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- Carta de Marx a Freiligrath - 29 de fevereiro de 1860
Apresentação Rafael Jácome (Barravento) Como Gustavo Machado aponta em seu livro “Marx e a História”, a pesquisa não deve se justificar por si mesma. Ela deve ter um objeto claro: o desenvolvimento da razão como forma de compreensão e transformação do mundo, como forma de negação da ideologia e como um dos motores centrais para a classe e seus movimentos revolucionários, para que estes não caiam nas mistificações operadas pela ideologia dominante da sociedade burguesa. Em suma, como todos os demais elementos que nossa classe se vale no seu processo de organização, a razão cientifica atende a determinações da mundanidade e é necessário que essa mundanidade se expresse em fina conexão com nossas aspirações de classe. Direta ou indiretamente. Entretanto, se é verdade que num polo temos uma mistificação da ciência, como se a atividade científica fosse por si autossuficiente, num outro polo temos a mistificação das organizações de classe, da qual esta mesma ciência deve beber e nutrir. Fato é que organizações proletárias, apesar de necessárias, também possuem seu caráter mundano, transitório e seus limites se tornam explícitos na medida que elas perdem seu caráter de utilidade naquilo que tanto a atividade intelectual, quanto a cotidianidade da luta nos demonstram; a necessidade de superação do capitalismo ou seremos nós mesmos “superados” enquanto humanidade. Em alguns círculos militantes impera a máxima “a prática é o critério da verdade”, mas por vezes tal jargão aparece na fraseologia praticista como uma defesa irrestrita do impulso voluntário pouco refletido, do esforço não cientificamente fundamentado ou da reflexão limitada de uns poucos, se tornando quase um sacrilégio aceitar o caráter transitório do que existe somente como meio e não como finalidade em si mesma; nossas formas organizativas. É curioso pensar o quanto o velho Marx, um dirigente substancialmente imerso nas lutas de seu tempo, articulador internacional do movimento proletário e, como consequência também disto tudo, um exímio intelectual voltado para os dilemas humanos de seu tempo e dos nossos, não passaria no crivo desse praticismo e seria condenado pelos arautos da “ação” (como o foi). Claro, a condenação hoje somente aconteceria se não soubessem quem é Marx de antemão, visto que até mesmo ele foi mistificado, seja como intelectual de gabinete (“um leão sem juba”), seja como um dirigente romanticamente apegado a “efemeridade” organizativa. Ao contrário desses arquétipos simples o refinamento de Marx vai em outro rumo, como ele mesmo coloca: " Por partido eu entendia o grande sentido histórico que a palavra contém." Sem mais delongas, cabe apontar que Marx era tanto o pesquisador refinado, quanto o militante e, mais precisamente, era a síntese de ambos. Uma síntese tão rica no plano da intelectualidade e da ação cotidiana, ao ponto de refletir sobre qual ênfase adotar (organizadamente ou não) a depender da conjuntura, como vemos no texto. Com a palavra, Marx. *** Caro Freiligrath, Foi muito agradável receber a tua carta. Mantenho relações de amizade com poucas pessoas, mas gosto de conservar os amigos. Os que o foram em 1844 mantiveram-se até agora. Quanto à parte oficial da tua carta, verifico que se baseia em equívocos grosseiros… Quero acentuar, desde já, que, a partir do momento em que a “Liga”, mediante proposta minha , foi dissolvida em Novembro de 1852, nunca mais pertenci a qualquer organização secreta ou pública e ainda hoje não pertenço a nenhuma. Assim, o partido, dentro dessa noção essencialmente efêmera, deixou de existir para mim, há oito anos. As conferências sobre economia política que fiz, depois de publicar a minha obra (Outono de 1859), perante alguns operários escolhidos, onde havia antigos membros da Liga, nada tinham de comum com uma organização fechada, muito menos fechada que as conferências do Sr. Gerstenberg, no seio da comissão Schiller. Lembras-te, certamente, de eu ter recebido uma carta dos dirigentes da Liga dos Comunistas de Nova Iorque, que conta numerosas ramificações (entre os dirigentes, figurava Albrecht Komp, diretor do General Bank, 44, Exchange Place, Nova Iorque). Nessa carta, que te passou pelas mãos, pediam-se para, em certa medida, reorganizar a Liga. Entretanto, passou-se um ano e, quando respondi, disse-lhes que, desde 1852, não tinha relações com nenhuma organização e mostrava-me firmemente convencido do fato de os meus trabalhos teóricos serem mais úteis à classe operária do que uma colaboração com organizações já sem razão de ser no continente. Depois disso, na Neue Zeit londrina de Scherzer, foi, por várias vezes, violentamente atacado, embora sem me nomearem, mas de maneira a ninguém poder enganar-se quanto à pessoa visada, e tudo por causa dessa “inatividade”… Por conseguinte, desde 1852, não conheço nada do que seja um “partido’, no sentido da tua carta. Se tu és poeta , eu sou crítico e, na verdade, estava farto das experiências vividas de 1849 a 1852. A “Liga”, como a “Sociedade das Épocas”, de Paris, e como muitas outras, não passou de um episódio na história do partido que nasce espontaneamente do solo da sociedade moderna. … O “sistem of mockery and contempt” (sistema do escárnio e do desprezo), como Louis Simon o designou, em 1851, na Tribune , foi a única ação que continuei depois de 1852, contra o “bluff” democrático da emigração e o jogo da revolução . O teu poema contra Kinkel e as cartas que me escreveste na mesma altura demonstram como estavas perfeitamente de acordo comigo. De resto, isso nada tem a ver com os processos em tribunal. Tellering, Bangya e Fleury nunca pertenceram à Liga. As tempestades, sem dúvida, levantam lama, nenhum período revolucionário cheira a água de rosas, em certos momentos apanha-se toda a espécie de dejetos. Aut, aut (Adiante!). De resto, quando se pensa nos gigantescos esforços dirigidos contra nós por todo o mundo oficial que, para nos perder, não se contentou em aflorar o código penal, mas nele chafurdou profundamente; quando se pensa nas calúnias divulgadas pela “democracia da imbecilidade”, que nunca pôde perdoar ao nosso partido a superioridade de inteligência e caráter em relação a ela; quando se conhece a história contemporânea de todos os outros partidos e quando, por último, nos interrogamos sobre aquilo de que, realmente, se poderia acusar o partido em bloco (e não as infâmias de um Vogt ou de um Tellering, que podem ser rebatidas nos tribunais) teremos de chegar à conclusão de que o partido, neste século XIX, se distingue brilhantemente pela sua decência e dignidade. É possível evitar a lama no mundo e nos negócios da burguesia? A lama tem é aí o seu lugar de eleição. … A meu ver, a infâmia honesta ou a honestidade infame da moral solvente (e ainda, como o demonstra cada crise comercial, com reservas muito equívocas) em nada é superior à infâmia abjeta que nem as comunidades cristãs primitivas, nem o Clube dos Jacobinos, nem a nossa “Liga” defunta conseguiram eliminar do seu seio. Só quando se vive no meio burguês é que se costuma perder a noção da infâmia respeitável ou da infame respeitabilidade… Manifestei sem reservas a minha opinião e espero ver-te aderir a ela no essencial. Tentei, por outro lado, dissipar o equívoco quanto ao “partido”, como se esta palavra significasse para mim uma “Liga” desaparecida há oito anos ou uma redação de jornal dissolvido há doze. Por partido eu entendia o grande sentido histórico que a palavra contém. Marx: Carta a Freiligrath, de 29 de Fevereiro de 1860. Mehring: “Correspondência entre Freiligrath e Marx”, pp. 42-46, Stuttgart, 1912.O presente texto foi retirado da coletânea Sobre Literatura e Arte (Editorial Estampa). __________________________________________________________________________________________ *A presente publicação foi retirada do portal Critica Desapiedada .
- Tempos de genocídio
Por ANA SELVA ALBINATI* Imagem: Mohammed Abubakr APRESENTAÇÃO Por Rodrigo Vieira Ferreira (Barravento) Estimulada pela recente ofic ialização do t ão aguardado cessar fogo em Gaza , prova de que a resistência palestina e o apoio internacional podem surtir efeitos, a Equipe Editorial da Revista Barravento traz ao leitor um texto que trata do sofrimento e do Sumud (resistência) do povo palestino como a primeira publicação desta semana. Trata-se do texto intitulado “Tempos de genocídio” de autoria da professora Ana Selva Albinati , publicado originalmente no site A Terra é Redonda [1] . São várias as camadas contributivas deste texto para compreender criticamente as origens históricas e a extrema vigência do conflito no território palestino, das quais destacamos três “camadas” que certamente fazem deste texto uma leitura essencial acerca da temática em tela. A primeira delas diz respeito ao apanhado histórico dos principais acontecimentos, entraves políticos e diplomáticos e os levantes populares ocorridos ao longo dos últimos cem anos que marcaram o conflito no terriotório palestino, apanhado que, a nosso ver, é contributivo em especial para leitores que ainda não tiveram contato com literatura especializada sobre esta temática. Entre tais acontecimentos, destacam-se, por exemplo, o domínio britânico da Palestina na primeira metade do século XX, que “termina por favorecer os interesses dos ocupantes judeus”, as desmedidas recomendações de partilha da Palestina em dois estados pela ONU “Sem qualquer consideração pela composição étnica da população”, a criação do “plano Dalet”, a partir do qual “se decide pela expulsão dos palestinos de forma sistemática e total de sua pátria”, a criação do Hamas no ano de 1987, grupo que estabelece “por via eleitoral o controle sobre a Faixa de Gaza a partir de 2006”. Todos esses acontecimentos somam-se ainda a atuação da mídia ocidental ao longo dos anos, responsável por perpetrar o entrelaçamento entre o discurso islamofóbico e a exaltação do assim chamado caráter “terrorista” dos levantes populares palestinos. O texto a seguir contém ainda outra camada que corrobora sua relevância: a retomada dos escritos marxianos bem como de outros autores visando tecer apontamentos críticos acerca da gênese histórica da ideologia sionista e do projeto de criação do Estado de Israel. Ao fazer este movimento, Ana Selva pretende, ainda que sinteticamente, explicitar a umbilical relação entre a gênese e o desenrolar da “questão judaica” - bem como tratada por Marx em “A questão Judaica” - e o desenvolvimento do capitalismo. Trata-se de uma análise materialista consequente, compreendendo que “o desenvolvimento do capitalismo impulsionou a evolução da questão judaica por caminhos diametralmente opostos”. Se de um lado o desenvolvimento capitalista propicia a incorporação dos judeus na vida econômica e cultural nos países da Europa ocidental, de outro, ao concentrá-los nos grandes centros urbanos, ao mesmo tempo que gera “recrudescimento do antissemitismo, estimula o desenvolvimento do nacionalismo judeu”. Assim sendo, o crescente antissemitismo ao longo do século XIX e o desenvolvimento do nacionalismo judeu andaram de mãos dadas, incorrendo na vitória da saída sionista proposta por Moses Hess, responsável por transformar “a história em acontecimento teológico. Em vez de uma compreensão histórica, se recai no mito da essência judaica, da terra prometida e do povo eleito”. A este respeito, a autora aponta, em diálogo com diversas referências sobre o assunto, que a gênese e o fortalecimento do sionismo se deram entrelaçados à criação de mitos - e aqui acrescentamos: mitos irracionalistas -, muitos dos quais de cunho explici tamente religioso, como é o caso da ideia que concebe os judeus como um “povo eleito” ou ainda a ideia que defende a existência de uma “terra prometida” que lhe seria de direito. Ainda em se tratando da criação de mitos, segunda a autora, as narrativas compromissadas com o sionismo visam “qualificar os palestinos como selvagens, atrasados e menos humanos” ao mesmo tempo que outorgam o mito dos judeus enquanto um “povo eleito” e reforçam o estereótipo do judeu “ trabalhador, guerreiro, viril”, cabendo o arremate de que tais narrativas concebem o judeu “numa forma de espelhamento, como o tipo ariano que o massacrou”. Uma vez exposto esse desenvolvimento histórico a autora explicita contundentemente que “O estado de Israel é fruto desse retrocesso”, tanto material quanto espiritual. Entretanto, indo além em seus apontamentos e, mantendo o rigor de uma análise comprometida com a compreensão dos fenômenos em sua correspondência com a vida social e as imperiosas necessidades do capital, Ana Selva reconhece “a atualidade do estado de Israel como resposta à crise do capital e à luta internacional pela hegemonia mundial”. Desvela, portanto, a gênese histórica do estado de Israel bem como apreende a vigente conformação deste estado e suas respectivas ações enquanto resposta ao desenvolvimento contraditório do capital e da inescapável necessidade de potencializar a acumulação de riqueza em escala sempre ampliada. Assim sendo, o escancarado genocídio do povo palestino em curso é tomado enquanto uma das ações do estado de Israel em conformidade com os interesses do capital, de tal forma que “Tal genocídio torna muito claro o fundamento econômico por sob a roupagem religiosa, étnica, tratando-se muito claramente de um enfrentamento desigual entre detentores do capital e os expropriados e violentados a céu aberto”. Ao fim e ao cabo: “a criação do estado de Israel é a resposta aos interesses do capital que representa a confluência do que há de mais nefasto [...] que é a indústria da guerra, do armamento, da destruição”. Por fim, fazendo remissão a temas caros à sua trajetória de pesquisa como é o caso das categorias da ética e da moralidade em Marx, a autora ressalta que o genocídio escancado do povo palestino “mostra a fragilidade do direito quando do momento de crise do capital, de sua sociabilidade e de sua moralidade” identificando que o genocídio em curso “se constitui como o momento da perda total dos limites éticos, morais e legais, soando como um aviso do que nos espera como humanidade”. Está aí, portanto, a terceira camada contributiva do texto que se segue: sem cair em apontamentos fatalistas e/ou pessimistas, a autora destaca o lema: “Gaza: A alma da minha alma” e nos ensina que o sofrimento e o Sumud (resistência) do povo palestino vão muito além de uma questão exclusivamente particular, pois remetem ao âmago humano-genérico que subsiste em cada um de nós. Para além do âmbito particular, o Sumud do povo palestino representa a resistência da humanidade contra a barbárie, é “o símbolo vivo da luta mundial entre o que resta em termos de perspectivas de esquerda contra o avanço da extrema direita”. Ao mesmo tempo, o sofrimento do povo palestino, o genocídio em Gaza, “é a abertura para uma desumanização programática em prol dos interesses econômicos, em seus velamentos religiosos ou políticos. Por isso a causa palestina nos atinge na alma”. Conforme bem ressaltou a autora a partir do prefácio d’O Capital de Marx: “A fábula se refere a ti!” Lutemos, portanto, por eles, por nós, pela humanidade. Boa leitura. [1] Agradecemos explicitamente à professora Ana Selva Albinati pelo aceite em publicar seu texto na Revista Barravento bem como agradecemos ao Ricardo Kobayaski, coordenador geral do site A Terra é Redonda, por prontamente autorizar esta republicação. *** Quando a paz é guerra e o crime não tem castigo 1. Outro dia li em uma camisa: “Gaza – the soul of my soul”. Achei bonito, mas não consegui entender exatamente o sentido. Tenho lido as notícias sobre o genocídio em Gaza, tenho procurado entender a origem desse drama através de autores que remontam a ocupação israelense na Palestina, a usurpação das terras, a expulsão dos palestinos, a catástrofe de 1948, a chamada Nakba, que culminou na criação do Estado de Israel, com a expulsão de mais de 750 mil palestinos e a destruição de cerca de 500 aldeias. Tenho acompanhado também o rompimento de todos os acordos por parte de Israel acerca de uma possível ocupação daquele espaço por duas nações e tenho visto a inoperância e a impotência de órgãos internacionais como a ONU, a indiferença ou adesão velada ou aberta aos crimes cometidos pelo Estado de Israel por muitos países, assim como as manifestações de apoio ao povo palestino que ocorrem em tantas partes do mundo, mas que são geralmente ocultadas pela mídia e penalizadas pelas instituições. Mas nada me deu o sentido mais profundo da proposição “Gaza: the soul of my soul” do que a leitura do livro Sumud em tempos de genocídio, da psiquiatra palestina Samah Jabr[i]. Nada teve o impacto dessa pancada na alma tão forte quanto o relato dos dramas pessoais, das dores, dos traumas somatizados, da vergonha pela impotência, da culpa por sobreviver quando parentes e amigos morrem, dos sofrimentos indizíveis de indivíduos que no extremo de sua desumanização diária, cotidiana, rotineira, tentam resistir. Sumud quer dizer resistência. Resistência quando não há paz, quando todo dia é de guerra, ainda que não seja assim noticiada pela mídia ocidental, e quando o crime é perpetrado a todo instante contra todos, crianças, adolescentes, mulheres, homens, mães, pais, avós, que se veem ameaçados 24 horas por dia, e sem mais esperança de que esses crimes recebam castigo. Sumud não significa apenas a capacidade de sobreviver ou a habilidade de se restabelecer para lidar com o estresse e a adversidade. Sumud é a realização dessas coisas, além da disposição de manter um desafio inabalável à subjugação e à ocupação. Sumud não é a uma característica inata ou a consequência de um único evento na vida, mas um sistema de habilidades e hábitos que são aprendidos e podem ser desenvolvidos. Sumud cria as bases de um estilo de vida de resistência, agarrando-se à terra como uma oliveira profundamente enraizada, preservando a própria identidade, buscando autonomia e liberdade de ação, e preservando a narrativa palestina e sua cultura diante da destruição. (JABR, 2024, p.114-15). É a resposta digna ao extremo da desumanização, ao fim da civilização qualquer que seja, ao fim dos acordos societários, à marcha da prepotência de quem pode sobre as almas de quem suporta. “Sumud significa manter o otimismo, a solidariedade moral e social enquanto se lida com realidade sombrias e estruturas opressivas”. (idem, p.115) Se tivemos momentos semelhantes a este na história, temos, no entanto, características próprias no genocídio dos palestinos pelo projeto sionista de ocupação de todo o território palestino. O sionismo se vale da capitalização do sofrimento histórico do povo judeu, sobretudo o decorrente do horror nazista, para demandar o que a princípio parece justo: um estado judeu. Para tanto reveste esse projeto político com uma roupagem religiosa, de forma a tentar justificar a escolha da Palestina como território de uma legítima ocupação 2. O termo sionismo data de 1890, criado por Nathan Birnbaum na esteira das ideias de um sionismo moderno advogado por Moses Hess. Moses Hess, a princípio um autor próximo do marxismo, posteriormente faz a inversão da perspectiva materialista de Marx, desenvolvida em Sobre a questão judaica. Nesse texto de 1843, Marx procura explicitar a condição judaica não em termos religiosos, mas em termos profanos, histórico-sociais, ou em suas palavras, procura tratar não do “judeu sabático”, mas do “judeu cotidiano”. (MARX, 2013, p.56) Respondendo a um artigo de Bruno Bauer acerca das condições da emancipação dos judeus, Marx dirá que “Bauer compreende apenas a essência religiosa do judaísmo, mas deixa de compreender o fundamento real e secular dessa entidade religiosa”. (MARX, 2011, p.128). A proposição marxiana é, portanto, compreender a consciência religiosa em sua relação com a vida material, com a história, com a forma de sociabilidade que a torna possível, e não de forma autônoma. Moses Hess, que conhecia bem esse texto e se identificava com essa proposição, se distancia de Marx a tal ponto que em 1862, em Roma e Jerusalém, longe de analisar o “judeu cotidiano”, ou seja, as determinações sociais que estão na constituição do povo judeu, dirá dos judeus como uma raça histórica, exaltando uma essência judaica, a partir da qual se constituirá o projeto sionista. Como observa Daniel Bensaid: “Duas orientações se opõem radicalmente. Em 1843, Marx preconiza uma emancipação política dos judeus na perspectiva da “emancipação humana”, contra a restauração de uma “nacionalidade quimérica”. Em 1862, Hess preconiza a “conquista do solo nacional” contra a “emancipação quimérica”. Sua descendência ideológica – de Leo Pinsker a Theodor Herzl e a Max Nordau – vai se consagrar a exportar a crise europeia para a Palestina, no quadro da expansão imperialista rumo ao Oeste”. (BENSAID, 2013, p. 104) O sionismo se constitui a partir dessa perspectiva de Moses Hess. É Theodor Herzl quem desenvolve o sionismo político alegando que a única forma de se livrar do antissemitismo europeu seria a criação de um estado judeu na Palestina, em O Estado Judeu de 1896. Tal tese não era compartilhada unanimemente pelos judeus na Europa, que defendiam a assimilação nas sociedades nas quais já haviam se integrado. Tampouco a escolha da Palestina era vista como uma destinação inequívoca, era apenas uma das possibilidades ventiladas. Além da Patagônia argentina, países como Uganda ou Congo foram também pensados como possibilidades. A escolha pela Palestina se define no primeiro congresso sionista em 1897, na Basiléia, sob o comando de Herzl, já postulada como um retorno legítimo da nação judaica. Observa Altman que “ainda que o sionismo fosse inicialmente laico, a religião dava ao sionismo dois elementos discursivos muito importantes, duas ideias-chave. A primeira era a de ‘povo eleito’, e a segunda, a de ‘terra prometida’.” (ALTMAN, 2023, p.48). Ideias que convergiram para a noção de um direito natural à Palestina. A questão é que nesse momento a Palestina era ocupada por cerca de meio milhão de habitantes, entre muçulmanos, cristãos e judeus, além de soldados e funcionários otomanos e europeus. Em Dez mitos sobre Israel, Ilan Pappé esclarece a demografia do território palestino bem como desfaz o mito dos judeus como um povo sem terra na medida em que grande parte dos judeus já se encontrava assimilada a diversos países. A tal ponto que foi necessário o convencimento da vinda dos judeus sefarditas da África e Ásia para reforçar inicialmente a imigração judaica na Palestina. Ainda assim, a propaganda sionista difundia a ideia de “uma terra sem povo para um povo sem terra”, slogan criado por Israel Zangwill. Esse slogan, além de mistificador, traduzia a visão racista que considerava os palestinos como um “não povo”. (MERUANE, 2023, p. 32) Golda Meier chega a dizer que “’não existia tal coisa’ como o povo palestino”. (idem, p.126) Os judeus se identificam com os projetos colonialistas do Ocidente para manterem os palestinos como um não-povo. Para tanto se valem de métodos e expressões por eles mesmos experimentados quando da perseguição nazista ao qualificar os palestinos como selvagens, atrasados e menos humanos. Utilizam-se dos livros didáticos para disseminar tais ideias na formação das crianças israelenses. Não por acaso as narrativas legitimadoras da colonização da Palestina conferem ao judeu o estereótipo de trabalhador, guerreiro, viril, o que inverte a perspectiva discriminatória europeia, sobretudo a nazista, que o considerava como um grupo inferior. E o mostra, numa forma de espelhamento, como o tipo ariano que o massacrou. A capitalização do inegável sofrimento judeu sob o domínio nazista atua na comoção e, consequentemente, na aceitação por parte da opinião pública da criação do estado de Israel. Aliado a uma difusão midiática islamofóbica, o estado de Israel se configuraria então como um “posto avançado do Ocidente, da civilização contra a barbárie”. (MISLEH, 2022, p.32.) Como se não bastasse, frente à resistência árabe, é propagada a ideia de que os sionistas praticam uma autodefesa como se fossem eles as vítimas, autodefesa baseada no medo que sentem frente ao ódio que os palestinos e os árabes em geral lhes reservam. Como analisa Samah Jabr, “o medo dos israelenses não é simplesmente uma inocente herança traumática, é um instrumento político suspeito, uma manipulação perversa que justifica o tratamento cruel dispensado aos palestinos.” (2024, p.40) Tal temor é absolutamente desproporcional ao dano real que os palestinos causam a eles, mas serve como elemento de empatia veiculado pela mídia ocidental, enquanto a imagem do ódio palestino serve de justificativa à islamofobia. Discurso disseminado através das imagens idílicas dos kibutz, da divulgação da capacidade de trabalho do povo judeu transformando o deserto em terra agricultável, ocultando que se tratava de uma ocupação violenta sobre o território palestino, realizada de forma estudada e premeditada para garantir as melhores terras e “limpar” os traços da presença palestina pela destruição das casas e das plantações, incluindo as oliveiras seculares que testemunhavam a sua pertença histórica. Já no final do século XIX se verifica um movimento de deslocamento dos judeus para a Palestina, através da compra de terrenos financiada pela organização sionista mundial, fundada a partir do congresso da Basileia. E ainda que houvesse uma divisão entre os sionistas de esquerda e de direita naquele momento, observa Altman que “essa suposta esquerda sionista […] abraçava a mesma tese fundamental, a de um estado sob supremacia judaica”, e que “esse foi o grupo que comandou as primeiras etapas de limpeza étnica contra os palestinos”. (2023, p.50) Após a derrota do Império Otomano na primeira guerra mundial, a Palestina passa ao domínio da Grã-Bretanha que, embora prometesse a criação de um estado palestino, termina por favorecer os interesses dos ocupantes judeus. Os palestinos representavam na década de 1920 entre 80 a 90% da população. O favorecimento inglês aos sionistas levou à revolta dos palestinos, manifesta no levante de 1929 e no levante de 1936 a 1939. Se a reação da Grã-Bretanha frente ao primeiro levante foi a princípio “abraçar as demandas palestinas” (PAPPÉ, 2016, p.34), o lobby sionista reorientou o governo no sentido de seus interesses aumentando a imigração judaica e seus efeitos nefastos na situação dos trabalhadores e camponeses palestinos. O que levou ao levante de 1936. Segundo Kanafani (2022), a perda dos postos de trabalhos pela política de trabalho exclusivo para judeus e das terras dos camponeses palestinos levou a um desastre econômico para essa população, que junto com as humilhações sofridas, foi o estopim para a revolta que se estendeu de 1936 a 1939. De acordo ainda com o autor, esse foi o momento mais próximo da libertação palestina, que, no entanto, foi massacrado pela autoridade inglesa, com uma estimativa de quase 20.000 vítimas entre mortos e feridos dentre palestinos e os aliados árabes, assassinato dos dirigentes, explosão e demolições de casas. Ao final, se somou a ajuda de parceiros europeus que passaram a garantir armas e recursos financeiros aos sionistas. Nesse momento os sionistas construíram as estradas para conectar os assentamentos judeus. A isso se seguiu o mapeamento da região palestina, com a clara intenção de um controle do território. Como analisa Pappé, “a ausência da maioria dos dirigentes palestinos e de unidades militares palestinas viáveis facilitou muito a vida para as forças judaicas em 1947, nas incursões no interior da Palestina” (2016, p.34.) E nessa condição facilitada pelos ingleses, serão estes a serem vistos como empecilho para o projeto sionista, sobretudo quando da tentativa do controle britânico sobre a imigração judaica pós segunda guerra mundial: “O tópico primordial na agenda sionista em 1946 e 1947, a luta contra os ingleses, se resolveu pela própria decisão britânica de fevereiro de 1947 de deixar a Palestina e transferir a questão palestina para a ONU.” (PAPPÉ, 2016, p.47) 3. Em 1947, a ONU recomenda a partilha da Palestina em dois estados (Resolução 181), sem qualquer consideração pela composição étnica da população. Aos judeus é dado 53% do território embora esse grupo constituísse apenas um terço da população nesse momento. A resolução da partilha foi aprovada em 29 de novembro de 1947, e a limpeza étnica da Palestina começou no início de dezembro de 1947, com uma série de ataques judeus em vilarejos e bairros palestinos, em retaliação à depredação de ônibus e lojas durante o protesto de palestinos contra a resolução da ONU, ainda nos primeiros dias após sua aprovação. (PAPPÉ, 2016, p.60) O projeto de uma limpeza étnica já vinha sendo traçado, segundo Pappé, a partir de planos que inicialmente tinham o propósito de dissuadir os ataques palestinos aos assentamentos judeus. O suprassumo desses planos foi o plano Dalet no qual se decide pela expulsão dos palestinos de forma sistemática e total de sua pátria, seja porque ofereciam algum tipo de resistência, seja porque os vilarejos se situavam em pontos estratégicos. Em 1948 ocorre a expulsão de mais de 750 mil palestinos, o assassinato indiscriminado da população, a destruição de mais de 500 aldeias, queima de casas e campos, catástrofe que se diz Nakba em árabe. Logo após a retirada dos britânicos, a agência judaica declara a fundação do estado judeu na Palestina em 14 de maio de 1948, reconhecido imediatamente pelo EUA e URSS, seguidos de outros países. Segue-se um processo de “reinvenção da Palestina” por parte da ocupação judaica, “uma sistemática tentativa acadêmica, política e militar de desarabizar o território – seus nomes e sua geografia, mas, acima de tudo, sua história” (PAPPÉ, 2016, p.260-61). Nesse sentido, esquecer a Nakba, soterrá-la sob uma nova arquitetura de parques e ciprestes, foi e continua sendo um ponto importante para a estratégia sionista, inclusive para as discussões rumo a um “processo de paz” nos termos que lhes interessa. Mas como diz Jabr a partir da escuta dos seus pacientes psiquiátricos: “A Nakba é um insulto contemporâneo renovado a cada palestino humilhado, preso ou morto; sal é adicionado à ferida da Nakba a cada casa demolida e a cada pedaço de terra confiscado.” (2024, p.49) Outras guerras árabe-israelenses acontecem, sempre com um resultado expansionista por parte de Israel. Os conflitos na região se sucedem, e não há uma solução diplomática internacional. O que incita a resistência armada por parte dos palestinos. A primeira Intifada em 1987 deu origem ao grupo de resistência islâmica, o Hamas. Inicialmente surgido como uma organização de assistência social, passa a recorrer à luta armada e aos atentados suicidas quando da adesão da Organização para a Libertação da Palestina aos acordos de Oslo em 1993. Tais acordos resultaram no reconhecimento do estado de Israel por parte dos palestinos e no reconhecimento da OLP como representante do povo palestino. Estabelecia também a retirada de assentamentos israelenses na Cisjordância e a transferência do controle de parte (cerca de 40%) dessa região para a recém-criada Autoridade Nacional Palestina (ANP). Além de privilegiar interesses israelenses, tais acordos não tocam na questão do retorno dos refugiados ou do reconhecimento da Nakba. Acrescente-se o fato de que Israel não cumpriu a determinação de retirada dos assentamentos e, contrariamente a isso, continuou seu projeto de ocupação da região. Diante da fragilidade dos acordos para uma solução de paz para a região, e com o reconhecimento do estado de Israel pela OLP, incluindo sua maior facção, o Fatah, e pela ANP, o Hamas radicaliza a sua ação e disputa com o Fatah a direção do povo palestino, estabelecendo por via eleitoral o controle sobre a Faixa de Gaza a partir de 2006. A situação de opressão cotidiana dos palestinos sob a ocupação sionista, bem como a incapacidade e inoperância de uma solução diplomática para a questão faz com que parte da população palestina reconheça o Hamas como uma força legítima, por mais que o Ocidente alardeie o seu caráter “terrorista”. Sobre isso, escreve Jabr: “Até hoje, os palestinos não têm um Estado nem Forças Armadas. Nossos ocupantes nos submetem a toques de recolher, expulsões, demolições de casas, tortura legalizada e uma variedade de violações dos direitos humanos. […] A mídia americana chama nossa busca por liberdade de “terrorismo”, colocando o palestino no papel de protótipo internacional do terrorista. Isso moldou a consciência pública ocidental e resultou em um viés internacional que costuma descrever casos de violência contra civis palestinos em uma linguagem indiferente, reduzindo as perdas palestinas a meras estatísticas sem rosto, enquanto se utiliza de uma linguagem emocional e de recursos visuais para descrever as perdas israelenses”. (2024, p.106) A autora nos interpela: “Por que a palavra ‘terrorismo’ é tão prontamente aplicada a indivíduos ou grupos que usam bombas caseiras, mas não a Estados que se utilizam de armas nucleares e outras armas proibidas internacionalmente para garantir a submissão ao opressor?” Para concluir muito acertadamente que “‘terrorismo’ é um termo político usado pelo colonizador para desacreditar aqueles que resistem”. (JABR, 2024, p.106-07) É mesmo inacreditável que a pecha de terrorismo seja creditada apenas àqueles que resistem a situações de opressão, mesmo que seja fartamente documentada a desproporção entre o armamento israelense-estadunidense e o armamento palestino, a desproporção entre as perdas humanas entre os dois lados com o agravante de que 70% dos mortos palestinos sejam mulheres e crianças, a desproporção entre o tempo de opressão e o tempo de revolta, a violação de todos os acordos tentados pelas organizações internacionais por parte de Israel, a destruição de escolas e hospitais, a proibição de entrada de alimentos e material de saúde, o assassinato de médicos, enfermeiros e técnicos, o assassinato de jornalistas, acrescentando-se os requintes de crueldade, de tortura física e psicológica, de desmonte emocional e de escárnio veiculado nas redes sociais pelos sionistas. Diante desse quadro, cabe perguntar qual será o rumo desse genocídio, uma vez que a resolução pelos dois estados parece estar cada vez mais distante. O estado de Israel vem descumprindo sistematicamente os acordos firmados, ainda que tais acordos sejam notadamente favoráveis a ele, mas não parecem suficientes para o seu projeto expansionista. O reconhecimento pela ONU dos crimes de guerra e crimes contra a humanidade perpetrados por Israel, bem como a condenação de Netanyahu à prisão não parecem exercer efeito significativo no decorrer desse genocídio, apesar da conscientização e manifestação cada vez maiores da população em todo o mundo. O objetivo assumido claramente pelo estado de Israel é levar a cabo o extermínio do povo palestino e parece não haver força internacional que seja capaz de detê-lo. O que nos leva a pensar que forças o sustentam para além da ideologia veiculada acerca do conflito cultural, religioso, entre árabes e judeus; e para além da suposta reparação histórica do holocausto. 4. Voltemos à Questão Judaica no intento de jogar luz sobre esse fenômeno. Esse texto foi objeto de grande polêmica, sendo Marx inclusive acusado de antissemitismo. No entanto, recuperando o contexto no qual foi escrito, trata-se de uma resposta de Marx ao posicionamento do filósofo Bruno Bauer. Este defendia que se os judeus quisessem participar como cidadãos do Estado prussiano, eles deveriam renunciar à sua religião, assim como também o Estado deveria se tornar laico. A questão do Estado laico se colocava como um elemento fundamental na compreensão do atraso econômico, social e político da Alemanha no século XIX. Embora Marx também fosse um defensor do estado laico, ele se contrapõe à argumentação de Bauer, ressaltando que uma das características do estado laico é justamente a desvinculação entre estado e religião. Portanto a criação do estado laico, como se verifica no estado moderno, traz como consequência o remetimento da religião à esfera das liberdades privadas. Isso coloca a pergunta pelo porquê da permanência da discriminação ao judeu mesmo nos países que já realizaram a emancipação política. A análise de Marx procura indicar as limitações da emancipação política ainda que evidentemente tal emancipação signifique um avanço em relação ao estado religioso por seu caráter particularista. O estado moderno, laico, expressaria, ao contrário, a universalidade da liberdade humana em seus direitos e deveres. Este é o motivo do grande elogio de Hegel ao estado moderno. No entanto, já nesse texto sobre a questão judaica, Marx desenvolve as características e os limites da emancipação política, iniciando a crítica do pensamento hegeliano. Em síntese Marx reconhece o estado moderno universalista e seu aparato jurídico e ideológico expresso nas declarações do direito do homem e do cidadão como o resultado de uma necessidade posta pela sociedade civil, instância essa marcada pela fragmentação e pela desigualdade. Ao analisar os conceitos jurídicos presentes na formulação dos direitos do homem e do cidadão, Marx esclarece quem são esse homem e esse cidadão: o cidadão que abstratamente compartilha formalmente dos direitos universais, e o indivíduo privado que na sua vida individual não se reconhece como cidadão de forma a ter, entre outros elementos sintomáticos de sua irrealização, a necessidade religiosa e a liberdade da escolha do credo. A partir do reconhecimento dos limites da emancipação política, Marx desenvolve a noção de emancipação humana na qual os direitos alcançados na modernidade seriam efetivamente parte da vida dos indivíduos, rompendo a cisão cidadão- indivíduo privado, estado-sociedade civil, proposição que culmina na crítica da política e do estado como elementos a serem superados numa sociedade revolucionada e reestruturada em sua instância determinativa, a esfera da produção e da reprodução da vida social. Ainda em uma linguagem imprecisa – Marx tinha 25 anos nesse momento e não tinha, portanto, ainda desenvolvido seus estudos econômicos e seus conceitos fundamentais para a crítica da economia política – o autor identifica o princípio da sociedade burguesa com a necessidade prática, o egoísmo, cujo deus seria o dinheiro. Ao se referir aos judeus, Marx identifica nestes o próprio espírito da sociedade moderna, isso porque o judeu se consolida como o homem do dinheiro (Geldmensch) na esfera comercial e financeira, atuando como mercador, banqueiro e usurário ao longo dos séculos. A busca marxiana é por uma compreensão materialista, histórica, do judaísmo no mundo moderno como expressão de uma “necessidade prática, do egoísmo”, posta pela sociabilidade capitalista. (2013, p.60) Se a necessidade prática é a questão a ser primariamente resolvida pela sociedade civil, a forma como isso se dá no mundo capitalista desenvolve o egoísmo como elemento da vida social. Se assim é, Marx identifica o judaísmo como um sintoma que só pode ser resolvido pela transformação do princípio da sociedade civil, ou seja, pela superação do egoísmo e do deus dinheiro, ou em outras palavras – ainda não usadas pelo autor-, pelo fim do capitalismo. A questão judaica posta historicamente na modernidade se resolveria então na e pela história: Tentaremos romper com a formulação teológica da questão. A pergunta pela capacidade de emancipação do judeu se transforma para nós na seguinte pergunta: qual é o elemento social específico a ser superado para abolir o judaísmo? Pois a capacidade de emancipação do judeu moderno equivale à relação do judaísmo com a emancipação do mundo moderno. (MARX, 2013, p.55) É sobre essa relação que o autor vai pensar a questão judaica: “o judaísmo não se conservou apesar da história, e sim através da história. É das suas entranhas que a sociedade burguesa gera continuamente o judeu”. (idem,p. 57) Marx identifica o judeu como o indivíduo do mundo capitalista; não propriamente como uma pessoa de uma religião particular, mas como uma forma de ser que se desenvolve no mundo capitalista, centrado sobre as relações de troca e, portanto, sobre o poder do dinheiro. Ainda com um vocabulário impreciso, ele associa o judaísmo ao sistema monetário, sem ter condições naquele momento de desvendar o fetiche do dinheiro como forma superior do fetiche da mercadoria, o que fará posteriormente em O Capital. Em A sagrada família, a emancipação dos judeus é formulada como uma “tarefa prática geral do mundo de hoje, que é um mundo judaico até a raiz”, ou ainda “a tarefa da suprassunção da essência judaica é, na verdade, a tarefa da suprassunção do judaísmo da sociedade burguesa, o caráter inumano da prática da vida atual, cuja culminação é o sistema monetário”. (MARX, 2011, p.129) Trazer essas passagens à tona nesse artigo tem como objetivo contrapor a orientação marxiana na compreensão da questão judaica à compreensão teológica que a reveste a partir de Moses Hess até os tempos atuais, culminando numa pretensa legitimidade da usurpação do território palestino. O propósito é desvestir a ideologia sionista e revisitar a tese marxiana de uma superação da questão judaica através da transformação revolucionária da sociedade capitalista, ainda que seja tão somente como iluminação para pensar os impasses contemporâneos. 5. A questão judaica diz respeito à possibilidade de assimilação ou não dos judeus nas sociedades ocidentais, questão que se acentua a partir do século XIX. Segundo Abraham Leon, a presença dos judeus era tolerada na antiguidade e alta Idade Média como elementos responsáveis pelo intercâmbio de mercadorias e pelo empréstimo a juros. Necessária a presença, mas desprezada porque associada à usura. Observa, porém, que: “A partir do século XII, paralelamente ao desenvolvimento da Europa ocidental, ao crescimento das cidades e à formação de uma classe comercial e industrial autóctona, a situação dos judeus começa a piorar seriamente, até chegar a sua quase total eliminação da maior parte dos países ocidentais. (LEON, 1975, p.14) O surgimento de uma burguesia mercantil nativa dispensa o intermédio dos judeus. Se parte destes se assimilam a essa burguesia, outra grande parte se dirige à Europa oriental, atrasada em relação ao desenvolvimento capitalista. Ali permanecem em suas funções, sobretudo na Rússia e Polônia, até o fim da servidão no século XIX e do regime feudal na propriedade rural. Como esclarece Leon: “A acumulação do dinheiro nas mãos dos judeus não se originava em uma forma especial da produção capitalista. A mais-valia (ou sobreproduto) provinha da exploração feudal, e os senhores estavam obrigados a entregar uma parte dessa mais-valia aos judeus.” (LEON, 1975, p.17). Trata-se de uma classe comercial pré-capitalista. Ou ainda a respeito da acumulação realizada pelos judeus: “A usura e o comércio exploram um procedimento determinado de produção que não criam e ao qual permanecem estranhos.” (idem) Diferentemente, o capital comercial pré-capitalista vai se subsumir ao capitalismo em seu desenvolvimento na Europa ocidental, assumindo uma função específica no ciclo do capital. Com o fim da servidão na Europa oriental, o retorno aos países ocidentais se dá sob condições muito diferentes: Por um lado, a assimilação econômica e também cultural dos judeus enriquecidos, e por outro lado, o surgimento do proletariado judeu no quadro do capitalismo industrial. Surge aí a questão judaica, ou seja, como integrar economicamente os judeus. Com efeito, o desenvolvimento do capitalismo impulsionou a evolução da questão judaica por caminhos diametralmente opostos. Por uma parte o capitalismo favorece a assimilação econômica e em consequência a assimilação cultural; por outra, desenraizando as massas judias, concentrando-as nas cidades, provocando o recrudescimento do antissemitismo, estimula o desenvolvimento do nacionalismo judeu. O ‘renascimento da nação judia’, a formação da moderna cultura judia, a criação do idioma idish, o sionismo, acompanham os processos de emigração e de concentração das massas judias nas cidades e são paralelos ao desenvolvimento do antissemitismo moderno. (LEON, 1975, p.138) A discriminação histórica dos judeus se incrementa no século XIX, tendo uma motivação mais claramente econômica, a partir da luta entre o capital financeiro, improdutivo e o capital industrial, produtivo. Luta no interior do capital, luta “entre primos”, diria Marx, que em grande medida enevoa até hoje o entendimento do movimento do capital, como se houvesse um mau capital e um bom capital. A herança da crítica materialista pode ser encontrada em vários teóricos que, da mesma forma que Marx, supuseram a dissolução da questão judaica no desenvolvimento de uma sociedade emancipada do fetichismo da mercadoria e seus desdobramentos. Mas a história se mostrou mais complexa. A esse respeito, dirá Bensaid: “Condenada à extinção pura e simples pelos socialistas do século XIX, a ‘questão judaica’ persistiu no século XX sob o triplo efeito do genocídio (nazista), da reação stalinista e da estatização sionista.” (2013, p.112) A abordagem da questão judaica sofre um retrocesso a partir desses eventos, voltando-se à orientação de Moses Hess, que transforma a história em acontecimento teológico. Em vez de uma compreensão histórica, se recai no mito da essência judaica, da raça judaica, da terra prometida e do povo eleito. O estado de Israel é fruto desse retrocesso. Um estado teológico que aparentemente seria pré-moderno pois nasce sem a característica fundamental do estado moderno que, ainda que formalmente, se edifica sobre o reconhecimento da universalidade humana. Repõe a aliança entre estado e religião e promove a discriminação, elevando as particularidades de um credo ao status de constituição política. Dessa forma, “o judeu do shabat e o judeu profano que Marx distinguia são assim reunidos, costurados juntos no judeu teológico ressuscitado como judeu israelense. A ‘nacionalidade quimérica’ tornou-se nacionalidade efetiva, armada e de botas.” (BENSAID, 2013, p.118) Mas por detrás dessa aparente anacronia, pode-se reconhecer a atualidade do estado de Israel como resposta à crise do capital e à luta internacional pela hegemonia mundial. Como elemento fundamental do capital financeiro, a criação do estado de Israel é a resposta aos interesses do capital que representa a confluência do que há de mais nefasto (mas necessário do ponto de vista da dinâmica do capital na atualidade) que é a indústria da guerra, do armamento, da destruição. 6. Estado teo-colonial, se vale do argumento religioso como escudo para se encaixar no projeto ocidental de dominação econômica, sobretudo estadunidense, num momento crítico de disputa frente às iniciativas da China e seu projeto de uma nova rota da seda. Nessa luta por uma nova recomposição mundial, de uma luta entre grandes capitais, que se verifica em guerras e conflitos que se desenrolam na atualidade, a usurpação da Palestina se torna o caso mais visível, e se tornou mais visível justamente pela ação dramática do Hamas, que interrompeu a aliança que seria firmada entre Arábia Saudita e Israel favorecendo os interesses estadunidenses e fragilizando ainda mais a causa palestina, e trouxe à cena o sofrimento dos palestinos, sem o que estes continuariam sendo massacrados cotidianamente na mudez dos meios de comunicação. Tal genocídio torna muito claro o fundamento econômico por sob a roupagem religiosa, étnica, tratando-se muito claramente de um enfrentamento desigual entre os detentores do capital e os expropriados e violentados a céu aberto, à vista de todo o mundo, com a conivência dos governos ricos e seus vassalos. Dessa forma, embora dada toda a peculiaridade dessa “guerra”, todos os elementos particulares que parecem indicar uma tensão entre o mundo árabe e o mundo ocidental, o curso dos acontecimentos desfaz essa imagem (tão propícia à divulgação da ideologia corrente nos meios de comunicação acerca do perigo árabe e sua selvageria frente à civilização ocidental), na medida em que a disposição dos países em seus posicionamentos, incluindo os países árabes, revela os interesses econômicos em jogo. E revela, como bem assinala Reginaldo Nasser,[ii] que não se trata apenas de etnias, mas fundamentalmente de luta de classes. A forma atroz como tal massacre está sendo conduzido, aberta e assumidamente genocida, sem qualquer filtro a encobrir que se trata agora de um projeto de solução final para o povo palestino e de ocupação total do território sem qualquer respeito à regulação internacional, mostra a fragilidade do direito quando do momento de crise do capital, de sua sociabilidade e de sua moralidade. No momento em que o desenvolvimento contraditório da economia capitalista toca, agora de forma contundente, em todos os limites da sustentabilidade da vida social, da vida planetária e do próprio sentido de humanidade, o que se tem é a visão crua da barbárie que se impõe par e passo com um novo ciclo de acumulação da riqueza e seus mecanismos para conservá-la e ampliá-la a todo custo. É o momento da extrema direita assumir sem pudor a barbárie em prol do capital. Por isso o lema Gaza: the soul of my soul nos toca fundo quando da identificação do sofrimento do povo palestino como o símbolo vivo da luta mundial entre o que resta em termos de perspectivas de esquerda contra o avanço da extrema direita. Tal sofrimento televisado, espetacularizado, representa na contemporaneidade a culminância do sofrimento dos povos colonizados que ainda hoje padecem dessa condição, do sofrimento dos indivíduos que são violados nas mais diversas formas em suas vidas cotidianas, do sofrimento da natureza e suas consequências para a vida planetária, de forma que se constitui como o momento da perda total dos limites éticos, morais e legais, soando como um aviso do que nos espera como humanidade. A fábula se refere a ti!, nos alerta Marx no prefácio de O Capital, a nos lembrar que esse sistema-mundo atinge a todos nós de alguma forma, ainda que sob roupagens particulares. Vivemos esse conflito todos os dias. Sempre a mesma luta de classes sob circunstâncias particulares que muitas vezes nos fazem perder o sentido maior da luta. Qualquer remendo social, qualquer política pública que signifique minimamente um refresco nos muitos sofrimentos cotidianos esbarra sempre nos interesses do capital que nos atingem na capilaridade das nossas vidas. Gaza é a imagem mais terrível dessa luta. Por isso é tão emblemática. Daí o significado da proposição “Gaza: A alma da minha alma”, porque resume o nosso temor mais secreto como indivíduos sociais, que é a afronta àquilo que chamamos de humanidade, o rompimento do fio que nos faz ver o outro como um eu apesar de todas as diferenças. Gaza, a alma da minha alma, resiste como possiblidade última de reafirmação de um projeto social enquanto o estado de Israel emerge como a figura dantesca do estado de exceção em tempos de crise do capital. Estamos falando de uma ruptura na tessitura já frágil da existência social, do ultrapassar de todos os limites normativos que sustentam a vida social. Em seu consultório psiquiátrico, Jabr ouve o trauma coletivo de seus pacientes: “Sinto que meu corpo está intoxicado, oprimido, exposto à injustiça; que meu desejo está quebrado”. (2024, p.57) Como atenta a autora, os crimes contra os palestinos “não são apenas uma violação do estado de direito, mas também uma traição à nossa humanidade partilhada.” (idem, p.140) Cada atitude de defesa e de solidariedade ao povo palestino é nossa forma de resistir, nossa contribuição ao sumud palestino e nosso aprendizado do sumud palestino para o exercício da longa revolução das estruturas econômicas que se faz necessária no caminho de uma vida mais humana. Essa é a perspectiva a ser recolocada no horizonte de um cotidiano de alheamento, desânimo e capitulação ao qual fomos lançados. O genocídio do povo palestino é a tentativa de apagamento da possibilidade de resistência como direito humano, é a abertura para uma desumanização programática em prol dos interesses econômicos, em seus velamentos religiosos ou políticos. Por isso a causa palestina nos atinge na alma. E como ressalta Bensaid, “o apelo de Marx para transformar as questões teológicas em questões profanas ainda continua igualmente atual.” (2013, p.119) O caminho é longo mas como diz Samah Jabr: “A urgência, hoje, reside em reavivar a nossa humanidade moribunda, que não conseguiu preservar as vidas de Gaza, promover a compaixão e restaurar os valores que nos definem como seres humanos. Vamos resgatar os restos de nossa humanidade dos escombros de Gaza.” (2024, p.140) *Ana Selva Albinati é professora aposentada do Departamento de Filosofia da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais. Referências ALTMAN, Breno. Contra o sionismo – retrato de uma doutrina colonial e racista . São Paulo: Alameda, 2023. BENSAID, Daniel. Apresentação e posfácio in MARX, Karl. Sobre a questão judaica . São Paulo: Boitempo, 2013. JABR, Samah. Sumud em tempos de genocídio . Rio de Janeiro: Tabla, 2024. KANAFANI, Ghassan. A revolta de 1936-1939 na Palestina . São Paulo: Sundermann, 2022. LEON, Abraham. Concepcion materialista de la cuestion judia . Buenos Aires: Ediciones El Yunque, 1975. MARX, K./ENGELS, F. A sagrada família . São Paulo: Boitempo, 2011. MARX, Karl. Sobre a questão judaica . São Paulo: Boitempo, 2013. MARX, Karl. O Capital vol I. São Paulo: Boitempo, 2013 MERUANE, Lina. Tornar-se Palestina . Belo Horizonte: Relicário, 2019. MISLEH, Soraya. Al Nakba – um estudo sobre a catástrofe palestina . São Paulo: Sundermann, 2022. PAPPÉ, Ilan. A limpeza étnica na Palestina . São Paulo: Sundermann, 2016. PAPPÉ, Ilan. Dez mitos sobre Israel . Rio de Janeiro, Tabla, 2022. Notas [i] JABR, Samah : Sumud em tempos de genocídio . Organização e tradução de Rima Awada Zahra. Rio de Janeiro: Editora Tabla, 2024. 192 p. [ii] Entrevista a Reginaldo Nasser. Cessar fogo no Líbano: dá para acreditar? Ópera mundi: Programa 20 minutos. 28/11/2024.
- Crítica no movimento operário - Rosa Luxemburgo
Fonte: Fundação Rosa Luxemburgo - < https://frl.rosalux.org.br/critica-no-movimento-operario1/ >. Tradução: Kristina Michahelles. Revisão e Nota de abertura: Wesley Sousa. Nota Introdutória Em seu pequeno texto, a teórica e revolucionária polonesa coloca em evidência um assunto central para a esquerda. O fundamento da acumulação teórica e organização se passa pela liberdade de crítica dentro e fora destas organizações que se pretendem revolucionárias. Luxemburgo, usando de exemplos e casos práticos, mostra como o dogmatismo e a hierarquização partidária sufocam o próprio movimento socialista, em suas pretensões. O texto, malgrado disparidade temporal e conjuntural que está para nós hoje, mostra-nos o central: só se pode haver um avanço na consciência política quando a voz da crítica estiver aberta, sobretudo na construção de organizações de base marxista. Claro que hoje muitas mediações precisam ser feitas com base na letra de Luxemburgo, mas seu espírito político é relevante para nosso tempo. No caso brasileiro, no início dos 1930, surgiram condições objetivas e subjetivas para o desenvolvimento do marxismo (enquanto práxis) no Brasil. O texto de base, então, o Esboço de uma análise da situação econômica e social do Brasil ” é um dos exemplos desta possibilidade histórica que buscou-se efetivar enquanto acumulação crítica e teórica. Mas, ele também indica os limites ao pleno desenvolvimento do marxismo como teoria e práxis, seja na esfera da sociedade seja no âmbito da esquerda brasileira, devido justamente ao fechamento do horizonte da liberdade de crítica no interior das organizações, devido à burocracia hodierna. Para situar o caso brasileiro, de modo rápido: em 1930, Mário Pedrosa (1900-1982) e Lívio Xavier (1900- 1988) publicaram um ensaio, que viria a se tornar a primeira contribuição marxista para o estudo da história do modo de produção capitalista em nossa terra, ou seja, trata-se do ensaio Esboço de uma análise da situação econômica e social do Brasil , publicado no n. 6 do jornal A Luta de Classe. Texto central em discussões internas do grupo ao qual Pedrosa e Lívio pertenceram, a Oposição de Esquerda brasileira; certamente, tornou-se uma das bases do processo de amadurecimento de análises marxistas ulteriores da realidade brasileira. De lá até nossos dias, muita coisa se passou na história brasileira e do marxismo… Enfim, sem estender demais, é importante ressaltar, que sem a liberdade de crítica, seja no âmbito partidário brasileiro, seja no aspecto da produção intelectual acadêmica ou militante dos setores da classe (em seus diversos campos), tal “separação” revela que não pode haver espaço para autoglorificação no “movimento comunista”, se pautando pela fé cega na estrutura organizativa ou práxis de campo. Seria como se o que existe fosse adequado à ideia de que qualquer concessão aos trabalhadores e oprimidos fosse uma “vitória do trabalho”, revelando aqui a miséria da teoria e sua mistificação. Com isso, a subordinação da explicação dos processos reais às necessidades políticas imediatas conduz ao dogmatismo teórico, eliminando a liberdade de crítica, tal qual escreve Luxemburgo neste texto de 1909. *** Crítica no movimento operário Rosa Luxemburgo “As revoluções burguesas como as do século XVIII precipitam-se rapidamente de sucesso em sucesso, um efeito dramático é suplantado pelo próximo, pessoas e coisas parecem refulgir como brilhantes, respira-se diariamente o êxtase; porém, elas têm vida curta, logo atingem o seu ponto alto e uma longa ressaca toma conta da sociedade antes que, novamente sóbria, aprenda a apropriar-se dos resultados do seu período impetuoso e combativo. Em contrapartida, as revoluções proletárias como as do século XIX encontram-se em constante autocrítica, interrompem continuamente a sua própria marcha, retornam ao que aparentemente conseguiram realizar para começar tudo de novo, zombam de modo cruel e minucioso de todas as meias medidas, das debilidades e dos aspectos deploráveis das suas primeiras tentativas, parecem jogar o seu adversário por terra somente para que ele sugue dela novas forças e se reerga diante delas em proporções ainda mais gigantescas, recuam repetidamente ante a enormidade ainda difusa dos seus próprios objetivos até que se produza a situação que inviabiliza qualquer retorno e em que as próprias condições gritam: Hic Rhodus, hic salta! [Aqui é Rodes, salta aqui mesmo!] Hier ist die Rose, hier tanze! [Aqui está a rosa, dança agora!] (1) Essas palavras, escritas há cinquenta anos por Karl Marx, hoje soam como se fossem uma descrição dos nossos dias. A revolução proletária se distingue da burguesa em primeira linha pelo fato de que, nela, o povo trabalhador luta pelas suas próprias causas. Nessa luta, só pode contar com as suas próprias forças, deve aproveitar cada passo em falso para o futuro, estar sempre aprendendo e ponderando se o caminho escolhido é o correto, se os meios aplicados levam ao objetivo. O povo trabalhador que se vê diante de tarefa tão importante não tem tempo nem possibilidade de refletir sobre a questão com tranquilidade e profundidade muitos anos antes da luta. Geralmente só vai para o combate quando é chegada a hora, e só ao longo dele, com ajuda da parte do proletariado já esclarecida pela social-democracia, ganhará clareza sobre sua própria natureza, a natureza do adversário, bem como sobre seus objetivos. O proletariado aprende e se forma durante a luta, no momento do sacrifício em confronto com o adversário. Do grau dessa consciência depende o resultado da vitória. E como o proletariado chega a essa consciência? Lê brochuras, apelos, jornais, escuta discursos de pessoas que lhe aconselham diversas coisas. Ele próprio deve avaliar qual lado está com a razão, porque disso depende o caminho a ser escolhido. Consequentemente, aproveitar a liberdade de reuniões e de imprensa é o principal fator que permite ao proletariado se conscientizar durante a própria luta; com isso, o proletariado luta para poder se reunir, discutir suas questões e conhecer seus amigos e inimigos na imprensa livre. Se a primeira condição para a conscientização do proletariado é forçar o governo a conceder a liberdade de reunião, opinião e imprensa, a segunda é o aproveitamento incondicional dessa liberdade, a liberdade total de crítica e discussão entre os trabalhadores em luta. A liberdade de opinião e imprensa é uma condição para que o proletariado se conscientize, a outra é que ele não se imponha amarras, que não impeça que se discuta sobre isso ou aquilo. Os trabalhadores esclarecidos do mundo inteiro sabem disso e estão sempre preocupados em conceder o direito a externar livremente sua opinião mesmo ao pior adversário. Dizem: que o próprio inimigo apresente sua concepção ao povo trabalhador para que possamos responder, para que a massa trabalhadora possa ter clareza sobre quem é amigo e quem é inimigo. Por essas razões, a parte consciente do proletariado, a social-democracia [o socialismo da época - n ota W. S. ], está atenta para a liberdade de opinião, discussão e crítica. Só nesse fogo cruzado é que o trabalhador pode ter clareza sobre sua causa e formar sua opinião. Na luta atual, em que questões tão difíceis pesam sobre os ombros do proletariado na Rússia e na Polônia, a discussão e a crítica são muito mais urgentes para nós. Sempre e por todo lado a social-democracia mostrou de forma exemplar a sua utilidade às massas. (2) Já o Partido Socialista Polonês , o PSP, (3) age de outra forma. Centenas de cartas de círculos operários relatam que, toda vez que os membros do PSP formaram a maioria, os membros de outros partidos eram impedidos de forma inescrupulosa de expressar a sua opinião, e, quando estavam em minoria, tentavam obstaculizar a discussão com balbúrdia e gritaria! Não somos sentimentais. Não perderíamos nenhuma palavra de condenação se aqui e acolá a paixão desembocava em gritaria, se, no calor do combate, o curso normal da discussão ficasse obstruído. Quando o proletário exaltado, que certamente não é nenhum intelectual, luta por uma causa sagrada para ele, não raro o sangue quente vence a razão. Mas não se trata de casos isolados, e sim do sistema. Isso atesta, por exemplo, as correspondências que nos fornecem os relatos, assim como toda a tática do Partido Socialista Polonês. Desde sempre, diante da existência de diferenças programáticas no socialismo polonês que diziam respeito a tarefas fundamentais do nosso movimento, o PSP fechou os olhos com a argúcia de um idiota e a sensibilidade de um palhaço. Para eles, a social-democracia – primeiro partido cujo programa político foi uma aplicação do socialismo científico às condições polonesas – era um grupo de incitadores e intrigantes que semeavam a “discórdia”. (4) A razão disso não foi apenas a falta de senso de ridículo e a ignorância total. Nesse comportamento obstinado e renitente de se ridicularizar havia uma certa ideia “tática”. Para as massas operárias, o PSP nunca esteve aberto ao debate. Sempre se defendeu com toda a força, só para que as massas não percebessem as críticas ao seu programa. Se essa crítica não passa de provocação, por que ainda gasta tempo com ela? Não se permitia aos trabalhadores membros do PSP trazer para dentro da organização publicações de outros partidos. Eram obrigados a acreditar naquilo que dizia o PSP, assim como os católicos fieis são obrigados a crer naquilo que se ensina na igreja. Da mesma forma que é importante para a igreja que as “ovelhas” acreditem no que dizem os pastores, em vez de emitir coisas inteligentes, as pessoas do PSP instilaram na massa determinados conceitos como se fossem artigos de fé, tentando impedir com todos os meios que os membros do partido escutassem os argumentos dos adversários. Assim, qualquer divergência de opinião, mesmo dentro das próprias fileiras, era vista como desorganização e provocação, a fim de criar uma igreja de fieis em vez de um quadro de trabalhadores com pensamento consciente e crítico. Eles fanatizaram as massas, obnubilando seus cérebros com uma nuvem de crença, para que nenhuma luz iluminadora penetrasse neles. Seu intuito não foi o de esclarecer os trabalhadores, e sim de distorcer sua razão. Nós, no entanto, fizemos chegar as publicações do PSP às nossas organizações, pois nos importava formar uma consciência independente no proletariado. Agora que o PSP não consegue mais esconder a crítica mantendo os seus membros em círculos conspiradores, que tampouco pode deixar a crítica de lado ou omiti-la diante de seus membros porque os oradores da social-democracia comparecem a centenas de manifestações, o partido não consegue mais tentar impedir a livre discussão nem convencer as massas de sua nocividade. Nas manifestações ouvimos oradores do PPS dizendo: “Camaradas, não é tempo para debates ou para brigas, pois a luta nos espera”. Nós respondemos: “Precisamente porque a luta nos espera temos que ganhar clareza sobre a sua natureza por meio do debate”. Se existe algo que pode acabar com a fragmentação política do proletariado, é a discussão, é a crítica. Se o PSP acreditasse na possibilidade de conseguir defender com êxito o que anuncia, teria que expor voluntariamente os seus argumentos à luz da crítica. Mas o PSP sabe como é fraca a sua posição, razão pela qual tenta impedir a crítica com todos os meios. Qual a solução? Mostremos à massa, repetidamente, a necessidade da crítica e da discussão. Se dermos o exemplo aos adversários com o nosso comportamento e se mostrarmos, como sempre fizemos, que entre nós a palavra e o ato são coerentes, até nos círculos dos adeptos do PSP surgirá uma repulsa contra essa ação nociva e sacrílega com que se tenta impedir a discussão. Se as pessoas do PSP aproveitarem para obstaculizar a discussão quando por acaso estiverem em maioria, então, trabalhadores, saiam da reunião depois de um protesto calmo, porém decidido. Se, no entanto, um pequeno grupo tentar impedir a discussão com gritaria, então a massa deve apontar com calma, porém determinada, como é repugnante esse tipo de ação e obrigará os gritões a deixar a sala. A liberdade total de crítica e discussão é do interesse do movimento operário e deve ser obtida a qualquer preço dentro do espírito do lema da Internacional: “A libertação da classe trabalhadora deve ser obra da própria classe trabalhadora”.(5) *** Notas de rodapé: (1) Nota de revisão: citamos a versão brasileira da editora Boitempo: p. 28-29. MARX, Karl. O 18 Brumário de Luis Bonaparte . Tradução de Nélio Schneider, 2011. [N. revisão] (2) Logo depois da eclosão da Primeira Guerra Mundial, Rosa Luxemburgo escreveu sobre a capitulação da social-democracia internacional, que ela avaliou como sendo uma catástrofe universal, expressando-se da seguinte maneira: “O proletariado atingirá o objetivo de sua viagem – sua libertação – se souber aprender com os próprios erros. Para o movimento proletário, a autocrítica, uma autocrítica impiedosa, severa, que vá à raiz das coisas, é o ar e a luz sem os quais ele não pode viver. A queda do proletariado socialista na presente guerra mundial não tem precedentes, é uma desgraça para a humanidade. Mas o socialismo só estaria perdido se o proletariado internacional não quisesse medir a profundidade de sua queda e não desejasse aprender com ela.” ( A crise da social-democracia , em Rosa Luxemburgo, Textos escolhidos, vol. II , São Paulo, Editora UNESP, 2017, p. 18). (3) N. da T. : Em polonês: Polska Partia Socjalistyczna , PPS. [N. T] (4) Rosa Luxemburgo refere-se ao seu partido, a Social-democracia do Reino da Polônia e Lituânia ( SDKPiL ), fundada em 1893, que fez parte do Partido Operário Social-Democrata Russo ( POSDR ) de 1906 a 1911. [N. T] (5) Marx, Engels [carta circular para Bebel, Liebknecht, Bracke e outros], in MEW , v. 19, p.165. Um motivo muitas vezes usado por Rosa Luxemburgo, que surgiu pela primeira vez no cenário político em Paris em junho de 1848, e no qual ela tenta enfatizar especialmente a natureza da revolução operária. [N. T] Publicado originalmente em 9 de janeiro de 1906, In: Czerwony Sztandar , nº 3, 9 de janeiro de 1906, p.1-2. Publicado em Rosa Luxemburgo, Arbeiterrevolution 1905/06 – Polnische Texte, org. por Holger Politt, Berlim, Dietz, p.151-54 .
- Introdução a "Carta a um Camarada" de V.I. Lenin - por J. Chasin
CAPA REVISTA ENSAIO ANO IV - Nº 8 José Chasin Em certa passagem de Um Passo Em Frente, Dois Passos Atrás , V. I. Lênin, remontando ao itinerário de seus escritos voltados às questões de organização, assegura que suas ideias fundamentais “foram desenvolvidas no editorial do Iskra (nº 4) Por Onde Começar? e em Que Fazer? , e, finalmente, explicadas pormenorizadamente, quase sob forma de estatutos, na Carta A Um Camarada ” ( Ob. Escolhidas , Ed. Avante!, Lisboa, 1977, Tomo 1, p. 244). Por Onde Começar? , escrito e publicado em maio de 1901, é, sob via de inúmeras edições, um texto facilmente encontrável e amplamente conhecido. Exprime, como proposta central, a criação de um “periódico político para toda a Rússia”, que não seja “somente um propagandista coletivo e um agitador coletivo, mas também um organizador coletivo”. Sendo imprescindível reter que o jornal é tomado como o ponto de partida concreto para a criação da organização partidária desejada, e como o fio capital ao qual se ater ao longo do incessante desenvolvimento daquela: “o primeiro passo prático em prol da criação da organização desejada e, finalmente, o fio fundamental ao qual poderíamos nos atar para desenvolver, aprofundar e ampliar incessantemente esta organização deve ser a fundação de um periódico para toda a Rússia. Necessitamos, acima de tudo, de um periódico” ( Ob. Escogidas , Ed. Progresso, Moscou, 1975, Tomo I, p. 478-480). O conhecidíssimo Que Fazer? , de princípios de 1902, fortemente divulgado e infinitamente referido e citado – a favor ou contra –, no mais das vezes de modo ritualista, impróprio ou distorcido, é sempre oferecido como o tratado definitivo e inultrapassável das concepções do autor enquanto “criador do partido de vanguarda”. E isto mesmo em contraste com o próprio subtítulo da obra – Problemas Candentes do Nosso Movimento – que a data e localiza, e até contra a palavra expressa de Lênin que, em 1907, no Prólogo à recompilação “12 Anos” , é categórico na determinação do equívoco de se fazer uso ou referir Que Fazer? de modo indiscriminado: “O erro principal dos que hoje polemizam com Que Fazer? consiste em que desligam por completo esta obra de uma situação histórica determinada, de um período concreto do desenvolvimento de nosso partido que de há muito passou. (...) Que Fazer? é o sumário da tática iskrista e da política iskrista em matéria de organização durante os anos 1901 e 1902. Um ‘sumário’, nem mais nem menos. Quem se dê ao trabalho de ler o Iskra de 1901 e 1902, indubitavelmente se convencerá disto. E quem julgar este sumário sem conhecer a luta do Iskra contra o economicismo, à época predominante, e sem compreender esta luta, não fará mais que lançar palavras ao vento”. E, como se não bastassem tais precisões, Lênin adita ainda mais para acentuar o caráter polêmico da obra: “Ora muito bem, tampouco no II Congresso pensei erigir em algo ‘programático’, em princípios especiais, minhas formulações feitas em Que Fazer? . Pelo contrário, empreguei a expressão vergar o mastro para o outro lado, que mais tarde se citou tão amiúde. Em Que Fazer? se endireitava o mastro que havia sido entortado pelos economicistas; isso eu disse (vejam-se as atas do II Congresso do P.O.S.D.R. de 1903, Genebra, 1904), e precisamente porque endireitamos com toda energia os entortamentos, nosso ‘mastro’ será sempre o mais reto. O sentido destas palavras é claro: Que Fazer? retifica polemicamente o economicismo, e seria errôneo examinar o conteúdo desta brochura à margem de sua tarefa” ( O. Completas , Ed. Cartago, B. Aires, 1960, Tomo XIII, pp. 95/6 e 101). Dito de forma positiva: Que Fazer? “está consagrado à crítica da ala direita, não já no que tange às correntes literárias, senão à organização socialdemocrata” ( Ibid. , p. 94). E é precisamente na objetivação deste seu propósito que a obra, de forma natural e de modo que não poderia ser outro, destila e vai se entretecendo com certos universais, que só nesta precisa medida podem e devem ser reconhecidos e tomados a propósito da formulação geral do partido operário. De toda maneira ressalta-se, aqui, a imensa divulgação que tiveram e têm, e o enorme prestígio que foi e é conferido a Que Fazer? e a Por Onde Começar? . Destino precisamente inverso teve Carta A Um Camarada . Raríssimas têm sido suas aparições editoriais e, para não correr algum risco de exagero, digamos que quase nunca ela é referida ou citada. Ao que saibamos, não há edição de Obras Escolhidas de Lênin (sejam em quantos volumes forem) em que figure. O mesmo ocorrendo nas infinitas antologias, brochuras e folhetos que procuram, sob critério temático, selecionar, organizar e divulgar a obra leniniana. Praticamente, abstraída uma que outra publicação fragmentária, o texto sobrevive apenas nas edições das Obras Completas , escondido, portanto, da esmagadora maioria dos leitores, como a sofrer uma efetiva conspiração de ocultamento e silêncio. Fique, desde logo, descartada a hipótese de que tal ocorrência decorra de mera casualidade, ou de algum destes “inocentes” e “incompreensíveis” acidentes de que a história “seria tão rica”. Quanto a esse aspecto, não se aspira, aqui, a determinações mais amplamente concretadas, bastando deixar consignado, com plena transparência, o vínculo entre a aguda marginalização sofrida pela Carta A Um Camarada e os propósitos, conveniências e métodos do stalinismo. E não foi à toa que este texto foi despejado ao limbo do esquecimento, onde permanece por décadas; consistindo esta primeira edição em língua portuguesa um esforço circunscrito de resgatá-lo. Carta A Um Camarada , por algumas de suas explicitações, facilita o acesso à pedra angular da expressão leniniana do partido de vanguarda, o que contraria fundamentalmente os adeptos e defensores de sua consolidada contrafação stalinista. Carta A Um Camarada Sobre Novas Tarefas de Organização – este seu nome integral – é, pois, um documento perigoso. Escrito em setembro de 1902, portanto pouco mais de meio ano após o término da elaboração de Que Fazer? , Lênin esclarece no próprio texto, como verá o leitor, que a Carta “Primeiramente andou, em cópias, de mão em mão, e se propagou pela Rússia como uma apresentação dos pontos de vista do Iskra sobre a questão da organização. Depois disso, a União Siberiana, em junho do ano passado (1903), a reimprimiu e a divulgou numa considerável quantidade de exemplares. Dessa forma, a Carta transformou-se plenamente em propriedade pública e agora não há nenhum motivo que impeça a sua publicação. As razões que me levaram a não publicá-la antes (precisamente a sua extrema falta de elaboração literária, o seu caráter de ‘rascunho’) estão superada s pois exatamente sob essa forma de rascunho dela tomaram conhecimento os militantes russos. Ademais, há uma razão mais importante para a reimpressão dessa carta sob a forma de rascunho (fiz somente as mais necessárias correções estilísticas): o seu significado como ‘documento’”. E o líder russo, em nota de pé de página, esclarece o caráter documental do escrito: “Depois que meus oponentes, mais de uma vez, expressaram o desejo de utilizar essa carta como documento, passei a considerar qualquer mudança, de minha parte, na reimpressão – para expressar-me o mais delicadamente – como incômoda”. Os oponentes acima referidos, não é inútil frisar, especialmente em nossos dias, são, por deliciosa ironia, os componentes da redação menchevique do Iskra , que assumira em novembro de 1903. Mas se, de alguma maneira remota, a forma descuidada da Carta incomodava ao autor, nenhuma restrição manifestava quanto às teses nela expostas. Ao inverso, não só assume integralmente o texto, dado que é explicação pormenorizada de suas ideias fundamentais quanto às questões de organização, – tal como estampa na passagem antes citada de Um Passo Em Frente, Dois Passos Atrás –, como também assegura categoricamente a identidade do mesmo com seus demais escritos sobre o assunto, e com sua postura prática na esfera do organismo e dos confrontos partidários: “Comparando o Que Fazer? e os artigos do Iskra sobre questões de organização com esta Carta A Um Camarada , e esta última com o estatuto aprovado no II Congresso, os leitores poderão ter uma ideia clara sobre a continuidade de nossa ‘linha’ de organização, ou seja, da maioria dos iskristas e da maioria do congresso do partido”. A Carta é, pois, na máxima distância de qualquer dúvida, uma peça autêntica e imprescindível, – como tal reiteradamente considerada pelo próprio autor –, para a legítima apreensão de seu pensamento quanto à orgânica do partido operário. Mas o que há de tão especial, neste pequenino texto desse clássico da ciência e da prática? A primeira vantagem da Carta A Um Camarada é que seu discurso flui como uma exposição verbal sem peias, na informalidade de um “rascunho”; algo que brota, no correr da pena, rico em exemplificações concretas. A Carta é o mais prático de todos os textos de Lênin dedicados à orgânica partidária. Nela vai simplesmente dizendo como se vê a coisa funcionando, “como a coisa deveria ser”. Esse “quase estatuto”, de que fala Lênin, é, na verdade, uma expressão oposta ao formalismo convencional, marcante por natureza, dos estatutos, – que deprime e estreita os conteúdos políticos decisivos, que têm, é óbvio, como é dito na própria Carta , de prevalecer. O que, desde logo, é uma pista imensa, positivamente subvertora da corruptela triunfante do pensamento leniniano. Vencido o desalinhavo da peça e ultrapassado o jeitão de cipoal, sob o qual aparece a enumeração de modos e maneiras de organizar as atividades partidárias, o leitor terá, à sua frente, a evidência de que a concepção leniniana de partido político nada tem de um coágulo formal, de que não é regida ou fundada por qualquer equação desse tipo. De que é completamente infrutífero buscar, na Carta , – tal como também ocorre em o Que Fazer? e Um Passo Em Frente, Dois Passos Atrás, – os “princípios” ou receitas formais de organização, em geral imputadas a Lênin. No lugar de disposições formalísticas, rígidas e esclerosantes, que perfazem toda a vil competência dos sabichões da mediocridade burocrática, Lênin alicerça a organização pelas funções variáveis no tempo e no espaço. O que, também de imediato, nos põe diante da possibilidade objetiva – dos partidos (no plural) – e não de uma única forma de dispositivo partidário leniniano, como demanda a perversa dogmática stalinista e neo-stalinista; esta última não poucas vezes travestida com saltos liberalizantes para trás – igualmente formais. Isto é, em face desta questão, ficam negativamente comprometidos tanto os que tudo limitam à denúncia tópica do “culto à personalidade”, como os “renovadores” da moda que “heroicamente” partem para o simples resgate, ingênuo, porém não inocente, dos contornos da decadência liberal que a história já enterrou, completamente desapercebidos de que não se trata, no plano das formas concretas de dominação, de meramente embandeirar a valoração genérica da democracia, mas, isto sim, de jardinar as novas formas da democracia por construir. Em ambos os casos, a generalidade abstrata, usada fora de lugar, faz a rima ardilosa do puro taticismo. A afirmação particularizante do dispositivo partidário, – por meio das funções –, confere à concepção leniniana a maleabilidade objetiva de articular sempre natureza, as condições e as exigências de cada lugar e tempo com os propósitos finais de todo verdadeiro partido operário. Assim, inúmeras poderão e deverão ser suas singularizações, ficando rigorosamente preservadas as demandas da lógica imanente de cada realidade em especial, e garantida a teleologia última que, desse modo, está sempre no horizonte a iluminar e direcionar todo o itinerário a percorrer. O enlaçamento das demandas do real e dos propósitos últimos mostra-se, assim, indissolúvel, e está reproduzido no significado da própria noção de função, que une uma situação dada, na subsunção à sua causalidade, a um objetivo a ser alcançado, ao qual o efetuador também é obrigado a se submeter. Notar-se-á que a Carta está saturada pela preocupação de determinar a função dos órgãos e das individualidades que deles participam. Precisar as funções e garantir a mais alta especialização do desempenho delas é o que crivelmente obseda a Lênin. Mesmo uma leitura superficial de Que Fazer? reencontrará com toda a facilidade o mesmo critério organizativo. Vale citar um trecho de uma intervenção de Lênin, no II Congresso do POSDR, sobre a questão dos estatutos, feita a 29 de julho (11 de agosto) de 1903: “A ideia fundamental dos estatutos é a da divisão de funções. Por isso a divisão em dois centros não é o resultado de uma divisão espacial destes (Rússia e exterior), mas sim o resultado lógico desta divisão por funções. Ao Comitê Central pertence a função de direção prática. Ao Órgão Central, a direção teórica. Para unificação das atividades desses dois centros, para evitar dispersão entre eles e, algumas vezes, para a resolução de conflitos, é necessário um Conselho, que não deve ter absolutamente um simples caráter conciliador”. O mesmo está, repetidas vezes, contido na Carta : “poderá e deverá existir em nosso partido dois centros diferentes: o OC (Órgão Central) e o CC (Comitê Central). O primeiro deverá dirigir ideologicamente, o segundo direta e praticamente”. Em face daquilo que predominou e passou a imperar, ao longo do último meio século, as passagens acima mencionadas só podem levar o espírito dogmático ao escândalo e à perplexidade. Contudo, elas encerram o nódulo da autêntica concepção leniana do partido. Nelas encontramos, de forma categórica, o critério organizativo por funções, e os dois grandes ramos fundamentais em que estas se subdividem: a função teórica e a função prática. Ramos que compreendem e implicam em dois centros dirigentes, distintos e solidários; lê-se na Carta : “o CC será sempre solidário com o OC em tudo que é fundamental e estará suficientemente livre para assumir o comando direto de todo o aspecto prático do movimento”. Compreenda-se, desse modo, que o “dirigente ideológico do partido desenvolve as verdades teóricas, as situações táticas, as ideias organizacionais gerais, as tarefas gerais de todo o partido, neste ou naquele momento”. É, portanto, a cabeça pensante do dispositivo partidário. Sua especialização está no universo da razão, da elaboração científica, da reflexão competente. Se tomamos, como é devido, – o trabalho como protoforma de toda a práxis social –, o OC realiza a prévia-ideação da ação política a ser desenvolvida, e o CC se encarrega de dirigir a sua efetivação. O partido leniniano aparece, então, em seu fundamento, como a forja e a organização da razão (dialética, está visto) para todos os efeitos da política. Só assim compreendido é que o dispositivo partidário propugnado por Lênin está em consonância com a famosa assertiva de que “sem teoria revolucionária não pode haver ação revolucionária”; afirmativa que habita todo o espírito de Que Fazer? e de Um Passo Em Frente, Dois Passos Atrás. Se a contrafação stalinista expulsou a razão do partido, ou melhor, substituiu a racionalidade dialética pelo formalismo burocrático, se ao primado da ciência impôs o tolo império do estatuto, se em lugar da centralização pela razão fez vingar o centralismo democrático, de que não há rastro em nenhum texto importante de Lênin, e que só passou a qualidade de “princípio” em 1934, dez anos após a morte deste, se assim foi e o foi, não cabe culpa nenhuma a Lênin. Nem a nós. E se algum pecado tiver que ser expiado, a leitura da Carta A Um Camarada é um bom e fértil início. Quem terá medo de começar? Baixe o PDF:
- Instruções para os quadros destinados ao trabalho urbano - Che Guevara
Che no acampamento em Ñancahuazú, 1967 Tradução: Igor Dias Domingues de Souza Como recentemente apontado em nossa revista , a questão da organização adequada da vanguarda revolucionária é um problema candente de nosso movimento. Há uma dificuldade considerável de obter saldo a partir da experiência histórica revolucionária no que podemos chamar de Estudos Organizacionais Partidários, de tal modo que o tradicionalismo e a autoproclamação têm superado em alta conta a cientificidade na análise da forma organizativa. Deve-se notar que o movimento de arregimentação das tropas deve anteceder, sob quaisquer circunstâncias, a ordem derradeira de encetar a contenda; um exército que não compreende como deve se posicionar para alcançar seus objetivos, não tem a capacidade de executar sua tática, quanto menos de cumprir com sua estratégia. É nesse espírito que realizamos a tradução do presente texto de Che*. Redigido no ano de 1967, provavelmente em 15 de janeiro desse ano (de acordo com seus diários), o que se segue é uma carta de orientação organizativa para os militantes do Exército de Liberação Nacional da Bolívia que se encontravam em atuação urbana durante a Guerrilha de Ñancahuazú. Como o leitor observará, este não é um estudo sistemático acerca de toda a organização do ELN, mas uma diretiva sobre o modo que os trabalhos deveriam ser conduzidos e algumas das principais razões pelas quais a organização deveria tomar a forma indicada nas cidades como meio de apoiar à guerrilha. Fortemente marcado pelo contexto da clandestinidade e do confronto armado rural nos territórios do Exército, Che expressa efetiva preocupação com a necessidade da organização para o momento revolucionário em que se encontrava. 58 anos depois, poderíamos nos deparar com a criação de redes de apoio igualmente efetivas ou disciplinadas para as tarefas de seu próprio tempo? Instruções para os quadros destinados ao trabalho urbano A formação de uma rede de apoio do caráter que queremos formar deve guiar-se por uma série de normas cuja generalização faremos a seguir. A ação será fundamentalmente clandestina, mas se alternará com certos tipos de trabalho em que será necessário o contato com indivíduos ou entidades que obrigará certos quadros a saírem à superfície. Isto obriga-nos a ser muito rígidos em nosso fracionamento, isolando cada uma das frentes de atuação. Os quadros devem aderir rigorosamente à linha geral de conduta ordenada pela chefia do Exército por meio dos centros dirigentes, mas terão total liberdade na forma prática de levar a cabo essa linha. Para poder cumprir as difíceis tarefas atribuídas e sobreviver, o quadro clandestino deve ter muito desenvolvidas as seguintes qualidades: disciplina, hermetismo, dissimulação e sangue frio e praticar métodos de trabalho que os protejam de contingências inesperadas. Todos os companheiros que realizem trabalhos semipúblicos terão um escalão superior clandestino que os dará instruções e controlará seu trabalho. Dentro do possível, tanto o chefe da rede como os diferentes gestores terão uma só função e os contatos horizontais se realizarão por meio do chefe. Os cargos mínimos para uma rede já organizada são os seguintes: O Chefe. Um gestor de suprimentos. Um gestor de transportes. Um gestor de informações. Um gestor de finanças. Um gestor de ação urbana. Um gestor encarregado de auxiliar os simpatizantes. À medida que se desenvolver, será necessário um gestor de comunicações, dependente, em geral, do chefe. O chefe receberá as instruções da direção do exército e as colocará em prática por meio dos diferentes encarregados. Ele deve ser conhecido somente desse pequeno núcleo dirigente para evitar colocar toda a rede em perigo com sua eventual captura. Se os gestores se conhecerem, mesmo assim seu trabalho será conhecido dentre eles e qualquer alteração não será comunicada. Serão tomadas medidas para que a detenção de um membro importante da rede provoque a mudança da residência ou dos métodos de contato do chefe e de todos aqueles que o conheceram. O gestor de suprimentos terá a tarefa de abastecer o Exército, mas sua tarefa é organizativa: a partir do centro irá criando redes menores de apoio que cheguem aos confins do ELN, seja uma organização puramente camponesa, seja com a ajuda de comerciantes ou outros indivíduos ou organizações que prestem assistência. O gestor de transporte se ocupará da movimentação dos suprimentos dos centros de armazenamento para os pontos onde serão coletados pelas redes menores ou diretamente para o território liberado, dependendo do caso. Esses companheiros devem trabalhar sob disfarces sólidos, por exemplo, organizando pequenos empreendimentos comerciais que os protejam das suspeitas das autoridades repressivas quando a magnitude e os objetivos do movimento se tornem públicos. O gestor da informação centralizará toda a informação militar e política recebida por meio dos contatos adequados (em ação semipública de contato com simpatizantes do Exército ou do governo, o que torna o cargo particularmente perigoso). Todo o material recolhido será remetido ao encarregado de informação de nosso Exército. Este gestor estará sujeito a uma dupla chefia; a de chefe da rede e a de nosso serviço de inteligência. O gestor de finanças deve controlar os gastos da Organização. Este companheiro deve ter uma clara visão de quão importante é sua função, pois o quadro clandestino, apesar de estar sujeito a muitos perigos e exposto a uma morte obscura, pelo ato de viver na cidade, não passa pelas penalidades físicas do guerrilheiro e pode se acostumar a conduzir despreocupadamente as quantidades de suprimentos e de dinheiro que passem por suas mãos, correndo o risco de que sua estatura revolucionaria decresça em contato permanente com fontes de tentação. O gestor de finanças deve analisar até o último peso gasto, evitando que mesmo um único centavo seja entregue sem justificativa. Além disso, será o gestor de administrar o dinheiro proveniente de arrecadações ou impostos e organizar sua cobrança. O gestor de finanças está sob as ordens do chefe da rede, mas também será seu inspetor no que se diz respeito às despesas. De tudo isto se conclui que o gestor de finanças deve ser ideologicamente muito firme. A tarefa dos gestores da ação urbana estende-se a tudo o que seja ação armada na cidade: repressão de algum informante, de um torturador notório ou um líder do regime, sequestro de alguma pessoa com o fim de obter resgate; a sabotagem de alguns centros de atividade econômica do país, etc. Todas as ações serão ordenadas pelo Chefe da rede; este companheiro não poderá atuar por iniciativa própria, salvo casos de urgência extraordinária. O gestor dos simpatizantes terá as funções mais públicas dentro da rede e estará em contato com elementos pouco firmes, aqueles que lavam sua consciência entregando somas de dinheiro ou fazendo contribuições que não os comprometam. São gente com as quais se pode trabalhar, mas sem esquecer nunca que seu apoio estará condicionado pelo perigo que possam correr e procedendo de acordo, tratando de transformá-los lentamente em militantes ativos e incitando-os a realizar contribuições substanciais ao movimento, não somente de dinheiro, mas também de medicamentos, esconderijos, informações, etc. Neste tipo de rede, há gente que deve trabalhar muito unida. Por exemplo, o gestor de transporte está organicamente ligado ao de suprimentos, que será seu chefe imediato; o gestor dos simpatizantes dependerá de finanças; ação e informação atuarão em contato direto com o chefe da rede. As redes estarão sujeitas à inspeção de quadros enviados diretamente pelo Exército, que não têm função executiva, mas que verificarão o cumprimento das instruções e normas lhes forem emitidas. As redes deverão "caminhar" ao encontro do Exército da seguinte maneira: A chefia superior dá ordens ao chefe da rede; este se encarrega de organizá-la nas cidades importantes; destas partem ramais até os povoados e dali até as aldeias ou casas de camponeses que entrarão em contato com nosso Exército e onde se ocorrerá a entrega física de suprimentos, dinheiro ou informação. À medida que a zona de influência de nosso Exército avance, avançarão até a cidade os pontos de contato e crescerá proporcionalmente a área de controle direto deste; num longo processo que terá altos e baixos e cujo desenvolvimento, como o de toda esta guerra, de mede em anos. A sede da rede ficará situada na capital; a partir dela se organizarão redes nas cidades que no momento nos são mais importantes: Cochabamba, Santa Cruz, Sucre, Camiri, ou seja, o retângulo que engloba nossa zona de operações. Os responsáveis destas quatro cidades devem ser quadros provados na medida do possível; eles se encarregarão de uma organização semelhante, porém mais simplificada. Suprimentos e transportes sob uma direção; finanças e os simpatizantes sob outra; uma terceira de ação urbana e a de informação pode ser suprimida, ficando o chefe local encarregado dela. A ação urbana se ligará mais intimamente ao Exército à medida em que a cidade em questão se aproxime do seu território; até se tornarem guerrilhas suburbanas, dependentes da chefia militar. A partir dessas cidades a rede será ampliada da maneira já descrita. Também não se pode descuidar do desenvolvimento da rede em cidades que hoje se encontram afastadas de nosso campo de atuação, onde é preciso solicitar o apoio da população e se preparar com antecedência para ações futuras. Oruro e Potosi pertencem a este tipo e são as mais importantes. Deve-se prestar atenção particular aos pontos fronteiriços. Villazón e Tarija para contatos e abastecimentos até a Argentina; Santa Cruz para o Brasil; Huaqui ou algum outro lugar para a fronteira peruana; algum ponto para a fronteira chilena. Para a organização da rede de suprimentos, seria conveniente contar com militantes firmes que já tivessem desempenhado um trabalho semelhante à atividade que lhes é exigida agora. Por exemplo: um dono de armazém que organizará os suprimentos e participará nesta seção da rede; um dono de alguma empresa de transporte que organizará este ramo, etc. Em caso de não se conseguir isto, deve-se tratar de ir formando o aparato com paciência; sem violentar os acontecimentos, evitando assim que, ao instalar um posto avançado sem garantias suficientes, este se perca e ainda comprometa outros. Devem-se organizar os seguintes negócios ou fábricas: Armazéns de comida (La Paz, Cochabamba, Santa Cruz, Camiri) Empresas de Transporte (La Paz-Santa Cruz; Santa Cruz-Camiri; La Paz-Sucre; Sucre-Camiri) Sapatarias (La Paz, Santa Cruz, Camiri, Cochabamba) Confecções (idem) Oficinas Mecânicas (La Paz, Santa Cruz) Terras (Chapare-Caranavi) Os primeiros permitiriam a reunião e transporte de suprimentos sem chamar a atenção e, junto a eles, implementos de guerra. As sapatarias e as confecções poderiam realizar a dupla tarefa de comprar sem chamar a atenção e fabricar para nós. A Oficina faria o mesmo em seu ramo com os implementos bélicos e as terras nos serviriam como base de apoio em transportes eventuais e para que seus colonos começassem a propaganda entre os camponeses. É conveniente ressaltar uma vez mais a firmeza ideológica que devem ter estes quadros, recebendo do movimento revolucionário só o estritamente indispensável a suas necessidades e entregando todo o seu tempo e também sua liberdade ou sua vida, se for o caso. Só assim conseguiremos a formação efetiva da rede necessária para consumar nossos ambiciosos planos: a liberação total da Bolívia. *Retirado de: GALVARRO, Carlos. El Che en Bolivia : Documentos y testimonios. Tomo I. La Paz: La Razón, 2005. T. 1, p.201-205.
- Notas acerca do problema da organização para o partido revolucionário em nosso tempo
Igor Dias Domingues de Souza "Barricada na esquina dos Boulevards Voltaire e Richard-Lenoir durante a Comuna de Paris de 1871." foto de Bruno Braquehais. 1871 É de muito que se vem discutindo no Movimento Comunista Internacional a espinhosa questão organizativa da vanguarda revolucionária. Ainda que sob as mais diversas perspectivas, sobre solos históricos dos mais variados, há um consenso acerca da importância dos métodos de organização na execução do trabalho político (ou metapolítico, se seguirmos Chasin em seu Futuro Ausente ) que culmina na necessidade de um organismo capaz de dirigir as atividades da classe rumo à Revolução. Devemos, porém, nos atentar à baixa cientificidade no que podemos chamar de estudos organizacionais partidários. O problema da forma organizativa, em especial, toma cores das mais variadas pela urgência de resposta contemporânea à utilização ótima dos recursos humanos disponíveis numa quadra histórica em que tanto a Revolução não entrou no horizonte e que a classe trabalhadora vem definhando como agente político por falta de perspectivas concretas de vitória. A resolução desta questão encontra, mesmo nos mais (autodeclarados) revolucionários dos partidos políticos, uma tentativa exaustiva de sintetizar em formulas pré-prontas um fazer partidário estéril, que se diz em construção, mas que, a bem da realidade, encontra-se estanque e que muitas vezes se vale do pastiche histórico como saída para problemas de natureza distinta daqueles encontrados por camaradas em outros cenários ou utiliza-se da tentativa e erro com base em pressupostos idealistas ou apriorísticos para definir sua forma organizativa. De qualquer modo, a primazia do real para as organizações revolucionárias parece ter se tornado, nesse aspecto, apenas mais uma palavra de ordem para propagandear seu séquito, pondo de lado a função do partido revolucionário para com a classe trabalhadora. Isso não significa dizer, de forma alguma, que não se deva aprender com a experiência histórica dos tantos camaradas que caíram e daqueles que ainda seguem de pé em nossas fileiras. Muito menos é a afirmação de que não se deva lançar mão de novos meios, operações e estruturas de maneira experimental. No entanto, sem a clareza da concatenação de todos os elementos da organização, não se pode fazer com que ela funcione adequadamente ou mesmo que atue eficazmente na consecução de seus fins desejados. Para além disso, não se deve perder de vista que o fundamento estrutural de uma organização (independentemente de seu tipo) é responder a problemas de seu próprio tempo, posto que se encontra inserida em um tempo-espaço histórico particular. Dessa feita, temos que a forma organizativa correta para o partido revolucionário emana não das vontades formais idealizadas por terceiros, mas da realidade mesma e de suas necessidades e debilidades. O M-26-7 em Cuba não poderia ter e não teve a mesma forma organizativa que o ELN na Bolívia; o Partido Comunista Chinês não manteve a mesma organização durante a Grande Marcha e durante o período da Revolução Cultural; nem mesmo o aclamado Centralismo Democrático de Lenin se manteve estanque quando de sua vigência (compreendendo sua inexistência após o falecimento de Ilitch Ulianov), modificando-se constantemente em sua estrutura, hierarquia, presença ou ausência de liberdade de crítica, maior ou menor democracia interna, níveis de clandestinidade e abertura no recrutamento partidário; como demonstra Lessa em seu Notas sobre o Centralismo Democrático e a Organização que Hoje Necessitamos . Rosa, em seu Greve de Massas, Partido e Sindicatos , ao observar a Revolução Russa de 1905 extrai a lição de que frente aos resultados da greve geral de janeiro –a colheita dos frutos políticos possíveis daquela disputa e repartição da greve unificada em greves menores cujas pautas econômicas imediatas dominavam – a classe trabalhadora inicia um árduo trabalho de organização à revelia das já estruturadas organizações sindicais existentes; um forte combate à burocracia estabelecida por modelos organizacionais apriorísticos, sendo, inclusive, mais adequados ao trabalho fundamentalmente revolucionário para o qual a classe se encontrava preparada no momento. Digo revolucionário no sentido de que desafia a ordem vigente como passo rumo ao socialismo, independente de possuir ele mesmo um caráter socialista. É mister compreender que o Partido compõe o movimento histórico de tomada do poder pelos trabalhadores como vanguarda, mas não como agente da revolução, precisamente por isso que seus métodos organizativos somente podem dar cabo de suas tarefas se estiverem de acordo com as tarefas concretos de sua quadra histórica, se estiverem apenas um passo à frente da classe, para que a teoria venha de fora, mas a consciência imane da própria prática revolucionaria do proletariado. O tempo é mister em demonstrar que a utilização de fórmulas organizativas prévias resulta em um partido estanque, sem vida própria e sem perspectivas concretas, sendo substrato altamente nutritivo para cultivar oportunistas, burocratas e reformistas de todo o tipo – a exemplo do stalinismo e do eurocomunismo . Por outro lado, também comprova que o Partido Revolucionário independe da forma adotada para a luta, mas do seu alinhamento com as relações políticas e sociais imanentes do processo revolucionário em questão. Que se compreenda, portanto, as lições da História o que tange à organização do Partido Revolucionário; aquele cuja existência não se encontra em siglas determinadas legalmente e que deve se conformar como a efetiva vanguarda revolucionária, a “parte mais avançada da classe”. O Partido em nossos tempos deve lidar seriamente com sua própria administração, analisar criticamente a história organizativa do Movimento Comunista Internacional, aprender com os erros e acertos tirando prova não por um “medidor de leninismo” e seus hífens ou de uma “balança de esquerda” quando a própria esquerda como projeto de emancipação humana feneceu, mas do próprio movimento do real no que tange a perspectiva do trabalho, da atividade partidária concreta em direção à revolução. O Partido Revolucionário deve ser, acima de tudo, uma organização de e para seu próprio tempo!
- A democracia não é o que parece – ou pelo menos não é uma questão de vontade
Foto de Ricardo Stuckert/ Instituto Lula, 2018 Ligia Cerqueira Fernandes Igor Dias Domingues de Souza A “democracia” absurdista Assistimos nos últimos anos o descontentamento legítimo com o decréscimo da qualidade de vida ser capitalizado pela extrema-direita sob a máscara da radicalidade, apresentando-a como uma suposta solução dos problemas de nosso tempo aos olhos de parte considerável da classe trabalhadora. Viciada no fracassado projeto de conciliação de classes como saída política para sanar os problemas cotidianos da população, o amplo campo que convencionou-se chamar de esquerda parece não ter a menor ideia ou mesmo interesse de fazer frente à oposição reacionária, apoiando-se numa defesa irrestrita da democracia ao invés de apresentar propostas dirigidas à insatisfação generalizada, para disputar à altura a consciência dos trabalhadores, demonstrando na prática seu compromisso e pertencimento à classe. A democracia, entretanto, não é mais que uma ditadura da classe burguesa [i] , ao menos não essa “democracia pura” que foi defendida por Kautsky na década de 1910 e que hoje parece ser o consenso hegemônico da esquerda no que diz respeito aos seus horizontes de expectativa. Democracia essa que permite que um presidente advindo das classes trabalhadoras e por elas eleito escamoteie a luta histórica das massas para rezar o credo do mercado e enganar o povo com a ilusão de “liberdade e igualdade”, ironicamente repetindo a desonestidade observada por Lenin nos opositores da revolução soviética [ii] . No contexto da guerra civil russa de 1917-1922 (segundo Lenin [iii] ), os “democratas” diziam que os bolcheviques haviam prometido a paz, mas que haviam entregado a guerra ao realizar a revolução, falseando a conhecida realidade de que aquela guerra estava sendo imposta pelas potências imperialistas ao povo russo e seus interesses, sendo necessário dar cabo dela para efetivamente alcançar a paz, em contraste com a guerra imperialista da qual a revolução socialista tinha se empenhado em retirar a Rússia. Da mesma forma, alegavam que os bolcheviques haviam prometido a democracia e entregado a ditadura, sabendo, sobremaneira, que os sovietes deram aos trabalhadores russos uma efetiva democracia participativa nunca antes vista na Rússia. Isso porque a democracia é, em última instância, uma ditadura de classe e aqui não falamos apenas da democracia burguesa, como bem demonstra, novamente, Lenin [iv] . Os defensores da “democracia pura” são perfeitos democratas desde que os interesses do capital sejam preservados; esse é o sentido da democracia em abstrato, a democracia burguesa. No momento em que os trabalhadores ousam pôr em prática uma democracia mais efetiva e exercer o tal “poder do povo”, ou mesmo dar cabo de seus interesses sob o peso do regime burguês, tornam-se “antidemocráticos”, “violentos”, “traidores”, enfim, párias na própria sociedade que sustentam com sua força de trabalho. Nesse sentido, o progressismo abandonou internacionalmente a perspectiva do trabalho, como bem aponta Chasin . A democracia efetiva das massas sumiu do vocabulário político dos partidos da esquerda institucionalizada, “democracia” e “cidadania” entraram em seu lugar. Não estamos aqui falando que as liberdades democráticas não possuam nenhum valor, muito pelo contrário: é o melhor que podemos obter para garantir as condições de vida para nossa classe sob o domínio do capital (não esqueçamos a sanguinária ditadura empresarial-militar que assolou nosso país de 1964 a 1985). Entretanto, o custo do democratismo para o amplo campo da esquerda foi o de tornar-se impotente frente às insatisfações populares na última quadra histórica. Em contraste, é a extrema-direita que vem hegemonizando as respostas às insatisfações crescentes, tendo como exemplo a vitória do Partido Burguês com a recente eleição de Trump nos EUA . Ainda mais, é ela que tem pautado o debate público, fazendo com que o campo chamado de esquerda institucional recue incansavelmente. A exceção tem ocorrido justamente nos embates diretos entre capital e trabalho, como no caso da pauta do fim da escala 6x1 no Brasil e nas recentes greves dos trabalhadores da Amazon e dos estivadores nos Estados Unidos (estes últimos realizando sua maior greve em 50 anos ), que foram abandonados em larga medida pela maioria do “progressismo”, tendo, no caso brasileiro, sua expressão no governismo cego em que a crítica se torna declaração de inimizade. É a extrema-direita, portanto, que está conseguindo dialogar com o radical-absurdismo desses tempos, mascarando a precariedade das relações de trabalho, a insuficiência dos salários, as condições degradantes de vida (acesso à saúde, à alimentação de qualidade, ao lazer) e, não menos importante e crucial, as consequências da crise climática. Respondem satisfatoriamente às ilusões tão absurdas quanto a realidade que as gesta, em que a descarada saudação nazista realizada pelo bilionário Elon Musk na posse de Donald Trump na última segunda-feira é saudada com o benefício da dúvida por parte de alguns historiadores, mídia hegemônica e Liga Antidifamação (ADL) – que desde 1913 luta contra o antissemitismo – ao mesmo tempo em que o maluco do foguete seguirá do Sieg Heil para o comando do Departamento de Eficiência Governamental no centro do império. A saída tem sido colocar a responsabilidade da queda da taxa de lucros (muito embora a massa dos lucros nunca tenha estado tão alta) sob a responsabilidade do indivíduo, convencendo-o ideologicamente de que ele tem a capacidade, a liberdade e o dever de sozinho alcançar melhores condições de existência; sem se dar conta que eleva, em verdade, os patamares de acumulação de bilionários como Musk & cia., os patrocinadores, e agora figuras públicas declaradas, da extrema-direita internacional. O banquete da deterioração ideológica é completo, servindo entrada, prato principal e sobremesa. O menu de alternativas é variado, mas, em verdade, resume-se a poucas propostas concretas apresentadas em diferentes roupagens. Oferece-se como acesso ao lazer a vida de influencers , um lifestyle que possa ser mostrado nas redes sociais, uma viagem a Balneário Camboriú, Orlando ou Dubai. Como melhora da condição de vida, faz-se apologia à falsa liberdade de jogar no Tigrinho e nas Bets – pandemia que afeta profundamente o Brasil – ou de vender fotos no Onlyfans . Poderíamos aqui ficar horas debatendo extensamente o quão mesquinhas, sofridas, absurdas e degradantes são as soluções apresentadas para os trabalhadores, mas este não é o ponto mais relevante na presente discussão. O ponto central é que tais soluções, ainda que bizarras e grotescas, não só são tornadas convincentes como ainda dão conta de esconder os interesses mais espúrios por trás do remédio prescrito, um verdadeiro placebo, doce no início e amargo no final. Nos Estados Unidos, Donald Trump se fez parecer para muitos uma opção viável e conquistou a estranha eleição americana seduzindo o voto popular, enquanto leva a cabo uma agenda econômica que aprofunda a crise climática (basta ver os incêndios na Califórnia), com incentivos à indústria do carvão mineral e do petróleo aprofundam o extrativismo americano , e propaga uma política internacional de terror e xenofobia, com a assinatura de decreto que colocaria fim à cidadania estadunidense como direito de nascença , o retorno de Cuba para a lista americana de “Estados terroristas” ( conquista histórica alcançada somente no dia 14 deste mesmo mês ) e com a suspensão das sansões contra colonos israelitas na Cisjordânia (tomando postura mais incisiva ao lado de Israel no genocídio palestino). Seguindo a agenda da extrema-direita global, no Brasil, Nikolas Ferreira confunde propositadamente a população com estratégias de comunicação de massas – ora por meio de cortinas de fumaça, mascarando seus reais interesses políticos, ora jogando luz sobre contradições e problemas do governo para fazer-se de bom moço – como no recente vídeo publicado em suas redes sociais sobre a questão da ampliação do monitoramento do PIX. Ao atacar tal medida, proposta nas novas regras de fiscalização da Receita Federal , ele articula os limites políticos do (há muito capitulado) governo Lula, construindo uma falsa noção de que, diferente do governo petista, ele estaria ao lado dos trabalhadores informais e dos pequenos negócios. Aproveita-se da falta de tato governista que só fez perturbar a população com um anúncio desleixado, não se esforçando nem ao menos para explicar o alvo da medida e suas possíveis consequências. Esse projeto de Bolsonaro pouco se preocupa com soluções efetivamente transformadoras das condições da classe trabalhadora, ao menos é o que demonstra seu histórico recente de votos e declarações na Câmara dos Deputados, onde esteve contra a proposta de imposto zero para alimentos da cesta básica e se posicionou contra o fim da escala 6x1 , e se empenha em uma agenda de fundamentalismo religioso agressivo e truculento que quase sempre tem a comunidade LGBTQIA+ (especialmente as pessoas transexuais) na mira da violência. Sua estratégia é efetiva, inclusive garantindo rapidamente o recuo do governo com relação à uma norma técnica de fiscalização das movimentações financeiras , e o deixando tranquilo para zarpar para os Estados Unidos com a comitiva da oposição reacionária no intuito de dar cabo a uma agenda política, comicamente frustrada . O preço do Pix para a “democracia pura” O que a polêmica da suposta taxação do PIX escancara é, justamente, a incapacidade do governo Lula de dar conta das condições reais de deterioração da vida da classe trabalhadora e combater decisivamente o irracionalismo que assola a política brasileira (e já nos conduziu ao Governo de Bolsonaro) – ao ponto de levar rasteira justamente de falsários como Nikolas Ferreira a despeito do apoio que que recebeu de setores da classe para derrotar eleitoralmente o bolsonarismo. Sabemos que a Instrução Normativa revogada, no fim, pelo Governo, não planejava, a princípio, taxar as transações ocorridas em bancos digitais. É sabido também que algo bem semelhante a uma notificação, por parte de bancos tradicionais, acerca da ocorrência de transações (nesse caso, de transferências e gastos de cartão de crédito) já era feita antes. Entretanto, essas condições tornam-se quase que discussões meramente formais, uma vez que ainda que a Instrução Normativa visasse o aprimoramento do monitoramento das movimentações financeiras para captar supostas sonegações fiscais, a tentativa de empenhar-se em fiscalizar possíveis evasões fiscais de uma faixa de renda que movimenta essa quantia é, em si, uma escolha política materializada, devendo ser essa escolha o objeto principal de análise na querela do PIX. Em outros termos, é possível que houvesse um acréscimo da receita (talvez advindo da captura de crimes fiscais e muito provavelmente das mais de 200 instituições financeiras, especialmente fintechs , que seguem sem a obrigação de declarar suas transações ), mas essa medida teria um custo político e aqui está o ponto: como o Governo Lula escolheria colher o custo político de uma medida que influencia uma parcela da população que pouco tem a ver com as reais condições de exploração da vida humana? E se compra esse desgaste, como não compra o desgaste de conscientizar acerca da farsa do equilíbrio fiscal? Se o aumento da receita serve como base para o aprimoramento de políticas públicas, como essas políticas públicas dariam conta de melhorar as condições reais das pessoas se a regra fiscal (ou Arcabouço Fiscal) elaborado pelo executivo é incompatível, por exemplo, com pisos constitucionais destinados para Saúde e Educação? Indo além, a questão mostra como é plenamente possível que o governo volte atrás em suas medidas caso seja do seu interesse. Como pode então recuar na questão do PIX e não em diversas outras medidas de caráter negativo, como não recuou em sua proposta de exploração de petróleo na Foz do Amazonas mesmo após o Ibama ter rejeitado o projeto em outubro do ano passado por não apresentar alternativa viável para mitigar a perda de biodiversidade no caso de algum acidente , numa postura similar à de Trump e seu incentivo à indústria extrativista que contrasta com sua posição de liderança na COP-30, a ser realizada em Belém no mês de novembro ? Assim, o problema não é de ordem de comunicação governamental ou moral, como se a discussão fosse somente sobre como e porque as pessoas seriam “atraídas para a mentira”, como os maravilhados democratas de esquerda tendem a se questionar diariamente – quase como um recriar do discurso de que o que embasava a eleição de Bolsonaro era um ressentimento ou, em termos quase que psicanalíticos, uma pulsão de morte coletiva. Nos últimos anos vimos justificativas psicologizantes aos montes para explicar a razão do Bolsonarismo ter a capilaridade que tem, entretanto, como disse em março passado o filósofo e psicanalista Vladimir Safatle : a questão é mais real que o ressentimento . O debate público sobre a “questão PIX” ainda teve a participação daqueles que são “somente liberais”, os que não são propriamente o Nikolas Ferreira e que tamparam o nariz para surfarem na onda de Bolsonaro. Esses, por sua vez, dizem que o governo petista só faz pensar em arrecadar – criticam a tentativa de financiar políticas públicas que possuem seus méritos de atenuar, minimamente, as condições degradantes a que muitos brasileiros são expostos, como o Bolsa Família e o Minha Casa Minha Vida. Para esse grupo, pouca diferença faz se o asfixiamento do SUS ocorra caso o arcabouço fiscal condene à míngua essa que é uma das poucas conquistas históricas no Brasil que se mantém de pé – afinal de contas, eles são pagos por meios de comunicação que lucram com as verbas publicitárias de grandes planos de saúde. Aqui está a quase ironia do destino: se Haddad rezou a cartilha do mercado [v] e ainda assim foi jogado aos leões, qual o sentido político de bancar o bom moço aos olhos da Faria Lima? Não adianta Lula bradar aos quatro ventos que é o mais democrata da turma, isto é, mais democrata em relação a Bolsonaro. Isso pode até ter rendido a ele uma vitória eleitoral em 2022, mas não será suficiente contra o abandono de sua base política em benefício da democracia como valor universal, ou da unidade como valor estratégico como disse Coutinho . Ironicamente, quanto mais caminha para obedecer a sanha dos sanguessugas burocratas no santuário do Deus Mercado, mais perto fica da desaprovação que atingiu Bolsonaro no peito e premiou o próprio Lula com uma volta à presidência. O Fortuna! Não há nada pior para a esquerda que “falhar” aos olhos da classe trabalhadora. O governo Lula III tem sido fiel escudeiro do limitado horizonte democrático desta esquerda institucional cadavérica, pondo de lado os interesses concretos dos trabalhadores em prol da governabilidade, da mediação com o capital, e mascarando as derrotas com a ilusão de “igualdade e liberdade” democráticas. Dessa sequência de derrotas e recuos, concomitantes ao fortalecimento da extrema-direita potencializado por essa democracia e por essa esquerda bunda mole, não é possível prever quando a classe se recuperará ideológica e organizativamente. Essa “democracia pura” que abarca tanto Lula quanto Trump é uma ilusão formalista defendida acriticamente para a manutenção das instituições, como se pairasse no reino da politicidade e fizesse menção somente à segurança de ritos político-jurídicos burocráticos, sem sequer abarcar as condições efetivas de participação popular no suposto regime do poder do povo. Como Lula provará que é democrata para além de manifestar sua vontade de sê-lo se está empenhado em demolir as poucas conquistas alcançadas nos últimos anos? Lula pode querer ser democrata – e no seu conceito aburguesado de democracia, ou em comparação ao absurdo que foram os anos de governo Bolsonaro e às perspectivas terríveis que se aproximam, talvez realmente seja – mas, mais uma vez, a realidade parece exigir muito mais de sua prática política do que está disposto a se comprometer pela classe trabalhadora. Sua classe de origem necessita de uma efetiva e verdadeira democracia e não da panaceia pequeno-burguesa que o amplo campo progressista tem colocado à frente da perspectiva do trabalho em sua atuação política. Frente aos dilemas, a única solução possível parece ser responder à altura das condições degradantes colocadas, já que a verdadeira democracia reside precisamente na ação das massas populares expressando seus próprios desejos cada vez mais vigorosamente e com maior convicção. A democracia, como já apontamos, é uma ditadura de classe; a verdadeira democracia também e se expressa na governança concreta das massas: é o socialismo, é a ditadura do proletariado. [i] Para uma boa tradução em português, ver: LENIN, V. I. Sobre a “Democracia” e a Ditadura. In : Democracia e Luta de Classes : textos escolhidos. São Paulo: Boitempo, 2019, p. 19-24. [ii] LENIN, V. I. Como enganar o povo com as palavras de ordem da Igualdade e da Liberdade. In : Democracia e Luta de Classes : textos escolhidos. São Paulo: Boitempo, 2019, p. 25-62. [iii] Como enganar o povo com as palavras de ordem da Igualdade e da Liberdade. Op. Cit. [iv] Sobre a “Democracia” e a Ditadura. Op. Cit. [v] Chamam atenção os recentes ataques ao Benefício de Prestação Continuada (BPC), ao seguro-desemprego, ao Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS), ao abono salarial, e à política de valorização do salário mínimo.
- Festa da abolição da escravatura - Roberto Arlt
Tradução: João Paulo Veloso Matos Roberto Arlt foi um escritor argentino vinculado às vanguardas hispano-americanas. Filho de imigrantes pobres, cresceu em uma Buenos Aires marcada pela intensa imigração e pela transformação urbana. Considerado um precursor do existencialismo e figura importante do teatro argentino [1], Arlt publicou romances, novelas, contos, crônicas e peças de teatro. Suas obras mais conhecidas, Os Sete Loucos (Los Siete Locos) e O Brinquedo Raivoso (El juguete rabioso), se destacam pelo uso do grotesco e pela abordagem de temas como humilhação, marginalidade, infâmia, traição e a vida nas cidades modernas e na sociedade burguesa As Aguafuertes Cariocas são uma série de crônicas que Arlt publicou em jornais argentinos, nas quais ele tece uma visão crítica e irônica da sociedade e do cotidiano urbano brasileiro. Em "Festa da Abolição da Escravatura" (Fiesta de la abolición de la esclavitud), Arlt, com sua perspectiva de estrangeiro, explora os contrastes sociais no Brasil e a permanência das marcas do passado escravista no Rio de Janeiro da década de 1930. Essa crônica, escrita de um ponto de vista estrangeiro, evidencia, por meio do contraste, como a história da escravidão no Brasil é banalizada. Numa perspectiva histórica, a abolição da escravatura ocorreu "ontem". O país viveu a maior parte de sua história desde a colonização sob um regime escravocrata, que durou cerca de 400 anos. Na década de 1930, a história do trabalho livre ainda era algo recente, e o Brasil permanecia permeado por relações sociais herdadas do escravismo, assim como ainda ocorre nos dias de hoje. Isso tudo está profundamente enraizado na formação da sociedade brasileira. A violência extrema era vista apenas como forma de manter a ordem, e os matizes, como diz a crônica, nos fazem ver como os maltratos da dominação do escravizado eram o mínimo a se esperar do trabalho de um capataz. Está tudo tão entranhado nessa sociedade, que o anormal, o que é considerado castigo, é agir além da frieza do ofício de capataz. Com um estilo de escrita seco, Arlt retrata uma sociedade que não resolveu os problemas gerados pelo escravismo, se recusa a criticá-los e naturaliza tais problemas através da indiferença ou até mesmo da justificativa reacionária. *** (Quarta-feira, 13 de maio de 1930) Almocei na companhia do senhor catalão a quem não nomearei por razões que vocês podem imaginar. Me disse: — O 13 de maio é festa nacional... — Ah! É mesmo? E continuei colocando azeite na salada. — Festa da abolição da escravatura. — Entendi. E como o assunto não me interessava muito, agora eu dedicava a minha atenção a medir a quantidade de vinagre que punha nas folhas. — Semana que vem, faz quarenta e dois anos que a escravidão foi abolida. Dei um pulo tão grande da cadeira, que metade da garrafa de vinagre foi parar na salada. — Como é? — respondi espantado. — Sim, quarenta e dois anos, sob a regência de Dona Isabel de Bragança, aconselhada por Benjamin Constant. Dona Isabel era filha de Dom Pedro II. —Quarenta e dois anos? Não é possível! — 13 de maio de 1888 menos 1930: 42 anos... — Ou seja... — Que qualquer negro de cinquenta anos que você encontrar hoje pelas ruas foi escravo até os 8 anos de idade; o negro de 60 anos, escravo até os 18. — Então: essas mulheres negras velhas? — Foram escravas... — Mas não é possível! Você deve estar equivocado. Não seria o ano de 1788... Veja: eu acho que está equivocado. Não é possível. — Rapaz, se não acredita em mim, olha por aí. Na associação. Assim que terminei de almoçar, me dirigi à associação e perguntei no balcão aos meninos: — Qual é o feriado de 13 de maio? — Abolição da escravidão. — Quando isso aconteceu? — Em 13 de maio de 1888. — 1888... 1888... 1930... menos 1888... não tem discussão! 42 anos. Mas não é possível... 1888... — Amigo — disse alguém com toda naturalidade — meu pai foi capataz de escravos. Eu fiquei gelado e pálido. — Se precisa de fatos... Olho para esse homem como olharia para o filho de um carrasco da prisão de Sing-Sing; logo, me controlando rapidamente, pego em seu braço e digo: — Venha aqui: preciso falar com você. Por qual preço se vendia um escravo? — Vejamos... variavam muito os preços, dependia das localidades, estado físico e aptidões do escravo. Em São Paulo, por exemplo, um escravo custava dois contos de reis, ou seja, seiscentos pesos argentinos; em Minas, o mesmo escravo constava de 5 a 6 contos de reis. Um escravo estropiado pelos castigos, 200 pesos argentinos... mas não é possível fixar uma tarifa exata porque o escravo não era vendido individualmente. Por exemplo: você precisava de dinheiro, juntava os seus escravos e os levava ao mercado. Leia o senhor a "A escrava Isaura" de Alencar, um romancista brasileiro que retratou bem a escravidão. Então. Como eu lhe dizia, levavam o escravo ao mercado e o vendiam a quem fizesse o melhor lance. Aqui, no Rio de Janeiro, o mercado de escravos ficava na rua Primeiro de Março, em frente à drogaria de Granado. Eu ouço como se estivesse sonhando. — E é verdade que os castigavam? — Sim, quando não obedeciam, com um chicote. Ora, havia fazendas onde maltratavam o escravo, mas eram poucas. ("Castigar com chicote" e "maltratar" é uma coisa muito distinta, quer dizer, que dar vinte ou trinta chibatadas num escravo não era maltratá-lo, mas castigá-lo"). Os matizes. À noite me encontro com o senhor catalão e digo para ele: — É verdade que castigar é uma coisa e maltratar é outra? — Claro, homem de Deus! Castigar... quer dizer, o açoite era de uso corrente em todas as fazendas para manter a ordem mais fundamental. Maltratar um escravo era, por sua vez, trocar o uso da chibata pelo de instrumentos pontiagudos, cortantes... rasgar os braços com golpes, perfurá-lo... como o senhor se dá conta, é simplesmente uma questão de matizes. — Sim... entendi... de matizes... e os patrões? — Os patrões?... Devia ser muito selvagem quem se incumbia de um escravo. Pra que? Se pra isso tinham feitores. O feitor era o capataz responsável pelos escravos, geralmente também escravo, mas que era liberado dos trabalhos brutais para fazer seus companheiros trabalharem e castigá-los. Esse escravo era o terror dos outros. Cumpria a ordem do senhor ao pé da letra. Se lhe ordenavam dar cinquenta chibatadas a um escravo e este morria na chibatada número trinta e nove, o outro dava as onze restantes... uma questão de princípios, amigo. A obediência absoluta. — Quer dizer que esses brancos velhos, de aspecto respeitável, que a gente encontra em carros particulares... — Foram senhores de escravos. Leia o que escreveram Alencar e Ruy Barbosa... — Mas eu fui nas livrarias e me disseram que não existia livros sobre a escravidão. — É normal. Deixa que eu consigo pra você... mas faça isso: vá a algum porto e converse com algum negro velho, desses que você viu arrumando as redes... — Essas mulheres negras velhas, tão simpáticas, as pobres? — Também foram escravas... mas vá e converse... Não me decido. E ainda não resolvi falar com um ex-escravo. Não sei. Me dá uma sensação de terror entrar no "País do Medo e do Castigo". O que me contaram me parecem histórias de romances... prefiro acreditar que o que escreveu Alencar, tremendo de indignação, é uma história acontecida num país de fantasia. Acho que é melhor. [1] Castagnino, R. H. (1964). El teatro de Roberto Arlt. Monografías y tesis, VI. pp.7-11
- Engels a Marx - 13 de abril de 1866
Tradução: Pedro Sodré As correspondências trocadas entre Marx e Engels são parte fundamental do entendimento da tradição marxiana e marxista. Através delas percebemos o levantamento das questões principais em cada circunstância, o desenvolvimento das polêmicas e o polimento das visões que são expressas publicamente em seus textos clássicos. Não é absurdo dizer que um estudo sistemático das cartas de Marx e Engels e sua publicação em língua portuguesa figuram entre os desafios em aberto para o partido revolucionário no Brasil. Podemos ir ainda mais longe, sem atravessar a fronteira da fantasia, e afirmar que esse desafio em particular é um dos passos fundamentais para o amadurecimento do nosso movimento, uma vez que as cartas demonstram aspectos essenciais da forma de abordagem de Marx e Engels acerca da atuação e amadurecimento da política desenvolvida dentro dos organismos políticos do proletariado. A carta de Engels que o leitor terá contato abaixo foi escrita em um contexto bastante interessante. Engels, que ainda vivia em Manchester, insistiu para que Marx tirasse um tempo de férias para se recuperar da crise de carbúnculos mais violenta que o velho Mouro havia enfrentado até então. A escolha do Mouro foi Margate, no litoral sudeste da Inglaterra. O ano de 1865 havia sido intenso para Marx, tanto do ponto de vista político quando do ponto de vista intelectual. Marx trabalhou intensamente na redação final do primeiro volume de seu Capital, ao mesmo tempo que dividia sua atenção e esforço nos trabalhos internos da recém-fundada Associação Internacional dos Trabalhadores. A conta veio na virada de 1865 para 1866, com carbúnculos que prejudicaram seus trabalhos políticos e intelectuais por mais de 5 meses, já que impediam Marx de ficar sentado por muito tempo, atrapalhavam suas noites de sono e lhe causavam dores lancinantes ao caminhar. Do ponto de vista político, a correspondência em questão expressa a maneira como Engels percebia o movimento do tabuleiro das lutas de classes na Europa dos anos 1860. O tema fundamental da missiva engelsiana foi a atuação de Otto von Bismarck no cenário europeu naquele momento. O olhar atento de Engels acompanhou as ações de Bismarck na montagem da futura Guerra Austro-Prussiana, da Guerra Franco-Prussiana e da eventual unificação dos reinos germânicos e do povo alemão sob a hegemonia da coroa da Prússia. Além do mais, percebeu o papel que a pressão do Império Russo exercia nesse contexto, com a complacência dos já estáveis e avarentos ingleses. O curto parágrafo da correspondência de Engels em que a questão do bonapartismo é tratada mostra que a luta de classes nunca figurou de maneira simplória aos olhos do General. Engels sabia que a luta de classes não era travada apenas entre as duas classes fundamentais da sociedade capitalista — a burguesia e o proletariado. A percepção engelsiana era mais sofisticada e atenta do que isso. Como notório conhecedor das ciências militares, Engels compreendia que o confronto entre as classes se assemelhava à mecânica do confronto entre dois grandes exércitos posicionados em um campo de batalha. Suas dinâmicas próprias extrapolavam o mero confronto bélico direto, com os acontecimentos desenvolvidos atrás das linhas de vanguarda influenciando diretamente a evolução no teatro de batalha principal. Os acordos, alianças, traições e golpes que ocorrem nesse cenário e alteram as lideranças dos exércitos do capital refletem a realidade complexa dos confrontos intraclassistas que incidem sobre as dinâmicas de acúmulo e reprodução do capital e interferem nas táticas desenvolvidas pelo partido revolucionário em cada momento e circunstância. Compreender o sentido da concepção de bonapartismo mobilizado por Engels e por Marx perpassa por refletir sobre esse sistema de relações. A validade de sua aplicação ao contexto das lutas de classes contemporâneas no Brasil e no restante do mundo é uma questão em aberto, assim como o reflexo e implicações dessa compreensão para o desenvolvimento das táticas do proletariado atuante na luta de classes. Assim, não seria o retorno do bufão Trump à Casa Branca, a tentativa de autogolpe na Coreia do Sul e os desdobramentos das investigações sobre o 8 de janeiro no Brasil um conjunto de elementos que nos fazem considerar a validade da afirmação de Engels de que “o bonapartismo realmente é a verdadeira religião da burguesia moderna” ? ENGELS A MARX Em Margate [Manchester], 13 de abril de 1866 Caro Mouro, [...] Então, Bismarck executou seu golpe do sufrágio universal [1], mesmo que ainda sem Lassalle. Parece que, após alguma demonstração de relutância, a burguesia alemã irá acompanhá-lo, pois o bonapartismo realmente é a verdadeira religião da burguesia moderna. Está se tornando cada vez mais claro para mim que a burguesia não possui as qualidades necessárias para governar diretamente, e que portanto, a menos que haja uma oligarquia como aqui na Inglaterra capaz de assumir, por um bom salário, a gestão do Estado e da sociedade no interesse da burguesia, uma semiditadura bonapartista é a forma normal; ela promove os grandes interesses materiais da burguesia mesmo contra a burguesia, mas não lhe permite nenhuma participação no próprio governo. Por outro lado, essa ditadura em si é, por sua vez, compelida a adotar, contra sua vontade, esses interesses materiais da burguesia. Então, agora temos Monsieur Bismarck adotando o programa da Associação Nacional [2]. Sua execução é reconhecidamente outra questão, mas Bismarck dificilmente será impedido pela burguesia alemã. Um alemão, que acaba de retornar de lá, relata que já encontrou muitos que morderam a isca; de acordo com a Reuter , a população de Karlsruhe aprovou o assunto, e o constrangimento ilimitado do Kölnische Zeitung [Gazeta de Colônia] sobre o caso é uma indicação clara de uma mudança de curso iminente. Que Bismarck tem acordos diretos com os russos, entretanto, é mais uma vez provado primeiramente pelo fato de que não apenas o The Times , mas também a Reuter , está começando a mentir em nome da Prússia, em completo contraste com seu costume atual. Há um método nas traduções erradas com as quais os telegramas estão agora mais infestados do que nunca. Até pouco tempo atrás, contra a Prússia. Agora contra a Áustria. Reuter telegrafa: “A Áustria só seguiria o plano se todas as províncias austríacas (isto é, incluindo as não alemãs) estivessem representadas”. No original alemão, apenas diz: condicional às regiões da Áustria serem representadas também. — Além disso: de acordo com o Bromberger Zeitung [Gazeta de Bromberger] e o Ostsee-Zeitung [Gazeta do Mar Báltico] (este último um órgão russo), os russos continuam a reunir mais tropas nas províncias do sudoeste, do Reino da Polônia [3] ao Prut, fazendo isso muito lentamente e discretamente; os soldados estão todos esperando mover-se com a Prússia contra a Áustria, e aqueles no Warta repetem que seu papel é ocupar Posen para que os prussianos de lá possam marchar para longe. Os russos podem, incidentalmente, deixar Scheleswig-Holstein para os prussianos por enquanto, já que a Paz de Viena [4] e a anexação, afinal, salvaram a questão principal para eles: o Tratado de Londres e, portanto, a sucessão na Dinamarca. Se eles têm o Sound, o que Kiel significa para eles? Em todo o caso, seu melhor caminho é ficar em Margate até que você não sinta mais nada na parte afetada e esteja em geral convencido de uma mudança acentuada para melhor. Escreva logo. Seu, F. E. [1] Em 9 de abril de 1866, o governo prussiano apresentou à Dieta Federal uma proposta de que um parlamento totalmente alemão fosse convocado por sufrágio universal para decidir a questão da reforma da Confederação Germânica. [2] A Associação Nacional ( Deutscher National-Verein ) era um partido da burguesia liberal alemã que defendia a unificação da Alemanha (sem a Áustria) em um estado centralizado sob a supremacia da monarquia prussiana. Sua reunião inaugural foi realizada em Frankfurt am Main em setembro de 1859. A Associação Nacional foi dissolvida em 1867, após a Guerra Austro-Prussiana de 1866 e o estabelecimento da Confederação da Alemanha do Norte. [3] O Reino da Polônia — o território polonês anexado ao Império Russo em concordância com a decisão do Congresso de Viena de 1815. [4] O Tratado de Viena, que concluiu a guerra de 1864 travada pela Prússia e Áustria contra a Dinamarca, confirmou uma série de tratados e convenções anteriores sobre a Dinamarca, Schleswig e Holstein, em particular as cláusulas do Protocolo de Londres de maio de 1852 sobre a sucessão dinamarquesa. No Protocolo, o Imperador da Rússia foi nomeado como um dos requerentes legais ao trono dinamarquês (sendo descendente de Charles Peter Ulrich, Duque de Holstein-Gottrop, que reinou na Rússia como Pedro III). Os requerentes renunciaram a seus direitos em favor do Duque Christian de Glücksburg, que foi nomeado herdeiro do Rei Frederico VII. Isso criou um precedente para as reivindicações do imperador russo ao trono dinamarquês no caso de extinção da dinastia Glücksburg. Download do arquivo com escrito original:
- Cinismo e memória: O democrata Luiz Inácio.
Igor Dias Domingues de Souza Rafael Jácome Se antes Lula era conhecido por camuflar ou silenciar o posicionamento de seus governos diante de pontos importantes para a esquerda na conjutura, operando através disso uma política de apaziguamento ao mesmo tempo que recondicionava símbolos históricos da luta proletária no Brasil para a conciliação via Estado, neste terceiro mandato a tática parece ter se alterado. Para aplacar o apetite de um combate efetivo contra os militares, a extrema direita militarista e a centro direita como tentáculos do bolsonarismo, após a pandemia e ao desastre humanitário que foi o governo do quadrupede verde amarelo (Jair Bolsonaro), Lula III parece busca atacar tudo que está a sua esquerda para reafirmar ora um compromisso, ora uma conivência com tudo que está a sua direita. No último dia 08 de janeiro de 2025, ao completarem-se dois anos dos atentados golpistas da extrema direita contra a República Federativa do Brasil, Lula reafirmou sua irrestrita lealdade para com a “democracia” (leia-se “Com supremo, com tudo”) , apontando que levará a cabo a punição de todos os envolvidos na tentativa de golpe (algo que seria bom). Mas cabe lembrar que essa democracia pura, incolor, insípida e inodora e cuja existência se encontra apenas nos sonhos da pequena-burguesia ou na realidade dos ricos possuidores de capital, sacrifica diariamente nossa classe a troco de nada para que uns tantos possam usufruir de um “crescimento econômico” tranquilo às custas das vidas dos trabalhadores, medidas por sua força de trabalho. Exatamente por isso, o senhor, seu presidente, cumpre de forma magnífica seu papel de pajem e vem a público tentar convencer a todos os trabalhadores que essa democracia que nunca foi vista por eles nesses 133 anos de República é substancialmente valiosa porque se tornou presidente do Brasil apesar de sua origem trabalhadora. É nesse sentido que Luiz Inácio, em contrassenso com a experiência histórica altera seu jargão “Nunca antes na história desse país”, ampliando-o para “Nunca antes na história da humanidade” ao atacar as experiências revolucionárias que antes nos dariam alternativas ao reformismo “bunda mole” que o governo Lula III estampa. Isto é nada mais que uma busca por manter sua base eleitoral, que, caso não solucione no governo seu desejo por condenação do bolsonarismo pelas milhares de mortes durante a pandemia (acusação feita pelo próprio Lula na eleição) nem pela punição das cúpulas militares pela tentativa malfadada do 8 de janeiro, tenderá a se fragmentar entre a desilusão e as inúmeras siglas democráticas “radicais” que vemos nascer ou crescer na medida em que o petismo perde folego histórico. Ao mobilizar determinados anseios da classe, estes correm o risco de minguar ou exceder as expectativas e planos dos burocratas. Com isso, nada mais natural que para disputa-los Lula afirma uma suposta ausência da classe nos processos revolucionários por ela conduzidos, em especial nas revoluções cubana e soviética, tomando algumas figuras proeminentes pelo todo dos dirigentes e dos movimentos. Talvez deva ter se esquecido da opressão imperialista sofrida por nossos camaradas cubanos sob o jugo de Fulgencio Batista, fazendo de Cuba o prostíbulo dos Estados Unidos. Tampouco se recorda das condições miseráveis do proletariado russo sob o semifeudalismo czarista. O mais problemático é que nem mesmo se trata de uma base forte, como a de outrora, mas sim de um petismo desarticulado eleitoralmente ou desgastado, quando se trata das parcelas não vacilante. Ao não responder aos anseios da classe, o governo enfraquece sua base orgânica, injetando-a com uma significativa dose de desânimo e esgotando suas cartadas românticas ou suas promessas vazias de um radicalismo democrata que não veio e, consequentemente, perde adesão na sua base eleitoral oscilante. Então, ataques como este às parcelas mais radicais da dita esquerda, tanto de sua base quanto das organizações que orbitam a tragédia eleitoral que se desenha para 2026, somando-se a ações como suspensão dos eventos históricos contra a ditadura , tem um duplo caráter; trair sua base e se mergulhar definitivamente na dinâmica que tornou Lula III cada vez mais refém do grande capital. Mas quem somos nós para questionar o único trabalhador da história humana a chegar no poder, não é mesmo? Ora, Senhor Presidente... Se “as pessoas não imaginavam que os trabalhadores pudessem organizar um partido e chegar à Presidência da República” é porque os próprios trabalhadores em seus processos revolucionários executaram nos processos revolucionários citados, muito mais do que isso. Não quiseram alcançar somente uma presidência na República das Bananas, mas ousaram tanto em Cuba como na Rússia também em tantas outras localidades a exemplo da China, fazer reais suas expectativas de futuro, que não cabem em qualquer número de mandato, e o fizeram não sob a influência de terceiros, mas com a força de seu próprio trabalho. Nesse caso, se Lula não deseja falar das massas, basta que observemos ainda entre o corpo dirigente dos proeminentes revolucionários proletários (de origem e de ocupação), nos processos citados por ele: Camilo Cienfuegos e Joseph Stalin. Há, porém, que estranhar a recusa de reconhecer a autoria histórica das massas. Por acaso o democrata Luiz Inácio não se recorda qual tradição histórica de lutas que deu base a ascensão de sua trajetória política, no combate aos militares no Brasil? Onde estão os trabalhadores da fundação do Partido dos Trabalhadores hoje? Poderíamos então afirmar que este partido foi um arroubo aventureiro de "intelectuais, ativistas, estudantes, pessoas com um pouco mais de grau"? Sabemos que os trabalhadores estavam, em boa parte, em movimento favorável fundação do PT, ainda mais em sequência das greves do ABC dirigidas por ninguém menos que o próprio Lula. Entre o Lula do Velho Testamento (um ser mitológico que só poderia existir na atual miséria política brasileira) e o Lula do Novo Testamento que dá a outra face enquanto os soldados romanos da burguesia brasileira crucificam toda a história da luta de classes mundial, vemos um verdadeiro dilema bíblico digno de Abraão. Mas na bíblia repaginada do petismo Luiz Inácio só se tornará um grande servo do Deus Mercado se tiver coragem suficiente para sacrificar os trabalhadores que apostaram no governo no altar divino do capital. Em suma, elegemos o sacrossanto Lula do Novo Testamento para lidar com o cruel e vingativo Deus do Velho Testamento; demos a ele carta branca para agir como bem quisesse e passamos a respeitar a ira divina em função do medo do inferno bolsonarista, como se não houvesse outra alternativa. De toda feita, a falsa crítica que realiza às revoluções citadas é melhor endereçada ao próprio governo petista, seja pela atual situação política, em que há uma primazia em aplaudir a presença dos chefes das três forças logo após o desacobertamento de mais outra tentativa de golpe, seja pela política conduzida durante todo o governo petista, em consonância às críticas realizadas nos tempos idos de 1981 aos partidos que, se declarando “populares” não respaldam e ainda se opõem às movimentações legítimas e consequentes das massas trabalhadoras, inibindo o movimento operário. Talvez o senhor Lula se encontre por tempo demasiado afastado do chão de fábrica para que não compreenda que o futuro é construído à base do trabalho coletivo e não de decretos presidenciais e simbolismos. Os trabalhadores, quando fizerem ser verdadeiramente democrática a afamada democracia, podem ensinar a todos os seus opositores o preço de seus sonhos.
- Pode o Partido Burguês falar pelos trabalhadores dos Estados Unidos da América?
por Pedro Sodré Desde a confirmação da vitória de Donald Trump no arcaico Colégio Eleitoral dos Estados Unidos da América na quarta-feira (06/11), a afirmação da moda na imprensa burguesa (e até mesmo dentro de círculos intelectuais “progressistas”) tem sido a de que Trump venceu as eleições porque conquistou o apoio da classe trabalhadora americana. A CNN reproduziu reportagem impulsionando essa visão. O social-democrata Bernie Sanders também veiculou essa ideia. Até mesmo o chargista da Folha de S. Paulo, Cláudio de Oliveira, brincou com essa suposta adesão de setores operários à Trump. A afirmação em questão, completamente falsa, caracteriza-se antes como sintoma da época de transição histórica que vivemos. Muito mais do que uma adesão ideológica dos trabalhadores americanos àquilo que Trump representa, a vitória do candidato republicano tanto no Colégio Eleitoral quanto no simbólico “voto popular” mostra os novos limites do desenvolvimento orgânico das formas de dominação burguesa. Essa época histórica encontra no retorno de Trump à Casa Branca a já consolidada concretização objetiva do Estado burguês, sobretudo em seus contornos “democráticos e de direito”, e não sua falência, como muitos querem fazer crer. Afinal, volta aos holofotes do pardieiro estatal o ator que demonstrou como a ordem democrática liberal aceita, acolhe e acomoda — sem maiores problemas — todos os tipos de representantes do partido burguês, até aqueles que eventualmente ousam atentar contra ela. Tudo isso para desespero dos derrotistas que se assustam com a própria sombra e insistem em tornar cada vez mais nebulosa a tênue linha que deveria nos separar das várias frações burguesas. Se no Brasil ainda existem atores políticos que tensionam e contrariam a forma como essa linha divisória segue sendo mascarada, mantendo vivas as diferenciações dos projetos históricos das classes que se enfrentam no cenário nacional, nos Estados Unidos esse processo de ofuscamento já se encontra há muito tempo avançado. Ou terá alguém a coragem de afirmar, como o socialdemocrata Bernie Sanders, que na história recente dos Estados Unidos as frações liberais que se reúnem no Partido Democrata representaram um espaço autêntico da classe trabalhadora? Afinal, qual foi a última vez em que os trabalhadores americanos agiram com autonomia e independência política, marcando abertamente suas distinções de classe e de projeto societário na esfera política nacional? É certo que trabalhadores votaram em Trump (milhões, inclusive). Mas esse voto representa seus interesses de classe? A imprensa e os intelectuais engomados da burguesia repetem que os trabalhadores se afastaram do partido revolucionário desde o final do século XX, pois ele já não os representaria em suas pautas e reivindicações mais imediatas — estabilidade nas relações de trabalho, direitos sociais, redução da jornada de trabalho, etc., seriam coisas do passado, que não mais interessariam aos trabalhadores. Abolição da propriedade privada, extinção do Estado e destruição da sociedade cindida em classes sociais? Menos ainda, pois isso é nada mais do que peça de museu — dizem! Acusam os revolucionários de idealizar a classe trabalhadora, atribuindo-lhe uma consciência que supostamente já não mais se manifesta em suas ações e anseios. Porém, nos perguntamos: podemos considerar o voto de trabalhadores em Trump como manifestação de algo que indica uma consciência autêntica da classe? Seria essa “nova vontade”, uma expressão do interesse dos trabalhadores na defesa da violência, racismo e xenofobia? Querem os trabalhadores ampliar infinitamente e ansiosamente os exércitos industriais de reserva e serem acolhidos pelas modalidades flexíveis de trabalho? Querem atacar outros povos, invadir nações e explorar os recursos naturais e riquezas em benefício de sua pátria? Lembremos que na autoproclamada “nação da liberdade e da democracia”, a imprensa e os meios de comunicação, a vida partidária oficial e as estruturas administrativas do Estado estão restritas às classes dominantes e distantes da vida da população. São esses grupos que apitam o jogo, escrevem as regras, definem as pautas do dia e escolhem os vencedores — e não os assalariados, precarizados e excluídos. Enquanto a realidade falseada propagada pelos meios de comunicação burgueses apontam para o fortalecimento do discurso de que “a classe trabalhadora aderiu ideologicamente à Trump”, contradizemos: 1) mesmo tendo ganhado no eufemístico “voto popular”, Trump manteve sua margem de votos das últimas duas eleições (62 milhões em 2016, 74 milhões em 2020 e 73 milhões em 2024), enquanto Kamala viu o voto nos Democratas cair drasticamente se comparado aos últimos anos (65 milhões em 2016, 81 milhões em 2020 e 70 milhões em 2024) — ou seja, não há “adesão” propriamente dita, o que há é uma manutenção da influência de Trump em seus rincões habituais e o enfraquecimento de Kamala em regiões tradicionalmente vinculadas aos Democratas; 2) as eleições americanas seguem provando seu caráter essencialmente antidemocrático e elitista — afinal, o que justifica a manutenção de sua realização na maldita primeira terça-feira de novembro, logo após a primeira segunda-feira do mês? Simples preciosismo, associado à uma dose cavalar de tradição institucional excludente e racista, que marca de maneira determinante a vida política americana até hoje. Não há amparo jurídico ou fundamento legislativo que garanta uma efetiva participação daqueles que não podem se dar ao luxo de assumir uma falta no trabalho para participar dessa magnífica “festa da democracia” — que convida o trabalhador, mas que também faz questão de mostrar que não quer que ele compareça. Vale mais garantir a sobrevivência e evitar uma demissão do emprego ou participar de um pleito de um Estado que pouco se importa com a participação de seus cidadãos? A resposta não é difícil para nós — para o trabalhador americano também não é. Espanta o fato de que muitos dos que estão veiculando essa ideia de “classe trabalhadora aderiu à Trump” são os mesmos que há decadas declararam a abolição do trabalhador e a invocação dessa nova entidade — o “colaborador”, que não se antagoniza com o patrão e que abraça o capital. Quando lhes interessa, a burguesia e seu contingente de servos agem como os necromantes das histórias fantásticas: exumam, ressuscitam e torturam cada vez mais esse cadáver, das maneiras mais odiosas possíveis, para legitimar, e mais uma vez provar superior, sua sociedade de ilusões — ainda que tudo ao seu redor demonstre o contrário. Ao fim, o sentido é um: o retorno do golpista à Casa Branca é a demonstração nítida e cabal de que a democracia burguesa e as instituições do Estado burguês nada mais são que uma farsa, cujas regras são aplicadas ao sabor do momento — leia-se: à vontade do capital — e cujo fundamento segue uma única e essencial regra: a de que é necessário manter o modo de produção capitalista vivo custe o que custar. Os atores políticos da impresa e da intelectualidade burguesa, ao querer implantar a visão de que os trabalhadores são responsáveis pelo retorno de Trump ao poder (e não os bilionários e milionários que o financiaram e a justiça que foi complacente com seus atos), antecipam-se os próximos movimentos no tabuleiro pelo lado do partido burguês. Sabem que a chegada de Trump apresenta altos fatores de risco à economia política americana e ao seu engodo democrático. Portanto, já preparam o “boi de piranha” que se responsabilizará — tanto agora, quanto depois — por tal vitória: a sempre subestimada classe trabalhadora; supostamente incapaz de agir por conta própria e que, portanto, é sempre suscetível aos monstros autoritários, “populistas” e antidemocráticos. No entanto, quem cria os monstros e lhes dá vida? *** CNN Brasil. Análise: vitória de Trump no voto popular é resposta da classe trabalhadora silenciada . 2024. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/eleicoes-nos-eua-2024/analise-vitoria-de-trump-no-voto-popular-e-resposta-da-classe-trabalhadora-silenciada/ . Acesso em: 13 nov. 2024. CNN Brasil. Senador Bernie Sanders diz que derrota dos democratas não surpreende . 2024. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/eleicoes-nos-eua-2024/senador-bernie-sanders-diz-que-derrota-dos-democratas-nao-surpreende/ . Acesso em: 13 nov. 2024. Charge: HEBDÔ, Cláudio. Proletários unidos com Trump . Folha de S.Paulo , 2024. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/blogs/claudio-hebdo/2024/11/proletarios-unidos-com-trump.shtml . Acesso em: 13 nov. 2024.
- É A LUTA DE CLASSES, ESTÚPIDO!
por Frederico Lambertucci O principal argumento dos "economistas" de plantão é que o fim da escala tornaria os salários impagáveis para os capitalistas, que teriam que contratar mais e isso destruiria a "economia", como se pode ver nas matérias veiculadas por Folha de São Paulo, O Globo, Estadão e demais jornais da burguesia. Junto a isto, aparecem os patetas de plantão, tal qual Nikolas Ferreira, o deputado Maurício Marcon (Podemos-RS) e o deputado Leonardo Siqueira (Partido Novo), economista formado pela Fundação Getúlio Vargas e atualmente doutorando pelo INSPER, sabem as “figuras notáveis” dessa “renomada” instituição liberal burguesa? Paulo Kogos e Jair Pinheiro, o primeiro um cavaleiro templário e o segundo a favor da comercialização de órgãos. A quem o “economista” em questão serve não pode causar dúvidas para ninguém. Elenquemos os argumentos. O Deputado Nikolas Ferreira simplesmente fez uma correlação completamente torta entre produtividade do trabalho e Estado inchado, e disse que a inflação irá aumentar. O Deputado Maurício Marcon, um pateta no nível de Nikolas Ferreira, disse que propôs um projeto alternativo, em que se poderia trabalhar a quantidade de dias que “patrão” e “empregado” acordassem, desde que respeitada os limites das horas (qual a quantidade de horas que consta no projeto não se atreveu a falar). Além disso, o deputado insistiu, de forma patética, que o trabalhador poderia negociar com o patrão em fazer a carga horária dele de trabalho em 4 dias, 3 dias se quisesse. E por fim, o deputado economista Leonardo Siqueira simplesmente elencou como um resultado natural do aumento da massa salarial, a inflação, a substituição de trabalho formal por informal e a troca de trabalhadores por máquinas. Tratemos então desses temas. A primeira questão, a inflação . O que eleva a inflação é a existência de uma massa de valor na forma dinheiro maior do que demanda, do que consumo. Se você aumenta salários, ou aumenta a contratação o que consequentemente aumenta a massa de salários, supondo a jornada 4x3 do projeto, você aumenta a capacidade de consumo da sociedade o que aumenta a demanda e consequentemente produz o resultado contrário, a tendência é a redução da inflação e aumento da produção, como era óbvio até para um Keynes. Existe uma possibilidade de “inflação”, mas trataremos dela depois de outras considerações necessárias. Sobre essa questão, Marx já tinha clareza sobre a confusão que a economia burguesa realiza ao discutir o funcionamento do mercado. Diz ele que A essa confusão – determinação dos preços por oferta e demanda e, ao mesmo tempo, determinação da oferta e demanda pelos preços – devemos acrescentar que a demanda determina a oferta e esta, por sua vez, a demanda, ou, o que dá no mesmo, que a produção determina o mercado, e este, a produção.” (MARX, 2017, p. 266) Portanto, há uma determinação de reflexão entre mercado e produção, de modo que o aumento da massa salarial aumenta a demanda, que determina a oferta, determinando a produção e vice-versa. Sobre o argumento do deputado Leonardo Siqueira, ou poderíamos chama-lo de John Weston burguês[1]. Se o operário inglês defendia a impossibilidade de uma elevação salarial permanente, e que por isto, a atividade sindical não deveria incorporar aumento salarial como pauta, ele partia de dois princípios, os quais o nosso John Weston burguês, deputado Leonardo Siqueira também parte, quais sejam: l.a) que o volume da produção nacional é algo de fixo, uma quantidade ou grandeza constante, como diriam os matemáticos; 2.a) que o montante dos salários reais, isto é, dos salários medidos pelo volume de mercadorias que permitem adquirir, é também uma soma fixa, uma grandeza constante. (Marx, ano: 64) Seguindo os mesmos pressupostos, de que o volume da produção nacional é fixo, ou seja, de que qualquer elevação da massa salarial é seguida de queda da massa de lucro e de que a massa salarial sempre é fixa. Peguemos o exemplo do próprio Marx no texto supracitado, caso a produção nacional seja fixa; Se tomo um determinado número, digamos 8, os limites absolutos deste algarismo não impedem que variem os limites relativos de seus componentes. Por exemplo: se o lucro fosse igual a 6 e os salários a 2, estes poderiam aumentar até 6 e o lucro baixar a 2, que o número resultante não deixaria por isso de ser 8 (Marx, idem: 64). Como podemos observar, caso o volume da produção nacional seja fixo, a elevação salarial, de fato, é necessariamente rebaixamento da massa de lucros, se o volume total é 8, 2 em salários significa 6 em lucros e vice-versa. A segunda questão, sobre o volume determinado dos salários, ou seja, de que necessariamente tem que derivar uma queda da massa salarial, pois os “empregadores” pagarão menos, contratarão no trabalho informal e etc, parte do pressuposto de que a soma dos salários tem que ser fixa, que se temporariamente os salários aumentam, em seguida eles serão rebaixados. Isso não é uma lei natural econômica, mas fruto exatamente da contradição entre capital e trabalho, em que o capital continuamente tenta rebaixar os salários, caso a soma fosse fixa, não haveria porque os “empregadores” continuamente lutarem pela redução dos salários e dos direitos trabalhistas, a luta de classes já se expressa, sobretudo nesse fato. Portanto, é evidente que mesmo que o volume da produção nacional fosse fixa, o argumento do deputado, não se sustentaria, pois não se trata de uma lei natural, trata-se, antes de tudo, de uma luta pela apropriação, de mais trabalho não-pago, explorado pelo capitalista e mais trabalho pago, mais salário para o trabalhador. E caso o volume fosse fixo, neste caso sim, teríamos uma relação direta em que a diminuição da massa de salários se torna diretamente aumento da massa de lucro e vice-versa. Mas, mesmo que ambas tenham essa relação necessária, o fato de o volume da produção nacional não ser fixo, altera as coisas. Pois, dado que vários setores aumentarão a quantidade da massa salarial – pensemos apenas nos mercados, farmácias, indústrias (principalmente a alimentícia) e bares e restaurantes que utilizam tal escala, para termos a dimensão do aumento da massa salarial – pois terão que contratar mais, faz com que para todo o restante, com a elevação da demanda advinda da massa salarial aumentada, aumente a escala de operação e de produção, consequentemente aumentando a massa de lucro dos setores envolvidos, ainda que proporcionalmente eles sejam reduzidos em relação a taxa de lucro da escala 6x1. Diferente do que propaga o deputado, não apenas os capitalistas não perderiam a massa de lucro ao pagarem mais salários, como a aumentariam. Explico, por exemplo, se uma empresa emprega 5 funcionários pagando 2.000 reais trabalhando 6x1, ele paga 10.000 em salários. Vamos supor que o lucro mensal é de 30.000 já descontados todos os gastos em salários (incluídos impostos e etc). A massa de lucro são os 30.000, ou trabalho excedente, a massa total de capital é igual a 40.000 e o salário é igual a 10.000. Então, seja ( p’ = m/v+c .100) onde p’ é a taxa de lucro m =mais-valia/capital variável (salários) + capital constante (maquinas, prédios, matéria-prima, ...), a fórmula da taxa de lucro. Temos que: m/v+c é 30.000/10.000 + 0 – o leitor mais atento notará que zerado o capital constante, temos, na realidade, diretamente a taxa de mais-valia, “como a proporção tempo de mais-trabalho/tempo de trabalho necessário determina a taxa da mais-valia” (Marx, 1983: 345), contudo, aqui é válido, porque aumento da produção não implica imediatamente aumento do capital constante, ou pelo menos, não de forma considerável para nosso exemplo, portanto, suponhamos que o capital constante permanece o mesmo, sem aumento da capacidade produtiva instalada, o que nos permite supor ele igual a zero – o resultado da conta é igual a 3, em porcentagem, 300%, o que significa que a taxa de lucro é igual a 300%. Essa é a taxa de lucro, 300%, em termos de massa de lucro, são 30.000. Vamos supor agora 8 funcionários ganhando 2.000. O pago em salários seria igual a 16.000, supondo os mesmos 40.000, a massa de lucro do dono do bar cairia para 24.000, e a taxa de lucro cairia para 150%, ou seja, caso o volume da produção nacional fosse fixo, de fato, aumento da massa salarial significaria, imediatamente, queda da massa de lucros e da taxa de lucros. Mas, essa não é a situação real, pois, justamente porque todas as empresas que utilizam escala 6x1 e 44 ou 40 horas semanais e que precisam de mais trabalhadores para manter a mesma produtividade e massa de trabalho devido ao limite de 36 horas semanais máximas de trabalho também estão pagando uma massa salarial maior, existe, portanto, uma massa maior de dinheiro convertida em capital variável, em salários, o que significa que desde bares, mercados, farmácias e etc. terão mais consumidores, o que implica em aumento da produção alimentícia, farmacêutica, e no fim das contas, com o aumento da demanda, mais produção e vendas. Portanto, no nosso exemplo da empresa, ao invés dos 40.000 divididos entre salários e lucro, agora, suponhamos um aumento de 25% nas vendas, a massa total de capital subiu pra 50.000, divididos em 34.000 de lucros para o dono do bar e os 16.000 pagos em salários aos 8 funcionários com salário de 2.000. O que isso significa? Que a massa de lucro total do dono da empresa considerada aumentou, agora ele vai receber 34.000, antes recebia 30.000, e isso mesmo com um pagamento de mais salários e mesmo que a taxa de lucro dele tenha decaído. Nesse novo exemplo, a massa de lucros (trabalho não-pago) é de 34.000/16.000 + 0, o que significa que a taxa de lucro real vai ser de 212,5% o que significa um decréscimo de 87,5% na taxa de lucro, contudo, a massa total de lucro cresceu, 34.000 contra os 30.000 anteriores. E o leitor poderia perguntar, mas e a produtividade social do trabalho? Ora, estamos trabalhando com a mesma produtividade social do trabalho, pois, a jornada de trabalho menor, mas com mais trabalhadores, permanecendo a mesma tecnologia empregada no processo de produção, mantêm a mesma produtividade ou a aumenta, o que significa aumento da massa de valor na produção e por consequência, aumento da massa do capital social total e do lucro como um todo, mas isso não vêm ao caso em nosso exemplo. Se atente o leitor, unicamente ao fato de que estamos considerando um aumento da produção mantendo-se inalteradas as condições e os fatores da produção, portanto, capital constante e produtividade social média do trabalho permanecendo iguais. Sendo assim, o argumento do deputado, de que o empresário (capitalista) precisa diminuir salários para sobreviver é completamente falso. Mas o leitor pode perguntar, o empresário não preferiria, então, colocar máquinas no lugar de trabalhadores, tal qual o nosso John Weston burguês disse? Existem duas questões relacionadas aqui. A primeira é o fato de que, caso fosse imediatamente mais lucrativo a retirada do capital variável, a substituição de salários por maquinaria, por capital constante, os capitalistas de vários setores envolvidos já o teriam feito, pois os capitalistas já o fazem, cotidianamente, e só não o fazem quando as condições de tal troca não são possíveis imediatamente. E eles fazem constantemente, porque no mercado, os capitais com maior capital constante, máquinas mais avançadas, são mais produtivos, pois aumentam a produtividade social do trabalho e se tornam mais lucrativos, tendo com isto, o que Marx chamou lucro extraordinário, mas isso não significa uma verdade imediatamente. E a segunda questão relacionada é o fato de que os capitalistas individuais estão limitados em dois sentidos na troca de pessoas por máquinas. O primeiro sentido é a própria limitação técnica da substituição, isto é, a tecnologia precisa estar avançada suficientemente para que seja possível implementar uma máquina ao invés de um trabalhador na função específica para a realização daquela atividade determinada, algo difícil para mercados, farmácias e bares, por exemplo. O segundo é que a limitação do ponto de vista do próprio montante de capital necessário para essa substituição, pois a massa de capital, isto é, o preço que o capitalista vai pagar na máquina pode ser, por vezes, proibitivo. Para que o leitor entenda, a revolução técnica do processo produtivo sob a base do capital, se opera, sobretudo por isto A produtividade particular do trabalho numa esfera particular ou num negócio em particular no interior dessa esfera interessa unicamente aos capitalistas que deles participam diretamente, na medida em que possibilita a essa esfera particular a obtenção de um lucro extraordinário com relação ao capital total ou ao capitalista individual um lucro extraordinário com relação a sua esfera. (Marx, 2017: 233) Em suma, o capitalista particular, como o de nosso exemplo, conseguirá os lucros sobre o trabalho não-pago aos trabalhadores sob seu controle, seus empregados, e na venda de seus produtos, conseguirá obter parte do trabalho não-pago de outros capitalistas com quem concorre. Desse modo, é possível que ele tenha mais-valia adicional na concorrência. Contudo, para nosso exemplo, pensemos nesse capitalista individual. Como vimos a massa de lucro dele vai se ampliar para 34.000 pagando uma massa salarial de 16.000 e um aumento de vendas de 25%, mantidas as mesmas condições da produtividade social do trabalho – sabemos que com redução de jornada, na realidade o que acontece é os capitalistas utilizarem todos os métodos de intensificação do processo de trabalho, o que significa aumento da massa de mais-valia e da taxa de lucro. Suponhamos agora, que ao invés de contratar os 3 trabalhadores adicionais por 2.000 reais, ele gaste 50.000 em tecnologias para colocar no lugar dos trabalhadores, nesse caso, temos que p’ = m/v+c. 100 . em que m=30.000, v = 10.000 e c = 50.000. O resultado é que a taxa de mais-valia despenca para 50%, com a massa de lucro permanecendo em 30.000, pois, lembremos, estamos supondo que o conjunto dos capitalistas vai agir da mesma forma. Por isso, de fato, esse capitalista particular, caso faça isto, vai ter vantagem sobre o restante dos capitalistas da sua esfera, como foi dito por Marx, e pode vir a ter lucro extraordinário até que todos realizem a substituição dos trabalhadores sob seu comando por máquinas, contudo, esse mecanismo independe da redução da jornada de trabalho, é antes constitutivo da própria dinâmica da acumulação do capital e só será vantajoso para essa empresa enquanto o conjunto dos capitalistas da mesma esfera não substituírem seus trabalhadores por máquinas. Se isto ocorrer - e isto ocorre de forma contínua na sociedade burguesa, em que maior capacidade produtiva significa desemprego e não tempo livre - o que ocorre é que a taxa de lucro de todos os capitalistas se reduzem, em contraposição a taxa de 300% de lucro, uma taxa reduzida, é a lógica geral da queda tendencial da taxa de lucro, por isto, mesmo os lucros extraordinários de um ou uns capitalistas singulares será temporário, o que novamente, não torna a substituição dos trabalhadores por máquinas algo simples. No entanto, na medida em que isto constitui a própria dinâmica da acumulação capitalista, é como se o deputado estivesse ameaçando de morte alguém que está no meio da guerra com tiros passando em todas as direções. E por fim, o trabalho informal é utilizado pelos capitalistas para aumentar a taxa de mais-lucro e a massa de lucro em todas as situações possíveis. Como veremos abaixo o que redução salarial implica. No momento, vale fazermos um pequeno resumo, o que podemos concluir daqui? 1. O aumento da massa de salários só pode sair da relação com a massa de lucros, ou melhor, com a massa de trabalho excedente, contudo, isto não implica redução da massa de lucros, mas sim da taxa de lucro. 2. As lutas ditas "econômicas" em torno do salário são a manifestação da relação básica do antagonismo de classe existente nessa sociedade. Portanto, não pode ser surpresa que o presidente da associação de bares tente rotular a questão como "ideia estapafúrdia". Aumento de massa salarial envolve diretamente a taxa de lucros, como fica claro. 3. Se do ponto de vista da massa de lucros total pode haver aumento, pois massa de salário aumentada significa aumento do consumo, a longo prazo, mantidas as mesmas condições do capital constante, significa que todo aumento da produção é aumento baseado na taxa de lucros média, pensando apenas no nosso exemplo, é como se todo o aumento da massa de lucros totais mantivesse a mesma taxa de lucro, isto não é necessariamente verdadeiro, mas existem limitações técnicas que dificultam em alguma medida diminuir capital variável [2] em bares, restaurantes e mercados, por exemplo, ao menos enquanto o capital não conseguir tornar robôs com inteligência artificial práticos para atendimento, o que hoje parece muito distante. Diante disto, a recusa mais intensa em bares e restaurantes não assombra, pois aumento da escala da produção significa aumento de capital variável, mantendo uma taxa de lucro menor do que a existente, ainda que a massa de lucros aumente. Como pudemos ver no nosso exemplo, 300%, tornaram-se 212,5%, a nova taxa de lucro base para aumento da produção com contratação de trabalhadores adicionais, além dos 8 necessários já na escala 4x3. 4. Contudo, existe ainda uma possibilidade de "inflação”, qual seja, a comentada pelo Weston burguês. A possibilidade (provável) que os capitalistas tentem repassar os custos adicionais com salários para o consumidor via preço das suas mercadorias. Tentando manter a mesma taxa de lucros com uma maior massa de lucros. Dessa forma, com aumento de preços, poderia aumentar o capital total, por exemplo, para 65.000, por exemplo, com 16.000 pagos em salários, o que significaria uma massa de lucro de 49.000, o que significa então 49.000/16.000 + 0 é igual a 306,25% da taxa de lucro, com uma massa de lucro de 49.000. Nesse caso, o aumento da massa de salários terminaria por significar desvalorização do dinheiro pelo aumento dos preços. Perceba o leitor que o capitalista irá querer aumentar sempre mais a taxa de lucro e a massa de lucro, ou seja, reduzir salário, aumentando a taxa de lucro, e aumentar a massa total de lucros com esse mesmo rebaixamento. Trata-se, portanto, de nada mais do que luta de classes. O problema é que seria parcialmente ou inteiramente inútil essa elevação, pois os 49.000 que o capitalista conseguiu com aumento de preços, na medida em que todos os capitalistas aumentam igualmente seus preços, passam a valer menos, o que significa que o seu lucro nominal, na realidade, passa a representar um valor menor. Do ponto de vista do trabalhador isto significa depreciação das condições de vida, já que o salário de 2.000 passa a possuir um valor menor também. Essa "inflação" não é o resultado espontâneo, "natural" da elevação da massa salarial, ao contrário, ela é fruto diretamente da ação dos diversos capitalistas em manter suas taxas de lucro, mesmo que sua massa de lucro esteja aumentando, portanto, não é uma reação de “autodefesa” do “coitado” empresariado brasileiro. Logo, isso significa que a luta deve se direcionar tanto em favor da diminuição da jornada de trabalho e da abolição da escala 6x1, quanto, conquistando essa demanda, uma luta pelos preços, para que os capitalistas não queiram recuperar suas taxas de lucro através do aumento de preços. 5. E, fundamentalmente, manter a luta contra o arroxo salarial, pois todos, TODOS os capitalistas dos setores envolvidos, mas não apenas estes, tentarão em seguida rebaixar salários, isto é, a primeira medida será contratação de mais trabalhadores com salários menores, ao invés de 8 recebendo 2.000, como nosso exemplo, 3 novos recebendo salários mínimos e 5 recebendo 2.000 até ser vantajoso mandar embora para recontratar outros 5 pelo mínimo, o que, novamente, significaria aumento da massa de lucros e da taxa de lucros para o capitalista e decréscimo da massa de salário. Neste caso, o que ocorreria, seria um pequeno acréscimo da massa total de salários, um pequeno ou nenhum acréscimo a massa total de lucros e uma taxa de mais-valia um pouco menor ou praticamente igual a hoje existente para os capitalistas. No exemplo do nosso capitalista, suponhamos salários de 1.500 para os 8 trabalhadores com 45.000 de capital total, aumento de 5.000 derivado do pequeno aumento da massa salarial total de todos os capitalistas, ou seja, aumento pequeno do consumo. Salários corresponde então a 12.000, um acréscimo de 2.000, a massa de lucros é igual a 45.000 - 12.000, portanto, 33.000, o que significa que 33.000 é m e 12.000 é V. Portanto, 33.000/12.000+ 0 (C), que é igual a uma taxa de mais-valia de 275%, 25% menor do que antes, ainda que um pequeno acréscimo na massa de lucros tenha ocorrido, os 5.000. Nesse cenário, percebe-se como os capitalistas podem tentar remediar o decréscimo da taxa de lucro através do arroxo salarial, o que, fique claro, é o que cada capitalista individual faz para aumentar sua taxa de lucro. Este exemplo inteiro é para alertar ao leitor de que a luta não se esgota no primeiro momento, trata-se mesmo da questão FUNDAMENTAL para todos os capitalistas individuais, que reagirão dessa forma. Trata-se, sobretudo, da expressão mais crua da luta de classe, que se expressa na relação capital - trabalho desta forma, e se expressa, pois, apesar da mais-valia e da taxa de mais-valia, tal qual a taxa de lucro serem cruciais, elas não esgotam a relação capital - trabalho. Tema que não é para um texto desse gênero. Importa salientar para o leitor, o fato de que, do ponto de vista do capital, é completamente falso que bares e restaurantes irão falir caso a escala 6x1 acabe, e para o conjunto da economia brasileira, é completamente falso que a jornada de 36 horas semanais vai destrui-la. Como vimos, o aumento da massa salarial pode inclusive produzir um aumento da massa de lucro para os capitalistas, ainda que sua taxa de lucros decaia, motivo pelo qual, o arrocho salarial e o aumento de preços é o mecanismo que utilizam para tentar recuperá-la. E agora o argumento mais imbecil e patético, o do deputado Maurício Marcon, de que a negociação de dias deveria ser entre “patrão” e “empregado”, citando que o pai dele morreria se não pudesse trabalhar 6 dias e tivesse 3 pra ficar em casa. O argumento do deputado parte do pressuposto do liberalismo de que como trabalhador e capitalista possuem o mesmo estatuto formal, isto é, são ambos detentores de mercadorias, o capitalista do capital, o trabalhador da sua força de trabalho, portanto, são livres para se confrontarem como meros possuidores de mercadorias tentando negociar o preço de forma igual. O que está completamente fora de vista nesta equalização formal entre trabalhadores e capitalistas é justamente a propriedade privada dos meios fundamentais de produção, em que de um lado o próprio trabalho, a vaga de trabalho é objeto de concorrência entre trabalhadores, o que já deixa o trabalhador completamente desarmado na relação com o capitalista, quanto na medida em que as condições de produzir estão alheias, pertencem ao capitalista, as condições de sua reprodução física, de continuar existindo, de não morrer, estão dele separadas, o que por si só significa a subordinação do trabalho ao capital. São os meios de vida, comida, moradia, roupas o que só é acessível sob a forma salário, portanto, o trabalhador, cuja concorrência no mercado de trabalho é o meio de rebaixamento salarial, não possui nenhum poder na relação com o capital. Portanto, não existe nenhuma igualdade real entre capitalistas e trabalhadores, ainda que no plano formal, jurídico, ambos apareçam como iguais sujeitos de direito, livres proprietários de mercadorias. O caráter ridículo da ideia de que se a vaga for ruim é só não aceita-la, se expressa sobretudo nesse fato, de que a não aceitação da vaga seria uma possibilidade real, vaga para a qual concorrem inúmeros trabalhadores no mercado de trabalho em permanente concorrência, e que portanto, em cenário algum significa certeza de outra vaga de trabalho, quando na realidade, significa desemprego, fome e miséria. Tal é o antagonismo entre trabalho e capital, em que as condições da reprodução do indivíduo trabalhador estão separadas dele e que os meios de vida só são acessíveis se subordinando ao trabalho alienado enquanto propriedade do capital. Desse modo, ao conjunto da classe capitalista, a resposta deve e precisa ser do conjunto da classe trabalhadora. Vale ressaltar que o LUCRO do capitalista É TRABALHO EXPLORADO, portanto, a redução da taxa de mais-valia, no nosso exemplo citado, é diretamente uma massa de trabalho não-pago que foi um pouco reduzida em relação ao trabalho pago na forma de salário. E finalmente, o capital tentará, sempre, aumentar a taxa de lucro pela demissão de trabalhadores e sua substituição por máquinas, ainda que a escala de trabalho seja 7x7, pois, do ponto de vista da concorrência, da maior produtividade do trabalho e da apropriação do lucro extraordinário, essa é sua natureza última. Por isso, se a redução da jornada e o fim da escala 6x1 são fundamentais, não podem significar o fim da luta, "ao invés de um salário justo por uma jornada de trabalho justa, pela abolição do trabalho assalariado" (MARX). Os limites da reivindicação devem ser evidenciados, o arrocho salarial e o aumento dos preços serão utilizados pelos capitalistas no dia seguinte, caso se aprove a legislação, e mesmo com a aprovação da medida, os trabalhadores terão, "apenas os grilhões mais afrouxados" (MARX), pois o capital continuará a "sugar como vampiro trabalho vivo" (MARX), isto é, a exploração é sua mola propulsora sem a qual não vive e a qual deve ser destruída. A redução e extinção da escala são mais que necessárias, mas a luta de classe precisa seguir até o fim, pela abolição do trabalho assalariado ! *** Referências Bibliográficas MARX, Karl. O capital: crítica da economia política . Tradução de Rubens Enderle. São Paulo: Boitempo, 2013. MARX, Karl. O capital: crítica da economia política . Livro III. Tradução de Rubens Enderle. São Paulo: Boitempo, 2017. MARX, Karl. Salário, preço e lucro . In Manuscritos econômico-filosóficos e outros textos escolhidos. Rio de Janeiro: Abril Cultural, 1974. [1] O operário inglês John Weston defendia no Conselho Geral da Associação Internacional dos Trabalhadores a tese de que a elevação dos salários não pode melhorar a situação dos operários e que deve ser considerada prejudicial a atividade das tradeunions. [2] Capital variável é chamado assim por Marx, porque ele é o único que produz valor novo. Corresponde no texto ao pago em salários. Enquanto capital constante, é determinado dessa forma, exatamente pelo fato de no processo de trabalho, o valor de uma máquina não se alterar, assim como do prédio, da matéria-prima e etc. São massas de valor que o trabalho unicamente transfere a uma mercadoria nova. Por exemplo, supondo a produção de calçados, 16 pares de calçados em 8 horas de trabalho, serão produzidos então 8 horas de valor cristalizados nos 16 pares, valor novo, produto do trabalho, da transformação de matérias primas (couro, energia elétrica, água e etc), com a maquinaria necessária mantendo a produtividade social média do trabalho, e prédio e etc. Perceba o leitor que o trabalhador produz 1 par de calçado a cada meia hora, então é meia hora de valor objetivado em cada par, valor novo, que antes não existia, ao mesmo tempo, o capital existente em máquinas, matéria prima etc., será apenas repassada para o calçado através do trabalho do trabalhador, verdadeiro criador da riqueza social. Assim, por exemplo, suponhamos que no couro necessário para um par, foram objetivados por um trabalho anterior, 20 minutos de trabalho, e que no uso da máquina, no tempo de 30 minutos, necessários para produzir um calçado, sejam repassados 40 minutos de trabalho objetivado anterior, de trabalho morto, para facilitar, de tempo de trabalho para o calçado. Então, a composição do calçado seria V+C= m, aqui m é mercadoria. Logo, a composição valor de um calçado seria 30+(40+20) = 90. Vemos aqui então que em 8 horas, e em 16 pares, a relação entre capital variável e capital constante é de 1/3, sendo 8 horas de capital variável objetivados em 16 pares e 16 horas de capital constante objetivados nos mesmos 16 pares. Contudo, suponhamos que o trabalhador produz o valor do seu salário na primeira hora, o que isso significa? Significa que das 8 horas que ele produziu, 7 são mais-valia, trabalho não-pago. E o leitor poderá pensar que o salário dele é igual a dois calçados, se isso é verdade considerando apenas o capital variável, não o é para a mercadoria real, lembremos que 1 calçado é igual 90 minutos, uma hora e meia de trabalho objetivado, desta forma, o salário do trabalhador não o permitiria comprar nem mesmo um calçado.












