ser mãe pela mesma instituição da escravidão. Embora o significado da vida de Arminda nos seja dado como por um único facho de luz, toda a construção da narrativa, a ação centrada em Cândido Neves, sua consciência, as demais personagens e o peculiar papel do narrador concorrem para determinar o significado da vida de Arminda. O conto começa com uma espécie de prólogo do narrador em terceira pessoa, que está num momento posterior à abolição, acerca de instrumentos e práticas que deixaram de existir com o fim da escravidão: “A escravidão levou consigo ofícios e aparelhos, como terá sucedido a outras instituições sociais” (Machado de Assis, 2008, p. 2). O prólogo consiste numa apresentação de “alguns aparelhos” e de um ofício que fizeram parte da instituição da escravidão, e o narrador comenta que os aparelhos são mencionados apenas porque se vinculam a este ofício, o ofício de pegar escravos fugidos, que, saberemos, será assumido pelo protagonista Cândido Neves. O narrador refere três desses aparelhos: o ferro ao pescoço, o ferro ao pé e a máscara de folha de flandres. Descreve esta última: A máscara fazia perder o vício da embriaguez aos escravos, por lhes tapar a boca. Tinha só três buracos, dous para ver, um para respirar, e era fechada atrás da cabeça por um cadeado. Com o vício de beber, perdiam a tentação de furtar, porque geralmente era dos vinténs do senhor que eles tiravam com que matar a sede, e aí ficavam dous pecados extintos, e a sobriedade e a honestidade certas. Era grotesca tal máscara, mas a ordem social e humana nem sempre se alcança sem o grotesco, e alguma vez o cruel. (Machado de Assis, 2008, p. 2) Ao mesmo tempo em que considera que esse aparelho é grotesco, cruel e nos traz concretamente a sua dimensão de instrumento de tortura, pontua a sua efetividade na manutenção da “ordem social e humana”, bem como seu papel na preservação de duas virtudes entre os escravos : a sobriedade e a honestidade. Ao indicar que a honestidade entre escravos é não roubar do proprietário, o narrador pressupõe a honestidade da própria escravidão, a “ordem humana”. O final da descrição, mostra um peculiar cinismo: “Os funileiros as tinham penduradas, à venda, na porta das lojas. Mas não cuidemos de máscaras .” (Machado de Assis, 2008, p. 2, grifo meu). A passagem transmite um desdém do narrador pelo tema, como se se tratasse meramente de máscaras, e não de todo o conjunto de relações de violência que compõe a ordem escravista, e que este objeto condensa. Abordagem semelhante se verifica na sua descrição do ferro ao pescoço: O ferro ao pescoço era aplicado aos escravos fujões. Imaginai uma coleira grossa, com a haste grossa também à direita ou à esquerda, até ao alto da cabeça e fechada atrás com chave. Pesava, naturalmente, mas era menos castigo que sinal. Escravo que fugia assim, onde quer que andasse, mostrava um reincidente, e com pouco era pegado. (Machado de Assis, 2008, p. 2) O ferro ao pescoço aparece aqui como um objeto cuja finalidade é garantir a ordem, a propriedade. Assim como a máscara, é hediondo, mas serve a um bem. Quando diz que era “menos castigo que sinal”, embora pesasse, nos faz pensar se uma pessoa que fosse efetivamente sujeita a tal aparelho diria o mesmo. Na passagem para a narrativa propriamente dita, o narrador se volta à questão da fuga dos escravos, que já vinha preparada pela apresentação do ferro ao pescoço: Há meio século, os escravos fugiam com frequência. Eram muitos, e nem todos gostavam da escravidão. Sucedia ocasionalmente apanharem pancada, e nem todos gostavam de apanhar pancada. Grande parte era apenas repreendida ; havia alguém de casa que servia de padrinho, e o mesmo dono não era mau; além disso, o sentimento da propriedade moderava a ação, porque dinheiro também dói. (Machado de Assis, 2008, p. 2, grifos meus) O tom entre irônico e cínico do narrador aqui se evidencia nos termos grifados, que moderam, em alguma medida, a violência a que estavam submetidos os escravos, contrariando a própria apresentação dos aparelhos de tortura com que o conto se inicia. A afirmação de que “grande parte era apenas repreendida” porque se tratava de propriedade, que custou dinheiro, oculta uma verdade com outra: de fato, os escravos se caracterizam como propriedades, e com efeito, não era sempre interesse do proprietário matá-los ou mutilá-los a ponto de não servirem mais. Contudo, considerar que isso mitigava a sanha violenta dos proprietários é antes de tudo falso e, ademais, desconsidera a violência do próprio fato da escravidão. O modo engraçado, irônico, com que enuncia, “dinheiro também dói”, parece ser um elemento de sedução do leitor, como se falasse com liberdade e franqueza, sem comprometimento com este ou aquele interesse, sem receio de ofender, sem necessidade de ocultar. Mas toda sua forma de abordar explicita os horrores da escravidão ao mesmo tempo em que busca naturalizá-la, ao menos para o passado: tratava-se da “ordem humana”. Esse prólogo se conclui com a apresentação do ofício – a que se ligam os tais aparelhos – de pegar escravos fugidos. O narrador pontua que fugiam muito, às vezes ainda no próprio comércio, antes de serem vendidos – o que denota, contra a sua própria teoria, que não é preciso “apanhar pancada” para desejar fugir. Os proprietários lançavam anúncios em jornais oferecendo recompensas a quem prendesse e devolvesse o escravo fugido. Esses anúncios traziam nome, idade, traços físicos e objetos ou roupas que estivessem portando; às vezes ofereciam uma cifra determinada, às vezes apenas a promessa de bom pagamento. Além disso, “Muita vez o anúncio trazia em cima ou ao lado uma vinheta, figura de preto, descalço, correndo, vara ao ombro, e na ponta uma trouxa. Protestava-se com todo o rigor da lei contra quem o acoutasse” (Machado de Assis, 2008, pp. 2-3). (Vale recordar que a uma pessoa escravizada era proibido usar sapatos...). O narrador passa então aos sujeitos que se dispunham a assumir tal ofício: Ora, pegar escravos fugidos era um ofício do tempo. Não seria nobre, mas por ser instrumento da força com que se mantêm a lei e a propriedade, trazia esta outra nobreza implícita das ações reivindicadoras. Ninguém se metia em tal ofício por desfastio ou estudo; a pobreza, a necessidade de uma achega, a inaptidão para outros trabalhos, o acaso, e alguma vez o gosto de servir também, ainda que por outra via, davam o impulso ao homem que se sentia bastante rijo para pôr ordem à desordem. (Machado de Assis, 2008, p. 3) Para o narrador, o ofício não é nobre em sua prática, isto é, não se pode dizer que seja elevado o ato mesmo de caçar, prender e arrastar de volta ao dono um escravo que fugira; entretanto, seguindo raciocínio análogo àqueles sobre máscara e ferro, seria nobre em sua finalidade: é um instrumento de manutenção da lei e da propriedade, um meio de pôr ordem à desordem, por isso carrega a elevação das “ações reivindicadoras”. Por suas asserções, podemos atribuir a esse narrador alguns traços: é um homem branco, condescendente com a instituição da escravidão ao menos para o passado, considerando-a como “ordem humana”, conforme a lei e a garantia da propriedade; deve pertencer à classe proprietária ou assimilar-se ideologicamente a ela; é de se supor, por falar com tal naturalização de uma instituição que já teria sido superada em seu tempo, que comungue com o processo da abolição conservadora [3] . Parece tratar-se, portanto, de um tipo que se aproxima dos narradores desconfiáveis de Machado, muito bem caracterizados quando em primeira pessoa, mas cujos traços podem ser percebidos também em diversos narradores em terceira pessoa, pelos seus comentários, diálogos com o leitor, asserções sobre os personagens, suas ênfases e tons. Trata-se de um tipo de narrador cuja concepção e posição estão sob a mira crítica do autor, crítica que se constrói pela ação narrada. No caso presente, contudo, o narrador não é o foco principal: difere em relevância para a narrativa daqueles em primeira pessoa, como Brás Cubas, Bento Santiago e Matias Aires, que protagonizam as histórias. Qual seria, então, o propósito de figurar esse narrador, com essa espécie de apresentação do contexto social por meio de objetos particularmente grotescos? Considero que ele serve a duas finalidades na narrativa: primeiramente, trazer à luz o horror da escravidão, como instituição que tem na tortura um modus operandi , o meio principal de sua própria manutenção. A escravidão não sobrevive sem inspirar o terror do flagelo. A relevância disso para a narrativa é dar toda a dimensão daquilo de que os escravos fogem, particularmente, do que Arminda fugiu. Quando somos colocados na presença da Arminda grávida, já temos o espírito povoado desses horrores, sabemos precisamente do que ela pretende livrar a si e a seu filho ainda não-nascido. Em segundo lugar, pelo viés do narrador, que expõe com clareza, mas naturaliza a escravidão como uma ordem humana e justifica a tortura como meio de manter tal ordem, somos preparados para compreender a consciência de Cândido Neves não como exceção, mas sim como um modo da consciência dominante. Sigamos a história deste, para então voltarmos a esse tema. Como indicamos, Cândido Neves é um homem branco, livre, pobre, sem estudos; de sua personalidade, a primeira característica que nos é apresentada é chamada pelo protagonista e pelo narrador de caiporismo : Cândido Neves – em família, Candinho –, é a pessoa a quem se liga a história de uma fuga, cedeu à pobreza, quando adquiriu o ofício de pegar escravos fugidos. Tinha um defeito grave esse homem, não aguentava emprego nem ofício, carecia de estabilidade; é o que ele chamava caiporismo. (Machado de Assis, 2008, p. 3) Caiporismo significa azar, má-sorte, ou seja, dar-se mal por motivos casuais, ou mesmo feitiços que possam ser lançados contra a pessoa, em suma, motivos externos à própria ação. Entretanto, a narração contesta essa ideia, contando as várias profissões que procurou abraçar, e das quais desistiu rapidamente por moto próprio, alegando a si mesmo diversas razões. O narrador oferece duas: a primeira, tipógrafo, demorava a aprender e pagava mal, ser caixeiro num armarinho lhe feria o orgulho pela obrigação de atender e servir. As demais são apenas mencionadas: “fiel de cartório, contínuo de uma repartição anexa ao Ministério do Império, carteiro e outros empregos foram deixados pouco depois de obtidos” (Machado de Assis, 2008, p. 3). Claramente, Cândido não se dava à atenção detida por longo tempo, a estar parado, atender, servir, a obrigação constante, a monotonia desses empregos. Não se trata aqui de moralizar o personagem por sua antipatia ao trabalho assalariado; ninguém seria obrigado a gostar. Trata-se de observar sobre isso duas coisas: primeiro, que ele atribui seu insucesso a algo fora de si, ao caiporismo; segundo, que, diante de sua pobreza, a todas essas profissões ele preferiu a de “pegar escravos fugidos”: Cândido Neves perdera já o ofício de entalhador, como abrira mão de outros muitos, melhores ou piores. Pegar escravos fugidos trouxe-lhe um encanto novo . Não obrigava a estar longas horas sentado. Só exigia força, olho vivo, paciência, coragem e um pedaço de corda. Cândido Neves lia os anúncios, copiava-os, metia-os no bolso e saía às pesquisas. Tinha boa memória. Fixados os sinais e os costumes de um escravo fugido, gastava pouco tempo em achá-lo, segurá-lo, amarrá-lo e levá-lo. A força era muita, a agilidade também. (Machado de Assis, 2008, p. 5, grifo meu) Esse ofício era conforme as qualidades de Cândido Neves, forte, ágil, com boa memória e de “olho vivo”, e lhe trouxe um “encanto novo”. Observamos, desde já, que não há contradição em seu espírito, não há luta interna quanto a assumir esse ofício. Trata-se, afinal, de um ofício socialmente aceito e até bem-visto, como atesta o discurso do narrador no prólogo. Além disso, quando da captura de Arminda, o narrador comenta que “Quem passava ou estava à porta de uma loja, compreendia o que era e naturalmente não acudia” (Machado de Assis, 2008, p. 8, grifo nosso). Cândido Neves, tendo adotado essa ocupação, apaixona-se e se casa com Clara, uma moça pobre e órfã que vivia com sua Tia Mônica e com ela costurava para fora. Casados, passaram a viver os três juntos. A situação era de uma pobreza remediada, os ganhos não eram regulares, mas quando vinham eram bons e compensavam o período que passava sem ganhar. A alegria era comum aos três. O casal ria a propósito de tudo. Os mesmos nomes eram objeto de trocados, Clara, Neves, Cândido; não davam que comer, mas davam que rir, e o riso digeria-se sem esforço. (Machado de Assis, 2008, p. 4) Ambos queriam um filho, mesmo sabendo das dificuldades da vida, e contra os conselhos da Tia. Depois de algum tempo em que o filho “não sabendo daquele desejo específico, deixava-se estar escondido na eternidade”, Clara engravida, para grande felicidade do casal. Não houve mais que espreitar a aurora do dia grande. A esposa trabalhava agora com mais vontade, e assim era preciso, uma vez que, além das costuras pagas, tinha de ir fazendo com retalhos o enxoval da criança. À força de pensar nela, vivia já com ela, media-lhe fraldas, cosia-lhe camisas. (Machado de Assis, 2008, p. 4) Machado constrói nessas e em outras passagens do conto a felicidade que trazem os sentimentos de maternidade e paternidade. Mesmo com toda a dificuldade que passavam, não abriam mão do filho, que significava uma grande realização. O conflito começa a ganhar corpo quando os ganhos de Cândido Neves diminuem devido ao aumento da concorrência no interior desse ofício, que o narrador atribui ao desemprego. A pobreza faz com que emerja na casa, pela voz da Tia Mônica, a ideia de darem o filho para a Roda dos Enjeitados. Levado pelo desespero, Cândido revisa anúncios velhos e se lança em tentativas frustradas, como quando capturou um “preto livre” e tomou uma surra dos seus parentes. Contudo, chegam à situação em que são despejados da casa pobre em que moravam. Tia Mônica consegue para os três um quarto de favor na casa de uma senhora rica e dois dias depois o filho nasce. Diante da situação extrema, ela convence o casal a entregá-lo à Roda. E aqui tomamos o primeiro contato com nossa heroína: Naquela [noite] reviu todas as suas notas de escravos fugidos. As gratificações pela maior parte eram promessas; algumas traziam a soma escrita e escassa. Uma, porém, subia a cem mil-réis. Tratava-se de uma mulata; vinham indicações de gesto e de vestido. Cândido Neves andara a pesquisá-la sem melhor fortuna, e abrira mão do negócio; imaginou que algum amante da escrava a houvesse recolhido. Agora, porém, a vista nova da quantia e a necessidade dela animaram Cândido Neves a fazer um grande esforço derradeiro. Saiu de manhã a ver e indagar pela Rua e Largo da Carioca, Rua do Parto e da Ajuda, onde ela parecia andar, segundo o anúncio. Não a achou; apenas um farmacêutico da Rua da Ajuda se lembrava de ter vendido uma onça de qualquer droga, três dias antes, à pessoa que tinha os sinais indicados. Cândido Neves parecia falar como dono da escrava, e agradeceu cortesmente a notícia. Não foi mais feliz com outros fugidos de gratificação incerta ou barata. (Machado de Assis, 2008, p. 7) Chama a atenção que a recompensa pela sua captura seja alta. É de notar também que Cândido atribua a dificuldade de encontrá-la a ter sido recolhida por algum amante, bem como o seu comportamento de dono. Sem sucesso, na noite seguinte, Cândido sai com seu filho em direção à Roda, abraçando-o, beijando-o e pretendendo demorar-se ao máximo, tal era o seu conflito interior. Nesse caminho, que procura encompridar entrando por ruas paralelas, dá-se seu encontro e o nosso com Arminda. Ao vê-la, sentiu uma grande comoção, pediu ao farmacêutico que guardasse o filho e foi atrás dela. – Arminda! bradou, conforme a nomeava o anúncio. Arminda voltou-se sem cuidar malícia. Foi só quando ele, tendo tirado o pedaço de corda da algibeira, pegou dos braços da escrava, que ela compreendeu e quis fugir. Era já impossível. Cândido Neves, com as mãos robustas, atava-lhe os pulsos e dizia que andasse. A escrava quis gritar, parece que chegou a soltar alguma voz mais alta que de costume, mas entendeu logo que ninguém viria libertá-la, ao contrário . Pediu então que a soltasse pelo amor de Deus. – Estou grávida, meu senhor! exclamou. Se Vossa Senhoria tem algum filho, peço-lhe por amor dele que me solte; eu serei tua escrava, vou servi-lo pelo tempo que quiser. Me solte, meu senhor moço! – Siga! repetiu Cândido Neves. – Me solte! – Não quero demoras; siga! Houve aqui luta, porque a escrava, gemendo, arrastava-se a si e ao filho. (...) Arminda ia alegando que o senhor era muito mau, e provavelmente a castigaria com açoutes, – cousa que, no estado em que ela estava, seria pior de sentir. Com certeza, ele lhe mandaria dar açoutes. – Você é que tem culpa. Quem lhe manda fazer filhos e fugir depois? perguntou Cândido Neves. (Machado de Assis, 2008, pp. 7-8, grifos meus) Nota-se o apelo de Arminda à condição paterna de Cândido Neves. Arminda não tem nenhuma ciência do drama de Cândido, que estamos seguindo, e este não lhe responde; mas esse apelo indica a condição que está dada a nós, leitores: ambos vivem um mesmo drama; ambos querem salvar o próprio filho, Cândido, da Roda e da miséria; Arminda, da escravidão. Seguimos detalhadamente a pobreza e a perspectiva de entregar o filho, vividas por Cândido; mesmo que não simpatizemos com suas escolhas ou com aspectos do seu caráter, há uma construção pela qual sua finalidade é justificada, legítima. O sentimento da paternidade, de um direito natural de criar o próprio filho, conviver e viver com ele, é um fundamento da legitimidade de seu objetivo. Já os açoites e maldades do dono de Arminda, não conhecemos diretamente. Nesse contexto é que considero muito significativo o papel do prólogo: dá-nos a conhecer aquela peculiaridade da instituição da escravidão, a tortura. Cândido a culpa pela situação em que se encontra, arrastada grávida pelas ruas como um animal, e pelos açoites que “com certeza, ele lhe mandaria dar” – diz o narrador, em discurso indireto livre, sem comentar. Mas nós sabemos do que ela foge. As suas súplicas, reiterando os açoites, a condição de gestante que não impediria ou suavizaria nada, a maldade do dono, se somam à nossa imaginação habitada por máscaras e ferros. Mais ainda, sabemos do que ela quer livrar o filho. Alguém culparia uma pessoa que agisse, seja lá como for, para salvar o filho da tortura? Não a julgamos como Cândido, porque justificamos a sua fuga. Assim, para nós, leitores, a finalidade de Arminda compete com a de Cândido em teor e legitimidade. No interior do conflito, em que um dos lados vai perder o filho, os dois parecem se justificar. Essa igualdade entre eles se expressa também no título, “pai contra mãe”. Contudo, na sociedade escravista, evidentemente, não existe igual legitimidade. Isso fica claro, novamente, pela afirmação do narrador de que Arminda percebeu que ninguém a viria salvar. Ao contrário . Machado lança luz para a igual legitimidade, a partir do núcleo humano dos sentimentos de paternidade e maternidade, e para o fato de que a ordem social escravista prevalece na vida, na lei seguida por todos os que lhe recusam socorro e na consciência naturalizante do narrador e de Cândido Neves. Nesta ordem social, o conflito só pode ter um vencedor, e esse vencedor só pode ser o elo mais forte, neste caso – simbolicamente – o “pai”, branco livre e pobre. É claro que Arminda é arrastada e devolvida ao dono, que paga a recompensa a Cândido: Arminda caiu no corredor. Ali mesmo o senhor da escrava abriu a carteira e tirou os cem mil-réis de gratificação. Cândido Neves guardou as duas notas de cinqüenta mil-réis, enquanto o senhor novamente dizia à escrava que entrasse. No chão, onde jazia, levada do medo e da dor, e após algum tempo de luta a escrava abortou. O fruto de algum tempo entrou sem vida neste mundo, entre os gemidos da mãe e os gestos de desespero do dono. (Machado de Assis, 2008, p. 8) No campo do simbólico, diversos são os elementos que se poderiam aventar. A hierarquia patriarcal expressa na vitória do “pai”; a brincadeira com os nomes, Cândido, Neves, Clara, que denotam o branco; a oposição entre a classe dos homens livres e pobres e a classe escravizada. Contudo, considero mais profícuo perseguir a ideia de Arminda como núcleo humano capaz de desvendar todas as demais relações que compõem a sociedade escravista em seu caráter grotesco, e tendo como motor ou pathos desse núcleo humano a maternidade. É estar grávida, ser mãe, no interior da construção narrativa do drama de Cândido que traz à luz a sua humanidade. A condição de escrava é um obstáculo à realização da maternidade, uma relação que demanda a condição de sujeito. Na disputa do pai contra a mãe, aquele segue pai, esta termina não-mãe. Não se trata de eternizar a maternidade como condição de humanidade da mulher. Esta relação está em foco nesse conto, como poderiam estar outras; ela é uma das formas de relação que, historicamente, são negadas pela condição de escravidão. O interessante é que Machado elege aqui este vínculo humano para trazer à tona, por um lado, toda a inumanidade da escravidão e das figuras, proprietárias ou não, que a impõem; e, por outro, toda a humanidade da figura de Arminda, que se nega à subserviência e exige sua vida própria: exige ser mãe. O destino de Arminda carrega um elemento trágico, porque a sua condição nega a sua natureza própria, humana. Já Cândido, seu antípoda, mostra sua desumanidade pela ausência de conflito interno, de toda disputa em seus sentimentos – o que é preparado na narrativa, a começar pela opção do ofício. Embora tenha assistido a “todo esse espetáculo”, sua cabeça estava no filho que deixara com o farmacêutico. Em posse do dinheiro, ele voltou à farmácia, tomou o filho e levou-o de volta para casa, onde Tia Mônica o aceitou, já que trazia também o dinheiro e, tal como ele, condenou Arminda por fugir e abortar. Cândido Neves, beijando o filho, entre lágrimas, verdadeiras, abençoava a fuga e não se lhe dava do aborto. – Nem todas as crianças vingam, bateu-lhe o coração. (Machado de Assis, 2008, p. 9) O desfecho magistral do conto parece retomar a “ordem social e humana” do narrador na apresentação inicial, em que escravos fogem, sujeitos pobres e caiporas os pegam por recompensa e lojas exibem máscaras e ferros nas suas portas; uma ordem em que “nem todas as crianças vingam”. Cândido não pensou nessas palavras, sua atenção estava toda no filho, “não se lhe dava do aborto”. Essas palavras não foram pensadas, e sim batidas pelo seu coração. Sente-se legitimado, recompensado e realizado. Tudo está bem e conforme à ordem. Como Lukács nos mostra, nas obras de arte o desfecho lança luz a todo o enredo, conferindo-lhe significado. Aqui, terminamos com o sentimento de Cândido de legitimação e naturalização de um ato que contradiz o seu sentimento mais profundo, o amor parental. Observamos que o “prólogo” não é um pano de fundo social, sobre o qual passeiam personagens como estados de ânimo. Ali estão contidos elementos sociais concretos que movem a vida e o destino dos personagens, bem como elementos da naturalização da escravidão na consciência do narrador, que o coração de Cândido espelha. Notamos também que a ação se constrói para alcançar uma situação extrema, em que cada um dos dois personagens vive a sua paixão no mais alto grau, e assim expõem, como traços de seus próprios caracteres e de suas vidas individuais, os traços próprios das classes que representam. O destino de Arminda desvela a ausência da condição de sujeito, e portanto da maternidade, que a escravidão significa; o destino de Cândido Neves expõe, por um lado, a dificuldade da classe de pessoas livres e pobres sobreviverem na sociedade escravista, e, por outro, a sensibilidade e a consciência justificadoras da escravidão, no interior da qual, paradoxalmente, têm vantagens e privilégios. Outro aspecto essencial do pathos que esse conto alcança é o modo como ele traz à tona o vínculo determinativo entre as relações sociais objetivas e as subjetividades dos personagens. Cândido é forjado na sua pobreza e no seu privilégio com relação à classe escravizada. O sentido humano de seu caráter, que se mostra no amor ao filho, é rompido quando, na situação criada da contraposição com Arminda, tem a possibilidade objetiva e a tranquilidade subjetiva, advinda da aceitação social das suas ações “reivindicadoras”, de negar a ela aquilo mesmo pelo que luta para si. Arminda tem muito menos possibilidades objetivas: ou bem aceita a condição de escravidão para si e seu filho, e assim a sua desumanização; ou se rebela contra ela, e assim afirma sua humanidade. Não há, para ela, nenhuma terceira via. O seu heroísmo reside no fato de que, pela ação de fugir, reivindica a humanidade a si e ao filho. Mas esse mesmo heroísmo existe apenas na sociedade que estreitou ao mínimo ou a nada, pela escravidão, o escopo de vida e de humanidade de uma grande parcela de sua população. Machado desvenda assim o significado vivo da escravidão, tanto a humanidade dos escravizados, impedida de se realizar, como o modo como ela molda os caracteres das outras parcelas da sociedade, explicitando o nível de desumanização que se imprime no caráter da classe dominante e seus parasitas no processo de impor a sua dominação. É com esse desvendamento que Machado alcança a unidade do destino individual e do destino universal, dos indivíduos e das classes que representam, ou seja, a tipicidade ou pathos moderno. Mas, como ficou dito, essa conexão é trazida pela ação, a peculiar colisão imaginada pelo escritor. Considero, assim, possível afirmar que a pena de Machado é grega porque negra, e vice-versa, ou a pena de “um fluminense que quer ser lacedemônio” (MACHADO DE ASSIS, 2011, p. 36), para usar, em outro contexto, as suas próprias palavras. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS AZEVEDO, Sílvia Maria. “O ano da morte de Machado de Assis”. Jornal UNESP, nº 232, Ano XXI, abril de 2008, Suplemento. Disponível em: https://www.unesp.br/aci/jornal/232/supled.php#:~:text=No%20caso%20da%20morte%20de,29%20de%20setembro%20de%201908 . Acesso em 13/08/2020. BRANDÃO, Jacynto Lins. “A Grécia de machado de Assis”. In MENDES, Eliana Amarante de Mendonça; OLIVEIRA, Paulo Motta; BENN-IBLER, Veronika (Orgs). O novo milênio: interfaces lingüísticas e literárias . Belo Horizonte: Faculdade de Letras da UFMG, 2001. LUKÁCS, G. Arte e sociedade – Escritos estéticos de 1932-1967 . Organização, introdução e tradução de Carlos Nelson Coutinho e José Paulo Netto. Rio de Janeiro, Editora UFRJ, 2011. MACHADO DE ASSIS. “Pai contra mãe” [ Relíquias da Casa Velha , 1906]. Ministério da Educação e Cultura, Homenagem aos cem anos do falecimento de Machado de Assis. Obras Completas, São Paulo, 2008. Disponível em http://machado.mec.gov.br/ , acesso em 10 de abril de 2019. Textos extraídos de Obra Completa de Machado de Assis . Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. _______________. História de quinze dias, história de trinta dias . Organização de Sílvia Maria Azevedo. São Paulo, Editora UNESP, 2011. _______________. “Eça de Queiroz: O primo Basílio ” [ O Cruzeiro , 1878]. Obra Completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, vol. III, 1994. Notas : * Ana Cotrim é professora da Universidade de Brasília, possui graduação, mestrado e doutorado em filosofia pela Universidade de São Paulo e pós-doutorado em literatura pela Universidade Federal de Minas Gerais. [1] As páginas deste texto referem-se ao PDF da edição digital referida bibliografia (2008). [2] Em “Eça de Queirós: O primo Basílio ”. [3] O processo pelo qual a classe proprietária foi indenizada pela libertação dos escravos, manteve a propriedade das terras e o poder de impor a permanência dos recém-libertos em situação análoga à escravidão, ou a sua marginalização nas cidades, por meio do não-assalariamento deles. Esse processo pode levar a incluir-se, no discurso dessa classe, palavras contrárias à escravidão, defensoras da liberdade; mas, como vemos nas asserções do narrador, não deixa de naturalizar a existência pregressa da escravidão (o que é consistente com a intenção da classe de estendê-la na prática o mais possível). Sobre o processo da abolição conservadora e a posição da elite proprietária, ver, de Machado de Assis, a crônica de 19 de maio de 1888 da Gazeta de Notícias, Bons dias! (Pancrácio) e a crônica de 27 de setembro de 1887 da Gazeta de Holanda ( Statu liber ).
- Liev Tolstói como um espelho da revolução russa
por V. I. Lênin Imagem: Galeria Estatal Tretiakov Com muita satisfação, iniciamos a comemoração dos 195 anos de nascimento de Tolstói com a publicação do primeiro texto de Lênin a respeito do “artista genial”. O presente artigo teve sua primeira versão em língua portuguesa na excelente tradução feita pela intelectual e militante marxista Eneida de Morais para a versão brasileira ( Trechos escolhidos sobre literatura e arte: Marx, Engels, Lenin e Stalin. Rio de Janeiro: Editorial Calvino, 1945 ) da antiga e quase esquecida compilação de trechos francesa ( Sur la littérature et l’art: Marx, Engels, Lénine, Staline. Éditions Sociales Internationales) feita por Jean Fréville e publicada em 1936. Uma segunda tradução foi feita pela Editora Avante! em Portugal ( Lénine, V. I. Obras Escolhidas em seis tomos, Edições Avante!, 1984, Tomo I, p. 364-368 ). Tendo como base fundamental as duas traduções em português, consultamos a versão do texto de Lênin em espanhol ( Lenin, V. I. Obras completas. Tomo XVII, Moscou: Progreso, 1983, p. 212-219 ) e em inglês ( Lenin, V. I. Collected Works. Vol. 15, Moscow: Progress, 1973, p. 202-209 ), nos dedicando a uma intensa e cuidadosa consulta ao texto em seu original russo nas Obras Completas . Ainda que nossa proficiência no idioma materno de Lênin seja muito débil, e a versão que estamos apresentando ao leitor não seja mais que uma versão provisória, nossa principal preocupação foi retomar o sentido de alguns elementos perdidos pelas traduções em português, buscando restabelecer algumas importantes expressões e ideias do autor. Da mesma forma, revisamos e adicionamos notas explicativas que ajudem na compreensão do artigo. As palavras destacadas em negrito respeitam o texto original escrito por Lênin. Revisão de tradução por Pedro Badô. Revisão textual por Wesley Sousa. A associação do nome do grande artista à revolução, a qual ele evidentemente não compreendeu, da qual ele claramente se afastou, pode parecer, à primeira vista, estranha e artificial. Deveria chamar espelho algo que obviamente não reflete de maneira correta o fenômeno? Mas nossa revolução é um fenômeno extremamente complexo; entre a massa de seus agentes diretos e de seus participantes há muitos elementos sociais que também não compreendiam claramente o que estava acontecendo, que também se afastaram das verdadeiras tarefas históricas que lhes foram impostas pelo decorrer dos acontecimentos. E se temos diante de nós um artista verdadeiramente grande, ele deve ter refletido [отразить, otrazit' ] em suas obras, pelo menos, alguns dos aspectos essenciais da revolução. A imprensa legal russa, repleta de artigos, de cartas e de notas a respeito do octogésimo aniversário de Tolstói, pouco se interessa pela análise de suas obras do ponto de vista do caráter da revolução russa e de suas forças motrizes. Toda essa imprensa transborda, a ponto de causar náuseas, hipocrisia, e hipocrisia de dois tipos: oficial [(estatal); казенным, kazennym ] e liberal. A primeira é a hipocrisia grosseira dos escrevinhadores vendidos que, até ontem, tinham ordem de perseguir L. Tolstói e que, hoje, têm ordem de buscar nele patriotismo, tentando manter as aparências diante da Europa. Que esse tipo de escrevinhadores são pagos pelo que escrevem é um fato do qual todos sabem, e eles não conseguem enganar ninguém. Muito mais sutil, e, por isso, muito mais nociva e perigosa, é a hipocrisia liberal. Ouça os kadetes [1] Balalaikin [2] do Riech [3] , sua simpatia por Tolstói é a mais plena e ardente. Na verdade, a declamação calculada e as frases pomposas sobre “o grande buscador de Deus” [“великом богоискателе”, “ velikom bogoiskatele ”] não passam de completa falsidade, porque o liberal russo não tem nem fé no deus tolstoiano, nem simpatiza com a crítica tolstoiana ao sistema existente. O liberal russo associa-se a um nome popular para aumentar seu capital político, para desempenhar o papel de líder da oposição nacional, ele tenta abafar , com trovões e frases estrondosas, a necessidade de uma resposta direta e clara à questão: de onde vêm as contradições gritantes do “tolstoismo” [4] , quais os defeitos e quais são as fraquezas de nossa revolução que elas refletem? As contradições nas obras, na visão, nos ensinamentos e na escola de Tolstói, são, realmente, gritantes. De um lado, o artista genial que deu não apenas imagens incomparáveis da vida russa, mas também obras de primeira classe da literatura mundial. De outro lado, um senhor proprietário de terras que é um beato louco em Cristo [5] . De um lado, um protesto extraordinariamente forte, direto e sincero contra a mentira e a falsidade sociais; de outro lado, o “tolstoísta”, isto é, um decrépito, um molenga histérico, denominado intelectual russo que, batendo no peito em público, diz: ‘‘Eu sou ruim, eu sou vil, mas estou engajado no autoaperfeiçoamento moral; não como mais carne e me alimento agora de bolinhos de arroz”. De um lado, a crítica implacável à exploração capitalista, a exposição da violência governamental, da comédia dos tribunais e da administração pública, revelando a profundidade das contradições entre o crescimento das riquezas, as conquistas da civilização e o crescimento da miséria, da selvageria e dos sofrimentos das massas trabalhadoras; de outro lado, a pregação abobalhada e beata [юродивая, yurodivaya ] da “não resistência ao mal” pela violência [6] . De um lado, o mais sóbrio realismo, o arrancar de todo e qualquer tipo de máscara; de outro lado, a pregação de uma das coisas mais asquerosas que existem no mundo, a saber: a religião, o desejo de substituir os padres nomeados oficialmente por padres por convicção moral, ou seja, um culto do sacerdotismo [7] em sua forma a mais requintada e, por isso mesmo, especialmente repugnante. De fato: Tu és miserável, e tu és fecunda Tu és poderosa, e tu és impotente – Mãe Rússia! [8] É evidente que, diante de tais contradições, Tolstói não podia, absolutamente, compreender nem o movimento de trabalhadores, e seu papel na luta pelo socialismo, nem a revolução russa. Mas as contradições na visão e nos ensinamentos de Tolstói não são um acaso, e sim a expressão das condições contraditórias nas quais a vida russa foi colocada durante o último terço do século XIX. A aldeia patriarcal, que acabava de se libertar da servidão, fora, literalmente, entregue à circulação e à pilhagem do capital e do Fisco [9] . Os antigos fundamentos da economia camponesa e da vida camponesa – fundamentos que, de fato, resistiram por séculos –, foram demolidos com extraordinária rapidez. E as contradições da visão de Tolstói devem ser avaliadas não do ponto de vista do contemporâneo movimento operário e do contemporâneo socialismo (tal avaliação é, naturalmente, indispensável, mas não basta), mas sim do ponto de vista do protesto contra o capitalismo iminente, contra a ruína das massas e o desapossamento de suas terras, um protesto que vinha, necessariamente, da aldeia patriarcal russa. Tolstói é ridículo enquanto profeta que descobriu novas receitas para a salvação da humanidade – e, portanto, é por isso que são profundamente miseráveis os “tolstoianos” estrangeiros e russos que quiseram transformar em dogma precisamente o lado mais débil de seus ensinamentos. Tolstói é imenso como porta-voz das ideias e do estado de espírito [(humor); настроений, nastroyeniy ] que se formaram entre os milhões de camponeses russos no momento do início da revolução burguesa na Rússia. Tolstói é original porque a totalidade de suas opiniões, tomadas em conjunto, exprime precisamente as peculiaridades de nossa revolução, como uma revolução burguesa camponesa . As contradições na visão de Tolstói, desse ponto de vista, são um verdadeiro espelho das condições contraditórias nas quais se desenrolava a atividade histórica do campesinato no decorrer de nossa revolução. De um lado, séculos de opressão servil e décadas de ruína imposta pós-reforma [10] acumularam montanhas de ódio, de raiva e de determinação decorrente do desespero. O esforço de varrer completamente a Igreja oficial, os senhores proprietários de terras e o governo dos senhores proprietários de terras, de destruir todas as antigas formas e regulamentações da propriedade da terra, de limpar o terreno, de substituir o Estado de classe policialesco por uma vida em comunidade [общежитие, obshchezhitiye ] entre pequenos camponeses livres e iguais em direitos, – esse esforço atravessa como um fio vermelho cada passo da ação histórica dos camponeses em nossa revolução, e não há dúvida de que o conteúdo ideológico dos escritos de Tolstói corresponde muito mais a esse esforço camponês que ao abstrato “anarquismo cristão”, como às vezes definem o “sistema” de suas visões. De outro lado, o campesinato, buscando novas formas de vida em comunidade, tinha uma atitude muito inconsciente, patriarcal, simplória [по-юродивому, po-yurodivomu ] a respeito de como devia ser essa vida em comunidade, de que tipo de luta seria necessário para conquistar sua liberdade, de que tipo de líder ele podia ter nessa luta, de como os interesses da revolução camponesa são tratados pela burguesia e pela intelligentsia burguesa, de por qual razão é necessária a derrubada violenta do poder tsarista para aniquilar a propriedade senhorial da terra. Toda a vida passada do campesinato lhe ensinou a odiar o senhor e o funcionário público, mas não lhe ensinara e não poderia lhe ensinar onde procurar respostas para todas essas questões. Em nossa revolução, a minoria do campesinato efetivamente lutou, organizando-se minimamente para esse fim, e uma parte ínfima levantou-se de armas nas mãos para exterminar seus inimigos, para aniquilar os servidores do tsar e os defensores dos senhores proprietários de terra. A maior parte do campesinato chorou e rezou, debateu e sonhou, escreveu petições e enviou “requerentes” – bem ao espírito de Liev Nikoláievitch Tolstói! E, como acontece sempre nestes casos, a abstenção tolstóica da política, a renúncia tolstóica à política, sua falta de interesse por ela e por compreendê-la, fizeram com que somente uma minoria seguisse o proletariado consciente e revolucionário, enquanto a maioria tornou-se uma presa para essa intelligentsia burguesa servil e sem escrúpulos que, sob o nome de kadetes, corriam das assembleias dos trudovikes [11] a ante-sala de Stolípin [12] , mendigando, negociando, conciliando, prometendo conciliar – até que fossem expulsos a pontapés por um soldado. As ideias de Tolstói são um espelho da fraqueza, das insuficiências de nossa insurreição camponesa, o reflexo da frouxidão [мягкотелости, myagkotelosti ] da aldeia patriarcal e da covardia embrutecida do “ mujik empreendedor” [13] . Veja as insurreições dos soldados dos anos de 1905-1906. A composição social desses lutadores de nossa revolução é intermediária entre o campesinato e o proletariado. Este último está em minoria; por isso o movimento nas tropas não mostra, nem sequer aproximadamente, essa coesão ao nível de toda a Rússia e essa consciência partidária, reveladas pelo proletariado, que, como num passe de mágica, tornou-se social-democrata. Por outro lado, não há nada mais incorreto do que a opinião de que o motivo do fracasso das insurreições dos soldados foi a ausência de líderes entre os oficiais. Pelo contrário, o gigantesco progresso da revolução desde os tempos da Naródnaia Vólia [14] manifestou-se justamente no fato que foi o “gado cinzento” [15] que pegou em armas contra os superiores, cuja independência tanto amedrontou os proprietários de terra liberais e os oficiais liberais. O soldado estava cheio de simpatia pela causa camponesa; seus olhos brilhavam só de falar da terra. Mais de uma vez o poder nas tropas passou para as mãos da massa de soldados – mas eles quase não se utilizaram de maneira decisiva desse poder; os soldados hesitavam; depois de alguns dias, às vezes depois de algumas horas, tendo matado algum oficial odiado, eles libertavam o restante aprisionado, entravam em negociações com as autoridades e eram submetidos ao fuzilamento, tombavam sob o açoite, submetiam-se novamente ao jugo — bem ao espírito de Liev Nikoláievitch Tolstói! Tolstói refletiu o ódio em ebulição, o amadurecido esforço por uma mudança para algo melhor, o desejo de se libertar do passado – e dos imaturos devaneios, da falta de educação política, da frouxidão frente à revolução. As condições histórico-econômicas explicam tanto a necessidade da luta revolucionária das massas quanto o seu despreparo para essa luta, a não-resistência ao mal tolstoiana, que foi o motivo mais grave da derrota da primeira campanha revolucionária. Dizem que a derrota ensina bem aos exércitos. Claro, a comparação entre classes revolucionárias e exércitos é justa apenas em um sentido muito limitado. O desenvolvimento do capitalismo, a cada momento, modifica e agudiza as condições que empurraram os milhões de camponeses, reunidos pelo ódio aos senhores proprietários de terra defensores da servidão [помещикам-крепостникам, pomeshchikam-krepostnikam ] e seu governo, para a luta democrático-revolucionária. Entre o próprio campesinato, o crescimento da troca, o domínio do mercado e o poder do dinheiro expulsam, cada vez mais, a antiguidade patriarcal e a ideologia patriarcal tolstoiana. Mas há um ganho dos primeiros anos da revolução e das primeiras derrotas na luta revolucionária de massas que é indubitável: é o golpe mortal dado à antiga tendência ao esfacelamento e à moleza [дряблости, dryablosti ] das massas. As linhas de demarcação tornaram-se mais nítidas. As classes e os partidos delimitaram-se. Sob o martelo das lições stolípincas [16] , com a constante e firme agitação dos revolucionários social-democratas, não somente o proletariado socialista, mas também as massas democráticas do campesinato inevitavelmente apresentarão lutadores cada vez mais aguerridos, cada vez menos capazes de cair no nosso pecado histórico do tolstoismo! Proletari , nº 35, 11 (24, no calendário gregoriano) de setembro de 1908. Notas: [1] Os kadetes – também grafado como “cadetes” –, eram os integrantes do Partido da Liberdade do Povo (Па́ртия Наро́дной Свобо́ды, Pártiia Naródnoi Svobódi ), também chamado Partido Constitucional-Democrata (Конституционно-демократическая партия, Konstitutsionno-demokraticheskaia partiia , e daí a sigla K.D.), formado na Rússia em outubro de 1905. Foi o principal partido da burguesia monárquica liberal. Seu programa partidário tinha, em geral, o objetivo de transformar o tsarismo em uma monarquia constitucional. [2] Balalaikin, personagem da obra do escritor satírico russo Mikhail Ievgráfovitch Saltíkov-Shtchedrín, Idílio Moderno (Совреме́нная иди́ллия, Sovreménnaya idílliya) , era conhecido por seu charlatanismo, seu aventureirismo e por suas mentiras. (Nota da edição em espanhol). [3] O jornal Riech ( O Discurso ) foi o órgão central do Partido Constitucional-Democrata – dos kadetes –, publicado diariamente em São Petersburgo entre 1906 e 1917. [4] O termo “толстовщины”, (“ tolstovshchiny ”) é a aglutinação entre o nome de Tolstói (“толстов-”, “ tolstov- ”) e a partícula “-щина” (“- shchina ”), a qual, em russo, costuma designar algum tipo de coletividade. Algumas vezes a partícula pode designar um modo de vida coletivo, tal qual na palavra “община” (“ obshchina ”) – a antiga comuna agrária russa –, como também alguma instituição ou prática social, como no caso da aglutinação entre “бар-” (“ bar- ”) – advindo de “барин” (“ barin ”), “nobre” ou “boiardo” – e “-щина” (“- shchina ”), formando o termo “барщина” (“ barshchina ”), imposto feudal devido pelo camponês ao seu senhor, que costuma ser traduzido para o português como “corvéia”. Por fim, a partícula pode designar uma tendência ideológica ou comportamento social, tendo, muitas vezes, sentido pejorativo, como no caso do termo “обломовщина” (“ oblomovshchina ”), traduzido como “oblomovismo”, resultante da aglutinação entre o nome “обломов-” (“ oblomov- ”) e “-щина” (“- shchina ”) e que se refere às características do personagem Oblómov, um decadente filho da nobreza rural russa, do romance homônimo de Ivan Aleksándrovitch Gontcharov. [5] Com a expressão “юродствующий во Христе” (“ yurodstvuyushchiy vo Khriste ”), Lênin aqui faz referência à figura dos yurodivy (юродивый) – ou yurodstvo (юродство) –, os ascetas cristãos do mundo católico ortodoxo considerados loucos, fanáticos, excêntricos, simplórios e inocentes. São historicamente descritos no ocidente europeu como “ holy fools ”, com sua “loucura por Cristo” (“ foolishness for Christ ”). Para o público brasileiro, costuma-se fazer uma analogia com a antiga figura histórica do beato sertanejo, do profeta popular, ainda que exista certa distância histórica entre a particularidade brasileira e a particularidade russa no que tange à religião. [6] Em russo “‘непротивления злу’ насилием”, (“ ‘neprotivleniya zlu’ nasiliyem ”). A partir de uma exegese própria dos textos bíblicos – principalmente do Sermão da Montanha e sua ideia de “dar a outra face” –, Tolstói elaborou o princípio segundo o qual o indivíduo não deve nunca responder com violência, ainda que esteja sendo submetido a algum tipo de agressão (Cf. Tolstói, L. O reino de Deus está em vós . Rio de Janeiro: BestBolso, 2011). [7] Com a expressão “поповщины” (“ popovshchiny ”), Lênin refere-se aqui à questão dos chamados velhos crentes (староверы, starovery ), movimento surgido a partir da recusa em aderir às reformas litúrgicas do Patriarca Nikon no século XVII, resultando em um cisma na Igreja Ortodoxa russa por volta de 1666. Internamente a esse setor divergente da oficialidade ortodoxa – os velhos crentes –, destacavam-se dois grupos principais: os velhos crentes sacerdotais – os popovtsy (поповцы) – e os velhos crentes sem sacerdotes – os bezpopovtsy (беспоповцы). Ao contrário dos bezpopovtsy , os popovtsy , que representavam uma oposição conservadora mais moderada à Igreja reformada, buscaram dar continuidade às práticas religiosas que existiam antes das reformas de Nikon, reconhecendo o sacerdócio e criando uma estrutura eclesiástica própria. [8] Trecho do poema épico de Nikolai Nekrássov, Quem vive bem na Rússia (Кому на Руси жить хорошо, Komu na Rusi zhit' khorosho ), publicado em quatro partes a partir de 1866. “Ты и убогая, ты и обильная, [ Ty i ubogaya, ty i obil'naya, ] Ты и могучая, ты и бессильная – [ Ty i moguchaya, ty i bessil'naya – ] Матушка Русь! [ Matushka Rus'! ]” [9] No texto original como “фиску” (“ fisku ”), trata-se do Tesouro do Estado (государственная казна, gosudarstvennaya kazna ) ou Fazenda pública. (Nota da edição em russo). [10] Lênin refere-se aqui à reforma do tsar Aleksandr II que, em 1861, aboliu legalmente o regime de servidão na Rússia. [11] Os trudovikes, ou trudoviques – chamados também de “trabalhistas”, já que “труд” (“ trud ”) designa “trabalho” –, pertenciam ao Grupo do Trabalho (Трудова́я гру́ппа, Trudovaya gruppa ). Surgiram como dissidentes dos socialistas revolucionários russos em abril de 1906, pois defendiam a necessidade de disputar as eleições para a I Duma de Estado. Possuíam um amplo apoio entre as massas camponesas. [12] Piotr Arkadievitch Stolípin foi primeiro-ministro do tsar Nicolau II entre 1906 e 1911, tendo sido o principal responsável pela repressão aos levantes das massas populares durante o período. Além disso, ficou conhecido por engendrar um plano de reforma agrária que aceleraria a transformação dos camponeses em pequenos proprietários – extinguindo definitivamente a obshchina – sem que isso implicasse na expropriação dos antigos proprietários de terra. [13] A expressão “хозяйственного мужичка” ( “khozyaystvennogo muzhichka” ), por vezes traduzida como “ mujik próspero” ou “camponês econômico”, é uma referência literária a um ensaio de Saltíkov-Shtchedrín – intitulado Мелочи жизни ( Melochi zhizni ), algo como As pequenas coisas da vida , em tradução livre – de 1886. O termo foi amplamente utilizado por Lênin para referir-se aos pequenos proprietários camponeses que compunham uma ascendente camada rural pequeno-burguesa. [14] Naródnaia Vólia (Народная воля), traduzido livremente como Vontade do Povo, foi uma organização de revolucionários socialistas surgida em 1879 que tinha como ação principal o terrorismo contra figuras do tsarismo. [15] Entre meados do século XIX e início do século XX, a expressão “серая скотинка” (“ seraya skotinka ”), traduzida mais precisamente para “gado cinzento/cinza” – ou também “rebanho cinza” –, era usada com ironia e desdém para descrever a massa de soldados russos, os quais eram recrutados, em sua maioria, entre o campesinato pobre. O adjetivo “серая” (“ seraya ”), uma alusão direta à cor cinza dos sobretudos que compunham os uniformes, parece ter um duplo sentido na medida em que essa mesma palavra também carrega o forte sentido de algo “apagado”, “medíocre”, “insignificante”, “rude” e “inculto”, o que parece ser uma referência às condições degradantes a que os soldados eram submetidos. [16] Em russo, “столыпинских”, (“ stolypinskikh ”), refere-se ao primeiro-ministro Stolípin.












